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28 de janeiro de 2026

O Vale do Silício quer transformar a Groenlândia em uma distopia libertária

A tentativa de Donald Trump de adquirir a Groenlândia alienou muitos aliados de longa data. Mas também despertou o interesse de um grupo de bilionários da tecnologia que veem a ilha como um potencial laboratório para "cidades da liberdade", ou seja, zonas governadas de forma privada, sem regulamentação ou democracia.

Abe Asher


Uma obra de arte intitulada Trump, do artista groenlandês Kristian "Keto" Christiansen, retratando o presidente dos EUA, Donald Trump, usando óculos de neve e roupas tradicionais da Groenlândia enquanto extrai minerais com um remo de caiaque, está exposta em uma vitrine em 30 de março de 2025, em Nuuk, Groenlândia. (Leon Neal / Getty Images)

Desde o início do ano, as tensões sobre o futuro da Groenlândia aumentaram o risco de um confronto militar entre os Estados Unidos e seus aliados da OTAN, embora todas as partes afirmem querer evitar a guerra. Em janeiro, vários membros europeus da OTAN enviaram pequenos contingentes militares ao território semiautônomo dinamarquês para o que descreveram como uma missão de reconhecimento e exercício conjunto, que o diplomata francês Olivier Poivre d’Arvor caracterizou como um “primeiro exercício” com o intuito de sinalizar que “a OTAN está presente”, frente as ameaças de tomada de controle por parte dos EUA.

Essas movimentações de destacamentos europeus para Nuuk, capital da Groenlândia (com uma população de aproximadamente 20.000 habitantes), e seus arredores, ocorreram após uma reunião na Casa Branca em 14 de janeiro entre o vice-presidente dos EUA, JD Vance, e os ministros das Relações Exteriores da Groenlândia e da Dinamarca. Depois disso, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, afirmou que ainda havia um “desacordo fundamental” com o governo Trump sobre o status do território e rejeitou qualquer aquisição da Groenlândia pelos EUA como sendo algo “totalmente inaceitável”.

Poder-se-ia imaginar que o governo Trump — já ocupado com a supervisão da invasão das Cidades Gêmeas (Minneapolis e St. Paul) pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), apertando o cerco às reservas de petróleo da Venezuela e ameaçando o Irã —tivesse problemas mais do que suficientes no início de 2026. No entanto, mesmo após recuar na discussão aberta sobre o uso da força militar para tomar a Groenlândia, o governo continuou a insistir em sua campanha para colocar a ilha sob controle dos EUA, apesar das objeções de aliados ocidentais de longa data, de alguns senadores republicanos, da grande maioria dos estadunidenses e de uma parcela ainda maior dos groenlandeses.

Mas isso não significa que Donald Trump não tenha aliados nessa questão. Nos bastidores, uma coalizão de bilionários do Vale do Silício apoia a tomada de poder. Sua motivação é que eles veem a Groenlândia como um local potencial para uma “cidade libertária” praticamente sem regulamentação, que serviria como um laboratório para sua visão de governança sem democracia.

Bilionários de olho na Groenlândia

A aquisição da Groenlândia é um dos projetos preferidos de Trump há muito tempo, ideia que ele cogitou pela primeira vez em 2019. Naquela época, apesar da insistência de Trump de que adquirir a ilha seria tão simples quanto fazer “um grande negócio imobiliário”, a proposta foi amplamente ridicularizada como absurda e não prosperou. Dessa vez, no entanto, Trump parece estar falando sério — e os líderes europeus estão soando o alarme. O primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, um conservador cujo país não aderiu ao destacamento de tropas europeias no início deste mês, afirmou que qualquer tentativa estadunidense de anexar a Groenlândia “seria o fim do mundo como o conhecemos”.

As raízes da aparente obsessão de Trump com a aquisição da Groenlândia não são, à primeira vista, totalmente claras. É provável que Trump esteja ciente de que, caso os Estados Unidos incorporem a Groenlândia ao seu império, essa seria a maior aquisição territorial da história estadunidense — uma perspectiva que pode apelar para seus impulsos imperialistas. Ele também enquadrou a potencial aquisição da Groenlândia como uma questão de segurança nacional, e não está sozinho nessa análise: a posição da ilha entre a Europa e a América do Norte há muito mexe com os EUA, e, à medida que a Groenlândia aquece rapidamente devido aos efeitos das mudanças climáticas, torna-se cada vez mais capaz de acomodar o tráfego marítimo internacional e, consequentemente, um alvo crescente para a mineração em terras raras.

