9 de agosto de 2026

Vida sem salário

Origens dos números do desemprego e do setor informal, e sua inadequação às formas contemporâneas de ausência de salário. Michael Denning extrai lições de Marx, Fanon e das ruas de Ahmedabad.

Michael Denning

NLR 66 • Nov/Dec 2010

No capitalismo, a única coisa pior do que ser explorado é não ser explorado. Desde o início da economia baseada no trabalho assalariado, a vida sem salário tem sido uma calamidade para aqueles despojados de terra, ferramentas e meios de subsistência. Expulsos do trabalho, os desprovidos de salário tornaram-se também invisíveis para a ciência: a economia política, como Marx observou nas primeiras formulações de sua crítica à disciplina, “não reconhece o trabalhador desempregado”: ​​“O malandro, o vigarista, o mendigo, o desempregado, o trabalhador faminto, miserável e criminoso — essas são figuras que não existem para a economia política, mas apenas para outros olhares: os do médico, do juiz, do coveiro e do oficial de justiça, etc.; tais figuras são espectros fora de seu domínio”.[1] Hoje em dia, o marxismo — visto mais frequentemente como um exemplo de economia política do que como sua crítica — e outras análises baseadas no trabalho enfrentam a mesma objeção. Dizem-nos que as concepções construídas sobre o trabalho assalariado não conseguem dar conta da realidade vivida pela parcela mais numerosa e miserável da população mundial: aqueles sem salário, aqueles que, na verdade, não têm sequer a esperança de um salário. Vida nua, vida desperdiçada, vida descartável, vida precária, vida supérflua: esses estão entre os termos usados ​​para descrever os habitantes de um planeta de favelas. Não é a criança na oficina de exploração (sweatshop) que constitui nossa figura mais característica, mas sim a criança das ruas, alternadamente predadora e presa.

Diante dessa situação, nenhuma das designações marxistas clássicas para os desprovidos de salário — o exército industrial de reserva ou o lumpemproletariado — parece adequada. Para alguns, apenas uma teoria da cidadania e da exclusão dela, ou dos direitos e de sua ausência, consegue captar essa realidade: falar de trabalho é falar daqueles que já gozam de direitos de cidadania. Outros recorreram a uma biopolítica ou necropolítica da existência nua. Nenhuma dessas alternativas é convincente. Embora a luta pela inclusão social e cultural, bem como pela cidadania política, seja vital em um mundo de sans-papiers, com demasiada frequência as batalhas teóricas sobre cidadania e direitos humanos permanecem presas a fantasias de soberania. Por outro lado, a retórica da vida e da morte por vezes apresenta uma falsa imediação, enxergando um estado de exceção ou de emergência naquilo que, infelizmente, é um estado de normalidade. Falar repetidamente em vida nua e vida supérflua pode nos levar a imaginar que existem, de fato, pessoas descartáveis, e não apenas que elas são descartáveis ​​aos olhos do Estado e do mercado.

Além disso, a vida nua não está desprovida de atividade prática. Uma análise crítica do viver e do prover a própria subsistência sob os imperativos capitalistas deve, a meu ver, partir não da acumulação de capital, mas de seu outro lado: a acumulação de trabalho. Dialeticamente, ambos são a mesma coisa: como afirmou Marx, "a acumulação de capital é, portanto, a multiplicação do proletariado".[2] No entanto, abordar a questão do ponto de vista do capital é — como Hegel e Marx poderiam dizer — algo unilateral. Vários críticos contemporâneos da economia política observaram esse desequilíbrio. Michael Lebowitz argumenta que a obra de Marx sobre o capital deveria ter sido acompanhada por outra sobre o trabalho assalariado; em Os Limites do Capital, David Harvey descreve "a falha, bastante surpreendente, de Marx em empreender qualquer estudo sistemático dos processos que regem a produção e a reprodução da própria força de trabalho" como "uma das mais graves lacunas na própria teoria de Marx".[3]

A seguir, proponho que precisamos de uma inversão semelhante no que diz respeito ao trabalho assalariado. A vida sem salário tem sido quase sempre vista como uma situação de carência, um espaço de exclusão: o desempregado, o trabalhador informal. Não pretendo resolver esse problema semântico: meu próprio termo de trabalho — "os sem salário" — é uma construção paralela. No entanto, quero insistir na necessidade de descentralizar o trabalho assalariado em nossa concepção da vida sob o capitalismo. O fetichismo do salário pode muito bem ser a fonte das ideologias capitalistas de liberdade e igualdade, mas o contrato de trabalho não é o seu momento fundador. Pois o capitalismo não começa com a oferta de trabalho, mas com o imperativo de ganhar a vida. Despossessão e expropriação, seguidas pela imposição de tributos monetários e do pagamento de aluguel: eis o idílio do "trabalho livre". Naqueles raros momentos de emancipação moderna, as pessoas libertadas — da escravidão, da servidão e de outras formas de trabalho coercitivo — jamais escolheram tornar-se trabalhadoras assalariadas. Pode até existir uma "propensão a traficar, permutar e trocar uma coisa por outra", como disse Adam Smith, mas claramente não há propensão a conseguir um emprego.

Em vez de encarar o operário fabril que provê o sustento como a base produtiva sobre a qual se ergue uma superestrutura reprodutiva, imagine o lar proletário despossuído como uma base de trabalho de subsistência não remunerado — o "trabalho das mulheres" de cozinhar, limpar e cuidar — que sustenta uma superestrutura de migrantes em busca de salário, os quais atuam como embaixadores, ou talvez reféns, da economia salarial. Essas migrações podem ser de curta distância e duração — os deslocamentos diários de bonde ou ônibus do cortiço à fábrica, ou do prédio de apartamentos ao escritório, que viriam a ser chamados de commuting — ou podem estender-se às viagens globais anuais de trabalhadores sazonais (via navio a vapor, ferrovia e automóvel), bem como à separação radical da migração aérea, mantida por anos de remessas e telefonemas. O desemprego precede o emprego, e a economia informal precede a formal, tanto histórica quanto conceitualmente. Devemos insistir que "proletário" não é sinônimo de "trabalhador assalariado", mas sim de despossessão, expropriação e dependência radical do mercado. Não é preciso ter um emprego para ser proletário: a vida sem salário — e não o trabalho assalariado — é o ponto de partida para compreender o livre mercado.

