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3 de janeiro de 2026

A guerra de Trump contra a América Latina precisa ser interrompida

O ataque à Venezuela sinaliza uma nova fase do poder dos EUA na América Latina — uma fase definida por coerção, intimidação e intervenção sem prazo definido.

Branko Marcetic

Jacobin

A ação contra a Venezuela sinaliza uma mudança decisiva na política externa dos EUA nas Américas. A força e a coerção estão se tornando, mais uma vez, as ferramentas preferidas de Washington. (AFP via Getty Images)

Qualquer esperança de que Donald Trump fosse um presidente “anti-guerra” desapareceu quase assim que ele venceu a eleição de 2024, quando preencheu seu governo com um grupo de belicistas. Depois de um ano em que Trump apoiou a guerra de Israel com o Irã, promoveu uma série de explosões de barcos em águas internacionais e, agora, atacou a Venezuela e sequestrou seu líder, essa esperança despencou de um penhasco e se chocou contra as rochas lá embaixo.

É quase desnecessário dizer que a operação de mudança de regime de Trump na Venezuela é brutal, perigosa e flagrantemente ilegal, embora seja obviamente tudo isso e muito mais. É ilegal em vários níveis: uma clara violação do direito internacional, é claro, mas também o exemplo mais recente de Trump limpando alegremente os sapatos na Constituição dos EUA. Apesar do que o vice-presidente J. D. Vance alega, não existe nenhuma brecha que invalide magicamente a Cláusula de Poderes de Guerra desse documento se o Departamento de Justiça indiciar um líder estrangeiro.

Aliás, essas acusações de tráfico de drogas não têm nada a ver com o que Trump acabou de fazer, embora sem dúvida ouviremos falar delas incessantemente nas próximas semanas. Como analistas já apontaram extensivamente, a Venezuela quase não tem relação com o fluxo de cocaína para os Estados Unidos. E Trump, de forma quase cômica, se esforçou para minar seu próprio discurso, perdoando um ex-presidente latino-americano condenado por narcotráfico há poucas semanas e demonstrando publicamente o quanto gostaria de se apoderar das reservas de petróleo de Caracas. Agora, ele está praticamente lambendo os beiços com a oportunidade de lucrar com o que "nossas gigantescas companhias petrolíferas americanas" terão ao se envolverem "fortemente" na indústria petrolífera da Venezuela.

Mas não se trata apenas de petróleo. Como Trump deixou claro hoje, o ataque à Venezuela é uma forma de cumprir a promessa da nova Estratégia de Segurança Nacional (ESN) de seu governo, que priorizou a revitalização da Doutrina Monroe — a "Doutrina Don-Roe", nas palavras do presidente hoje — para "restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental", excluir a China da América Latina e garantir que os governos de esquerda da região sejam substituídos por governos alinhados a Trump. Poucas horas depois de derrubar o presidente venezuelano, Trump ameaçava a Colômbia, Cuba e o México com um ataque semelhante.

Só Deus sabe o que virá a seguir. Houve um tempo em que Trump conquistou a indicação republicana atacando George W. Bush por guerras estúpidas de mudança de regime que explodiram na cara dos americanos. Agora, ele não só trouxe essas guerras para a nossa porta, como está superando Bush em declarações prematuras de "missão cumprida", maravilhando-se com "a velocidade, a violência" da operação que ele mesmo comparou a um programa de TV criado para seu entretenimento pessoal e boquiaberto.

No entanto, não temos ideia do que virá a seguir, seja na Venezuela — pergunte a Barack Obama e à Líbia como os vácuos de poder costumam terminar — ou em qualquer outro lugar do mundo. Vladimir Putin justificou repetidamente sua própria guerra repugnante na Ucrânia e outras intervenções apontando para intervenções lideradas pelos EUA. Como o precedente de Trump — de que um país suficientemente poderoso pode bombardear seus vizinhos e sequestrar seus líderes sem qualquer pudor — será replicado por outros políticos inescrupulosos nas próximas décadas?

Esta, ao que parece, é a política externa do "MAGA": continuaremos a nos envolver em atoleiros no exterior e a construir nações, mas agora faremos isso primeiro nas Américas.

Enquanto isso, Trump já estabeleceu um recorde de expansão descontrolada de sua missão. Apesar de o presidente e seus seguidores terem afirmado, antes disso, que adotariam uma abordagem de "desmantelar e ir embora" em relação à Venezuela, Trump já está dizendo que os Estados Unidos agora "governarão o país", que podem enviar tropas terrestres e que ele não "quer se envolver com a entrada de outro país, para que não tenhamos a mesma situação".

Isso pode não ser tão simples em um barril de pólvora político como a Venezuela, onde os próprios exercícios militares dos Estados Unidos previram uma explosão de violência e “caos por um período prolongado”, o que, se acontecer, impulsionará ainda mais a imigração em massa que Trump prometeu conter durante sua presidência. De fato, Trump não descartou administrar o país por anos, se necessário, afirmando apenas que “não nos custará nada” devido à receita do petróleo.

Esta, afinal, é a política externa “MAGA”: continuaremos a lidar com atoleiros no exterior e a construir nações, mas agora faremos isso primeiro nas Américas.

Toda a atenção e condenação estarão, compreensivelmente, voltadas para Trump enquanto observamos o desenrolar dos acontecimentos, mas reservemos também alguma atenção para a elite liberal que desempenhou um papel fundamental para nos trazer até aqui. Marco Rubio, o arquiteto desta operação, que já está planejando uma semelhante em Cuba, foi confirmado em seu cargo com o apoio de todos os democratas. O comitê do Prêmio Nobel da Paz deu seu endosso tácito a esse ataque. A União Europeia, apesar de anos de discurso sobre direito internacional e respeito à soberania, não ofereceu sequer um indício de resistência aos planos de Trump e, na verdade, concordou silenciosamente com eles.

Aliás, se há um grande perdedor nisso tudo, além da Venezuela, é o centro europeu, que usou a deposição de Nicolás Maduro para destacar sua própria irrelevância e hipocrisia. Nesta manhã, vimos autoridades europeias, uma após a outra, oferecerem declarações que não condenavam as ações de Trump, todas claramente baseadas no mesmo memorando, com uma referência vazia e simbólica à Carta da ONU e ao direito internacional — incluindo, vergonhosamente, a atual presidente da Assembleia Geral da ONU, a liberal alemã Annalena Baerbock, que ofereceu uma aula magistral de ambiguidade em quatro parágrafos. Alguns, como o presidente francês Emmanuel Macron e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, ofereceram apoio declarado à derrubada do líder venezuelano.

Estamos agora firmemente inseridos em um mundo mais feio e perigoso, que pode muito bem nos fazer ansiar até mesmo pela mera formalidade do direito internacional de décadas passadas.

Em qualquer caso, as declarações contrastam de forma desconfortável com a furiosa e justificada denúncia da guerra russa na Ucrânia por parte de autoridades da UE, consolidando ainda mais a crescente indignação global com o que é amplamente visto como a duplicidade de padrões dos governos ocidentais. Vergonhosamente, até mesmo figuras da extrema-direita europeia, como Marine Le Pen, que ostensivamente compartilham as ideias políticas de Trump, fizeram condenações mais diretas do que esses líderes em relação às ações do presidente americano.

Trump provavelmente espera, conforme apontado pela Estratégia de Segurança Nacional (NSS), que uma ação agressiva como essa consolide a dominância dos EUA sobre a América Latina, intimidando governos de esquerda e forçando-os à submissão, além de deter a aproximação da região com a China. Mas os Estados Unidos não têm a capacidade de replicar facilmente o que fizeram na Venezuela em países como o Brasil e o México, e é igualmente provável que o efeito seja o oposto: catalisar o aprofundamento dos laços com a China para contrabalançar a crescente ameaça de um Washington cada vez mais beligerante. Suas tarifas — no caso do Brasil, explicitamente destinadas a intimidar o país para influenciar sua política interna — já minaram seu objetivo mais amplo de tornar a região menos dependente economicamente de Pequim.

Nesse sentido, isso parece menos uma superpotência confiante exibindo sua força em seu “quintal” e mais uma potência exausta jogando a única carta que lhe resta — as forças armadas inchadas dos EUA — para projetar sua dominância depois que todas as outras tentativas fracassaram vergonhosamente. Trump e as pessoas ao seu redor podem, em última análise, não conseguir avançar em sua estratégia mais ampla, mas isso não significa que não possam causar muitos danos enquanto se debatem, o que certamente farão, tanto na Venezuela quanto na região em geral.

Estamos agora firmemente inseridos em um mundo mais feio e perigoso que pode muito bem nos fazer ansiar até mesmo pela mera formalidade do direito internacional das décadas passadas. Enquanto essas aventuras estrangeiras continuarem, ninguém, exceto os interesses financeiros e os políticos irresponsáveis, prosperará — nem aqueles que estão na mira, como os venezuelanos que tanto sofrem, nem os trabalhadores americanos comuns, que mais uma vez são arrastados para um conflito estrangeiro dispendioso enquanto lutam para sobreviver.

Colaborador

Branko Marcetic é redator da revista Jacobin e autor de Yesterday’s Man: The Case Against Joe Biden.

17 de novembro de 2025

Donald Trump, Jeffrey Epstein e Israel

Sabemos que Donald Trump era extremamente próximo de Jeffrey Epstein, um abusador sexual infantil incrivelmente prolífico. Mas revelações recentes levantam outra questão: a associação de Trump com Epstein foi usada por Israel para obter influência política e afetar a política dos EUA?

Branko Marcetic


Não há dúvida de que Donald Trump e seus apoiadores mais fanáticos encontrarão alguma maneira tortuosa de mentir para si mesmos sobre esta mais recente evidência condenatória de seus laços com Epstein. (Davidoff Studios / Getty Images)

Com as últimas revelações sobre Jeffrey Epstein, é fácil se perder em meio a tantos detalhes. Há tanta coisa interessante e escandalosa no lote de mais de 20.000 e-mails divulgados na semana passada pelo Comitê de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara que você pode se pegar pensando: “Espera aí, por que tudo isso importa mesmo?”

Obviamente, trata-se da conduta pessoal vergonhosa do próprio presidente. Não há dúvida de que Donald Trump e seus apoiadores mais fanáticos encontrarão alguma maneira tortuosa de se enganar sobre esta mais recente evidência condenatória de seus laços com Epstein, assim como fizeram com a estranha e assustadora carta que ele escreveu para Epstein em seu quinquagésimo aniversário, ou com a reviravolta orwelliana de seu governo ao divulgar o que tinham sobre o notório criminoso sexual.

Mas para qualquer pessoa que ainda mantenha os pés no chão, as declarações de Epstein de que Trump “sabia das meninas” ou o fato de ele ter perguntado a um repórter do New York Times se ele queria “fotos de Donald e garotas de biquíni na minha cozinha” serão mais uma confirmação do que já é de conhecimento público há décadas: que Trump e Epstein eram amigos muito próximos há anos e que Trump, no mínimo, tinha plena consciência do que o bilionário pedófilo estava fazendo.

Mas há também uma história muito maior aqui, que gira em torno da coleta de informações tóxicas por Epstein sobre pessoas influentes, seus possíveis vínculos com a inteligência de Israel para interferir na política interna dos EUA.

Já é suficientemente grave que o presidente dos Estados Unidos tenha convivido com um dos maiores abusadores sexuais de crianças da história e, ainda por cima, tenha ignorado seus crimes. Mas o que é mais grave ainda é se essa associação estiver sendo usada por um governo estrangeiro para obter vantagem política e influenciar a política externa dos EUA.

Vamos repassar o que sabemos. Primeiro, Epstein é acusado há muito tempo de filmar – ou gravar de outras formas – os homens famosos e poderosos para quem ele fornecia garotas. Uma das acusadoras afirmou que todas as suas casas tinham câmeras escondidas instaladas para espionar e gravar o que acontecia nos quartos e banheiros.

Ira Rosen, produtor da CBS com 24 anos de experiência e vencedor do Prêmio Peabody, afirmou que Ghislaine Maxwell, cúmplice de Epstein, lhe disse que Epstein possuía gravações em vídeo tanto de Bill Clinton quanto de Trump. Entre as provas apreendidas nas propriedades de Epstein, encontram-se pilhas de pastas repletas de CDs etiquetados com os nomes de pessoas que não nos é permitido conhecer ainda.

