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7 de janeiro de 2016

De militar para militar

Seymour M. Hersh sobre a partilha de inteligência dos Estados Unidos na guerra síria

A persistente insistência de Barack Obama de que Bashar al-Assad deve deixar o cargo – e que há grupos rebeldes "moderados" na Síria capazes de derrotá-lo – provocou uma dissensão silenciosa e até oposição aberta entre alguns dos oficiais mais graduados da Estado-Maior Conjunto do Pentágono nos últimos anos.

Seymour M. Hersh

London Review of Books

Vol. 38 No. 1 · 7 January 2016

Tradutor / A incansável insistência de Barack Obama, em que Bashar al-Assad teria de deixar o governo – e em que haveria grupos rebeldes moderados na Síria capazes de derrotá-lo – provocou, em anos recentes, dissidência silenciosa e até declarada oposição entre alguns dos mais altos oficiais do comando do estado-maior do Pentágono. As críticas focaram-se no que eles veem como uma fixação do governo no principal aliado de Assad, Vladimir Putin. Naquele ponto de vista, Obama estaria cativo do pensamento da Guerra Fria sobre Rússia e China, e não ajustara a própria visão sobre a Síria ao fato de que Rússia e China partilham a ansiedade de Washington sobre a disseminação do terrorismo na e além da Síria e, como Washington, acreditam que o Estado Islâmico tem de ser detido.

A resistência entre os militares data do verão de 2013, quando uma avaliação altamente sigilosa, construída pela Agência de Inteligência da Defesa e o Comando do Estado-maior das Forças Militares Conjuntas dos EUA, presidido pelo general Martin Dempsey, previu que, sem o regime de Assad, a Síria seria tomada pelo caos, e o Estado sírio poderia ser tomado por extremistas jihadistas, mais ou menos como já se via acontecer na Líbia.

Ex-conselheiro daquele estado-maior dos EUA disse-me que aquele documento era avaliação construída por multi-fontes, a partir de informações recolhidas de sinais de satélite e de inteligência humana, e avaliava muito duramente a insistência do governo Obama em continuar a financiar e armar os chamados rebeldes moderados. Naquele momento a CIA já conspirava há mais de um ano com aliados no Reino Unido, na Arábia Saudita e no Qatar para embarcar armas e suprimentos – a serem usados para derrubar Assad –, da Líbia, via Turquia, para a Síria. Aquela nova avaliação da inteligência especificava a Turquia como principal impedimento à política de Obama para a Síria. O documento mostrava, disse-me o ex-conselheiro, "que o que começou como programa clandestino dos EUA para armar e apoiar rebeldes moderados que combatiam contra o governo de Assad, já havia sido cooptado pela Turquia, e se metamorfoseara em programa de contrabando através da fronteira, de armas, treinamento e logística para toda a oposição, incluindo a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico. Os chamados moderados haviam evaporado, e o Exército Sírio Livre não passava de bando esfarrapado acampado numa base aérea na Turquia". O parecer era sombrio: não havia qualquer oposição moderada contra Assad; e os EUA estavam entregando armas a extremistas.

O tenente-general Michael Flynn, diretor da DIA de 2012 a 2014, confirmou que sua agência havia enviado fluxo ininterrupto de alertas sigilosos para a liderança civil do país, sobre as graves consequências de derrubarem Assad. Os jihadistas, disse ele, controlavam integralmente a oposição. A Turquia não se esforçava para deter, na sua fronteira, o contrabando de armas e de mercenários recrutados pelo mundo. "Se a opinião pública americana conhecesse a informação que produzimos todos os dias, no nível mais sensível, haveria escândalo generalizado e muita indignação pelas ruas", disse-me Flynn. "Compreendemos a estratégia de longo prazo do ISIS e seus planos de campanha, e também discutimos o fato de que a Turquia fingia que não via o evidente crescimento do Estado Islâmico dentro da Síria." Os relatórios da DIA, disse ele, "encontraram feroz resistência dentro do governo Obama. Minha impressão foi que eles não queriam ouvir a verdade."

"Nossa política de armar a oposição contra Assad fracassou e, na verdade, está tendo impacto negativo", disse o ex-conselheiro do comando do estado-maior dos EUA. "Os comandantes do Estado-maior entendiam que Assad não devia ser substituído por fundamentalistas. A política do governo era contraditória. Queriam que Assad saísse, mas a oposição já estava dominada por extremistas." Assim sendo, quem o substituiria? Muito bem, declarar que Assad tem de sair, mas se você aprofunda a ideia, é como se "qualquer coisa é melhor". Esse ponto, "qualquer coisa é melhor" é o ponto que separa o estado-maior dos EUA e a política de Obama. Os comandantes do Estado-maior sentiam que desafiar diretamente a política de Obama tinha "chance zero de sucesso". Então, no outono de 2013 decidiram tomar medidas contra os extremistas sem seguir os canais políticos, fornecendo inteligência dos EUA a militares de outros países, com o combinado de que seria passada ao exército sírio, para ser usada contra o inimigo comum, Frente al-Nusra e Estado Islâmico.

Alemanha, Israel e Rússia tinham contato com o Exército Sírio e alguma influência sobre as decisões de Assad – e a inteligência dos EUA seria partilhada através desses países. Cada um dos três países tinha suas razões para cooperar com Assad: Alemanha, com medo de como reagira sua própria população de seis milhões de muçulmanos, se o Estado Islâmico se expandisse; Israel, preocupado com a segurança de fronteira; a Rússia tinha uma aliança há muito tempo com a Síria, e temia pela sua base naval no Mediterrâneo, em Tartus. "Não tínhamos intenção de nos desviar das políticas determinadas por Obama", disse-me o ex-conselheiro. "Mas partilhar nossa avaliação mediante relações de militar para militar com outros países poderia ser atitude produtiva. Era claro que Assad carecia de melhor inteligência tática e de aconselhamento operacional. O comando do estado-maior concluiu que, se se atendessem a essas necessidades, a luta geral contra o terrorismo islâmico seria melhorada. "Obama não sabia, mas Obama não sabe de nada que o comando do estado-maior das forças conjuntas dos EUA faz, o que vale para todos os presidentes."

Tão logo começou o fluxo de inteligência dos EUA, Alemanha, Israel e Rússia começaram a passar informações sobre os pontos onde estavam e os planos dos grupos jihadistas radicais, para o exército sírio; em troca, a Síria forneceu informações sobre suas capacidades e intenções. Não houve contato direto entre militares dos EUA e da Síria; em vez disso, o ex-conselheiro disse, "fornecíamos a informação – inclusive análises de longo prazo sobre o futuro da Síria reunidas por empresas contratadas ou um de nossos colégios de guerra – e aqueles países tinham liberdade para fazerem o que decidissem fazer com a informação, inclusive partilhá-la com Assad. Dizíamos, para os alemães e os demais: "Aqui está informação bastante interessante, e nosso interesse é mútuo". Fim da conversa. O comando do estado-maior dos EUA concluiu que resultaria algo benéfico – mas era assunto de militar para militar, não algum tipo de plano sinistro do estado-maior para enganar Obama e apoiar Assad. Na verdade, era muito mais inteligente que isso. Se Assad fica no poder, não seria porque nós o seguramos lá. Seria por ele teria sido esperto o bastante para usar a informação de inteligência e assessoria tática de primeira qualidade, que fornecemos a muita gente."

***

A história pública das relações entre EUA e Síria ao longos das últimas poucas décadas é história de inimizade. Assad condenou os ataques do 11/9, mas se opôs à guerra do Iraque. George W. Bush repetidas vezes associou a Síria aos três membros do seu "eixo do mal" – Iraque, Irã e Coreia do Norte – durante todo o seu governo. Os telegramas do Departamento de Estado divulgados por WikiLeaks mostram que o governo Bush tentou desestabilizar a Síria, e os esforços continuaram nos anos Obama. Em dezembro de 2006, William Roebuck, então encarregado da embaixada dos EUA em Damasco, divulgou uma análise das vulnerabilidades do governo Assad e listou métodos que "irá melhorar a probabilidade" de oportunidades de desestabilização. Recomendava que Washington trabalhasse com Arábia Saudita e Egito para aumentar a tensão sectária e se focasse em divulgar "esforços sírios contra grupos extremistas" – dissidentes curdos e facções sunitas radicais – "de modo que sugira fraqueza, sinais de instabilidade e revide não controlado"; e que "o isolamento da Síria" deveria ser encorajada, mediante o apoio, dos EUA à Frente de Salvação Nacional liderada por Abdul Halim Khaddam, um ex-vice-presidente sírio cujo governo no exílio, em Riad, era patrocinado pelos sauditas e pela Fraternidade Muçulmana. Outro telegrama de 2006 mostrava que a embaixada gastara $5 milhões financiando dissidentes que concorreram como candidatos independentes à Assembleia Popular; os pagamentos continuaram, mesmo depois que ficou claro que a inteligência síria já sabia do que estava acontecendo. Um telegrama de 2010 alertava que financiamento para uma rede de televisão com sede em Londres e dirigida por um grupo da oposição síria seria visto pelo governo sírio "como um gesto secreto e hostil para com o regime".

Mas há também uma história paralela de cooperação sombria entre a Síria e os EUA durante o mesmo período. Os dois países colaboraram contra a al-Qaeda, inimiga comum. Um consultor com muitos anos de serviços prestados ao Comando de Operações Especiais Conjuntas disse que, depois do 11/9, "Bashar foi, durante anos, extremamente útil, quando nós, em minha opinião, fomos extremamente tolos, no uso que demos ao ouro que ele nos ofereceu. Essa cooperação silenciosa continuou também com outros elementos, mesmo depois que o governo [de Bush] resolveu pôr-se a demonizar Assad." Em 2002, Assad autorizou a inteligência síria a entregar centenas de arquivos internos sobre atividades da Fraternidade Muçulmana na Síria e na Alemanha. Mais tarde, nesse mesmo ano, a inteligência síria abortou um ataque da al-Qaeda contra os quartéis da Quinta Frota da Marinha dos EUA, no Bahrain, e Assad concordou que a CIA recebesse o nome de um informante vital da al-Qaeda. Em clara violação desse acordo, a CIA imediatamente fez contato direto com o informante; ele rejeitou a abordagem e rompeu relações com seus contatos sírios. Assad também entregou secretamente aos EUA parentes de Saddam Hussein que haviam procurado refúgio na Síria, e – como outros aliados dos EUA na Jordânia, Egito, Tailândia e em outros pontos – torturou a serviço da CIA suspeitos de terrorismo, numa prisão em Damasco.

Essa história de cooperação tornou possível crer, em 2013, que Damasco concordaria com o novo arranjo de partilha indireta de inteligência com os EUA. Os comandantes do estado-maior fizeram saber aos sírios que, em troca, os EUA queriam quatro coisas: Assad teria de impedir o Hezbollah de atacar Israel; teria de renovar as negociações paralisadas com Israel para alcançar um acordo sobre as Colinas do Golan; teria de aceitar conselheiros russos e de outros países; e teria de se comprometer com realizar eleições abertas depois da guerra, incluindo larga gama de grupos. "Tínhamos feedback positivo dos israelenses que estavam apoiando a ideia, mas eles queriam saber qual seria a reação do Irã e da Síria", disse-me o ex-conselheiro do comando do estado-maior das forças armadas conjuntas dos EUA. "Os sírios disseram que Assad não tomaria decisão unilateral – que queria o apoio de seus militares e aliados alauitas. A preocupação de Assad era que Israel dissese que sim e depois não defendesse a sua parte no trato." Um antigo conselheiro do Kremlin para assuntos do Oriente Médio contou-me que, no final de 2012, depois de sofrer revezes de combate e deserções, Assad aproximou-se de Israel mediante um contato em Moscou, e ofereceu para reabrir as conversações sobre as Colinas do Golan. Os israelenses rejeitaram a oferta. "Disseram 'Assad está acabado'", disse-me o funcionário russo. – "Disseram que 'Assad está chegando ao fim.'" Disse-me também que os turcos haviam dito exatamente a mesma coisa a Moscou. Mas em meados de 2013, os sírios achavam que o pior já tinha passado, e queriam garantias de que os americanos e outros falavam a sério, sobre ofertas de ajuda.

Nas fases iniciais das conversações, disse o ex-conselheiro, os comandantes do estado-maior tentaram fixar o que convenceria Assad, como sinal de suas boas intenções. A resposta chegou através de um amigo de Assad: "Tragam a ele a cabeça do príncipe Bandar." Não podia ser. Bandar bin Sultan serviu durante décadas à Arábia Saudita, nos serviços de inteligência e questões de segurança nacional, e passou mais de 20 anos como embaixador em Washington. Em anos recentes, tornou-se conhecido como empenhado militante a favor da derrubada de Assad, por quaisquer meios. Entre notícias de que estaria gravemente doente, Bandar renunciou ano passado ao cargo de diretor do Conselho de Segurança Nacional Saudita, mas a Arábia Saudita ainda é fornecedora de dinheiro para a oposição síria, estimado pelos EUA, ano passado, em pelo menos $700 milhões.

