Tyler Antonio Lynch
Nesta sexta-feira, os trabalhadores rurais sem-terra do Brasil marcham em massa em Salvador, um rio vermelho que serpenteia pela BR-324. Eles ocupam fazendas em Madalena e Darcinópolis, onde há apenas três anos uma centena de trabalhadores viviam em condições de escravidão moderna. E no Pará, três mil trabalhadores rurais sem-terra se deslocam para ocupar um trecho da rodovia a cerca de nove quilômetros da cidade de Eldorado do Carajás.
Eles erguem faixas, cruzes de madeira e bandeiras vermelhas em mastros. “Se ficarmos em silêncio”, diz uma placa, “as pedras gritarão”. Eles não se calam: choram, tocam tambores, cantam. Suas vozes ecoam na Índia, na Indonésia, na África do Sul, onde camponeses e trabalhadores rurais sem-terra também se unem em solidariedade aos seus compatriotas brasileiros.
Essa onda fenomenal de atividade política marca o trigésimo aniversário do massacre de Eldorado do Carajás, quando a polícia militar brasileira abriu fogo contra uma manifestação pacífica liderada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), matando 21 ativistas sem-terra e ferindo mais de 60. Trata-se de uma atrocidade na história da luta operária global, comparável a Peterloo, Ciénaga e Marikana — uma lista que atesta o terrível poder do Estado contra os pobres que protestam.
Os manifestantes em Salvador invocam o legado do massacre como denúncia e desafio. “Trinta anos de impunidade”, proclamam as faixas, “mas também de resistência”. Impunidade e resistência continuam a definir a luta dos pobres sem-terra do Brasil por reforma agrária contra a oligarquia rural mais poderosa da América Latina. Carajás permanece um símbolo para a extrema-direita brasileira, uma expressão extrema da violência necessária para manter um dos sistemas de posse de terras mais desiguais do mundo. Ao mesmo tempo, Carajás reafirma a tenacidade e o orgulho do movimento que sobreviveu a ele.
O massacre de Eldorado do Carajás permanece lamentavelmente pouco reconhecido no Brasil e ainda mais no resto do mundo. Contudo, ele pontua uma história viva, e ao revisitarmos essa atrocidade à luz do presente, podemos traçar o longo arco da luta dos sem-terra em nossa época.
O Massacre da PA-150
O massacre de Eldorado do Carajás ocorreu na rodovia PA-150, no estado do Pará, no extremo norte do Brasil. O simples fato de o MST estar ativo no Pará já é surpreendente. O enorme estado, duas vezes maior que a França, há muito tempo é o feudo de um grupo de famílias oligárquicas cuja hostilidade à reforma agrária é reforçada pela polícia e pelos tribunais — bem como por intimidação, sequestros, ataques incendiários e assassinatos. “Eles agem como um Estado dentro do Estado”, diz um observador da violência rural. “É difícil imaginar qualquer área da administração pública onde eles não tenham influência.”
A pobreza extrema do Pará é o produto direto das riquezas extraídas diariamente de suas florestas e terras. Desde que a ditadura militar brasileira abriu a Amazônia para a exploração mineral na década de 1970, o Pará gerou bilhões em valor para as indústrias de mineração e agronegócio. Esses setores extrativistas atraíram simultaneamente dezenas de milhares de trabalhadores sem terra para trabalhos precários em minas e grandes plantações, e expulsaram aqueles que já habitavam a região, à medida que a terra se concentrava em ainda menos mãos. A falta de terras tornou-se endêmica sob a sombra de latifúndios do tamanho de pequenos Estados-nação.
Carajás permanece um símbolo para a extrema-direita brasileira, uma expressão extrema da violência necessária para manter um dos sistemas de posse de terras mais desiguais do mundo.
O MST começou a se mobilizar no Pará em 1989, contando com sua disciplina e organização para resistir ao poder coercitivo dos latifundiários. Contudo, sua estratégia era deliberadamente confrontativa, visando, por meio de ocupações de terras em larga escala, arrancar concessões da liderança estadual e dos ministérios do governo. No Pará, pode-se argumentar que eles exageraram em suas ações. Após pressionar com sucesso o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), órgão estatal brasileiro responsável pela reforma agrária, a comprar uma fazenda produtiva para assentamento, o MST agiu rapidamente para ocupar uma extensa fazenda chamada Macaxeira.
A ocupação de Macaxeira representou um desafio flagrante à oligarquia rural do Pará e uma demonstração do desprezo do MST pela abordagem gradualista do INCRA em relação à reforma agrária. Quando cerca de 1.500 famílias sem-terra decidiram ocupar a rodovia PA-150 para forçar as autoridades a negociar, o Estado interveio nos planos do MST pela força das armas. O governador Almir Gabriel ordenou à Polícia Militar que desobstruísse a rodovia “custe o que custar”. Havia pouca chance de a operação transcorrer pacificamente. Latifundiários locais haviam fornecido às autoridades listas de líderes do MST para serem eliminados, e quando a polícia chegou, eles já haviam removido seus distintivos. O cenário estava armado para um massacre. “Desde o início, a intenção era dar ao MST uma lição que jamais esqueceriam”, disse um jornalista local.
