Martin Barnay
Sidecar
A França tem uma longa história de jovens interferindo na política. O gaullismo, que surgiu impulsionado por um movimento juvenil, acabou naufragando por causa de outro. Em novembro de 1940, milhares de estudantes marcharam sob o Arco do Triunfo gritando “Vive de Gaulle”, num momento em que o general e seu movimento, a França Livre, contavam com o apoio de apenas uma pequena minoria. Em maio de 1968, uma revolta estudantil desencadeou uma crise social da qual a autoridade de de Gaulle jamais se recuperou. Menos de um ano depois, após perder um referendo, ele deixou o poder. Agora, uma nova rebelião juvenil ameaça deflagrar uma crise de legitimidade para a combalida presidência de Emmanuel Macron, justamente quando ele se aproxima dos seus últimos meses no cargo.
A agitação começou em meados de setembro em uma escola de ensino médio nos subúrbios a sudeste de Paris, onde eclodiram manifestações de alunos e professores devido à falta de funcionários e à deterioração das condições no local. Os protestos logo se espalharam pelo restante do país. No início de outubro, cerca de um terço das escolas de ensino médio (lycées) já havia sido afetado por interrupções ou fechamentos preventivos. Pais, estudantes universitários e sindicalistas passaram a apoiar o movimento, com manifestações ocorrendo em todas as principais cidades da França. A resposta do governo foi a repressão. Bloqueios em escolas — por vezes acompanhados por barricadas em chamas — foram enfrentados por contingentes de forças de segurança equipadas com blindados e por prisões em massa. Na segunda semana de outubro, quase sete mil pessoas haviam sido detidas pela polícia — 86% delas menores de idade —, um número que supera o total registrado ao longo de dez meses pelo movimento dos "coletes amarelos" (gilets jaunes). A polícia recorreu ao mesmo arsenal de granadas de efeito moral e de dispersão (contendo projéteis de borracha ou esferas) que foi utilizado contra as manifestações de 2018-2019, com resultados semelhantes. Um jovem de quinze anos perdeu uma das mãos em Lens; outro adolescente ficou cego de um olho em Tours. Eles passam a integrar a triste lista dos mutilés — manifestantes que sofreram mutilações decorrentes da atuação das forças de segurança pública sob o governo Macron.
A proibição do uso de telefones celulares no ensino médio, implementada no início do ano, parece ter servido como um catalisador. Contudo, as causas do descontentamento são muitas. Uma onda de calor, ocorrida em pleno período de exames em junho passado, evidenciou o estado precário de muitas instalações escolares. O Parcoursup, plataforma de admissão universitária introduzida em 2018, continua sendo motivo de ressentimento entre os alunos, que o veem como um instrumento de competição implacável — classificando os candidatos com base no desempenho acadêmico e deixando muitos na incerteza das listas de espera. Um fator mais estrutural da crise é a perda de atratividade da própria carreira docente. Os professores, em sua maioria funcionários públicos, têm visto seus rendimentos estagnados devido a longos períodos de congelamento salarial no setor público. No geral, a França não gasta um valor excepcionalmente baixo com o ensino médio; as desigualdades decorrem, na verdade, da forma como os recursos são distribuídos. Escolas situadas em subúrbios mais pobres e áreas periurbanas encontram-se em desvantagem em relação àquelas localizadas em centros urbanos mais abastados, ao passo que o setor privado — fortemente subsidiado — atende, de forma desproporcional, a famílias com maior poder aquisitivo. Em Seine-Saint-Denis, um dos primeiros redutos do movimento, estima-se que, ao chegar ao momento de prestar o baccalauréat (exame de conclusão do ensino médio), um aluno possa ter perdido o equivalente a quase um ano letivo inteiro, simplesmente porque os professores ausentes não foram substituídos. Tais queixas ganharam, ainda, um contorno geracional mais amplo, refletido em cartazes que remetem aos protestos da "Geração Z" — fenômeno observado desde o Nepal e o Marrocos até Madagascar.
O precedente mais revelador para a crise atual talvez seja a revolta dos estudantes do ensino médio (lycées) no outono de 1990 — outro levante que teve início nos subúrbios mais pobres de Paris. O estopim imediato foi o estupro de uma jovem de quinze anos dentro de sua escola em Saint-Ouen, em um cenário de crescente violência nas instituições de ensino. Professores e alunos relataram agressões, extorsões e a entrada de pessoas de fora nas escolas — locais que, segundo eles, haviam sido abandonados pelo Estado. As reivindicações iniciais por “segurança e limpeza” expandiram-se para incluir questões como a superlotação das salas de aula e a infraestrutura em ruínas. O movimento perdurou durante o feriado de Todos os Santos (Toussaint), culminando em manifestações que reuniram cerca de 300 mil pessoas por toda a França no dia 12 de novembro. Após minimizar, a princípio, a mobilização, o governo socialista de Michel Rocard anunciou um pacote de emergência no valor de 4,5 bilhões de francos. Assombrado pela morte de Malik Oussekine — um jovem estudante de origem argelina espancado até a morte por uma unidade policial motorizada durante um protesto contra reformas universitárias, quatro anos antes —, o governo orientou a tropa de choque a agir com moderação, tolerando uma desordem considerável para evitar o risco de uma nova morte. Nesse aspecto, o contraste com a resposta de Macron é gritante.
