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30 de julho de 2026

Reconstruindo o horizonte socialista

Originalmente apresentada como a palestra inaugural em memória de Eric Aarons, em Sydney (Austrália), esta ensaio examina a ascensão, a crise e a possível renovação do socialismo como movimento político voltado a uma sociedade livre da dominação de classe. Ao refletir sobre as experiências do planejamento de estilo soviético, da social-democracia do pós-guerra e da era neoliberal, o texto argumenta que os fracassos de projetos socialistas anteriores não esgotam as possibilidades de uma transformação socialista democrática.

Bhaskar Sunkara



Eric Aarons vivenciou as grandes derrotas do movimento socialista do século XX, mas recusou-se a permitir que essas derrotas tivessem a última palavra. Ele ingressou no Partido Comunista da Austrália ainda jovem. Acreditava, assim como milhões de pessoas ao redor do mundo, que estava do lado certo da história. Ao longo de décadas, testemunhou o desenrolar da história na realidade — viu o stalinismo revelar seus horrores, o movimento comunista oficial fragmentar-se e o compromisso social-democrata no Ocidente desgastar-se até ser finalmente rompido. No entanto, ele continuou lutando por um mundo melhor. Não retornando às certezas de sua juventude, nem avançando em direção às acomodações da política de centro, mas sim buscando caminhar rumo a uma nova política.

É com esse espírito que desejo falar esta noite. Pois estamos aqui reunidos como socialistas, como sindicalistas, como pessoas que desejam viver em um mundo melhor, décadas depois de o socialismo ter sido declarado morto. De fato, o movimento socialista que milhões de trabalhadores em todo o mundo construíram ao longo de 150 anos — os partidos, os sindicatos, as cooperativas, os jornais, as instituições culturais, as experiências de poder operário e de propriedade pública — ou desapareceu ou foi esvaziado.

Mas devemos insistir perante o mundo que o socialismo não estava errado. O socialismo sofreu derrotas.

Se o socialismo estava errado — se todo o projeto de organizar a sociedade em torno das necessidades humanas, em vez do lucro privado, não passava de um entusiasmo do século XIX que deveríamos superar —, então a única atitude honesta que resta àqueles que um dia se autodenominaram socialistas é administrar o capitalismo de forma mais humana. É aceitar, como diz o slogan capitalista, que não há alternativa.

Mas, se o socialismo sofreu derrotas — se foi vencido por uma combinação de seus inimigos, de seus próprios crimes e de seus próprios fracassos econômicos, mas não refutado em seus princípios —, então a situação é outra. Nesse caso, a tarefa que temos pela frente não é lamentar e nos acomodar, mas aprender, reconstruir e lutar novamente, com uma noção mais clara do que fizemos de errado e uma convicção mais profunda sobre o que fizemos de certo.

Quero argumentar, além disso, que uma esquerda sem um horizonte socialista não é uma política pela qual valha a pena lutar. Não apenas por causa da força moral do nosso objetivo, mas porque, sem ele, tornamo-nos reformistas mais fracos, e não mais pragmáticos. E perdemos algo que, de fato, nos conferia força na luta da classe trabalhadora. Perdemos a grande narrativa — aquela que, outrora, dizia aos trabalhadores comuns que eles não eram vítimas da história, carentes de caridade privada ou estatal, mas sim os autores da história.

Assim, nesta noite, quero fazer três coisas. Quero falar sobre o que o movimento socialista realmente conquistou antes de ser derrotado. Quero discutir as razões de sua derrota, tanto por fatores externos quanto internos. E, por fim, quero falar sobre o que um horizonte socialista poderia significar para nós hoje, em meio a todas as complexidades e aos desafios da nossa época.

Permitam-me começar pela conquista.

A história da esquerda moderna costuma ser narrada como uma história de fracassos. No entanto, pelo menos no que diz respeito à conquista do poder, nada poderia estar mais longe da verdade.

O movimento socialista moderno surgiu, em sua forma reconhecível, em meados do século XIX — com pequenos grupos de trabalhadores e artesãos confrontando uma sociedade industrial espetacular e aterrorizante. Em setenta anos, esses pequenos grupos haviam crescido e se tornado os maiores partidos políticos da Europa. Em cem anos, partidos que se autodenominavam socialistas ou comunistas governavam cerca de metade do planeta.

Não houve nada igual na história moderna. É preciso recuar até as primeiras conquistas islâmicas dos séculos VII e VIII para encontrar um movimento que tenha se espalhado tão longe e tão rápido — passando de alguns milhares de militantes na década de 1860 para o poder político, de alguma forma, abrangendo mais da metade da população mundial na década de 1960.

Hal Draper, um socialista americano e crítico contundente de todas as versões de socialismo realmente existentes, observou em 1966 que, "pela primeira vez na história do mundo, muito provavelmente a maioria de seus habitantes se autodenomina 'socialista', em um sentido ou em outro". Isso não era um projeto sectário. Tratava-se, segundo sua estimativa, da maioria dos seres humanos politicamente conscientes — em todos os continentes — identificando-se com alguma versão de uma ideia que, sessenta anos antes, pertencia apenas a alguns núcleos de trabalhadores ou intelectuais exilados.

Mas, antes de conquistar o poder estatal, o movimento socialista conquistou algo ainda mais notável. Ele conquistou uma cultura.

Nas vilas mineiras do País de Gales, mineiros pediam para ser enterrados com seus exemplares de O Manifesto Comunista, assim como uma geração anterior pedira para ser enterrada com suas Bíblias. Nos lares da classe trabalhadora por toda a Europa, retratos de líderes socialistas ocupavam o lugar onde antes pendiam ícones de santos. As festividades do antigo calendário religioso foram incorporadas a um novo calendário de greves, mártires seculares e feriados. Eric Hobsbawm registrou um anúncio feito no Vale do Pó, em 1891: "Os padres têm suas festas. O Primeiro de Maio é a festa dos trabalhadores de todo o mundo".

Isso não era apenas organização política. Tratava-se da construção de uma contracivilização no interior da antiga. Os trabalhadores tinham seus próprios jornais, clubes esportivos, corais, escolas, associações funerárias, teorias da história, heróis e feriados. Eles caminhavam pelas mesmas ruas que seus chefes, mas viviam, em certo sentido real, em um mundo diferente — um mundo com seu próprio horizonte moral e sua própria visão do que estava por vir.

E o que estava por vir, muitos acreditavam, era o socialismo.

Duas versões amplas desse futuro acabaram ganhando forma. Havia o socialismo dentro do capitalismo — o projeto social-democrata, que buscava humanizar o mercado por meio do poder da negociação coletiva e do Estado. E havia o socialismo fora do capitalismo — o projeto comunista, que buscava abolir completamente o mercado por meio da propriedade estatal e do planejamento central.

Ambos os projetos, em seu auge, transformaram a vida de centenas de milhões de pessoas. O que quer que se diga sobre o comunismo soviético — e eu venho de uma tradição socialista democrática extremamente crítica a ele —, é fato que ele pegou uma sociedade camponesa e a industrializou em uma geração, eliminou o analfabetismo, derrotou a Alemanha nazista no campo de batalha e ofereceu, para muitas pessoas no mundo colonizado, um modelo aparentemente funcional de como escapar da divisão imperialista do trabalho. E, quanto à social-democracia, a Suécia do pós-guerra sob Olof Palme figurou entre as sociedades mais decentes que já existiram. Ela apresentava pleno emprego, sindicatos fortes negociando em condições de igualdade (ou até de vantagem) com os empregadores e um Estado de bem-estar social universal. Isso significava dignidade real para os trabalhadores, tanto no chão de fábrica quanto na sociedade como um todo.

Mesmo muitos críticos de ambos os modelos os viam, pelo menos, como etapas em um caminho que milhões de pessoas acreditavam genuinamente levar, por fim, a uma sociedade na qual a grande divisão dos seres humanos em uma classe que detém a propriedade e uma classe que trabalha seria encerrada de vez.

Como passamos de vitórias imperfeitas ou parciais para a derrota?

A narrativa padrão, difundida por muitos na esquerda, é a de que o socialismo foi esmagado de fora para dentro. Pela Guerra Fria. Pelo imperialismo americano. Pela CIA. Pelo golpe de Pinochet, pela Operação Condor, pelas guerras sujas em todo o Sul Global. Pela contrarrevolução de Thatcher e Reagan. Pela pressão dos mercados de títulos que enquadrou François Mitterrand no início da década de 1980. Pelo trabalho longo e paciente de agentes do capitalismo por meio de seus think tanks, da mídia e de partidos políticos.

Parte dessa história é, naturalmente, verdadeira. O movimento socialista foi, de fato, alvo da mais persistente, bem financiada e implacável contraofensiva ideológica e militar da história moderna. Não devemos esquecer isso, nem tampouco quantos mártires o anticomunismo violento — da Indonésia ao Cone Sul — deixou pelo caminho. Mas, se contarmos a nós mesmos apenas essa história — se dissermos que fomos simplesmente derrotados por inimigos externos —, estaremos nos eximindo de responsabilidade de uma maneira que torna impossível aprender com os outros aspectos do que aconteceu. E devemos mais do que isso a Eric Aarons, e a todos aqueles que, como ele, dedicaram a vida a tentar compreender nossa derrota com honestidade.

A verdade é que o socialismo não foi derrotado apenas de fora. Foi derrotado também de dentro — por seus próprios crimes políticos e por seus próprios fracassos econômicos.

Os crimes políticos do movimento comunista do século XX não são uma calúnia inventada por propagandistas da Guerra Fria. Os gulags eram reais. Os terrores sangrentos e os expurgos eram reais. As fomes que mataram milhões na Ucrânia e na China eram reais. A destruição da livre expressão, dos sindicatos livres, da liberdade religiosa e da sociedade civil — isso também era real. E esses crimes foram cometidos não apenas por autoritários que fingiam ser socialistas, mas por pessoas que acreditavam — sinceramente, em muitos casos — estar construindo o futuro com o qual Karl Marx sonhara. Não podemos recorrer à falácia do "verdadeiro escocês" para nos defendermos. Essa foi a experiência histórica real do socialismo para milhões de pessoas.

Foi o que Rosa Luxemburgo previu: a substituição da classe pelo partido; a substituição do partido pelo Estado; a substituição do Estado pelo líder.

E a crença de que a história estava tão claramente do nosso lado — a crença que quero resgatar — foi usada para construir um universo moral no qual quaisquer meios empregados para acelerar a história eram justificados. Direitos individuais e o Estado de Direito eram vistos como coisas da burguesia. A convicção era a de que, uma vez assumido o controle dos setores estratégicos da economia, bastaria dar ordens para moldar o restante da sociedade conforme desejado.

Um socialismo que não compreenda, em sua essência, por que as decisões que moldaram o socialismo de Estado estavam erradas — não apenas taticamente, mas moralmente erradas — é um socialismo que não terá, nem deveria ter, futuro no século XXI.

No entanto, a maior parte da esquerda concorda quanto a essas questões políticas. Onde há menos autocrítica é em relação aos fracassos econômicos do socialismo.

O planejamento centralizado ao estilo soviético não entrou em colapso apenas devido à repressão política, à corrida armamentista ou às intrigas da CIA. Ele colapsou porque, segundo seus próprios critérios, não conseguiu entregar resultados. Nas décadas de 1970 e 1980, a disparidade entre o que o sistema prometia e o que ele produzia tornou-se impossível de ocultar.

