25 de setembro de 2017

Como as mulheres se saíram na Revolução Comunista da China?

Embora a revolução comunista tenha trazido mais oportunidades de emprego para as mulheres, também tornou seus interesses subordinados aos objetivos coletivos.

Helen Gao


Uma delegação de trabalhadores marchando em Yumen, China, em 1958. Henri Cartier Bresson/Magnum Photos

Minha avó gosta de contar histórias de sua carreira como jornalista nas primeiras décadas da República Popular da China. Ela se lembra de rabiscar os últimos pronunciamentos do presidente Mao conforme eles vinham pelos alto-falantes e de conversar com camponeses alegres do campo recém-coletivizado. No que foi o ponto alto de sua carreira, ela transformou um vendedor de doces anônimo em um herói trabalhista nacional com elogios brilhantes por seu serviço ao povo.

Ela cresceu na província central de Hunan, onde seu pai era um senhorio. Ela fala sobre sua mãe como uma dona de casa taciturna que se ressentia de seu marido por ter tomado uma concubina depois que ela não conseguiu dar à luz um menino.

"Os comunistas fizeram muitas coisas terríveis", minha avó sempre diz no final de suas reminiscências. "Mas eles tornaram a vida das mulheres muito melhor."

Esse ditado frequentemente repetido resume a percepção popular do legado de Mao Zedong em relação às mulheres na China. Como toda criança chinesa aprende na aula de história, os comunistas resgataram filhas camponesas de bordéis urbanos e conduziram esposas enclausuradas para fábricas, libertando-as da opressão do patriarcado confucionista e da ameaça imperialista.

Mas a narrativa de uma elevação generalizada do status das mulheres sob Mao contém ressalvas cruciais.

Embora a revolução comunista tenha trazido às mulheres mais oportunidades de emprego, também tornou seus interesses subordinados a objetivos coletivos. Parando na porta da casa, as palavras e políticas de Mao fizeram pouco para aliviar os fardos domésticos das mulheres, como tarefas domésticas e cuidados com os filhos. E ao inundar a sociedade com retórica celebrando alegremente suas conquistas, a revolução privou as mulheres da linguagem privada com a qual elas poderiam entender e articular suas experiências pessoais.

Ao pesquisarem a coletivização do campo chinês na década de 1950 — um evento que se acreditava ter empoderado as mulheres rurais ao oferecer-lhes emprego —, historiadores depararam-se com um cenário complexo. Embora as mulheres de fato contribuíssem enormemente para a agricultura coletiva, raramente alcançavam cargos de responsabilidade; elas permaneciam à margem nas comunas organizadas em torno dos laços familiares e comunitários de seus maridos. Estudos também revelaram que as mulheres frequentemente desempenhavam trabalhos fisicamente extenuantes, mas recebiam menos que os homens, uma vez que as tarefas mais leves e valorizadas — envolvendo animais de grande porte ou maquinário — eram geralmente reservadas a eles.

O ambiente de trabalho urbano não era muito mais inspirador. As mulheres eram relegadas a oficinas coletivas nos bairros, com salários irrisórios e condições de trabalho precárias, enquanto os homens ocupavam, mais frequentemente, cargos confortáveis ​​na grande indústria e em empresas estatais. As justificativas apresentadas pelos quadros do Partido refletiam preconceitos de gênero profundamente arraigados: as mulheres teriam constituição física mais frágil e temperamento mais brando, o que as tornava inadequadas para as tarefas extenuantes de operar maquinário pesado ou trabalhar no chão de fábrica.

O Partido, por vezes, da boca para fora, defendia a divisão igualitária das tarefas domésticas, mas, na prática, tolerava a contínua subordinação das mulheres no lar. Em cartazes e discursos, ícones femininos do socialismo eram retratados como "mulheres de ferro" que trabalhavam heroicamente diante de altos-fornos, ao mesmo tempo em que mantinham a harmonia familiar. Tratava-se, porém, de uma abordagem seletiva, que focava exclusivamente na inserção das mulheres no mercado de trabalho e negligenciava suas experiências em outras esferas da vida.

