Marlon Ettinger
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| Um carro queima durante protestos estudantis em Paris, na França, no dia 17 de outubro. (Carl Court/Getty Images) |
Após protestos e distúrbios tomarem conta da França neste fim de semana — em meio à intensificação de um movimento social desencadeado por bloqueios realizados por estudantes do ensino médio —, setores de direita ao redor do mundo reagiram com uma narrativa abertamente racista. Eles retratam os protestos como obra de "invasores muçulmanos" que, em uma aliança traiçoeira com elementos de esquerda — descritos como parte de uma mobilização artificial —, estariam tentando incendiar o país.
“A França está em chamas!”, reagiu Donald Trump. “A imigração de pessoas de um mundo completamente diferente, pessoas com ódio no coração, destruiu esse país que já foi grandioso. Fechem as fronteiras e retomem o controle, antes que seja tarde demais!”
“Liberais ocidentais importaram o terceiro mundo para a França e outros países em nome da diversidade e da compaixão. Ignoraram questões fundamentais de assimilação e compatibilidade. Avisaram-nos de que isso levaria a essa situação, mas eles não ouviram”, publicou JD Vance, vice-presidente de Trump, em reação a um vídeo que mostrava a torre da prefeitura de Limoges desabando em meio às chamas. “Rezo para que a França — um país lindo, com um povo incrível — ponha fim a essa loucura antes que mais de seus monumentos sejam consumidos pelo fogo. E espero que os americanos estejam prestando atenção. Esse é o futuro que os democratas no Congresso desejam para o seu país.”
Essa narrativa ignora as demandas populares — como o custo de vida fora de controle na França, a degradação do sistema escolar e a revolta legítima e explosiva diante da violência letal exercida pela polícia contra estudantes do ensino médio no início do mês. Desde o início do movimento, a reação internacional tem adotado uma postura oficial que substitui essas preocupações reais por um discurso racista, desconectado da realidade e focado apenas em incitar ressentimentos.
“O que está acontecendo na França nada mais é do que uma migração em massa fora de controle”, publicou Trump no início deste mês — em uma conta oficial do governo — no momento em que o movimento ganhava as manchetes ao redor do mundo. “Não se trata de escolas; trata-se do Islã querendo tomar conta de um país que já foi grandioso!”
“A Europa abriu suas fronteiras e não conseguiu enfrentar o islamismo radical”, comentou, na ocasião, o senador pelo Texas, Ted Cruz. “AOC, Mamdani, El-Sayed e Talarico querem nos levar nessa mesma direção.”
“Precisamos reconhecer que os protestos pró-Palestina são, fundamentalmente, protestos contra o Ocidente. Suas ambições vão muito além de erradicar Israel, ‘do rio ao mar’”, declarou, em tom pomposo, o bilionário do setor de fundos de investimento Bill Ackman. Ele respondia à presidente de um *think tank* sediado em Berlim, que descreveu um vídeo — no qual manifestantes gritavam “Somos todos filhos de Gaza” — como o início de uma “Revolução Islâmica na Europa”. “No Irã, foram necessários cerca de dois anos para passar desse estágio ao caos completo e ao estabelecimento da República Islâmica”, escreveu Maral Salmassi, presidente do Instituto Zera. “Vimos o mesmo simbolismo, as mesmas bandeiras e ouvimos exatamente os mesmos slogans. Preparem-se.”
A Fox News repercutiu e amplificou esse tema logo no início, publicando, em 9 de outubro, uma investigação que tentava deslegitimar o movimento estudantil, retratando-o como uma conspiração global entre comunistas e islamistas.
“Uma rede transnacional de 50 grupos mobiliza-se em torno de protestos estudantis; apenas um terço deles são grupos de jovens”, dizia o subtítulo sensacionalista da matéria, que alegava ter descoberto uma operação de alcance mundial, composta por “organizações comunistas e socialistas de extrema-esquerda” que estariam usando os “intensos protestos estudantis” para promover uma “agenda política e ideológica”.