Neste ensaio, pretendo explorar os contornos da vida sem salário ao longo do último século, apresentando uma genealogia de duas representações fundamentais que não apenas a nomeiam e buscam regulá-la, mas também traçam uma linha divisória marcante entre as concepções dessa realidade nas metrópoles imperiais do capitalismo e na sua periferia: as figuras do desemprego e do setor informal. A primeira foi o tropo fundador da social-democracia do século XX, surgido em meio às grandes crises econômicas que assolaram os capitalismos industriais do Atlântico Norte e repercutiram em seus territórios coloniais. Esse conceito deslocou uma série de noções anteriores sobre os pobres, os ociosos e os perigosos, tornando-se parte central do discurso estatal e popular ao longo do século seguinte, sobretudo durante os períodos de desemprego em massa: a Grande Depressão da década de 1930 e a Grande Recessão da década de 1970. Por outro lado, o termo "setor informal" foi cunhado no início da década de 1970 para dar conta da massa de pessoas sem salário no Terceiro Mundo recém-independente — uma realidade que parecia escapar tanto à categoria de emprego quanto à de desemprego. Esse termo também deslocou concepções anteriores — talvez a mais notável delas sendo a de lumpemproletariado, tal como retratada por Frantz Fanon em Os Condenados da Terra — e continua a integrar tanto o discurso oficial quanto o não oficial.

Uma história institucional mais antiga poderia afirmar que o Estado de bem-estar social foi criado em resposta ao desemprego: o espectro do desempregado retorna a cada depressão e recessão, à medida que ilustradores e fotógrafos tentam representar a ausência de trabalho em ícones que vão desde "A Reunião dos Desempregados", do cartunista vitoriano Tom Merry, até "A Fila do Pão do Anjo Branco" (White Angel Breadline), de Dorothea Lange. No entanto, uma história biopolítica mais recente sugere que o Estado social emergente inventou o desemprego no processo de normalização e regulação do mercado de trabalho. A própria palavra surgiu justamente quando o fenômeno se tornou objeto de produção de conhecimento estatal durante a longa desaceleração econômica das décadas de 1880 e 1890. O termo foi utilizado pela primeira vez em inglês em 1887, quando o chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho de Massachusetts, Carroll D. Wright, tentou contabilizar os desempregados — desencadeando uma prática estatística que se tornaria central para o Estado moderno e que, na década seguinte, já era de uso comum. A primeira abordagem teórica — o artigo de 1895 intitulado "O Significado e a Medida do 'Desemprego'", do economista liberal J. A. Hobson (mais conhecido por sua influente análise do imperialismo) — definiu a pauta para um século de debates: como defini-lo e medi-lo? A palavra francesa para desempregado, chômeur, remonta à mesma época, e o equivalente alemão, Arbeitslosigkeit, era raramente utilizado antes da década de 1890. De fato, como aponta John Garraty, autor da obra de referência Unemployment in History, o próprio Marx não utilizava essa expressão. Em O Capital, assim como na passagem dos manuscritos de 1844 citada anteriormente, Marx escreve sobre die Unbeschäftigen — os "não ocupados" ou "sem ocupação" — em vez de die Arbeitslosen, o termo contemporâneo para desempregados.[5]

O conceito moderno de desemprego dependia da normalização do emprego, o intrincado processo pelo qual a participação nos mercados de trabalho se torna a norma. Enquanto os empregadores estabelecem as regras, os trabalhadores insistem nas práticas habituais, e tribunais, parlamentos e inspetores de fábricas definem os padrões. Marx argumentou que “a criação de uma jornada de trabalho normal [ein Normalarbeitstag] é, portanto, produto de uma prolongada, mais ou menos disfarçada, guerra civil entre a classe capitalista e a classe trabalhadora”. De fato, Marx insistiu que “em lugar do pomposo catálogo dos ‘direitos inalienáveis ​​do homem’, fosse concedida a modesta Magna Carta de uma jornada de trabalho legalmente limitada”.[6]

A normalização do emprego possibilitou a normalização do desemprego de pelo menos três maneiras. Primeiro, estar desempregado significava perder o emprego habitual, e, de fato, as primeiras formas de proteção ao desemprego surgiram dos sindicatos, que buscavam manter o nível salarial vigente oferecendo benefícios aos membros que perdiam seus empregos. Em sua discussão sobre desemprego e governo, William Walter sugere que “o status de ‘desempregado’ foi realmente inventado pelo sindicalismo”. A segunda forma de normalização surgiu quando os desempregados começaram a se organizar e a se manifestar como tal. O ponto de partida clássico é o famoso Motim de Fevereiro de 1886 em Londres. A Liga do Comércio Justo, liderada pelos conservadores, convocou uma manifestação de desempregados na Trafalgar Square, que atraiu 20.000 trabalhadores da construção civil e portuários; quando a Federação Social Democrata liderou parte da multidão pela Pall Mall, vitrines foram quebradas, lojas foram saqueadas e Londres, segundo o The Times, mergulhou no pânico. Manifestações semelhantes continuaram a ocorrer, aumentando em 1887 e culminando em novembro no Domingo Sangrento, o protesto contra medidas coercitivas na Irlanda, no qual a polícia atacou os manifestantes e três pessoas foram mortas.[7]

Finalmente, por volta da virada do século, o desemprego foi incorporado ao trabalho de teóricos como Hobson e William Beveridge, que argumentaram que não se tratava de uma questão de depravação ou preguiça individual, mas de um aspecto normal e inevitável da sociedade industrial. “Sem dúvida, as causas pessoais explicam em grande parte quem serão os indivíduos que representarão os 10% dos ‘desempregados’”, argumentou Hobson, “mas elas não são, de forma alguma, causas que contribuem para o ‘desemprego’”. Essas análises construíram a primeira ideia de que o capitalismo criou um exército industrial de reserva, um conceito frequentemente considerado distintamente marxista, já que aparece em O Capital na discussão sobre o excedente populacional relativo no capitalismo. No entanto, Marx estava simplesmente adotando a retórica do movimento operário britânico. Os radicais, especialmente as associações cartistas e fourieristas, imaginavam os novos operários como vastos exércitos industriais, e essa ideia difundida levou a líder cartista Bronterre O’Brien a falar, em 1839, no jornal Northern Star, sobre um exército industrial de reserva. O jovem Engels retomou a imagem em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, em 1844, e Marx ocasionalmente invocaria a metáfora, diferenciando entre o exército ativo e o exército de reserva da classe trabalhadora. No final do século XIX, ela fazia parte da interpretação racional do desemprego: em 1911, até mesmo o Departamento de Estatísticas do Trabalho de Massachusetts pôde concluir que “por mais prósperas que sejam as condições, sempre haverá um ‘exército de reserva’ de desempregados”.[8]