É essa última possibilidade que talvez seja a mais tentadora para os membros do círculo íntimo de Trump e para os oligarcas da tecnologia que ocuparam lugares de destaque em sua posse no ano passado. Membros desse grupo de elite já têm os olhos voltados para a Groenlândia há algum tempo. Jeff Bezos, Sam Altman e Bill Gates investiram na KoBold Metals, uma empresa que usa inteligência artificial para buscar minerais raros, um projeto de 2022 para procurar minerais para baterias no oeste da Groenlândia. A Forbes identificou outros aliados de Trump, incluindo o herdeiro da Estée Lauder, Ronald Lauder, e o secretário de comércio, Howard Lutnick, que têm ou tiveram extensos laços comerciais com a ilha.

A visão de Brown para a Groenlândia inclui chuva artificial no verão, dias de inverno artificialmente prolongados pela reflexão da luz solar no terreno congelado e "propriedade" baseada em um "Estado de carta privada" representado por meio de símbolos.

De fato, segundo o ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton, foi Lauder quem primeiro despertou o interesse de Trump em adquirir a Groenlândia em 2018. Lauder, que estudou administração com Trump, tem aumentado seus investimentos na ilha: o jornal dinamarquês Politiken noticiou no final do ano passado que Lauder adquiriu participação em duas empresas groenlandesas, uma que vende água mineral extraída de uma ilha na costa oeste da Groenlândia e outra que tenta gerar energia hidrelétrica no maior lago da ilha.

Em fevereiro passado, pouco depois de Trump assumir o cargo pela segunda vez, Lauder usou as páginas do New York Post para defender o interesse de Trump na Groenlândia como friamente “estratégico” — escrevendo que sob o “gelo e as rochas” da ilha jaz “um tesouro de elementos de terras raras essenciais para IA, armamento avançado e tecnologia moderna”. Lauder também observou no artigo que os groenlandeses poderiam realizar um referendo de independência “a qualquer momento”, o que significa que os Estados Unidos têm uma “janela estreita para fortalecer os laços antes que outras potências entrem em cena”.

Lauder poderia se beneficiar enormemente se os EUA adquirissem a Groenlândia, assim como Bezos. Mas talvez os maiores defensores do esforço estadunidense para assumir o controle da Groenlândia sejam os proponentes do movimento de Estados em rede, uma iniciativa que visa criar uma série de zonas econômicas não regulamentadas que possam ser administradas sem a interferência da governança de um Estado-nação.

O movimento do Estado em rede

Em agosto do ano passado, a Reuters noticiou que um grupo de elite do Vale do Silício estava pressionando o governo Trump para que considerasse a Groenlândia como possível sede de um Estado em rede ou cidade “libertária” — um centro praticamente não regulamentado para “inteligência artificial, veículos autônomos, lançamentos espaciais, microreatores nucleares e trens de alta velocidade”.

Os detalhes sobre como esse centro seria construído ou onde exatamente ele seria localizado ainda são escassos, mas os principais atores do movimento do Estado em rede estão bem posicionados em relação ao governo Trump para torná-lo realidade.

Peter Thiel, o bilionário cofundador do PayPal e da Palantir, tem sido um dos principais defensores do modelo de Estado em rede por quase duas décadas. Há cinco anos, a Pronomos Capital, uma empresa de desenvolvimento urbano apoiada por Thiel, investiu na Praxis, fundada por Dryden Brown, um ex-analista de fundos de hedge e ex-aluno da Universidade de Nova York. O objetivo da Praxis era construir uma nova cidade-modelo do zero, atraindo capital de risco e figuras importantes dos mundos da tecnologia e das finanças. Brown, para dar uma breve ideia das tendências políticas do movimento, teria dito a um redator de discursos que teve a ideia para a Praxis depois de ver manifestantes quebrando vitrines no SoHo após o assassinato de George Floyd pela polícia e, posteriormente, teria incentivado sua equipe a ler a obra do escritor italiano fascista Julius Evola.

