1 de julho de 2026

Sobre a crise econômica do capitalismo

Ao analisar a "Crise Estrutural do Capital" sob a ótica da economia, Prabhat Patnaik lança luz sobre dois aspectos importantes que ganharam destaque na conjuntura atual. O primeiro — a estagnação e o desemprego desenfreados — é claro e inegável. O segundo, peculiar ao capitalismo do final do século XX e ao processo de abandono das colônias das quais as nações imperiais dependiam para gerar riqueza, reveste-se de particular relevância para a estratégia econômica de Trump — uma estratégia de recolonização econômica que não se limita ao soft power, mas que também envolve ação militar direta.

Prabhat Patnaik

Vol. 78, No. 03 (July-August 2026)

Há pelo menos dois aspectos econômicos importantes na atual crise estrutural do capitalismo. O primeiro é a estagnação geral e o aumento do desemprego com os quais o capitalismo mundial, em sua fase neoliberal, tem se deparado. Em muitos casos, como nos Estados Unidos, o desemprego mais elevado é mascarado por uma redução na taxa de participação na força de trabalho, mas sua realidade é inegável. A estagnação já se manifestava antes mesmo da pandemia: a taxa de crescimento decenal da economia mundial na década de 2010 foi inferior à de qualquer década anterior desde a Segunda Guerra Mundial.

Crescente participação do excedente e superprodução ex ante

A razão para essa estagnação reside na própria natureza do capitalismo neoliberal, que tem registrado um aumento massivo na desigualdade de renda e riqueza dentro de cada país. Visto que o capital — inclusive o financeiro — desfruta de mobilidade global praticamente livre sob o regime neoliberal, enquanto os trabalhadores permanecem confinados aos seus respectivos países (exceto quando especificamente autorizados a migrar), os trabalhadores dos países desenvolvidos competem, na prática, com os trabalhadores de salários mais baixos do Sul Global, para onde o capital pode ser sempre realocado. Como resultado, os trabalhadores dos países desenvolvidos praticamente não registram aumento em seus salários reais, mesmo em termos absolutos: de fato, Joseph Stiglitz estimou que o salário real médio de um trabalhador norte-americano do sexo masculino em 2011 era marginalmente inferior ao de 1968.1

Ao mesmo tempo, independentemente de qualquer realocação de atividades do Norte para o Sul, as vastas reservas de mão de obra do Sul — um legado de seu passado colonial — não se esgotam. Pelo contrário, elas aumentam em relação à força de trabalho devido ao crescimento substancial da produtividade do trabalho, observado em toda parte em decorrência da adoção de mudanças tecnológicas mais aceleradas — estas, por sua vez, uma consequência da intensificação da concorrência no mercado mundial sob a égide do neoliberalismo. A ausência de redução no tamanho relativo das reservas de mão de obra implica que os salários reais no Sul Global permanecem mais ou menos atrelados a um nível de subsistência. Assim, tanto no Norte quanto no Sul, o vetor dos salários reais mal aumenta, mesmo enquanto a produtividade do trabalho cresce rapidamente, resultando em um aumento da participação do excedente econômico na produção mundial, bem como no interior de cada país.2 Visto que, em média, os trabalhadores consomem uma proporção maior da renda do que aqueles que vivem do excedente econômico, o aumento da participação desse excedente tende a conter a demanda de consumo — e, consequentemente, a demanda agregada — em relação à produção possível. Isso, por sua vez, gera uma tendência ex ante à superprodução, da qual a estagnação e o aumento do desemprego efetivamente observados são manifestações.3

O que chama a atenção no capitalismo neoliberal, no entanto, não é apenas essa tendência à estagnação e ao desemprego mais elevado; ainda mais notável é o fato de que a contramedida mais potente contra isso — a saber, o aumento dos gastos estatais — torna-se mais ou menos totalmente ineficaz sob o capitalismo neoliberal. Para que o aumento dos gastos estatais eleve o nível da demanda agregada e combata a estagnação, ele deve ser financiado ou por meio de um déficit fiscal (caso em que ninguém é tributado adicionalmente e, portanto, o consumo de ninguém diminui, mesmo com o aumento da demanda por parte do Estado) ou por meio de impostos mais altos sobre os ricos (que poupam parte de sua renda, de modo que seu consumo não cai no valor total dos impostos adicionais, resultando em um aumento líquido da demanda decorrente dos gastos da receita tributária). Se o aumento dos gastos estatais for financiado por impostos sobre os trabalhadores — que consomem praticamente toda a sua renda —, a demanda gerada pelo gasto estatal adicional seria anulada pela demanda reduzida devido à queda no consumo desses trabalhadores; assim, não haveria aumento líquido na demanda agregada nem alívio para a estagnação e o desemprego elevado.

