2 de dezembro de 2025

Partidarismo sem partido

A vitória de Zohran Mamdani baseou-se em organizações que assumiram as funções de construção de base e mobilização que, outrora, cabiam aos partidos.

Chris Maisano

Dissent

Zohran Mamdani em um jantar com apoiadores em março (Jack Califano)

Quando foi a última vez que ser de esquerda era divertido? Mesmo nos melhores momentos, apoiar o socialismo na América pode parecer realizar um dever sombrio diante de uma decepção quase certa. Os títulos dos capítulos em Burnout, a investigação de Hannah Proctor sobre as paisagens emocionais do ativismo de esquerda, são reveladores: Melancolia, Nostalgia, Depressão, Burnout, Exaustão, Amargura, Trauma, Luto. Uma das muitas virtudes da notável campanha de Zohran Mamdani para prefeito de Nova York era que nunca parecia assim, nem mesmo quando ele estava próximo às últimas posições nas pesquisas. Foi um ato coletivo de alegria durante um ano inteiro. Alegria real – não o breve “barato” de açúcar que surgiu quando Kamala Harris substituiu Joe Biden no topo da chapa democrata em 2024. Trabalhar voluntariamente para Mamdani nunca pareceu uma tarefa, mesmo quando o clima era ruim e menos eleitores apareciam para seu turno do que o esperado. Foi uma experiência fantástica do início ao fim, e nem tivemos que nos consolar com uma vitória moral. Desta vez, nós realmente vencemos.

Tendemos a falar sobre votação como um dever cívico, e sobre aumentar a participação eleitoral como uma preocupação elevada e de “bom governo”. A natureza da política em massa, porém, muitas vezes foi tudo menos contida e responsável. Michael McGerr começa seu livro The Decline of Popular Politics3 com um pitoresco relato de um “hasteamento de bandeira” do Partido Democrata em New Haven em 1876. Foi um evento tumultuado, repleto de desfiles com tochas, discursos em esquinas, bandas de metais, fogos de artifício, e, como cortesia de notáveis do partido local, rios de bebida. O espetáculo político não desapareceu, mas desde o advento da tecnologia moderna de comunicações tornou-se enormemente mediado. Em contraste, o historiador Richard Bensel descreveu a “pura fisicalidade da votação” e da política de partido no século XIX. As pessoas reuniam-se para as eleições, escreve Bensel, “simplesmente porque eram emocionantes, ricamente dotadas de temas etno-culturais de identidade, masculinidade, e reconhecimento mútuo da posição comunitária”. Era política partidária, em ambos os sentidos da palavra.

Esta era não deveria ser romantizada. Além do fato de que apenas homens podiam votar, a atmosfera de masculinidade embebida em álcool que permeava as campanhas eleitorais mantinha a maioria das mulheres afastadas, mesmo quando não degringolava em violência partidária e racial. Mesmo assim, é difícil não concordar com os cientistas políticos Daniel Schlozman e Sam Rosenfeld que os primeiros partidos de massa da América “deixaram uma cultura genuinamente popular e participatória” cuja “promessa ainda assombra a política americana”.

Muito se falou sobre o uso extremamente eficaz que Mamdani fez das redes sociais, dos vídeos em formato curto e de outros formatos digitais que dialogam com os eleitores mais jovens e desengajados – aqueles que muitas outras campanhas têm dificuldade em alcançar. Não há dúvida de que esse foi um ingrediente fundamental para o sucesso da campanha; as taxas historicamente altas de participação entre a geração Z e os eleitores recém-registrados atestam sua eficácia. Mas a fisicalidade pura da campanha de Mamdani – e o modo como ela usou a mídia digital para reunir as pessoas offline – tem sido subestimada.

Vejamos a gincana urbana organizada em agosto. Um convite foi lançado nas redes sociais numa noite de sábado e milhares de pessoas compareceram na manhã seguinte para percorrer sete pontos espalhados pelos distritos da cidade, cada um deles ligado à história local. O desmoralizado prefeito em exercício, Eric Adams, criticou a frivolidade: “Aposto que foi divertido para quem não tem mais o que fazer… Mamdani quer transformar nossa cidade em Round 6”. Um participante ofereceu uma visão diferente: “Acho que tentar se divertir na política, fazer um exercício de fortalecimento comunitário, um jeito de aprender sobre nossa cidade – nunca vi outro político fazer isso”.