Inicialmente, a Praxis tinha como objetivo construir sua reluzente cidade no Mediterrâneo, mas rapidamente voltou seus olhos para o norte. Uma semana após a reeleição de Trump para a presidência em 2024, Brown publicou na plataforma de mídia social X que acabara de voltar da Groenlândia em uma viagem de reconhecimento para a Praxis — que se autodenomina, sem qualquer traço de ironia, como “o futuro da civilização ocidental”.

"A Groenlândia é uma verdadeira fronteira", escreveu Brown. "É um lugar inóspito. Se a humanidade pretende construir a Estação Espacial Internacional em Marte, deveríamos treinar na Groenlândia. Ela pode servir como um campo de testes para experimentos de terraformação, financiados pela exploração de seu potencial como um polo industrial e de mineração."

A visão fantástica de Brown para o futuro da Groenlândia inclui chuva artificial no verão, dias de inverno artificialmente prolongados pela reflexão da luz solar no terreno congelado, um novo fundo soberano e a “propriedade” baseada em um “Estado de carta privada” representado por fichas. Brown sugeriu que seria do interesse dos Estados Unidos apoiar a criação desse Estado em rede como parte de uma “Nova Doutrina Monroe”, que projetaria o “poder cultural, econômico e político” estadunidense.

O ceticismo ou a hostilidade declarada em relação à democracia é uma das características mais marcantes do movimento das cidades da liberdade.

Thiel é apenas um dos apoiadores notáveis ​​de Brown. A Praxis também conta com o apoio de empresas ligadas a Altman, Marc Andreessen e ao pioneiro das criptomoedas, Sam Bankman-Fried, que caiu em desgraça, e pode até ter um aliado dentro do governo: Ken Howery, cofundador do PayPal e de uma empresa de capital de risco com Thiel, que atua desde outubro do ano passado como embaixador dos EUA na Dinamarca. Segundo relatos, sua nomeação foi motivada pela expectativa de que ele liderasse as negociações para a aquisição da Groenlândia. Elon Musk, outra figura-chave na fundação do PayPal e outro defensor do Estado em rede, compartilha do mesmo entusiasmo.

A beligerância imperial de Trump não pode ser subestimada. Mas seria um erro ignorar como essas aspirações pessoais se alinham aos interesses da direita tecnológica que entrou em sua órbita em 2024 e o ajudou a chegar à presidência.

"Liberdade" contra a democracia

A influência do movimento dos Estados em rede na abordagem da administração Trump à sua política externa cada vez mais belicosa não se limita à Groenlândia. Não é coincidência que essa visão, impulsionada pela Praxis, de uma cidade libertária na Groenlândia se assemelhe tanto ao plano da administração Trump para Gaza. Ambos os espaços existem no imaginário da administração trumpista e de seus aliados do Vale do Silício como uma espécie de terra nullius — Gaza porque foi tão convenientemente arrasada pelos militares israelenses após o 7 de outubro, e a Groenlândia porque é tão pouco povoada.

O primeiro grande plano da administração Trump para o futuro pós-genocídio de Gaza propôs transformar a Faixa em “um centro mediterrâneo para manufatura, comércio, dados e turismo, beneficiando-se de sua localização estratégica, acesso a mercados (Europa, Conselho de Cooperação do Golfo [CCG], Ásia), recursos e uma força de trabalho jovem, tudo isso apoiado por investimentos israelenses em tecnologia e do CCG”. Gaza não está sendo reimaginada como um Estado totalmente livre e privado, mas a visão da administração Trump para o seu futuro foi claramente moldada pelo movimento das cidades libertárias: não inclui o direito à autodeterminação nem a democracia para o povo palestino, apenas a extração de recursos sem regulamentação, o livre comércio e a submissão aos interesses dos Estados Unidos, de Israel e dos países do Golfo.