No entanto, ambas as formas de financiar o aumento dos gastos estatais — caso se pretenda que tais gastos sejam expansionistas — enfrentam a oposição do capital financeiro. O capital financeiro opõe-se a impostos mais altos sobre os ricos, visto que grandes financistas figuram entre eles; e opõe-se a déficits fiscais maiores — razão pela qual a maioria dos países na era neoliberal possui legislação de "responsabilidade fiscal" que limita a proporção entre déficit fiscal e Produto Interno Bruto (tipicamente em cerca de 3%). E, como o capital financeiro é globalizado enquanto o Estado permanece como Estado-nação, a vontade daquele deve prevalecer nas questões de política estatal; caso contrário, o país estaria sujeito a uma fuga de capitais financeiros, precipitando uma crise. Portanto, o neoliberalismo não apenas gera uma superprodução ex ante, causando estagnação e desemprego elevado, mas também inviabiliza as contramedidas mais poderosas contra esse cenário. Não há como escapar, dentro do neoliberalismo, da estagnação e do aumento do desemprego gerados pelo próprio neoliberalismo. Em outras palavras, o neoliberalismo conduz o capitalismo mundial a um beco sem saída, do qual não há escapatória a menos que o próprio neoliberalismo seja superado. Essa é a situação em que o capitalismo mundial se encontra hoje.4

A ascensão do neofascismo

Até o momento, a resposta do capitalismo mundial a esse beco sem saída tem sido a promoção do neofascismo. Elementos neofascistas existem em toda sociedade moderna — promovendo, entre a maioria da população, o ódio contra alguma minoria étnica ou religiosa vulnerável —, mas, geralmente, como um fenômeno marginal. Eles passam a ocupar o centro do palco, e até mesmo postos de poder, apenas quando obtêm o apoio financeiro e midiático do capital monopolista em geral — e, especialmente, de um segmento interno composto por novos elementos desse capital. E isso ocorre somente quando há uma crise econômica cujos efeitos deletérios sobre a pequena burguesia, a classe trabalhadora e até mesmo os pequenos capitalistas geram um descontentamento capaz de ameaçar a hegemonia do capital monopolista.

Surge, então, uma aliança entre grandes corporações e o neofascismo que suprime direitos e instituições democráticas; utiliza uma combinação de repressão estatal e violência perpetrada por grupos fascistas contra opositores políticos, intelectuais, artistas e a esquerda; tenta construir um culto à personalidade em torno do "líder", suposto símbolo da "nação"; e busca criar e propagar um discurso diversionista de incitação ao ódio, com o objetivo de dividir a classe trabalhadora e impedir qualquer desafio à hegemonia do capital monopolista.5

A ascensão do neofascismo em todo o mundo hoje é sintomática da atual crise estrutural do capitalismo mundial. Em alguns países, como Argentina, Índia, Itália e Estados Unidos, os neofascistas chegaram ao poder; em outros, como França e Alemanha, estão próximos de fazê-lo; mas, em toda parte, percebe-se claramente um movimento em direção à extrema-direita.

No entanto, o neofascismo também não tem condições de superar a crise econômica; os mesmos fatores que tornam o Estado liberal-burguês incapaz de combater a tendência à estagnação e ao aumento do desemprego também obstaculizam o Estado neofascista. A contradição decorrente da financeirização global em um mundo de Estados-nação afeta o Estado neofascista tanto quanto afeta o Estado liberal-burguês. Como resultado, o neofascismo atual não consegue replicar o que o fascismo fez na década de 1930 — a saber, superar o desemprego em massa nos países onde chegou ao poder por meio de um enorme aumento dos gastos estatais em rearmamento financiados pelo déficit fiscal.6 Isso confere ao neofascismo menos controle sobre a sociedade do que o fascismo clássico exercia, mas também faz dele um fenômeno mais persistente; os neofascistas podem até ser removidos do poder pelo voto (pois, embora recorram a toda sorte de manobras escusas para minar a democracia, não necessariamente extinguem as eleições), mas permanecem à espreita e podem até retornar ao poder (como fez Donald Trump).