Em segundo lugar, há muito tempo circulam rumores de que Epstein era um agente de inteligência, especificamente de Israel. Fontes disseram à jornalista Vicky Ward, alguns anos atrás, que Epstein teria entrado para o serviço público israelense já na década de 1980, após trabalhar como traficante de armas, e a descoberta de um passaporte falso e dinheiro em seu cofre pareceu corroborar ainda mais essa hipótese.

Mais recentemente, o Drop Site fez a melhor reportagem sobre esse assunto, publicando uma série de matérias baseadas em um lote de e-mails vazados do ex-primeiro-ministro israelense (e associado de Epstein) Ehud Barak, que mostram o trabalho de Epstein para o governo israelense. Isso incluía: hospedar repetidamente um oficial da inteligência militar israelense e assessor de Barak que estava nos Estados Unidos a negócios oficiais; trabalhar com Barak para garantir ações contra adversários de Israel, seja um bombardeio americano ao Irã ou o apoio russo à mudança de regime na Síria; ou intermediar acordos de segurança entre Israel e a Mongólia e a Costa do Marfim.

Com o acúmulo dessas histórias, torna-se cada vez mais difícil negar que Epstein era, no mínimo, um ativo para a inteligência israelense.

"Autoridades americanas têm reclamado há décadas da agressiva espionagem que Israel realiza contra elas e contra os Estados Unidos como um todo para interferir na política do país."

Em terceiro lugar, sabemos que Epstein usava informações comprometedoras sobre pessoas poderosas como moeda de troca. Esta última divulgação de e-mails, por exemplo, mostra Epstein e o autor Michael Wolff discutindo como o bilionário pedófilo poderia melhor usar o que sabia sobre Trump em benefício próprio, enquanto seu ex-amigo concorria à nomeação republicana. Vários e-mails mostram Epstein trocando informações sobre Trump com líderes mundiais. Há dois anos, a própria porta-voz de Bill Gates revelou que Epstein tentou usar seu conhecimento sobre o caso extraconjugal do fundador da Microsoft para ameaçá-lo.

Em quarto lugar, sabemos que é exatamente assim que a inteligência israelense e o Estado de Israel, em geral, operam. Autoridades americanas têm reclamado há décadas da agressiva espionagem que Israel realiza contra elas e contra os Estados Unidos como um todo para interferir na política do país, espionagem que, por vezes, envolveu a instalação de escutas em quartos de hotel e o fornecimento de drogas e mulheres a autoridades visitantes. Israel faz o mesmo com os palestinos, espionando-os e chantageando-os com informações sobre seu comportamento sexual para transformá-los em informantes.

Jeffrey Epstein e Donald Trump em Mar-a-Lago, Palm Beach, Flórida, 1997. (Davidoff Studios / Getty Images)

O mais chocante é que um ex-editor do jornal conservador Weekly Standard relatou que o então e futuro primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu ameaçou indiretamente Clinton com gravações de suas conversas constrangedoras com Monica Lewinsky para forçá-lo a libertar um homem que cumpria pena na prisão por vender segredos militares americanos a Israel. Essa alegação bombástica foi corroborada por diversos fatos: Lewinsky testemunhou que Clinton lhe dissera “suspeitava que uma embaixada estrangeira (sem especificar qual) estivesse grampeando seus telefones”; ele lhe disse isso pouco depois de Clinton se encontrar com Netanyahu no Salão Oval; e reportagens da época sobre as “trocas acaloradas” e “discussões tensas” entre os dois, que quase inviabilizaram a assinatura dos Acordos de Oslo, após uma revolta do aparato de segurança nacional levar Clinton a mudar de ideia sobre o perdão ao espião.

É nesse ponto que você começa a pensar na servilidade, muitas vezes constrangedora, que Trump demonstrou a Netanyahu e a Israel ao longo dos últimos anos, assumindo o cargo com uma plataforma “América First” e a imagem de um homem forte e implacável e, uma vez no cargo, continuamente abandonando essa plataforma em benefício de Israel e permitindo docilmente que Netanyahu o subjugasse.

É claro que não é preciso recorrer à ameaça de chantagem para explicar a estranha lealdade dos deputados americanos a Israel, especialmente em um sistema de financiamento de campanhas cada vez mais descaradamente corrupto. Mas, à medida que mais e mais informações desse tipo vêm à tona, surge a dúvida se Netanyahu teria feito algo semelhante hoje ao que supostamente fez com Clinton anos atrás — ou se ele sequer precisaria, considerando o potencial de algo prejudicial ter chegado ao governo israelense por meio de Epstein, e dada a palpável ansiedade do presidente em relação à possibilidade de o público descobrir mais sobre sua amizade com o falecido pedófilo.

Em muitos aspectos, o problema aqui nem sequer é Trump. É o fato de que o establishment político dos EUA, durante anos, concedeu carta branca a governos estrangeiros para interferirem em seus assuntos internos, criando um sistema corrupto e dominado pelo dinheiro que proporcionou a Israel e outros estados indesejáveis ​​as condições perfeitas para explorar e tirar proveito do poder norte-americano. Nesse caso, pode ser Epstein e a forma como ele usou sua extrema riqueza para atrair pessoas influentes e poderosas para sua teia. Mas se nada mudar, isso praticamente garante que alguma versão dessa interferência e influência secreta continuará acontecendo repetidamente, mesmo com Epstein morto e Trump eventualmente fora da vida política.

Colaborador

Branko Marcetic é escritor da redação da Jacobin e mora em Toronto, Canada.

5 de novembro de 2025

Os relatos sobre a morte do socialismo foram muito exagerados

Os centristas vêm declarando o movimento socialista morto há anos, apesar das vitórias que ele acumulou. Mas a vitória de Zohran Mamdani torna sua ascensão inegável.

Branko Marcetic


Os Estados Unidos não são um país socialista. Mas sua maior e mais rica cidade elegeu, com entusiasmo, um socialista como prefeito. (Adam Gray / Bloomberg via Getty Images)

“A verdade é que está havendo uma guerra civil silenciosa no Partido Democrata neste momento”, disse Andrew Cuomo à Fox News, enquanto lutava por sua sobrevivência política contra o rival Zohran Mamdani, a uma semana das eleições para prefeito de Nova York. “Há uma extrema esquerda. Uma esquerda radical. Bernie Sanders, AOC [Alexandria Ocasio-Cortez] — Mamdani é apenas o porta-estandarte desse movimento — contra os democratas moderados tradicionais.”

“E é disso que se trata esta eleição”, disse ele. “É essa guerra civil... Acredito que ela destruirá o Partido Democrata em todo o país, se essa extrema esquerda se tornar dominante. Este não é um país socialista.”

Os Estados Unidos não são um país socialista. Mas a sua maior e mais rica cidade — o coração do seu poderoso setor financeiro, onde reside a segunda maior concentração de bilionários do país e onde um em cada 24 residentes é milionário — elegeu com entusiasmo um socialista como prefeito, dando-lhe a maioria dos votos numa disputa com três candidatos e uma margem de vitória de 9 pontos percentuais.

Mamdani obteve amplas margens de vitória, por vezes de dois dígitos, contra o desacreditado Cuomo em todos os distritos da cidade, exceto um. Nova Iorque foi o único lugar na noite passada onde os eleitores não foram motivados principalmente pelo desejo de votar contra algo, nomeadamente o presidente, uma inversão drástica da política democrata habitual na era Trump, onde a falta de uma agenda afirmativa do partido fez com que a animosidade anti-Trump se tornasse a sua principal motivação.

A vitória de Mamdani pode ser a maior vitória da esquerda até agora na guerra civil que Cuomo descreveu — uma guerra que começou de fato há dez anos, quando Sanders lançou sua candidatura à nomeação democrata e descobriu, para surpresa dele e de seus apoiadores, que uma parcela surpreendente do país estava disposta a comprar o que ele propunha. Desde então, essa guerra tem sido repleta de derrotas dolorosas para o movimento inspirado por Sanders, entre as quais a própria candidatura do senador de Vermont em 2020, que começou com o marco inédito de vencer as três primeiras primárias democratas, antes do marco igualmente inédito de ser derrotado em quase todas as seguintes.

No entanto, algo curioso aconteceu depois que a derrota de Sanders em 2020 mergulhou muitos na esquerda em uma espiral de desânimo: os socialistas continuaram vencendo.

Eles continuaram vencendo, na verdade, apesar das frequentes declarações de que este ou aquele resultado finalmente significava a derrota e a irrelevância da esquerda e comprovava o domínio firme dos centristas sobre o Partido Democrata. Não se tratava apenas de ilusão: uma série de derrotas desmoralizantes após 2020 realmente aconteceu, seja a vitória de Eric Adams para prefeito, a derrota por duas vezes da ex-aliada de Sanders, Nina Turner, ou, talvez a mais amarga, a surpreendente derrota de India Walton em Buffalo, tão traumatizante que muitos apoiadores de Mamdani se recusaram a acreditar na possibilidade de sua vitória até que fosse oficialmente anunciada.

Contudo, em meio a esses reveses, o movimento socialista continuou a acumular vitórias e a aumentar sua representatividade em cargos eletivos, mesmo passando despercebido por muitos observadores políticos. Embora os socialistas que ocupam qualquer tipo de posição de poder nos Estados Unidos ainda sejam poucos, eles já vinham expandindo sua influência muito antes de Mamdani infligir a Cuomo duas humilhações nacionais bem merecidas.

Atualmente, há mais de 250 membros dos Socialistas Democráticos da América (DSA) ocupando cargos em quarenta estados, 90% dos quais eleitos após 2019, e atuando em diversas áreas, desde conselhos municipais e juntas distritais até assembleias legislativas estaduais e o Congresso dos EUA. Lá, o partido de esquerda Squa agora tem, dependendo de quem você pergunta, até nove membros na Câmara. Pelo menos quatro deles, como Mamdani, vieram ou são ex-membros do DSA, com outros dois que cumpriram dois mandatos cada antes de serem destituídos em 2024.

Em alguns lugares, como Minneapolis e Portland, Oregon, socialistas ajudaram a formar maiorias progressistas nas câmaras municipais. Políticos socialistas desempenharam um papel de liderança em importantes conquistas progressistas nesses locais, seja o estabelecimento de um salário mínimo para motoristas de aplicativos em Minneapolis, a eliminação do salário abaixo do mínimo para trabalhadores que recebem gorjetas em Chicago ou, especialmente, a série de leis de proteção aos inquilinos em Nova York e sua histórica lei de descarbonização de 2023.

Enquanto o ex-presidente democrata Barack Obama teve que negar veementemente a acusação de que era um socialista que queria "distribuir a riqueza", políticos abertamente socialistas como Ocasio-Cortez, que fazem dessa promessa uma virtude, são agora os líderes da resistência democrata à agenda de Trump. Eleitores democratas dizem Eles preferem políticos socialistas aos centristas corporativos que atualmente comandam o partido por uma margem de 20 pontos percentuais e acreditam que as políticas econômicas do partido deveriam ter mais socialismo do que capitalismo, por uma margem de 12 pontos percentuais. Além disso, 17% dos eleitores independentes se consideram socialistas democráticos, percentual semelhante (18%) ao dos que se identificam com o movimento MAGA.

Em outras palavras, o temor expresso por Cuomo na Fox News — de que sua ala neoliberal e pró-corporações estivesse sendo eclipsada dentro do Partido Democrata pelo movimento de Sanders — já se concretizava muito antes do resultado da noite passada.

A vitória de Mamdani é a mais recente e, possivelmente, a mais importante dessa "guerra". Tecnicamente, socialistas já conquistaram cargos de muito maior escalão: a cadeira no Senado que Sanders ocupa há quase duas décadas, por exemplo, ou as cadeiras na Câmara dos Representantes conquistadas pelo grupo conhecido como "The Squad", uma das quais, a de Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), envolveu o fim da carreira de um homem considerado um futuro presidente da Câmara.

A cúpula do Partido Democrata só tem a si mesma a culpar por isso.

Mas nenhum deles recebeu o tipo de investimento financeiro que a oposição a Mamdani fez na corrida para prefeito de Nova York. Os mais de US$ 36 milhões que os oponentes de Mamdani gastaram apenas durante as primárias para prefeito superaram em muito o gasto total na primária para a Câmara mais cara da história dos EUA: a disputa apoiada pelo Comitê de Assuntos Públicos Israelo-Americano (AIPAC) que tirou o socialista Jamaal Bowman do cargo no ano passado.