A primeira razão foi o cálculo econômico. O Gosplan, a agência de planejamento soviética, era responsável por coordenar uma economia que abrangia quase 400 órgãos burocráticos, 43.000 fábricas, 26.000 empresas de construção, 47.000 unidades agrícolas, 260.000 estabelecimentos de serviços e mais de um milhão de pontos de venda no varejo — produzindo cerca de 12 milhões de produtos distintos, cada um exigindo os insumos certos, dos fornecedores certos, nos locais certos e nos prazos certos, com cadeias de suprimentos que se estendiam por onze fusos horários. Tudo isso somava dezenas de bilhões de variáveis, número que chegava à casa dos trilhões quando se ampliava o horizonte de planejamento ao longo do tempo.

Para planejar isso racionalmente, seria preciso saber o que cada empresa poderia produzir, o que cada família desejaria e como cada insumo se conectava a cada produto final. Ninguém poderia saber isso. Nem os economistas mais brilhantes do mundo. Nem o computador mais poderoso já construído ou que venha a sê-lo. A informação simplesmente não existe em uma forma que qualquer autoridade central possa coletar e processar. Assim, o que se tinha em seu lugar eram suposições — os números do ano anterior acrescidos de um pouco mais — sustentadas por uma vasta economia paralela e secreta de trocas, estocagem e acordos informais que os gerentes conduziam por fora para manter as coisas funcionando.

O segundo problema, relacionado ao primeiro, era o dos incentivos. Todo gerente entendia que os recursos do ano seguinte dependiam dos números relatados no ano corrente. Por isso, eles subestimavam sua capacidade projetada e superestimavam sua produção real. Eles acumulavam mão de obra e materiais. Eles mentiam. Os trabalhadores sob seu comando logo perceberam que superar uma meta significava apenas uma meta mais alta no trimestre seguinte. Empresas fracas nunca tinham permissão para falir, pois deixá-las quebrar significava desemprego e interrupção das cadeias de suprimento; logo, a ineficiência nunca era punida. Do Politburo ao chão de fábrica, toda a hierarquia tinha incentivos para distorcer a realidade de suas atividades.

Não eram falhas que pudessem ser corrigidas com um algoritmo melhor. Eram características da própria estrutura da economia de estilo soviético. E o que nós, como socialistas, temos de admitir é que não existe versão de planejamento administrativo que escape a esses problemas. O sonho de administrar uma economia moderna complexa puramente por meio do planejamento não deve — nem pode — ser resgatado.

Há também a social-democracia, cujo fracasso assumiu uma forma diferente. A social-democracia não fracassou por tentar abolir o capitalismo. Fracassou por tentar domar o capitalismo sem transcendê-lo.

Durante uma geração, sua fórmula básica funcionou. A social-democracia gerou sindicatos fortes, pleno emprego, um Estado de bem-estar social generoso, salários em ascensão e uma economia em crescimento que gerava excedente suficiente para financiar tudo isso.

No entanto, havia uma contradição no cerne do pacto social-democrata, e ele não sobreviveu ao momento em que o crescimento desacelerou. A social-democracia conferiu poder político aos trabalhadores, mas manteve a propriedade dos meios de produção em mãos privadas. Isso gerou um impasse permanente entre um movimento trabalhista poderoso e uma classe capitalista que ainda controlava os investimentos. Enquanto a "torta" crescia, o impasse era tolerável — havia o suficiente para salários, para lucros e, além disso, para o Estado de bem-estar social. Mas, no momento em que a torta parou de crescer, durante a estagflação da década de 1970, o impasse ruiu.

Os social-democratas suecos, na verdade, previram isso. Rudolf Meidner, o grande economista sueco, propôs um plano em 1976 para transferir gradualmente a propriedade de grandes empresas para fundos controlados pelos trabalhadores, utilizando uma parcela dos lucros anuais — uma verdadeira ponte da social-democracia para o socialismo, financiada pela contenção salarial que os trabalhadores já vinham praticando há décadas. Isso teria resolvido tanto as dificuldades econômicas quanto o impasse político da Suécia.

Mas o plano nunca se concretizou de forma viável, não apenas devido à oposição do capital, mas porque a própria liderança do Partido Social-Democrata Sueco não quis lutar por ele. Eles não estavam dispostos a mobilizar a classe trabalhadora para uma transformação das relações de propriedade. O plano foi diluído, depois esvaziado de seu conteúdo e, por fim, abandonado. E, pouco tempo depois, o capital sueco conseguiu resolver a crise da social-democracia à sua própria maneira, impulsionando uma longa campanha de liberalização que reduziu o Estado de bem-estar social sueco a uma sombra do que já foi.

Devemos tirar lições de ambos os fracassos.

O socialismo de estilo soviético fracassou porque não é possível administrar uma economia moderna e complexa sem preços, empresas autônomas e incentivos reais. A social-democracia fracassou porque tentou manter intacta a propriedade privada do capital; e uma classe capitalista que detém o controle de todas as alavancas de investimento acabará usando seu poder para desmontar quaisquer restrições que lhe tenham sido impostas. Esses dois fracassos foram imagens espelhadas um do outro.
Mas a lição desses fracassos não é que o socialismo seja impossível. A lição é que o socialismo precisa ser repensado em sua concepção técnica, sem que abandonemos nosso objetivo de uma sociedade livre de exploração ou opressão.

Antes de abordar como seria esse socialismo do século XXI, quero apresentar um argumento prático — e não apenas normativo — contra a moderação. Pois a tentação para uma Esquerda derrotada é dizer: "Esqueçam o socialismo; vamos falar apenas de bem-estar social, habitação pública ou salários mínimos mais altos. Essas são pautas viáveis. Por que sobrecarregá-las com essa palavra impopular, com esse sonho desacreditado?"

A primeira razão é que uma Esquerda sem um horizonte socialista não é sequer uma esquerda reformista mais eficaz. É uma esquerda reformista pior.

Reformas não são propostas políticas abstratas que flutuam pela história por seus próprios méritos. Reformas são conquistadas por movimentos. E os movimentos se sustentam por meio de histórias — histórias sobre quem são seus integrantes, por que eles importam, para onde estão indo e de que fazem parte. Um movimento que só consegue dizer "Queremos um seguro-desemprego mais generoso" é um movimento que não mobilizará a energia necessária para conquistar sequer esse benefício; isso porque o seguro-desemprego, por si só, não responde às perguntas que os trabalhadores realmente fazem ao considerar se devem dedicar uma noite, um sábado, uma carreira e, às vezes, a própria vida à ação política.

As questões mais importantes, eu diria, são na verdade mais fundamentais: Quem sou eu nesta sociedade? Por que os recursos são distribuídos da maneira que são? Para onde vamos como sociedade? Existe um futuro no qual nossos filhos herdarão algo melhor do que o que temos? Quem está impedindo a concretização desse futuro?

Os grandes partidos socialistas do início do século XX sabiam responder a essas perguntas. Eles podiam dizer a um mineiro galês que ele era herdeiro de uma tradição que ia dos *Levellers* aos Cartistas e às Internacionais operárias; que a carteirinha de seu sindicato ou partido significava pertencer a um movimento de milhões de trabalhadores ao redor do mundo; que a greve da qual ele estava prestes a participar era uma pequena escaramuça em uma luta global que, eventualmente — durante a vida de seus filhos ou netos —, marcaria o triunfo final do trabalho. Essa narrativa é que o tornava disposto a enfrentar o *lockout*, a ser espancado ou a perder o emprego. Não se tratava apenas do aumento salarial e da segurança material para sua família; era também a narrativa que conferia um significado profundo a esses sacrifícios.

Quando se retira essa narrativa, priva-se o nosso movimento de uma de suas maiores fontes de poder. Pede-se às pessoas que travem centenas de pequenas batalhas sem nunca lhes dizer qual é o objetivo dessas lutas.

Em segundo lugar, uma Esquerda sem um horizonte socialista acaba se tornando algo diferente de uma Esquerda. Ela se transforma em uma espécie de tecnocracia progressista: uma rede de especialistas em políticas públicas, funcionários de ONGs, consultores de comunicação e articuladores eleitorais que gerenciam os sintomas de um sistema que desistiram de tentar mudar.

Um progressismo que nada tem a dizer sobre classe — que fala apenas de identidade, ou apenas de pobreza, ou apenas de políticas públicas — não consegue fazer frente a uma Direita que tem muito a dizer sobre classe, mesmo que tudo o que ela diga seja mentira. A Direita dirá aos trabalhadores que seus inimigos são os imigrantes, as minorias ou a elite cultural. Um progressismo que se recusa a apontar os capitalistas e os ricos como inimigos deixa os trabalhadores sem nada para contrapor a essa narrativa, exceto a garantia de que seus sentimentos serão respeitados e suas identidades atribuídas serão honradas. A esquerda que vencer no século XXI será uma esquerda capaz de nomear o que está errado, nomear quem se beneficia disso e nomear o que queremos colocar em seu lugar.

E a terceira razão é que devemos isso às pessoas que vieram antes de nós.

O movimento socialista foi construído por pessoas que não tinham nenhuma razão objetiva para acreditar que venceriam. O mineiro galês que lia *O Manifesto Comunista* em 1890 tinha todos os motivos para pensar que sua vida seria curta, dura e esquecida. O operário têxtil russo em 1905 tinha todos os motivos para pensar que a autocracia duraria para sempre. O operário fabril em São Paulo, o estivador em Sydney, o metalúrgico em Turim, em 1920, acreditavam porque haviam decidido — contra as evidências — que não eram vítimas da história. Eles eram os autores da história. Eram os protagonistas de uma narrativa cujo desfecho ainda não havia sido escrito.

Essa confiança de alcance histórico mundial foi o que construiu todas as instituições que herdamos: a jornada de oito horas; o fim de semana; a aposentadoria; o hospital onde você nasceu; a escola que você frequentou; o sindicato que, se você tiver sorte, ainda o representa no trabalho. Nada disso caiu do céu. Essas conquistas foram arrancadas das mãos de quem não queria cedê-las, graças a movimentos de trabalhadores que acreditavam estar fazendo mais do que apenas negociar migalhas. Eles acreditavam que o futuro lhes pertencia.

E nós, que herdamos os frutos de sua luta, permitimo-nos contentar com menos. Encolhemos nosso horizonte para que coubesse em nossa atual fragilidade e, depois, nos perguntamos por que não conseguimos crescer.

Essa é a principal razão pela qual precisamos resgatar o horizonte do socialismo e uma linguagem que não se limite a fofocas parlamentares ou frases de efeito para a mídia, mas que abarque séculos e continentes. É por isso que, por mais antiquado que possa parecer, precisamos falar sobre socialismo e sobre a abolição da sociedade de classes. Sobre o fim da divisão milenar entre aqueles que comandam o trabalho e aqueles que o executam. Sobre um mundo organizado em torno de uma forma radical de democracia e igualdade.

É famosa a advertência de Marx contra a elaboração de receitas para as "cozinhas do futuro". Ele criticava, com razão, os socialistas utópicos de sua época. No entanto, em nosso mundo, o desafio é provar às pessoas que o socialismo não é apenas politicamente desejável, mas também tecnicamente possível.

Como resultado não apenas da propaganda capitalista, mas também dos fracassos reais de ambas as formas de socialismo do século XX, cresceu o ceticismo quanto ao futuro do socialismo. Será que assumir o controle democrático de uma economia complexa não acabaria gerando crises, colapsando em ineficiência ou degenerando em autoritarismo?

Afirmar que o socialismo é tecnicamente possível e que devemos esboçar projetos para ele não exige fingir que existe um modelo único e consolidado de socialismo apenas à espera de implementação. Exige, contudo, enfrentar um conjunto de questões incontornáveis ​​às quais qualquer alternativa credível deve responder.