Pouco depois das 16h do dia 17 de abril de 1996, 155 policiais militares chegaram ao bloqueio do MST, cercando os ativistas sem-terra por ambos os lados. Imediatamente, começou um confronto. Apesar do número de sem-terras, não havia igualdade de forças. A polícia lançou gás lacrimogêneo contra a multidão e disparou metralhadoras para o ar; os sem-terra revidaram com paus e pedras. Isso deu carta branca para o massacre. Em poucos minutos, a polícia abriu fogo contra a multidão.
A polícia não se limitou a alvejar a multidão de camponeses, incluindo mulheres e crianças, com tiros à distância. O massacre em Carajás foi prolongado e pessoal. A polícia perseguiu os feridos e sangrando até o mato às margens da rodovia para executá-los. Dos dezenove homens mortos durante o massacre (dois outros morreriam mais tarde em decorrência dos ferimentos), sete foram baleados à queima-roupa na cabeça. Mas alguns policiais não se contentaram com o eficiente extermínio dos camponeses a tiros. Eles se apoderaram das ferramentas agrícolas que encontraram e começaram a massacrar suas vítimas. Doze dos cadáveres foram encontrados retalhados com foices e facões.
O depoimento das testemunhas descreve uma cena de caos frenético. “Metralharam um rapaz de 22 anos que estava ao meu lado”, disse “Garoto” da Conceição. “Eu o vi cair. Todos começaram a correr. Havia muito sangue. Muitos mortos. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo.” Mesmo assim, a polícia prosseguiu metodicamente, isolando líderes conhecidos, que foram capturados, torturados e executados. Entre eles estava o organizador de 18 anos, Oziel Alves Pereira, que foi forçado a gritar “Viva o MST!” enquanto era espancado até a morte. “Quando vi as fotos do cadáver dele, não o reconheci”, disse Eva Gomes da Silva. “Eles sabiam que ele era um líder e queriam que ele sofresse por isso.” Treze dos dezenove mortos confirmados eram líderes do MST, reforçando as acusações de que os assassinatos foram direcionados.
Treze dos dezenove mortos confirmados eram líderes do MST, reforçando as acusações de que os assassinatos foram direcionados.
A matança não terminou na rodovia. A polícia executou sumariamente pelo menos um homem ferido a caminho do hospital e percorreu os hospitais da cidade vizinha de Curianópolis na noite seguinte, caminhando de leito em leito em busca de outros manifestantes. “A polícia simplesmente entrou e matou um homem a tiros, assim, sem mais nem menos”, relatou Gomes da Silva. Os médicos logo passaram a ter medo de tratar os feridos, muitos dos quais convivem com balas alojadas nos membros até hoje.
Para a Polícia Militar, essa vigorosa dispersão dos protestos foi um sucesso estrondoso. Eles finalizaram sua campanha de terror percorrendo o acampamento, saqueando os cadáveres em busca de objetos de valor. Um policial reivindicou uma panela para seu casamento. “Eles começaram a aplaudir quando entraram no ônibus”, lembrou um professor local. “Pareciam soldados voltando de uma guerra contra um país inimigo.” Longe de estarem em guerra contra inimigos estrangeiros, muitos desses policiais eram filhos de trabalhadores rurais sem-terra.
O número oficial de mortos é quase certamente uma subestimação. “Tenho certeza de que mais de dezenove pessoas foram mortas [no local]”, disse um sobrevivente a jornalistas. “Colocaram uma pilha de corpos em um caminhão e a outra em uma van. Os que estavam no caminhão reapareceram, mas os da van nunca mais foram vistos.” Relatos de crianças assassinadas a golpes de facão, além do número incomumente alto de líderes assassinados nas estatísticas oficiais, corroboram a ideia de que a verdadeira dimensão do massacre de Eldorado do Carajás nunca foi totalmente reconhecida.
"Canalhas e Vagabundos"
“Missão cumprida”, disse o Coronel Pantoja às suas tropas assim que os tiros cessaram, “e ninguém viu nada”. Ele estava enganado em ambos os casos. O massacre foi filmado por uma equipe de TV local e rapidamente ganhou repercussão internacional. O presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, interrompeu a guerra contra o MST para denunciar o massacre como “uma vergonha para o país”. Portugal, França e Alemanha registraram preocupações formais junto a Brasília, e até o Vaticano condenou o massacre.
A narrativa predominante sustenta que a genuína onda de indignação que se seguiu ao massacre de Carajás acabou por beneficiar o MST. Uma série de reformas de fato acelerou as expropriações de terras e reprimiu a resistência no judiciário. Contudo, os organizadores no Pará estavam menos otimistas. "Pode ter afetado o comportamento do governo federal, mas o governo estadual aqui no Pará não mudou", relatou um observador. "Os latifundiários continuam a gozar de total impunidade."