E nenhum deles resistiu ao tipo de atenção nacional constante, escrutínio e vitríolo que a campanha de Mamdani teve que enfrentar para tirar o candidato da última posição em um campo concorrido e levá-lo à eleição para prefeito com maioria. E é facilmente o cargo executivo mais alto já conquistado por um candidato socialista. Até o momento, Mamdani assumiu diretamente o comando do governo de uma cidade enorme e complexa, com 8,5 milhões de habitantes e uma economia maior do que a de todos os países, exceto onze.

A cúpula do Partido Democrata só tem a si mesma a culpar por isso. A vitória de Mamdani sobre Cuomo não teria acontecido num mundo onde o Partido Democrata não se unisse em torno de políticos fracassados ​​(e, no caso de Joe Biden, manifestamente ineptos), entregando repetidamente o poder a Trump — muito menos num mundo onde não apoiassem obstinadamente um genocídio israelense que já dura dois anos e que repugna a maioria dos americanos. Assim como fizeram com Trump, os democratas conseguiram conter a esquerda, apenas para desperdiçar rapidamente a própria vitória, a ponto de o partido ser agora detestado por quase dois terços dos seus eleitores.

Esse fracasso criou, na prática, um caminho aberto para que socialistas democráticos e movimentos operários acelerem seus esforços para suplantar a cúpula do partido, que está literalmente em decadência. Podemos ver uma versão do que aconteceu em Nova York se repetindo em todo o país: na ascensão de vários populistas de fora do sistema que estão ganhando força nas primárias, como Abdul El-Sayed, de Michigan; Na decisão do populista Dan Osborn, apoiado pelos sindicatos, de rejeitar o Partido Democrata do estado e ser politicamente recompensado por isso; e, mais claramente, na atual recusa dos eleitores do Maine em abandonar o insurgente de esquerda Graham Platner, após o que parece ter sido uma campanha difamatória destinada a abrir caminho para uma alternativa do establishment.

De muitas maneiras, é um reflexo da transformação pela qual o próprio Partido Republicano passou na segunda metade do século XX, quando ativistas conservadores, frustrados com o que chamavam de apoio do establishment do Partido Republicano a um "New Deal de quinta categoria", impulsionaram um esforço de décadas para assumir o controle do Partido Republicano e inclinar tanto ele quanto a política nacional firmemente para a direita. Esse esforço bem-sucedido também ocorreu aos trancos e barrancos, uma combinação de organização de base e campanhas eleitorais, como as primárias, que viram grandes vitórias de alto perfil intercaladas com muitas derrotas amargas.

Muitas vozes da esquerda argumentam que os inúmeros obstáculos legais impostos pelo duopólio partidário, que dificultam o surgimento de terceiros partidos, tornam a conquista do controle do Partido Democrata uma necessidade prática e inevitável. A vitória de Mamdani provavelmente será um grande reforço para essa tese.

Para sermos claros, não foi isso que aconteceu até ontem à noite, apesar dos temores de Cuomo e das esperanças fervorosas dos apoiadores de Mamdani. O establishment democrata continua sendo o establishment democrata. Mas a vitória de Mamdani ontem à noite representa uma forte rejeição a esse establishment, ao líder democrata na Câmara, que o apoiou a contragosto quando não tinha outra escolha, ao líder do partido no Senado, que se recusou veementemente a fazê-lo, e ao chefe de um de seus principais braços de arrecadação de fundos, que se deu ao trabalho de difamá-lo abertamente.

Os eleitores democratas perderam a fé nessa liderança, que há muito tempo está distante de suas propostas políticas e que agora também se mostrou repetidamente incapaz de cumprir a única promessa que fez: deter o trumpismo. Hoje em dia, é difícil imaginar os líderes partidários manobrando para deter um desafio insurgente bem organizado, como fizeram com Sanders em 2016 e 2020 — na verdade, a impotência deles diante da ascensão de Mamdani é a prova de que não conseguem.

Derrotar esse establishment fossilizado sempre foi, infelizmente, a condição necessária para lançar um desafio realmente eficaz contra a ascensão da extrema-direita. A vitória de Mamdani servirá como um incentivo para esforços semelhantes em todo o país que buscam concretizar esse objetivo, assim como inspirará milhões de pessoas ao redor do mundo que acompanham de perto essa corrida eleitoral, desesperadas por algum — qualquer — sinal de esperança em um mundo que parece estar deslizando em uma única direção, cada vez mais sombria.

Na realidade, as coisas nunca foram tão desesperadoras quanto pareciam. Mas o que pode diferenciar a vitória de Mamdani dos últimos anos de vitórias socialistas mais modestas não é apenas o fato de ela ter acontecido, mas sim o de ter infundido em um movimento construído sobre a esperança de um mundo melhor uma renovada sensação de que ele não está apenas se iludindo. Essa é uma vitória maior do que qualquer eleição isolada.

Colaborador

Branko Marcetic é redator da revista Jacobin e autor de Yesterday’s Man: The Case Against Joe Biden.

17 de outubro de 2025

Trump: Nada de dinheiro para a saúde, muito para a Argentina

O presidente libertário da Argentina, Javier Milei, é o sortudo ganhador de US$ 40 bilhões que Donald Trump conseguiu conjurar do nada. Menos afortunados são os americanos que dependem dos programas governamentais que Trump destruiu para conseguir "economizar" essa quantia.

Branko Marcetic

Jacobin

O plano do governo Trump é angariar US$ 20 bilhões do setor privado para enviar à Argentina em crise, além dos US$ 20 bilhões já reservados para ajudar o país. (Alex Wroblewski / CNP / Bloomberg / Getty Images)

Em novembro passado, os americanos votaram em um presidente que disse que colocaria "América em Primeiro Lugar". Em vez disso, eles estão recebendo "Argentina em Primeiro Lugar".

No início desta semana, o governo Donald Trump anunciou que dobraria o plano de resgate da Argentina, que, sob o severo programa de austeridade do presidente Javier Milei, viu sua economia estagnar e o país se esforçar para vender US$ 1 bilhão de suas reservas internacionais para estabilizar sua moeda em colapso.

O plano da equipe de Trump é angariar mais US$ 20 bilhões do setor privado para enviar ao país em crise, além dos US$ 20 bilhões em dinheiro dos contribuintes americanos que Trump já prometeu usar para comprar pesos, o que supostamente seria um empréstimo. Os US$ 40 bilhões que Trump está enviando ao país equivalem aproximadamente aos US$ 41,8 bilhões que o país deve ao Fundo Monetário Internacional (FMI) — de longe a maior dívida da organização, metade da qual foi contraída sob Milei no início deste ano.

Não há benefício algum para os trabalhadores americanos com isso, e o presidente nem sequer finge que há. Como ele explicou, "trata-se apenas de ajudar uma grande filosofia a dominar um grande país", porque "a Argentina é um dos países mais bonitos que já vi, e queremos vê-la dar certo. É muito simples".

Essa "grande filosofia" é o "anarcocapitalismo" ou libertarianismo do presidente argentino Milei, que defende que o governo deve ser radicalmente reduzido e seu papel na sociedade limitado ao mais básico, deixando os interesses privados e corporativos fluirem livremente. Se levada a sério, transformar essa filosofia em realidade concreta exige o desmantelamento de programas de segurança social como vale-alimentação, Medicaid e Previdência Social; o esvaziamento de agências úteis como a PBS ou o Escritório de Proteção Financeira do Consumidor; e um corte massivo da força de trabalho pública que deixa centenas de milhares de desempregados. Você pode notar que essa "filosofia" soa assustadoramente semelhante àquela que tem guiado a política interna de Trump nos últimos nove meses.

Em outras palavras, Trump está enviando bilhões de dólares americanos para um país estrangeiro para sustentar um presidente falido que levou seu país à ruína ao seguir as preferências políticas do próprio Trump. Se Milei fracassar, o programa de austeridade muito semelhante de Trump também sofrerá um duro golpe.

Enquanto isso, reserve um momento para pensar em como esse dinheiro poderia ser usado internamente, se Trump realmente cumprisse suas promessas de uma década de parar de enviar riqueza americana para o exterior e usá-lo para dar uma tábua de salvação aos americanos em dificuldades.

Neste momento, o governo federal dos EUA está em meio a uma paralisação de três semanas porque os republicanos não estendem os subsídios do Affordable Care Act, cujo vencimento iminente fará com que os prêmios de seguro saúde já exorbitantes disparem e tirem quase cinco milhões de pessoas de sua cobertura. O custo desses subsídios? Cerca de US$ 350 bilhões em dinheiro dos contribuintes ao longo de dez anos, de acordo com o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), incluindo US$ 23 bilhões em 2026 e US$ 32 bilhões em 2027.

Trump está enviando bilhões de dólares de americanos para um país estrangeiro para sustentar um presidente falido que levou seu país à ruína ao seguir as preferências políticas do próprio Trump.

Em outras palavras, a quantia que Trump está desesperadamente juntando para dar uma vantagem ao seu amigo libertário na Argentina seria suficiente para pagar por quase dois anos de esforços para garantir que os americanos não sejam levados à miséria por planos de saúde gananciosos. E este está longe de ser o único exemplo.

Os cortes do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP) no "Big Beautiful Bill" (BBB) ​​de Trump, que devem causar um forte aumento na fome, totalizam US$ 186 bilhões nos próximos dez anos, ou cerca de US$ 19 bilhões por ano, em média. Portanto, a esmola de Trump para Milei poderia ter pago por mais dois anos de benefícios integrais de vale-alimentação em um momento de forte alta nos preços dos alimentos.

A quantia que Milei está recebendo de Trump também é quase o mesmo valor (US$ 45 bilhões) que o BBB de Trump corta do Medicare no próximo ano, de acordo com o CBO. É mais do que um ano de cortes, em média (US$ 30,7 bilhões) que Trump fez para tornar o pagamento do empréstimo estudantil mais inacessível. Também poderia ter pago por mais um ano de vários créditos fiscais para a produção de energia renovável, cuja revogação por Trump deve aumentar as contas de serviços públicos.

A quantia que Trump está jogando tão displicentemente pela fronteira sul também representa mais de um quarto dos relativamente míseros US$ 150 bilhões que seu amigo bilionário Elon Musk "economizou" em gastos governamentais. Lembre-se de que Musk fez isso e contribuiu com o que só pode ser generosamente chamado de uma pequena parte do déficit federal, dizimando o governo federal: deixando centenas de milhares de americanos sem trabalho, mergulhando a Administração da Previdência Social no caos, destruindo a pesquisa sobre tratamento do câncer, minando o Serviço Postal dos EUA e eliminando a agência que financia o programa Meals on Wheels e ajuda idosos e deficientes em geral, para citar apenas alguns exemplos.

É irritante pensar em como a vida se tornou mais difícil para os americanos, tudo para "economizar" uma quantia de dinheiro que Trump aparentemente é capaz de inventar do nada a qualquer momento.

É lamentável que o presidente não considere ajudar o público americano tão importante para seu legado político quanto apoiar um líder estrangeiro em crise — caso contrário, ele poderia ter encontrado alguns bilhões sobrando nas almofadas do sofá da Casa Branca para jogar para eles também.

Colaborador

Branko Marcetic é redator da Jacobin e autor de Yesterday's Man: The Case Against Joe Biden.

2 de outubro de 2025

A flotilha Sumud conseguiu transformar Israel em pária

A Flotilha Sumud Global aparentemente violou o bloqueio israelense a Gaza, ao mesmo tempo em que provocou uma resposta israelense que desencadeou indignação e represálias de vários governos. É um dos atos de desobediência civil mais bem-sucedidos da história recente.

Branko Marcetic


Israel deteve centenas de cidadãos estrangeiros da Flotilha Sumud Global e programou a deportação de alguns. (Eleftherios Elis / AFP via Getty Images)

Ontem, forças israelenses interceptaram a Flotilha Global Sumud (GSF), que passou o último mês navegando pelo Mar Mediterrâneo para entregar ajuda humanitária a Gaza, bloqueando e interceptando os barcos a dezenas de quilômetros da costa do território e prendendo sua tripulação. Trata-se da mais recente operação de uma força militar que passou os últimos dois anos lutando contra mulheres e crianças desarmadas, e agora está mobilizando sua marinha contra barcos de ajuda humanitária.