Poderia uma economia socialista utilizar preços, lucros e concorrência para coordenar uma produção complexa sem reproduzir relações de dominação ou desigualdades significativas? Que incentivos estimulariam a eficiência e a inovação em uma economia composta por empresas geridas democraticamente? Como sustentar o crescimento da produtividade de modo a elevar continuamente os padrões de vida, evitar o desabastecimento e manter o progresso tecnológico, sem a insegurança generalizada que os trabalhadores enfrentam hoje? E qual papel caberia ao Estado na estabilização macroeconômica, na orientação dos investimentos e na implementação de prioridades democráticas, sem sufocar a iniciativa?

Permitam-me esboçar, muito brevemente, o que acredito ser um socialismo crível para o nosso século. Baseio-me aqui num livro que acabei de concluir com os meus colegas Mike Beggs e Ben Burgis. Chama-se The Blueprint: The Case for Socialism in the Real World, onde desenvolvemos estes argumentos mais a fundo.

Um socialismo do século XXI, como o descreveríamos, tem de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Tem de abolir a dependência do mercado — a condição em que a sobrevivência depende do sucesso no mercado — preservando, ao mesmo tempo, os mercados como uma ferramenta entre outras para coordenar uma economia complexa.

Na prática, isto significa desmercantilizar grandes áreas da vida. Saúde, educação, transportes, energia, habitação e telecomunicações são a infraestrutura da vida moderna. Organizar estas necessidades através de mercados, por meio de empresas que visam o lucro e que racionam com base no preço em vez da necessidade, é um erro (não só moralmente, mas também na prática), porque o resultado é um sistema que é simultaneamente mais desigual e menos eficiente do que a provisão pública.

Para além dessas esferas, como meus colegas e eu descrevemos em "The Blueprint", existe a economia mais ampla de bens e serviços, onde os problemas de coordenação são mais variados e onde os mercados continuam sendo importantes. No setor de mercado de uma economia composta por empresas governadas democraticamente, os sinais de preço ainda transmitiriam informações sobre oferta e demanda, ajudando a coordenar a produção e o consumo.

Mas o excedente gerado pela atividade econômica seria controlado por aqueles que o produzem. E o investimento seria alocado por meio de instituições financeiras públicas, e não por capitalistas. Dessa forma, os mercados podem funcionar como ferramentas de coordenação sem reproduzir as relações de poder do capitalismo.

Nesse contexto socialista, as empresas produtivas do setor de produção de mercadorias são controladas pelos trabalhadores, e não por acionistas externos ou capitalistas privados. Os direitos de governança estão vinculados à participação, não à propriedade financeira. A participação em uma empresa, portanto, assemelha-se à participação em uma comunidade política. Ela confere voz e controle democrático real no ponto de produção e impõe obrigações, mas não pode ser mercantilizada.

Essa mudança na governança exige uma mudança correspondente na forma como o investimento é organizado. Qualquer socialismo viável deve evitar restrições orçamentárias flexíveis e permitir que empresas ineficientes falhem enquanto as mais produtivas se expandem. De uma perspectiva igualitária, isso deveria ser senso comum. Por que desperdiçar o recurso mais valioso do mundo — o trabalho humano — em ineficiência?

Mas não se deve esperar que os trabalhadores em empresas democráticas contribuam com capital próprio, nem que vinculem suas economias pessoais ao destino de um único local de trabalho. Deixar as decisões de investimento a cargo de empresas individuais criaria distorções sistêmicas que destruiriam um sistema socialista. As disparidades na intensidade de capital, por exemplo, incentivariam os trabalhadores a se concentrarem em setores com alta intensidade de capital, enquanto a produção com uso intensivo de mão de obra e o setor público ficariam com falta de pessoal. Imagine todos querendo trabalhar em plataformas de petróleo ou em outro setor com alta intensidade de capital, onde os dividendos seriam enormes, em vez de trabalhar em uma creche.

Organizar a propriedade e o investimento como uma função social, em vez de uma função empresarial, é, portanto, essencial. Os bancos públicos desempenham esse papel ao deterem ativos produtivos em comum e alocarem capital em nome da sociedade como um todo. Dessa forma, as empresas operam com verdadeira autonomia, mantendo-se gestoras, e não proprietárias, da riqueza social. E o Estado pode empregar uma ampla gama de ferramentas macroeconômicas para influenciar a direção do desenvolvimento.

Um mecanismo adicional essencial para que tal economia permaneça eficiente e equitativa ao longo do tempo é o estabelecimento de salários mínimos, diferenciados por ocupação, para orientar seu desenvolvimento. Em vez de permitir que os mercados de trabalho classifiquem gerentes e trabalhadores puramente por meio do poder de negociação local ou de rendas setoriais, os salários de referência estabelecem um piso que reflete as prioridades coletivas em relação à dignidade, às habilidades e à contribuição social.

Empresas e setores que dependem de baixos salários e disciplina trabalhista seriam pressionados a inovar, reorganizar-se ou reduzir o tamanho de suas equipes. Aqueles que aumentam a produtividade por meio de novas técnicas, treinamento adicional ou melhorias tecnológicas seriam recompensados ​​com retornos mais altos. Dessa forma, a economia é direcionada para um caminho de desenvolvimento mais elevado que recompensa a inovação e o investimento, em vez de simplesmente explorar a mão de obra.

É claro que, em uma economia socialista, o objetivo de aumentar a produtividade não é um fim em si mesmo. O objetivo é a expansão do lazer, da segurança e, em última instância, do tempo fora da produção.

Um socialismo que simplesmente redistribui a renda sem mudar a forma como o tempo é organizado não cumpriria sua promessa. Mas um socialismo que combine redistribuição com propriedade social, investimento guiado democraticamente e estruturas salariais que recompensem a eficiência pode traduzir uma economia dinâmica em jornadas de trabalho mais curtas, vidas mais longas e maior liberdade sobre como essas vidas são vividas.

Este é apenas um esboço. Estou apresentando em cinco minutos quando mereceria cinco horas. Mas a questão é que precisamos discutir modelos de socialismo como parte de nossa luta por mudanças tanto a curto quanto a longo prazo.

Em última análise, o nosso objectivo como igualitários deve ser simplesmente o fim da sociedade de classes, não uma sociedade de classes ligeiramente mais justa, nem uma sociedade de classes com melhores redes de segurança, mas o fim da divisão da humanidade numa classe possuidora e numa classe trabalhadora. Seria a primeira sociedade, na maior parte do mundo, desde a Revolução Neolítica, que não está organizada em torno dessa divisão.

Eric Aarons dedicou sua vida à defesa dos trabalhadores e de um mundo melhor. Ele deu vida à convicção de que a sociedade em que vivemos não é a única sociedade em que poderíamos viver e que as pessoas comuns e organizadas são capazes de construir algo melhor.
Foi uma vida bem vivida.

Vivemos em uma época que tentou muito nos convencer de que as vidas de pessoas como Eric foram desperdiçadas. Que os organizadores, activistas partidários, activistas sindicais, professores e delegados sindicais que dedicaram as suas décadas ao movimento socialista estavam, no final, errados. Que apostaram no cavalo errado. Essa história já pronunciou o seu veredicto e esse veredicto foi contra ele.

Eu não poderia discordar mais.

Eric não estava errado. O mineiro galês enterrado com o seu exemplar do Manifesto Comunista não estava errado. O trabalhador têxtil russo, o metalúrgico italiano, o sindicalista sul-africano, o organizador camponês brasileiro, o estivador australiano, o socialista americano que fez campanha por Eugene Debs há cem anos, ou mesmo aquele que bateu de porta em porta por Zohran Mamdani no ano passado, nenhum deles estava errado. Eles não eram ingênuos. Eles não eram os tolos da história. Eram pessoas que olharam para o mundo que lhes foi dado e decidiram que não era bom o suficiente, e gastaram sua energia tentando construir algo melhor.

Só porque não terminaram o trabalho não significa que erraram ao iniciá-lo. E o facto de termos herdado os seus assuntos inacabados não diminui o que eles fizeram. Ele simplesmente nos impõe a obrigação de continuar o seu trabalho.

2 de julho de 2026

Jonathan Chait não compreende os socialistas que ataca

O artigo de Jonathan Chait na The Atlantic afirma que a Democratic Socialists of America (DSA) traiu o legado de seu fundador, Michael Harrington. O texto apresenta uma visão equivocada tanto da história da DSA quanto da organização tal como ela é hoje.

Bhaskar Sunkara

Jonathan Chait acredita que a Democratic Socialists of America (DSA) se tornou aquilo a que fundadores como Michael Harrington se opunham quando a criaram. Ele está completamente equivocado quanto à história. Não é difícil identificar o fio condutor que liga a DSA de Harrington à atual. (Adam Gray / Bloomberg via Getty Images)

Jonathan Chait publicou um artigo na The Atlantic alertando que a Democratic Socialists of America (DSA) tornou-se exatamente aquilo a que se opunha quando foi fundada. Não há nada de errado em um articulista liberal, em uma publicação liberal, criticar a esquerda socialista. Na verdade, isso é um bom sinal.

O movimento socialista nos Estados Unidos está crescendo. Suas fileiras voltam a incluir prefeitos e membros do Congresso, e eu ficaria mais confuso se os liberais estivessem satisfeitos com essa evolução.

O problema reside nos argumentos que Chait utiliza para criticar a DSA.

Sou membro da organização há quase toda a minha vida — já se vão duas décadas. Entrei ainda adolescente, atraído pela oposição da DSA à Guerra do Iraque e pelas minhas próprias leituras sobre marxismo e socialismo democrático, incluindo obras de figuras como Irving Howe e Michael Harrington. A DSA que encontrei no verão de 2007 estava repleta de pessoas muito mais velhas do que eu, politizadas pela longa história do século XX. Algumas haviam participado do movimento pelos direitos civis, enquanto outras vinham das lutas antiguerra e feministas da época da Guerra do Vietnã. Muitos pertenciam a uma corrente política conhecida como "Terceiro Campo", que passara a Guerra Fria opondo-se tanto a Washington quanto a Moscou. Havia debates acalorados na organização, mas era inegável o fato de estarmos estagnados em cinco ou seis mil membros e atuando, na melhor das hipóteses, como um parceiro minoritário em uma coalizão progressista mais ampla.

Hoje, a DSA atrai a atenção da mídia em todo o país, vence eleições importantes e conta com mais de 15 mil membros apenas na cidade de Nova York. Diante desse cenário, Chait afirma que "uma ironia trágica da história é que a Democratic Socialists of America foi formada em oposição àquilo em que se tornou". No entanto, o que vi ao longo dos anos não foi, de forma alguma, uma organização tomada por radicais e extremistas.

Tomemos como exemplo Darializa Avila Chevalier, figura central nos argumentos de Chait. Não vou analisar detalhadamente, ponto a ponto, as postagens antigas dela no Twitter. Concordo com algumas e discordo de outras. Mas estou muito mais interessado na campanha que ela realmente realizou — uma campanha focada na acessibilidade (de moradia e custo de vida) e enraizada na realidade das pessoas que ela representará, em Uptown e no Bronx. Não há nada na essência dessa campanha que um Harrington ou um Howe deixariam de reconhecer como socialista democrática, incluindo sua bandeira “Bebês, não bombas” — um chamado para redirecionar gastos militares para programas sociais internos.

Mais continuidade do que mudança

Comecemos pela democracia, o ponto mais importante da crítica de Chait. A DSA permanece comprometida com ela, tanto em sua vida interna quanto no mundo que deseja construir. As milhares de pessoas que aderiram à organização, vindas de todas as vertentes da esquerda existente, não diluíram esse compromisso. O fato de atuarem em uma organização de base como a DSA — em vez de grupos mais sectários ou marginais — é prova da hegemonia da teoria e da prática do socialismo democrático na esquerda atual, e não de seu colapso.