Em julho do ano passado, os comandantes do estado-maior das forças conjuntas dos EUA encontraram meio mais direto de demonstrar a Assad que, sim, queriam ajudá-lo. Naquele momento, o fluxo de armas patrocinado secretamente pela CIA da Líbia para a oposição síria, através da Turquia, já tinha mais de um ano (começou pouco depois da morte de Gaddafi, em 20 de outubro de 2011).[*] A operação era quase toda comandada por um anexo clandestino da CIA em Benghazi, com pleno conhecimento do Departamento de Estado. Em 11 de setembro de 2012, o embaixador dos EUA na Líbia, Christopher Stevens, foi morto durante demonstração anti-EUA que resultou no incêndio que destruiu completamente o consulado dos EUA em Benghazi; repórteres do Washington Post encontraram cópias da agenda do embaixador entre as ruínas queimadas do prédio. Ali se via que em 10 de setembro Stevens tinha se reunido com o chefe da operação da CIA. No dia seguinte, horas antes de ser morto, ele tinha se reunido com um representante da empresa de transportes marítimos Al-Marfa Shipping and Maritime Services, empresa com sede em Trípoli e que, como me disse o ex-conselheiro do Estado-maior, era conhecida também do próprio estado-maior como encarregada dos embarques e entregas de carregamentos de armas.

No final do verão de 2013, o parecer da Agência de Inteligência da Defesa já circulara amplamente, mas embora muita gente na comunidade de inteligência dos EUA soubesse que a oposição síria era dominada por extremistas, o fluxo de armas patrocinadas pela CIA continuava, e era continuado problema para o exército de Assad. O estoque de armas de Gaddafi criou um bazaar internacional de armas, embora os preços fossem altos. "Não havia como interromper os embarques de armas que o presidente Obama autorizara", disse o ex-conselheiro do comando do estado-maior dos EUA. "A solução acabou por envolver um apelo ao bolso. O comando do estado-maior dos EUA enviou representante para falar com a CIA, com uma sugestão: havia armas muito mais baratas disponíveis nos arsenais turcos, que podiam chegar em poucos dias aos rebeldes sírios, e sem viagens por mar." Mas a CIA não seria a única beneficiária do novo arranjo. "Trabalhávamos com turcos que sabíamos que não eram leais a Erdoğan e nos quais confiávamos", disse-me o ex-conselheiro. "E conseguimos que entregassem aos jihadistas na Síria todo o armamento obsoleto que havia no arsenal, inclusive carabinas M1 que nunca mais haviam sido usadas desde a Guerra da Coreia e muitas armas soviéticas. Era mensagem clara, que Assad entenderia: 'Temos poder para reduzir efeitos de uma política do presidente dos EUA já em andamento'."

O fluxo de inteligência dos EUA para o exército sírio e o rebaixamento na qualidade das armas fornecidas aos rebeldes aconteceram em momento crítico. O exército sírio sofrera pesadas perdas na primavera de 2013 em combates contra a Frente al-Nusra e outros grupos extremistas, e perdera o controle sobre a capital provincial de Raqqa. Continuaram durante meses raids esporádicos na área, pelo Exército Árabe Sírio e pela Força Aérea síria, com sucesso reduzido, até que decidiram retirar-se de Raqqa e de outras áreas pouca habitadas e difíceis de defender no norte e no oeste, para concentrar-se em consolidar as defesas do Estado sírio em Damasco e nas áreas densamente povoadas que legam a capital a Latakia, no nordeste. Mas, quando o Exército sírio ganhou potência com o apoio do comando do estado-maior das forças armadas conjuntas dos EUA, Arábia Saudita, Qatar e Turquia escalaram o apoio financeiro e o fornecimento de armas para a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico, os quais, ao final de 2013 haviam tido ganhos enormes dos dois lados da fronteira Síria/Iraque. Os demais rebeldes não fundamentalistas viram-se combatendo – e perdendo – batalhas terríveis contra os extremistas. Em janeiro de 2014, o Estado Islâmico conseguiu controle completo em Raqqa e nas áreas tribais circundantes, derrotando a Frente al-Nusra e estabeleceu sua base naquela cidade. Assad ainda controlava 80% da população síria, mas perdera áreas gigantescas de território.

Os esforços da CIA para dar treinamento a forças rebeldes moderadas estavam também fracassando miseravelmente. "O campo de treinamento da CIA ficava na Jordânia e era controlado por um grupo tribal sírio", disse o ex-assessor do comando do estado-maior dos EUA. Havia uma suspeita de que alguns dos que se inscreviam para o treinamento eram realmente soldados do exército sírio, menos o uniforme. Já acontecera antes, no auge da Guerra do Iraque, quando centenas de membros de milícias xiitas apareciam nos campos americanos de treinamento, em busca de roupas limpas, armas e uns dias de treinamento e, em seguida, sumiam no deserto. E outro programa de treinamento que o Pentágono estabelecera na Turquia, também não ia bem. Em setembro, o Pentágono reconheceu que só "quatro ou cinco" de seus recrutas ainda combatiam contra o Estado Islâmico; poucos dias depois, 70 deles desertaram para a Frente al-Nusra, no instante em que atravessaram a fronteira e entraram na Síria.

Em janeiro de 2014, já desesperado com o progresso zero, John Brennan, diretor da CIA, convocou os chefes das inteligências americana e sunitas-árabes de todo o Oriente Médio, para uma reunião secreta em Washington, com o objetivo de tentar convencer a Arábia Saudita a parar de apoiar combatentes extremistas na Síria. "Os sauditas disseram que muito se alegravam com a iniciativa", disse-me o ex-assessor do estado-maior dos EUA. Assim sendo, sentaram-se todos eles para ouvir Brennan dizer que tinham de aliar-se aos chamados moderados. A ideia de Brennan era que, se todos na região parassem de apoiar a Frente al-Nusra e o Estado Islâmico, eles ficariam sem armas e munição, e os moderados venceriam." Mas a mensagem de Brennan foi ignorada pelos sauditas, disse-me o ex-assessor. Os sauditas voltaram para casa e aumentaram a ajuda aos extremistas e nos pediram mais e mais suporte técnico. "Então nós dissemos OK, e foi assim que acabamos reforçando os grupos mais extremistas."

Mas os sauditas não eram, nem de longe, o único problema. A inteligência dos EUA havia acumulado interceptações e inteligência humana que mostrava que o governo de Erdoğan já apoiava a Frente al-Nusra há anos, e que agora está fazendo o mesmo com o Estado Islâmico. "Podemos lidar com os sauditas", disse-me o ex-conselheiro, "podemos lidar com a Fraternidade Muçulmana. Pode-se dizer que todo o equilíbrio no Oriente Médio está baseado numa modalidade de destruição mútua assegurada entre Israel e o resto do Oriente Médio. Mas a Turquia pode romper esse equilíbrio (e esse é o sonho de Erdoğan). Dissemos a ele que queríamos que ele fechasse a torrente de jihadistas estrangeiros que não paravam de chegar à Turquia. Mas ele sonha grande – quer restaurar o Império Otomano – e não se dá conta da mínima probabilidade de conseguir ser bem-sucedido."

***

Um dos relacionamentos mais constantes dos EUA, desde a queda da União Soviética, tem sido uma relação militar-a-militar com os russos. Depois de 1991, os EUA gastaram bilhões de dólares para ajudar a Rússia a proteger seu complexo de armas nucleares, incluindo uma operação conjunta altamente secreta para remover urânio enriquecido para ser usado em armas atômicas, retirando o material de onde estava, em silos sem segurança no Cazaquistão. Programas conjuntos para monitorar a segurança de materiais radioativos alto-enriquecidos continuaram durante as duas últimas décadas. Durante a guerra dos EUA contra o Afeganistão, a Rússia concedeu direitos de sobrevoo a aviões cargueiros e de transporte de tanques, além de acesso para manter o fluxo de armas, munição e água para manter diariamente a máquina de guerra dos EUA. Militares russos forneceram inteligência sobre o paradeiro de Osama bin Laden e ajudaram os EUA a negociar direitos para usarem uma base aérea no Quirguistão. O estado-maior dos EUA estiveram em contato frequente com seus contrapartes russos durante toda a guerra da Síria, e os laços entre os dois blocos militares começam pelo topo. 

Em agosto, poucas semanas antes de aposentar-se como comandante do estado-maior das forças conjuntas dos EUA, Dempsey fez uma visita de despedida ao quartel-general das Forças de Defesa da Irlanda em Dublin, onde disse, numa conferência a comandantes do estado-maior da Irlanda, que um dos pontos altos de sua carreira fora manter-se em contato com o comandante do estado-maior das forças conjuntas da Rússia, general Valery Gerasimov. "De fato, sugeri a ele que não terminássemos nossas carreiras como começamos", disse Dempsey, "um pilotando tanques na Alemanha Ocidental, o outro, na Alemanha Oriental".

No que tenha a ver com derrotar o Estado Islâmico, Rússia e EUA têm muito a oferecer um ao outro. Muitos no comando e nas fileiras do Estado Islâmico combateram durante mais de uma década contra a Rússia nas duas guerras chechenas que começaram em 1994, e o governo de Putin está pesadamente investido em combater contra o terrorismo islamista. "A Rússia conhece muito bem a liderança do Estado Islâmico", disse-me o ex-conselheiro do comando do estado-maior dos EUA, "inclusive suas técnicas operacionais, e tem muita inteligência a partilhar." Em troca, disse ele, "temos excelentes instrutores, com anos de experiência em treinamento de combatentes estrangeiros – uma experiência que a Rússia não tem." Minha fonte não discute que inteligência supõe-se que os EUA tenham: capacidades para obter dados sobre alvos, não raras vezes comprados por montanhas de dinheiro, de fontes dentro das milícias rebeldes.

Um ex-assessor da Casa Branca sobre assuntos russos me disse que antes de 9/11 que Putin costumava dizer-nos: "Temos os mesmos pesadelos sobre lugares diferentes." Ele estava se referindo a seus problemas com o califado na Chechênia e nossos primeiros problemas com al-Qaida. Hoje, depois do bombardeio que derrubou o Metrojet sobre o Sinai e dos massacres em Paris e em outros locais, impossível escapar da conclusão de que nós, realmente, temos os mesmos pesadelos sobre os mesmos locais."

Pois com tudo isso, o governo Obama continua a condenar a Rússia por causa do apoio que dá ao presidente Assad. Diplomata aposentado que serviu na embaixada dos EUA em Moscou mostrou compreensão quanto ao dilema de Obama, como líder da coalizão ocidental, que se opõe ao que Putin fez na Ucrânia: "A Ucrânia é questão difícil, e Obama até que a conduziu com firmeza, mediante sanções. Mas nossa política para a Rússia e muito frequentemente sem foco. E não é por causa do que fazemos na Síria. É porque os russos não podem permitir que Bashar seja derrubado. A verdade é que Putin não quer que o caos sírio se espalhe para Jordânia ou Líbano, como se espalhou para o Iraque, e não quer ver a Síria tombar em mãos do Estado Islâmico. O movimento mais contraproducente de Obama, e que atrapalhou gravemente nossos próprios esforços para acabar com os combates, foi declarar, como premissa das negociações, que 'Assad deve ir como premissa para a negociação.'" O mesmo diplomata repetiu também um pensamento que circula em alguns setores do Pentágono, ao aludir a um fator colateral por trás da decisão dos russos, de 30 de setembro, de lançarem ataques aéreos em apoio ao exército sírio: impedir que Assad tivesse destino semelhante ao de Gaddafi. Meu informante ouvira dizer que Putin assistiu três vezes a um vídeo do brutal assassinato de Gaddafi. O ex-assessor do estado-maior dos EUA também me falou de uma avaliação da inteligência dos EUA, que concluía que Putin ficou terrivelmente emocionado ante o destino de Gaddafi: "Putin culpou-se por ter deixado que acontecesse daquele modo, por não ter agido com mais firmeza nas coxias da ONU, quando a coalizão ocidental fazia lobby para ser autorizada a consumar os ataques que destruíram o regime líbio. "Putin convenceu-se de que, a menos que a Rússia se engajasse, Bashar também seria assassinado e mutilado – e a Rússia teria de assistir à destruição de seus aliados na Síria."

Em um discurso em 22 de novembro, Obama declarou que "os principais alvos" da artilharia russa "foram a oposição moderada". É linha da qual o governo e a mídia dominante nos EUA praticamente nunca se desviaram. Os russos insistem que só atiram contra grupos rebeldes que ameaçam a estabilidade na Síria – inclusive o Estado Islâmico. O assessor do Kremlin para o Oriente Médio explicou em entrevista que a primeira rodada de ataques aéreos russos teve o objetivo de reforçar a segurança em torno de uma base aérea russa em Latakia – fortaleza de forças alauitas. O objetivo estratégico, disse ele, foi estabelecer um corredor pelo qual não circulasse jihadistas, de Damasco a Latakia e a base russa em Tartus e, na sequência, mudar gradualmente o foco do bombardeio para o sul e leste, com maior concentração de missões de bombardeio sobre o território do Estado Islâmico. Ataques russos contra alvos do EI em e próximo de Raqqa foram noticiados já desde o início de outubro; em novembro, houve novos ataques contra posições do EI perto da cidade histórica de Palmyra, e na província de Idlib, fortaleza duramente disputada na fronteira turca.