No entanto, mesmo os neofascistas precisam ter alguma agenda econômica, pois o discurso diversionista de estigmatizar uma minoria como "o outro" não pode bastar indefinidamente. As duas vias possíveis para superar a contradição entre o Estado-nação e as finanças globalizadas são inviáveis ​​para o neofascismo: uma delas consiste em contar com um "Estado mundial" substituto ou em emular um "Estado mundial" para controlar o capital internacional e elevar a demanda agregada global. Na prática, isso significa um estímulo fiscal coordenado entre vários países, no qual cada Estado aumenta seus gastos, seja ampliando o déficit fiscal, seja tributando os ricos de forma sincronizada.7 A outra via é o desligamento total do regime de globalização financeira, mediante a imposição de controles sobre os fluxos de capitais em nível nacional e a ampliação dos gastos estatais por meio de qualquer um desses mecanismos (aumento dos déficits fiscais ou tributação dos ricos). O capital monopolista rejeitaria ambas as opções, pois elas representam meios de contornar sua hegemonia. Torna-se, portanto, um ponto de interesse saber que tipo de programa o neofascismo pode propor nesse contexto.

O capitalismo do pós-guerra: um líder sem colônias

O segundo aspecto econômico da atual crise estrutural do capitalismo reside na própria natureza do capitalismo do pós-guerra. O capitalismo do pós-Segunda Guerra Mundial diferenciava-se do capitalismo anterior à Primeira Guerra Mundial — deixando-se de lado o período entre guerras, marcado por turbulência e transição excepcionais — de uma maneira crucial. No pós-guerra, o sistema teve de abrir mão de seu império colonial, o que implicou duas consequências: primeiramente, perdeu todos os seus "mercados cativos" (markets on tap), para usar uma expressão do historiador econômico britânico S. B. Saul; em segundo lugar, a "drenagem de excedente" anual proveniente das colônias deixou de estar disponível para o novo líder do mundo capitalista, os Estados Unidos.8 Essa "drenagem" significava que a potência capitalista dominante do período anterior, a Grã-Bretanha, simplesmente se apropriava — sem qualquer contrapartida — do excedente de exportação de suas colônias em relação ao restante do mundo. A descolonização pôs fim a essa "drenagem".9 Ambos os desdobramentos decorrentes do fenômeno da descolonização exerceram um impacto profundo na economia da potência que liderava o mundo capitalista no pós-guerra.

O mundo capitalista sempre contou com um líder sob cuja égide o capitalismo se expande para novas áreas e que atua, simultaneamente, como defensor do sistema. A função de liderança exige, necessariamente, que o líder apresente um déficit em transações correntes em relação ao mundo não colonial. Isso ocorre porque a difusão do capitalismo para novos países requer que estes encontrem mercados para seus produtos; o líder precisa acomodar tais ambições mantendo seu próprio mercado aberto a essas mercadorias, o que implica incorrer em um déficit em transações correntes com esses países. Além disso, a gestão da hegemonia global do capitalismo — uma das atribuições do líder — exige gastos vultosos, o que também resulta em déficit em transações correntes. Os Estados Unidos, por exemplo, mantêm mais de 750 bases militares ao redor do globo para defender o sistema (incluindo seu próprio império, parte integrante do sistema). Isso implica despesas com bens e serviços locais em diversas partes do mundo, contribuindo para o déficit em transações correntes do país.