Racistas histéricos na França, impulsionados por veículos de mídia norte-americanos de extrema-direita dedicados a disseminar propaganda racista, também se manifestaram logo de início.
“É preciso ser cego para não ver o que está acontecendo aqui”, disse Thaïs d’Escufon, ex-porta-voz do grupo nacionalista branco francês Génération Identitaire — que já foi dissolvido —, à apresentadora da One America News, Chanel Rion, descrevendo os protestos estudantis como “distúrbios étnicos”.
“Eles só mostram imagens de estudantes da burguesia, do centro de Paris, mas, na verdade, a maior parte dos protestos ocorre em cidades ou áreas que passam por um intenso processo de ‘substituição’”, explicou d’Escufon, utilizando o termo “substituição” para se referir a áreas com uma proporção menor de pessoas brancas.
“É difícil ver essas imagens... Você olha para isso e não parece Paris”, comentou Rion, após exibir imagens aéreas de uma multidão de manifestantes na Place de la Nation, em Paris, ao final de uma marcha. “Parece Mogadíscio... E, ainda assim, veja a foto que a BBC usou. Eles fazem parecer que se trata apenas de estudantes franceses nativos, insatisfeitos com a falta de lousas nas salas de aula.”
A investigação da Fox também reforçou a tese de que a mídia teria suavizado a imagem do movimento, retratando-o apenas como “estudantes protestando contra a deterioração das condições escolares”.
Na realidade, segundo a Fox, o movimento “faz parte de uma ampla infraestrutura que envolve sindicatos, ativistas comunistas, partidos políticos de extrema-esquerda e organizações midiáticas internacionais... que organizam manifestações, convocam greves, mobilizam apoiadores e difundem esses distúrbios pelo mundo”.
A investigação da Fox sustenta que, das cinquenta organizações envolvidas no movimento, apenas quinze são, de fato, grupos estudantis — entre eles, movimentos de juventude comunista e uma associação de estudantes muçulmanos.
Ao destacar as organizações comunistas e muçulmanas, a Fox conclui que existe uma “aliança ‘vermelho-verde’ entre esquerdistas e muçulmanos”.
“O ‘vermelho’ comunista e o ‘verde’ islâmico não têm nada em comum, exceto um inimigo compartilhado: o Ocidente capitalista, livre e de matriz judaico-cristã, liderado pelos Estados Unidos”, afirmou à Fox Mike Gonzalez, pesquisador sênior da Heritage Foundation. “O objetivo deles é nos desmantelar.”
O fascista britânico Tommy Robinson também atacou o movimento, utilizando argumentos semelhantes.
“A França está em chamas!”, reagiu Donald Trump. “A imigração de pessoas de um mundo completamente diferente, pessoas com ódio no coração, destruiu esse país que já foi grandioso. Fechem as fronteiras e retomem o controle, antes que seja tarde demais!”
“Liberais ocidentais importaram o terceiro mundo para a França e outros países em nome da diversidade e da compaixão. Ignoraram questões fundamentais de assimilação e compatibilidade. Avisaram-nos de que isso levaria a essa situação, mas eles não ouviram”, publicou JD Vance, vice-presidente de Trump, em reação a um vídeo que mostrava a torre da prefeitura de Limoges desabando em meio às chamas. “Rezo para que a França — um país lindo, com um povo incrível — ponha fim a essa loucura antes que mais de seus monumentos sejam consumidos pelo fogo. E espero que os americanos estejam prestando atenção. Esse é o futuro que os democratas no Congresso desejam para o seu país.”
Essa narrativa ignora as demandas populares — como o custo de vida fora de controle na França, a degradação do sistema escolar e a revolta legítima e explosiva diante da violência letal exercida pela polícia contra estudantes do ensino médio no início do mês. Desde o início do movimento, a reação internacional tem adotado uma postura oficial que substitui essas preocupações reais por um discurso racista, desconectado da realidade e focado apenas em incitar ressentimentos.