Quanto à política externa, Chait aponta algumas mudanças reais na DSA ao longo dos anos. Mas são mudanças esperadas de uma organização com raízes na Nova Esquerda e nos grupos que a sucederam — pessoas que testemunharam as ações do imperialismo norte-americano no Vietnã, na América Central e ao longo da "Guerra ao Terror" (bem como os efeitos da posição "shachtmanista" sobre a Guerra do Vietnã no movimento socialista dos Estados Unidos).

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, grande parte da organização enfatizou os fatores sobre os quais tinha influência interna: a OTAN e os erros reais da política externa dos EUA. Embora concordasse com essas críticas, eu pensava na época — e ainda penso — que deveria ter havido maior ênfase na denúncia da invasão e na expressão de solidariedade ao povo ucraniano. No entanto, como alguém que participa desses debates dentro da organização, posso afirmar que a ideia de que a DSA nutre simpatia por Moscou é absurda. De fato, os apelos iniciais da DSA por uma solução negociada estão se tornando um consenso crescente em todo o espectro político à medida que a guerra se prolonga.

Em relação à Palestina, houve uma mudança real e duradoura desde a fundação da DSA, na década de 1980. Diante dos acontecimentos dos últimos dois anos e da destruição de Gaza, é difícil sustentar o argumento de que o erro do movimento socialista americano é ser insuficientemente sionista. O que Chait interpreta como uma captura ideológica por radicais universitários é algo mais simples: uma mudança geracional — tanto dentro da coalizão democrata quanto muito além dela — que se afasta da defesa de um Estado de apartheid e se volta para a visão de que Israel, tal como constituído atualmente, é um obstáculo à paz para todos na região, inclusive para os judeus.

Parte da narrativa de Chait sobre a captura ideológica é a ideia — propagada erroneamente por alguns ex-membros da DSA — de que fomos capturados por radicais. Segundo a narrativa deles, “as barreiras de proteção que Harrington construiu para excluir comunistas” foram desmontadas.

Essa é uma maneira estranha de descrever o que realmente aconteceu. Essas barreiras originaram-se no New American Movement, e não na ala de Harrington durante a fusão que criou a DSA em 1982. Mais importante ainda: a regra não visava comunistas per se, mas sim pessoas submetidas à disciplina de organizações de centralismo democrático que buscavam transformar a DSA a partir de dentro. A DSA ainda mantém a prerrogativa de expulsar membros. O motivo pelo qual não se ouve falar do uso dessa medida é que a situação simplesmente não surgiu. Não estamos sendo infiltrados por quadros disciplinados; estamos sendo inundados por pessoas novas na esquerda e na política organizada de qualquer tipo. Além disso, a DSA de antigamente também nunca expurgou seus quadros. Nossa organização chegou a recusar a expulsão de um membro que havia sido preso e condenado anos antes como espião da Alemanha Oriental, sob o argumento de que, ao final da vida, ele havia se tornado um socialista democrático convicto.

Esse último detalhe toca em um ponto que escapa a toda a análise de Chait: as fronteiras entre “comunista”, “socialista” e “social-democrata” nunca foram tão nítidas quanto ele afirma. Todos faziam parte do mesmo movimento antes da Primeira Guerra Mundial e se dividiram em torno de questões fundamentais. No entanto, nos últimos anos, houve de fato uma convergência de meios pós-comunistas, pós-trotskistas e de esquerda social-democrata nas mesmas organizações ao redor do mundo. Para mim, isso representa um triunfo do socialismo democrático — que sobreviveu às provações do século XX —, e não um ponto negativo para o nosso movimento.

O que Harrington queria

A DSA de hoje reflete isso internamente, mesmo que muitos de seus membros não o reconheçam explicitamente. Ideologicamente, ela representa uma fusão de ideias socialistas e liberais: a crença na permanência da política, e não na busca por sua abolição; a crença no pluralismo como um bem em si mesmo; o reconhecimento de que nenhuma revolução elimina a discordância e a necessidade de mediação civil das diferenças. Esses compromissos não são tratados como heresia na DSA, na qual ainda atuo. Eles estão mais próximos do senso comum do que Chait imagina.

Mas Chait tem razão em um aspecto fundamental. Somos membros de uma organização que possui, para os padrões da América de 2026, objetivos bastante revolucionários. A DSA realmente almeja uma forma de democracia mais profunda e radical do que a que temos atualmente. O que Chait parece não saber é que essa ambição remonta diretamente a Michael Harrington e a todos os outros fundadores da organização. Em seus livros populares, Harrington defendia a expropriação da classe capitalista, uma democracia que se estendesse à economia e o controle dos meios de produção pelos trabalhadores.

Não é difícil identificar o fio condutor que liga a DSA de Michael Harrington à atual.

O que o diferenciava do restante da extrema-esquerda não era esse objetivo. Eram os seus meios — profundamente democráticos — e a sua insistência no pluralismo; naquilo que Irving Howe, em um ensaio de 1977 na revista Dissent, chamou de reconciliação entre o liberalismo filosófico e o socialismo. O argumento de Howe era que os socialistas deveriam preservar os acertos do liberalismo — sua defesa das liberdades civis, da liberdade de expressão e do pluralismo social —, ao mesmo tempo em que rejeitavam a defesa liberal da propriedade capitalista. Essa é uma tradição que ainda vejo na DSA de hoje.

Chait também tem razão ao afirmar que priorizamos questões como a acessibilidade de custos — aluguel, assistência médica e demandas que parecem mais viáveis ​​de conquistar. É claro que sim. Se você não consegue reunir poder político suficiente para reduzir os aluguéis ou conquistar um sistema universal de saúde, certamente não conseguirá socializar a economia.

No entanto, essa socialização da economia — a abolição das divisões de classe que existem na maioria dos lugares desde a Revolução Neolítica — tem sido um objetivo da DSA desde a sua fundação. Esse apelo foi uma das coisas que me levaram à minha primeira reunião, no verão de 2007. Não havia outro motivo para ingressar em uma organização socialista quando a esquerda em geral estava tão enfraquecida; nenhuma outra razão para passar anos no isolamento político, a não ser aquele compromisso, aparentemente excêntrico, com um mundo além do capitalismo.

A questão partidária

Para ser justo, muitas das preocupações de Chait giram em torno da questão partidária e do que a DSA planeja fazer com o partido ao qual ele próprio está vinculado: o Partido Democrata. Segundo sua análise, enquanto na época de Harrington os socialistas democráticos se dedicavam a construir e transformar os Democratas, a DSA de hoje adota uma abordagem muito mais instrumental. Acredito que essa visão simplifica uma história mais interessante.

Durante a maior parte da existência da DSA, houve um amplo consenso teórico em torno do "realinhamento" — a ideia de que o Partido Democrata poderia ser pressionado e remodelado para se tornar um verdadeiro veículo da social-democracia. Esse consenso surgiu da experiência: os movimentos insurgentes da "Nova Política" (New Politics) na década de 1970 e o fato de que o partido já havia passado por um realinhamento na memória recente — expurgando sua ala dos Dixiecrats (democratas conservadores do Sul), voltando-se para os direitos civis e impulsionando figuras como Ted Kennedy a apoiar medidas como o projeto de lei Humphrey-Hawkins sobre o pleno emprego; um esforço que o Comitê Organizador Socialista Democrático (DSOC, precursor da DSA fundado por Harrington) e, posteriormente, a própria DSA ajudaram a articular. Essa estratégia também era — como Chait certamente compreende — fortemente condicionada pela própria estrutura política americana, com seus partidos fracos e leis restritivas de acesso às cédulas eleitorais.

Em teoria, muitos membros da DSA rejeitam o realinhamento. Eu sou um deles. Na prática, porém, a organização está seguindo a cartilha de Harrington em sua forma mais ambiciosa: socialistas declarados concorrendo pela legenda democrata, vinculados a uma organização democrática de base. Além disso, encontram-se membros da DSA disputando e conquistando cargos internos no Partido Democrata, tanto em estados "azuis" (democratas) quanto "vermelhos" (republicanos), mesmo que isso não faça parte da estratégia nacional oficial. No entanto, esses esforços — que não são menos legítimos do que declarações de grupos internos (caucuses) — não ganham destaque nas polêmicas contra a DSA, pois isso seria inconveniente demais.

Harrington desejava exatamente esse tipo de organização: uma que tivesse democracia interna genuína e flexibilidade suficiente para cometer erros — chegando ao ponto de permitir, ocasionalmente, a entrada de um espião da Alemanha Oriental. Um homem que quisesse que os socialistas se dissolvessem silenciosamente no liberalismo não teria passado a vida fundando e defendendo uma organização socialista.

No entanto, enquanto não democratizarmos o sistema americano o suficiente para viabilizar uma democracia multipartidária — com eleições justas e cédulas abertas —, seria um erro evitar o uso de uma das duas legendas que realmente chegam aos eleitores. Se o rótulo de "socialista" ajuda ou prejudica o Partido Democrata é uma questão à parte — e uma questão legítima. Mas ser socialista é algo que Harrington abraçou, e que o vereador de Nova York Zohran Mamdani e uma nova geração de representantes eleitos abraçam, pela simples razão de que são socialistas. Eles queriam, e querem, algo mais do que um Estado de bem-estar social humanitário.

Os "Chaits" do mundo devem continuar a criticar nosso programa, nossa retórica e até mesmo nossos tuítes. Tudo isso é alvo legítimo de crítica. O que seria incorreto, no entanto, é rotular isso como um autoritarismo incipiente ou olhar para o movimento socialista das últimas três ou quatro décadas e enxergar mais ruptura do que continuidade. Não é difícil identificar o fio condutor que liga a DSA de Harrington à atual.

O medo oposto

Sob todos os aspectos, a DSA de 2026 é uma organização melhor do que aquela à qual me juntei em 2007. Mas minha verdadeira preocupação é quase o oposto daquela que Chait tem. Ele teme que o antigo socialismo democrático esteja sendo sufocado por uma camarilha de ultraesquerdistas. Meu medo vai na direção contrária. O resultado mais provável de eleger tantos socialistas não é uma guinada em direção a um comunismo autoritário, mas sim uma nova onda de reformistas que governam com competência, criam bons empregos e consagram a saúde como um direito, mas que não têm caminho — nem mesmo desejo — para uma sociedade livre da exploração e da dominação capitalistas.

Chait teme que sejamos radicais demais para que se confie o poder a nós. Eu temo que, uma vez com o poder, não sejamos radicais o suficiente para concluir o que Harrington começou.

Colaborador

Bhaskar Sunkara é o editor fundador da Jacobin, presidente da revista The Nation e autor de The Socialist Manifesto: The Case for Radical Politics in an Era of Extreme Inequality.

28 de dezembro de 2023

Do Chile a Granada, o socialismo é o que os capitalistas realmente temem

A história da política socialista no Sul Global mostra que todos os capitalistas desejam um governo que governe sem hesitação em seus interesses — e preferem a intervenção de potências estrangeiras do que a democracia e o socialismo em casa.

Bhaskar Sunkara

Salvador Allende. (Portada Biblioteca do Congresso Nacional do Chile via Wikimedia Commons)

Adaptado de comentários em Santiago, Chile, no quinquagésimo aniversário do golpe contra o governo de Salvador Allende.

Hoje, com muita frequência, estudamos o governo de Salvador Allende com nostalgia, como uma história de luta heroica e martírio. Mas Allende não deve ser lembrado como alguém que acreditava em um futuro vagamente progressista — devemos nos lembrar dele e dos milhões ao seu redor como aqueles que se sacrificaram pelo socialismo.