Historicamente, a "drenagem" de recursos das colônias e a venda de produtos da nação líder nos mercados coloniais desempenharam um papel fundamental no financiamento desse déficit; assim, a líder não apenas evitava o endividamento, mas chegava a registrar um superávit em conta corrente que lhe permitia exportar capital, fomentando a difusão do capitalismo. Na condição de líder do capitalismo do pós-guerra, os Estados Unidos — por não possuírem tal império colonial — viram sua dívida externa crescer à medida que desempenhavam seu papel de liderança. É verdade que detinham um império, no sentido de um território econômico sob seu controle, de onde extraíam matérias-primas essenciais. Contudo, não podiam "drenar um excedente" tributando esse império — isto é, não conseguiam obter gratuitamente uma parcela substancial dessas matérias-primas —, nem podiam vender seus produtos nesses mercados sem enfrentar barreiras tarifárias. Por isso, embora tenham iniciado o período do pós-guerra com um expressivo superávit em conta corrente, os Estados Unidos passaram a registrar um déficit crônico em meados da década de 1970 e são, hoje, o país mais endividado do mundo.

A obra de Saul esclarece como a Grã-Bretanha — a líder anterior do mundo capitalista — evitou esse destino. Em 1910, o déficit total da Grã-Bretanha nas contas corrente e de capital (sendo que os déficits na conta de capital referem-se a exportações de capitais) em relação aos países com os quais mantinha tal déficit global — isto é, a Europa Continental, os Estados Unidos e outras regiões de clima temperado com povoamento europeu, como Canadá, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul — totalizava £145 milhões; apenas o déficit global em relação à Europa Continental e aos Estados Unidos somava £90 milhões. Paralelamente, um superávit em conta corrente de nada menos que £60 milhões era obtido de uma única colônia: a Índia.

Essa quantia de £60 milhões compunha-se de três partes: (1) o superávit da Grã-Bretanha nas exportações de mercadorias para a Índia, num cenário em que suas exportações ainda eram dominadas por têxteis de algodão que haviam exercido um impacto de "desindustrialização" na economia indiana ao deslocar seus produtores tradicionais pré-capitalistas, incluindo os tecelões manuais; (2) a "drenagem" de recursos da Índia, constituída pelo superávit das exportações de mercadorias indianas para o restante do mundo, do qual a Grã-Bretanha se apropriava; e (3) os ganhos líquidos da Grã-Bretanha com serviços (ou "invisíveis") provenientes da Índia, na forma de fretes marítimos, seguros e outros itens comerciais. Essas obrigações impostas à Índia — que financiavam até dois terços do déficit total da Grã-Bretanha em relação à Europa Continental e aos Estados Unidos, e dois quintos de seu déficit total em relação a todos os países com os quais mantinha um déficit global — só foram possíveis devido ao status colonial da Índia. Os Estados Unidos, por não possuírem colônias e, consequentemente, não terem acesso a tais exações, acabaram acumulando dívidas crescentes. É claro que possuir colônias poderia não ter sido suficiente para evitar o endividamento; mas essa questão não vem ao caso aqui. O fato é que o país simplesmente não possuía colônias, ao contrário da Grã-Bretanha.

Contrair tal dívida externa não chega a ser um problema enquanto a moeda do país líder for considerada "tão boa quanto o ouro": instituições econômicas e indivíduos de todo o mundo mostram-se, então, dispostos a manter essa moeda em quantidades ilimitadas. Sob o sistema de Bretton Woods, o dólar americano foi, de fato, oficialmente estabelecido como equivalente ao ouro, sendo conversível no metal à taxa de US$ 35 por onça. Mesmo após o fim da conversibilidade oficial do dólar em ouro, decretado pela administração Nixon — motivado, entre outros fatores, pela pressão da França, que sob o presidente Charles de Gaulle estava se afastando do dólar —, a confiança no valor da moeda foi rapidamente restaurada em um novo nível de paridade, embora sem o respaldo oficial anterior.

Embora essa confiança tenha sustentado o sistema financeiro internacional, é inegável a enorme ameaça que paira sobre o dólar — e, consequentemente, sobre o próprio sistema — em razão da condição dos Estados Unidos como o maior devedor do mundo e do enorme volume de trilhões de dólares (ou ativos denominados em dólares) que circulam globalmente. Essa ameaça é geralmente debatida sob a ótica de uma possível migração dos detentores de riqueza mundial do dólar para outra moeda; e, como nenhuma outra moeda possui a mesma importância do dólar na economia global atual, tal risco costuma ser subestimado. Contudo, o que essa discussão frequentemente ignora é a ameaça ao sistema financeiro internacional decorrente de uma possível mudança do dólar para commodities, especialmente para uma commodity estratégica como o petróleo.