Laurent Nuñez, seu ministro do Interior, escolheu inicialmente o termo “violências urbanas” para descrever a agitação deste mês de setembro — uma expressão habitualmente associada a distúrbios nos subúrbios (banlieues). Essa caracterização tornou-se mais difícil de sustentar à medida que o movimento alcançou o Louis-le-Grand e o Henri-IV, liceus de prestígio situados no refinado 5º arrondissement e que ocupam o topo da hierarquia acadêmica francesa. A Sciences Po e a École Normale Supérieure foram bloqueadas; as instituições Assas e Mines Paris tiveram suas atividades interrompidas; e até mesmo o notadamente pacato Institut Catholique foi fechado por manifestantes — algo que, segundo o jornal Le Monde, não ocorria há muito tempo. O governo levou quase duas semanas para apresentar algo que se assemelhasse a uma resposta política: reuniões com organizações estudantis, a promessa de alocar 3.000 professores para suprir ausências nas escolas mais afetadas e uma nova plataforma online para coletar o feedback dos estudantes. É improvável que essa consulta desperte muito mais confiança do que os cahiers de doléances (cadernos de queixas) elaborados durante a crise dos “coletes amarelos” — registros de reivindicações públicas cujo nome remetia ao descontentamento camponês sob o Ancien Régime.
Caso a agitação persista, o ministro da Educação, Edouard Geffray, é o bode expiatório mais provável. Ex-chefe de gabinete do centrista François Bayrou, Geffray não é um estranho na Rue de Grenelle [sede do Ministério da Educação]. Ele ocupa cargos de alto escalão na pasta desde 2017, representando, portanto, um nível incomum de continuidade administrativa em um ministério que viu passar oito titulares durante os dez anos de Macron no poder. Contudo, Macron e seu primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, têm poucas cartas na manga, e a crise surge justamente no momento em que se iniciam as negociações para o próximo orçamento. Nuñez encontra-se em uma posição particularmente vulnerável devido à polêmica em torno da repressão policial aos protestos estudantis. Ele já estava sob pressão por conta de um escândalo recente envolvendo Rima Hassan, do partido La France Insoumise (LFI) — detida sob a suspeita de "apologia ao terrorismo" por comentários pró-Palestina feitos em redes sociais. Na ocasião, Nuñez foi flagrado em vídeo afirmando, falsamente, a jornalistas que drogas teriam sido encontradas entre os pertences da eurodeputada, que nasceu na Palestina. Hassan apresentou uma queixa contra ele por violação do sigilo de investigação. Em uma administração menos desgastada, o episódio teria sido, possivelmente, motivo suficiente para forçar sua renúncia. Mas Macron se apega aos poucos auxiliares de confiança que lhe restam, a apenas seis meses da eleição presidencial.
A convergência de lutas é o que mais preocupa o governo. Muitos dos que estão nas ruas são jovens demais para votar, mas a revolta estudantil pode se tornar um ponto de convergência para reivindicações que vão muito além da educação — sobretudo o custo de vida e os preços dos combustíveis. Os ministros esperam, claramente, que o recesso escolar, que começa esta semana, interrompa o ímpeto do movimento. No entanto, uma convocação para novos protestos no dia 17 de outubro — que circulou amplamente, surgindo no TikTok e ganhando força em outras plataformas — trouxe à tona o fantasma dos "coletes amarelos" (gilets jaunes), cujo levante contra o aumento dos impostos sobre combustíveis, em novembro de 2018, resultou em meses de confrontos violentos no centro de Paris. O governo acompanhará de perto o setor de transporte rodoviário de cargas, já que os caminhoneiros foram, na época, um dos principais protagonistas daquele movimento. O primeiro-ministro Lecornu determinou a liberação de dez milhões de barris de diesel das reservas estratégicas; segundo o governo, a medida deve reduzir o preço do combustível nas bombas em cerca de quinze centavos por litro.