Vestir a camisa do socialismo hoje significa aprender com nossa história e traçar caminhos para não apenas domar, mas superar o capitalismo.

Moro e me organizo nos Estados Unidos, mas minha família é do Caribe anglófono. E, para a nossa região das Américas, a tentativa mais significativa de construção socialista surgiu da pequena ilha de Granada, que testemunhou uma revolução popular contra uma ditadura brutal em março de 1979.

Em outubro de 1983, dez anos após o golpe contra o governo Allende, o experimento havia terminado. Primeiro, o imperialismo tentou desestabilizar a economia. Ao contrário do Chile, as potências imperiais não obtiveram sucesso, mas a paranoia e as pressões a que o jovem governo foi submetido levaram à divisão, ao endurecimento político e ao fratricídio.

E ao primeiro sinal de fraqueza, Washington inventou um pretexto para uma invasão em larga escala de uma ilha de apenas cem mil habitantes.

No final de 1983, dezenas de granadinos e seus aliados estavam mortos, e os líderes da revolução foram assassinados ou presos. A memória da única revolução socialista do mundo anglófono foi suprimida ou trazida à tona apenas como um alerta contra mudanças radicais.

É importante entendermos o que tanto ameaçava os Estados Unidos: a classe capitalista estadunidense é a grande organizadora do atual sistema capitalista mundial. Às vezes, como no golpe de 1954 na Guatemala, o governo dos EUA recebe ordens de grandes corporações nacionais. Mas, ao longo da maior parte da história moderna, seu interesse era, mais vagamente, apoiar o livre fluxo de investimentos. E sua principal ameaça não era a ascensão de uma grande potência capitalista alternativa na região, como o Brasil ou a Argentina, mas a ascensão de um sistema alternativo — o socialismo.

Antigamente, imperialismo significava apenas capitalismos nacionais usando o poder militar de seus estados nacionais; agora temos um sistema de Estados nacionais, sob a liderança dos Estados Unidos, supervisionando uma economia capitalista internacional.

Nesse contexto, não existe uma burguesia nacional progressista. É claro que os capitais nacionais podem ser coagidos a proporcionar crescimento, que é a matéria-prima do progresso social, material e cultural para qualquer governo que tente administrar um Estado capitalista no interesse dos trabalhadores. Políticas estatais podem ser usadas para moldar o desenvolvimento e alcançar objetivos igualitários, lucros podem ser tributados e distribuídos, e assim por diante.

No entanto, a ideia de que exista um núcleo de capitalistas leais dispostos a defender os interesses nacionais contra o imperialismo internacional é um mito. Da pequena Granada ao Chile, todos os capitalistas querem um governo que governe sem remorso em defesa de seus interesses — e preferem a intervenção de potências estrangeiras às restrições democráticas de seus compatriotas.

Washington hoje, ainda mais do que em 1973, não é onipotente. Pode ajudar crucialmente os capitalistas nacionais, mas não pode controlar os eventos mundiais.

Décadas de guerra dos EUA no Vietnã resultaram em um governo comunista e um país unificado. Anos de guerra no Iraque resultaram em um Estado mais favorável ao Irã do que aos Estados Unidos. Recentemente, em Granada, o aeroporto internacional que os Estados Unidos insistiram ser uma base soviética de caças MIG e invadiram para desmantelar foi finalmente construído e recebeu o nome do líder socialista martirizado do país, Maurice Bishop.

Os Estados Unidos deram total apoio ao golpe hondurenho durante o governo Obama. Mas, sob o governo Biden, foram forçados a ser muito mais cautelosos com os acontecimentos na Bolívia e no Brasil. A unidade dos povos das Américas, incluindo os trabalhadores dos Estados Unidos, pode fazer muito para restringir a capacidade do imperialismo de minar a esquerda, mesmo no curto prazo.

Mas não deve haver engano: Allende era uma ameaça maior aos interesses dos EUA e aos interesses do capitalismo global do que qualquer governo que existe hoje em nosso hemisfério, com exceção, desde aquela época, de Cuba.

Para honrar Allende, Bishop, e os sacrifícios de gerações anteriores de revolucionários, precisamos construir um caminho não apenas para a independência nacional e a oposição a Washington, mas para o socialismo e a reconstrução de um mundo alinhado aos interesses dos trabalhadores comuns.

Bhaskar Sunkara é o editor-fundador da Jacobin, presidente da revista Nation e autor de The Socialist Manifesto: The Case for Radical Politics in an Era of Extreme Inequality.

29 de novembro de 2023

O veredicto sobre Henry Kissinger

Nos Estados Unidos, um dos açougueiros mais prolíficos do século XX morreu como viveu: amado pelos ricos e poderosos, independentemente de sua filiação partidária.

Bhaskar Sunkara, René Rojas, Jonah Walters


Henry Kissinger. (Brandon Downey / Flickr)

Encomende The Good Die Young, o livro da Jacobin que serve como um anti-obituário para Henry Kissinger, com contribuições de Carolyn Eisenberg, Gerald Horne, Greg Grandin (vencedor do Prêmio Bancroft) e outros. Disponível agora pela Verso.

Henry Kissinger está morto. A mídia já está produzindo denúncias fervorosas e calorosas lembranças em igual medida. Talvez nenhum outro personagem na história americana do século XX seja tão polarizante, tão veementemente repudiado por alguns quanto é reverenciado por outros.

Ainda assim, há um ponto sobre o qual todos podemos concordar: Kissinger não deixou um cadáver exquisito. Os obituários podem descrevê-lo como afável, professoral, até carismático. Mas certamente ninguém, nem mesmo os bajuladores de carreira como Niall Ferguson, historiador e comentarista político conservador britânico, ousará elogiar o titã caído como sexy.

Como os tempos mudaram.

Na época em que Kissinger era conselheiro de segurança nacional, a Women’s Wear Daily publicou um perfil jocoso do jovem estadista, descrevendo-o como “o símbolo sexual da administração Nixon”. Em 1969, segundo o perfil, Kissinger compareceu a uma festa cheia de socialites de Washington com um envelope marcado como “Top Secret” sob o braço. Os outros convidados mal podiam conter sua curiosidade, então Kissinger desviou suas perguntas com uma piada: o envelope continha sua cópia da última revista Playboy. (Hugh Hefner aparentemente achou isso muito engraçado e, a partir daí, garantiu que o conselheiro de segurança nacional recebesse uma assinatura gratuita.)

O que o envelope realmente continha era uma cópia do discurso “maioria silenciosa” de Nixon, um discurso agora infame que visava traçar uma linha nítida entre a decadência moral dos liberais anti-guerra e o realpolitik inabalável de Nixon.

Durante a década de 1970, enquanto planejava bombardeios ilegais no Laos e no Camboja e possibilitava o genocídio em Timor-Leste e no Paquistão Oriental, Kissinger era conhecido entre os socialites de Washington como “o playboy da ala ocidental”. Ele gostava de ser fotografado, e os fotógrafos atendiam. Ele era presença constante nas páginas de fofocas, especialmente quando seus flertes com mulheres famosas se tornavam públicos — como quando ele e a atriz Jill St. John inadvertidamente dispararam o alarme em sua mansão em Hollywood tarde da noite enquanto se dirigiam à piscina dela. (“Eu estava ensinando xadrez a ela”, explicou Kissinger mais tarde.)

Enquanto Kissinger se divertia com a alta sociedade de Washington, ele e o presidente — uma dupla tão firmemente unida que Isaiah Berlin os apelidou de “Nixonger” — estavam ocupados criando uma marca política baseada em seu suposto desprezo pela elite liberal, cuja moral efeminada, afirmavam eles, só poderia levar à paralisia. Kissinger certamente desprezava o movimento anti-guerra, menosprezando os manifestantes como “filhos da classe média alta” e advertindo: “As mesmas pessoas que gritam ‘Poder para o Povo’ não vão ser as pessoas que assumirão este país se isso se transformar em um teste de força.” Ele também desprezava as mulheres: “Para mim, as mulheres não são mais do que um passatempo, um hobby. Ninguém dedica muito tempo a um hobby.” Mas é inegável que Kissinger tinha uma predileção pelo liberalismo dourado da alta sociedade, as festas exclusivas e jantares de bife e flashes de câmera.

E, para não esquecermos, a alta sociedade dos Estados Unidos, mas também do mundo inteiro, o amava de volta. Gloria Steinem, uma companheira de jantar ocasional, chamava Kissinger de “o único homem interessante na administração Nixon”. A colunista de fofocas Joyce Haber o descrevia como “mundano, humorado, sofisticado e um cavalheiro com as mulheres”. Hugh Hefner o considerava um amigo e afirmou uma vez em público que uma pesquisa com suas modelos revelou que Kissinger era o homem mais desejado para encontros na mansão da Playboy.

Essa paixão não terminou nos anos 1970. Quando Kissinger completou noventa anos em 2013, sua festa de aniversário no tapete vermelho foi frequentada por uma multidão bipartidária que incluía Michael Bloomberg, Roger Ailes, Barbara Walters, até o “veterano pela paz” John Kerry, junto com cerca de 300 outras personalidades de destaque. Um artigo na Women’s Wear Daily — eles continuaram cobrindo Kissinger no novo milênio — relatou que Bill Clinton e John McCain fizeram os brindes de aniversário em uma sala de baile decorada com chinoiserie, para agradar ao convidado de honra da noite. (McCain, que passou mais de cinco anos como prisioneiro de guerra, descreveu seu “maravilhoso afeto” por Kissinger, “por causa da Guerra do Vietnã, que foi algo enormemente impactante para ambos os nossos vidas.”) O próprio aniversariante subiu ao palco, onde “lembrou aos convidados sobre o ritmo da história” e aproveitou a ocasião para pregar o evangelho de sua causa favorita: o bipartidarismo.

A capacidade de Kissinger para o bipartidarismo era renomada. (Os republicanos Condoleezza Rice e Donald Rumsfeld estavam presentes no início da noite, e mais tarde, durante a noite, a democrata Hillary Clinton entrou por uma entrada de carga de braços abertos, perguntando: “Prontos para a segunda rodada?”) Durante a festa, McCain elogiou Kissinger, dizendo: “Ele foi consultor e conselheiro de todos os presidentes, republicanos e democratas, desde Nixon.” O senador McCain provavelmente falou por todos na sala quando continuou: “Eu não conheço ninguém que seja mais respeitado no mundo do que Henry Kissinger.”

Na verdade, grande parte do mundo detestava Henry Kissinger. O ex-secretário de Estado evitava visitar vários países por medo de ser detido e acusado de crimes de guerra. Em 2002, por exemplo, um tribunal chileno exigiu que ele respondesse perguntas sobre seu papel no golpe de estado chileno de 1973. Em 2001, um juiz francês enviou policiais ao quarto de hotel de Kissinger em Paris para lhe entregar um pedido formal de interrogatório sobre o mesmo golpe, durante o qual vários cidadãos franceses desapareceram. (Aparentemente, sem se abalar, o ex-estadista transformado em consultor privado encaminhou o assunto ao Departamento de Estado e embarcou em um avião para a Itália.) Ao mesmo tempo, ele cancelou uma viagem ao Brasil depois que rumores começaram a circular de que ele seria detido e obrigado a responder perguntas sobre seu papel na Operação Condor, o esquema dos anos 1970 que uniu ditaduras sul-americanas no desaparecimento dos opositores exilados uns dos outros. Um juiz argentino que investigava a operação já havia nomeado Kissinger como um possível “réu ou suspeito” em uma futura acusação criminal.