Até esta manhã, Israel havia apreendido todos os barcos, exceto dois, levando centenas de cidadãos estrangeiros sob custódia e agendando a deportação de alguns. Incrivelmente, no final da noite passada, um dos barcos, o Mekino, conseguiu chegar às águas de Gaza, a cerca de vinte quilômetros da costa do território ocupado, embora os organizadores tenham perdido contato com o barco e sua posição no rastreador oficial da GSF não tenha se alterado.

Se essa geolocalização se provar correta, será um triunfo impressionante: barcos desarmados, que até mesmo a tripulação da flotilha descreve como quase inoperantes, conseguiram romper o bloqueio israelense. Isso levanta a questão, como colocou a relatora especial da ONU, Francesca Albanese, “por que os Estados não rompem o bloqueio com suas marinhas”, para aliviar a fome em Gaza, causada por Israel e condenada por governos do mundo todo?

A confusão reinou quando embarcações israelenses começaram a cercar e abordar os barcos na noite passada, até mesmo entre a tripulação da flotilha. Dividida entre mais de quarenta barcos espalhados por quilômetros de água e sofrendo apagões de comunicação enquanto navios israelenses tentavam detê-los, a própria tripulação frequentemente não sabia exatamente o que estava acontecendo. Mesmo com relatos surgindo durante a noite de que o navio líder, o Alma — cuja tripulação incluía a ativista sueca Greta Thunberg, talvez a militante mais destacado da flotilha — estava sendo interceptado, os membros da tripulação expressaram incerteza em vídeos transmitidos ao vivo se ele havia sido abordado ou não, quantos navios israelenses havia, se estavam parados ou se movendo em direção à flotilha, entre outros detalhes.

Com a chegada da notícia da interceptação do Alma, o editor do Drop Site News, Alex Colston, a bordo do barco Sirius, relatou ter recebido um aviso do exército israelense de que a flotilha estaria violando um “bloqueio legal” se continuasse sua viagem e que sua tripulação seria processada sob a lei israelense. Imagens de vídeo e relatos circularam sobre navios israelenses disparando canhões de água e usando algum tipo de explosivo contra os barcos, além do uso de drones.

https://twitter.com/emma_frr/status/1970622617720889604

A GSF tinha um pressentimento de que Israel se preparava para interceptá-los na noite anterior, quando vários navios da Marinha israelense atacaram a frota na calada da noite. “Enquanto escrevo isto, estamos nos preparando para um ataque iminente”, escreveu David Adler, co-coordenador geral da Internacional Progressista que navega a bordo do navio Family, em uma mensagem final.

A tripulação se desfez de suas facas de cozinha e planejou jogar seus celulares no mar ao ser interceptada. Imagens dos barcos mostravam tripulantes vestidos com coletes salva-vidas sentados pacificamente enquanto aguardavam a captura, levantando as mãos ao serem cercados por navios israelenses. “Quando eles abordarem nossos barcos, não resistiremos”, escreveu Adler.

Israel declarou efetivamente guerra contra metade do mundo.

Israel passou semanas antes da interceptação ameaçando física e verbalmente a flotilha, atacando-a e assediando-a com drones de fabricação norte-americana e lançando alegações absurdas de que ela havia sido organizada e dirigida pelo Hamas. Foi a típica propaganda de má qualidade que caracterizou o genocídio como um todo, com o Ministério das Relações Exteriores de Israel, em determinado momento, compartilhando uma imagem do ex-político escocês George Galloway, que, segundo ele, era um oficial do Hamas.

Embora Israel nunca tenha oficialmente reivindicado a autoria dos ataques de drones, um funcionário do governo Trump admitiu sem querer, em uma entrevista recente, o que todos sabiam: que Israel estava por trás do ataque de drones na Tunísia, o que significa que foi quase certamente o culpado pelo mesmo assédio de drones à flotilha nos dias seguintes.

No momento da redação deste texto, com os detalhes ainda sendo divulgados, a interceptação da GSF parece ter ocorrido com, notavelmente, pouca violência, em contraste com interceptações israelenses anteriores, que incluíram múltiplos assassinatos de outros membros da flotilha humanitária por comandos navais israelenses. Isso apesar de o governo israelense ter passado semanas construindo, ainda que preguiçosamente, um caso orquestrado de que a tripulação era composta por membros do Hamas, e apesar do exército israelense ter sido autorizado, nos últimos dois anos, a atacar e assassinar trabalhadores humanitários internacionais impunemente.

Provavelmente, isso se deve à enorme atenção pública dada à flotilha. A indignação pública com a iminência de um ataque israelense atingiu um ponto que levou três aliados dos EUA — Itália, Espanha e Turquia — a enviar seus próprios navios de guerra para acompanhar a frota. Protestos eclodiram em todo o mundo em solidariedade à flotilha. Somente a transmissão ao vivo da interceptação da frota recebeu mais de três milhões de visualizações em doze horas, o mesmo número que uma transmissão ao vivo italiana separada havia acumulado até o momento da publicação.

Águas desconhecidas

Vale a pena refletir sobre o quão anormal e extremo é tudo isso. As águas sobre as quais Israel supostamente tem controle, incluindo a Faixa de Gaza ocupada, estendem-se a doze milhas da costa; a flotilha foi interceptada pela primeira vez a cerca de setenta milhas náuticas de distância. Mesmo que o cerco israelense a Gaza não fosse ilegal — o que é — Israel ainda não teria o direito, seja pelo direito internacional ou pelas normas de comportamento globalmente aceitas que regem a atuação dos países no cenário mundial, de interceptar esses barcos e prender sua tripulação onde o fizeram.

Este é o mais recente incidente em que o comportamento rebelde de Israel abalou a confiança global no sistema de segurança dos EUA.

Há também o fato de quem Israel vem atacando. As nacionalidades da tripulação da GSF abrangem 6 continentes e quase 60 países, e seus barcos navegavam sob as bandeiras nacionais de países como Itália, Portugal, Polônia e Reino Unido, todos com cidadãos a bordo.

Parafraseando um membro da tripulação da GSF, isso significa que Israel declarou, efetivamente, guerra a metade do mundo — a ponto de três Estados supostamente amigos sentirem a necessidade de mobilizar suas próprias marinhas para defender seu povo contra o Exército israelense. Trata-se de um acontecimento notável que, se não tivessem abandonado seus cidadãos no último minuto, teria colocado esses governos na posição de, como disse a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, “declarar guerra contra Israel”.

Mas não se trata apenas de metade do mundo. Trata-se também de um leque de aliados e parceiros de segurança dos EUA. A lista de países participantes não inclui apenas países do Norte da África e do Oriente Médio, tradicionalmente mais simpáticos à causa palestina, como Argélia, Jordânia e Tunísia. Inclui também parceiros de segurança próximos dos EUA, como Paquistão e Arábia Saudita, e nada menos que 24 aliados de tratados de Washington — ou seja, países pelos quais os EUA são legalmente obrigados a entrar em guerra se forem atacados — abrangendo a Oceania (Austrália e Nova Zelândia), a Ásia (Filipinas, Turquia e Japão) e mais de uma dúzia de aliados europeus da OTAN, como Espanha, França e Alemanha.

Inclui também os próprios EUA, cujos cidadãos estavam representados na flotilha. No entanto, o governo norte-americano se recusa a fazer um gesto para protegê-los e não ofereceu nenhuma resposta aos ataques em águas internacionais. Também está representado o Catar, ao qual Donald Trump concedeu unilateralmente, ontem, proteção equivalente à da OTAN, horas antes de seus cidadãos serem ameaçados ilegalmente por Israel pela segunda vez em um mês. A ordem de Trump prometia ajudar o Catar, militarmente se necessário, em caso de qualquer ataque à sua “soberania” ou ato de “agressão estrangeira” contra ele.

Se o Irã ou a Coreia do Norte fizessem o que Israel está fazendo atualmente, haveria apelos abertos à guerra.

Há apenas uma semana, o Catar alertou que “qualquer violação do direito internacional e dos direitos humanos dos participantes da flotilha”, incluindo “detenção ilegal”, “levaria à responsabilização”, um apelo reiterado após a interceptação. O Catar quase certamente não invocará a garantia de segurança concedida às pressas por Trump, embora pudesse, e o governo Trump deveria se considerar sortudo: se o fizesse, teria que admitir, a contragosto, que a garantia não tem sentido.

Em outras palavras, este é o incidente mais recente em poucas semanas em que o comportamento renegado de Israel abalou a confiança global no sistema de segurança dos EUA, que cada vez mais parece ter um enorme asterisco em forma de Israel anexado a ele.

É um comportamento renegado de Israel. É difícil imaginar qualquer ato comparável de um país considerado adversário dos EUA, ou mesmo um Estado desonesto, que tenha ameaçado abertamente cidadãos de dezenas de países envolvidos em comportamento lícito e pacífico em águas internacionais e mobilizado suas forças armadas contra eles — porque simplesmente não há nenhuma. Se o Irã ou a Coreia do Norte fizessem o que Israel está fazendo atualmente, haveria apelos públicos à guerra.

Isso não é exagero. Proteger a “liberdade de navegação” foi exatamente o raciocínio usado pelos governos Biden e Trump para justificar publicamente sua guerra ilegal contra o Iêmen, depois que os houthis, no poder, começaram a atacar a navegação comercial no Mar Vermelho. No entanto, aqui está Israel fazendo exatamente a mesma coisa no Mediterrâneo, afirmando o direito de atacar qualquer embarcação civil em águas internacionais que, sem fundamento, declare ser uma ameaça.

As consequências estão chegando rapidamente. A Colômbia, governada pelo presidente de esquerda Gustavo Petro e cujos dois cidadãos foram detidos por Israel, expulsou todos os diplomatas israelenses restantes no país e encerrou o acordo de livre comércio entre os dois Estados. Na Turquia, de onde 24 cidadãos foram detidos, o procurador-geral em Istambul abriu uma investigação onde o Ministério das Relações Exteriores do país chamou de “um ato de terror”.

O governo israelense está mostrando que nada é mais importante do que sua capacidade de continuar exterminando gradualmente a população cativa de Gaza.

A Espanha convocou o principal representante de Israel para uma reprimenda. Vários países cujos cidadãos foram sequestrados reagiram com indignação, como a Malásia, cujo primeiro-ministro afirmou que “as injustiças perpetradas pelo regime israelense devem cessar imediatamente” e prometeu tomar “todas as medidas legais para responsabilizar Israel”. Talvez o mais significativo seja o fato de os sindicatos italianos, incluindo o maior do país, terem convocado uma greve geral para sexta-feira em solidariedade a GSF.

Mas talvez, acima de tudo, a interceptação da flotilha seja uma demonstração extraordinária de até onde o governo israelense está disposto a ir para continuar matando palestinos de fome.

A Marinha israelense está fazendo isso tudo — aprofundando seu isolamento global, inflamando a opinião pública entre países amigos e arriscando alienar ainda mais os eleitores de seu principal benfeitor político — para impedir que qualquer possibilidade de um pingo de ajuda externa chegue em Gaza, algo que não tem impacto em suas operações militares contra o Hamas e que, na verdade, prejudica seu próprio povo, que permanece cativo no território assolado pela fome. O governo israelense está mostrando que nada, nem suas relações com outros países, nem a vida de seus próprios cidadãos, é mais importante do que sua capacidade de continuar exterminando gradualmente a população de Gaza.

Os EUA e seus aliados continuarão, estranhamente, a apoiar um Estado estrangeiro que se comporta cada vez mais como um pária global e que, ao mesmo tempo, insulta e desafia abertamente seu país?

Colaborador

Branko Marcetic é escritor da redação da Jacobin e mora em Toronto, Canada.

11 de setembro de 2025

As drogas estão vindo de dentro da base militar

O best-seller de Seth Harp, The Fort Bragg Cartel, expõe o grau em que o tráfico de drogas e os crimes violentos que o acompanham estão conectados às guerras estrangeiras. É uma leitura oportuna, visto que Donald Trump usa ambos para justificar novas expansões radicais de poder militar.