“O que está acontecendo na França nada mais é do que uma migração em massa fora de controle”, publicou Trump no início deste mês — em uma conta oficial do governo — no momento em que o movimento ganhava as manchetes ao redor do mundo. “Não se trata de escolas; trata-se do Islã querendo tomar conta de um país que já foi grandioso!”
“A Europa abriu suas fronteiras e não conseguiu enfrentar o islamismo radical”, comentou, na ocasião, o senador pelo Texas, Ted Cruz. “AOC, Mamdani, El-Sayed e Talarico querem nos levar nessa mesma direção.”
“Precisamos reconhecer que os protestos pró-Palestina são, fundamentalmente, protestos contra o Ocidente. Suas ambições vão muito além de erradicar Israel, ‘do rio ao mar’”, declarou, em tom pomposo, o bilionário do setor de fundos de investimento Bill Ackman. Ele respondia à presidente de um *think tank* sediado em Berlim, que descreveu um vídeo — no qual manifestantes gritavam “Somos todos filhos de Gaza” — como o início de uma “Revolução Islâmica na Europa”. “No Irã, foram necessários cerca de dois anos para passar desse estágio ao caos completo e ao estabelecimento da República Islâmica”, escreveu Maral Salmassi, presidente do Instituto Zera. “Vimos o mesmo simbolismo, as mesmas bandeiras e ouvimos exatamente os mesmos slogans. Preparem-se.”
A Fox News repercutiu e amplificou esse tema logo no início, publicando, em 9 de outubro, uma investigação que tentava deslegitimar o movimento estudantil, retratando-o como uma conspiração global entre comunistas e islamistas.
“Uma rede transnacional de 50 grupos mobiliza-se em torno de protestos estudantis; apenas um terço deles são grupos de jovens”, dizia o subtítulo sensacionalista da matéria, que alegava ter descoberto uma operação de alcance mundial, composta por “organizações comunistas e socialistas de extrema-esquerda” que estariam usando os “intensos protestos estudantis” para promover uma “agenda política e ideológica”.
Racistas histéricos na França, impulsionados por veículos de mídia norte-americanos de extrema-direita dedicados a disseminar propaganda racista, também se manifestaram logo de início.
“É preciso ser cego para não ver o que está acontecendo aqui”, disse Thaïs d’Escufon, ex-porta-voz do grupo nacionalista branco francês Génération Identitaire — que já foi dissolvido —, à apresentadora da One America News, Chanel Rion, descrevendo os protestos estudantis como “distúrbios étnicos”.
“Eles só mostram imagens de estudantes da burguesia, do centro de Paris, mas, na verdade, a maior parte dos protestos ocorre em cidades ou áreas que passam por um intenso processo de ‘substituição’”, explicou d’Escufon, utilizando o termo “substituição” para se referir a áreas com uma proporção menor de pessoas brancas.
“É difícil ver essas imagens... Você olha para isso e não parece Paris”, comentou Rion, após exibir imagens aéreas de uma multidão de manifestantes na Place de la Nation, em Paris, ao final de uma marcha. “Parece Mogadíscio... E, ainda assim, veja a foto que a BBC usou. Eles fazem parecer que se trata apenas de estudantes franceses nativos, insatisfeitos com a falta de lousas nas salas de aula.”
A investigação da Fox também reforçou a tese de que a mídia teria suavizado a imagem do movimento, retratando-o apenas como “estudantes protestando contra a deterioração das condições escolares”.
Na realidade, segundo a Fox, o movimento “faz parte de uma ampla infraestrutura que envolve sindicatos, ativistas comunistas, partidos políticos de extrema-esquerda e organizações midiáticas internacionais... que organizam manifestações, convocam greves, mobilizam apoiadores e difundem esses distúrbios pelo mundo”.
