21 de agosto de 2017

Quando o Renascimento de Harlem foi para a Moscou Comunista

Por um tempo, escritores e artistas afro-americanos pensaram que o comunismo soviético poderia permitir que eles criassem obras além da barreira da cor.

Jennifer Wilson

The New York Times

O cantor e ator Paul Robeson durante sua turnê em Moscou, em agosto de 1958. Anatoliy Garanin/Sputnik, via Associated Press

Em junho de 1932, o poeta Langston Hughes chegou a Moscou como parte de um grupo de 22 afro-americanos contratados para atuar em um filme soviético sobre relações raciais e conflitos trabalhistas no Sul dos Estados Unidos. O elenco havia sido reunido por Louise Thompson, uma ativista afro-americana que ajudou a fundar a filial do Harlem da organização "Amigos da União Soviética", uma iniciativa da Internacional Comunista. Thompson via no filme (que tinha o título notavelmente literal "Black and White" — "Preto e Branco") uma oportunidade de contrapor as representações distorcidas e estereotipadas da experiência afro-americana que infestavam os filmes de Hollywood.

Hughes compartilhava das frustrações de Thompson com o cinema americano, explicando a um amigo que depositava sua confiança nos soviéticos porque "o negro americano tem pouquíssimas chances de alcançar uma representação verdadeira" em Hollywood. A produção soviética de 1929 "China Express" — um filme sobre uma revolta da classe trabalhadora em um trem que viajava de Nanquim para Suzhou — inspirou em Hughes e Patterson a confiança de que os soviéticos poderiam produzir filmes de qualidade sobre pessoas não brancas, sem reduzi-las a caricaturas cômicas (os chamados minstrels).

Moscou não havia se juntado a Paris e Berlim como um refúgio para artistas e escritores negros americanos em busca de oportunidades livres das barreiras impostas pela segregação racial. No entanto, a cidade tinha uma vantagem sobre as outras capitais europeias: na União Soviética, a igualdade racial não era algo meramente incidental, mas sim um projeto de Estado. Vladimir Lenin, o fundador do Estado soviético, via no desenvolvimento de uma consciência proletária negra o maior potencial para a revolução na América. E, naquela época, a conscientização na Rússia soviética ainda era — antes da ascensão de Josef Stalin ao poder — uma tarefa deixada a cargo dos artistas.

Talvez não seja surpreendente, então, que, quando os soviéticos convidaram dois representantes para falar sobre “a questão negra” anos antes (para marcar o quinto aniversário da Revolução Russa), um deles fosse poeta. O jamaicano Claude McKay acabara de publicar Harlem Shadows, um livro de versos que muitos consideravam a centelha literária que havia desencadeado o Renascimento do Harlem. Na Rússia Soviética, McKay visitou acampamentos do Exército Vermelho para ler poemas da obra, incluindo seu famoso soneto “If We Must Die” (Se tivermos de morrer). Embora estivesse lá como representante político, McKay dedicou grande parte de seu discurso — intitulado “A Rússia Soviética e o Negro” — ao papel das artes no progresso racial. Ele falou sobre o que considerava expectativas brancas desgastadas em relação à arte negra, escrevendo que os europeus estavam familiarizados apenas com “o negro minstrel e artista de vaudeville, o boxeador, a mammy e o mordomo negros do cinema, as caricaturas dos romances e o selvagem linchado por ter violado uma bela moça branca”.

O poeta e autor Langston Hughes, da cidade de Nova York, fala perante o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara (HUAC) em Washington, D.C., em 1953. Associated Press

Em Moscou, McKay passava as noites com poetas, romancistas, pintores e figuras de novos teatros de vanguarda. Sobre seus colegas soviéticos, McKay escreveu: "Eu era um poeta, apenas isso, e suas perguntas perspicazes mostravam que estavam muito mais interessados ​​na técnica da minha poesia, nas minhas opiniões e na minha posição em relação aos movimentos literários modernos do que na diferença da minha cor".

Foi essa promessa de uma solidariedade criativa, livre das barreiras da segregação racial, que levou Thompson, Hughes e o elenco a depositarem suas esperanças em "Black and White". Quando a produção fracassou, os ânimos se exaltaram. Alguns membros do elenco acusaram a União Soviética de trair a causa afro-americana para ganhar o favor de Washington, de quem esperava obter reconhecimento oficial. Hughes, talvez o artista mais experiente do grupo, atribuiu o fracasso a divergências criativas (gente demais dando opinião). Refletindo sobre o projeto anos mais tarde, ele escreveu: "Ah, o cinema. Temperamentos. Artistas. Ambições. Cenários. Diretores, produtores, consultores, atores, censores, mudanças, revisões, reuniões. É uma arte complicada — o cinema. Ainda bem que escrevo poemas".

Após o colapso da produção de "Black and White", muitos membros do elenco permaneceram na União Soviética, acreditando ser aquele o melhor lugar para suas carreiras artísticas. O ator Wayland Rudd foi contratado por uma das companhias de teatro experimental de Moscou. O escritor Loren Miller ficou para editar uma antologia soviética de poesia afro-americana. Lloyd Patterson, recém-formado que havia aderido ao projeto apenas em busca de aventura, tornou-se cenógrafo de cinema. Seu filho Jimmy, ainda bebê, apareceu no famoso filme soviético de 1936 "Circus", no qual uma jovem americana branca com uma criança negra foge dos Estados Unidos em busca de refúgio racial na Rússia Soviética. Hughes permaneceu vários meses na Ásia Central soviética, especialmente no Uzbequistão, relatando as reformas soviéticas para diversas publicações americanas, incluindo a revista The Crisis, da NAACP. Diz-se que ele foi o primeiro poeta americano a ter sua obra traduzida para o uzbeque.