A gincana foi apenas um exemplo da cultura popular e participativa da campanha. Grande parte dela aconteceu em espaços públicos e presenciais: comícios de massa, uma caminhada por toda a extensão de Manhattan, aparições surpresas em casas noturnas e shows, um exército de 100 mil voluntários que enfrentaram inúmeras abordagens diretas para bater em mais de 1 milhão de portas. Do início da primavera até as eleições gerais em novembro, a campanha assumiu a escala e o espírito de um movimento social – ou de uma campanha dos Knicks nos playoffs. Havia uma energia palpável na cidade – não apenas nos bairros que o analista de dados eleitorais de Nova York, Michael Lange, chamou de ‘Corredor Comunista”, povoado por jovens universitários de esquerda, mas também em Little Pakistan, Little Bangladesh, Parkchester e outros lugares onde quase não se vê uma bolsa do New Yorker.

Quando as urnas se fecharam, mais de 2 milhões de eleitores haviam votado – a maior participação numa eleição municipal em Nova York desde 1969. Mais de 1 milhão de eleitores, pouco mais da metade do eleitorado, votou em Mamdani. Ao mesmo tempo, mais de 850 mil votaram em Andrew Cuomo, que conseguiu consolidar grande parte do eleitorado republicano em sua tentativa de retornar à vida pública. Outros 146 mil votaram no candidato oficial do Partido Republicano, o eterno azarão Curtis Sliwa.

A vitória surpreendentemente decisiva de Mamdani nas primárias democratas foi impulsionada por suas bases eleitorais centrais: eleitores mais jovens, locatários com ensino superior e eleitores sul-asiáticos e muçulmanos, muitos dos quais participavam do processo eleitoral pela primeira vez. Ele levou essas bases consigo para a eleição geral, mas talvez não tivesse conseguido vencer o pleito final sem reunir também grandes contingentes de eleitores negros e hispânicos da classe trabalhadora. Como Lange demonstrou6, as regiões que mais migraram para Mamdani entre as primárias e a eleição geral foram bairros negros e hispânicos no Bronx, Brooklyn e Queens. Muitos eleitores negros e hispânicos com menos de 45 anos já estavam ao lado de Mamdani nas primárias, mas seus números na ocasião eram muito mais baixos entre seus pais e avós. Depois de garantir a nomeação democrata, sua campanha avançou ao construir relações com congregações de igrejas negras e organizações comunitárias, bem como com sindicatos cujos membros são desproporcionalmente negros e hispânicos. Ao reunir essas bases tão diversas na eleição geral, concluiu Lange, Mamdani renovou com êxito a promessa da Coalizão Arco-Íris para o século XXI.

Não apenas de pão

Explicar como Mamdani fez isso tornou-se uma espécie de teste de Rorschach para comentaristas. Boa parte dos comentários se concentrou na agenda de acessibilidade de sua campanha, que enfrentava a crise do custo de vida na cidade por meio de propostas como congelamento de aluguéis, tarifa zero nos ônibus municipais e implementação de creches universais, entre outras. Embora a ênfase de Mamdani na acessibilidade tenha sido necessária para garantir a vitória, e suas propostas econômicas fossem populares entre suas bases, ele não teria conseguido mobilizar a coalizão que mobilizou apenas com apelos materiais imediatos. As posições inequívocas de Mamdani em questões “não econômicas” – como o genocídio em Gaza ou as operações da imigração que aterrorizam comunidades imigrantes – construíram confiança justamente entre as pessoas de que ele precisava para integrar seu exército de voluntários ou comparecer às urnas pela primeira vez.

Ademais, a identidade de Mamdani como muçulmano de origem sul-asiática ativou, sem dúvida, eleitores desmobilizados, animados com a perspectiva de ver alguém como eles em Gracie Mansion.