O ceticismo ou a hostilidade declarada em relação à democracia é uma das características mais marcantes do movimento das cidades libertárias. Já em 2009, Thiel escrevia sobre sua crença de que liberdade e democracia não são “compatíveis”. O objetivo, escreveu Thiel naquele ensaio para a revista Cato Unbound, não era conquistar apoio popular para sua visão libertária, mas sim escapar completamente do processo político: “Como não existem mais lugares verdadeiramente livres em nosso mundo, suspeito que a maneira de escapar deva envolver algum tipo de processo novo e até então inédito que nos leve a algum país desconhecido”, escreveu Thiel, “e por essa razão tenho concentrado meus esforços em novas tecnologias que possam criar um novo espaço para a liberdade”.

Thiel cumpriu sua palavra. Ele investiu bem mais de US$ 1 milhão em um instituto que acabou fracassando em sua tentativa de construir uma “utopia libertária” nas ilhas da Polinésia Francesa, antes de sua empresa investir pesado na Praxis. A Pronomos também investe na Próspera, um Estado-rede na ilha de Roatán, em Honduras, e na Itana, um Estado-rede em desenvolvimento na Nigéria.

Há uma certa ironia no fato de o governo Trump parecer tão favorável a um projeto que, em última análise, visa abandonar completamente os Estados-nação. O governo parece disposto a usar todo o peso do Estado estadunidense para servir aos objetivos econômicos e às fantasias coloniais dos super-ricos do Vale do Silício, mesmo que esses objetivos e fantasias estejam apenas parcialmente alinhados com os objetivos e ambições dos próprios Estados Unidos. Van Jackson escreveu que a geopolítica do movimento dos Estados em rede se preocupa em “instrumentalizar o poder estatal para desafiar a forma estatal”, uma formulação útil para entender por que Trump prometeu construir cidades libertárias em terras federais dentro dos EUA durante sua campanha de 2024.

O objetivo do governo Trump, apoiado por seus aliados no Vale do Silício, é confiscar terras e recursos e distribuir os lucros diretamente ao capital privado. Vestígios dessa abordagem são evidentes na incursão contínua do governo na Venezuela, onde os Estados Unidos confiscaram e começaram a vender as reservas de petróleo do país, depositando os lucros em uma série de contas bancárias controladas pelos EUA, incluindo uma conta principal localizada no Catar. Trump também firmou um acordo com a Ucrânia para ter acesso preferencial à extração mineral no país e a uma série de outros recursos naturais em troca do apoio contínuo dos Estados Unidos em seu conflito com a Rússia.

Agora, mais de sete anos depois de Lauder ter despertado o interesse de Trump, a Groenlândia tornou-se o foco do presidente. Os groenlandeses, que nunca desfrutaram de plena independência política, encontram-se numa posição difícil: à medida que a intensificação das alterações climáticas põe em risco a sua indústria pesqueira e os seus modos de vida, torna também a extração dos minerais de terras raras e da água potável da Groenlândia uma possibilidade sedutora. Para os bilionários dentro e fora dos altos cargos eletivos, a Groenlândia é imaginada como uma fronteira, um espaço que, nas palavras de Quinn Slobodian, existe para ser “cercado e convertido em propriedade privada” e servir de laboratório para experiências distópicas de governança libertária.

O destino dos habitantes da Groenlândia, dos estadunidenses, da ordem internacional liberal em ruínas ou da saúde futura do planeta não é uma grande preocupação para Trump e seus apoiadores do Vale do Silício. Eles parecem se importar pouco com a ordem internacional vigente ou com a soberania de outras nações em geral, e não se interessam pelo destino de quem não possui milhões de dólares em patrimônio pessoal ou capital inicial. Acreditam apenas em enriquecer a si mesmos e, ao que parece, em estabelecer um novo tipo de infraestrutura estatal para eliminar até mesmo as menores restrições ao seu poder. Se tudo der errado, não há motivo para temer — os líderes do movimento sempre podem se refugiar em seus abrigos antiaéreos.

Colaborador

Abe Asher é um jornalista cujas reportagens sobre política, movimentos sociais e clima foram publicadas em veículos como The Nation, VICE News, Portland Mercury e outros.

19 de novembro de 2025

Primeiro arrasem Gaza, depois construam um parque de diversões para o capital global

Empreendedores ávidos por lucro, monarcas do Golfo, Donald Trump, Tony Blair e a extrema-direita israelense estão todos unidos em sua visão para Gaza: uma zona econômica especial impulsionada pela tecnologia e governada por bilionários, sem qualquer possibilidade de autodeterminação para os palestinos.