Incursões russas no espaço aéreo turco começaram imediatamente depois que Putin autorizou os bombardeios, e a força aérea russa usou sistemas para misturar sinais e interferiu na operação do radar turco. A mensagem enviada à força aérea turca foi clara, diz o ex-conselheiro do estado-maior dos EUA: vamos voar quantas missões quisermos, onde quisermos e quando quisermos, e interferiremos no radar de vocês. Não se metam conosco. Putin mostrou aos turcos contra que forças lutavam." A ação russa levou a reclamações turcas e negativas russas, e a ações mais agressivas de patrulha na fronteira, pelos aviões turcos. Nada aconteceu de importante, até o dia 24 de novembro, quando dois jatos F-16 turcos, aparentemente obedecendo ordens mais agressivas, derrubaram um jato russo Su-24M que entrara em espaço aéreo turco por não mais de 17 segundos. Nos dias depois de o jato russo ser derrubado, Obama manifestou apoio a Erdoğan e, depois de os dois encontrarem-se privadamente dia 1º de dezembro, Obama disse numa conferência de imprensa que seu governo continuava "fortemente comprometido com a segurança e a soberania da Turquia." Disse que, enquanto a Rússia permanecesse aliada a Assad, "muitos alvos e recursos russos ainda serão alvo de grupos de oposição... que nós apoiamos... Assim sendo, não creio que devamos cultivar ilusões de que a Rússia comece a atirar exclusivamente contra alvos do EI. Não está acontecendo agora. Nunca aconteceu antes. Não acontecerá nas próximas várias semanas."

O conselheiro do Kremlin para o Oriente Médio, como os comandantes reunidos no estado-maior dos EUA e a Inteligência da Defesa, todos negam que haja coisa semelhante a "moderados" apoiados por Obama; para todos esses, só há grupos islamistas extremistas que lutam ao lado da Frente al-Nusra e do EI ("Não há necessidade desses jogos de palavras, e de separar terroristas em moderados e não moderados", disse Putin, em um discurso em 22 de outubro). Os generais americanos veem esses grupos como milícias exauridas que foram forçadas a acomodar-se ao lado da Frente al-Nusra ou do EI, para sobreviver. No final de 2014, Jürgen Todenhöfer, jornalista alemão que foi autorizado a visitar durante dez dias territórios ocupados pelo EI no Iraque e na Síria, disse à CNN que a liderança do EI "ri do Exército Sírio Livre. Não os levam a sério. Dizem: "os melhores vendedores de armas são eles, do ESL. Se encontram alguma arma boa, logo nos vendem.' Absolutamente não os levam a sério. Assad, sim, levam a sério, por causa das bombas. Mas o Exército Sírio Livre e nada, para eles, é a mesma coisa."

***

As bombas de Putin provocaram inúmeros artigos anti-Rússia na mídia americana. Em 25 de outubro, o New York Times noticiou, citando funcionários do governo Obama, que submarinos russos e naves espiãs estariam em "agressiva" operação próximos de onde há cabos submarinos que transportam grande parte do tráfego da internet mundial – embora, como o artigo logo reconhecia, "ainda não houvesse" qualquer prova de que os russos tentavam interferir no tal tráfego. Dez dias antes, o Times publicou quadro sintéticos de intrusões russas nas suas ex-repúblicas satélites soviéticas, e referiu-se aos bombardeios russos na Síria como "em alguns sentidos uma volta aos ambiciosos movimentos militares do passado soviético". A matéria não explicava que o governo Assad solicitou a ação russa, nem falava dos bombardeios de aviões americanos dentro de território sírio, já em andamento desde setembro anterior, com autorização do governo sírio. Em outubro, em coluna assinada no mesmo jornal, Michael McFaul, embaixador de Obama na Rússia entre 2012 e 2014, declarava que a campanha aérea russa atirava contra qualquer coisa, "menos o Estado Islâmico". E a campanha anti-Rússia nesses veículos não diminuiu nem depois da tragédia do avião Metrojet – cujos duvidosos méritos foram reivindicados pelo Estado Islâmico. Poucos no governo dos EUA e na indústria da mídia questionaram-se sobre por que o Estado Islâmico atiraria contra avião civil russo, para matar 224 passageiros mais a tripulação, dado que a força aérea russa estaria atacando exclusivamente os "moderados".

Sanções econômicas, por sua vez, continuam vigentes contra a Rússia como castigo por atos que muitos americanos veem como crimes de guerra de Putin na Ucrânia, além de sanções do Tesouro dos EUA contra a Síria e contra americanos que tenham negócios lá. O New York Times, em matéria sobre as sanções do final de novembro requentou uma notícia nunca confirmada, dizendo que as ações do Tesouro "enfatizam um argumento que o governo tem usado cada vez mais frequentemente contra o Sr. Assad, quando pressiona a Rússia para que deixe de apoiá-lo: que por mais que diga que estaria em guerra contra terroristas islamistas, ele mantém relação simbiótica com o Estado Islâmico que ficou livre para crescer e prosperar durante o tempo que Assad manteve-se agarrado ao poder."

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Os quatro elementos núcleo da política de Obama para a Síria permanecem intactos até hoje: a obcecada insistência em que Assad tem de sair; que nenhuma coalizão anti-EI é possível com a Rússia; que a Turquia seria aliado confiável na guerra contra o terrorismo; e que existem forças moderadas de oposição para receberem o apoio dos EUA. Nem os ataques em Paris dia 13 de novembro, que mataram 130 pessoas, abalaram a posição da Casa Branca de Obama, embora muitos líderes europeus, entre os quais François Hollande, tenham advogado a favor de maior cooperação com os russos e aceitaram coordenar-se mais de perto com a força aérea russa; também houve conversas sobre a necessidade de flexibilizar a data para que Assad deixe o governo da Síria. Em 24 de novembro Hollande foi a Washington para discutir como França e EUA poderiam colaborar mais intimamente na luta contra o Estado Islâmico. Em uma conferência de imprensa conjunta, na Casa Branca, Obama disse que ele e Hollande concordavam que "os ataques russos contra a oposição moderada só fortalecem o regime de Assad, cuja brutalidade estimulou o crescimento" do EI. Hollande não foi tão longe, mas disse que o processo diplomático em Viena levaria "à saída de Bashar al-Assad [e a um] necessário governo de unidade". A conferência de imprensa nem tocou no assunto muito mais urgente para os dois governantes: o caso Erdoğan. Obama defendia o direito da Turquia de defender as próprias fronteiras; Hollande disse que "foi questão de urgência" para a Turquia agir contra os terroristas. O ex-conselheiro do estado-maior contou-me que um dos principais objetivos de Hollande naquela viagem a Washington foi tentar convencer Obama a acompanhar a União Europeia numa declaração conjunta de guerra contra o Estado Islâmico. Obama disse não. Claramente os europeus não procuraram a OTAN, da qual a Turquia é membro, para a tal declaração de guerra. "A Turquia é o problema", disse o ex-conselheiro do estado-maior dos EUA.

Assad, naturalmente não aceita que um grupo de governantes estrangeiros ponham-se a decidir o futuro dele. Imad Moustapha, hoje embaixador da Síria na China, era reitor da Faculdade de Tecnologia da Informação na Universidade de Damasco, e assessor muito íntimo de Assad, quando foi nomeado embaixador da Síria nos EUA em 2004, posto que ocupou durante sete anos. Moustapha ainda é homem muito próximo de Assad e é fonte confiável como fonte sobre o que pensa o presidente da Síria. Imad Moustapha disse-me pessoalmente que, para Assad, deixar a presidência da Síria significaria capitular ante "grupos terroristas armados" e ministros num governo de unidade nacional – como os europeus propunham – seria vistos como prepostos das potências externas que os nomeassem. As mesmas potências que logo fariam ver ao novo 'presidente' que "poderiam substituí-lo no poder, com a rapidez com que o puseram lá... Assad deve isso ao povo sírio: não pode deixar o poder, porque quem exige sua saída são inimigos históricos da Síria."

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Moustapha também falou da China, aliada de Assad e que teria aplicado mais de $30 bilhões na reconstrução da Síria pós-guerra. A China também está preocupada com o Estado Islâmico. "A China considera a crise síria a partir de três pontos de vista", disse ele. "Do ponto de vista da lei internacional e da legitimidade; do posicionamento estratégico global; e da perspectiva dos jihadistas uigures, da província de Xinjiang no extremo oeste do país. Xinjiang tem fronteiras com oito nações: Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Afeganistão, Paquistão e Índia – e, do ponto de vista da China, serve como um funil para o terrorismo em todo o mundo e dentro da China. Muitos combatentes uigures hoje na Síria são conhecidos membros do Movimento Islamista do leste do Turquistão – organização separatista quase sempre violenta que luta para estabelecer um estado uigur islamista em Xinjiang. "O fato de terem sido ajudados pela inteligência turca a mudarem-se da China para a Síria atravessando a Turquia causou muita tensão entre chineses e turcos da inteligência", disse Moustapha. "A China preocupa-se com a possibilidade de o que os turcos fizeram, ao apoiarem os combatentes uigures na Síria possa ser ampliado no futuro, para apoiar a agenda da Turquia em Xinjiang. Também estamos provendo o serviço chinês de inteligência com informação relativa àqueles terroristas e as rotas pelas quais viajaram para entrar na Síria."

As preocupações de Moustapha são preocupações também de um analista de questões de política exterior com base em Washington e que acompanhou de perto a passagem de jihadistas através da Turquia para a Síria. Esse analista, cujos pareceres muitos altos funcionários do governo buscam com frequência contou-me que "Erdoğan está trazendo uigures para a Síria em transporte especial, ao mesmo tempo em que seu governo têm feito propaganda a favor da luta deles na China. Terroristas muçulmanos uigures e de Burma, que escapam para a Tailândia, conseguem, não se sabe como, passaportes turcos, e são levados de avião até a Turquia, de onde passam para a Síria." O mesmo analista acrescenta que havia também o que, na prática, pode ser definido como uma outra "linha do rato", para a passagem de uigures – estimados entre algumas centenas e muitos milhares ao longo dos anos – que saem da China para o Cazaquistão, com eventual desvio para a Turquia, e depois para os territórios do Estado Islâmico dentro da Síria. "A inteligência dos EUA", disse esse especialista, "não está obtendo informação de boa qualidade sobre essas atividades, porque os agentes insiders nada satisfeitos com a política, não estão falando com os americanos". Disse também que "não está claro" se os funcionários responsáveis pela política para a Síria no Departamento de Estado e na Casa Branca "compreendem" tudo isso. Anthony Davis, do blog IHS-Jane's Defence Weekly estimava em outubro que prováveis 5 mil futuros combatentes uigures teriam chegado à Turquia desde 2013, dos quais prováveis dois mil passaram para a Síria. Moustapha disse que tem informações de que "até 860 combatentes uigures estão atualmente na Síria."

A crescente preocupação da China sobre o problema uigur e sua conexão com a Síria e o Estado Islâmico é também preocupação de Christina Lin, especialista que se dedicou a questões chinesas, quando, há cerca de dez anos, trabalhou no Pentágono, sob ordens de Donald Rumsfeld. "Cresci em Taiwan e cheguei ao Pentágono como crítica anti-China", contou-me Lin. "Demonizava os chineses como ideólogos, e sei que não são perfeitos. Mas, com os anos, vi os chineses abrindo-se e evoluindo, e comecei a mudar minha perspectiva. Vejo a China como parceira potencial para vários desafios globais, especialmente no Oriente Médio. Há muitos lugares – a Síria, por exemplo –, nos quais EUA e China podem cooperar na segurança regional e no contraterrorismo". Há poucas semanas, disse ela, China e Índia, inimigos da Guerra Fria, que "se odiavam uma a outra mais do que China e EUA odeiam-se hoje, fizeram importantes manobras conjuntas de exercício de contraterrorismo. E hoje China e Rússia querem cooperar na luta contra o terrorismo, com os EUA". Do modo como a China vê as coisas, Lin sugere, militantes uigures que chegaram à Síria estão sendo treinados pelo EI em táticas de sobrevivência, orientadas para ajudá-los quando voltarem como clandestinos ao território chinês, para futuros ataques terroristas. "Se Assad fracassar", Lin escreveu em artigo publicado em setembro, "combatentes jihadistas da Chechênia russa, da Xinjiang chinesa e da Caxemira indiana voltarão os olhos para o front doméstico, para continuar a jihad, apoiados por uma nova e bem suprida base operacional síria no coração do Oriente Médio".

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O general Dempsey e seus colegas no estado-maior dos EUA mantiveram sua dissidência distante dos canais burocráticos, e sobreviveram no cargo. Mas não o general Michael Flynn. "Flynn incorreu na ira da Casa Branca, insistindo em contar a verdade sobre a Síria", disse Patrick Lang, coronel do exército aposentado, que serviu por quase uma década como oficial comandante da inteligência civil da Agência de Inteligência da Defesa, no Oriente Médio. "Flynn entendia que a verdade era a melhor solução, e acabaram com ele. Flynn simplesmente não parou de falar". Flynn contou-me que seus problemas iam bem além da Síria. "Eu estava chacoalhando toda a Agência de Inteligência da Defesa – não estava só mudando de lugar as cadeiras do deck do Titanic. Foi reforma radical. Achei que o comando civil não queria ouvir a verdade. Sofri por isso, mas estou OK com tudo que fiz." Numa entrevista recente à revista Der Spiegel, Flynn foi muito claro sobre a entrada da Rússia na guerra síria: "Temos de trabalhar construtivamente com a Rússia. Gostemos ou não, a Rússia tomou a decisão de intervir e de agir militarmente. Estão lá, e a ação dos russos mudou dramaticamente a dinâmica. Não adianta dizer que a Rússia é malvada; que eles têm de sair de lá. Nunca acontecerá assim. Todos precisam cair na real."