Mas nos Estados Unidos, Kissinger era intocável. Lá, um dos mais prolíficos carniceiros do século XX morreu como viveu — amado pelos ricos e poderosos, independentemente de sua filiação partidária. A razão da apelação bipartidária de Kissinger é direta: ele foi um dos principais estrategistas do império de capital dos Estados Unidos em um momento crítico no desenvolvimento desse império.

Não é de surpreender que o establishment político considerasse Kissinger um ativo e não uma aberração. Ele personificava o que os dois partidos dominantes compartilham: um compromisso de manter o capitalismo e a determinação de garantir condições favoráveis para os investidores americanos em grande parte do mundo. Desprovido de vergonha e inibição, Kissinger conseguiu guiar o império americano por um período perigoso na história mundial, quando o domínio global dos Estados Unidos às vezes parecia à beira do colapso.

Em um período anterior, a política de preservação capitalista era uma questão relativamente simples. Rivalidades entre as potências capitalistas avançadas levavam periodicamente a guerras espetaculares, que estabeleciam hierarquias entre as nações capitalistas, mas faziam relativamente pouco para interromper a marcha do capital pelo mundo. (Como bônus adicional, porque essas conflagrações eram tão destrutivas, ofereciam oportunidades regulares para novos investimentos — uma maneira de adiar as crises de superprodução endêmicas ao desenvolvimento capitalista.)

É verdade que, à medida que as metrópoles capitalistas afirmavam controle sobre os territórios que conquistavam em todo o mundo, o imperialismo enfrentava oposição em massa dos oprimidos. Movimentos anticoloniais surgiram para desafiar os termos do desenvolvimento global em todos os lugares onde o colonialismo foi estabelecido, mas, com algumas exceções notáveis, esses movimentos não conseguiram repelir as potências imperiais agressivas. Mesmo quando as lutas anticoloniais foram bem-sucedidas, soltar as amarras de uma potência imperial muitas vezes significava expor-se à invasão de outra — nas Américas, por exemplo, a retirada dos espanhóis de suas colônias ultramarinas significou que os Estados Unidos assumiram o papel de nova hegemonia regional no início do século XX, afirmando sua dominação sobre lugares que, como Porto Rico, os líderes americanos consideravam “estrangeiros em sentido doméstico“. Ao longo desse tempo, o colonialismo — assim como o capitalismo — muitas vezes parecia praticamente inquebrável.

Mas após a Segunda Guerra Mundial, o eixo da política global mudou.

Quando a fumaça finalmente se dissipou sobre a Europa, revelou um mundo que era quase irreconhecível para as elites. Londres estava em ruínas. A Alemanha estava dividida, partilhada por dois de seus rivais. O Japão foi efetivamente anexado pelos Estados Unidos, para ser remodelado à imagem dessa nação. A União Soviética havia gerado uma economia industrial com uma velocidade incomparável e agora detinha verdadeira influência geopolítica. Os Estados Unidos, por sua vez, em apenas algumas gerações, haviam substituído a Grã-Bretanha como uma potência militar e econômica sem rival no palco mundial.

Mas, mais importante, a Segunda Guerra Mundial forneceu um sinal definitivo às pessoas em todo o mundo colonizado de que o colonialismo era insustentável. A supremacia europeia estava nos estertores da morte. Um período histórico caracterizado por guerras entre potências do Primeiro Mundo (ou Norte Global) deu lugar a um período de conflitos anti-coloniais sustentados no Terceiro Mundo (ou Sul Global).

Os Estados Unidos, emergindo da Segunda Guerra Mundial como o novo hegemon mundial, teriam estado em desvantagem em qualquer realinhamento global que restringisse o livre movimento do capital de investimento americano. Nesse contexto, o país assumiu um novo papel geopolítico. No pós-Segunda Guerra Mundial, na era de Kissinger, os Estados Unidos se tornaram o garante do sistema capitalista global.

No entanto, garantir a saúde do sistema como um todo nem sempre era o mesmo que garantir a predominância das empresas americanas. Na verdade, o Estado americano precisava administrar uma ordem mundial propícia ao desenvolvimento e florescimento de uma classe capitalista internacional. Os Estados Unidos se tornaram o principal arquiteto do capitalismo atlântico pós-guerra — um regime comercial que ligava os interesses econômicos do Oeste Europeu e do Japão às estratégias corporativas americanas. Em outras palavras, para preservar uma ordem capitalista global que defendesse principalmente os negócios americanos — não as empresas —, os Estados Unidos precisavam fomentar o desenvolvimento capitalista bem-sucedido de seus rivais. Isso significava gerar novos centros capitalistas, como o Japão, e facilitar o restabelecimento de economias europeias saudáveis.

Como sabemos, as metrópoles europeias estavam rapidamente se distanciando de suas colônias. Movimentos de libertação nacional ameaçavam os interesses centrais que os Estados Unidos se comprometeram a proteger, perturbando o mercado mundial unificado que o país desejava coordenar. A promoção dos interesses americanos, portanto, adquiriu uma dimensão geopolítica mais ampla. A elite do poder em Washington comprometeu-se a derrotar desafios à hegemonia capitalista onde quer que surgissem no mundo. Para esse fim, o estado de segurança nacional americano empregou uma variedade de meios: apoio militar a regimes reacionários; sanções econômicas; interferência em eleições; coerção; manipulação do comércio; negociações táticas de armas; e, em alguns casos, intervenção militar direta.

Ao longo de sua carreira, o que mais preocupava Kissinger era a possibilidade iminente de que países subordinados pudessem agir por conta própria para criar uma esfera de influência e comércio alternativa. Os Estados Unidos não hesitaram em pôr fim a tais iniciativas independentes quando surgiram. Se um país resistisse ao caminho estabelecido para ele pelas condições do desenvolvimento capitalista global, os americanos subjugariam o desafiante. A desobediência simplesmente não podia ser tolerada, não quando havia tanta riqueza e poder político em jogo. Durante sua vida, Kissinger representou essa política. Ele entendia seus objetivos e requisitos estratégicos melhor do que qualquer pessoa na classe dominante dos Estados Unidos.

Portanto, as políticas específicas que Kissinger perseguiu eram menos sobre promover os lucros das corporações americanas e mais sobre garantir condições saudáveis para o capital como um todo. Este é um ponto importante, frequentemente negligenciado em estudos simplistas do império dos EUA. Com muita frequência, os radicais assumem uma ligação direta entre os interesses de corporações americanas específicas no exterior e as ações do estado americano. E em alguns casos, essa suposição pode ser apoiada pela história, como a remoção do reformador social guatemalteco Jacobo Árbenz pelo exército dos EUA em 1954, em parte devido ao lobby da United Fruit Company.

Mas em outros casos, especialmente aqueles que encontramos nas complexidades da carreira de Kissinger, essa suposição obscurece mais do que revela. Após o golpe contra Salvador Allende no Chile, por exemplo, a administração Nixon não pressionou seus aliados na junta de direita para devolver as minas nacionalizadas anteriormente às empresas americanas Kennecott e Anaconda. Devolver propriedades confiscadas a empresas americanas era uma questão secundária. O objetivo principal de Nixon foi alcançado no momento em que Allende foi removido do poder: o caminho democrático do Chile para o socialismo já não ameaçava gerar uma alternativa sistêmica ao capitalismo na região.

Contrariamente à sabedoria convencional, conter o expansionismo soviético dificilmente foi um fator importante na formulação da política externa americana durante a Guerra Fria. Os planos americanos de apoiar o capitalismo internacional por meio da força foram decididos tão cedo quanto 1943, quando ainda não estava claro se os soviéticos sobreviveriam à guerra. E mesmo no início da Guerra Fria, a União Soviética não tinha a vontade nem a capacidade de se expandir além de seus satélites regionais. As ações de Stalin para estabilizar o “socialismo em um país” surgiram como uma estratégia defensiva, e a Rússia comprometeu-se com a détente como a melhor aposta para sua existência contínua, exigindo apenas um anel de estados-tampão para protegê-la das invasões ocidentais. Por esse motivo, uma geração de militantes de esquerda na América Latina, Ásia e Europa (basta perguntar aos gregos) interpreta a chamada “Guerra Fria” como uma série de traições de Moscou aos movimentos de libertação em todo o mundo. O expansionismo soviético só foi realmente utilizado na política externa americana como uma ferramenta retórica.

Compreensivelmente, o formato da economia mundial não mudou muito dramaticamente após a queda da União Soviética. A neoliberalização dos anos 1990 representou uma intensificação do programa global que os Estados Unidos e seus aliados vinham perseguindo o tempo todo. E hoje, o estado americano continua em seu papel de garantidor global do capitalismo de livre mercado, mesmo quando os governos do Terceiro Mundo, temendo repercussões geopolíticas, realizam contorções políticas para evitar confrontar diretamente o capital americano. Por exemplo, a partir de 2002, Washington começou a apoiar esforços para derrubar o presidente esquerdista da Venezuela, Hugo Chávez, mesmo enquanto as gigantes americanas do petróleo continuavam perfurando em Maracaibo e o petróleo venezuelano continuava fluindo para Houston e Nova Jersey.

A doutrina Kissinger persiste hoje: se os países soberanos se recusarem a se encaixar nos esquemas mais amplos dos EUA, o estado de segurança nacional americano agirá rapidamente para minar sua soberania. Isso é rotina para o império americano, não importa qual avatar do partido esteja na Casa Branca – e Kissinger, enquanto vivo, foi um dos principais guardiões desse status quo.

Henry Kissinger finalmente faleceu. Dizer que ele era uma pessoa ruim beira o clichê, mas é, no entanto, um fato. E agora, finalmente, ele se foi.

Ainda assim, nosso alívio coletivo não deve nos desviar de uma avaliação mais profunda. No final das contas, Kissinger deve ser rejeitado por mais do que apenas sua aceitação única de atrocidades em nome do poder americano. Como progressistas e socialistas, devemos ir além de ver Kissinger como um príncipe sórdido das sombras imperialistas, uma figura que só pode ser confrontada judicialmente, sob o olhar frio de um tribunal imaginário. Sua frieza repugnante e sua indiferença casual para com seus resultados frequentemente genocidas não devem nos impedir de vê-lo como ele era – uma personificação das políticas oficiais dos EUA.

Ao mostrar que o comportamento de Kissinger era parte integrante do

expansionismo americano de forma mais geral, esperamos reunir uma crítica política e moral da política externa americana – uma política externa que sistematicamente subverte as ambições populares e mina a soberania em defesa das elites, tanto estrangeiras quanto domésticas.

A morte de Kissinger livrou o mundo de um gerente homicida do poder americano, e pretendemos dançar sobre sua sepultura. Preparamos um livro para esta ocasião, um catálogo das conquistas sombrias de Kissinger ao longo de uma longa carreira de carnificina pública. Nele, alguns dos melhores historiadores radicais do mundo dividem em episódios digestíveis a história mais longa da ascensão americana na segunda metade do século XX.

Em um ponto de nosso livro, o historiador Gerald Horne conta uma história sobre o momento em que Kissinger quase se afogou enquanto canoava sob a maior cachoeira do mundo. É uma história divertida, tornada ainda mais revigorante pelo nosso conhecimento de que o tempo finalmente realizou o que as Cataratas Vitória não conseguiram fazer tantas décadas atrás. Mas, para que não celebremos cedo demais, devemos lembrar que o estado de segurança nacional americano que o produziu continua vivo e saudável.

Colaboradores

René Rojas é professor assistente no departamento de desenvolvimento humano da SUNY Binghamton. Ele faz parte do conselho editorial da Catalyst.

