Jia Lynn Yang
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| Michael Gonzalez/Associated Press |
Não faz muito tempo, a campanha de Gina Hinojosa para governadora do Texas provavelmente teria se concentrado em seu potencial de fazer história. Se ela conseguir derrotar o governador Greg Abbott esta semana, após uma campanha surpreendentemente competitiva, tornar-se-á a primeira latina a governar o estado. Ela também seria a primeira mulher eleita governadora desde 1990.
No entanto, Hinojosa quase não menciona questões de raça ou gênero — os seus ou os de qualquer outra pessoa — e insiste em manter-se longe das “guerras culturais”. Em vez disso, ela subiu nas pesquisas com uma mensagem disciplinada de populismo econômico.
“Será este um Texas que pertence ao povo e é feito para o povo?”, perguntou Hinojosa em um comício recente. “Ou será este um mundo de bilionários, no qual nós apenas vivemos? Essa é a única luta. É a única luta desta eleição. É a luta nos Estados Unidos. E é a luta pelo Texas.”
Independentemente de Hinojosa vencer ou não, sua campanha reflete um consenso sólido dentro do Partido Democrata este ano: pautas de raça e gênero ficaram em segundo plano. A política baseada em classes sociais voltou ao centro do debate.
Essa estratégia nasceu da derrota. O presidente Trump reconquistou a Casa Branca há dois anos, em grande parte ao se apresentar como o gestor mais capaz da economia. Para os democratas, um dos aspectos mais humilhantes dessa derrota foi o fato de o presidente ter quase dobrado seu apoio entre eleitores negros entre 2020 e 2024, além de ter praticamente empatado com Kamala Harris entre os eleitores hispânicos. Os asiático-americanos também se deslocaram para a direita, e o apoio a Trump entre as mulheres manteve-se estável.
O retorno de Trump marcou o fim de uma premissa que dominou a vida americana desde a década de 2010: a ideia de que a identidade servia como um indicador de progresso social. Agora, a própria noção de “políticas de identidade” está em declínio.
Empresas e universidades falam sobre diversidade apenas em sussurros — se é que falam —, por medo de ataques vindos da Casa Branca. Em 2024, 98% das empresas que compõem o índice S&P 500 divulgaram a composição étnica e racial de seus conselhos de administração. No ano passado, esse número caiu para 66%.
A administração Trump tenta desfazer todo um regime de proteções aos direitos civis, argumentando que ele dividiu o país e levou à discriminação contra os americanos brancos. A Casa Branca propôs a eliminação, no censo, de perguntas sobre raça, etnia ou orientação sexual. “Desmantelar a ‘indústria da queixa’, o paradigma de opressor-oprimido, a política identitária e outras ideias que rasgam o tecido nacional é uma causa essencial”, escreveu Mike Gonzalez, pesquisador sênior da fundação conservadora Heritage Foundation, na City Journal.
Embora Trump tenha criticado a política identitária progressista, o resultado de seu mandato foi, na prática, a promoção de uma identidade branca. O governo censurou menções à escravidão em locais históricos, ao mesmo tempo em que restaurou nomes de confederados em bases militares. Priorizou a entrada de africâneres brancos como refugiados, enquanto tentava restringir a imigração legal proveniente de grande parte da África.
Estamos entrando em um estranho interregno no que diz respeito à identidade. Enquanto a direita parte para o ataque, observa-se um recuo repentino nas discussões sobre raça e gênero — a ponto de a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, ter declarado recentemente que o “Woke 1” era uma “loucura”. Mas a política identitária não vai desaparecer. Na verdade, ela pode estar retornando às suas raízes.
A ascensão da representação
Até pouco tempo atrás, a importância da diversidade parecia inquestionável, ao menos em ambientes de elite. A representação importava, e a contagem era fundamental. Quantas senadoras e juízas da Suprema Corte são mulheres? Algum norte-americano negro, latino ou asiático ganhou um Oscar este ano? Todo painel de especialistas em sua conferência de alto nível inclui, ao menos, uma “pessoa de cor”?
Isso não é exatamente o que os criadores do termo “políticas de identidade” imaginaram. Em 1977, um grupo de feministas negras, chamado Combahee River Collective, declarou em um manifesto que sua raça e seu gênero eram parte integrante de sua atuação política — não porque esperassem ingressar no grupo dos indivíduos mais bem-sucedidos do país, mas porque sua identidade lhes conferia uma visão singular dos Estados Unidos a partir da base da hierarquia de classes. Naquela época, assim como hoje, as mulheres negras estão mais sujeitas a viver em situação de pobreza.
Nessa versão das políticas de identidade, a ênfase em raça e gênero serviria como um mecanismo corretivo para uma sociedade desigual. Era muito fácil para o movimento feminista concentrar-se apenas nos interesses de mulheres brancas de classe alta. Se o feminismo incluísse as mulheres negras, ele inevitavelmente apresentaria demandas mais ousadas — como um salário mínimo mais alto ou um sistema universal de saúde, por exemplo — capazes de melhorar a vida de todos os norte-americanos.