Até hoje, a justiça não foi feita para os mártires de Carajás. Apenas os comandantes da polícia, Coronel Pantoja e Major José Maria Pereira de Oliveira, foram condenados por crimes — e somente em 2002, após um julgamento "repleto de irregularidades". Os outros 153 policiais presentes foram absolvidos. Isso não surpreende. No Brasil, os sem-terra podem ser mortos impunemente. Dos 1.833 assassinatos relacionados a terras registrados pela Comissão Pastoral da Terra da Igreja Católica entre 1985 e 2024, apenas 42 pistoleiros foram condenados.
Assim, para o Movimento sem Terra, isso não é história antiga. Trinta anos depois, muitos dos sobreviventes de Carajás permanecem traumatizados e destroçados. Alguns que conseguiram terras se viram desfigurados demais para cultivá-las. Conforme o país se inclinava para a direita, Carajás passou a ser cada vez mais invocado em termos elogiosos. Em 2018, o então candidato à presidência Jair Bolsonaro optou por discursar no local do massacre, declarando: “Quem deveria ter sido preso era o MST — [aqueles] canalhas e vagabundos”. Quanto à polícia, eles apenas “reagiram para não serem mortos”.
Fruto do latifúndio
O massacre em Eldorado do Carajás não foi um incidente isolado. A violência é fruto do latifúndio tanto quanto a soja ou a carne bovina. É o corolário do gigante extrativista que leva os frutos da Amazônia para os mercados globais à custa da terra e dos trabalhadores que a cultivam. “Uma estrutura agrária baseada na extrema concentração de terras”, como afirma Ayala Ferreira, líder do MST, “exige a violência como mecanismo de [sua] manutenção”. Em todo o Brasil, mais de 350 pessoas foram mortas por disputas de terras somente na última década.
Hoje, o MST não possui a base de massa necessária para confrontar diretamente o agronegócio.
Onde se encontra hoje a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra? De certa forma, a violência desenfreada do final da década de 1990 refletia a ameaça real que o MST representava para o sistema fundiário vigente no Brasil. A força do movimento residia em uma base de massa de trabalhadores marginalizados, dispostos a suportar graves privações para reivindicar a terra. Isso não duraria. A ironia é que a luta do MST pela reforma agrária acabou sendo absorvida por seu aliado político, o Partido dos Trabalhadores (PT), que reprimiu a violência rural e distribuiu terras com mais liberalidade, mas ao custo de consolidar o latifúndio como base do sistema agrícola brasileiro. Com o crescimento da economia, que desviou os trabalhadores rurais sem-terra do campo, o MST gradualmente cessou suas ocupações em larga escala.
Hoje, o MST não possui a base de massa necessária para confrontar diretamente o agronegócio e a indústria extrativista em nível sistêmico. Em vez disso, priorizou suas práticas de agroecologia, utilizando sua infraestrutura para aliviar a fome urbana, o desemprego rural e o analfabetismo. Ao cultivar um nicho de mercado para seus produtos (o movimento é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina), o MST priorizou a autonomia e a segurança de seus dois milhões de membros em detrimento da conquista de novos territórios. Objetivos louváveis, sem dúvida, mas muito distantes de aterrorizar os latifundiários, como a organização fazia décadas atrás.
A libertação, porém, é um caminho longo e sinuoso — uma complexa interação entre entrincheiramento e expansão, militância e cooptação. Após sete anos de governo de extrema-direita e os estragos da pandemia, a própria sobrevivência do movimento é notável. O MST continua sendo o maior movimento social da América Latina e, sem dúvida, o elo mais importante entre o PT de Luiz Inácio Lula da Silva e os pobres rurais. Nos últimos anos, o MST começou a recultivar sua postura militante, buscando galvanizar a base de massas necessária para restaurar a luta pela terra à proeminência nacional.
Para seus membros, os frutos da luta são inegáveis: a terra é algo tangível. “Claro, não é muita coisa”, reflete Raimundo Gouvêa, líder do MST no Pará. “Mas é muito mais do que antes, quando não tínhamos nada — apenas os sonhos que sonhávamos, às vezes, de um pedaço de terra para trabalhar. Digo às vezes porque quase nunca conseguíamos nos dar ao luxo de sonhar.”
Esses sonhos — de terra, de trabalho digno — ecoam muito além do Brasil. Elas estão na base das lutas dos dalits da Índia, dos ocupantes ilegais da África do Sul e dos camponeses marginalizados da Colômbia às Filipinas. Essa universalidade levou a maior coalizão mundial de movimentos rurais, a Via Campesina, a declarar o dia 17 de abril como o Dia Internacional da Luta Camponesa.
Os sonhos, por si só, não podem arrancar terras dos latifundiários. Mas sua recorrência serve como prova de que uma luta travada há tanto tempo não pode agora ser abandonada. “Porque se os sonhos são eternos”, escreveu o poeta do MST, Ademar Bogo, “eterna também é a certeza da vitória”.
Hoje, essa certeza se reafirma no Brasil.
Colaborador
Tyler Antonio Lynch é economista político e doutorando, pesquisando terra, trabalho e Estado na América Latina.

Nenhum comentário:
Postar um comentário