De fato, pode-se afirmar que a estabilidade do sistema pós-Bretton Woods baseou-se na expectativa de um preço do petróleo estável em dólares (apesar das flutuações de curto prazo); tamanha é a importância desse fator que todo o sistema pós-Bretton Woods pode ser definido como um "padrão petrodólar". Em suma, mesmo uma migração temporária do dólar para o petróleo pode facilmente desestabilizar esse sistema.

A ameaça ao sistema financeiro

Vale a pena relembrar aqui um antigo debate. Em The Political Economy of Growth, Paul Baran destacou os limites da gestão keynesiana da demanda, argumentando que a manutenção de um déficit fiscal persistente aumenta a vulnerabilidade da economia à inflação. Joan Robinson criticou esse argumento e acusou Baran de recorrer a uma teoria quantitativa da moeda já desacreditada.10 O ponto de vista de Baran, no entanto, era bem diferente daquele que Robinson lhe atribuía. Baran não estava falando em "ler a equação quantitativa da esquerda para a direita"; isto é, não se referia ao aumento da oferta de moeda ou de quase-moeda em mãos privadas decorrente de déficits fiscais. Ele tratava da acumulação de riqueza privada sob a forma de créditos contra o governo. Mesmo em um mundo onde a oferta de moeda é totalmente endógena, quando se espera que o preço de uma commodity suba o suficiente para tornar vantajosa sua compra para fins especulativos, o prêmio de risco marginal associado à aquisição de uma unidade do bem com recursos próprios é menor do que aquele associado à compra com recursos de terceiros (fundos tomados por empréstimo). Essa proposição decorre diretamente do princípio do risco crescente. Portanto, quanto maior a magnitude da riqueza privada na forma de créditos contra o governo em relação ao Produto Interno Bruto, mais a economia estará sujeita — ceteris paribus — à inflação decorrente de uma possível migração especulativa para commodities.11

Um argumento semelhante pode ser aplicado à economia mundial no caso que estamos discutindo. Possuir um império colonial — cujas extrações eliminam a necessidade de o país líder recorrer a empréstimos externos — é análogo, no âmbito de um único país, a financiar gastos governamentais por meio de impostos, dispensando assim a necessidade de um déficit fiscal. Da mesma forma, o crescente endividamento externo do país líder para financiar seu déficit em conta corrente é análogo a um governo, dentro de uma economia nacional, recorrer a uma dívida pública crescente para financiar seus gastos. Quanto maior a magnitude dessa dívida em relação ao fluxo de produção, mais suscetível à inflação estará esse sistema.

Afirmar isso não significa dizer que uma escalada inflacionária seja iminente na economia mundial; trata-se apenas de chamar a atenção para a posição precária em que a economia mundial se encontra atualmente, devido aos persistentes déficits em conta corrente acumulados pelo principal país capitalista ao longo de um longo período. No caso de uma explosão repentina da inflação, a economia mundial — que já enfrenta estagnação e taxas de desemprego mais elevadas — seria empurrada para uma recessão aguda pelas medidas anti-inflacionárias que a situação então exigiria.

A estratégia econômica de Trump

A estratégia econômica de Donald Trump deve ser analisada neste contexto. É comum, em círculos liberais, descartar suas medidas econômicas como ações de um imbecil ou de uma mente desequilibrada; mas essa é uma leitura simplista demais da situação. Trump, pelo contrário, possui uma estratégia composta por dois elementos. Um deles é o compartilhamento, com outros países capitalistas avançados, do papel dos EUA como "defensores do mundo capitalista". A insistência de Trump em que os países europeus destinem 5% de seu PIB a gastos militares faz parte desse componente. Isso reduziria o déficit em conta corrente dos Estados Unidos.