“Precisávamos ter um espaço só nosso”, afirmou Barbara Smith, integrante do grupo, em uma entrevista presente no livro How We Get Free. “Precisávamos de um lugar onde pudéssemos definir nossas prioridades políticas e agir de acordo com elas. É daí que surgem as políticas de identidade.”
O país, contudo, estava exausto após anos de ressentimentos relacionados a questões raciais e à guerra. O cinismo em relação ao governo, especialmente após o caso Watergate, estava em alta. Ao longo das décadas de 1970 e 1980, uma nova cultura política, alinhada à direita, ascendeu ao poder — em parte, ao convencer muitos eleitores de que o governo estava mais voltado para grupos minoritários do que para eles próprios. Ronald Reagan alertou para a existência de norte-americanos que, segundo ele, estariam explorando indevidamente os programas governamentais — promovendo o estereótipo da “rainha do bem-estar social” (welfare queen) —, ao passo que os conservadores preparavam o terreno para cortes na assistência aos mais pobres. Diante do fracasso de qualquer possibilidade de ressuscitar um programa nos moldes do New Deal, outro projeto da esquerda progressista ganhou força: a conquista do direito de que os indivíduos pudessem viver e trabalhar como bem entendessem.
Esses objetivos concentravam-se na eliminação da discriminação em ambientes de trabalho e universidades, visando a uma meritocracia mais genuína. Mulheres, latinos, norte-americanos negros, gays e lésbicas passariam a ser integrados ao círculo de prosperidade típico da classe média. É claro que o preconceito ainda persistia; contudo, em comparação com a década de 1960, as oportunidades tornaram-se mais abundantes — ao menos para aqueles com maior nível de escolaridade.
Esse momento marcou uma mudança decisiva para o Partido Democrata, cuja base se tornou, simultaneamente, mais diversa e mais composta por profissionais de nível superior.
Na década de 1980, o partido também adotou uma postura mais contida em relação à questão racial. Ao evitar temas sensíveis, como ações afirmativas, os democratas esperavam reconquistar eleitores brancos que estavam abandonando o partido devido ao seu apoio aos direitos civis. A nova estratégia funcionou, até certo ponto: líderes negros começaram a vencer eleições em cidades e estados de maioria branca, alcançando marcos importantes. Em 1989, L. Douglas Wilder tornou-se o primeiro afro-americano a ser eleito governador, após sua vitória na Virgínia.
Ao mesmo tempo, o partido afastou-se da defesa de programas públicos voltados para ajudar os pobres e a classe trabalhadora. Em vez disso, líderes partidários como Bill Clinton adotaram a austeridade fiscal e políticas de livre comércio que tendiam a favorecer os mais ricos.
O apoio dos norte-americanos negros ao Partido Democrata começou a diminuir, segundo Leah Wright Rigueur, historiadora da Universidade Johns Hopkins e autora de “The Loneliness of the Black Republican” (A Solidão do Republicano Negro). A disparidade de riqueza entre norte-americanos brancos e negros parou de diminuir na década de 1980. A desindustrialização eliminou, em diversas cidades do país, empregos bem remunerados e protegidos por sindicatos.
Um evento marcante, como a campanha presidencial de Barack Obama em 2008, entusiasmou os eleitores negros. No entanto, momentos como esse também podem ocultar um descontentamento mais profundo com o próprio partido, observa Rigueur. “Ficamos distraídos pelo simbolismo — que, de fato, é importante”, diz ela. “Mas ignoramos as queixas bastante contundentes dos eleitores negros sobre sua relação com o Partido Democrata.”
Logo após a vitória de Obama, a década de 2010 marcou o auge da política de representação. De repente, todas as barreiras pareciam passíveis de serem rompidas — inclusive o “teto de vidro” que impedia o acesso à presidência. Hillary Clinton, apresentando-se como herdeira da coalizão multirracial de Obama, adotou slogans como “Mais fortes juntos” (Stronger together) e “Estou com ela” (I’m with her), promovendo abertamente a diversidade e a identidade.
Contudo, quando eleitores brancos da classe trabalhadora levaram Trump à Casa Branca, muitos atribuíram a derrota à “política identitária”. Bernie Sanders criticou duramente sua rival por não abordar as necessidades da classe trabalhadora. “Não basta alguém dizer: ‘Sou mulher! Vote em mim!’”, afirmou Sanders. Mark Lilla, professor da Universidade de Columbia, escreveu um artigo de grande repercussão no The New York Times defendendo “o fim do liberalismo identitário”.
Na verdade, essa sensibilidade estava prestes a ganhar um impulso ainda maior.