Riesgo y alivio

Esta normalización del desempleo fue la base de las grandes técnicas socialdemócratas que buscaron contener el espectro de la vida sin salario. El primer momento se caracterizó por una conceptualización inicial del desempleo como un riesgo asegurable, un accidente como la enfermedad, el fuego, el robo o la muerte. Esta fue la base de la Ley Nacional de Seguros británica de 1911, el primer programa gubernamental de esta clase. Imitando al régimen de provisión de asistencia social de Bismarck, el gobierno de Herbert Asquith creó un fondo controlado por el Estado para asegurar a los trabajadores contra el desempleo. Sin embargo, la lógica del seguro fracasa en casos de desastres colectivos, cuando hay demasiados accidentes al mismo tiempo. Por ello, el desempleo masivo durante la Gran Depresión de la década de 1930 dejó claros los límites de semejantes redes de seguridad. Surgió una nueva generación de movimientos de desempleados, normalmente dirigidos por jóvenes militantes comunistas, como los Comité de Parados en Francia o los Consejos de Desempleados en Estados Unidos, donde una tercera parte de la población estaba sin trabajo. Las marchas y protestas contra el desahucio más famosas fueron en estos centros industriales –los disturbios de 1930 en Wall Street, la marcha del hambre de Ford dos años después, la marcha desde Lille hasta París a finales de 1933– pero hubo manifestaciones similares también en las colonias, como la marcha del hambre de 1933 en Jamaica. La posterior reconceptualización keynesiana del desempleo como indicador económico sujeto al ajuste macroeconómico nacional se convirtió en la base de los Estados del bienestar posteriores a la Segunda Guerra Mundial que imaginaron una economía de pleno empleo. Durante dos décadas, pareció como si el desempleo masivo fuera cosa del pasado. Sin embargo, la Gran Recesión de la década de 1970 en Europa y América del Norte marcó el regreso del espectro de la vida sin salario, ahora bajo el signo de la superfluidad; el cierre permanente de instalaciones a medida que regiones enteras atravesaban una contrarrevolución industrial. Surgió una nueva oleada de movimientos, especialmente en Francia en el invierno de 1997-1998. Como en la década de 1930, la desindustrialización a menudo se entiende como un fenómeno del Primer Mundo, pero como veremos dejó tras de sí innumerables áreas deprimidas en todo el planeta como atestigua el caso de Ahmedabad, el Manchester de India. Pero para algunos teóricos, la desindustrialización marcó el fin del desempleo como herramienta política y conceptual. Entre aquellos que sostenían que habíamos alcanzado el final del trabajo, estaba Ulrich Beck, el teórico alemán de la sociedad del riesgo del neoliberalismo, que apuntó al cambio desde un «sistema uniforme de trabajo de jornada completa para toda la vida, organizado en una sola localización industrial, con la radical alternativa del desempleo, a un sistema lleno de riesgos de un subempleo flexible, pluralizado y descentralizado que, sin embargo, posiblemente no vuelva a plantear el problema de [...] estar completamente sin un empleo remunerado»9 . Los economistas neoliberales insistieron en que la falta de trabajo involuntaria ni siquiera existía; el desempleo era o bien una elección producto de la utilidad marginal del ocio, o bien una obstrucción temporal del mercado de trabajo causada por salarios elevados, demasiado rígidos por el monopolio sindical y el salario mínimo estatal. También cabe destacar la gran debilidad de la normalización socialdemócrata del empleo y del desempleo. Esta normalización formó un sujeto normal: el que gana un salario. En consecuencia, gran parte de la multitud del capitalismo era irreconocible para un movimiento obrero que había sido reconstituido por los aparatos del Estado en un movimiento del empleo, en el agente de los que ganaban salarios dividido en unidades de convenios colectivos. Por toda la sociedad, había muchos que vivían fuera del empleo y desempleo típicos, mujeres trabajando en sus propios hogares, comunidades desindustrializadas que habían sufrido la desinversión y carecían de salarios, los sometidos a códigos raciales, incluso asalariados en industrias y lugares de trabajo no reconocidos oficialmente (en Estados Unidos, por ejemplo, los trabajadores domésticos, agrícolas y los becarios e investigadores precarios que no están cubiertos por el Consejo Nacional de Relaciones Laborales). Como sostuvo una generación de feministas críticas con el Estado del bienestar, esto condujo a una injusta bifurcación de género en la seguridad social. Los hogares y los vecindarios de las clases trabajadoras fueron divididos entre los sujetos independientes, característicamente varones, sujetos a la seguridad social, y los sujetos dependientes, característicamente mujeres, sujetos a la ayuda social. Un brazo del aparato del Estado aseguraba y salvaguardaba al varón normativo que mantiene a la familia contra el riesgo del desempleo involuntario; otro brazo comprobaba los métodos y los medios de las mujeres que criaban hijos antes de repartir una ayuda estigmatizada. Si la concepción socialdemócrata del desempleo rompió con la retórica del siglo XIX de las Leyes de Pobres al entender la pobreza como sistémica en vez de individual, como un desperdicio de trabajo social en vez de un fingimiento de holgazanes y disolutos, también trazó una línea de separación rígida e ideológica en el seno de la multitud obrera.