Poucos, no Congresso dos EUA partilham esse ponto de vista. Mas uma exceção é Tulsi Gabbard, deputada Democrata pelo Havaí, nascida em Samoa, membro da Comissão das Forças Armadas da Câmara de Representantes, e major da Guarda Nacional do Exército, com dois períodos de serviço no Oriente Médio. Em entrevista à rede CNN em outubro, ela disse: "Os EUA e a CIA devem parar esta guerra ilegal e contraproducente para derrubar o governo sírio de Assad e devem manter o foco em lutar contra ... os grupos extremistas islâmicos."

"A senhora não se incomoda", perguntou o entrevistador, "que o regime de Assad seja brutal, que tenha assassinado 200 mil, talvez 300 mil de seu próprio povo?"

"As coisas que se dizem por aí sobre Assad", Gabbard respondeu, são exatamente as mesmas que diziam sobre Saddam Hussein as pessoas que pregavam que os EUA derrubassem aqueles regimes. Se acontecer aqui na Síria... acabaremos em uma situação de muito mais sofrimento, de muito mais feroz perseguição contra minorias religiosas e contra cristãos na Síria, e nosso inimigo estará muito mais forte".

"O que a senhora está dizendo", perguntou o entrevistador, "é que, com o envolvimento militar russo pelo ar, e dos iranianos por terra – eles estão fazendo um favor aos EUA?"

"Eles estão trabalhando para derrotar nosso inimigo comum", Gabbard respondeu.

Gabbard contou-me depois que muitos dos colegas dela no Congresso, Democratas e Republicanos, lhe agradeceram, privadamente, por ela ter falado. "Há muita gente, entre o público em geral, e também no Congresso, que precisa ouvir as coisas claramente explicadas de modo que entendam o que realmente se passa", disse Gabbard. "Mas é difícil quando há tal quantidade de mentiras e falsidades sobre o que acontece. A verdade não está incluída nas discussões." É raro que um político manifeste diretamente opinião tão absolutamente divergente da de seu partido em questões de política exterior, e em declarações para o grande público. Para o público interno, com acesso à inteligência mais altamente secreta, falar abertamente e criticamente é encurtar muito a própria carreira. Dissidência fundamentada pode ser encaminhada através de um jornalista e os de dentro, mas quase invariavelmente não inclui nomes e identificação. Mas, seja como for, a dissidência existe. Aquele ex-assessor do comando do estado-maior das forças militares conjuntas dos EUA não conseguiu esconder o desânimo quando lhe perguntei sobre sua opinião da política dos EUA para a Síria. "A solução para a Síria está bem aí diante do nosso nariz", disse ele. "Nossa principal ameaça é o Estado Islâmico e todos nós, EUA, Rússia e China – temos de trabalhar juntos. Bashar continuará na presidência e, mais tarde, quando o país estiver estabilizado, haverá eleições. Não há outra possibilidade."

A via indireta que ainda havia até Assad desapareceu quando Dempsey aposentou-se em setembro. Seu substituto no comando do estado-maior dos EUA, general Joseph Dunford, foi sabatinado na Comissão de Serviços Armados do Senado, em julho, dois meses antes de assumir o posto. "Se querem falar de nação que impõe ameaça existencial aos EUA, tenho de falar da Rússia", disse Dunford. "Se se examina o comportamento dos russos, é nada menos que alarmante." Em outubro, já como comandante do estado-maior, Dunford ridicularizou os esforços russos na Síria e disse àquela mesma comissão, que a Rússia "não está lutando contra o Estado Islâmico". Acrescentou que os EUA "têm de trabalhar com os parceiros turcos para proteger a fronteira norte da Síria" e "fazer tudo que pudermos para capacitar forças selecionadas da oposição síria" – i.e. os "moderados" – para que eles combatam os extremistas.

Implica dizer que Obama agora conta com Pentágono muito mais obediente. Não haverá contestação ou desafio indireto pelas lideranças militares à política obamista de desdenhar Assad e apoiar Erdoğan. Dempsey e seus associados continuam hipnotizados pela incansável defesa pública que Obama garante a Erdoğan, apesar do muito que a inteligência dos EUA teria a dizer sobre ele, mesmo que, no privado, acredite. "Nós sabemos o que você está fazendo com os radicais na Síria", disse Obama ao chefe da inteligência de Erdoğan, numa reunião tensa na Casa Branca (como relatei na LRB de 17/4/2014). O alto comando do estado-maior dos EUA e a Agência de Inteligência da Defesa nunca se cansaram de informar a liderança em Washington sobre a ameaça que são os jihadistas na Síria e sobre o apoio que a Turquia lhes dá. A mensagem nunca foi ouvida. Por quê?

21 de maio de 2015

O assassinato de Osama bin Laden

Será que Bin Laden, alvo de uma enorme caçada internacional, realmente decidiria que uma cidade turística a 64 quilômetros de Islamabad seria o lugar mais seguro para se viver?

Seymour M. Hersh

London Review of Books


Tradução / Passaram quatro anos desde que um grupo de operações especiais da Marinha dos EUA assassinou Osama bin Laden num assalto noturno a um complexo de altas paredes em Abbottabad, no Paquistão. O assassinato constituiu o ponto alto do primeiro mandato de Obama e foi um fator preponderante na sua reeleição. A Casa Branca ainda afirma que a missão foi inteiramente levada a cabo pelos EUA, e que as altas patentes do exército paquistanês e a agência dos Serviços de Informação (ISI) não foram informados da incursão antecipadamente. Isto é falso, como são também muitos outros elementos do relato da administração Obama. A versão da Casa Branca poderia ter sido escrita por Lewis Carroll: poderia bin Laden, alvo de uma massiva caça ao homem a nível internacional, decidir realmente que uma estância a 60 km de Islamabad seria o local mais seguro para viver e comandar as operações da al-Qaida? Escondia-se num sítio onde poderia ser visto. Isto foi o que disseram os EUA.

A mais flagrante mentira foi a afirmação de que as duas mais altas patentes militares do Paquistão, o General Ashfaq Parvez Kayani, chefe do exército, e o General Ahmed Shuja Pasha, diretor geral do ISI, nunca foram informados da missão. Esta continua a ser a posição da Casa Branca, apesar de um rol de relatórios que levantaram questões, incluindo o de Carlotta Gall, publicado no New York Times Magazine de 19 de março de 2014. Gall, que foi durante 12 anos correspondente do Times no Afeganistão, escreveu que lhe fora dito por um “funcionário paquistanês” que Pasha conhecera antes da incursão, que bin Laden estava em Abbottabad. A história foi desmentida por funcionários dos EUA e do Paquistão e ficou por ali. No seu livro Paquistão: Antes e Depois de Osama (2012), Imtiaz Gul, diretor executivo do Centre for Research and Security Studies, um grupo de reflexão em Islamabad, escreveu que falara com quatro agentes secretos de informações que (refletindo uma visão local muito difundida) asseveraram que os militares paquistaneses deveriam com certeza estar ao corrente da operação. O assunto foi trazido novamente em fevereiro, quando um general na reforma, Assad Durrani, que foi chefe do ISI no princípio dos anos 1990, disse a um repórter da al-Jazeera que era “bem possível” que as altas patentes do ISI não soubessem onde bin Laden se escondia, “mas era mais provável que soubessem. E a ideia era que, na altura certa, a sua localização seria revelada. E a altura certa seria quando se conseguisse o necessário quid pro quo; se deténs em teu poder alguém como Osama bin Laden, não vais simplesmente entregá-lo aos EUA.”

Nesta Primavera, contactei Durrani e disse-lhe, em pormenor, o que soubera sobre o assalto, de fontes norte-americanas: que bin Laden fora prisioneiro do ISI no complexo de Abbottabad desde 2006; que Kayani e Pasha haviam sabido da incursão antecipadamente e haviam-se certificado de que os dois helicópteros que traziam os SEALs a Abbottabad poderiam atravessar o espaço aéreo do Paquistão sem despoletar alarmes; de que a CIA não soubera da localização de bin Laden interceptando o seu correio, o que a Casa Branca afirma desde 2011, mas através de um antigo agente de informação paquistanês que revelou o segredo em troca de grande parte dos 25 milhões de dólares oferecidos pelos EUA, e que, enquanto Obama deu ordens para o assalto e os SEALs o levaram a cabo, muitos outros aspectos da versão da administração Obama eram falsos.

“Quando a sua versão for publicada, se decidir fazê-lo, as pessoas no Paquistão ficarão tremendamente gratas”, disse-me Durrani. “Há muito tempo que as pessoas deixaram de confiar no que se publica sobre bin Laden vindo das fontes oficiais. Haverá comentário político negativo e algum ressentimento, mas as pessoas gostam que a verdade lhes seja dita, e o que me disse é essencialmente o que tenho ouvido de antigos colegas que estão numa missão para descobrir os fatos desde que ocorreu este episódio.” Enquanto antigo chefe do ISI, afirmou, fora-lhe dito, pouco depois do assalto, por “pessoas na ‘comunidade estratégica’ que deveriam saber” que houvera um informador que alertara os EUA da presença de bin Laden em Abbottabad, e que depois do seu assassinato as promessas incumpridas dos EUA deixaram Kayani e Pasha a descoberto.

A principal fonte norte-americana para o relato que se segue é um funcionário dos serviços de informação na reforma que tinha conhecimento da informação inicial de que bin Laden estaria em Abbottabad. Também ele foi muito reservado em relação a muitos aspectos do treino dos SEALs para o assalto e a vários relatos posteriores. Duas outras fontes dos EUA, com acesso a informação que confirmava o que aqui é avançado, são de há muito consultores do Comando de Operações Especiais. Também recebi informação do Paquistão sobre o desagrado generalizado entre as altas patentes do ISI e os chefes militares (de que Durrani mais tarde fez eco) por causa da decisão de Obama de trazer a público imediatamente notícias sobre a morte de bin Laden. A Casa Branca não respondeu a pedidos de comentário.

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Tudo começou com uma denúncia. Em agosto de 2010, um antigo agente dos serviços de informação do Paquistão abordou Jonathan Bank, então chefe do departamento da CIA na embaixada dos EUA em Islamabad. Ofereceu-se para dizer à CIA onde poderia encontrar bin Laden, em troca da recompensa que Washington oferecera em 2001. Geralmente, a CIA não confia nestas denúncias, e a resposta da agência foi enviar por avião uma equipe com um polígrafo. O denunciante passou no teste. Segundo o agente de informações norte-americano reformado, a preocupação da CIA na altura foi: “Portanto agora temos uma história que diz que bin Laden está a viver num complexo em Abbottabad, mas como haveremos realmente de saber de quem se trata?”

Os EUA inicialmente mantiveram o que sabiam dos paquistaneses. “O receio era que, caso a existência da fonte fosse conhecida, os próprios paquistaneses mudariam bin Laden para outra localização. Portanto apenas um pequeno número de pessoas ficou a conhecer a fonte e a sua história”, afirmou o agente. “O primeiro objetivo da CIA era verificar a qualidade da informação”. O complexo foi posto sob vigilância de satélite. A CIA alugou uma casa em Abbottabad para usar como base de observação avançada e aí colocou funcionários paquistaneses e cidadãos estrangeiros. Depois, a base serviria de ponto de contato com o ISI; atraiu pouca atenção porque Abbottabad é uma cidade de veraneio cheia de casas para locações de curto prazo. Foi preparado um perfil psicológico do informador. (O informador e a sua família foram retirados do Paquistão e colocados na área de Washington. É agora consultor da CIA.)

“Em outubro, a comunidade militar e dos serviços de informação discutiam as possíveis opções militares. Bombardeamos o complexo, ou tiramo-lo dali com um ataque de drones? Talvez enviar alguém para o assassinar, um único assassino? Mas assim não teremos provas”, afirmou o agente. “Podemos ver que alguém se movimenta de noite, mas não podemos interceptar ninguém, não detectamos movimentos suspeitos.”

Em outubro, Obama recebeu notícias dos serviços de informação. A sua resposta foi cautelosa, disse o agente na reforma: "Não faz sentido a informação de que bin Laden estava a viver em Abbottabad. Era de loucos. O Presidente foi claro: 'Não me falem mais disto a não ser que tenham provas de que é realmente bin Laden.'" O objetivo imediato do comando da CIA e do Comando de Operações Especiais era obter o apoio de Obama. Pensavam obter este apoio se tivessem a prova do DNA, e se pudessem assegurá-lo de que um assalto noturno ao complexo não traria riscos. A única maneira de conseguir estas duas coisas, disse o agente, “era envolver os paquistaneses”.