Em todas as frentes, a presidência de Macron caminha, com dificuldade, para o seu fim. Sua década no poder foi marcada por crises sucessivas — desde os "coletes amarelos" até os protestos em massa contra a reforma da previdência e o impasse parlamentar que se seguiu à sua decisão de dissolver a Assembleia Nacional em 2024. Eleito sob a promessa de superar as divisões partidárias, Macron acabou presidindo um distanciamento cada vez maior entre o establishment político e grande parte do eleitorado. No cenário internacional, o presidente mantém uma postura hiperativa, embora com pouca capacidade aparente de influenciar o curso dos acontecimentos. A Ucrânia é o exemplo mais claro: Paris mantém um apoio firme a Kiev e uma linha dura em relação a Moscou, mesmo enquanto Washington pressiona pela retomada de negociações. O mercado de títulos públicos representa um problema ainda mais grave. O rendimento da dívida soberana francesa de dez anos aproximou-se de 5% — o patamar mais alto em quase vinte e cinco anos —, ampliando significativamente o diferencial (spread) em relação aos títulos alemães. A imprensa financeira anglo-americana já se refere à França como o "novo doente" da zona do euro. Ao final do segundo trimestre, a dívida pública atingia 119% do PIB. O grupo de Macron argumenta que o presidente, que manteve sua postura de “o que for preciso” diante da crise da Covid, também teve de lidar com os choques energéticos provocados pelas guerras na Ucrânia e no Irã. Contudo, suas políticas favoráveis ao setor empresarial também tiveram seu papel. O Tribunal de Contas (Cour des Comptes) estima que os cortes em impostos e contribuições para a seguridade social, implementados desde 2018, representavam um custo para as finanças públicas de cerca de € 62 bilhões por ano em 2023 — o equivalente a 2,2 pontos percentuais do PIB, ou aproximadamente metade do déficit estrutural daquele período. O rombo fiscal é, portanto, em parte, resultado de escolhas políticas deliberadas para reduzir a tributação sobre as empresas e as contribuições patronais, mesmo em um cenário em que os gastos públicos foram contidos, o acesso ao seguro-desemprego foi restringido e a idade de aposentadoria, elevada. Para grande parte da população, as exigências de sacrifício que decorrem desse quadro soam vazias, vindas de um governo cuja generosidade para com o setor empresarial raramente veio acompanhada de contrapartidas.
A incerteza sobre como o BCE poderia reagir a um novo aumento nos custos de endividamento da França intensificou a tensão. A Bloomberg levantou questões sobre até onde Christine Lagarde, presidente do Banco, poderia ir para socorrer seu país natal sem atrair acusações de favoritismo. A própria Lagarde insistiu, esta semana, que a solução para os problemas de dívida da França reside em Paris, e não em Frankfurt. Caso ela renuncie antes do fim de seu mandato — algo que ela sugeriu ser possível —, é improvável que seu sucessor (Klaas Knot, ex-chefe do banco central holandês, está entre os nomes cogitados) adote uma postura mais flexível. Por mais alarmistas que sejam os alertas dos mercados financeiros, seu impacto político é real. Eles deixam ao governo pouca margem de manobra para apaziguar a opinião pública.
A sete meses da eleição presidencial, a campanha encontra os principais blocos políticos em diferentes estágios de desorganização. O Rassemblement National (RN) lidera as pesquisas com uma ampla vantagem — o levantamento mais recente da Odoxa aponta Marine Le Pen com 37% das intenções de voto, contra 18% de Jean-Luc Mélenchon e 17% de Édouard Philippe, ex-primeiro-ministro de Macron e provável representante do centro-direita. Contudo, grande parte do drama até agora tem origem no próprio RN. Le Pen voltou a estar legalmente apta a concorrer, após a redução, em grau de recurso, da sanção que a impedia de disputar eleições; por outro lado, Jordan Bardella — visto há tempos como o "plano B" do partido — viu sua posição enfraquecida pela revelação de mensagens antissemitas que teriam sido escritas por ele no início de sua trajetória política. O fato de o material ter partido de pessoas próximas a Bardella alimentou suspeitas de um acerto de contas interno. Embora o episódio não tenha, até o momento, retirado Le Pen da liderança, ele complica um dos pilares da estratégia do RN: Bardella é um ativo importante, não apenas por ser uma figura jovem, mas por representar, dentro do partido, uma voz liberal e favorável ao mercado, o que transmite maior tranquilidade. Le Pen continua a apoiá-lo; ele estava ao seu lado quando ela apresentou seu plano orçamentário este mês: 140 bilhões de euros em economias líquidas até 2032 e uma "regra de ouro" constitucional que exige reduções anuais no déficit — uma medida destinada a dissipar as preocupações dos investidores. Uma pequena ironia para um partido que defende a "preferência nacional", visto que mais da metade da dívida pública francesa está nas mãos de estrangeiros.