Abe Asher

Jacobin

A visão do governo Trump para Gaza, publicada em seu documento do plano GREAT Trust. (Plano GREAT Trust)

Quando o presidente Donald Trump intermediou um acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas no final de setembro, o presidente estadunidense foi aclamado, inclusive por alguns democratas de destaque, por sua atuação em prol da paz. O presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, e o presidente do Knesset israelense, Amir Ohana, disseram que indicariam Trump conjuntamente ao cobiçado Prêmio Nobel da Paz.

A apresentação do plano de paz relativamente sóbrio de Trump para Gaza, composto por vinte pontos, pareceu marcar uma mudança drástica em relação à forma como o presidente pensava sobre Gaza menos de oito meses antes, quando anunciou, em uma coletiva de imprensa na Casa Branca com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que os Estados Unidos assumiriam o controle da Faixa de Gaza, a ocupariam e a transformariam na “Riviera do Oriente Médio” — uma possibilidade que, nas palavras de Trump, poderia ser “magnífica”. Pouco depois da coletiva de imprensa, Trump compartilhou nas redes sociais um vídeo bizarro, gerado por inteligência artificial, de uma Gaza reconstruída, com direito a dançarinas do ventre, Elon Musk jogando maços de dinheiro para o ar e Trump e Netanyahu deitados sem camisa em cadeiras de praia.

A ambição de Trump de transformar Gaza em um destino turístico foi incorporada a um plano mais amplo para o futuro da região, que foi discutido em Washington no final do verão. O Fundo Fiduciário para a Reconstituição, Aceleração Econômica e Transformação de Gaza (GREAT Trust, sigla em inglês) foi a primeira grande proposta do governo Trump para trazer a paz a Gaza. Sua lógica permanece em vigor no atual plano de paz.

O plano GREAT Trust destacou-se pela sua franqueza: propunha realocar um quarto da população existente em Gaza para países vizinhos durante o processo de reconstrução e transferir o restante para acomodações temporárias e restritas na Faixa. Feito isso, os Estados Unidos assumiriam o controle de Gaza por um período de dez anos e supervisionariam a transformação da devastada pátria de mais de dois milhões de palestinos em “um centro mediterrâneo para manufatura, comércio, hospedagem de dados e turismo, beneficiando-se de sua localização estratégica, acesso a mercados (Europa, CCG [Conselho de Cooperação do Golfo], Ásia), recursos e uma força de trabalho jovem, tudo isso apoiado pela tecnologia israelense e por investimentos do CCG”.

A transformação seria financiada por até US$ 100 bilhões em investimentos públicos e até US$ 65 bilhões em investimentos privados, que cobririam o custo de tudo, desde “pacotes generosos de realocação” para residentes palestinos até “10 megaprojetos de construção”.

A ideia que atraiu mais atenção foi o projeto de transformar o litoral de Gaza na “Riviera Trump de Gaza e Ilhas”, uma série de resorts de luxo e pequenas ilhas artificiais inspiradas nas Ilhas Palm de Dubai, que, presumivelmente, atrairiam turistas dispostos a estender suas cadeiras de praia sobre os ossos dos palestinos mortos. Mas esse não foi o único megaprojeto na proposta. Outros incluem a construção de rodovias com os nomes de Mohammed bin Salman, governante da Arábia Saudita, e Mohamed bin Zayed al-Nahyan, governante de Abu Dhabi; uma zona de manufatura inteligente com o nome de Elon Musk; e uma rede de data centers para atender Israel e os países do Golfo.

Em nenhum momento do plano havia qualquer sugestão de que a população palestina de Gaza pudesse apoiar democraticamente a transformação de sua pátria sitiada em uma zona econômica especial tecnofuturista governada pelos EUA; palavras como democracia e soberania estavam ausentes de uma apresentação de trinta e oito slides sobre a proposta, obtida pelo Washington Post. Isso ocorre porque os idealizadores do plano sabiam que não conseguiriam apoio democrático ou porque desistiram da pretensão de se importar. Não há menção aos direitos políticos palestinos no plano até que Gaza seja “desmilitarizada e desradicalizada”, momento em que a governança será transferida para uma entidade política palestina submissa que aderirá aos Acordos de Abraão e, potencialmente, assinará um pacto de livre associação com o GREAT Trust para garantir apoio financeiro contínuo “em troca da manutenção de alguns poderes plenos por parte do Trust”.

Entretanto, a suposição implícita é que a população palestina de Gaza irá migrar permanentemente para países vizinhos ou será “pacificada” por um aparato de segurança multibilionário, apoiado, a julgar pelos logotipos apresentados nos slides, por uma lista dos principais empreiteiros militares e fabricantes de armas do mundo. O plano do GREAT Trust não menciona o que poderia acontecer se os habitantes de Gaza resistirem a essa próxima fase de sua desapropriação, mas não é muito difícil imaginar.

O modelo Neom

Como escreveu Alberto Toscano, Gaza está sendo reimaginada como uma “apoteose daquela fusão entre capital e regime autoritário que constitui, para grande parte da reação global, o ‘milagre’ daquelas ‘cidades milagrosas’ do Oriente Médio”. A referência às cidades milagrosas do Oriente Médio é frequentemente explícita nos planos para o futuro de Gaza, com Neom, a cidade planejada que está sendo construída a um custo enorme na costa noroeste da Arábia Saudita, servindo como um ponto de referência frequente.

Embora a Palestina seja frequentemente usada como um laboratório para o futuro, o plano de Trump para Gaza não é tanto uma prévia do que está por vir, mas sim uma extensão macabra de um futuro que já chegou.

A região onde Neom está sendo construída foi descrita como uma “tela em branco” por bin Salman, de forma muito semelhante à maneira como os arquitetos do plano de Trump parecem conceber Gaza. Neom também foi imaginada como um novo e reluzente centro regional para a indústria, o comércio e o lazer, com direito a uma estação de esqui e um estádio de futebol suspenso. Mas a região não é uma tela em branco. O governo já destruiu diversas aldeias no processo de desmatamento para a construção. No ano passado, autorizou o uso de força letal contra moradores para facilitar a construção em curso e potencialmente fadada ao fracasso da Linha — uma cidade inteligente de 177 quilômetros de extensão, revestida de vidro, que inicialmente deveria ser capaz de acomodar um quarto da população total do país.

O projeto Neom se destaca não apenas por sua ambição vertiginosa — uma cidade industrial flutuante! Um resort de luxo em uma ilha! Um “arranha-céu ultraluxuoso de cabeça para baixo”! — mas também por incorporar a mesma lógica que anima os planos para Gaza: a de que a terra é uma tela em branco à espera de ser transformada, não em nome da construção da nação, mas em nome da criação de zonas econômicas especiais que só podem ser acessadas pelos ricos e que funcionam, como sugeriu Quinn Slobodian, como um “navio de cruzeiro ou um parque temático”.

Já vimos versões dessa visão sendo implementadas em lugares como Dubai. Embora a Palestina seja frequentemente usada como um laboratório para o futuro, o plano de Trump para Gaza não é tanto uma prévia do que está por vir, mas uma extensão macabra de um futuro que já chegou — não apenas no Golfo, mas também em países da América Central como El Salvador e Honduras.

O sionismo encontra o capital global

O plano GREAT Trust foi previsivelmente duramente criticado pelos palestinos e por grande parte da comunidade internacional, mas em Israel mostrou-se bastante popular entre figuras-chave do governo Netanyahu. Em setembro, o Ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, sugeriu em uma conferência imobiliária em Tel Aviv que o custo do ataque a Gaza acabaria por se pagar. “A demolição, a primeira etapa da renovação da cidade, já fizemos”, disse Smotrich. “Agora precisamos construir.”

Smotrich está longe de ser a única figura de destaque a apoiar o espírito, senão a letra fria, do plano de Trump para a Riviera de Gaza. Durante o verão, Smotrich discursou em uma conferência do Knesset intitulada “A Riviera de Gaza — do Projeto à Realidade” para uma plateia que, segundo relatos, incluía outros ministros do governo, membros do Knesset, agentes de segurança, parentes dos reféns e uma variedade de outros pesquisadores e ativistas, como a notória “madrinha” do movimento de colonos israelenses, Daniella Weiss. Smotrich assegurou à sua plateia que Trump apoiava o esforço “para transformar Gaza em uma faixa próspera, uma cidade turística com empregos”. Isso, disse ele, é “como se faz a paz”.