O outro componente consiste em obter, para os Estados Unidos, as mesmas "vantagens" que a Grã-Bretanha extraiu de seu império colonial. Esse aspecto da estratégia equivale a uma recolonização do Sul Global. Se Trump ponderou plenamente as implicações de levar adiante esse projeto de recolonização, e se tal projeto realmente conseguiria superar a situação crítica em que o imperialismo norte-americano se encontra atualmente, são questões que não abordaremos aqui; o que nos interessa é a interpretação que se pode dar à estratégia de Trump.

Dizer que a tentativa é recolonizar o Sul Global não significa, obviamente, governá-lo por meio de vice-reis enviados de Washington; a ideia é contar com regimes dóceis no Sul que implementem políticas econômicas ditadas pelos Estados Unidos. A recolonização não implica superar o neoliberalismo — algo que, como vimos, a burguesia monopolista não deseja em lugar algum. Ela significa introduzir uma assimetria adicional na ordem neoliberal, na qual o Sul Global permanece preso ao neoliberalismo em sua forma pura, enquanto os Estados Unidos (e possivelmente o Norte Global) se afastam do neoliberalismo no que tange ao comércio, ao mesmo tempo em que o mantêm no que diz respeito à liberdade de movimento de capitais, incluindo os fluxos financeiros.

Tal assimetria acarreta, necessariamente, a transferência do peso da crise para os ombros do Sul Global, o que significa, na prática — visto que as burguesias monopolistas dos países do Sul teriam de ser cúmplices do novo regime econômico em implementação —, uma intensificação da pressão sobre o campesinato, a pequena burguesia, os pequenos capitalistas e, naturalmente, os trabalhadores urbanos e rurais do Sul Global.

Recolonização do Sul Global

Parte desse esforço de recolonização consiste em impor tratados comerciais desiguais dos Estados Unidos aos países do Sul Global, dos quais o tratado comercial indo-americano atualmente em negociação é um exemplo. (Ele já havia sido finalizado anteriormente, mas a decisão da Suprema Corte dos EUA contra as tarifas de Trump abriu caminho para renegociação, embora a nova versão final não deva ser muito diferente da anterior.)¹² De fato, a agressão tarifária de Trump pode ser vista como um instrumento para pressionar os países do Sul a aceitarem tais tratados desiguais como o “mal menor” em comparação com a alternativa de enfrentar tarifas americanas exorbitantes.

O tratado comercial indo-americano permite que os Estados Unidos imponham tarifas sobre produtos indianos, enquanto a Índia tem permissão para impor tarifas zero ou muito menores sobre produtos americanos. O tratado é uma forma de garantir que a Índia compre mais importações dos Estados Unidos, exatamente da mesma forma que as colônias eram obrigadas a comprar da Inglaterra sem ter a liberdade de proteger suas próprias economias. Não contente com isso, o tratado também estabelece metas específicas para o volume de importações que a Índia deve fazer dos Estados Unidos em datas determinadas; e essas metas são muito superiores aos níveis atuais de importações indianas provenientes dos Estados Unidos. É importante ressaltar que não existem metas correspondentes para as importações dos Estados Unidos da Índia, o que apenas reforça a natureza desigual do tratado. A imposição de metas tão absolutas vai além do que prevalecia no período colonial. Enquanto a Índia colonial, por exemplo, não tinha liberdade para impor tarifas sobre produtos britânicos, o volume real de importações da Grã-Bretanha no período colonial era determinado pela demanda vigente no mercado indiano. O tratado comercial indo-americano, contudo, não satisfeito com um acordo dessa natureza, estipula o quanto a Índia deve comprar dos Estados Unidos durante um determinado período! Como não há motivos para acreditar que os Estados Unidos sejam particularmente vingativos em relação à Índia, podemos esperar que tratados desiguais semelhantes sejam impostos a outros países do Sul Global.

Tais tratados impostos aos parceiros comerciais têm o efeito tanto de aumentar o emprego e a produção nos Estados Unidos por meio de uma política de "empobrecer o vizinho", quanto de reduzir o déficit comercial americano e, consequentemente, seu déficit em conta corrente. Eles elevam a produção e o emprego internos ao aumentar a demanda agregada por meio de um incremento nas exportações líquidas (isto é, em X-M), sem a necessidade de aumentar os gastos públicos; portanto, a questão de confrontar o capital financeiro internacional, aumentando o déficit fiscal ou os impostos sobre os ricos para financiar tais gastos públicos maiores, simplesmente não se coloca. Soluções para ambas as crises que o imperialismo americano enfrenta — estagnação da produção e um enorme déficit em conta corrente — estão sendo buscadas por meio de tais tratados desiguais, sem, simultaneamente, representar qualquer desafio à hegemonia do capital financeiro internacional.