Favelas y bidonvilles Si el desempleo dominaba la imaginación de los Estados capitalistas occidentales, no iba a ser el concepto regulador en el discurso del desarrollo de los Estados poscoloniales. Aquí el espectro de la vida sin salario en las florecientes ciudades de chabolas y favelas de Asia, África y América Latina arrolló cualquier división clara entre empleados y desempleados. La vida sin salario no era un accidente temporal contra el que uno pudiera asegurarse, tampoco un fracaso macroeconómico de la demanda agregada; parecía ser el principal modo de existencia en una economía separada, casi autónoma. 83 ARTÍCULOS 9 Ulrich Beck, Risk Society, Londres, 1992, p. 143 [ed. cast.: La sociedad del riesgo, Barcelona, Paidos, 2002]. La idea del sector informal surgió después de dos décadas de una extraordinaria migración en el Tercer Mundo hacia las ciudades, donde la población trabajadora urbana se multiplicó por dos entre 1950 y 1970. Los regímenes coloniales y los asentamientos coloniales, así como las economías de las plantaciones de las Américas, habían restringido e incluso criminalizado la emigración a la ciudad; por lo tanto, muchas de las revueltas de mediados de siglo se basaron en la sublevación de campesinos y trabajadores agrícolas. Pero en la estela de la liberación nacional, «los pobres», como señala Mike Davis, «reivindicaron con entusiasmo su “derecho a la ciudad”, incluso si eso significaba solamente un tugurio en su periferia»10. En las grandes zonas urbanas ocupadas de la década de 1950 surgieron nuevas formas de subsistencia y lucha, e incluso antes de que los economistas y sociólogos del desarrollo pusieran nombre al sector informal, los cineastas representaron la vida sin salario de las nuevas ciudades de chabolas en películas que se convirtieron en paradigmas durante el resto del siglo: Orfeo Negro (1959) de Marcel Camus, lanzó la primera Música del Mundo –la bossa nova– a partir de una mítica representación romántica de las favelas de Río durante el carnaval; y La Batalla de Argel (1966) de Gillo Pontecorvo, hizo un imperecedero retrato de la revolución anticolonial argelina, no como la guerra campesina que era, sino mediante la épica metonimia de la derrotada insurrección urbana de 1956-1957. El primer gran compromiso teórico con esta nueva forma de vida sin salario también surgió de una reflexión sobre la revolución argelina: en Les damnés de la terre Franz Fanon recuperaba el término marxista del siglo XIX «lumpenproletariado». Acuñado por Marx en la década de 1840 como uno más entre una familia de denominaciones –el lumpenproletariado, la turba, i lazzaroni, la bohème, los blancos pobres–, caracterizaba las formaciones de clase del París del Segundo Imperio, del Nápoles del Risorgimento, del Londres victoriano y de los Estados esclavistas de América del Norte. En la mayoría de los casos, Marx incluso utilizó el lenguaje original para sugerir la especifidad histórica de estas formaciones más que el alcance teórico del concepto. Para él, semejantes expresiones tenían dos connotaciones clave: por un lado, la de un estrato improductivo y parasitario de la sociedad, una escoria social o un desperdicio constituido por aquellos que se aprovechaban de otros; por otro, la de una fracción de los pobres que normalmente se alineaba con las fuerzas del orden, como en el relato del reclutamiento del lumpenproletariado por Louis Napoleon en El Dieciocho Brumario, o en su análisis de la alianza de los propietarios de esclavos con los blancos pobres en el sur de Estados Unidos. En estas formulaciones, Marx tenía dos antagonistas. Primero estaba combatiendo el punto de vista imperante de que toda la clase obrera era un elemento peligroso e inmoral. Trazó una línea entre el proletariado y el lumpenpro84 ARTÍCULOS 10 Mike Davis, Planet of Slums, Londres, 2006, p. 55 [ed. cast.: Planeta de ciudades miseria, Madrid, Foca, 2007]. letariado para defender el carácter moral de los primeros. En segundo lugar, estaba desafiando a aquellos –especialmente a su gran aliado y adversario anarquista Bakunin– que sostenían que los criminales y los bandidos eran una fuerza política revolucionaria11. A mediados del siglo XX el concepto de lumpenproletariado había desaparecido prácticamente del discurso socialista y marxista. Sin embargo, su reinvención en Les damnés de la terre para describir a las poblaciones urbanas totalmente nuevas del Tercer Mundo, lo convirtió en una de las apuestas clave en los debates teóricos de las décadas de 1960 y 1970. La discusión sobre el lumpenproletariado se produce principalmente en el segundo ensayo del libro, «Grandeur et faiblesse de la spontanéité», en el que Fanon traza las contradicciones de la coalición anticolonial a medida que los militantes nacionalistas urbanos se volvían hacia a las masas campesinas. Hace tres convincentes y controvertidas afirmaciones. La primera es una afirmación sociológica sobre la aparición de una nueva población de desposeídos, la gente de les bidonvilles: «abandonando el campo [...] los campesinos sin tierra, ahora un lumpenproletariado, son conducidos a las ciudades, hacinados en barriadas de chabolas mientras se esfuerzan por infiltrarse en los puertos y ciudades, las creaciones de la dominación colonial». «Estos hombres, separados a la fuerza de sus lugares de nacimiento por la creciente población del campo y por la expropiación colonial, rodean incesantemente las ciudades, esperando que algún día se les permitirá entrar en ellas». Fanon recurre a las metáforas biológicas: «la barriada de chabolas es la consagración de la biológica decisión de los colonizados de invadir las ciudadelas del enemigo a cualquier precio, y, si es necesario, por los canales más subterráneos». Es una «podredumbre irreversible», una «gangrena que devora el corazón de la dominación colonial». «Por muchas patadas que se le den o piedras que se le tiren, [este lumpenproletariado] continua corroyendo las raíces del árbol igual que una partida de ratas»12. En segundo lugar, Fanon, como Marx, sostiene que este lumpenproletariado es fácilmente manipulable por las fuerzas represivas del orden colonial; si no es «organizado por la insurrección, se unirán a las tropas coloniales como mercenarios», y pone ejemplos de Madagascar, Argelia, Angola y Congo. En tercer lugar, y en lo que hace más hincapié en contra de la opinión aceptada tanto por los movimientos nacionalista y comunista, Fanon insiste en que: es entre estas masas, en la gente de las barriadas de chabolas y en el lumpenproletariado, donde la revolución encontrará su punta de lanza urbana. El lumpenproletariado, esta cohorte de hombres hambrientos, divorciada de la tribu y del clan, constituye una de las fuerzas más espontánea y radicalmente revolucionarias de los pueblos colonizados [...] Estos desempleados, esta especie de subhumanos, se redimen a sí mismos ante sus propios ojos y ante la historia13. 85 ARTÍCULOS 11 Hal Draper, Karl Marx’s Theory of Revolution, vol. II, Nueva York, 1978, capítulo 15 y apéndice G: «On the Origin of the Term Lumpenproletariat». 12 Frantz Fanon, The Wretched of the Earth, Nueva York, 2004, pp. 66, 81 [Les damnés de la terre, París, François Maspero, 1961; ed. cast.: Los condenados de la tierra, varias ediciones]. 