A investigação da Fox sustenta que, das cinquenta organizações envolvidas no movimento, apenas quinze são, de fato, grupos estudantis — entre eles, movimentos de juventude comunista e uma associação de estudantes muçulmanos.
Ao destacar as organizações comunistas e muçulmanas, a Fox conclui que existe uma “aliança ‘vermelho-verde’ entre esquerdistas e muçulmanos”.
“O ‘vermelho’ comunista e o ‘verde’ islâmico não têm nada em comum, exceto um inimigo compartilhado: o Ocidente capitalista, livre e de matriz judaico-cristã, liderado pelos Estados Unidos”, afirmou à Fox Mike Gonzalez, pesquisador sênior da Heritage Foundation. “O objetivo deles é nos desmantelar.”
O fascista britânico Tommy Robinson também atacou o movimento, utilizando argumentos semelhantes.
A mensagem ecoa uma narrativa perniciosa presente na mídia francesa, que tem buscado retratar qualquer forma de organização política por parte de muçulmanos franceses como um evidente "cavalo de Troia" para o islamismo.
“Os ‘estudantes franceses’ estão destruindo Paris novamente agora”, brincou ele na semana passada, sobre um vídeo que mostra a polícia francesa passando por um carro em chamas.
Na última quarta-feira, Robinson atacou Bally Bagayoko, prefeito de Saint-Denis pelo partido La France Insoumise, em uma publicação que trazia um vídeo de Bagayoko anunciando restrições à venda de álcool nas imediações da estação de trem da cidade, entre as 19h e as 6h.
“Bally Bagayoko fez história em março de 2026 ao se tornar o primeiro prefeito negro e muçulmano de Saint-Denis”, escreveu Robinson. “Ele se juntou aos tumultos dos invasores na semana passada. Hoje, anunciou a proibição de álcool. Acorda, porra, França.”
Um "cavalo de Troia"
A mensagem ecoa uma narrativa perniciosa presente na mídia francesa, que tem buscado retratar qualquer forma de organização política por parte de muçulmanos franceses como um evidente "cavalo de Troia" para o islamismo.
“Por trás das reivindicações sobre a situação precária das escolas de ensino médio, a organização Étudiants musulmans de France (EMF) e seus aliados promovem sua batalha contra a ‘islamofobia de Estado’”, diz um subtítulo em uma reportagem da revista Le Point, que alega que “redes islamistas” estariam tentando ampliar o movimento. O artigo aponta para uma organização estudantil muçulmana que, segundo um relatório governamental do ano passado — conforme alega a publicação —, seria o braço juvenil da Irmandade Muçulmana.
Ao acusar organizações como a EMF de “aproveitar-se” dos protestos, o artigo afirma que as publicações da entidade “dizem muito” sobre sua estratégia.
Um dos exemplos que surgiram no início do mês é uma declaração em apoio à luta dos estudantes do ensino médio “por um ambiente de aprendizagem decente e digno”. O comunicado da EMF manifesta-se, ainda, contra a austeridade governamental nos serviços públicos — incluindo as universidades —, contra uma lei que aumenta as taxas para estudantes estrangeiros, contra medidas do governo que cancelam subsídios de aluguel para esses mesmos estudantes, contra “parcerias universitárias com empresas genocidas e ecocidas”, contra o sistema de admissão universitária — descrito como seletivo e “racista” — e contra a repressão governamental aos protestos.
A publicação Le Point também aponta para o AJ+ — braço da Al Jazeera nas redes sociais, financiado pelo Catar — como um vetor de propagação dessa narrativa, destacando o conteúdo viral que expõe as condições precárias nas escolas e a violência policial.
“A maioria deles retoma o tema da violência policial, sem mencionar uma palavra sobre a [violência] dos manifestantes, e acusa a ‘grande mídia’ de mentir a respeito da ‘violência’ nas marchas”, diz o artigo do Le Point.