UMA ENTREVISTA COM
Seth Harp

Jacobin

Soldados de Operações Especiais realizam uma demonstração na Holland Drop Zone para Donald Trump em 10 de junho de 2025, em Fort Bragg, Carolina do Norte. (Anna Moneymaker / Getty Images)

UMA ENTREVISTA DE
Branko Marcetic

Existem livros importantes e existem livros populares. Infelizmente, raramente há uma intersecção entre os dois. The Fort Bragg Cartel: Drug Trafficking and Murder in the Special Forces [O Cartel de Fort Bragg: Tráfico de Drogas e Assassinatos nas Forças Especiais], de Seth Harp, uma exposição da criminalidade e da violência perpetradas por militares das Forças Especiais que retornam às comunidades estadunidenses, é uma rara exceção. O livro disparou para a lista de mais vendidos do New York Times e agora está prestes a virar uma série da HBO.

Seu impacto parece quase feito sob medida para este momento. O livro de Harp está causando repercussão no momento em que Donald Trump usa uma suposta repressão à criminalidade violenta e ao tráfico de drogas como pretexto para mobilizar ilegalmente o exército nas ruas estadunidenses e expandir o ímpeto militar dos EUA de maneiras novas e radicais.

Branko Marcetic, da Jacobin, conversou com Harp, jornalista investigativo e veterano militar, sobre a evolução das intervenções militares dos Estados Unidos, as formas menos conhecidas como elas repercutem em solo estadunidenses e novos detalhes sobre suas reportagens que não foram incluídos no livro. A entrevista foi editada para maior clareza.

Branko Marcetic

Como você descreveria a imagem popular dos membros das Forças Especiais conforme ela foi divulgada ao público e como isso contrasta com o que você descobriu ao longo de sua reportagem?

SETH HARP

O que o público imagina como agentes especiais é em grande parte moldado por programas de TV e filmes que retratam esses caras como heróis de ação. Acabei de assistir a um episódio de uma série chamada A Lista Terminal, e é bem típico na forma como retrata esses durões cabeludos, anti-heróis marrentos e valentes que lutam contra terroristas. A realidade em torno das Forças Especiais é muito mais complexa.

As Forças Especiais têm uma função específica. As Forças Especiais do Exército têm uma função de nicho, que surgiu nos tempos de Vietnã, que era treinar exércitos estrangeiros para agir em países onde os Estados Unidos percebiam interesses de segurança nacional e criar forças de apoio para servir a esses interesses. Eles são instrutores. Eles se reúnem com forças locais em um país como o Afeganistão, por exemplo, e seu trabalho é criar uma força capaz de se manter por conta própria. Então, muitas das coisas que eles fazem são equipar esses caras com armas, conseguir dinheiro, treiná-los para lutar e, em seguida, liderá-los em batalha.

Branko Marcetic

Muitos deles acabam se arrependendo do que fizeram, apesar da imagem de heróis, e isso leva a essas disfunções pessoais que você aborda em detalhes.

SH

Sim, Sebastian Junger escreveu um livro há alguns anos, Tribe, no qual fala sobre grupos de caçadores-coletores que participaram de guerras tribais, muitos dos quais matavam pessoas e eram expostos a violências horríveis em lugares como Papua Nova Guiné ou a Amazônia. O ponto dele era que, nesses ambientes, não existe Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Ele não existe.

Ele contrasta isso com a experiência de lutar nas forças armadas modernas de um Estado-nação massivo como os EUA, capitalista, alienado e atomizado, onde há uma divergência entre os interesses da elite e o povo. Sua hipótese básica, que considero interessante, é que é a falta de integração das razões para lutar uma guerra que faz com que as pessoas sofram e lutem com suas consciências posteriormente. É porque elas estão lutando por interesses alienados, e não por sua tribo.

A ausência de um objetivo legítimo ao qual a violência esteja a serviço é o que impulsiona o TEPT e a lesão moral observáveis ​​nas Forças Especiais.

Os Navy SEALs se chamam de irmãos, mas não são irmãos no sentido em que caçadores-coletores são literalmente irmãos e primos lutando. Acho que isso tem muito a ver com a situação, agravado pelo fato de a maioria dos veteranos achar que as guerras no Iraque e no Afeganistão não valeram a pena. A ausência de um objetivo legítimo no fundamento da violência é o que impulsiona a epidemia de TEPT e danos morais observáveis ​​nas Forças Especiais.

Branko Marcetic

Estamos no meio de uma crise política em que o papel das Forças Armadas está sendo radicalmente expandido, inclusive na vida doméstica dos EUA, tudo com base no combate ao crime e às drogas, sendo as drogas uma ameaça à segurança nacional. No entanto, parece que grande parte da reação negativa dessas operações das Forças Especiais se deve ao fato de os soldados afetados acabarem cometendo crimes e violência em casa, além de se envolverem com o tráfico de drogas.

Quanto do tráfico interno de drogas pode ser atribuído às Forças Armadas dos EUA? E quando se trata dos crimes e da violência cometidos por agentes especiais em suas comunidades, até que ponto podemos dizer que são exceções?


SH

Não creio que se possa dizer que são apenas maçãs podres ou casos isolados, porque são muitos.

Meu livro se concentra principalmente em dois agentes especiais que foram encontrados mortos em Fort Bragg em 2020: Timothy Dumas e Billy LaVigne. Eles morreram em 2020, e a investigação de suas mortes durou três anos. Nos anos seguintes, surgiram muitos outros casos em Fort Bragg sobre os quais não tenho detalhes tão precisos, mas ainda estou acompanhando.

Todd Michael Fulkerson, um Boina Verde treinado em Bragg, foi condenado no início deste ano por tráfico de narcóticos com o cartel de Sinaloa, passando pela fronteira do Arizona e trazendo drogas para Ohio. Outro sujeito, Jorge Esteban Garcia, que foi o principal conselheiro de carreira em Fort Bragg por vinte anos — sua função era orientar e guiar soldados aposentados sobre suas perspectivas de carreira — estava literalmente recrutando para um cartel e foi condenado por tráfico de metanfetamina e apoio a uma organização extremista violenta. E então um grupo de soldados da 44ª Brigada Médica em Fort Bragg — todos esses soldados estão em Fort Bragg — foram condenados por tráfico de grandes quantidades de cetamina de Camarões, na África Ocidental, para os EUA, pelo correio.

Esses três casos ocorreram apenas nos últimos dezoito meses, mais ou menos, e em apenas uma base militar. Quando você analisa esses casos de perto, percebe quantas vezes esses fatos são encobertos e como é raro que se chegue a um julgamento completo pelo sistema de justiça criminal a ponto de se obter uma condenação. Estou falando apenas dos casos em que esses soldados foram condenados. Muitos outros casos são silenciosamente enterrados e nunca vêm à tona.

Não creio que se possa dizer que os soldados traficantes de drogas são apenas maçãs podres ou casos isolados, porque são muitos.

Quanto à proporção de drogas trazidas para os Estados Unidos por militares, acho que é impossível quantificar por uma série de razões. Mas o que se pode dizer é que, ao analisar cada região do mundo que é um grande centro de produção de drogas — que na verdade não são muitas —, é possível perceber que, em todos os casos, a intervenção militar estadunidense precedeu a transformação do país em um narcoestado, e não o contrário.

Estamos falando do México, Colômbia, Peru e Bolívia, em certa medida, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Afeganistão, além do que hoje é chamado de Mianmar. Esses países respondem pela maior parte de todas as drogas produzidas no mundo e todos têm um longo histórico de intervenção militar e de inteligência dos EUA, anterior à sua transformação em narcoestados.

Branko Marcetic

Grande parte da imprudência e violência militar que você descreve no livro e das justificativas para isso me lembram o que está acontecendo em Gaza. Sabemos que há planejadores de guerra estadunidenses por aí que querem fazer do que ocorre em Gaza e seu descarado desrespeito às leis e normas da guerra o novo normal, não apenas para Israel, mas também para os operadores militares estadunidenses. Há alguma preocupação de que a violência extrema que você descreve sendo praticada pelas Forças Especiais no livro não permaneça apenas como uma parte obscura da máquina militar dos EUA, mas sim como a maneira como todos começam a operar?

SH

As coisas estão mudando como nunca antes. É difícil prever. Nos dois primeiros anos do ataque israelense a Gaza, uma coisa ficou clara: as Forças de Defesa de Israel (FDI) fazem com que as Forças Armadas dos EUA pareçam muito boazinhas em comparação. E não é uma comparação clara, porque, por exemplo, os EUA mataram centenas de milhares de pessoas no Iraque, possivelmente até um milhão, certamente mais do que as que foram mortas em Gaza.

No entanto — e isso não é intencional, e ninguém que leu meu livro confundiria isso com um pedido de desculpas — os militares estadunidenses, ao travar a guerra no Iraque, se comportaram de acordo com um certo tipo de legalidade. Eles estavam, em geral, seguindo processos legais em que a guerra havia sido autorizada pelo Congresso e sancionada pelo presidente. E, a partir daí, havia combatentes inimigos que eram designados como combatentes e que podiam ser legalmente mortos. Havia esforços conjuntos para treinar tropas a fim de minimizar as baixas civis.

Na unidade em que servi, no Iraque, quando um soldado matou civis injustamente — o que aconteceu bem na minha frente — outros soldados da unidade relataram que não ficaram felizes com isso e, na verdade, tentaram deixa-lo em maus lençóis. Ele nunca foi [responsabilizado], mas isso ainda demonstra uma certa intenção de cumprir as leis da guerra.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) não se importam com nada disso. São apenas assassinos e terroristas que matam qualquer um que se mova: matam crianças, matam mulheres, praticam assassinatos. Vimos os piores horrores que alguém já viu na memória recente, cometidos pelas Forças de Defesa de Israel (IDF). A questão que mais me preocupa nesse sentido é se os EUA seguirão os israelenses nesse caminho e agirão da mesma forma.

Vimos os piores horrores já vistos na memória viva, cometidos pelas IDF.

Certamente, o ataque a um barco venezuelano outro dia sugere que é possível que avancemos nessa direção, porque eles não tornaram públicas suas informações de inteligência mostrando que eram membros de cartel. Mesmo que fossem membros de cartel, não são combatentes em uma guerra, então atacá-los é totalmente contra as leis de guerra. E eles estão fazendo isso abertamente. Isso é semelhante aos israelenses nesse aspecto. Estou realmente preocupado que nosso país possa seguir o mesmo modelo e se tornar ainda mais parecido com as IDF.

Branko Marcetic

Você escreve sobre o Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC). Ele foi criado quase como uma forma de contornar as medidas tomadas na década de 1970 para controlar a CIA. E então você combina isso com o fato de que, mesmo com autoridades estadunidenses afirmando que não haverá tropas em lugares como a Ucrânia, como relata, Forças Especiais foram enviadas ao país.

Estamos caminhando para que isso se torne a nova versão de tropas no terreno, onde tropas estadunidenses estão sendo mobilizadas, apenas em pequena escala e sem conhecimento público?


SH

Certamente. Acho que isso é preocupante. Um ponto a ter em mente é que o JSOC é uma organização altamente adaptável, e você os vê se tornarem uma versão muito diferente de si mesmos em conflitos armados sucessivos. Então, eles entraram na Guerra do Iraque como uma organização de nicho que existia para caçar ex-oficiais do regime e procurar por armas de destruição em massa, que acabaram não existindo. Mas, ao longo da guerra, o JSOC evoluiu para uma organização muito maior e mais sangrenta, com um conjunto de alvos muito maior e mais amplo; em 2007, 2008, eles estavam simplesmente liquidando qualquer um que tivesse qualquer conexão com a insurgência.

Eu uso a expressão “esquadrão da morte” para descrever as operações do JSOC no Iraque. Um modelo semelhante foi então aplicado à guerra no Afeganistão quando o presidente [Barack] Obama assumiu o cargo; novamente, a Força Delta e o JSOC funcionaram como uma espécie de esquadrão da morte no Afeganistão, onde se dedicam a missões diárias de assassinato.

A situação desacelerou porque o Afeganistão era um tipo de guerra muito diferente em termos de terreno, composição do inimigo e tamanho populacional em relação ao Iraque. Então, a guerra evoluiu lá, e o ritmo das operações é menor. E na África Ocidental e em todo o Norte da África, o JSOC é um tipo de organização muito diferente. Sabe-se menos sobre o que eles estão fazendo lá. Certamente, há missões cinéticas e letais em que eles estão envolvidos. Mas não está totalmente claro para mim em que consistem as operações do JSOC lá. Sei que eles estão fazendo muitas patrulhas, muita vigilância e ataques ocasionais, particularmente na Somália.