No final do outono de 2010, os EUA mantiveram silêncio sobre a denúncia, e Kayani e Pasha continuaram a insistir junto das suas contrapartes norte-americanas que não tinham informação sobre o paradeiro de bin Laden. “O próximo passo seria arranjar uma maneira de envolver Kayani e Pasha; dizer-lhes que temos informação que mostra que há um alvo de grande importância no complexo e perguntar-lhes o que sabem sobre ele”, disse o agente. “O complexo não era um enclave armado; não havia metralhadoras, porque estava sob controle do ISI”. O informador tinha dito aos EUA que bin Laden vivera sem ser detectado desde 2001 a 2006 com algumas das suas mulheres e filhos nas montanhas Hindu Kush, e que o “ISI chegou até ele pagando a pessoas da tribo local para o traírem”. (Relatórios posteriores ao assalto situavam-no noutros locais do Paquistão durante este período.) Bank foi também avisado pelo informador de que bin Laden estava muito doente e que, no princípio do seu confinamento em Abbottabad, o ISI mandara Amir Aziz, médico e major no exército do Paquistão, para ir até lá para providenciar tratamento. “A verdade é que bin Laden era um inválido, mas não podemos dizer isso’, referiu o agente na reforma. “‘Quer dizer que vocês alvejaram um aleijado? Que se preparava para pegar na sua AK-47?’”

“Não demorou muito para conseguir a cooperação que queríamos, porque os paquistaneses queriam garantir a entrega contínua de ajuda militar norte-americana, da qual uma boa percentagem era financiamento antiterrorismo que paga a segurança pessoal, como limusines à prova de bala e seguranças privados e casas para os chefes do ISI”, disse o agente. Acrescentou que também houve “incentivos” pessoais por baixo da mesa pagos por fundos de contingência do Pentágono, não registados. “A comunidade de informação conhecia o ponto em que tinha de haver acordo dos paquistaneses – era esse o isco. E eles morderam-no. Ambos os lados ficariam a ganhar. Também fizemos um pouco de chantagem. Dissemos-lhes que revelaríamos a notícia de que eles tinham bin Laden perto de si. Sabemos quem são os seus amigos e inimigos”; os Talibã e os grupos jihadistas no Paquistão e no Afeganistão “não iriam gostar”.

Um fator de preocupação nesta fase inicial, de acordo com o agente, era a Arábia Saudita, que havia financiado bin Laden desde a sua ruptura com os paquistaneses. “Os sauditas não queriam que a sua presença nos fosse revelada porque ele era saudita, e portanto disseram-lhes para o manterem fora da jogada. Os sauditas receavam que, caso soubéssemos, faríamos pressão sobre os paquistaneses para deixar bin Laden dizer-nos o que os sauditas haviam feito com a al-Qaeda. E deram dinheiro. Muito. Os paquistaneses, por seu turno, estavam preocupados com a possibilidade dos sauditas denunciarem o fato de eles terem bin Laden em seu poder. O receio era de que, caso os EUA soubessem de bin Laden através de Riade, fosse um pandemônio. Saberem da prisão de bin Laden a partir de um informador não foi o pior dos cenários.”

Apesar da oposição constante em público, os exércitos e serviços de informação norte-americano e paquistanês trabalharam juntos e em proximidade durante décadas, em contraterrorismo, no Sul da Ásia. É útil para ambos os serviços a oposição em público, para “protegerem o couro”, como referiu o agente, mas partilham constantemente informação usada para os ataques com drones, e colaboram em operações secretas. Por outro lado, Washington sabe que há elementos do ISI que acreditam que manter uma relação com a liderança talibã é essencial para a segurança nacional. O objetivo estratégico do ISI é equilibrar a influência indiana em Cabul. Os talibã são também vistos no Paquistão como fonte de tropas de choque jihadistas que apoiariam o Paquistão contra a Índia num confronto por Cachemira.

A juntar a esta tensão, estava o arsenal nuclear paquistanês, muitas vezes representado na imprensa ocidental como uma “bomba islâmica”, que poderia ser transferida pelo Paquistão para um país em guerra no Oriente Médio se acontecesse uma crise com Israel. Os EUA olharam para o lado quando o Paquistão começou a construir o seu armamento nos anos 1970 e acredita-se agora em Washington que a segurança dos EUA depende de manter fortes laços militares e de troca de informação com o Paquistão. Esta crença é partilhada com o Paquistão.

“O exército paquistanês vê-se a si mesmo como uma família”, disse o agente reformado. “Os oficiais chamam aos soldados filhos e todos os oficiais são ‘irmãos’. A atitude é diferente no exército norte-americano. As altas patentes paquistanesas acreditam que são uma elite e tem de ter cuidado com todos, enquanto guardiães da chama contra o fundamentalismo islâmico. Os paquistaneses também sabem que o seu trunfo contra a agressão indiana é uma forte relação com os EUA. Nunca irão eliminar os seus laços interpessoais connosco.”

Como todos os chefes de base da CIA, Bank trabalhava em segredo, mas isso acabou no começo de dezembro de 2010, quando foi publicamente acusado de assassinato, numa queixa criminal feita em Islamabad por Karim Khan, jornalista paquistanês cujo filho e irmão, de acordo com notícias locais, foram mortos por um ataque com drones. Permitir que Bank fosse nomeado constituiu uma violação do protocolo diplomático por parte das autoridades paquistanesas e provocou uma onda de publicidade indesejada. Bank recebeu ordens da CIA para abandonar o Paquistão e os agentes da CIA subsequentemente disseram à Associated Press que ele fora transferido por preocupações pela sua segurança. O New York Times relatou que havia a “forte suspeita” de que o ISI desempenhara um papel ao revelar o nome de Bank a Khan. Houve suspeita de que ele fora excluído como pagamento para publicação, numa ação legal, em Nova Iorque, um mês antes, dos nomes dos chefes do ISI em ligação com os ataques terroristas de Mumbai em 2008. Mas houve uma razão colateral, refere o nosso agente, para a CIA querer enviar Bank de regresso aos EUA. Os paquistaneses precisavam de apoio caso a sua cooperação com os norte-americanos para se livrarem de bin Laden se tornasse conhecida. Os paquistaneses poderiam dizer: “Falam de mim? Acabamos de bater no vosso chefe de estação.”

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O complexo de bin Laden ficava a menos de três quilômetros da Academia Militar do Paquistão, e havia uma base de um batalhão de combate do exército paquistanês a cerca de um quilômetro de distância. Abbottabad fica a menos de 15 minutos de helicóptero de Tarbela Ghazi, uma base importante para operações secretas e a instalação onde os homens que vigiam o arsenal nuclear paquistanês são treinados. “Ghazi é a razão pela qual o ISI pôs bin Laden em Abbottabad”, refere o agente aposentado, “para estar sob vigilância constante.”

O risco era alto para Obama nesta fase inicial, especialmente porque havia um precedente problemático: a tentativa fracassado de resgatar os reféns norte-americanos em Teerã, em 1980. Essa falha representou um fator na derrota de Jimmy Carter para Ronald Reagan. As preocupações de Obama eram realistas, referiu o agente. “Bin Laden esteve alguma vez ali? Seria toda a história uma mentira dos paquistaneses? Quais seriam as implicações políticas deste fracasso?” Afinal de contas, como referiu o agente, “se a missão falhar, Obama será apenas um Jimmy Carter negro, adeus reeleição.”

Obama estava ansioso pela confirmação de que os EUA conseguiriam o homem certo. A prova seria o DNA de bin Laden. Os autores do plano pediram ajuda a Kayani e Pasha, que pediram a Aziz para obter as amostras. Pouco depois do assalto, a imprensa descobriu que Aziz vivera numa casa próximo do complexo de bin Laden: repórteres locais descobriram o seu nome em Urdu numa placa na porta. Funcionários paquistaneses negaram qualquer ligação de Aziz a bin Laden, mas o agente aposentado disse-me que Aziz fora recompensado com uma parte dos 25 milhões de dólares de recompensa dos EUA, porque a amostra de DNA foi conclusiva, era mesmo bin Laden quem estava em Abbottabad (no seu testemunho subsequente a uma comissão paquistanesa que investigava o assalto a bin Laden, Aziz afirmou que testemunhara o ataque a Abbottabad, mas não tivera conhecimento de quem estava a viver no complexo, e que lhe fora ordenado por um superior que se mantivesse afastado da cena).

Continuaram as negociações sobre o modo como a missão seria conduzida. “Kayani acabou por nos dizer que sim, mas afirma que não podem usar uma grande força de ataque. Têm que vir à bruta. E tem de O matar, senão não há acordo”, referiu o agente. O acordo foi selado por fins de janeiro de 2011, e o Comando de Operações Especiais Conjuntas preparou uma lista de perguntas para os paquistaneses responderem: “Como poderemos ter a certeza de que não há intervenções externas? Quais são as defesas dentro do complexo e quais as suas dimensões? Onde são os quartos de bin Laden e quais são exatamente as suas dimensões? Quantos degraus tem a escada? Onde se localizam as portas dos seus quartos? São reforçadas com ferro? Qual a espessura?” Os paquistaneses concordaram em formar uma célula de quatro homens, norte-americanos, um membro dos SEAL, um diretor de casos da CIA e dois especialistas em comunicações, para estabelecer um gabinete de ligação em Tarbela Ghazi para o assalto. Nesse momento, o exército construíra um modelo do complexo em Abbottabad num antigo lugar de testes nucleares no Nevada, e uma equipa de elite dos SEAL começara a ensaiar para o ataque.

Os EUA haviam começado a cortar nos apoios ao Paquistão; a fechar a torneira, nas palavras do nosso agente. A provisão de 18 novos caças F-16 foi atrasada e os pagamentos em dinheiro por baixo da mesa aos líderes de topo foram suspensos. Em abril de 2011, Pasha reuniu-se com o diretor da CIA, Leon Panetta, na sede da agência. “Pasha obteve um compromisso de que os EUA retomariam os pagamentos, e nós obtivemos uma garantia de que não haveria oposição por parte do Paquistão durante a missão”, referiu o agente. “Pasha também insistiu para que Washington parasse de acusar a falta de cooperação do Paquistão na guerra norte-americana contra o terrorismo.” Numa altura dessa Primavera, Pasha deu aos norte-americanos uma explicação cabal da razão pela qual o Paquistão mantinha em segredo a captura de bin Laden, e por que razão era imperativo que o papel do ISI permanecesse um segredo: “precisávamos de um refém para manter o controle sobre a al-Qaida e os Talibã”, referiu Pasha, de acordo com o agente. “O ISI estava a usar bin Laden como alavanca contra atividades dos Talibã e da al-Qaida dentro do Afeganistão e Paquistão. Deixaram os líderes dos Talibã e da al-Qaida saber que, caso levassem a cabo operações que colidissem com os interesses do ISI, entregariam bin Laden aos EUA. Assim, se se soubesse que os paquistaneses haviam trabalhado connosco para apanhar bin Laden em Abbottabad, teríamos sérios problemas”.

Numa das suas reuniões com Panetta, de acordo com o agente aposentado e uma fonte da CIA, um alto funcionário desta agência perguntou a Pasha se ele se veria a si mesmo agindo essencialmente como agente a trabalhar para a al-Qaida e os Talibã. “Ele respondeu que não, mas disse que o ISI precisaria de ter algum controle”. Esta mensagem, como a CIA a viu, de acordo com o agente aposentado, significava que Kayani e Pasha viam bin Laden “como um recurso, e estavam mais interessados na sua [própria] sobrevivência do que estavam nos EUA”.

Um paquistanês com ligações próximas com os líderes do ISI disse-me que “havia um acordo com as vossas altas patentes. Estávamos muito relutantes, mas tinha de ser feito; não devido a enriquecimento pessoal, mas porque todos os programas de ajuda norte-americana seriam cortados. Os vossos disseram-nos que nos fariam passar fome se não cumpríssemos, e o OK foi dado quando Pasha esteve em Washington. O acordo era não apenas para manter os pagamentos, mas também foi dito a Pasha que haveria mais recompensas para nós.” Os paquistaneses disseram que a visita de Pasha também resultou num compromisso dos EUA de dar ao Paquistão mais liberdade no Afeganistão, à medida que este começou a reduzir o seu armamento aqui. “E assim as nossas altas patentes justificaram o acordo dizendo isto é pelo nosso país.”

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Pasha e Kayani foram responsáveis por garantir que o exército paquistanês e comando de defesa aérea não seguiriam ou interfeririam com os helicópteros norte-americanos utilizados na missão. A célula norte-americana em Tarbela Ghazi foi encarregada da coordenação das comunicações entre o ISI, as altas patentes dos EUA e o seu posto de comando no Afeganistão, e os dois helicópteros Black Hawk; o objetivo era garantir que nenhum caça paquistanês na patrulha de fronteira interceptasse os invasores e entrasse em ação para os parar. O plano inicial dizia que as notícias do assalto não deveriam ser logo divulgadas. Todas as unidades no Comando de Operações Especiais operam sob estrita confidencialidade e a sua liderança acreditava, como Kayani e Pasha, que o assassinato de bin Laden não seria tornado público durante cerca de sete dias, ou talvez mais. Nessa altura, seria lançada uma notícia de primeira página fabricada: Obama anunciaria que a análise do DNA confirmara que bin Laden fora morto num assalto com drones em Hindu Kush, no lado afegão da fronteira. Os norte-americanos que haviam planejado a missão asseguraram Kayani e Pasha que a sua cooperação nunca viria a público. Foi compreendido por todas as partes que, caso o papel do Paquistão fosse conhecido, haveria protestos violentos; bin Laden era considerado um herói por muitos paquistaneses, e Pasha, Kayani e as suas famílias correriam perigo, e o exército paquistanês cairia em desgraça.