Uma resposta liberal
“Por trás das reivindicações sobre a situação precária das escolas de ensino médio, a organização Étudiants musulmans de France (EMF) e seus aliados promovem sua batalha contra a ‘islamofobia de Estado’”, diz um subtítulo em uma reportagem da revista Le Point, que alega que “redes islamistas” estariam tentando ampliar o movimento. O artigo aponta para uma organização estudantil muçulmana que, segundo um relatório governamental do ano passado — conforme alega a publicação —, seria o braço juvenil da Irmandade Muçulmana.
Ao acusar organizações como a EMF de “aproveitar-se” dos protestos, o artigo afirma que as publicações da entidade “dizem muito” sobre sua estratégia.
Um dos exemplos que surgiram no início do mês é uma declaração em apoio à luta dos estudantes do ensino médio “por um ambiente de aprendizagem decente e digno”. O comunicado da EMF manifesta-se, ainda, contra a austeridade governamental nos serviços públicos — incluindo as universidades —, contra uma lei que aumenta as taxas para estudantes estrangeiros, contra medidas do governo que cancelam subsídios de aluguel para esses mesmos estudantes, contra “parcerias universitárias com empresas genocidas e ecocidas”, contra o sistema de admissão universitária — descrito como seletivo e “racista” — e contra a repressão governamental aos protestos.
A publicação Le Point também aponta para o AJ+ — braço da Al Jazeera nas redes sociais, financiado pelo Catar — como um vetor de propagação dessa narrativa, destacando o conteúdo viral que expõe as condições precárias nas escolas e a violência policial.
“A maioria deles retoma o tema da violência policial, sem mencionar uma palavra sobre a [violência] dos manifestantes, e acusa a ‘grande mídia’ de mentir a respeito da ‘violência’ nas marchas”, diz o artigo do Le Point.
Uma resposta liberal
Protestos massivos durante o fim de semana, reunindo pelo menos meio milhão de pessoas, descambaram para a violência. Em Paris, a polícia teria perdido o controle da situação, enquanto militantes do *black bloc* e vândalos aproveitaram o caos para saquear alguns dos bairros mais sofisticados da cidade.
Vídeos — como o da torre do sino em Limoges sendo consumida pelas chamas — viralizaram, servindo como exemplos da destruição provocada por “bárbaros” do Terceiro Mundo contra a “França Eterna”.
“Espero que o mundo esteja prestando atenção aos distúrbios na França”, disse Tim Kennedy, soldado e lutador de MMA conhecido pelo público. “Não há bandeiras francesas sendo exibidas nesses protestos. Essa é a consequência da imigração em massa.”
A alegação de que não havia bandeiras francesas nos protestos é uma mentira deslavada. Vi várias delas ao longo de vários dias. Contudo, a postagem é representativa do endurecimento da narrativa que começou a ser construída no início do mês.
Liberais pró-europeus também se juntaram ao coro de lamentações e condenações.
Vídeos — como o da torre do sino em Limoges sendo consumida pelas chamas — viralizaram, servindo como exemplos da destruição provocada por “bárbaros” do Terceiro Mundo contra a “França Eterna”.
“Espero que o mundo esteja prestando atenção aos distúrbios na França”, disse Tim Kennedy, soldado e lutador de MMA conhecido pelo público. “Não há bandeiras francesas sendo exibidas nesses protestos. Essa é a consequência da imigração em massa.”
A alegação de que não havia bandeiras francesas nos protestos é uma mentira deslavada. Vi várias delas ao longo de vários dias. Contudo, a postagem é representativa do endurecimento da narrativa que começou a ser construída no início do mês.
Liberais pró-europeus também se juntaram ao coro de lamentações e condenações.
A alegação de que não havia bandeiras francesas nos protestos é uma mentira deslavada.