Isso, contudo, é apenas uma parte do esforço de recolonização do Sul Global. A outra parte desse esforço reside na obtenção, pelos Estados Unidos, de fontes de matérias-primas cruciais, especialmente petróleo, localizadas no Sul. O ataque à Venezuela, que possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo; O sequestro do presidente da Venezuela e o ataque ao Irã, outro grande produtor de petróleo, são indicativos desse aspecto do esforço de recolonização. A reivindicação dos recursos da Groenlândia, que possui depósitos de terras raras, um insumo crucial para diversas atividades, também se enquadra nesse padrão.

Os Estados Unidos já são o maior produtor de petróleo do mundo; a apropriação dos recursos petrolíferos da Venezuela e do Irã (e de outros países que seriam posteriormente alvos) daria a Washington um domínio absoluto sobre a economia petrolífera mundial, que seria reforçado por sua proximidade com a Arábia Saudita e outros produtores de petróleo do Oriente Médio.

Esse controle férreo ajudaria os Estados Unidos de várias maneiras a manter a dominância do dólar. Em primeiro lugar, garantiria que o dólar permanecesse como meio de circulação na vasta maioria das transações de petróleo no mundo; em segundo lugar, asseguraria que a expectativa de estabilidade no preço do petróleo em dólares — o que evita qualquer mudança do dólar para o petróleo e, assim, mantém o valor "real" do dólar em relação ao mundo das *commodities* — permanecesse ainda mais firmemente consolidada; e, em terceiro lugar, ao abrir esses recursos petrolíferos à exploração por empresas dos EUA — que podem simplesmente apropriar-se de uma parcela desses recursos —, permitiria aos Estados Unidos obter uma "drenagem de excedente" exatamente da mesma forma que a Grã-Bretanha fazia com suas colônias; esse último aspecto ajudaria a reduzir o déficit em conta corrente dos EUA.

Embora a descolonização política após a Segunda Guerra Mundial tenha ocorrido de forma relativamente tranquila, ela foi seguida por uma descolonização econômica muito mais árdua, processo no qual os países do Sul Global buscaram retomar, das mãos do capital metropolitano, o controle sobre seus recursos naturais. A descolonização econômica enfrentou feroz resistência do imperialismo, que arquitetou golpes para derrubar governos que tentavam promover essa descolonização e até fomentou guerras civis para sabotar tais esforços. Casos de agressão contra Jacobo Árbenz na Guatemala, Mohammad Mossadegh no Irã, Gamal Abdel Nasser no Egito, Patrice Lumumba no Congo e Salvador Allende no Chile vêm prontamente à mente como tentativas visíveis de impedir a descolonização econômica. A União Soviética desempenhou um papel crucial ao derrotar muitas dessas tentativas imperialistas e ao apoiar o processo de descolonização econômica.

Trump insiste em reverter a descolonização econômica; mais do que isso, ele está abrindo um caminho totalmente novo nesse processo. Ele está, de fato, empreendendo ações militares diretas — diferentemente de fomentar golpes e coisas do gênero — para retomar, dos países do Sul, o controle sobre os recursos do Sul. O Irã é o exemplo clássico disso. Tal ação militar direta, sem qualquer motivo concebível além da apropriação de recursos, constitui um capítulo totalmente novo na história do imperialismo moderno.

A resistência do Sul Global

Os povos do Sul Global, no entanto, não aceitarão passivamente tal recolonização pelo imperialismo. Em muitos países do Sul, a grande burguesia — frustrada pelos obstáculos que o regime colonial impunha ao seu crescimento — havia aderido à luta pela independência e integrado a frente anticolonial; a Índia é um exemplo clássico. O que é certamente verdade é que a grande burguesia, e até mesmo um segmento da classe média alta urbana ansioso por enviar seus filhos para se estabelecerem em países metropolitanos, mudou de lado desde então e abandonou o campo anti-imperialista. Contudo, as outras classes que faziam parte da frente anticolonial — e que também seriam duramente atingidas pelo projeto de recolonização do imperialismo estadunidense — oferecerão uma resistência firme contra a recolonização.