Era claro para todos neste momento, referiu o agente aposentado, que bin Laden não sobreviveria: “Pasha disse-nos num encontro em abril que não poderia arriscar deixar bin Laden no complexo quando já se sabia que ele ali estava. Demasiadas pessoas na cadeia de comando do Paquistão têm conhecimento da missão. Ele e Kayani tiveram de contar toda a história aos diretores do comando de defesa aérea e alguns comandantes locais.”

“Claro que eles sabiam que o alvo era bin Laden e que ele estava sob controle do Paquistão”, disse o agente aposentado. “De outro modo, não teriam levado a cabo a missão sem apoio aéreo. Foi clara e inequivocamente um assassinato premeditado”. Um antigo comandante dos SEAL, que dirigiu e participou em dezenas de missões similares na última década, assegurou-me que “não iam manter bin Laden vivo; não permitiriam ao terrorista viver. De acordo com a lei, sabemos que o que estamos a fazer dentro do Paquistão é um homicídio. Aceitamos isso. Cada um de nós, quando levamos a cabo estas missões, diz a si mesmo: ‘vamos encarar a realidade, isto é um assassinato’”. O relato inicial da Casa Branca dizia que bin Laden exibira uma arma; a história tinha como público-alvo aqueles que questionavam a legalidade do programa da administração dos EUA que visava assassinar bin Laden. Os EUA mantêm, apesar dos relatos amplamente difundidos das pessoas envolvidas na missão, que bin Laden teria sido capturado vivo, se se tivesse rendido imediatamente.

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No complexo de Abbottabad os guardas do ISI vigiavam bin Laden e as suas mulheres e crianças 24 horas por dia. Tinham ordens para abandonar o local logo que ouvissem os helicópteros dos EUA. A cidade estava escura; a eletricidade tinha sido cortada sob ordens do ISI horas antes de o assalto começar. Um dos Black Hawk embateu numa das paredes dentro do complexo, ferindo vários elementos a bordo. “Eles sabiam que o tempo de que dispunham para a operação era curto, porque acordariam a cidade inteira no assalto”, referiu o agente aposentado. A cabine do Black Hawk acidentado, com o seu equipamento de comunicação e navegação, tinha de ser destruída por granadas de concussão, e isto criaria uma série de explosões e um incêndio visível por quilômetros. Dois helicópteros Chinook voaram desde o Afeganistão até uma base paquistanesa de informações próxima, para apoio logístico, e um deles foi imediatamente enviado para Abbottabad. Mas, porque o helicóptero fora equipado com um depósito com combustível extra para os dois Black Hawk, teve primeiro que ser reconfigurado como transportador das tropas. O acidente com o Black Hawk e a necessidade de arranjar um substituto representaram revezes que consumiram tempo e provocaram desgaste emocional, mas os SEAL continuaram a sua missão. Não houve combate aéreo quando chegaram ao complexo; os guardas do ISI tinham partido. “Toda a gente no Paquistão que tem uma posição de relevo tem uma arma, tipos ricos como aqueles que vivem em Abbottabad têm guarda-costas armados, e no entanto não havia armas no complexo”, apontou o agente aposentado. Se tivesse havido alguma oposição a equipe teria ficado muito vulnerável. Em vez disso, referiu o nosso agente, o funcionário conectado com o ISI que voava com os SEALs levou-os à casa escurecida e, subindo umas escadas, à base onde estava bin Laden. Os SEAL haviam sido avisados pelos paquistaneses que havia portas pesadas de ferro a bloquear o acesso às escadas nos patamares do primeiro e segundo andar; os quartos de bin Laden eram no terceiro andar. O esquadrão dos SEAL usou explosivos para abrir as portas, sem magoar ninguém. Uma das mulheres de bin Laden gritava histericamente, e uma bala, talvez uma bala perdida, atingiu-a num joelho. Para além daquelas que atingiram bin Laden, não se dispararam mais (a administração Obama tem outra versão).

“Eles sabiam onde estava o alvo; terceiro andar, segunda porta à direita”, referiu o agente. “Foram lá diretos. Osama estava escondido no quarto. Dois atiradores seguiram-no e abriram fogo. Muito simples, sem obstáculos, muito profissional.” Alguns dos SEAL mostraram-se mais tarde indignados perante a insistência inicial da Casa Branca de que teriam assassinado bin Laden em legítima defesa, referiu o agente. “Seis dos melhores e mais experientes oficiais dos SEAL, face a um civil desarmado teriam de o assassinar em legítima defesa? A casa era frágil e bin Laden vivia numa cela com barras na janela e arame farpado no telhado. As regras de empenhamento diziam que, caso bin Laden oferecesse alguma resistência, estavam autorizados a atirar para matar. Mas, caso suspeitassem que ele poderia ter qualquer espécie de arma escondida, como explosivos por baixo da roupa, também poderiam matá-lo. Portanto, ele aparece numas vestes misteriosas e eles atingem-no. Não que ele estivesse à procura duma arma. As regras davam-lhes absoluta legitimidade para assassinarem o caras.” A versão posterior da Casa Branca, de que apenas uma ou duas balas lhe acertaram na cabeça era “uma besteira”, referiu o agente. “O esquadrão entrou pela porta e perfurou-o. Como dizem os SEAL, ‘limpamos-lhe o sebo.’”

Depois de matarem bin Laden, “os SEAL ficaram ali, alguns com ferimentos do acidente, à espera do helicóptero de socorro”, referiu o agente. “Vinte minutos de tensão. O Black Hawk ainda a arder. Não há luzes na cidade. Não há eletricidade. Não há polícia. Não há carros dos bombeiros. Não têm prisioneiros.” As mulheres e os filhos de bin Laden foram entregues ao ISI para interrogatório e para serem realojados. “Apesar de tudo o que se dizia”, menciona o agente, não havia “sacos de lixo cheios de computadores e dispositivos de armazenamento. Os caras encheram as mochilas com livros e papeis que encontraram no seu quarto. Os SEAL não estavam lá porque pensaram que bin Laden estava à frente dum centro de comando para as operações da al-Qaida, como diria mais tarde a Casa Branca à mídia. E não havia naquela casa especialistas a reunir informação.”

Numa missão normal de assalto, refere o agente, não se esperaria caso um helicóptero fosse abatido. “Os SEAL teriam terminado a missão, guardado as armas e material, corrido para o Black Hawk que restava e đi đi mau (gíria vietnamita para sair com pressa) de lá, com caras pendurados nas portas. Não teriam explodido o helicóptero. Nenhum equipamento vale uma dezena de vidas. A não ser que soubessem que estavam a salvo. Em vez disso, ficaram por ali, no exterior do complexo, à espera que chegasse a camioneta.” Pasha e Kayani tinham cumprido as promessas.

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A discussão no interior da Casa Branca começou assim que se tornou claro que a missão tinha tido sucesso. O corpo de bin Laden estaria supostamente a caminho do Afeganistão. Deveria Obama manter o acordo com Kayani e Pasha e pretender, cerca de uma semana mais tarde, que bin Laden fora morto num ataque com drones nas montanhas, ou deveria falar ao público imediatamente? O helicóptero abatido facilitou a vida aos conselheiros políticos de Obama para apressarem a segunda opção. A explosão e bola de fogo seriam impossíveis de esconder, e seria provável haver uma fuga de informação. Obama tinha de “adiantar-se em relação à história”, antes que alguém no Pentágono o fizesse; esperar diminuiria o impacto político.

Nem todos estavam de acordo. Robert Gates, secretário da defesa, foi o que mais falou, de quantos insistiram que os acordos com o Paquistão tinham de ser cumpridos. No seu livro de memórias, Duty, Gates não disfarçou a sua revolta:

Antes de a informação vir a público, antes do Presidente subir as escadas para dizer ao público norte-americano o que tinha acontecido, relembrei a todos que as técnicas, táticas e procedimentos que os SEAL tinham utilizado na operação bin Laden, eram utilizadas todas as noites no Afeganistão... era, portanto, essencial, que concordássemos em não revelar quaisquer pormenores do assalto. Só precisamos dizer que o matamos. Todos naquela sala concordaram em não revelar detalhes. Esse compromisso durou cinco horas. As primeiras fugas de informação vieram da Casa Branca e da CIA. Não podiam esperar para começar a dar nas vistas e a reclamar mérito. Os fatos estavam muitas vezes errados... De qualquer modo, a informação continuou a vir cá para fora. Fiquei furioso e às tantas disse a Donilon [Tom Donilon, conselheiro para a segurança nacional], "Porque raio é que não estão calados?" Mas foi em vão.

O discurso de Obama foi escrito às pressas, referiu o agente, e foi encarado pelos seus conselheiros como um documento político, não uma mensagem que precisava de ser submetida para aprovação à burocracia da segurança nacional. Esta série de declarações de interesse próprio e inexatas iriam criar o caos nas semanas seguintes. Obama afirmou que a sua administração descobrira que bin Laden estava no Paquistão através de uma “possível fuga de informação” em agosto passado; para muitos na CIA, a declaração sugeria um acontecimento específico, por exemplo, uma denúncia. Esta nota levou a uma reportagem de capa afirmando que os brilhantes analistas da CIA haviam desmascarado uma rede que lidava com o fluxo de comandos operacionais de bin Laden para a al Qaida. Obama também elogiou “uma pequena equipe de norte-americanos” pela sua preocupação em evitar mortes de civis e disse: “Depois de um tiroteio, mataram bin Laden e mantiveram consigo o cadáver.” Mais dois detalhes tinham de ser fornecidos para a reportagem: a descrição do tiroteio que nunca aconteceu e uma história sobre o que aconteceu ao cadáver. Obama prosseguiu elogiando os paquistaneses: “é importante notar que a nossa cooperação com o Paquistão na luta contra o terrorismo ajudou a levar-nos até bin Laden e ao complexo onde ele se escondia.” Esta afirmação trouxe o risco de expor Kayani e Pasha. A solução da Casa Branca foi ignorar o que Obama dissera e dar ordens a quem falasse com a imprensa para insistir que os paquistaneses não haviam desempenhado nenhum papel no assassínio de bin Laden. Obama deixou a impressão clara de que ele e os seus conselheiros não haviam tido a certeza de que bin Laden estivera em Abbottabad, mas apenas haviam tido informação “acerca da possibilidade”. Isto levou, em primeiro lugar, à história de que os SEAL tinham concluído que haviam assassinado o homem certo, pondo um homem de 1,80 m ao lado do cadáver para comparar (sabia-se bin Laden tinha cerca de um 1,90 m); e depois afirmar que um teste de DNA fora feito ao cadáver e demonstrara conclusivamente que os SEALs haviam morto bin Laden. Mas, de acordo com o nosso agente, não era claro, a partir dos primeiros relatórios dos SEAL, se o corpo de bin Laden, ou parte dele, regressara ao Afeganistão.

Gates não era o único responsável contrariado pela decisão de Obama de falar sem esclarecer antecipadamente o que iria dizer, disse o agente, “mas ele foi o único que protestou. Obama não traiu apenas Gates, mas s todos. Não se tratava de um cenário de guerra. O fato de haver um acordo com os paquistaneses e não haver análise de contingência do que deveria ser tornado público caso alguma coisa corresse mal, nada disso foi discutido. E quando de fato correu mal, tiveram que arranjar outra reportagem de capa em cima do joelho.” Houve uma razão legítima para alguma desilusão: o papel do informador dos paquistaneses tinha de ser protegido.

Foi dito ao grupo de imprensa da Casa Branca, num comunicado pouco depois do anúncio de Obama, que a morte de bin Laden fora “o culminar de anos de trabalho de informação minucioso e altamente avançado” que se concentrou em seguir um grupo de mensageiros, incluindo um que se sabia estar próximo de bin Laden. Foi dito aos repórteres que uma equipe de analistas da CIA e da Agência Nacional de Segurança especialmente reunido tinha localizado o mensageiro num complexo em Abbottabad altamente seguro. Depois de meses de observação, a comunidade de informação norte-americana tinha “confiança elevada” de que um alvo muito valioso estava a viver no complexo, e foi “confirmado que havia uma forte probabilidade de se tratar de Osama bin Laden.” A equipe de assalto norte-americana envolveu-se num tiroteio ao entrar num complexo e três adultos (pensa-se que dois deles eram os mensageiros) foram mortos, com bin Laden. Quando lhe perguntaram se bin Laden se tinha defendido, um dos homens deste grupo de imprensa disse que sim: “Ele resistiu à força de assalto. E foi morto num tiroteio.”