Bhaskar Sunkara é o editor fundador da Jacobin, presidente da revista The Nation e autor de O Manifesto Socialista: A Defesa da Política Radical em uma Era de Extrema Desigualdade.

Jonah Walters é atualmente pesquisador de pós-doutorado no Laboratório de Estudos Biocríticos do Instituto de Sociedade e Genética da UCLA. Ele foi pesquisador da Jacobin de 2015 a 2020.

20 de julho de 2020

Lembrando nosso amigo e camarada Michael Brooks

Perdemos uma parte insubstituível da família Jacobin. Homenageamos aqui sua vida e seu legado.

Bhaskar Sunkara

Jacobin

Michael Brooks (1983-2020) teve a chance de conhecer o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva no início deste ano, depois de defender sua libertação da prisão.

Tradução / É muito difícil para mim escrever isto, ou dar a meu amigo o tributo que ele merece. Hoje cedo, recebi a notícia devastadora da súbita doença e falecimento de Michael Brooks.

Conheci Michael em 2013, quando a Jacobin estava começando e Michael trabalhava no Majority Report. O âncora do Majority Report, Sam Seder, me disse que havia conhecido Michael no ano anterior. Michael tinha raízes na cidade de Nova York, mas passou seus anos de formação no oeste de Massachusetts e estava retornando à cidade e procurando emprego.

Sam precisava de um produtor, encontrou-se com Michael para tomar uma bebida e ficou “imediatamente impressionado com sua inteligência e senso de humor e decidiu contratá-lo, apesar de seu aviso ameaçador de que ‘não era bom em detalhes’”.

Essa podia não ser a melhor característica para um produtor, mas Sam encontrou alguém com um talento especial para traçar comentários com humor. Em pouco tempo, Michael tornou-se co-apresentador do Majority Report, capitaneando a transmissão na maioria das quintas-feiras.

Foi confuso para mim no começo. Eu fui convidado para um programa que na época considerava progressista, mas de maneira liberal, e um anfitrião me perguntou de tudo um pouco, desde o New Jewel Movement de Granada até o declínio do Partido Comunista da África do Sul e por que o Plano Meidner acabou não dando certo na Suécia.

Não lembro direito como Michael se identificava politicamente na época, mas sei que ele era mais curioso intelectualmente do que a maioria dos socialistas que conheci. Michael era fascinado pelo mundo e pelos movimentos transformadores que as pessoas construíam. Ele era sedento por conhecimento e se cercar por um grupo de pessoas que eram politicamente comprometidas e também amavam a vida.

Saíamos de vez em quando para tomar uma bebida – primeiro foram as cervejas, antes de acabarmos confessando que na verdade não gostávamos muito de cerveja e preferíamos gin com muita fruta dentro – e batíamos papo por horas. Em algum momento, eu pedia que ele fizesse algumas das imitações que seus espectadores adoravam, como “o Mandela da direita” e “o Obama da Nação do Islã”. Eu também tenho algumas imitações de que gostava particulamente, como o seu sotaque indiano muito bom (passei algum tempo em 2019 e 2020 tentando ensinar a ele algumas sutis diferenças regionais).

Michael não tinha medo de controvérsia – ele gostava de dar um oportunidade para os convidados que criticavam as atitudes reverentes e menos produtivas da esquerda. Mas ele também não era uma pessoa que gostava de chocar. Michael poderia “sair de fininho” de controvérsias pela maneira como misturava seu humor com muita honestidade. Ele realmente se importava com a melhoria da vida da classe operária, em combater todas as formas de opressão e com a solidariedade internacional. Não havia contradição entre suas críticas ao “reducionismo racial” da esquerda e o fato de ele ter se esforçado para criar uma plataforma para esquerdistas negros no cenário midiático.

Sam Seder definiu bem as habilidades de Michael como artista quando falou comigo hoje cedo:

Já trabalhei com muitos grandes apresentadores de televisão e alguns dos comediantes mais talentosos do país, e o que Michael tinha de especial não era apenas sua inteligência e discernimento sobre política, em particular na política externa, mas sua capacidade de fazer uma comédia política genuinamente brilhante. Conto nos dedos de uma das mãos somente a quantidade de pessoas que conheci com a habilidade de Michael de criar uma imitação ou personagem engraçado que não era apenas um veículo para sátira política, mas satírico em sua essência. Foi um talento incrível e genuinamente único que fazia do trabalho cotidiano diário uma diversão para mim.

Nos últimos anos, a política de Michael mudou para um socialismo mais confiante. Ele nunca perdeu seu humanismo, sua espiritualidade nem abandonou seus retiros silenciosos de meditação, coisa que o destacava no cenário às vezes sem alma do discurso político. Mas ele casou o calor que trouxe dessas empreitadas com uma análise apurada que reconhecia a centralidade da classe e a necessidade da organização. A interação entre essas perspectivas estava por trás de sua visão da esquerda: uma que pudesse falar claramente das aspirações dos trabalhadores, mas nunca perdesse suas ambições maiores de mudar o mundo.

Como uma ramificação a partir de seu trabalho no The Majority Report, Michael criou o The Michael Brooks Show (TMBS) em 2018. Esse programa se tornou rapidamente uma voz importante na esquerda, alcançando quase 130.000 assinantes no YouTube e apresentando luminares como Noam Chomsky, Cornel West e Adolph Reed. O TMBS foi uma força radicalizadora para um grande número de jovens, que desprezavam o establishment político com razão, mas que estavam apenas começando a descobrir alternativas. Dessa maneira, Michael, muito mais que a Jacobin, alcançou um público que não vinha da esquerda tradicional – mas que logo descobriu que acreditava em seus valores.

Michael e eu começamos a planejar juntos um canal da Jacobin no YouTube logo após a eleição de Trump, embora nossos planos só tenham começado a se concretizar no início deste ano. No começo, você poderia dizer que havia um incentivo material por trás da parceria. Em 2016, colocar um pé em outra plataforma lhe daria alguma independência do já estabelecido Majority Report – por mais que ele adorasse Sam e o programa. No entanto, em 2020, o TMBS estava crescendo a uma velocidade vertiginosa, e ele estava seguro financeiramente pela primeira vez e sobrecarregado de trabalho.

Perguntei a ele por que ainda queria seguir em frente e sua resposta era simples: ele queria ajudar a construir instituições que durassem. Michael acreditava em aproveitar as habilidades de um grande número de pessoas, desenvolvê-las como protagonistas de um projeto maior, em vez de confiar em um punhado de indivíduos talentosos.

Então, em abril, lançamos Weekends, seu programa com sua amiga Ana Kasparian, e estávamos programados para lançar uma transmissão nos dias de semana chamada The Jacobin Show, que teria Michael como âncora, mas apresentaria convidados regulares da equipe da Jacobin. Ele esperava treinar seus colegas, e a equipe regular do programa, como um plantel que pudesse substituí-lo dali a um ano e meio. Também tínhamos planos de construir um estúdio após o término da pandemia, oferecendo um espaço para as transmissões do TMBS, Jacobin e para o uso de movimentos.

Esse sonho de uma comunidade vibrante alimentando a mídia de esquerda foi fundamental para o trabalho de Michael. Não porque ele aspirasse a ser um “influenciador” com uma grande plataforma individual, mas porque sabia como era importante criar o tipo de vínculo sem o qual não se pode ter ação política. Seria fácil atrair consumidores passivos por trás de um “produto”, e bem mais difícil ajudar a promover mudanças reais.

Victor Serge disse uma vez – numa frase que discuti recentemente com Michael – que “o único sentido da vida está na participação consciente na transformação da história”. Agora que ele se foi, isso parece quase artificial. Michael procurou fazer o mundo em vez de ser feito por ele, isso é verdade, mas vou me lembrar de mais do que sua política. Vou me lembrar de alguém que era profundamente humano; alguém que causou impacto naquelas partes da vida que a política nunca resolve completamente. Ele era tudo isso, e também era um vencedor ambicioso, alguém que queria chamar a atenção dos nossos governantes insensíveis e ajudar a construir um mundo justo, onde os acidentes de nascimento não condenassem milhões à miséria.

Essa perda ainda parece tão surreal. Sempre sentirei falta de Michael, por sua incrível amizade e sua imitação hilária do Bill Clinton.

Sobre o autor

Bhaskar Sunkara é o editor e editor fundador da Jacobin e o autor de The Socialist Manifesto: The Case for Radical Politics in an Era of Extreme Inequality.

3 de abril de 2019

Um dia os chefes serão uma relíquia do passado

No futuro, os ambientes de trabalho serão completamente diferentes – e a própria existência de chefes será considerada algo impensável.

Bhaskar Sunkara


Imagem: Javier Zarracina/Vox

Seus ancestrais provavelmente eram camponeses. Eles trabalhavam em um pequeno lote de terra e nele produziam uma colheita. Parte dela eles comiam; outra parte, entregavam a um senhor local que os mataria se não fizessem isso; e o resto eles podiam levar para a cidade e vender no mercado.

No entanto, é bem provável que com você as coisas sejam diferentes. Seu perfil no Tinder pode dizer que você gosta de comida sustentável de origem local, mas você provavelmente não é dono de terra nenhuma. Tudo o que você tem é a sua capacidade para trabalhar e algumas propriedades pessoais (no meu caso, gel de cabelo, um card de quando o Bernard King era um novato na NBA e uma dúzia de CDs em branco que comprei em 2003).

É aí que entra seu chefe. Em virtude dele possuir um local de trabalho, uma propriedade privada, um empregador tem algo que falta a qualquer candidato a funcionário. Sem terra para semear, sua força de trabalho por si só não vai produzir nenhuma mercadoria. Então você se aluga para seu empregador, mistura seu trabalho com as ferramentas de que ele é dono e com os esforços das outras pessoas que ele contrata e, em troca, recebe um salário para comprar as coisas de que precisa para sobreviver. Isso é chamado de trabalho assalariado.

Hoje, quase todo mundo concorda que formas extremas de exploração devem ser proibidas, como a escravidão ou o sistema feudal. Daqui uns 50 anos, veremos que o trabalho assalariado que temos hoje também se trata de uma forma inaceitável de exploração – e que temos formas alternativas de estruturar nosso trabalho.

Os desequilíbrios de poder são óbvios quando você assina seu contrato de trabalho. Embora seu chefe precise de trabalhadores, ele precisa de você como funcionário individual bem menos do que você precisa de dinheiro para o supermercado. Mas isso não significa que o acordo não seja mutuamente benéfico – melhor ser explorado em uma sociedade capitalista do que ficar desempregado e miserável.

Sob o feudalismo, está claro que um senhor está explorando um camponês – o camponês faz todo o trabalho. O capitalismo complica as coisas: os capitalistas contribuem com a produção nos papéis de gerentes e de convocadores da mão de obra, e seus esforços são necessários para se criar novos locais de trabalho. Além disso, de maneira crucial, os próprios capitalistas são reféns do mercado: Se tentassem se comportar de maneira diferente, perderiam espaço para concorrentes menos benevolentes.

O sistema capitalista criou um mundo de tremenda abundância; também deslocou comunidades inteiras e causou destruições ambientais gigantescas. Mas agora finalmente temos as ferramentas para organizar a sociedade de maneira diferente. A maioria de nós está socialmente reunida em grupos de trabalhadores com quem já trabalhamos de maneira coletiva – e nós trabalhadores sabemos como fazer as coisas de que a sociedade precisa, em todos os níveis desde o projeto, a produção e a entrega.