O apoio à Palestina esteve alinhado com a oposição veemente de Mamdani ao ataque do governo Trump contra imigrantes, o que culminou num confronto improvisado com o “czar da fronteira” de Trump, Tom Homan, em março passado. Um vídeo do encontro, no qual Mamdani questionou Homan sobre a detenção ilegal do ativista palestino Mahmoud Khalil, circulou amplamente nas redes sociais e nas comunidades imigrantes. Tudo isso ajudou Mamdani a conectar seu programa econômico com a oposição à guinada autoritária do presidente. Ao fazer isso, ele atraiu eleitores imigrantes preocupados tanto com as operações da imigração quanto com o pagamento do aluguel, além de eleitores que esperam que seus representantes enfrentem agentes federais encapuzados que arrancam pessoas das ruas e as levam em carros descaracterizados. Ademais, a identidade de Mamdani como muçulmano de origem sul-asiática ativou, sem dúvida, eleitores desmobilizados, animados com a perspectiva de ver alguém como eles em Gracie Mansion. O aumento histórico de comparecimento que varreu bairros muçulmanos e sul-asiáticos nos distritos periféricos é inseparável da fé de Mamdani, de sua fluência cultural e de sua defesa aberta de outros muçulmanos contra a intolerância islâmica da campanha de Cuomo.

A seção nova-iorquina dos Socialistas Democratas da América (NYC-DSA) tem recebido muitos créditos pela vitória de Mamdani – e com razão. Mamdani é membro da DSA, assim como seu chefe de gabinete, diretor de campanha e outros assessores-chave. Os coordenadores de campo da campanha, que organizaram os turnos de abordagem eleitoral, eram desproporcionalmente membros da DSA (eu mesmo cocoordenei uma abordagem semanal no meu bairro no Brooklyn durante as primárias). Mas organizações enraizadas nas comunidades sul-asiáticas e muçulmanas merecem seu quinhão de crédito, incluindo Desis Rising Up and Moving (DRUM) Beats, o Muslim Democratic Club of New York, Bangladeshi Americans for Political Progress e grupos de afinidade de base como Paquistaneses por Zohran e Bangladeshis por Zohran. A mobilização dessas comunidades transformou o eleitorado e ajudou Mamdani a contrabalançar a força de Cuomo nos bairros que migraram acentuadamente para o ex-governador na eleição geral.

Seus organizadores são dedicados e tenazes, e muitos deles são mulheres.

Há quase 1 milhão de muçulmanos em Nova York, mas até a campanha de Mamdani eles eram um gigante adormecido na política local. Cerca de 350 mil muçulmanos estavam registrados, mas apenas 12% dos muçulmanos registrados compareceram às urnas na eleição municipal de 2021. A campanha de Mamdani transformou essa dinâmica por completo. O DRUM Beats – que possui bases organizativas no Bronx, Brooklyn e Queens, abrangendo diversas comunidades diaspóricas sul-asiáticas e indo-caribenhas – desempenhou um papel central. Seus organizadores são dedicados e tenazes, e muitos deles são mulheres. “Somos como uma gangue”, disse Kazi Fouzia, diretora de organização do grupo, a um repórter da Politico no verão passado.7 “Quando entramos em qualquer loja, as pessoas se afastam e dizem: ‘Ai, meu Deus. As líderes do DRUM estão aqui. As mulheres do DRUM estão aqui’”. Quando Mamdani saudou “todos os nova-iorquinos de Kensington e Midwood” em seu discurso de vitória, ele pensava nas dezenas de senhoras que se desdobraram batendo de porta em porta, enviando mensagens e fazendo ligações.

Em sua análise pós-eleitoral dos dados de votação, o DRUM Beats detalhou um aumento enorme no comparecimento nas comunidades onde atuam. Com base nos dados da Junta Eleitoral e em seus próprios modelos, estimaram que, de 2021 a 2025, a participação de sul-asiáticos disparou de 15,3% para quase 43%, enquanto a de muçulmanos saltou de pouco mais de 15% para mais de 34%. Embora representem apenas 7% dos eleitores registrados em Nova York, eles responderam por cerca de 15% dos votantes efetivos na eleição geral. Quase metade dos eleitores registrados de origem bangladeshiana e paquistanesa-americana participaram da eleição, superando a taxa geral de participação, de aproximadamente 42%. Esse feito histórico não surgiu do nada. A fé, a identidade e o talento bruto de Mamdani certamente não atrapalharam, mas pessoas na base vêm construindo infraestrutura cívica nesses bairros silenciosamente há anos. Em sua avaliação do crescimento da participação sul-asiática, o estrategista eleitoral Waleed Shahid observou que os locais com maiores avanços foram exatamente “os lugares onde o DRUM Beats e organizadores aliados passaram anos batendo de porta em porta, traduzindo propostas de votação, realizando reuniões de inquilinos em salas de oração em porões e construindo listas por meio de grupos e rumores no WhatsApp”. Tive a sorte de conhecer alguns desses organizadores durante a campanha. Sua capacidade de mobilizar imigrantes da classe trabalhadora, por tanto tempo ignorados, é formidável, e a vitória de Mamdani não pode ser explicada sem ela.