Apesar de seu fracasso, "Black and White" não impediu que outros artistas negros se aventurassem na indústria cinematográfica soviética. O cantor e ator Paul Robeson chegou a Moscou em 1934 a convite de Sergei Eisenstein, o diretor responsável por clássicos revolucionários como "O Encouraçado Potemkin", "Outubro" e "A Greve". Inspirado pela peça "Black Majesty", escrita por C. L. R. James — um intelectual e escritor comunista afro-trinitário —, Eisenstein havia convidado Robeson para, possivelmente, estrelar um filme sobre a Revolução Haitiana.

"Sinto-me um ser humano pela primeira vez", disse Robeson aos repórteres após chegar à Rússia. De todos os artistas e ativistas afro-americanos que viajaram para lá, nenhum desenvolveu uma relação tão duradoura com a União Soviética quanto Robeson. Logo na chegada, ele foi recebido com entusiasmo pela classe teatral soviética, que o convidou para cantar, no palco, uma ária da ópera "Boris Godunov", de Modest Mussorgsky. Apesar do ateísmo soviético, pediram-lhe que cantasse spirituals afro-americanos no rádio e em festas do governo. Sua canção "Sometimes I Feel Like a Motherless Child" tornou-se um novo símbolo de sua relação com seu país de origem; os soviéticos haviam utilizado sua gravação da música na trilha sonora de um curta-metragem de animação sobre racismo e exploração trabalhista na indústria açucareira americana.

No entanto, quando Robeson começava seu grande romance com o projeto soviético, McKay e muitos afro-americanos (incluindo o romancista Richard Wright) já estavam se afastando dele. McKay, assim como muitos dos artistas russos com quem colaborou em Moscou, acabou rompendo com o comunismo. O evento decisivo, para ele, foi o fato de a Rússia Soviética não ter interrompido o comércio com a Itália, mesmo após Mussolini ter invadido a Etiópia, então governada por Haile Selassie. A invasão foi amplamente vista como uma afronta à própria ideia de soberania negra. McKay transformaria sua desilusão política na obra Amiable With Big Teeth: A Novel of the Love Affair Between the Communists and the Poor Black Sheep of Harlem.

Wright logo se juntaria a McKay nessa desilusão. Em 1944, ele escreveu um artigo para a The Atlantic Monthly intitulado "I Tried to Be a Communist". Frustrado com a reação morna do Partido Comunista Americano ao seu romance Native Son (Filho Nativo), Wright escreveu a um amigo que o partido "incentiva a criação de tipos de escrita que possam ser usados ​​para fins de agitprop" (propaganda política), mas tinha "uma tendência a menosprezar tentativas mais criativas".

O envolvimento declarado de Hughes com o comunismo também diminuiu nessa época, embora talvez mais por necessidade. Ele estava sob intensa vigilância do Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara — na era do macarthismo —, que o acusava de ter integrado, em diferentes momentos, 91 organizações comunistas. Hughes, porém, assim como Wright, percebia que uma vinculação muito estreita com uma organização ou ideologia política poderia acabar sufocando sua criatividade. Ao explicar a um amigo por que nunca se filiou oficialmente ao Partido Comunista, ele disse: "Baseava-se em uma disciplina rígida e na aceitação de diretrizes que eu, como escritor, não queria aceitar".

Robeson foi um dos últimos "viajantes" negros a ver na União Soviética uma alternativa à cultura racista e exploradora do Ocidente. Entre o Movimento de Países Não Alinhados e o ressurgimento do nacionalismo negro, a vertente do comunismo originária do Sul Global parecia, para muitos nas décadas de 1960 e 1970, uma arma mais eficaz contra o racismo e o colonialismo. Como escreveu a escritora feminista negra Audre Lorde ao refletir sobre sua viagem a Moscou em 1976: “A Rússia tornou-se uma representação mítica daquele socialismo que ainda não existe em nenhum lugar onde estive”.

A Rússia há muito serve como repositório de diferentes tipos de mitologia, da “Terceira Roma” ao “Medo Vermelho” (Red Scare). O mito da Rússia como um paraíso racial foi talvez um dos mais marcantes, atuando tanto como fonte de inspiração para artistas negros de toda a diáspora quanto como ferramenta estratégica na luta afro-americana por reconhecimento político. No entanto, como um dos primeiros entusiastas, Hughes sugeria que a União Soviética era apenas parte de uma narrativa mais ampla de revolução criativa e política negra; como diz o refrão de seu poema de 1938, "Balada de Lênin":

Camarada Lênin da Rússia,
No alto de uma tumba de mármore,
Chegue para o lado, Camarada Lênin,
E dê-me um lugar.

Jennifer Wilson (@jenlouisewilson) é pesquisadora de pós-doutorado em literatura russa na Universidade da Pensilvânia.

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