Visitantes de áreas rurais viam as esposas de camponeses trabalhando incansavelmente, dia e noite: cozinhavam, consertavam roupas e cuidavam do gado após encerrar a jornada de trabalho no campo. Essa dura realidade chocava os jovens urbanos enviados ao interior durante a Revolução Cultural; a ponto de Naihua Zhang, professora de sociologia da Florida Atlantic University — que viveu no campo quando jovem naquela época —, equiparar o casamento rural à anulação completa da identidade feminina.

Pesquisadores também observaram que, após o casamento, as operárias de fábrica frequentemente enfrentavam uma progressão na carreira mais lenta do que a dos homens, pois ficavam sobrecarregadas com responsabilidades domésticas que lhes deixavam pouco tempo para adquirir novas habilidades ou assumir tarefas extras — ambos pré-requisitos para promoções. Serviços estatais que prometiam aliviar esse fardo, como creches públicas, eram, na realidade, escassos. Ao contrário de suas homólogas em países desenvolvidos, as mulheres chinesas não dispunham de eletrodomésticos que poupassem trabalho doméstico, uma vez que as políticas econômicas de Mao priorizavam a indústria de base em detrimento da produção de bens de consumo, como máquinas de lavar roupa e de lavar louça.

Alguns estudiosos ocidentais afirmaram que essa realidade equivalia a uma "revolução adiada". No entanto, as conclusões dos pesquisadores eram contraditas pelas próprias mulheres chinesas.

Durante sua pesquisa de campo na China, na década de 1970, Margery Wolf — professora de antropologia da Universidade de Iowa — surpreendeu-se com o entusiasmo das mulheres chinesas em relação ao milagre da emancipação feminina, mesmo diante da opressão que continuavam a sofrer.

"Era fácil tomar a igualdade de gênero — um ideal amplamente divulgado — como realidade e encarar os problemas como resquícios de sistemas e ideologias antigos, destinados a desaparecer com o tempo", disse a professora Zhang, a socióloga.

O Estado lançou campanhas de propaganda que visavam não apenas incorporar as mulheres à força de trabalho, mas também moldar a percepção que elas tinham de si mesmas. Cartazes, livros didáticos e jornais difundiam imagens e narrativas que, despojadas de quaisquer particularidades de experiências pessoais, retratavam as mulheres como iguais aos homens em termos de mentalidade, valor e realizações. Para as mulheres no ambiente de trabalho, aderir a essa imagem feminina aceitável — definida de forma tão restrita — significava ver, compreender e falar sobre suas vidas não como elas eram, mas como deveriam ser segundo o ideal do Partido.

Um indicador do sucesso da campanha é o fato de que as mulheres que descreveram publicamente suas experiências na era Mao o fizeram exclusivamente nos termos da retórica oficial. Elisabeth Croll, antropóloga especializada na condição feminina na China, observou que todos os relatos publicados sobre a vida das mulheres chinesas nas primeiras décadas da República Popular seguiam a narrativa padrão de sua transformação — de esposas e filhas maltratadas a trabalhadoras socialistas independentes; essa havia se tornado a história de praticamente todas as mulheres.

Quarenta anos após a morte de Mao, esse aspecto de seu legado ainda é compreendido por meio de sua famosa declaração sobre a igualdade de gênero: "As mulheres sustentam metade do céu". É um slogan que minha avó pronuncia no mesmo fôlego em que fala sobre os outros pecados e feitos do presidente.

Ela não menciona o trabalho árduo de administrar o lar e criar três filhos em meio a campanhas revolucionárias turbulentas. Tampouco reclama de não ter podido ingressar no Partido devido às filiações políticas impopulares de seu marido. Ela apenas solta uma risadinha ao recordar as pressões que recebeu de superiores do Partido para se casar justamente quando sua carreira estava deslanchando.

Apesar de todas as suas falhas, a revolução comunista ensinou as mulheres chinesas a sonhar alto. Quanto aos conselhos dados à minha mãe, minha avó apoiou a decisão da filha de cursar a pós-graduação e a incentivou a encontrar um marido que apoiasse sua carreira. Ela ainda parece acreditar que a nova economia de mercado — com sua meritocracia e liberdade de escolha — permitirá, enfim, que as mulheres sejam donas de suas próprias mentes e ações.

Afinal, ela sempre disse à minha mãe: "Você tem mais oportunidades".

Helen Gao é analista de políticas sociais em uma empresa de pesquisa e articulista colaboradora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...