Mamdani reivindicou o legado de Fiorello La Guardia e Vito Marcantonio nos dias finais da campanha, e as ressonâncias históricas eram profundas. Shahid traçou um paralelo entre o momento atual e realinhamentos anteriores na história política da cidade, “quando grupos considerados ameaçadores ou estrangeiros se tornaram blocos eleitorais disciplinados: católicos irlandeses deixando de ser outsiders desprezados para se tornar o núcleo da máquina de Tammany; trabalhadores judeus e italianos transformando o Lower East Side num bastião trabalhista/socialista”. Eu mesmo sou produto da diáspora ítalo-americana nova-iorquina do século XX. Em salas repletas de senhoras sul-asiáticas por Zohran, usando lenços de cabeça e servindo a todos com bandejas de comida, vi pessoas que, em outra época, poderiam ser meus próprios parentes fazendo campanha para o “Pequeno Florescer”, a figura lendária a quem um dia disseram que Nova York não estava pronta para um prefeito italiano. Ao que parece, estava pronta para um prefeito italiano na época – e está pronta para um prefeito muçulmano agora.

Um teste para o “partidismo”

O retorno de Donald Trump à presidência deu início a uma guerra de documentos técnicos sobre a estratégia eleitoral do partido Democrata que pouco mostra sinais de cessar-fogo. Há uma variedade de prescrições estratégicas, mas muitas delas se enquadram em duas amplas – e infelizmente nomeadas – correntes: popularistas [popularists] e entreguistas (deliverists). Os popularistas tendem a vir da ala moderada do partido, mas nem sempre. Existe uma variedade esquerdista de popularismo, por exemplo, que encontra expressão em projetos como o Centro de Política para a Classe Trabalhadora. Talvez Ezra Klein tenha oferecido a definição mais clara da persuasão popularista: “Os democratas deveriam fazer muitas pesquisas para descobrir quais de suas opiniões são populares e quais não são, e então deveriam falar sobre as coisas populares e calar a boca sobre as impopulares”. O entreguismo, por outro lado, concentra-se menos na campanha e mais no governo. Como Matt Stoller resumiu num tuíte: “entregue resultados, e isso ajuda a vencer eleições. Não entregue, e você perde”. Quando os democratas estão no poder, devem implementar políticas ousadas que melhorem a vida das pessoas e depois colher os frutos de um eleitorado satisfeito.

O governo Biden foi, em muitos aspectos, um experimento entreguista que falhou em entregar.

Há um elemento de “óbvio, claro” em ambas as escolas de pensamento, mas as fraquezas são fáceis de identificar. O popularismo procura espelhar o estado atual da opinião pública em prol do sucesso eleitoral, mas a opinião pública é maleável e por vezes bastante volúvel. Basta observar os dados extremamente oscilantes sobre atitudes em relação à imigração desde as eleições de 2024 para perceber quão rapidamente seguir a opinião pública pode se tornar uma tarefa inútil. O entreguismo, por sua vez, pressupõe “uma relação linear e direta entre política econômica e as lealdades políticas das pessoas”, como colocaram Deepak Bhargava, Shahrzad Shams e Harry Hanbury.8 Mas não é assim que as pessoas reais costumam agir. O governo Biden foi, em muitos aspectos, um experimento entreguista que falhou em entregar. Implementou políticas que trouxeram benefícios tangíveis a milhões de pessoas, mas ainda assim não conseguiu impedir Trump de retornar à Casa Branca.

As limitações tanto do popularismo quanto do entreguismo abriram espaço para uma nova escola de pensamento, que aborda questões de estratégias eleitorais por um ângulo diferente (mas também tem um nome péssimo): o partidismo [partyism]. O cientista político Henry Farrell resumiu utilmente suas premissas9: o problema fundamental do Partido Democrata não é seu posicionamento ideológico, mas o fato de que não é um partido político em nenhum sentido real. ‘Se os democratas querem ter êxito”, escreve Farrell, precisam “construir o Partido Democrata como uma organização coerente que conecte líderes a pessoas comuns”. Em seu livro The Hollow Parties, Daniel Schlozman e Sam Rosenfeld traçam como os partidos Democrata e Republicano foram transformados em “bolhas” rivais de consultores, doadores, estrategistas e grupos de interesse. Sua crítica tem sido influente e informou uma série de propostas para transformar o Partido Democrata numa rede de instituições cívicas que engaje eleitores entre as eleições e opera uma mediação efetiva entre líderes e base.