O fato de Smotrich e membros de seu partido de extrema-direita, a coalizão sionista religiosa, apoiarem o reassentamento e a anexação de Gaza após a guerra não é surpreendente; a expansão territorial tem sido um objetivo primordial do movimento sionista, e o próprio Smotrich foi preso por planejar um atentado a bomba contra uma rodovia israelense em protesto contra a retirada dos colonos israelenses de Gaza em 2005. Smotrich cresceu no assentamento de Beit El, na Cisjordânia; seu pai é o rabino Chaim Smotrich, que também protestou contra a retirada das forças israelenses de Gaza duas décadas atrás e permanece uma figura de destaque na política sionista como reitor de uma yeshivá no assentamento de Kiryat Arba, nos arredores de Hebron.

O que chama a atenção é o entusiasmo demonstrado por Smotrich e seus aliados pelo projeto de repensar Gaza exatamente da maneira como Trump o faz: como uma oportunidade para extração e acumulação de capital. É quase como se Smotrich e Itamar Ben-Gvir, o ministro da segurança nacional, também de visão extremista, entendessem que essa é uma estrutura particularmente eficaz para angariar o apoio internacional necessário para concluir o reassentamento e a anexação. Essa ideia não surgiu com a intervenção de Trump: no ano passado, antes da reeleição de Trump, Netanyahu promoveu um plano semelhante que propunha reconstruir Gaza “do nada” e convertê-la em uma próspera zona de livre comércio que pudesse servir como um centro para toda a região.

Os planos têm mais em comum do que o desejo compartilhado de transformar Gaza em um centro tecnofuturista para extrativismo e livre comércio. Apresentações em PowerPoint detalhando as particularidades dos planos exibem a mesma imagem gerada por inteligência artificial de uma Gaza reconstruída, reluzente com arranha-céus angulares de vidro, extensas linhas ferroviárias, campos verdejantes e uma frota de plataformas de petróleo ociosas perto da costa do Mediterrâneo. Não há nada identificável como palestino na imagem; essa Gaza transformada poderia estar em qualquer lugar com litoral e uma política de desenvolvimento adequada.

Gaza pode e será ressuscitada, mas apenas como um canal higienizado para o capital e um playground para a elite global.

A proposta de Netanyahu, “Gaza 2035”, apresentava diversos elementos notáveis. Um deles era o foco na extração de petróleo, como evidenciado pela presença sinistra das plataformas no Mediterrâneo. As Nações Unidas estimam que existam 1,7 bilhão de barris de petróleo recuperáveis ​​na Bacia do Levante, no Mediterrâneo, além de aproximadamente 3,45 bilhões de metros cúbicos de gás. Outro elemento notável era a referência a Neom, que seria conectada a Gaza por uma ferrovia de alta velocidade. O plano, argumenta Shane Reiner-Roth, “demonstra quão ilimitada é a imaginação colonialista quando o tema da contenção é percebido como algo do passado”.

Planos dessa natureza abundam. Em abril passado, o bilionário gestor de fundos de hedge, Bill Ackman, apresentou sua própria proposta — uma competição global entre arquitetos, planejadores e “tecnólogos” disputando o direito de “construir uma nova cidade a partir de uma folha em branco”, que seria governada pelos Estados Unidos e um consórcio de aliados do Golfo. Na fantasia de Ackman, Gaza se torna não apenas habitável, mas uma “cidade modelo”. Não há qualquer menção à autodeterminação dos residentes palestinos de Gaza, e certamente não à criação de um Estado palestino. O mesmo ocorre com os planos divulgados pela RAND Corporation e pelo Instituto Judaico para a Segurança Nacional da América: Gaza pode e será ressuscitada, mas apenas como um canal higienizado para o capital e um playground para a elite global.