No dia seguinte coube a John Brennan, então assessor principal de Obama para o contra-terrorismo, a tarefa de falar sobre o mérito de Obama, enquanto tentava suavizar os erros no seu discurso. Ele forneceu um relatório mais detalhado mas também com erros sobre a incursão e o seu planejamento. Falando para registo, o que raramente faz, Brennan disse que a missão foi levada a cabo por um grupo de SEAL a quem haviam sido dadas instruções para capturar bin Laden vivo, se possível. Ele disse que os EUA não tinham informação que sugerisse que alguém no governo ou no exército do Paquistão sabia onde estava bin Laden: “Não contactamos os paquistaneses até todos os nossos homens e todos os nossos aviões abandonarem o espaço aéreo paquistanês.” Realçou a coragem da decisão de Obama em ordenar o ataque, e disse que a Casa Branca não tinha informações que confirmassem que bin Laden estava no complexo antes de o assalto começar. Obama, referiu, “fez aquilo que eu considero um dos mais arrojados atos de qualquer presidente nos últimos tempos.” Brennan também aumentou o número de assassinatos levados a cabo pelos SEAL no complexo para cinco: bin Laden, um mensageiro, o seu irmão, um dos seus filhos, e uma das mulheres que se disse terem servido de escudo a bin Laden.

Interrogado sobre se bin Laden tinha disparado sobre os SEAL, como a alguns repórteres havia sido dito, Brennan repetiu o que se tornaria um mantra da Casa Branca: “Envolveu-se num tiroteio com aqueles que entraram na área da casa onde estava. E se realmente houve baixas, muito francamente não sei... Aqui temos bin Laden, que tem reclamado estes ataques... vivendo numa área distante da frente, usando mulheres como escudo para se proteger... Acho que isto demonstra a natureza do indivíduo. ”

Gates também rejeitou a ideia, empurrada por Brennan e Leon Panetta, de que os serviços de informação norte-americanos haviam sabido onde estava bin Laden a partir de informação obtida mediante simulação de afogamento e outras formas de tortura. “Tudo isto acontece à medida que os SEALs regressam a casa da sua missão. Os caras da agência conhecem a história toda”, disse o nosso agente. “Foi um grupo de agentes da CIA aposentados novamente contratados. Haviam sido chamados por alguns dos que haviam planejado a missão na Agência para ajudar a compor a notícia. Nesse momento, os da velha guarda chegam e dizem: ‘porque não admitimos que obtivemos alguma informação sobre bin Laden a partir de interrogatórios sob tortura?’” Na altura, ainda se falava em Washington na possibilidade de se processar os agentes da CIA que haviam sido responsáveis pela tortura.

“Gates disse-lhes que isto não funcionaria”, disse o agente. “Ele nunca fez parte da equipe. Ele soube, na fase final da sua carreira, não fazer parte deste disparate. Mas o Estado, a Agência e o Pentágono tinham comprado a reportagem de capa. Nenhum dos SEAL pensou que Obama iria à televisão anunciar o assalto. O comando de forças especiais ficou apoplético. Orgulhavam-se de manter a segurança operacional. Nas Operações Especiais, referiu o agente, receou-se que, caso a verdadeira história das missões se tornasse conhecida, a burocracia da Casa Branca iria culpar os SEAL.”

A solução da Casa Branca foi manter os SEAL em silêncio. A 5 de maio, cada membro do hit team (eles haviam regressado à base no Sul da Virgínia) e alguns membros da liderança do Comando de Operações Especiais receberam um termo de não divulgação emitido pelo departamento jurídico; garantia penas civis e um processo para quem discutisse a missão, em público ou em privado. “Os SEAL não gostaram”, referiu o agente. Mas a maioria ficou em silêncio, tal como o Almirante William McRaven, que estava então à frente do Comando de Operações Especiais Conjuntas. “McRaven estava apoplético. Ele sabia que tinha sido fodido pela Casa Branca, mas é um SEAL convicto, e não um político, e sabia que do ato de denunciar o presidente não advém qualquer glória. Quando Obama tornou pública a morte de bin Laden, toda a gente teve de procurar uma nova história que tivesse sentido, e os responsáveis pelo plano foram mantidos em silêncio.”

Numa questão de dias, alguns dos exageros e distorções haviam-se tornado óbvios e o Pentágono emitiu uma série de declarações muito claras. Não, bin Laden não estava armado quando foi atingido e assassinado. E não, não usou uma das suas mulheres como escudo. A imprensa aceitou genericamente a explicação de que os erros foram o inevitável efeito colateral do desejo da Casa Branca acalmar os repórteres ansiosos por detalhes da missão.

Uma mentira que persistiu é a de que os SEAL tiveram de lutar até chegar ao alvo. Apenas dois SEAL fizeram declarações públicas: No Easy Day é um relato em primeira mão do assalto por Matt Bissonnette, publicado em setembro de 2012; e dois anos mais tarde, Rob O’Neill foi entrevistado pela Fox News. Ambos se tinham demitido da Marinha; ambos tinham disparado sobre bin Laden. Os seus relatos tinham várias contradições, mas as suas histórias corroboravam a versão da Casa Branca, especialmente no tocante à necessidade de matar ou ser morto, à medida que os SEAL combatiam para chegar a bin Laden. O’Neill disse mesmo à Fox News que ele e os seus companheiros SEAL pensaram “vamos morrer”. “Quanto mais treinávamos, mais pensávamos... esta vai ser uma missão de apenas um sentido.”

Mas o agente disse-me que, nas suas declarações iniciais, os SEAL não fizeram referência a um tiroteio, ou mesmo de qualquer oposição. O drama e o perigo de que falam Bissonnette e O’Neill vem de encontro a uma necessidade vital: “Os SEAL não suportam o fato de que mataram bin Laden sem terem tido oposição, tinha que haver um relato da sua coragem face aos perigos. Então os tipos iam sentar-se à mesa do bar e dizer que foi fácil? Nem pensar.”

Havia outra razão para afirmar que houvera um tiroteio dentro do complexo, disse o nosso agente: evitar a pergunta inevitável que se colocaria perante um assalto sem reposta. Onde estavam os guardas de bin Laden? Certamente, o mais procurado terrorista do mundo teria proteção 24 horas por dia. “E um dos que morreram tinha de ser o mensageiro, porque não existia e tínhamos de o inventar. Os paquistaneses não tiveram escolha senão alinhar.” (Dois dias depois do assalto, a Reuters publicou fotografias dos três mortos que disse ter adquirido de um agente do ISI. Dois dos homens foram mais tarde identificados por um porta-voz do ISI como sendo o alegado mensageiro e o seu irmão.)

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Cinco dias depois do assalto, foi entregue ao grupo de imprensa do Pentágono uma série de vídeos que agentes dos EUA disseram pertencer a um grande conjunto que os SEAL teriam retirado do complexo, junto com cerca de 15 computadores. Trechos de um dos vídeos mostravam um bin Laden solitário, de aparência pálida, embrulhado num cobertor, a ver o que parecia ser um vídeo dele mesmo na televisão. Um agente não identificado disse aos repórteres que o assalto revelara “um tesouro... a maior coleção de materiais ligados ao terrorismo”, que traria valiosas informações sobre os planos da al-Qaida. O agente disse que o material mostrava que bin Laden “era ainda um líder ativo na al-Qaida, fornecendo instruções estratégicas, operacionais e táticas ao grupo... estava longe de ser um testa-de-ferro e continua a fornecer detalhes sobre a orientação do grupo mesmo do ponto de vista tático e a encorajar a conspiração”, a partir do que foi descrito como um centro de comando e controle em Abbottabad. “Era um membro ativo, o que tornava a operação ainda mais essencial para a segurança do nosso país”, referiu o agente. A informação era tão vital, acrescentou, que a administração estava a preparar um grupo de trabalho entre agências para o levar a cabo: “Ele não era apenas alguém que traçava a estratégia da al-Qaida, mas dava ideias operacionais no terreno e também dirigia especificamente outros membros da al-Qaida.”

Estas afirmações eram fabricadas: não havia muita atividade para bin Laden poder comandar e controlar. O agente de informação aposentado disse que os relatórios internos da CIA mostram que, desde que bin Laden se mudou para Abbottabad em 2006, apenas alguns ataques terroristas podiam ser ligados ao que restava da al-Qaida. “Foi-nos dito ao princípio”, disse o agente, “que os SEALs trouxeram sacos de coisas e que a comunidade gera relatórios de informação diários disto. E depois foi-nos dito que a comunidade está a juntar tudo e precisa de o traduzir. Mas ainda nada resultou daí. Acontece que cada coisa que criaram não corresponde à verdade. É um grande embuste; como o homem de Piltdown.” O agente aposentado afirmou que a maioria dos materiais de Abbottabad foram entregues aos EUA pelos paquistaneses, que mais tarde arrasaram o edifício. O ISI assumiu responsabilidade pelas mulheres e filhos de bin Laden, nenhum deles foi disponibilizado aos EUA para interrogatório.

“Porquê criar a história do tesouro?”, perguntou o nosso oficial? “A Casa Branca tinha de dar a impressão de que bin Laden ainda era importante nas operações. Porque, se assim não fosse, porquê assassiná-lo? Uma reportagem de capa foi criada; dizendo que havia uma corrente de mensageiros que iam e vinham com pen drives e instruções. Tudo para mostrar que bin Laden permanecia importante.”

Em julho de 2011, o Washington Post publicou o que pretendia ser uma súmula dalguns destes materiais. As contradições da história eram evidentes. Referia que os documentos haviam resultado em mais de quatrocentos relatórios de informação em seis semanas; deixou um aviso sobre enredos da al-Qaida não especificados; e mencionou a detenção de suspeitos “que são designados ou descritos em e-mails que bin-Laden recebeu.” O jornal não identificou os suspeitos nem esclareceu a contradição das anteriores declarações da administração, de acordo com as quais o complexo de Abbottabad não tinha ligação à Internet. Apesar das suas declarações dizendo que os documentos haviam gerado centenas de relatórios, o jornal também citou agentes dizendo que o seu principal valor não era a informação que continham, mas o fato de permitirem aos analistas “reconstruir um retrato mais global da al-Qaida.”

Em maio de 2012, o Combating Terrorism Centre, em West Point, um grupo de investigação privado, divulgou traduções que fez ao abrigo de um contrato com o Governo Federal, de 175 páginas de documentos de bin Laden. Os repórteres não encontraram nada do drama que havia sido referido logo a seguir ao assalto. Patrick Cockburn escreveu sobre o contraste entre as afirmações iniciais da administração de que bin Laden era a “aranha no centro de uma teia de conspiração” e o que as traduções mostravam na realidade: que bin Laden fora uma “ilusão” e tinha na verdade “contatos limitados com o mundo exterior ao seu complexo”.

O agente aposentado questionou a autenticidade dos materiais de West Point: “Não há ligação entre estes dois documentos e o centro de contraterrorismo na agência. Não havia análise da informação da comunidade. Quando foi a última vez que a CIA 1) anunciou que tivera uma descoberta significante no que toca a informação relevante; 2) revelou a fonte; 3) descreveu o método para processar os materiais; 4) revelou o cronograma para produção; 5) descreveu quem fazia a análise e onde esta era feita, e; 6) publicou os resultados antes da informação ser utilizada? Nenhum profissional da agência poderia corroborar este conto de fadas.”

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Em junho de 2011, foi relatado no New York Times, no Washington Post e por todo o lado na imprensa paquistanesa que Amir Aziz tinha sido mantido para interrogatório no Paquistão; ele era, segundo se disse, um informador da CIA que espionara as idas e vindas no complexo de bin Laden. Aziz foi libertado, mas o nosso agente afirma que a espionagem dos EUA não conseguiu saber quem revelou a informação altamente secreta sobre o seu envolvimento na missão. Agentes em Washington decidiram que “não poderiam arriscar tornar conhecido o papel de Aziz na obtenção do DNA de bin Laden.” Era preciso um cordeiro para sacrificar, e o escolhido foi Shakil Afridi, um médico paquistanês de 48 anos e ocasionalmente colaborador da CIA, que fora detido pelos paquistaneses em maio passado e acusado de colaborar com a Agência. “Dissemos aos paquistaneses para irem atrás de Afridi”, disse o agente aposentado. “Tivemos de tratar todo o problema de como obtivemos o DNA.” Foi rapidamente reportado que a CIA organizara um programa de vacinação em Abbottabad com a ajuda de Afridi numa tentativa fracassada de obter o DNA de bin Laden. A operação médica legítima foi feita independentemente das autoridades de saúde locais, foi financiada e oferecia vacinas gratuitas contra a Hepatite B. Posters a anunciar o programa foram afixados pela área. Afridi foi mais tarde acusado de traição e condenado a 33 anos de prisão devido às suas ligações a um extremista.

Notícias do programa financiado pela CIA originaram uma vasta animosidade no Paquistão e conduziram ao cancelamento de outros programas internacionais de vacinação que eram agora vistos como cobertura de espionagem norte-americana.

O nosso agente afirmou que Afridi fora recrutado muito antes da missão de bin Laden como parte de um esforço de espionagem separado para obter informação sobre terroristas suspeitos em Abbottabad e cercanias. “O plano era usar as vacinas como meio para obter o sangue de suspeitos de terrorismo nas aldeias.” Afridi não tentou obter DNA dos residentes do complexo de bin Laden. A informação de que fora ele a fazê-lo foi uma “reportagem de capa da CIA que criava ‘fatos’” numa tentativa atabalhoada de proteger Aziz e a sua verdadeira missão. “Agora temos as consequências”, referiu o agente. “Um grande projeto humanitário para fazer alguma coisa significativa pelos camponeses foi comprometida e passou a ser um cínico embuste.” A condenação de Afridi foi anulada, mas ele continua na prisão, acusado de assassinato.