A campanha de Mamdani foi, sem dúvida, o primeiro grande teste da abordagem partidista na prática. Embora não haja indicação de que os líderes e estrategistas da campanha tenham se apropriado conscientemente dessas ideias, não é difícil perceber as afinidades entre elas. A campanha trouxe eleitores novos e desengajados para o circuito por meio de atividades inéditas, como a gincana e a Cost of Living Classic – um torneio de futebol municipal realizado em Coney Island. Sua estrutura e musculatura não vieram do TikTok ou Instagram, mas de organizações cívicas enraizadas, como a NYC-DSA, o DRUM Beats, o United Auto Workers Region 9A e as mesquitas, sinagogas e igrejas que abriram suas portas ao candidato. Até quatro dos cinco comitês distritais do Partido Democrata na cidade o apoiaram, apesar de sua desconfiança histórica em relação a candidatos insurgentes da esquerda socialista democrata (apenas o comitê do Queens, reduto de apoiadores irremediáveis de Cuomo, o rejeitou). A vitória de Mamdani baseou-se, em grande medida, em organizações com membros reais que se engajam em atividades cívicas e políticas significativas.

De todas as organizações listadas acima, no entanto, as menos importantes, de longe, são os órgãos oficiais do Partido Democrata. A campanha de Mamdani pode ter incorporado uma política partidista emergente, mas trata-se de um partidismo sem o partido. A estratégia eleitoral da NYC-DSA, por exemplo, fundamenta-se no conceito de “substituto partidário” (party surrogate), proposto inicialmente por Seth Ackerman, da Jacobin, e desenvolvido pelo cientista político Adam Hilton e outros. Diante das dificuldades esmagadoras de se estabelecer com êxito um novo partido, Hilton propõe uma rede de organizações de base “voltadas à construção de uma base nas comunidades da classe trabalhadora e nos sindicatos, capaz também de atuar como um grupo de pressão independente e eficaz sobre o Partido Democrata”.10 Foi exatamente isso que Mamdani e outros candidatos socialistas fizeram. Os eleitores das primárias – e não as organizações partidárias – decidem as indicações de candidatos, o que reduz radicalmente os incentivos para transformar essas organizações. Por que preencher partidos ocos quando se pode fazer o mesmo fora deles?

Por enquanto, ao menos, projetos partidistas como o que impulsionou Mamdani ao estrelato político continuarão a gestar fora de qualquer organização partidária formal. A seção nova-iorquina da DSA dobrou de tamanho desde 2024, chegando a 13 mil membros, e esse número provavelmente continuará crescendo. Organizadores criaram uma nova organização chamada Our Time, focada em mobilizar voluntários de campanha em apoio à agenda de Mamdani após sua posse. A NYC-DSA, o DRUM Beats, sindicatos, grupos de inquilinos e outras organizações que apoiaram Mamdani durante a campanha estabeleceram uma coalizão formal chamada People’s Majority Alliance para fazer o mesmo, no nível da liderança organizacional. Assim, parece improvável que a coalizão de Mamdani se desmobilize como a de Barack Obama fez após 2008. São organizações independentes, constituídas fora das instituições oficiais do Partido Democrata, que assumem as funções de construção de base e mobilização que um partido exerceria diretamente na maioria dos outros sistemas políticos. Essa é a forma que a política popular e participativa assume na era dos partidos ocos, levantando a possibilidade de que uma cultura perdida, outrora sustentada por chefes de distrito, cabos eleitorais e donos de bares, possa renascer de uma nova maneira.

Reverter o MAGA exigirá falar às necessidades e aspirações populares e entregar resultados.

Reverter o MAGA exigirá falar às necessidades e aspirações populares e entregar resultados. Exigirá também desenvolver nossa capacidade de trabalhar juntos num espírito de cooperação democrática e exuberância pública. A campanha de Mamdani lançou as bases para isso em uma cidade, mas aqui e em outros lugares, ainda há muito a reconstruir.

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