Após o assassinato de George Floyd em 2020, o Partido Democrata e grande parte do mundo corporativo norte-americano apressaram-se em demonstrar urgência moral. Departamentos de recursos humanos promoveram ações de conscientização racial para seus funcionários. O presidente Joseph R. Biden Jr. cumpriu a promessa de nomear uma mulher negra para a Suprema Corte ao indicar Ketanji Brown Jackson. Karine Jean-Pierre tornou-se a primeira mulher negra a ocupar o cargo de secretária de imprensa da Casa Branca, sendo também a primeira pessoa abertamente homossexual a exercer essa função.
Esses momentos tiveram seu próprio significado. Mas, talvez, o dado mais revelador durante o mandato de Biden tenha sido este: entre 2022 e 2025, o patrimônio líquido mediano das famílias negras caiu 25%, enquanto a situação financeira de todos os outros grupos raciais melhorou.
Quando Kamala Harris lançou sua candidatura à presidência, às pressas, em 2024, o partido estava determinado a evitar os erros da campanha de Clinton. Harris deu menos ênfase à sua raça e ao seu gênero. Ainda assim, alguns apoiadores recorreram a dinâmicas já conhecidas, organizando chamadas de arrecadação de fundos via Zoom com nomes como “Mulheres Brancas: Atendam ao Chamado” e “Homens Brancos por Harris”.
Em seu segundo mandato, Trump alcançou, com facilidade, seus próprios “marcos inéditos” — para aqueles que ainda os contabilizam. Kash Patel é a primeira pessoa não branca a ocupar o cargo de diretor do FBI. Susie Wiles é a primeira mulher a chefiar o gabinete da Casa Branca. Usha Vance é a primeira “segunda-dama” (esposa do vice-presidente) de origem asiática.
Retorno à origem
Se a influência da política identitária está, de fato, diminuindo, é muito provável que seja porque um número suficiente de americanos concluiu que a representatividade, por si só, não coloca comida na mesa nem aumenta os salários. Sem abordar a igualdade econômica, essa pauta tornou-se facilmente descartável, vista como uma preocupação das classes mais abastadas. Quando o público deixa de confiar nas elites, ele tende a não se importar com a composição demográfica dessa elite.
Mesmo que, neste ano, os democratas estejam substituindo a política identitária pela política econômica, a questão racial, por si só, dificilmente perde sua relevância.
Angie Nixon, candidata democrata ao Senado pela Flórida — uma mulher negra de 42 anos que ainda paga dívidas estudantis —, conduz uma campanha declaradamente populista, focada na economia. Contudo, quando o vice-presidente JD Vance sugeriu que ela “não pertence aos Estados Unidos” por causa de suas opiniões, Nixon não evitou o debate sobre raça. “O que às vezes é frustrante é que, no Sul, a gente já está meio acostumada com isso — o desrespeito por sermos pessoas negras, as microagressões e as pequenas ofensas; aquele ‘ah, você fala tão bem’ ou ‘você é tão articulada’ — essas pequenas alfinetadas aqui e ali”, disse ela.
Nixon é a candidata com menos chances na disputa, mas sua imagem ligada à classe trabalhadora tem repercutido por todo o país. Uma análise recente do Wall Street Journal mostrou que Nixon se tornou mais popular no TikTok do que qualquer uma das figuras mais consolidadas do partido.
Figuras como Nixon, independentemente de vencerem ou perderem, podem prenunciar um retorno a algo mais próximo da concepção original da política identitária — uma abordagem focada, antes de tudo, na classe trabalhadora, mas sem minimizar as realidades, muitas vezes duras, de gênero e raça nos Estados Unidos.
Afinal, a política identitária não pode simplesmente desaparecer enquanto a consciência sobre o racismo permanece elevada. Uma pesquisa do Gallup, realizada no verão passado, mostrou que a percepção de que os norte-americanos negros sofrem com uma discriminação generalizada continua tão alta quanto era há seis anos. O país passou por um processo de conscientização — impulsionado por episódios como o vídeo do caso Floyd — que não foi esquecido. A campanha de deportações em massa, conduzida sem restrições por Trump, parece estar gerando uma reação contrária por parte dos eleitores latinos.
O próprio Trump continua a praticar a versão mais antiga de política identitária. Nas semanas finais das eleições de meio de mandato, ele voltou a classificar imigrantes somalis como “pessoas de baixo QI” e desferiu uma longa diatribe islamofóbica contra Abdul El-Sayed, um candidato ao Senado em Michigan que é muçulmano.
Por diversos motivos, não estamos vivendo o momento “pós-racial” que alguns norte-americanos acreditaram que a presidência de Obama inauguraria. Contudo, parece que estamos menos preocupados em contabilizar quantas pessoas de cada grupo conseguem ascender aos estratos mais elevados da sociedade. Quando milhões de norte-americanos ainda aguardam que alguém atenda às suas necessidades materiais, eles exigem muito mais do que apenas símbolos.
Jia Lynn Yang é redatora sênior do Times e autora de “One Mighty and Irresistible Tide”, um livro sobre a imigração nos Estados Unidos durante o século XX.

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