Blair e os bilionários

Desde então, Trump recuou do plano da Riviera de Gaza, e seu plano de paz de vinte pontos não menciona clubes de praia ou reformas haussmannianas na Cidade de Gaza. É retoricamente mais ameno, embora não menos ameaçador — sobretudo porque obteve o apoio da Autoridade Palestina, além de Egito, Jordânia, Turquia e dos principais Estados do Golfo. Resta saber se os últimos dos vinte pontos chegarão a ser implementados; Israel já teria violado os termos do cessar-fogo quase trezentas vezes, e os palestinos sabem muito bem que as etapas finais dos planos de paz muitas vezes nunca se concretizam. Já existem indícios de que os Estados Unidos não têm intenção de cumprir os termos do plano de vinte pontos.

No entanto, o plano de Trump, em teoria, prevê que uma Gaza “desradicalizada” seja transformada em uma “zona econômica especial” com “tarifas e taxas de acesso preferenciais a serem negociadas com os países participantes”. Essa zona econômica especial será governada, em caráter provisório, por um órgão palestino “tecnocrático e apolítico”, supervisionado por um comitê internacional presidido pelo próprio Trump.

O comitê também incluirá o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. O órgão de supervisão “definirá a estrutura e administrará o financiamento para a reconstrução de Gaza” até que a Autoridade Palestina seja considerada apta a assumir o controle, governando de maneira “propícia à atração de investimentos”. Essa visão de Gaza não endossa explicitamente mais limpeza étnica, mas, como argumentou Oliver Eagleton, ainda se assemelha a um “protetorado colonial”.

O envolvimento de Blair no projeto não se limita a um horizonte futuro. O think tank londrino do ex-líder trabalhista teria prestado consultoria sobre o plano inicial de Trump para a Riviera de Gaza, e Blair teria ajudado a elaborar o plano de vinte pontos em uma reunião na Casa Branca com Trump, o conselheiro para o Oriente Médio Jared Kushner e o ministro israelense de assuntos estratégicos Ron Dermer, no final de agosto.

Outra proposta de plano, discutida antes do anúncio do acordo de cessar-fogo, era que Blair administrasse uma autoridade de transição para Gaza por um período de três anos, com um conselho composto principalmente por bilionários como o financista de Wall Street Marc Rowan e o magnata egípcio Naguib Sawiris.

A presença de Blair, apesar de seu histórico de serviço público, pode estar relacionada com as amizades que mantém. Desde 2021, o presidente executivo da Oracle, Larry Ellison — um antigo apoiador das Forças de Defesa de Israel — doou, ou prometeu doar, mais de US$ 300 milhões ao Instituto Tony Blair para a Mudança Global. A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein também contrataram o Instituto Blair para realizar trabalhos, e Blair, em sua atuação anterior na região, sempre foi um defensor fervoroso da abertura de terras palestinas ao investimento estrangeiro.

A variedade de planos para a reinvenção de Gaza parece ambiciosamente ridícula, mas não há razão para crer que alguma versão ou combinação deles não será executada. O mundo que foi incapaz, ou se mostrou relutante, em deter o genocídio em Gaza até o fim de 2025 pode não ter maior sucesso em impedir a próxima fase do apagamento do povo de Gaza e o roubo de suas casas, recursos naturais e direitos.

Isso, é claro, não é necessariamente incompatível — pelo menos no curto prazo — com os objetivos da extrema-direita israelense. E assim chegamos a um momento em que o movimento sionista, que busca a expropriação de terras palestinas sob o pretexto da supremacia judaica, encontra um ponto em comum com uma estrutura de poder global de direita que busca criar espaços supranacionais autoritários e sem atritos para o extrativismo e os fluxos de capital.

Essa aliança sugere que, apesar de todas as circunstâncias excepcionais que levaram à criação de Israel, o Estado israelense deve ser compreendido principalmente como um projeto colonial de povoamento em curso, que agora faz parte de uma rede de países e interesses comerciais que tentam remodelar o mundo para favorecer seu próprio enriquecimento. Gaza, lamentavelmente, permanece na mira dessa rede.

Colaborador

Abe Asher é um jornalista cujas reportagens sobre política, movimentos sociais e clima foram publicadas no Nation, VICE News, Portland Mercury e outros meios de comunicação.

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