4 de novembro de 2026

A era de Donald Trump na política americana está chegando ao fim

As lições das eleições de meio de mandato são claras: nenhum montante gasto por bilionários foi capaz de superar o fato de que o domínio de Donald Trump está chegando ao fim; a esquerda tem muito mais espaço para crescer, e entramos em um período de novas possibilidades na política dos EUA.

Paul Heideman

Jacobin

Os sinais para 2028 já estão claros. Qualquer republicano com ambições para o futuro buscará, a partir de agora, distanciar-se da administração de Donald Trump. (Finn Gomez / Getty Images)

O povo americano impôs uma derrota acachapante a Donald Trump e ao Partido Republicano na noite passada. Confira cinco pontos principais sobre os resultados das eleições de meio de mandato:

1. Esta derrota é responsabilidade de Trump

Tudo nesta derrota aponta para uma forma específica pela qual Donald Trump enfraqueceu o Partido Republicano.

No Texas e na Carolina do Sul, ele impôs seus candidatos preferidos — Ken Paxton e Darline Graham — para o Senado, passando por cima das escolhas iniciais dos diretórios estaduais. Ambos eram péssimos candidatos e péssimos em fazer campanha, o que tornou o trabalho dos democratas muito mais fácil. Na Flórida, ele promoveu uma redistribuição eleitoral (gerrymandering) agressiva que mobilizou os eleitores democratas, sem, contudo, garantir nenhuma cadeira adicional para os republicanos. Em nível nacional, a guerra abertamente criminosa contra o Irã, somada à sua recusa em sequer reconhecer a indignação dos eleitores com o custo de vida, pesou negativamente sobre todos os republicanos no país.

Nas últimas semanas, Trump implorou aos eleitores que fingissem que ele estava na chapa. Eles seguiram seu conselho.

2. O dinheiro dos bilionários não foi suficiente

Um dos motivos pelos quais Trump e o restante do partido se sentiram à vontade para simplesmente ignorar sinais claros vindos do eleitorado foi a sua enorme vantagem financeira.

Algumas dezenas de bilionários — incluindo Elon Musk, Miriam Adelson, os irmãos Winklevoss e Ken Griffin — injetaram quantias verdadeiramente impressionantes de dinheiro em super PACs (comitês de ação política) republicanos. O super PAC pessoal de Trump, o MAGA, Inc., contava com mais de 400 milhões de dólares em sua conta. Esse montante superava, somados, os recursos do super PAC democrata para o Senado, do super PAC para a Câmara, do Comitê de Campanha para o Senado, do Comitê de Campanha para a Câmara e do Comitê Nacional Democrata. A maior parte dessa vantagem financeira republicana foi direcionada à disputa pelo Senado, onde o Partido Republicano gastou cerca de 50% a mais do que os democratas.

Os republicanos esperavam usar esse imenso tesouro para simplesmente esmagar os democratas em estados como o Texas. Não foi nem de longe o suficiente — um fato que deve servir de alento a todos aqueles que se sentem consternados com os efeitos antidemocráticos do grande capital na política.

3. Vão partir para o ataque contra Trump

Por causa dos dois pontos anteriores, os políticos republicanos logo se voltarão contra Trump.

Os sinais para 2028 já estão claros. Não há motivo para acreditar que um presidente, cuja conexão com a realidade se enfraquece visivelmente a cada semana, consiga reverter sua popularidade nos próximos dois anos. Qualquer republicano com ambições para o futuro tratará de se distanciar, o mais rápido possível, dele e de sua administração.

Os poucos republicanos que se opuseram abertamente a Trump nos últimos anos, como Ron DeSantis, já o culpam pela derrota e defendem um novo rumo para o partido. Definir esse rumo será um processo conturbado e conflituoso, marcado por embates abertos entre diferentes alas da legenda. Mas, a cada dia que passa, haverá cada vez menos motivos para que os membros do partido continuem a prestar obediência a Trump.

4. Os democratas conquistaram a maior maioria parlamentar (somando as duas casas) desde a vitória do Partido Republicano em 2014

A dimensão da maioria democrata é notável. Até a manhã de quarta-feira, a maioria das projeções indicava que os democratas conquistariam cerca de 245 cadeiras na Câmara dos Representantes e 54 ou 55 cadeiras no Senado. Isso coloca os democratas em uma posição semelhante à dos republicanos em 2014, quando o Partido Republicano ampliou sua maioria na Câmara e, finalmente, retomou o controle do Senado das mãos dos democratas.

Desde o início da era Trump, nenhum partido havia obtido maiorias dessa magnitude tanto na Câmara quanto no Senado.

Tanto na Câmara quanto no Senado, isso reduz drasticamente o poder de influência de pequenas minorias dentro das bancadas. No Senado, John Fetterman não terá condições de bloquear legislações progressistas da mesma forma que Joe Manchin e Kyrsten Sinema fizeram durante o governo Biden. Da mesma forma, na Câmara, mesmo o grupo ampliado de legisladores socialistas não chegará nem perto de ser decisivo para garantir a maioria democrata.

Nesse cenário, a política democrata tenderá a refletir o centro de gravidade da bancada em cada uma das casas, em vez de depender do poder de alguns poucos legisladores que controlam pontos estratégicos de veto.

5. A esquerda continua em ascensão

Em todo o país, esta foi uma noite fantástica para a esquerda.

Candidatos dos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês) venceram, como esperado, as eleições gerais em estados como Nova York, Colorado e Michigan. Além disso, candidatos do DSA conquistaram cadeiras em legislaturas estaduais após disputas acirradas no Kentucky e na Flórida. Candidatos como Troy Jackson e Abdul El-Sayed — frequentemente associados ao DSA, embora não sejam membros — também venceram disputas que eram amplamente vistas como testes para a ala progressista do Partido Democrata. Angie Nixon, membro do DSA que obteve uma vitória surpreendente nas primárias para uma vaga no Senado estadual da Flórida, ficou a poucos pontos de vencer em um estado que a maioria dos liberais já considerava irrecuperavelmente alinhado aos republicanos. Pesquisas de boca de urna, por sua vez, mostraram que o número de jovens eleitores que se autodefinem como socialistas democráticos é três vezes maior do que o daqueles que se identificam com o movimento MAGA.

O projeto do DSA claramente ainda não atingiu seu limite; esses resultados mostram que é hora de levar a luta para novos campos de batalha.

Colaborador

Paul Heideman possui doutorado em Estudos Americanos pela Rutgers University–Newark. É autor, mais recentemente, do livro Rogue Elephant: How Republicans Went from the Party of Business to the Party of Chaos.

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