Essa resistência, além disso, não se voltará apenas contra o imperialismo, mas também contra a burguesia monopolista interna; politicamente, ela também se dirigirá contra regimes neofascistas, onde quer que estes estejam no poder com o apoio da burguesia monopolista. Consequentemente, ela apresentará imensas possibilidades revolucionárias. É provável, portanto, que os próximos meses testemunhem lutas intensas no Sul Global — lutas que, sem dúvida, serão dolorosas, mas de grande importância histórica.

O que ocorre no Irã demonstra que a recolonização pelo imperialismo não será tarefa fácil. De fato, a resistência iraniana surpreendeu enormemente o imperialismo estadunidense. Se o Irã tivesse sucumbido facilmente, o imperialismo teria se sentido encorajado a levar adiante seu projeto de recolonização com ainda mais vigor e rapidez, e outros países do Sul Global teriam se sentido enfraquecidos em sua luta anti-imperialista. Existe, em outras palavras, uma dialética da resistência, na qual a firme resistência de um país fortalece a vontade de resistir de outros; existe também uma dialética do enfraquecimento, na qual a resposta fraca de um país à recolonização imperialista serve para desestimular outras nações. A luta intrépida travada pelo Irã atua como uma força revigorante para o Sul Global como um todo. Naturalmente, o imperialismo não abandonaria sua agenda de recolonização do Sul Global por causa da resistência iraniana, mas certamente veria o avanço dessa agenda desacelerado.

Notas

1 Joseph Stiglitz, “Inequality is Holding Back the Recovery,” New York Times, January 13, 2013.
2 A principal exceção a essas tendências salariais globais é a China, onde os salários têm aumentado de forma notável, impulsionados por políticas governamentais. Isso, no entanto, não invalida a constatação de uma participação crescente do excedente econômico na produção mundial como um todo e nos diversos países do mundo capitalista.
3 O argumento apresentado por Paul A. Baran e Paul M. Sweezy no contexto dos Estados Unidos, na obra Monopoly Capital (Nova York: Monthly Review Press, 1966), está sendo aplicado aqui ao mundo capitalista como um todo.
4 Este ponto é discutido com mais detalhes em Utsa Patnaik e Prabhat Patnaik, Capital and Imperialism (New York: Monthly Review Press, 2021).
5 Prabhat Patnaik, “Why Neoliberalism Needs Neofascists,” Boston Review, July 19, 2021.
6 O Japão foi o primeiro país a sair da Grande Depressão dessa maneira. A Alemanha seguiu o exemplo depois que Adolf Hitler chegou ao poder, em 1933.
7 Um estímulo fiscal coordenado envolvendo vários países para superar a Grande Depressão havia sido sugerido na década de 1930 por John Maynard Keynes, e também por um grupo de sindicalistas alemães, mas sem sucesso. Veja Charles P. Kindleberger, The World in Depression, 1929–1939 (Berkeley: University of California Press, 1973).
8 S. B. Saul, Studies in British Overseas Trade (Liverpool: University of Liverpool Press, 1960).
9 Para uma discussão e estimativa da “drenagem” da Índia para a Grã-Bretanha, veja Patnaik e Patnaik, Capital and Imperialism.
10 Joan Robinson, Economic Philosophy (Harmondsworth: Penguin, 1966).
11 Para uma apresentação detalhada deste argumento, veja Prabhat Patnaik, Accumulation and Stability Under Capitalism (Oxford: Clarendon, 1997), 81–86.
12 Para uma crítica detalhada deste tratado, veja Biswajit Dhar, “India Has Accepted Gross Asymmetry,” Frontline, February 23, 2026; veja também Prabhat Patnaik, “Modi Government’s Gymnastics to Defend the Indo-US Deal,” MR Online, March 4, 2026.

Prabhat Patnaik é professor emérito do Centro de Estudos Econômicos e Planejamento da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Délhi.

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