No meu modelo preferido, os trabalhadores controlariam seus próprios locais de trabalho. Eles poderiam eleger seus gerentes, cobrá-los, além de dar forma às decisões da empresa. Em vez de receberem um salário decidido pelo chefe, os trabalhadores se tornariam verdadeiros acionistas que receberiam uma parte dos lucros. Essas organizações pagariam um imposto sobre os ativos de capital (a construção, o terreno sobre o qual ela se encontra, as máquinas, etc.), na prática os alugando da sociedade como um todo. A receita desses impostos seria usada para financiar novas empresas e (juntamente com um imposto de renda) um robusto Estado de Bem-Estar Social.

Qualquer sociedade avançada precisará de alguma divisão do trabalho, mas isso não significa que o trabalho precise ser tão alienante quanto ele é hoje. Não é de se admirar que as cooperativas atualmente existentes – empresas pertencentes às pessoas que trabalham lá – sejam mais produtivas que os locais de trabalho tradicionais.

Ainda haveria concorrência no mercado e as empresas ineficientes ainda faliriam. Porém, a penalidade para os trabalhadores que “perdem” nessa competição pode ser um novo começo, com a ajuda de uma forte rede de segurança social – direito à moradia, assistência médica, assistência à infância, educação e nutrição – e não a miséria.

Para as empresas que obtiverem sucesso, o imperativo de crescer ou morrer não se aplica quando o objetivo não é mais maximizar o lucro total, mas maximizar o lucro por trabalhador. Além disso, no lugar de uma corrida para o fundo do poço, existiria uma pressão para garantir que os serviços de zeladoria e outros empregos antes considerados menos desejáveis fossem bem recompensados. Com a ajuda de políticas ativas para o mercado de trabalho e apoio social, também não deveríamos temer a automação desses papéis. Esse seria um sistema social que valorizaria materialmente e moralmente todas as pessoas.

Ainda poderia haver desigualdades de renda, e injustiças que poderiam ser mitigadas por meio de impostos e outras medidas, mas não as mesmas desigualdades de poder. Todos estarão em pé de igualdade, no sentido de que teremos o mesmo acesso a bens sociais e que ninguém será capaz de contratar outra pessoa para trabalhar para si – todo o trabalho será realizado em locais de trabalho democráticos ou em um setor público expandido.

Parece fantasioso, mas não se trata de um salto para o desconhecido num suposto “ano-zero”: é sobre pegar o que sabemos que funciona (serviços sociais universais e cooperativas de trabalhadores-proprietários) e construir um sistema social em torno disso. Em nossa época de extremos, essa é uma alternativa óbvia a um mundo em que alguns vivem esbanjando luxos, enquanto a maioria nunca tem seu incrível potencial humano nutrido e celebrado, para criar e deixar legados duradouros.

Sobre o autor

Bhaskar Sunkara é editor e fundador da revista Jacobin.

29 de agosto de 2017

A social-democracia é boa, mas não é o suficiente

Precisamos de um socialismo que vá além do capitalismo. Afinal, não podemos ter uma verdadeira democracia política sem termos uma verdadeira democracia econômica.

Bhaskar Sunkara e Joseph M. Schwartz


Gabriel Saldana / Jacobin

Tradução / O jornalista John Judis tem as melhores intenções. Ele está olhando para o ressurgimento de correntes que defendem abertamente o socialismo democrático nos Estados Unidos com um misto de entusiasmo e receio. Entusiasmo, por saber como os trabalhadores do país precisam desesperadamente de reformas sociais. Receio, por temer que a nova esquerda possa cair nas familiares armadilhas do isolamento e do sectarismo.

No entanto, enquanto Judis quer que mudemos a sociedade para melhor, sua resposta às falhas do socialismo no século XX nos levaria ao beco sem saída da social-democracia do século XX.

Em seu ensaio, na New Republic, "The Socialism America Needs Now", Judis faz um apelo apaixonado pela reconstrução de um movimento social-democrata — ou o que ele chama de "socialismo liberal". Ele argumenta que o Estado de bem-estar social e a regulação democrática de uma economia capitalista deveriam ser os objetivos finais dos socialistas, pois, os esforços anteriores de nacionalização e planejamento de cima para baixo resultaram nas sociedades repressivas e economias estagnadas do bloco soviético. Por outro lado, argumenta Judis, os Estados escandinavos são economias capitalistas dinâmicas que continuam a ser muito mais equitativas e humanas do que a economia dos Estados Unidos.

Para ele, o socialismo — controle democrático sobre os locais de trabalho e a economia — consiste em "velhas panaceias" que ficaram no passado.

Precisamos urgentemente, é claro, das reformas que Judis e o movimento em volta de Bernie Sanders advogam. Nenhum socialista democrático se oporia a esforços para garantir as necessidades básicas e para tirar aspectos importantes da vida econômica e social, como educação, assistência médica e moradia das mãos do mercado. Isso, como Judis escreve, traria "benefícios incomensuráveis para os cidadãos americanos comuns".

Mas temos razões para exigir mais. Afinal, não podemos ter uma verdadeira democracia política sem ter uma verdadeira democracia econômica. Empresas são "governos privados" que exercem um poder tirânico sobre os trabalhadores e a sociedade em geral. A hierarquia corporativa decide como produzimos, o que produzimos e o que fazemos com os lucros que os trabalhadores obtêm coletivamente.

Adotar a democracia radical é acreditar que qualquer decisão que tenha um efeito vinculativo sobre seus membros — digamos, o poder de contratar, demitir ou controlar as horas de trabalho de alguém — deve ser tomada por todos que são afetados por ela. O que toca a todos, deve ser determinado por todos.

No mínimo, devemos exigir uma economia na qual várias formas de propriedade (empresas de propriedade dos trabalhadores, bem como monopólios naturais e instituições financeiras de propriedade estatal) sejam coordenadas por um mercado regulamentado — uma economia que permita que a sociedade seja governada democraticamente. Em uma economia capitalista não democrática, os gerentes contratam e demitem trabalhadores; em uma economia socialista democrática, os trabalhadores contratariam os gerentes considerados necessários para construir uma empresa produtiva e satisfatória.

Não nos deixarão ficar com as coisas boas

Este, contudo, não é um debate sobre os contornos do mundo que gostaríamos de ver. Enquanto Judis rejeita o desejo dos socialistas (e o objetivo histórico da social-democracia) de criar uma democracia radical pós-capitalismo, ele o faz em termos pragmáticos. A visão antiga, para ele, "não é remotamente viável".

No entanto, a história nos mostra que alcançar um Estado de bem-estar social estável ao mesmo tempo em que se deixa intacto o poder do capital sobre a economia está longe de ser uma situação viável. Mesmo se quiséssemos chegar apenas até um "socialismo dentro do capitalismo" e parar por aí, não está claro que isso seria possível.

Desde o início da década de 1970, no auge da social-democracia ocidental, as elites corporativas abandonaram a "conciliação de classes" do pós-guerra e procuraram restringir radicalmente o escopo da regulamentação econômica. O que os capitalistas tinham aceitado de má vontade durante um período excepcional de crescimento pós-guerra e aumento dos lucros, eles não aceitariam mais.

Os últimos quarenta anos testemunharam uma guerra ideológica e política contra movimentos trabalhistas outrora poderosos e os Estados de bem-estar social que eles ajudaram a construir. Essa guerra de classes travada até mesmo por partidos surgidos da tradição trabalhista e de esquerda defendia os quatro "D's" do neoliberalismo: desregulamentação da economia; diminuição da tributação progressiva; diminuição do escopo dos bens públicos; e diminuição do poder das organizações de trabalhadores.

As empresas também transferiram seu investimento em produção para países recém-industrializados ou regiões com salários mais baixos e automatizaram grande parte da produção especializada que restava. O foco da rentabilidade corporativa mudou para a economia FIRE (finanças, seguros e mercado imobiliário), baseada fortemente em especulações e serviços de baixos salários que servem principalmente aos mais ricos.

Tinha que terminar assim? O antigo Estado de bem-estar social poderia não ter apenas sobrevivido, mas se expandido? A resposta é sim, mas isso exigiria contra-atacar o poder de retenção de investimentos do capital. Em poucas palavras, isso exigiria um socialismo mais radical.

Muitos social-democratas da última geração sabiam que haveria um desinvestimento de capital nas sociedades com fortes direitos sociais. Nos anos 70 e 80, houve importantes tentativas de obtenção de maior controle sobre o capital, exatamente para prevenir isso.

Os social-democratas de esquerda na federação trabalhista sueca avançaram o Plano Meidner, que teria cobrado impostos dos lucros empresariais por um período de vinte e cinco anos para alcançar propriedade social das grandes corporações suecas. O governo socialista com apoio comunista na França, sob François Mitterrand, de 1981 a 1983, nacionalizou 25% da indústria francesa da noite para o dia e expandiu radicalmente os direitos trabalhistas (exigindo negociação coletiva em empresas com cinquenta trabalhadores ou mais).

É claro que essas e outras tentativas foram derrotadas. A França enfrentou uma verdadeira greve de capital, enquanto os social-democratas suecos se afastaram da adoção do Plano Meidner por medo da greve. A defasagem no investimento corporativo criou uma recessão na França que levou a uma grande vitória conservadora nas eleições parlamentares de 1985. Mitterrand teve que desnacionalizar as empresas e adotar austeridade orçamentária.

Judis menciona rapidamente a inclinação à direita da social-democracia nos últimos trinta anos. Mas ele não menciona a extensão de sua neoliberalização ou a lição histórica que devemos tirar: quando o capital entra em ofensiva, os trabalhadores devem fazer o mesmo ou serão forçados a recuar.

Em resumo, Judis deixa de fora da história a ofensiva corporativa consciente contra as restrições do seu poder. Para sustentar até as reformas modestas que ele vê como o horizonte do socialismo, precisamos legitimar um maior papel para a regulação democrática e estatal do capital.

O capital privado simplesmente se recusa a investir nos bens necessários para superar a desigualdade radical: moradia a preços acessíveis, transporte de massa, energia alternativa e requalificação profissional. O capital é muitas vezes relutante em arriscar investimentos pesados em monopólios naturais que quase inevitavelmente estão sob regulamentação ou propriedade do Estado (nenhuma empresa investiria em uma rede de energia alternativa concorrente). Judis não fala da crise climática, ainda assim não há caminho para resolvê-la sem investimentos públicos vultosos e um controle sobre os serviços públicos.

Os Estados Unidos certamente são o lugar onde a "social-democracia em um só país" seria a mais economicamente viável, com seu mercado interno tão grande quanto o da União Europeia e pelo controle que exercem sobre sua própria moeda mundial. É uma sociedade rica que poderia facilmente bancar serviços de saúde universais, assistência a idosos e crianças, bem como educação de alta qualidade para todos. Mas no caminho para alcançar essas coisas positivas, as empresas resistiriam e implementariam sua tática mais poderosa: a greve de capital.

Social-democratas como Judis se recusam a lidar com isso, fazendo com que eles, em momentos-chave, promovam o recuo e acolham as forças capitalistas, minando as próprias reformas que esperam preservar.

Para traçar um caminho diferente, precisaríamos de um movimento trabalhista militante e de uma presença socialista de massa fortalecida por vitórias acumuladas, procurando não apenas domar, mas superar o capitalismo. Um socialismo que se recusa a lidar com as "velhas panaceias sobre propriedade e controle dos meios de produção" não ficará apenas aquém das nossas expectativas democráticas sobre como deveria ser uma sociedade justa — vai nos condenar ao fracasso.

Colaboradores

Bhaskar Sunkara é editor e fundador da revista Jacobin.

Joseph M. Schwartz é o vice-presidente nacional dos Socialistas Democráticos da América e professor de ciência política na Universidade Temple, na Filadélfia.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...