Eles também são muito ativos na Líbia, mas é difícil saber exatamente o que estão fazendo lá. A mesma história com a Ucrânia. Sabemos que eles estão lá. Sabemos que estão realizando operações. E também vemos muitas sabotagens e assassinatos acontecendo dentro das fronteiras russas: generais sendo mortos por carros-bomba, fábricas explodindo, depósitos de armas pegando fogo. Até que ponto as tropas estadunidenses em serviço ativo são responsáveis ​​por executar essas operações em comparação com o trabalho por meio de agentes ucranianos? É mais difícil dizer. Há um atraso nessas informações porque elas levam anos para serem divulgadas.

Quando eu reportava no Iraque, não estava acompanhando completamente o que a Força Delta fazia, porque eles são muito sigilosos e é muito difícil penetrar na organização para obter detalhes operacionais sobre o que eles estão fazendo. Mas devemos ficar de olho em suas ações. E em Gaza, sabemos que a Força Delta tem uma célula de ligação permanente em Tel Aviv e que sempre há pessoal da Força Delta em Israel colaborando com as IDF. Eles também estão fazendo coisas no Iêmen. Então, é algo para ficar de olho. Mas, novamente, esta é uma organização adaptável que pode se transformar e mudar bem diante dos seus olhos e se tornar algo totalmente diferente do que era há alguns anos.

Branko Marcetic

Logo após a publicação, você recebeu a dica e conseguiu uma autobiografia inédita escrita por William LaVigne, um dos personagens centrais do seu livro: um operador da Força Delta que retorna do Afeganistão e acaba se envolvendo com o tráfico de drogas, matando o próprio amigo. Estou curioso para saber o que você encontrou nas memórias dele.

SH

Na primeira vez que li, fiquei extremamente atento para ver se havia errado. Na verdade, era muito mais pesado do que eu imaginava. O que LaVigne admite é realmente de cair o queixo. Ele fala não apenas sobre as operações e o combate da Força Delta, mas também sobre suas atividades criminosas na Carolina do Norte. Há muitas informações ali que, na minha opinião, seriam relevantes para a investigação de sua morte também, para atribuir responsabilidade por seu assassinato e pelo assassinato de Timothy Dumas.

Cito fontes no livro que afirmam que LaVigne trabalhava para um cartel e traficava drogas em alto nível. Era algo bem difícil de definir. Mas ele admite isso diretamente no livro e detalha minuciosamente seu trabalho para esse cartel, dizendo que tudo começou logo depois que ele foi expulso da Força Delta, após sua sexta prisão por crime grave. Ele não foi expulso depois de assassinar o amigo. Ele permaneceu na ativa. Mas, depois de várias prisões subsequentes, eles finalmente se cansaram.

Ele fala sobre fazer viagens internacionais de drogas até a América Central e usar saltos de paraquedas em grandes altitudes para contrabandear pacotes de drogas para os EUA.

Isso o destruiu, porque ele vivia para a carreira e era totalmente obcecado em ser um membro da Força Delta. Era toda a sua identidade. Quando perdeu isso, perdeu completamente o controle, e seu problema com drogas se tornou realmente extremo. Ele fala sobre conhecer traficantes de baixo escalão e, em seguida, conhecer pessoas acima deles. Ele ascendeu gradualmente neste mundo, porque todos sabiam quem ele era e o que fez, e todos estavam ansiosos para usar suas habilidades.

Ele fala sobre ter se envolvido com alguns dos maiores traficantes de drogas da Carolina do Norte, representantes de organizações mexicanas que estavam lá e que queriam mais de seus conhecimentos e habilidades, não apenas em termos de espancar e ameaçar pessoas que lhes deviam dinheiro, acompanhá-las como guarda-costas e ensiná-las a fazer segurança, mas também treiná-las sobre como funciona a vigilância. Porque, como membro da Força Delta, ele realmente entendia de segurança operacional e do que é seguro e do que não é, das capacidades e limitações da aplicação da lei.

Ele estava treinando esses caras. Ele até fala em fazer operações internacionais de tráfico de drogas na América Central e usar saltos de paraquedas em grandes altitudes para contrabandear pacotes de drogas para os Estados Unidos, o que, eu acho, é o modus operandi de oficiais de alto escalão das Forças Especiais que se voltam para o tráfico de drogas. Com grandes cargas de cocaína, é uma maneira muito eficaz de driblar as inspeções alfandegárias.

Branko Marcetic

O que ele escreveu sobre as coisas que fez quando foi enviado para o exterior?

SH

Os relatos mais detalhados das operações da Força Delta que já li vêm deste livro de memórias. Anos atrás, um sujeito, um repórter chamado Sean Naylor, escreveu um ótimo livro sobre o JSOC chamado Relentless Strike [Ofensiva Implacável]. E esse foi o relato mais detalhado de como o JSOC opera que já li. Porque você precisa ter em mente: há um vácuo total de informações em torno desta organização, apesar de sua centralidade para o governo dos EUA e o esforço de guerra.

Mas o de Billy Lavigne é uma visão muito mais interna de como, em um nível tático passo a passo, eles realizam o assassinato de, digamos, um sujeito em um carro em movimento ou um sujeito em um complexo fortificado cercado por milhares de combatentes. Uma das cenas mais incríveis em suas memórias, que são surpreendentemente bem escritas, é quando ele fala sobre um ataque ocorrido em 2015, na Síria, que teve como alvo um comandante do ISIS chamado Abu Sayyaf. Esse sujeito estava cercado por milhares de combatentes do ISIS em uma vila que estava completamente ocupada pelo ISIS. Lendo seu relato de como eles agiram cirurgicamente — quero dizer, de maneira relativamente cirúrgica, eles provavelmente mataram cem pessoas naquele dia. Mas a maneira como ele descreve exatamente como eles realizaram essa operação e não perderam ninguém de suas próprias forças, sua precisão e planejamento são realmente incríveis.

Eles estão apenas filmando seus próprios crimes de guerra e o secretário de Estado os publica no Twitter.

Eles esperam semanas pela oportunidade certa para atacar em uma noite de tempo claro. A ausência de lua é um fator importante para eles, pois assim podem operar na escuridão total, sem nuvens obscurecendo seus próprios drones de vigilância. O que eles fazem constantemente é minimizar riscos, controlar contingências e, em seguida, avançar e, de forma muito metódica, eliminar todos os que estão em sua lista de alvos, mantendo um perímetro seguro constantemente sob ataque. É de cair o queixo ver isso de dentro.

A propósito, o papel dele era de adestrador de cães. Nunca percebi até que ponto a unidade usa cães. Eles usam cães em todas as operações. É algo que não é realmente representado em filmes e TVs. Uma coisa significativa que ele reconhece: seu cachorro arrastou para ele um prisioneiro desarmado que eles haviam dilacerado, e ele descreve como tirou o cabelo do sujeito do rosto, porque ele tinha cabelo comprido. E quando ele viu que não era Abu Sayyaf, o alvo que eles estavam tentando sequestrar, ele simplesmente atirou nele à queima-roupa. Simplesmente explodiu seus miolos ali mesmo. Então, a maneira como ele casualmente descreveu o ato de matar prisioneiros confirmou o que escrevi no livro sobre como esses ataques tendem a ser massacres totais. Em todos os ataques que Lavigne descreve, não há sobreviventes do sexo masculino.

Branko Marcetic

O tráfico de drogas relacionado às forças armadas hoje está em uma escala diferente em comparação, digamos, à década de 1980, quando sabemos que havia alguma cooperação com o tráfico de drogas enquanto os Estados Unidos apoiavam os contras?

SH

Eu diria que a cumplicidade dos EUA no tráfico internacional de drogas nunca foi tão substancial quanto na guerra do Afeganistão, ou tão abertamente. Não há dúvida, na verdade. Gary Webb fez uma ótima reportagem sobre como os rebeldes Contra na Nicarágua, que tinham apoio secreto dos EUA, estavam sendo tacitamente autorizados a traficar cocaína para os Estados Unidos através do México. Mas, por pior que tenha sido a epidemia de crack nos EUA, que isso alimentou, não é nada comparada à crise da heroína que vimos nos Estados Unidos em 2010.

O problema das drogas nos EUA piorou muito desde a década de 1980, e a maior parte dessa heroína vinha do Afeganistão, embora a DEA tenha encoberto esse fato. Mas isso se aplica ao mundo todo: a Europa e a Austrália passaram por crises de heroína nessa época, impulsionadas por um suprimento incrivelmente abundante e de alta potência de heroína, praticamente toda proveniente do Afeganistão. Praticamente toda ela era produzida por senhores da guerra, chefes de polícia e altos funcionários estatais — todos com o apoio aberto do exército estadunidense, e muitos dos quais estavam secretamente a serviço da CIA.

Assim, os EUA criaram o Afeganistão como um narcoestado, protegendo-o e armando-o por vinte anos, enquanto injetavam heroína nas veias do mundo inteiro. E a falta de consideração em torno disso é verdadeiramente impressionante, assim como o nível de silenciamento da elite em torno desse enorme crime global que todo o governo dos EUA cometeu, e que teve consequências tão desastrosas para nós como país e para o mundo inteiro.

Branko Marcetic

No entanto, agora, vemos os militares sendo mobilizados como uma forma de combater o tráfico de drogas, apesar de ser sabido até mesmo dentro do governo dos EUA que os militares são uma das principais causas disso.

SH

Faz pouco sentido. A Venezuela nem sequer é um grande país produtor de drogas. Eles estão apenas contando com a ignorância dos estadunidenses para pensar: “Bem, fica na América do Sul. Deve ser um narcoestado”. Mas, na verdade, não é o caso. A Venezuela não tem terras propícias para o cultivo de coca. Ela é cultivada na Colômbia, Bolívia e Peru, países vizinhos da Venezuela.

Está totalmente ausente qualquer capacidade de reflexão, humanidade, senso de justiça ou sabedoria — qualquer coisa que você queira ver em um general ou estadista de alta patente.

Este exemplo do ataque ao barco é realmente um mau presságio para o futuro. E as mentiras não são tão boas, nem tão sofisticadas como costumavam ser. Eles estão apenas filmando seus próprios crimes de guerra e o Secretário de Estado os publica no Twitter.

A propósito, li o artigo da Jacobin sobre o General Michael Kurilla [comandante aposentado do CENTCOM]. Tenho o currículo completo dele. Sei tudo o que ele fez na carreira. Estávamos falando antes sobre como as pessoas dentro dessas instituições se veem como atores que operam eticamente dentro de uma estrutura legal. Isso é um fator limitante para a gravidade dos crimes de guerra que eles cometerão.

Mas uma tendência realmente negativa em torno da presidência de Trump é que, quanto mais tempo ele permanece no cargo — vimos isso durante seu primeiro mandato, e não tenho motivos para acreditar que não vá acontecer novamente — esse tipo de pessoa tende a sair das Forças Armadas porque não gosta da falta de seriedade e profissionalismo de pessoas como Trump e alguns de seus principais aliados. Quanto mais centristas e sóbrios os militares, menos presentes estarão, e as pessoas mais bajuladoras, mais dispostas a bajular os preconceitos e instintos de violência de Trump, bem como as pessoas ao seu redor que estão apoiando Israel — são elas que estão ascendendo na hierarquia militar.

Kurilla era um deles: alguém que percebeu, no ambiente atual, que Israel é quem lhe garantirá a próxima honraria que almeja em sua carreira militar. Totalmente ausente está qualquer capacidade de reflexão, humanidade, senso de justiça ou sabedoria — qualquer coisa que se queira ver em um general ou estadista de alta patente. É realmente preocupante ver essas pessoas ascendendo na hierarquia militar.

Colaboradores

Branko Marcetic é escritor da redação da Jacobin e mora em Toronto, Canada.

Seth Harp é autor de The Fort Bragg Cartel: Drug Trafficking and Murder in the Special Forces e editor colaborador da Rolling Stone.

As drogas estão vindo de dentro da base militar

O best-seller de Seth Harp, The Fort Bragg Cartel, expõe a extensão da ligação entre o tráfico de drogas nos Estados Unidos e a violência que o acompanha, bem como suas guerras no exterior. É uma leitura oportuna, visto que Donald Trump usa ambos para justificar novas e radicais expansões do poderio militar.