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No discurso em anunciava o assalto, Obama disse que, depois de matar bin Laden, os SEAL “mantiveram o cadáver em seu poder”. A declaração causou um problema. No plano inicial deveria ser anunciado, cerca de uma semana depois do acontecimento, que bin Laden fora morto num ataque com drones algures nas montanhas na fronteira Paquistão / Afeganistão e que os seus restos mortais haviam sido identificados com recurso a testes de DNA. Mas com o anúncio de Obama do seu assassinato pelos SEALs, todos agora esperava que fosse revelado um cadáver. Em vez disso, foi dito aos repórteres que o corpo de bin Laden fora levado pelos SEAL para uma base aérea militar em Jalalabad, no Afeganistão, e depois para o USS Carl Vinson, um super porta-aviões em patrulha de rotina no Mar da Arábia. Bin Laden fora enterrado no mar, horas depois da sua morte. O grupo de imprensa mostrara-se cético apenas durante a comunicação de John Brennan em 2 de maio, que tinha que ver com o funeral. As perguntas foram curtas, diretas, e raramente tiveram resposta. “Quando é que foi decidido que ele seria enterrado no mar se fosse morto?”; “Isto fazia parte do plano desde o início?”; “Será que podem dizer-nos porque é que isso foi uma boa ideia?”; “John, consultou um perito em assuntos islâmicos para essa questão?”; “Existe uma gravação de vídeo deste funeral?” Quando esta última questão foi colocada, Jay Carney, Secretário de Imprensa de Obama, veio em socorro de Brennan. “Temos de dar aos outros uma hipótese.”

“Achamos que a melhor maneira de ter a certeza de que o seu cadáver teria um funeral islâmico apropriado”, disse Brennan, “era fazer o que nos permitisse realizar esse funeral no mar.” Ele disse que “foram consultados especialistas e peritos”, e que o exército dos EUA era perfeitamente capaz de levar a cabo o funeral “de acordo com a lei islâmica”. Brennan não mencionou que a lei islâmica diz que o serviço fúnebre deve ser conduzido na presença de um imã, e não houve nota de que estivesse algum a bordo do Carl Vinson.

Numa reconstituição da operação bin Laden para a Vanity Fair, Mark Bowden, que falou com vários altos funcionários da administração, escreveu que o cadáver de bin Laden foi limpo e fotografado em Jalalabad. Mais procedimentos necessários para um funeral muçulmano foram levados a cabo no porta-aviões, escreveu ele, “com o cadáver de bin Laden sendo lavado novamente, e enrolado num lençol branco. Um fotógrafo da marinha registrou o funeral em plena luz do sol, segunda-feira, dia 2 de maio”. Bowden descreveu as fotos:

Uma foto mostra o corpo enrolado num lençol espesso. Outra mostra-o de lado numa rampa, com os pés para fora. Noutra, vemos o corpo a entrar na água. Noutra, vemos-lo logo abaixo da superfície, com bolhas à volta. Os restos mortais de Osama bin Laden despareceram de vez.

Bowden foi cauteloso ao não afirmar que tinha visto realmente as fotografias que descreveu, e recentemente disse-me que não as vira: “Fico sempre desiludido quando não consigo ver as coisas com os meus próprios olhos, mas falei com alguém em quem confio, que disse que as vira e as descreveu em pormenor.” A declaração de Bowden acrescenta-se às questões em aberto sobre o alegado funeral no mar, que provocou uma avalanche de pedidos de informação ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação, a muitos dos quais nada foi respondido. Um deles pedia acesso às fotografias. O Pentágono respondeu que uma pesquisa por todos os registos disponíveis não encontrara provas de que quaisquer fotografias haviam sido tiradas no funeral. Pedidos sobre outros assuntos relacionados com o assalto foram igualmente improdutivos. A razão para a ausência de resposta tornou-se clara depois do Pentágono ter feito um inquérito face a alegações de que a administração Obama tinha dado acesso a materiais secretos aos realizadores do filme Zero Dark Thirty. O relatório do Pentágono, que foi posto online em junho de 2013, observava que o Almirante McRaven tinha dado ordens para que os arquivos sobre o assalto fossem apagados de todos os computadores do Exército e movidos para a CIA, onde estariam protegidos de pedidos ao abrigo da Lei de Liberdade de Informação, devido à “isenção operacional” de que a Agência goza.

A ação de McRaven significava que os de fora não poderiam ter acesso à informação proveniente do Carl Vinson. Estes registos são sacrossantos na Marinha, e alguns em separado são mantidos para todas as operações por ar, para o convés, o departamento de engenharia, o gabinete médico, e o comando de informação e controle. Eles mostram a sequência de acontecimentos dia a dia a bordo do navio; se tivesse havido um funeral no mar a bordo do Carl Vinson, teria sido gravado.

Não havia rumores de um funeral entre os marinheiros do Carl Vinson. O navio concluiu o seu destacamento de seis meses em junho de 2011. Quando o navio atracou na sua base em Coronado, na Califórnia, o Contra-almirante Samuel Perez, comandante do grupo de ataque do Carl Vinson, disse aos repórteres que a tripulação recebera ordens para não falar do funeral. O Capitão Bruce Lindsey, comandante do Carl Vinson, disse aos repórteres que não poderia discutir o assunto. Cameron Short, membro da tripulação do Carl Vinson, disse ao Commercial-News de Danville, no Illinois, que nada fora dito à tripulação sobre o funeral. “Tudo o que ele sabe é o que viu nas notícias”, relatou o jornal.

O Pentágono divulgou uma série de e-mails à Associated Press. Num deles, o Contra-almirante Charles Gaouette relatou que o serviço seguiu os “procedimentos habituais dum funeral islâmico” e disse que nenhum dos homens a bordo tinha autorização para observar os procedimentos. Mas não havia indicação de quem lavou e embrulhou o cadáver, ou de que pessoa, de fala árabe, conduziu o serviço.

Semanas depois do assalto, dois consultores de longa data do Comando de Operações Especiais, que têm acesso à informação corrente, disseram-me que não houve nenhum funeral a bordo do Carl Vinson. Um deles disse-me que os restos mortais de bin Laden foram fotografados e identificados depois de terem sido levados de volta para o Afeganistão. O consultor acrescentou: “Nesse momento, o cadáver ficou sob controle da CIA. A reportagem dizia que fora levado para o Carl Vinson.” O segundo consultor concordou que não tivera lugar “nenhum funeral no mar“. Acrescentou que “o assassinato de bin Laden foi teatro político concebido para polir o prestígio de Obama enquanto chefe militar... Os SEAL deveriam ter esperado este aparato político. É irresistível para um político. Bin Laden tornou-se crédito.” No começo deste ano, falando outra vez com o segundo consultor, voltei a mencionar o funeral no mar. Ele riu-se e perguntou: “Quer dizer, ele não chegou à água?”

O nosso agente disse que houve outra complicação: alguns membros dos SEALs gabaram-se aos colegas e a outros de que tinham feito o corpo de bin Laden em bocados com os tiros. Os restos mortais, incluindo a cabeça, que tinha apenas alguns buracos de bala, foram depostos num saco e, durante o voo de helicóptero de regresso a Jalalabad, algumas partes foram atiradas para fora, sobre as montanhas do Hindu Kush, ou pelo menos foi isso que os SEAL disseram. Na altura, referiu o agente, os SEAL não pensaram que a sua missão seria tornada pública por Obama num espaço de poucas horas. “Se o Presidente tivesse avançado com a reportagem, não teria sido necessário um funeral poucas horas depois do assassinato. Depois de a reportagem ter sido queimada, e a morte ter sido tornada pública, a Casa Branca tinha em mãos um problema sério, o paradeiro do corpo. O mundo sabia que as forças dos EUA tinham assassinado bin Laden em Abbottabad. Foi o pânico. Que fazer? Era preciso um “corpo funcional”, porque temos de poder dizer que identificamos bin Laden por meio de uma análise ao DNA. Teriam sido oficiais da Marinha a ter a ideia do “funeral no mar”. Perfeito. Não havia corpo. Um funeral com honras de acordo com a Sharia. O funeral torna-se público em grande pormenor, mas documentos produzidos ao abrigo da Lei da Liberdade de Informação que confirmavam o funeral foram negados por razões de “segurança nacional”. É a desmontagem clássica de uma história mal contada, que resolve um problema imediato, mas, à primeira inspeção, verifica-se que não há provas. Nunca houve um plano, desde o início, para levar o corpo para o mar, e não teve lugar nenhum funeral de bin Laden no mar.” O nosso agente disse que, a acreditar nos primeiros relatos dos SEALs, não sobraria muito de bin Laden para enterrar, em qualquer dos casos.

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Era inevitável que as mentiras, contradições e traições da administração Obama criassem um efeito de ricochete. “Tivemos um lapso de quatro anos na cooperação”, referiu o agente. “Demorou aos paquistaneses esse tempo para confiarem em nós outra vez na cooperação entre os exércitos contra o terrorismo; enquanto isso, o terrorismo escalava por todo o mundo... eles sentiram que Obama os atraiçoou. Agora estão a regressar porque a ameaça do ISIS, que agora está a aparecer por aqui, é muito maior e bin Laden está suficientemente longe para permitir a alguém como o General Durrani vir a público e falar sobre o assunto.” Os generais Pasha e Kayani reformaram-se e há relatos segundo os quais ambos estão a ser investigados por corrupção pelo tempo que estiveram em funções.

O relatório do Comitê de Informação do Senado sobre tortura da CIA que saiu em dezembro passado, depois de adiado por tanto tempo, atesta instâncias repetidas de mentiras oficiais, e sugere que o conhecimento da CIA sobre os mensageiros de bin Laden não passava de um esboço, na melhor das hipóteses, e era anterior ao uso de tortura por simulação de afogamento e outras formas de tortura. O relatório originou manchetes internacionais sobre brutalidade e simulação de afogamento, com pormenores sórdidos, como tubos de alimentação por via retal, banhos gelados e ameaças de violar ou assassinar membros da família dos detidos que se acreditava estarem na posse de informações. Apesar da má publicidade, o relatório foi uma vitória para a CIA. A sua principal descoberta (que o recurso à tortura não levou ao apuramento da verdade) fora já objeto de debate público ao longo de mais de uma década. Outra descoberta essencial (de que a tortura executada tinha sido mais violenta do que fora comunicado ao Congresso) era risível, considerando a quantidade de relatos e exposições públicas por antigos interrogadores e agentes da CIA aposentados. O relatório descreveu torturas que eram obviamente contrárias à Lei Internacional como violações das normas ou “atividades impróprias”, ou, nalguns casos, “erros de gestão”. Se as ações descritas constituem crimes de guerra ou não, não foi discutido, e o relatório não sugeriu que qualquer dos agentes da CIA ou os seus superiores deveriam ser investigados por atividade criminosa. A Agência não enfrentou consequências significativas como resultado do relatório.

O agente disse-me que as chefias da CIA se tornaram peritas em desviar de si ameaças sérias do Congresso: “Eles arranjam uma coisa horrível, mas não assim tão má quanto isso. ‘Ó meu Deus, estamos a enfiar comida pelo cu de um prisioneiro adentro!’ Entretanto, não falam ao comitê de assassinatos, e outros crimes de guerra, e prisões secretas como as que ainda temos em Diego Garcia. O objetivo era também atrasar o processo o mais possível, o que foi conseguido.”

O tema principal do sumário executivo de 499 páginas é que a CIA mentiu sistematicamente sobre a eficiência do seu programa de tortura para obter informação que impedisse futuros ataques terroristas nos EUA. As mentiras incluíram alguns detalhes essenciais sobre o desmascarar de um operacional da al-Qaida chamado Abu Ahmed al-Kuwaiti, que se disse ser o mensageiro chave da al-Qaida, e a consequente vigilância sobre este último até Abbottabad, no princípio de 2011. A alegada informação da agência, a paciência e perícia para descobrir onde estava al-Kuwaiti tornou-se lendária, depois da dramatização no filme Zero Dark Thirty.

O relatório do Senado levantou repetidamente questões sobre a qualidade e fiabilidade da informação da CIA sobre al-Kuwaiti. Em 2005, um relatório interno da CIA sobre a perseguição a bin Laden observou que os “detidos fornecem poucas ligações funcionais, e nós temos de considerar a possibilidade de que eles estão a criar personagens fictícios para nos distraírem ou se absolverem de conhecimento direto sobre bin Ladin [sic].” Um telegrama da CIA um ano mais tarde dizia que “não tivemos sucesso em extrair informação útil sobre o paradeiro de bin Laden de nenhum dos detidos.” O relatório também destacou várias instâncias em que agentes da CIA, incluindo Panetta, prestaram declarações falsas perante o Congresso e o público sobre o valor das “técnicas de interrogatório forçadas” na procura pelos mensageiros de bin Laden.

Hoje, Obama não encara a reeleição como na primavera de 2011. A sua posição de princípio a favor do acordo nuclear proposto com o Irã diz muita coisa, bem como a decisão de atuar sem o apoio dos republicanos conservadores do Congresso. A mentira de alto escalão mantém-se no entanto o modus operandi da política dos EUA, com prisões secretas, ataques com drones, incursões noturnas de Forças Especiais, sem passar por toda a cadeia de comando, e passando por cima de quem possa dizer que não.

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