“A Polônia não repetirá os erros de outros países europeus, nem pagará por eles”, anunciou o primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, sem fazer referência direta aos protestos na França. “Estamos defendendo firmemente a fronteira contra a migração ilegal; temos nossa própria política de asilo (não aceitamos pedidos) e deportamos aqueles que violam a lei polonesa.”
“Vídeos e imagens chocantes estão surgindo da França”, publicou o húngaro Péter Magyar. “Diante dessa destruição sem sentido e dessa violência injustificada, talvez agora fique claro para todos por que a Hungria defende a abordagem mais rigorosa possível em relação à migração, e por que não enfraqueceremos a proteção de nossas fronteiras nem nossa política de imigração sob qualquer tipo de pressão.”
Liberais americanos ineficientes, embora condenem a caracterização abertamente racista — e reconheçam que os estudantes que protestam formam “uma coalizão extremamente diversa” —, acabaram flertando com essa narrativa. Thomas Chatterton Williams, em um artigo na revista The Atlantic intitulado “A violência que varre a França nunca foi, de fato, sobre as escolas”, descarta qualquer conteúdo substantivo nos protestos após analisar cinco vídeos que viralizaram nas redes sociais.
“Grande parte dos protestos estudantis tornou-se um exercício de ressentimento niilista... sob o pretexto de uma reforma escolar”, escreve Williams, referindo-se a vídeos que mostram atos de violência, danos ao patrimônio ou estudantes reunidos e gritando — conteúdos frequentemente provenientes de contas agregadoras nas redes sociais que promovem uma narrativa anti-imigrante, retratando a imigração árabe e africana na Europa como um “cavalo de Troia” para o islamismo.
“A violência não se limitou a um lado só”, admite Williams, em um tom conciliador, ao traçar paralelos entre estudantes que fazem declarações contra a polícia — ou cantam músicas de rap com referências de mau gosto ao terrorismo — e os ferimentos graves e desfigurantes causados pela polícia a esses mesmos estudantes. “Um policial disparou uma granada de gás lacrimogêneo contra a cabeça de um adolescente, arrancando a maior parte de seus dentes. Mais recentemente, um jovem de 15 anos perdeu a mão depois que um policial disparou uma granada de efeito moral.”
No fim das contas, a França está “à mercê dos manifestantes”, argumenta Williams. “Os franceses protestam demais” e, “nos últimos anos, a cultura de protesto na França tem sido tolerada e glorificada a ponto de beirar a insanidade”.
“Algumas dessas reivindicações podem até ser válidas”, pondera Williams, “mas a violência que se espalha pela França tem pouco a ver com preocupações pedagógicas”.
“Vídeos e imagens chocantes estão surgindo da França”, publicou o húngaro Péter Magyar. “Diante dessa destruição sem sentido e dessa violência injustificada, talvez agora fique claro para todos por que a Hungria defende a abordagem mais rigorosa possível em relação à migração, e por que não enfraqueceremos a proteção de nossas fronteiras nem nossa política de imigração sob qualquer tipo de pressão.”
Liberais americanos ineficientes, embora condenem a caracterização abertamente racista — e reconheçam que os estudantes que protestam formam “uma coalizão extremamente diversa” —, acabaram flertando com essa narrativa. Thomas Chatterton Williams, em um artigo na revista The Atlantic intitulado “A violência que varre a França nunca foi, de fato, sobre as escolas”, descarta qualquer conteúdo substantivo nos protestos após analisar cinco vídeos que viralizaram nas redes sociais.
“Grande parte dos protestos estudantis tornou-se um exercício de ressentimento niilista... sob o pretexto de uma reforma escolar”, escreve Williams, referindo-se a vídeos que mostram atos de violência, danos ao patrimônio ou estudantes reunidos e gritando — conteúdos frequentemente provenientes de contas agregadoras nas redes sociais que promovem uma narrativa anti-imigrante, retratando a imigração árabe e africana na Europa como um “cavalo de Troia” para o islamismo.