Uma entrevista com
Seth Harp

Jacobin

Soldados de Operações Especiais realizam uma demonstração na Holland Drop Zone para Donald Trump em 10 de junho de 2025, em Fort Bragg, Carolina do Norte. (Anna Moneymaker / Getty Images)

Entrevistado por
Branko Marcetic

Existem livros importantes e existem livros populares. Infelizmente, raramente há uma intersecção entre os dois. The Fort Bragg Cartel: Drug Trafficking and Murder in the Special Forces, de Seth Harp, uma exposição da criminalidade e da violência perpetradas por militares das Forças Especiais que retornam às comunidades estadunidenses, é uma rara exceção. O livro disparou para a lista de mais vendidos do New York Times e agora está prestes a virar uma série da HBO.

Seu impacto parece quase feito sob medida para este momento. O livro de Harp está causando repercussão no momento em que Donald Trump usa uma suposta repressão à criminalidade violenta e ao tráfico de drogas como pretexto para mobilizar ilegalmente o exército nas ruas estadunidenses e expandir o ímpeto militar dos EUA de maneiras novas e radicais.

Branko Marcetic, da Jacobin, conversou com Harp, jornalista investigativo e veterano militar, sobre a evolução das intervenções militares dos Estados Unidos, as formas menos conhecidas como elas repercutem em solo estadunidenses e novos detalhes sobre suas reportagens que não foram incluídos no livro. A entrevista foi editada para maior clareza.

BRANKO MARCETIC

Como você descreveria a imagem popular dos membros das Forças Especiais conforme ela foi divulgada ao público e como isso contrasta com o que você descobriu ao longo de sua reportagem?

SETH HARP

O que o público imagina como agentes especiais é em grande parte moldado por programas de TV e filmes que retratam esses caras como heróis de ação. Acabei de assistir a um episódio de uma série chamada A Lista Terminal, e é bem típico na forma como retrata esses durões cabeludos, anti-heróis marrentos e valentes que lutam contra terroristas. A realidade em torno das Forças Especiais é muito mais complexa.

As Forças Especiais têm uma função específica. As Forças Especiais do Exército têm uma função de nicho, que surgiu nos tempos de Vietnã, que era treinar exércitos estrangeiros para agir em países onde os Estados Unidos percebiam interesses de segurança nacional e criar forças de apoio para servir a esses interesses. Eles são instrutores. Eles se reúnem com forças locais em um país como o Afeganistão, por exemplo, e seu trabalho é criar uma força capaz de se manter por conta própria. Então, muitas das coisas que eles fazem são equipar esses caras com armas, conseguir dinheiro, treiná-los para lutar e, em seguida, liderá-los em batalha.

Branko Marcetic

Muitos deles acabam se arrependendo do que fizeram, apesar da imagem de heróis, e isso leva a essas disfunções pessoais que você aborda em detalhes.

SH

Sim, Sebastian Junger escreveu um livro há alguns anos, Tribe, no qual fala sobre grupos de caçadores-coletores que participaram de guerras tribais, muitos dos quais matavam pessoas e eram expostos a violências horríveis em lugares como Papua Nova Guiné ou a Amazônia. O ponto dele era que, nesses ambientes, não existe Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Ele não existe.

Ele contrasta isso com a experiência de lutar nas forças armadas modernas de um Estado-nação massivo como os EUA, capitalista, alienado e atomizado, onde há uma divergência entre os interesses da elite e o povo. Sua hipótese básica, que considero interessante, é que é a falta de integração das razões para lutar uma guerra que faz com que as pessoas sofram e lutem com suas consciências posteriormente. É porque elas estão lutando por interesses alienados, e não por sua tribo.

“A ausência de um objetivo legítimo ao qual a violência esteja a serviço é o que impulsiona o TEPT e a lesão moral observáveis ​​nas Forças Especiais.”

Os Navy SEALs se chamam de irmãos, mas não são irmãos no sentido em que caçadores-coletores são literalmente irmãos e primos lutando. Acho que isso tem muito a ver com a situação, agravado pelo fato de a maioria dos veteranos achar que as guerras no Iraque e no Afeganistão não valeram a pena. A ausência de um objetivo legítimo no fundamento da violência é o que impulsiona a epidemia de TEPT e danos morais observáveis ​​nas Forças Especiais.

Branko Marcetic

Estamos no meio de uma crise política em que o papel das Forças Armadas está sendo radicalmente expandido, inclusive na vida doméstica dos EUA, tudo com base no combate ao crime e às drogas, sendo as drogas uma ameaça à segurança nacional. No entanto, parece que grande parte da reação negativa dessas operações das Forças Especiais se deve ao fato de os soldados afetados acabarem cometendo crimes e violência em casa, além de se envolverem com o tráfico de drogas.

Quanto do tráfico interno de drogas pode ser atribuído às Forças Armadas dos EUA? E quando se trata dos crimes e da violência cometidos por agentes especiais em suas comunidades, até que ponto podemos dizer que são exceções?

SH

Não creio que se possa dizer que são apenas maçãs podres ou casos isolados, porque são muitos.

Meu livro se concentra principalmente em dois agentes especiais que foram encontrados mortos em Fort Bragg em 2020: Timothy Dumas e Billy LaVigne. Eles morreram em 2020, e a investigação de suas mortes durou três anos. Nos anos seguintes, surgiram muitos outros casos em Fort Bragg sobre os quais não tenho detalhes tão precisos, mas ainda estou acompanhando.

Todd Michael Fulkerson, um Boina Verde treinado em Bragg, foi condenado no início deste ano por tráfico de narcóticos com o cartel de Sinaloa, passando pela fronteira do Arizona e trazendo drogas para Ohio. Outro sujeito, Jorge Esteban Garcia, que foi o principal conselheiro de carreira em Fort Bragg por vinte anos — sua função era orientar e guiar soldados aposentados sobre suas perspectivas de carreira — estava literalmente recrutando para um cartel e foi condenado por tráfico de metanfetamina e apoio a uma organização extremista violenta. E então um grupo de soldados da 44ª Brigada Médica em Fort Bragg — todos esses soldados estão em Fort Bragg — foram condenados por tráfico de grandes quantidades de cetamina de Camarões, na África Ocidental, para os EUA, pelo correio.

Esses três casos ocorreram apenas nos últimos dezoito meses, mais ou menos, e em apenas uma base militar. Quando você analisa esses casos de perto, percebe quantas vezes esses fatos são encobertos e como é raro que se chegue a um julgamento completo pelo sistema de justiça criminal a ponto de se obter uma condenação. Estou falando apenas dos casos em que esses soldados foram condenados. Muitos outros casos são silenciosamente enterrados e nunca vêm à tona.

“Não creio que se possa dizer que os soldados traficantes de drogas são apenas maçãs podres ou casos isolados, porque são muitos.”

Quanto à proporção de drogas trazidas para os Estados Unidos por militares, acho que é impossível quantificar por uma série de razões. Mas o que se pode dizer é que, ao analisar cada região do mundo que é um grande centro de produção de drogas — que na verdade não são muitas —, é possível perceber que, em todos os casos, a intervenção militar estadunidense precedeu a transformação do país em um narcoestado, e não o contrário.

Estamos falando do México, Colômbia, Peru e Bolívia, em certa medida, El Salvador, Honduras, Nicarágua e Afeganistão, além do que hoje é chamado de Mianmar. Esses países respondem pela maior parte de todas as drogas produzidas no mundo e todos têm um longo histórico de intervenção militar e de inteligência dos EUA, anterior à sua transformação em narcoestados.

Branko Marcetic

Grande parte da imprudência e violência militar que você descreve no livro e das justificativas para isso me lembram o que está acontecendo em Gaza. Sabemos que há planejadores de guerra estadunidenses por aí que querem fazer do que ocorre em Gaza e seu descarado desrespeito às leis e normas da guerra o novo normal, não apenas para Israel, mas também para os operadores militares estadunidenses. Há alguma preocupação de que a violência extrema que você descreve sendo praticada pelas Forças Especiais no livro não permaneça apenas como uma parte obscura da máquina militar dos EUA, mas sim como a maneira como todos começam a operar?

SH

As coisas estão mudando como nunca antes. É difícil prever. Nos dois primeiros anos do ataque israelense a Gaza, uma coisa ficou clara: as Forças de Defesa de Israel (FDI) fazem com que as Forças Armadas dos EUA pareçam muito boazinhas em comparação. E não é uma comparação clara, porque, por exemplo, os EUA mataram centenas de milhares de pessoas no Iraque, possivelmente até um milhão, certamente mais do que as que foram mortas em Gaza.

No entanto — e isso não é intencional, e ninguém que leu meu livro confundiria isso com um pedido de desculpas — os militares estadunidenses, ao travar a guerra no Iraque, se comportaram de acordo com um certo tipo de legalidade. Eles estavam, em geral, seguindo processos legais em que a guerra havia sido autorizada pelo Congresso e sancionada pelo presidente. E, a partir daí, havia combatentes inimigos que eram designados como combatentes e que podiam ser legalmente mortos. Havia esforços conjuntos para treinar tropas a fim de minimizar as baixas civis.

Na unidade em que servi, no Iraque, quando um soldado matou civis injustamente — o que aconteceu bem na minha frente — outros soldados da unidade relataram que não ficaram felizes com isso e, na verdade, tentaram deixa-lo em maus lençóis. Ele nunca foi [responsabilizado], mas isso ainda demonstra uma certa intenção de cumprir as leis da guerra.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) não se importam com nada disso. São apenas assassinos e terroristas que matam qualquer um que se mova: matam crianças, matam mulheres, praticam assassinatos. Vimos os piores horrores que alguém já viu na memória recente, cometidos pelas Forças de Defesa de Israel (IDF). A questão que mais me preocupa nesse sentido é se os EUA seguirão os israelenses nesse caminho e agirão da mesma forma.

"Testemunhamos os piores horrores que alguém jamais viu em nossa memória recente, cometidos pelas Forças de Defesa de Israel (IDF)."

Certamente, o ataque a um barco venezuelano outro dia sugere que é possível que avancemos nessa direção, porque eles não tornaram públicas suas informações de inteligência mostrando que eram membros de cartel. Mesmo que fossem membros de cartel, não são combatentes em uma guerra, então atacá-los é totalmente contra as leis de guerra. E eles estão fazendo isso abertamente. Isso é semelhante aos israelenses nesse aspecto. Estou realmente preocupado que nosso país possa seguir o mesmo modelo e se tornar ainda mais parecido com as IDF.

Branko Marcetic

Você escreve sobre o Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC). Ele foi criado quase como uma forma de contornar as medidas tomadas na década de 1970 para controlar a CIA. E então você combina isso com o fato de que, mesmo com autoridades estadunidenses afirmando que não haverá tropas em lugares como a Ucrânia, como relata, Forças Especiais foram enviadas ao país.

Estamos caminhando para que isso se torne a nova versão de tropas no terreno, onde tropas estadunidenses estão sendo mobilizadas, apenas em pequena escala e sem conhecimento público?

SH

Certamente. Acho que isso é preocupante. Um ponto a ter em mente é que o JSOC é uma organização altamente adaptável, e você os vê se tornarem uma versão muito diferente de si mesmos em conflitos armados sucessivos. Então, eles entraram na Guerra do Iraque como uma organização de nicho que existia para caçar ex-oficiais do regime e procurar por armas de destruição em massa, que acabaram não existindo. Mas, ao longo da guerra, o JSOC evoluiu para uma organização muito maior e mais sangrenta, com um conjunto de alvos muito maior e mais amplo; em 2007, 2008, eles estavam simplesmente liquidando qualquer um que tivesse qualquer conexão com a insurgência.

Eu uso a expressão “esquadrão da morte” para descrever as operações do JSOC no Iraque. Um modelo semelhante foi então aplicado à guerra no Afeganistão quando o presidente [Barack] Obama assumiu o cargo; novamente, a Força Delta e o JSOC funcionaram como uma espécie de esquadrão da morte no Afeganistão, onde se dedicam a missões diárias de assassinato.