13 Ibid, pp. 81-82, 87. Nacimiento de la informalidad La apropiación de Fanon del término del siglo XIX alimentó debates políticos durante toda la década de 1960. Prácticamente todos los estudios pioneros del trabajo en el Tercer Mundo suscribían su formulación: Pierre Bourdieu sobre el trabajo y los trabajadores en Argelia; Ken Post sobre los levantamientos de trabajadores en Jamaica en la década de 1930; Charles van Onselen sobre la vida diaria en la Witswatersrand sudafricana. Los economistas y sociólogos del desarrollo lucharon para poner nombre a la nueva realidad que Fanon había identificado. En su clásica historia del desarrollo económico del Tercer Mundo, Paul Bairoch sostuvo que «los conceptos de desempleo y subempleo tal y como han sido formulados en Occidente no pueden aplicarse [...] excepto de manera muy basta y aproximada»14. Trabajando dentro de una tradición socialdemócrata, el economista jamaicano W. Arthur Lewis desarrolló a principios de la década de 1950 un influyente modelo de la «economía dual» colonial. A mediados de la siguiente, el concepto de masas marginales del marxista argentino José Nun había provocado un importante debate. La locución que llegó a dominar el discurso oficial –el «sector informal»– fue acuñada a principios de la década de 1970 por un economista del desarrollo británico, Keith Hart, que estaba estudiando las comunidades de emigrantes frafa procedentes del norte de Ghana que vivían en la ciudad de chabolas de Nima, en el extrarradio norte de la antigua ciudad de Accra. Hart afirmaba que, «una gran parte de la mano de obra urbana no tiene contacto con el empleo salarial». Continuaba resumiendo las formas de «autoempleo» que proporcionaban los medios de subsistencia para los habitantes de la ciudad miseria de Nima: «la distinción entre oportunidades de ingresos formales e informales está esencialmente basada en la que se produce entre los asalariados y los autoempleados». El término fue rápidamente adoptado por la Organización Internacional del Trabajo en un estudio de 1972 sobre el empleo en Kenya. Veinte años más tarde la OIT había desarrollado los criterios para las mediciones estadísticas en el sector informal y hubo diferentes debates no solo en el África anglófona sino también en el Sur de Asía y América Latina. El «sector informal» se convirtió en el tropo dominante para representar la vida sin salario en ciudades de todo el mundo. De acuerdo con la OIT, el «empleo informal supone entre la mitad y las tres cuartas partes del empleo no agrícola en los países en vías de desarrollo»: el 48 por 100 en el norte de África, el 51 por 100 en América Latina, el 65 por 100 en Asia y el 72 por 100 en el África subsahariana. Por otra parte, «tres clases de trabajo no estándar y atípico –autoempleo, trabajo a tiempo parcial y trabajo temporal– suponen el 30 por 100 del empleo total en quince países europeos y el 25 por 100 en Estados Unidos». A finales del siglo, la economía informal (como había sido rebau86 ARTÍCULOS 14 Paul Bairoch, The Economic Development of the Third World since 1900, Berkeley, 1975, p. 165. tizada) se había hecho visible no solo en Accra y Nairobi, sino también en Los Ángeles y Moscú15. En su ensayo sobre Accra, Hart desencadenó un debate sobre el carácter informal de la vida sin salario que ha continuado desde entonces: «por lo general se considera que el creciente subempleo y desempleo residual en las ciudades de los países en vías de desarrollo es una “mala cosa”. Pero ¿por qué tiene que ser así? ¿En que sentido exactamente este fenómeno constituye un problema?». Su pregunta puede considerarse como el comienzo de la normalización del sector informal. Modelos anteriores de la economía dual lo habían tratado como el legado «negativo» de la incompleta modernización del colonialismo, un momento de transición en el camino hacia el empleo y desempleo formal. Estos Estados habían heredado aparatos laborales coloniales que habían tratado de disciplinar y regularizar el trabajo precario. Y, realmente, la era de industrialización por sustitución de importaciones de mediados de siglo asistió al crecimiento del empleo del sector formal en América Latina e incluso en algunas partes de Asia y África; la aparición de nuevos ejércitos de trabajadores industriales organizados dio origen a los grandes levantamientos laborales de Sudáfrica, Brasil y Corea del Sur. Sin embargo, en la década de 1970 el crecimiento de estos empleos se había detenido y el discurso que había bautizado al sector informal lo consideró como una esfera normal de la actividad económica –de hecho creciente con el neoliberalismo– que formaba parte de la lógica de la acumulación capitalista poscolonial16. Igual que a finales del siglo XIX la definición de desempleo había dependido de una nueva interpretación de la economía, el descubrimiento del sector informal dependió en cierto sentido de los aparatos del trabajo formales del Estado, que establecieron salarios mínimos y horarios máximos y proporcionaban seguro de desempleo y seguridad social. Lo que caracterizaba al sector informal no era el tamaño de la empresa ni la forma del proceso de trabajo, sino su relación con el Estado. El tema central se convirtió entonces en la fortaleza o debilidad del Estado: para algunos, las economías informales se desarrollan cuando el Estado regula demasiado, llevando la actividad económica a un mundo subterráneo, no regulado y no sometido a impuestos; para otros, son el producto de Estados débiles o fallidos, incapaces de proporcionar protecciones sociales a sus ciudadanos y de imponer reglas o recaudar impuestos. Los críticos neoliberales de la regulación del Estado han tendido a festejar el entusiasmo empresarial por el sector informal, por sus microempresas que solamente necesi87 ARTÍCULOS 15 Keith Hart, «Informal Income Opportunities and Urban Employment in Ghana», Journal of Modern African Studies XI, 1, marzo de 1973, pp. 62, 68; Paul E. Bangasser, The ILO and the Informal Sector, ILO Employment Paper 2000/9, p. 10; ILO, Women and Men in the Informal Economy, Ginebra 2002, p. 7. 16 K. Hart, «Informal Income Opportunities», cit., p. 81. Véase también Alejandro Portes y Kelly Hoffman, «Latin American Class Structures. Their Composition and Change during the Neoliberal Era», Latin American Research Review XXXVIII, 1, febrero de 2003. tan microcréditos para prosperar. Los defensores de los Estados del bienestar socialdemócratas han defendido la formalización de lo informal: la extensión de las protecciones sociales y la representación en sindicatos. Trabajo sindical en Ahmedabad Al mismo tiempo que economistas del desarrollo como Hart estaban descubriendo el sector informal, tomaba forma la primera gran organización de trabajadores de este sector. En 1972, una activista de la Asociación Gandihana de Trabajadores Textiles, Ela Bhatt, empezó a reunir en un sindicato, la Asociación de Mujeres Autoempleadas, a las mujeres que trabajaban en la carga y descarga y a vendedoras callejeras de la ciudad textil de Ahmedabad. Bahtt había sido designada para examinar la situación de las familias afectadas por el cierre de dos grandes fábricas textiles. Mientras los hombres estaban ocupados haciendo campaña por la reapertura de las fábricas [...] eran las mujeres las que estaban ganando dinero y alimentando a la familia. Vendían fruta y vegetales en las calles; cosían en sus casas a destajo para intermediarios; trabajaban como obreras en mercados de comercio al por mayor, cargando y descargando mercancías; o recogían desechos reciclables de las calles de la ciudad [...] trabajos sin definición. Aprendí por primera vez lo que significa estar autoempleado. No se les aplicaba ninguna de las leyes laborales; en su caso mi formación legal no servía para nada. «Irónicamente», recuerda tres décadas después, «fue trabajando en el sector formal como pude contemplar por primera vez la inmensidad del sector informal»17. Durante los siguientes treinta años, la AMAE se convirtió en un racimo de tres tipos de organizaciones de los pobres a las que se afiliaban sus miembros. Primero, un sindicato –en 2004 el sindicato de base más grande de India– compuesto por una variedad de oficios informales –traperos, costureras de ropas y de chindi, enrolladores de bidi (los cigarrillos indios), vendedores de verduras– que regatean con compradores, contratistas y autoridades municipales sobre el destajo y el espacio en las calles. En segundo lugar, una