“A violência não se limitou a um lado só”, admite Williams, em um tom conciliador, ao traçar paralelos entre estudantes que fazem declarações contra a polícia — ou cantam músicas de rap com referências de mau gosto ao terrorismo — e os ferimentos graves e desfigurantes causados pela polícia a esses mesmos estudantes. “Um policial disparou uma granada de gás lacrimogêneo contra a cabeça de um adolescente, arrancando a maior parte de seus dentes. Mais recentemente, um jovem de 15 anos perdeu a mão depois que um policial disparou uma granada de efeito moral.”
No fim das contas, a França está “à mercê dos manifestantes”, argumenta Williams. “Os franceses protestam demais” e, “nos últimos anos, a cultura de protesto na França tem sido tolerada e glorificada a ponto de beirar a insanidade”.
“Algumas dessas reivindicações podem até ser válidas”, pondera Williams, “mas a violência que se espalha pela França tem pouco a ver com preocupações pedagógicas”.
O direito ao protesto
O ministro francês Sébastien Lecornu apresentou um argumento semelhante na quinta-feira, ao afirmar que o movimento social “já não é um movimento de estudantes do ensino médio”, mas sim um “movimento de violência urbana, cuja intensidade aumentou ainda mais nos últimos dias”.
Em um discurso na noite de domingo, o presidente Emmanuel Macron atribuiu a violência da noite anterior a “agitadores de grupos dissidentes de extrema-esquerda, aos quais se juntaram inúmeros delinquentes”; por sua vez, Lecornu denunciou o suposto “papel importante” de Jean-Luc Mélenchon — candidato presidencial pelo partido La France Insoumise — e de sua legenda no fomento a esses atos.
Embora o governo francês não tenha adotado as mesmas teorias grotescamente racistas defendidas pela extrema-direita nos Estados Unidos, no Reino Unido e na própria França, ele compartilha com esses grupos a narrativa de que este movimento social seria fruto de forças externas e ilegítimas, que estariam tentando instrumentalizar as reivindicações dos estudantes do ensino médio.
Esse ponto foi enfatizado de maneira contundente em uma reportagem do jornal *Le Canard enchaîné*, publicada na quarta-feira, a qual revelou que Lecornu teria orientado pessoalmente o ministro do Interior a avaliar a possibilidade de processar Mélenchon por “incitação à rebelião”. Lecornu acabou recuando, temendo as consequências que a prisão de Mélenchon poderia acarretar para o movimento.
O periódico informou que, nas últimas três semanas, quase sete mil pessoas foram detidas — 86% delas com idades entre 14 e 18 anos. Durante o fim de semana, as autoridades realizaram cerca de duas mil prisões adicionais.
“O objetivo dessa tática é intimidar os estudantes e seus pais, para que o levante seja interrompido o mais rapidamente possível”, declarou um chefe de polícia ao Le Canard.
O governo continua temeroso diante desse movimento social, justamente porque ele não se trata de uma conspiração estrangeira, de uma ação de “invasores” imigrantes ou de um complô “islamo-esquerdista”. Figuras racistas influentes continuarão a propagar essa ideia, pois ela serve como um artifício conveniente para deslegitimar as reivindicações das massas; contudo, isso não altera a realidade dos fatos. Foi o governo de Macron quem trouxe a violência para as ruas da França. Uma notícia divulgada na manhã de segunda-feira, informando que Macron rejeitou o pedido de demissão do ministro do Interior, Laurent Nuñez, envia uma mensagem clara: ele apoia a atuação da polícia — a despeito dos apelos por diálogo, feitos apenas por formalidade, e da condenação protocolar da violência, ocorridos na noite anterior.
Os estudantes franceses apresentam reivindicações legítimas, e muitos deles estão determinados a continuar os protestos até que o governo lhes dê uma resposta.
Colaborador
Marlon Ettinger é autor de Zemmour and Gaullism e coapresentador do Flep24, podcast dedicado às eleições legislativas francesas de 2024.

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