A situação desacelerou porque o Afeganistão era um tipo de guerra muito diferente em termos de terreno, composição do inimigo e tamanho populacional em relação ao Iraque. Então, a guerra evoluiu lá, e o ritmo das operações é menor. E na África Ocidental e em todo o Norte da África, o JSOC é um tipo de organização muito diferente. Sabe-se menos sobre o que eles estão fazendo lá. Certamente, há missões cinéticas e letais em que eles estão envolvidos. Mas não está totalmente claro para mim em que consistem as operações do JSOC lá. Sei que eles estão fazendo muitas patrulhas, muita vigilância e ataques ocasionais, particularmente na Somália.

Eles também são muito ativos na Líbia, mas é difícil saber exatamente o que estão fazendo lá. A mesma história com a Ucrânia. Sabemos que eles estão lá. Sabemos que estão realizando operações. E também vemos muitas sabotagens e assassinatos acontecendo dentro das fronteiras russas: generais sendo mortos por carros-bomba, fábricas explodindo, depósitos de armas pegando fogo. Até que ponto as tropas estadunidenses em serviço ativo são responsáveis ​​por executar essas operações em comparação com o trabalho por meio de agentes ucranianos? É mais difícil dizer. Há um atraso nessas informações porque elas levam anos para serem divulgadas.

Quando eu reportava no Iraque, não estava acompanhando completamente o que a Força Delta fazia, porque eles são muito sigilosos e é muito difícil penetrar na organização para obter detalhes operacionais sobre o que eles estão fazendo. Mas devemos ficar de olho em suas ações. E em Gaza, sabemos que a Força Delta tem uma célula de ligação permanente em Tel Aviv e que sempre há pessoal da Força Delta em Israel colaborando com as IDF. Eles também estão fazendo coisas no Iêmen. Então, é algo para ficar de olho. Mas, novamente, esta é uma organização adaptável que pode se transformar e mudar bem diante dos seus olhos e se tornar algo totalmente diferente do que era há alguns anos.

Branko Marcetic

Logo após a publicação, você recebeu a dica e conseguiu uma autobiografia inédita escrita por William LaVigne, um dos personagens centrais do seu livro: um operador da Força Delta que retorna do Afeganistão e acaba se envolvendo com o tráfico de drogas, matando o próprio amigo. Estou curioso para saber o que você encontrou nas memórias dele.

SH

Na primeira vez que li, fiquei extremamente atento para ver se havia errado. Na verdade, era muito mais pesado do que eu imaginava. O que LaVigne admite é realmente de cair o queixo. Ele fala não apenas sobre as operações e o combate da Força Delta, mas também sobre suas atividades criminosas na Carolina do Norte. Há muitas informações ali que, na minha opinião, seriam relevantes para a investigação de sua morte também, para atribuir responsabilidade por seu assassinato e pelo assassinato de Timothy Dumas.

Cito fontes no livro que afirmam que LaVigne trabalhava para um cartel e traficava drogas em alto nível. Era algo bem difícil de definir. Mas ele admite isso diretamente no livro e detalha minuciosamente seu trabalho para esse cartel, dizendo que tudo começou logo depois que ele foi expulso da Força Delta, após sua sexta prisão por crime grave. Ele não foi expulso depois de assassinar o amigo. Ele permaneceu na ativa. Mas, depois de várias prisões subsequentes, eles finalmente se cansaram.

“Ele fala sobre fazer viagens internacionais de drogas até a América Central e usar saltos de paraquedas em grandes altitudes para contrabandear pacotes de drogas para os EUA.”

Isso o destruiu, porque ele vivia para a carreira e era totalmente obcecado em ser um membro da Força Delta. Era toda a sua identidade. Quando perdeu isso, perdeu completamente o controle, e seu problema com drogas se tornou realmente extremo. Ele fala sobre conhecer traficantes de baixo escalão e, em seguida, conhecer pessoas acima deles. Ele ascendeu gradualmente neste mundo, porque todos sabiam quem ele era e o que fez, e todos estavam ansiosos para usar suas habilidades.

Ele fala sobre ter se envolvido com alguns dos maiores traficantes de drogas da Carolina do Norte, representantes de organizações mexicanas que estavam lá e que queriam mais de seus conhecimentos e habilidades, não apenas em termos de espancar e ameaçar pessoas que lhes deviam dinheiro, acompanhá-las como guarda-costas e ensiná-las a fazer segurança, mas também treiná-las sobre como funciona a vigilância. Porque, como membro da Força Delta, ele realmente entendia de segurança operacional e do que é seguro e do que não é, das capacidades e limitações da aplicação da lei.

Ele estava treinando esses caras. Ele até fala em fazer operações internacionais de tráfico de drogas na América Central e usar saltos de paraquedas em grandes altitudes para contrabandear pacotes de drogas para os Estados Unidos, o que, eu acho, é o modus operandi de oficiais de alto escalão das Forças Especiais que se voltam para o tráfico de drogas. Com grandes cargas de cocaína, é uma maneira muito eficaz de driblar as inspeções alfandegárias.

Branko Marcetic

O que ele escreveu sobre as coisas que fez quando foi enviado para o exterior?

SH

Os relatos mais detalhados das operações da Força Delta que já li vêm deste livro de memórias. Anos atrás, um sujeito, um repórter chamado Sean Naylor, escreveu um ótimo livro sobre o JSOC chamado Relentless Strike [Ofensiva Implacável]. E esse foi o relato mais detalhado de como o JSOC opera que já li. Porque você precisa ter em mente: há um vácuo total de informações em torno desta organização, apesar de sua centralidade para o governo dos EUA e o esforço de guerra.

Mas o de Billy Lavigne é uma visão muito mais interna de como, em um nível tático passo a passo, eles realizam o assassinato de, digamos, um sujeito em um carro em movimento ou um sujeito em um complexo fortificado cercado por milhares de combatentes. Uma das cenas mais incríveis em suas memórias, que são surpreendentemente bem escritas, é quando ele fala sobre um ataque ocorrido em 2015, na Síria, que teve como alvo um comandante do ISIS chamado Abu Sayyaf. Esse sujeito estava cercado por milhares de combatentes do ISIS em uma vila que estava completamente ocupada pelo ISIS. Lendo seu relato de como eles agiram cirurgicamente — quero dizer, de maneira relativamente cirúrgica, eles provavelmente mataram cem pessoas naquele dia. Mas a maneira como ele descreve exatamente como eles realizaram essa operação e não perderam ninguém de suas próprias forças, sua precisão e planejamento são realmente incríveis.

“Eles estão apenas filmando seus próprios crimes de guerra e o secretário de Estado os publica no Twitter.”

Eles esperam semanas pela oportunidade certa para atacar em uma noite de tempo claro. A ausência de lua é um fator importante para eles, pois assim podem operar na escuridão total, sem nuvens obscurecendo seus próprios drones de vigilância. O que eles fazem constantemente é minimizar riscos, controlar contingências e, em seguida, avançar e, de forma muito metódica, eliminar todos os que estão em sua lista de alvos, mantendo um perímetro seguro constantemente sob ataque. É de cair o queixo ver isso de dentro.

A propósito, o papel dele era de adestrador de cães. Nunca percebi até que ponto a unidade usa cães. Eles usam cães em todas as operações. É algo que não é realmente representado em filmes e TVs. Uma coisa significativa que ele reconhece: seu cachorro arrastou para ele um prisioneiro desarmado que eles haviam dilacerado, e ele descreve como tirou o cabelo do sujeito do rosto, porque ele tinha cabelo comprido. E quando ele viu que não era Abu Sayyaf, o alvo que eles estavam tentando sequestrar, ele simplesmente atirou nele à queima-roupa. Simplesmente explodiu seus miolos ali mesmo. Então, a maneira como ele casualmente descreveu o ato de matar prisioneiros confirmou o que escrevi no livro sobre como esses ataques tendem a ser massacres totais. Em todos os ataques que Lavigne descreve, não há sobreviventes do sexo masculino.

Branko Marcetic

O tráfico de drogas relacionado às forças armadas hoje está em uma escala diferente em comparação, digamos, à década de 1980, quando sabemos que havia alguma cooperação com o tráfico de drogas enquanto os Estados Unidos apoiavam os contras?

SH

Eu diria que a cumplicidade dos EUA no tráfico internacional de drogas nunca foi tão substancial quanto na guerra do Afeganistão, ou tão abertamente. Não há dúvida, na verdade. Gary Webb fez uma ótima reportagem sobre como os rebeldes Contra na Nicarágua, que tinham apoio secreto dos EUA, estavam sendo tacitamente autorizados a traficar cocaína para os Estados Unidos através do México. Mas, por pior que tenha sido a epidemia de crack nos EUA, que isso alimentou, não é nada comparada à crise da heroína que vimos nos Estados Unidos em 2010.

O problema das drogas nos EUA piorou muito desde a década de 1980, e a maior parte dessa heroína vinha do Afeganistão, embora a DEA tenha encoberto esse fato. Mas isso se aplica ao mundo todo: a Europa e a Austrália passaram por crises de heroína nessa época, impulsionadas por um suprimento incrivelmente abundante e de alta potência de heroína, praticamente toda proveniente do Afeganistão. Praticamente toda ela era produzida por senhores da guerra, chefes de polícia e altos funcionários estatais — todos com o apoio aberto do exército estadunidense, e muitos dos quais estavam secretamente a serviço da CIA.

Assim, os EUA criaram o Afeganistão como um narcoestado, protegendo-o e armando-o por vinte anos, enquanto injetavam heroína nas veias do mundo inteiro. E a falta de consideração em torno disso é verdadeiramente impressionante, assim como o nível de silenciamento da elite em torno desse enorme crime global que todo o governo dos EUA cometeu, e que teve consequências tão desastrosas para nós como país e para o mundo inteiro.

Branko Marcetic

No entanto, agora, vemos os militares sendo mobilizados como uma forma de combater o tráfico de drogas, apesar de ser sabido até mesmo dentro do governo dos EUA que os militares são uma das principais causas disso.

SH

Faz pouco sentido. A Venezuela nem sequer é um grande país produtor de drogas. Eles estão apenas contando com a ignorância dos estadunidenses para pensar: “Bem, fica na América do Sul. Deve ser um narcoestado”. Mas, na verdade, não é o caso. A Venezuela não tem terras propícias para o cultivo de coca. Ela é cultivada na Colômbia, Bolívia e Peru, países vizinhos da Venezuela.

“Está totalmente ausente qualquer capacidade de reflexão, humanidade, senso de justiça ou sabedoria — qualquer coisa que você queira ver em um general ou estadista de alta patente.”

Este exemplo do ataque ao barco é realmente um mau presságio para o futuro. E as mentiras não são tão boas, nem tão sofisticadas como costumavam ser. Eles estão apenas filmando seus próprios crimes de guerra e o Secretário de Estado os publica no Twitter.

A propósito, li o artigo da Jacobin sobre o General Michael Kurilla [comandante aposentado do CENTCOM]. Tenho o currículo completo dele. Sei tudo o que ele fez na carreira. Estávamos falando antes sobre como as pessoas dentro dessas instituições se veem como atores que operam eticamente dentro de uma estrutura legal. Isso é um fator limitante para a gravidade dos crimes de guerra que eles cometerão.

Mas uma tendência realmente negativa em torno da presidência de Trump é que, quanto mais tempo ele permanece no cargo — vimos isso durante seu primeiro mandato, e não tenho motivos para acreditar que não vá acontecer novamente — esse tipo de pessoa tende a sair das Forças Armadas porque não gosta da falta de seriedade e profissionalismo de pessoas como Trump e alguns de seus principais aliados. Quanto mais centristas e sóbrios os militares, menos presentes estarão, e as pessoas mais bajuladoras, mais dispostas a bajular os preconceitos e instintos de violência de Trump, bem como as pessoas ao seu redor que estão apoiando Israel — são elas que estão ascendendo na hierarquia militar.

Kurilla era um deles: alguém que percebeu, no ambiente atual, que Israel é quem lhe garantirá a próxima honraria que almeja em sua carreira militar. Totalmente ausente está qualquer capacidade de reflexão, humanidade, senso de justiça ou sabedoria — qualquer coisa que se queira ver em um general ou estadista de alta patente. É realmente preocupante ver essas pessoas ascendendo na hierarquia militar.

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Branko Marcetic é escritor da redação da Jacobin e mora em Toronto, Canada.

Seth Harp é autor de The Fort Bragg Cartel: Drug Trafficking and Murder in the Special Forces e editor colaborador da Rolling Stone.

O guia essencial da Jacobin

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