coalición de docenas de cooperativas de productores que fabrican tejidos para camisetas, reciclan desperdicios de papel y limpian oficinas; y en tercer lugar, varias instituciones de asistencia y protección mutua, incluyendo un banco de la AMAE y cooperativas de salud organizadas alrededor de matronas que también eran parte del sector informal. Una parte clave de su historia ha sido la lucha por la representación. Como dice Bhatt, «cuando alguien me pregunta cual ha sido la parte más difícil del viaje de la AMAE», 88 ARTÍCULOS 17 Ela Bhatt, We Are Poor but So Many: The Story of Self-Employed Women in India, Oxford, 2006, p. 89. puedo responder sin vacilación: suprimir bloqueos conceptuales. Algunas de nuestras mayores batallas han sido para refutar ideas y actitudes preestablecidas de funcionarios, burócratas, expertos y académicos. Las definiciones son parte de esa batalla. El Registro de Sindicatos no nos consideraba «trabajadores»; por ello no nos podíamos registrar como un «sindicato». Las esforzadas trabajadoras del chindi, bordadoras, tiradores de carretas, traperos, matronas y recolectores de productos de los bosques, pueden contribuir al producto interior bruto de la nación, ¡pero el cielo prohíbe que sean reconocidos como trabajadores! Sin un empleador, no puedes ser clasificado como trabajador, y ya que no eres un trabajador no puedes formar un sindicato. Nuestra lucha para ser reconocidos como un sindicato nacional continua18. La AMAE rechazó la retórica del sector informal que dominaba el discurso oficial: «dividir la economía en sectores formal e informal es artificial». Bhatt sostiene que «puede hacer más fácil el análisis, o facilitar la administración, pero en última instancia lo que hace es perpetuar la pobreza»: «agrupar una fuerza de trabajo enorme en categorías como “marginal”, “informal”, “sin organizar”, “periférica”, “atípica”, o “economía sumergida” me parecía absurdo. Me preguntaba, marginal y periférica ¿respecto a qué? [...] A mis ojos eran simples “autoempleadas”». Realmente las vendedoras callejeras que estuvieron entre las primeras en construir la AMAE, se llamaban a sí mismas comerciantes19. Esta retórica del autoempleo recurrió a las ideologías del ala gandhiana del sindicalismo indio de la que surgió la AMAE y ha sido adoptada por otras organizaciones de trabajadores no asalariados, particularmente por la Unión Sudafricana de Mujeres Autoempleadas, establecida en Durban y fundada a mediados de la década de 1990. Sin embargo, retrospectivamente, parece que se ha convertido en un nominal lugar común, ya que la AMAE adoptó como una de sus tareas clave la representación de un mundo de trabajo no asalariado que era invisible para los aparatos laborales del Estado. Cuando a finales de la década de 1970, la AMAE organizó a las mujeres que cosían chindi –pedazos de telas descartados por las fábricas textiles– para hacer khols (mantasedredones), empezó por estudiarlas a pesar de su escepticismo: para poder comprender mejor los problemas de las trabajadoras chindi, decidimos realizar una investigación en los siete poles, o calles, donde se cosía la mayoría de los khols. Karimaben [una de las activistas] no tenía paciencia para una investigación y se quejó diciéndome: «nosotras sabemos cual es exactamente el problema. Déjame decirte que me gasto en un khol más de lo que gano por hacerlo». Sin embargo, la AMAE insistió en «proceder metódicamente y realizar una investigación», informando de las conclusiones a las trabajadoras del chindi, y utilizándolas para luchar por un aumento del precio del destajo tanto para 89 ARTÍCULOS 18 Ibid, pp. 17-18. 19 Ibid, pp. 18, 10, 11. los comerciantes de khol como para funcionarios del Ministerio de Trabajo. Bhatt sostiene que «en estos años los estudios han sido útiles para la AMAE. Nos ayudan a obtener un pormenorizado entendimiento de los temas antes de emprender ninguna acción, y el proceso nos ayuda a identificar líderes potenciales de la comunidad»20. Estos estudios han proporcionado una visión mucho más compleja del mundo de los autoempleados. En 2004, la investigación de la AMAE había dividido a sus miembros en más de ochenta ocupaciones, dentro de cuatro categorías principales: vendedores en la calle y vendedores ambulantes, productores en sus casas, peones y suministradores de servicios, y productores rurales21. El cuadro 1 muestra el crecimiento de cada una de estas categorías desde la década de 1970. Hay que señalar que el grupo más visible –los vendedores en la calle que alcanzaban el 2 por 100 en la India urbana– constituían una parte fundamental de la primera AMAE, antes de sufrir un descenso proporcional. Después de comenzar por las ciudades, en la década de 1990 se puso en marcha la organización de productores rurales y trabajadores agrícolas. Dos terceras partes de sus miembros no son tanto autoempleados como lo que Jan Breman ha llamado «cazadores y recolectores de salarios», trabajadores ocasionales y suministradores de servicios que trabajan para otros bajo los intrincados disfraces de contratados y trabajadores a destajo22. 90 ARTÍCULOS 20 Ibid, pp. 63. 21 Martha Alter Chen, Self-Employed Women. A Profile of SEWA’s Membership, Ahmedabad, 2006, p.12 22 Jan Breman, Wage Hunters and Gatherers. Search for Work in the Urban and Rural Economy of South Gujarat, Delhi, 1994. Año Total Vendedores Trabajadores en casa Peones Productores % del total % del total % del total % del total 1975 3.850 825 21 950 25 2.075 54 -- 1980 4.934 950 19 1.934 39 2.050 42 -- 1985 15.741 2.472 16 8.464 54 4.805 31 -- 1990 25.911 3.230 12 13.821 53 6.700 26 2.160 8 1995 158.152 11.515 7 55.114 35 73.768 47 17.755 11 2000 205.985 18.759 9 72.156 35 105.811 51 9.259 4 2002 535.674 39.460 7 141.458 26 314.245 59 40.511 8 2003 469.306 42.745 9 105.439 22 298.761 64 22.361 5 2004 468.445 28.575 6 85.976 18 313.814 67 40.080 9 Cuadro 1. Socios de la AMAE en Gujarat Fuente: M. A. Chen, Self-Employed Women, cit., p. 14. En 2004 un desglose más preciso (cuadro 2) muestra no solo la variedad de oficios informales –desde vendedores de vegetales, recolectores de desperdicios hasta trabajadores de carga y descarga– sino también la abrumadora cifra de trabajadores agrícolas. 91 ARTÍCULOS Grupos de oficios % del total de miembros Vendedores y vendedores ambulantes 28.575 6 Frutas y verduras 21.553 5 Utensilios y ropa usada 2.252 <1 Otros 4.770 1 Trabajadores en casa 85.976 18 Bordadoras 26.782 6 Confección de ropa 20.878 4 Enrolladores de bidi 15.478 3 Enrolladores de agarbati 8.928 2 Fabricantes de cometas 2.576 1 Otros 11.334 2 Peones y suministradores de servicios 313.814 67 Peones agrícolas 227.345 49 Trabajadores del tabajo 20.421 4 Recogedores de desechos 20.165 4 Peones ocasionales 14.732 3 Trabajadores de la construcción 11.673 3 Limpiadores 6.741 1 Trabajadores contratados por fábricas 3.950 1 Trabajadores de carga y descarga 3.259 1 Otros 5.528 1 Productores rurales 40.080 9 Productores de leche 14.247 3 Criadores de animales 10.867 2 Pequeños agricultores 9.281 2 Recolectores de resina 1.425 <1 Productores de sal 3.288 1 Otros 972 <1 Total 468.445 Cuadro 2. Socios de AMAE en Gujarat por ocupación, 2004. Fuente: M. A. Chen, Self-Employed Women, cit., p. 16. 92 ARTÍCULOS Por ello, las organizaciones de trabajadores del llamado sector informal han planificado su mundo no tanto a partir de su relación con una economía formal regulada por el Estado, sino en función de sus propios lugares de trabajo, especialmente la calle y la casa. Cuando la AMAE abanderó las alianzas trasnacionales de asociaciones de trabajadores en la década de 1990, lo hizo creando los dominios StreetNet y HomeNet. Cada vez más, las dos representaciones clave de los trabajadores informalizados, tanto en el discurso oficial como en la cultura popular, son el vendedor en la calle y el trabajador en su domicilio.


Recorriendo el mercado ¿Cuál puede ser la conclusión de esta genealogía de representaciones de la vida sin salario? Parece claro que ninguno de los dos grandes términos del siglo XX –desempleo y sector informal– siguen siendo adecuados, sobre todo por su segregación a zonas específicas del sistema capitalista mundial; incluso los estudios académicos sobre cada uno de ellos apenas mencionan al otro. Esta sensación de agotamiento conceptual también se aplica a los términos análogos tradicionales del marxismo: la adopción socialista del «ejército industrial de reserva» de Marx y la adopción anticolonial de la reinterpretación de Fanon del lumpenpoletariado. ¿Pero cuáles son las alternativas? Como propuse anteriormente, nuestra imaginación contemporánea parece estar dominada por dos tipos de metáforas. La primera señala la inseguridad de muchas clases de trabajo contemporáneo: hablamos de precarización, informalización y de la proliferación de empleos temporales y precarios. En 1999, la OIT –desde hace tiempo un lugar de lucha sobre formas de representación del trabajo y cuya convención de 1996 sobre el trabajo basado en el domicilio fue el producto de una prolongada batalla conducida en parte por la AMAE– trató de romper con la división formalinformal mediante la caracterización de este último como trabajo vulnerable, en contra del cual hacían un llamamiento a favor del trabajo decente. Esta demanda es tanto una retirada, el reconocimiento de que la regulación del trabajo formal no alcanza a la mayoría, como un avance, un argumento a favor de protecciones sociales y derechos laborales para los vulnerables. A pesar de las muchas invocaciones grandilocuentes de los inalienables derechos humanos, se puede observar que todavía estamos esperando la modesta Carta Magna del trabajo decente. Una segunda metáfora va más allá, proponiendo que hemos sobrepasado un hito histórico, el fin del trabajo tal y como lo hemos conocido. Se nos dice que el trabajo ha perdido su centralidad en la vida; la vida sin salario es una vida sin trabajo, desperdiciada. Señalando la dramática ruptura en el discurso popular entre la retórica del desempleo y la de la superfluidad, Zygmunt Bauman dice que «la superfluidad» comparte su espacio semántico con «rechazos», «gandules», «basura», «residuo»; con desechos. El destino de los desempleados, del «ejército industrial de reserva», era ser llamados de vuelta al servicio activo. El destino del desecho es el depósito de desechos, el montón de residuos». «La producción de “desechos humanos» o más correctamente de humanos desechados [...] es un resultado inevitable de la modernización»; «los refugiados, los buscadores de asilo, los emigrantes» son «los productos de desecho de la globalización»23. La apocalíptica denuncia de Bauman de nuestra cultura del desecho es convincente pero equivoca el blanco por dos razones. En primer lugar por su vinculación demasiado simplista del desecho material con el desecho humano, que repite uno de los tropos más viejos respecto a los no asalariados: son equivalentes a basura, a residuos. Semejantes metáforas aparecen en todos estos estudios, desde la temprana caracterización que hace Hobson del desempleo como desperdicio. Marx tampoco se libró de ellas, refiriéndose en El Dieciocho Brumario al lumpenproletariado como un residuo. Y realmente hay una conexión: los que no tienen salarios han trabajado mucho tiempo rebuscando en la basura. Pero como he señalado anteriormente, los recogedores de desechos no solo son una parte significativa de la AMAE, muchos de los oficios que agrupa, como las mujeres tejedoras del chindi, surgieron a partir de subproductos de la industria textil. En marzo de 2008, se celebró en Bogotá la primera conferencia internacional de organizaciones de recolectores de desechos. El hecho de que la globalización produce superfluidad se entendería mejor no mediante la imagen aparentemente concreta de vidas desechadas, sino mediante dos conceptos dialécticamente relacionados de Marx: el excedente relativo de población y el pobre virtual. El primero procede de El capital; el segundo de los Grundrisse. En el capítulo clave sobre «La ley general de la acumulación capitalista» de El capital, Marx considera el problema desde el punto de vista del capital: «la propia acumulación capitalista es la que produce constantemente –en relación directa con su propia energía y alcance– una población trabajadora relativamente superflua, es decir, una población que es superflua para las necesidades medias del capital en aras de su propia valorización, y que por ello es una población excedente». Marx continua, «esta es una ley de población característica del modo de producción capitalista, y de hecho, históricamente cada modo concreto de producción tiene sus propias leyes especiales de población». Realmente, «el excedente relativo de población existe en toda clase de formas. Todo trabajador pertenece a él durante el tiempo que solo está parcialmente empleado o totalmente desempleado». El ejército industrial de reserva es por ello simplemente una de estas formas; de hecho, como se podía esperar, los ejemplos particulares de Marx sobre el excedente relativo de población, son la parte más anticuada de su análisis24. La metáfora fundamental en el análisis de Marx es la de las fuerzas opuestas: no se trata de que haya dos clases de trabajadores, empleados y de93 ARTÍCULOS 23 Zygmunt Bauman, Wasted Lives, Cambridge, 2004, pp. 12, 5, 66. 24 K. Marx, Capital, cit., pp. 782,783-784, 794. sempleados, o dos sectores de la economía, formal e informal; más bien hay un proceso en el que «una mayor atracción de trabajadores por parte del capital está acompañada por su gran rechazo [...] algunas veces los trabajadores son repelidos, algunas veces son atraídos de nuevo en masas todavía mayores». «Cuanto mayor sea la productividad del trabajo, cuanto mayor sea la presión de los trabajadores sobre los medios de empleo, más precaria se vuelve la condición de su existencia, especialmente para la venta de su propia fuerza de trabajo». Curiosamente, prácticamente todo el vocabulario contemporáneo –redundante, superfluo, precario– puede encontrarse en este capítulo25. Si el pasaje de El capital cuenta la historia desde el punto de vista de la acumulación de capital, el pasaje paralelo en los Grundisse comienza desde el punto de vista del trabajo vivo: «el concepto de trabajador libre ya significa que se trata de un indigente: un indigente virtual [...] Si el capitalista no tiene ningún uso para su trabajo excedente, entonces el trabajador no puede desempeñar su necesaria labor». Marx no está sosteniendo que todos los trabajadores se convertirán en mendigos, como sostiene la tesis de la pauperización que a menudo se le atribuye. Más bien, ésta es su explicación de la vida desnuda: ya que el intercambio requerido para los medios de vida –la venta de la fuerza de trabajo– es accidental e indiferente a su presencia orgánica, el trabajador es un indigente virtual26. Indigentes virtuales: esta extraña figura –que combina una palabra casi perdida con una que ha tomado connotaciones enteramente nuevas– será mi lugar de reposo temporal. En una carta escrita cuando cumplió cincuenta años, Marx decía: «medio siglo sobre mis hombros y todavía un indigente». Siglo y medio después, de nuevo el espectro de la vida sin salario flota sobre nosotros.

1 Karl Marx e Friedrich Engels, Obras Completas, Nova York, 1975, vol. III, p. 284. Este ensaio foi originalmente escrito como parte do Grupo de Trabalho de Yale sobre Globalização e Cultura. Gostaria de agradecer aos demais membros por suas sugestões e críticas, e a Achille Mbembe por sua resposta a um texto anterior no Instituto de Pesquisa Social e Econômica da Universidade de Witwatersrand, África do Sul, em 22 de fevereiro de 2006.

2 K. Marx, Capital, vol. I, Harmondsworth, 1976, p. 764.

3 Michael Lebowitz, Beyond Capital. Marx’s Political Economy of the Working Class, Nova York, 2003; David Harvey, The Limits to Capital, Chicago, 1982, p. 163.

4 Las lecturas biopolíticas del desempleo son en cierto modo el producto de la agitación intelectual provocada por la tercera oleada de desempleo masivo; dos textos de referencia datan de 1986: Robert Salais, L’invention du chômage. Histoire et transformations d’une catégorie en France des années 1890 aux années 1980, París, 1986, y Alexander Keyssar, Out of Work. The First Century of Unemployment in Massachusetts, Cambridge, 1986. Véase también Christian Topalov, Naissance du chômeur, 1880–1910, París, 1994. Un estudio más reciente que se basa en este trabajo es el de William Walters, Unemployment and Government. Genealogies of the Social, Cambridge, 2000. 

5 John Garraty, Unemployment in History, Nueva York, 1978, pp. 109, 4; J. A. Hobson, «The Meaning and Measure of “Unemployment”», Contemporary Review 67, marzo de 1895. 

6 K. Marx, Capital, cit., pp. 303, 307. 

7 W. Walters, Unemployment, cit., p. 18. Véase también Gareth Stedman Jones, Outcast London, Nueva York 1984, pp. 291-296. En sus cartas, Engels se mostraba muy crítico con las «sandeces de la FSD sobre la revolución social». Su caracterización de la manifestación como principalmente compuesta por «haraganes, espías de la policía y pícaros» es una de los clásicos pasajes sobre el lumpenproletariado; K. Marx y F. Engels, Collected Works, cit., vol. XLVII, pp. 407, 408. 

8 Hobson, citado por W. Walters, Unemployment, cit., p. 32. Véase también Stedman Jones, Languages of Class, Cambridge, 1983, p. 159. El Departamento de Massachusetts está citado por A. Keyssar, Out of Work, cit., p. 72.

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