A direita tradicional e o centro macronista, por outro lado, enfrentam dificuldades para encontrar um sucessor para o atual presidente, que está constitucionalmente impedido de buscar um terceiro mandato consecutivo. Assim como em 2022, os nomes apresentados ainda não despertaram um entusiasmo à altura de suas ambições. Philippe é o candidato preferido de uma parte considerável do círculo próximo a Macron. Protegido de Alain Juppé — um pilar do centro-direita pró-europeu na França —, ele cultivou uma imagem de neutralidade tranquilizadora. Bruno Retailleau, líder da ala mais à direita do partido *Les Républicains*, pode vir a apoiá-lo. Contudo, a relação de Philippe com Macron permanece tensa desde sua saída do cargo de primeiro-ministro, em 2020. Uma vitória de Philippe em 2027 poderia frustrar as esperanças do próprio Macron de retornar ao Palácio do Eliseu cinco anos mais tarde. Afinal, em 2032, o presidente terá apenas 54 anos e estará constitucionalmente livre para concorrer novamente.
No centro-esquerda, a situação não é muito mais promissora. Uma chamada "primária social-democrata" — organizada pelo Partido Socialista, pelo movimento *Place Publique* (de Raphaël Glucksmann) e pela agremiação menor *Gauche républicaine et socialiste* — terminou, no dia 11 de outubro, com uma vitória decisiva de Glucksmann, que obteve 66% dos votos. No entanto, apenas 140 mil pessoas se registraram para participar, um número bem inferior aos mais de dois milhões que participaram da primária socialista de 2017. Pessoas sem filiação partidária — a grande maioria dos participantes — tiveram de pagar 15 euros para registrar seu voto online; além disso, os programas dos candidatos ainda não estavam disponíveis na plataforma na véspera da abertura da votação. A votação foi interrompida pelo que os organizadores chamaram de “ciberataque”, o que os obrigou a prorrogar o prazo em um dia. Toda a iniciativa visava, em grande parte, posicionar Glucksmann como um desafiante crível a Mélenchon pela liderança da esquerda. Se ele tem alguma chance de obter sucesso, isso já é outra história.
Glucksmann, filho do filósofo neoconservador André Glucksmann, cresceu no pequeno círculo da “semi-intelligentsia” parisiense, muito afeita à mídia. Após apoiar a candidatura de Nicolas Sarkozy em 2007, passou quatro anos como assessor do presidente georgiano Mikheil Saakashvili, um fervoroso defensor do alinhamento com o Ocidente. Atualmente eurodeputado, eleito por uma lista apoiada pelos socialistas, Glucksmann tornou a defesa e a política externa sua especialidade; ele defende o rearmamento, o aumento do apoio militar à Ucrânia e uma postura mais rígida em relação à Rússia e a outros inimigos do Ocidente. Apesar da atenção lisonjeira da mídia, pesquisas recentes para o primeiro turno indicam que ele conta com cerca de 9% das intenções de voto. Além disso, ele não demonstrou nada que se assemelhe àquela energia ao estilo “Rastignac” que impulsionou a campanha de Macron em 2017. François Hollande, por sua vez, optou por não participar das primárias e permanece observando à margem. Uma eventual entrada tardia do ex-presidente na disputa correria o risco de dividir ainda mais um campo socialista já bastante enfraquecido.
Mélenchon, por outro lado, tem conseguido, até o momento, evitar grande parte das turbulências internas que afetam seus concorrentes. Uma investigação judicial, que durou oito anos, sobre os assistentes do LFI no Parlamento Europeu foi encerrada nesta primavera sem a formalização de qualquer acusação. Paralelamente, os protestos estudantis colocam Mélenchon em um terreno favorável, com a juventude urbana — um segmento que ele muito contribuiu para politizar — no centro dos acontecimentos. As pesquisas atuais indicam que ele está ligeiramente à frente de Philippe na disputa pelo segundo lugar, o que abre a possibilidade de um segundo turno entre o líder do LFI e Le Pen. A perspectiva de uma agitação social mais ampla neste outono poderia, à primeira vista, ser vantajosa para Mélenchon. Contudo, uma campanha marcada por confrontos com a polícia o obrigaria a dedicar grande parte de seu tempo a discussões sobre violência e ordem pública, em vez de realizar os grandes comícios e as intensas ações de educação política que foram a marca registrada de suas campanhas presidenciais anteriores. O RN entra na disputa com o dobro do apoio de seus rivais mais próximos, enquanto os partidos que governaram a França durante a maior parte da Quinta República encontram-se fragmentados ou em declínio. Quem quer que vença em 2027 herdará as mesmas restrições fiscais, somadas a uma população cada vez menos disposta a arcar com os custos decorrentes delas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário