1 de maio de 2004

Opção zero no Haiti

Um golpe verdadeiramente multilateral. Harmonia franco-americana e bênçãos unânimes do Conselho de Segurança para a derrubada de um governo constitucional e esmagamento da esperança popular, no estado-nação mais pobre do hemisfério ocidental.

Peter Hallward

New Left Review

NLR 27 • MAY/JUNE 2004

Tradução / Enquanto seus assessores ponderam sobre as conseqüências cada vez mais problemáticas da mudança de regime no Iraque, Bush merece algum consolo com a operação muito mais bem-sucedida que acabou de se realizar no Haiti. Nenhum ataque preventivo brusco, nenhuma lamentação interna nem coalizões rachadas sujaram a cena; as objeções da Caribbean Community (Caricom) e da União Africana não traziam ameaças de represália. Ao derrubar o governo constitucionalmente eleito de Jean-Bertrand Aristide, dificilmente Washington daria uma demonstração mais exemplar de cortesia multilateral. Consultaram-se os aliados, buscou-se a bênção, imediatamente concedida, do Conselho de Segurança da ONU. O sinal dado a Chávez, Castro e outros adversários do hemisfério foi inequívoco – só que não foi um agressivo Tio Sam, mas sim a França, a clamar primeiro pela intervenção internacional nos assuntos domésticos do Haiti.

Em Paris também houve muita satisfação com o ajuste sofisticado entre o dever humanitário de uma nação civilizada e a necessidade (sem humilhação) de aplacar Washington pela desobediência do ano anterior no caso do Iraque. Os Estados Unidos talvez temessem essa “Libéria à sua porta”, como disse o relatório da Comissão Independente de Villepin, mas, cautelosos com a reação interna de sua própria população negra num ano eleitoral, hesitaram em agir . A oferta de proteção diplomática do Quai d’Orsay garantiria não só a entrada segura como também a retirada indolor quando a proposta Missão de Estabilização da ONU assumiu o fardo três meses depois . Londres seria suavemente deposta de seu papel principal de cão de guarda. Chirac e Villepin tinham o apoio quase unânime dos meios de comunicação franceses, do Le Figaro ao Le Monde e L’Humanité, para a intervenção militar no Haiti. Entre as vozes mais febris estava a do Libération, que considerava o presidente Aristide – “um padre sem rebanho transformado em tirano milionário”, “o Pai Ubu do Caribe” – pessoalmente responsável pelo “risco de catástrofe humanitária” que se alegava para justificar a invasão.

Em 25 de fevereiro, Villepin fez um apelo formal à renúncia de Aristide. Dois dias depois, a França, os Estados Unidos e o Canadá anunciaram o envio de soldados a Porto Príncipe. Nas primeiras horas de 29 de fevereiro, um domingo, o presidente haitiano foi retirado de seu país sob a mira das armas. Mais tarde, no mesmo dia, o Conselho de Segurança da ONU suspendeu seu período normal de 24 horas de consulta antes de votar uma resolução de emergência nomeando os fuzileiros norte-americanos, a Legião Estrangeira francesa e as tropas canadenses, que já convergiam para a capital haitiana, como guarda avançada de uma missão multinacional das Nações Unidas. Diante de tamanho apoio internacional, o Black Caucus (comissão de líderes negros) do Congresso norte-americano limitou-se a uma pequena reclamação. O Libération apreciou, satisfeito, a dissolução do “carnaval patético com o qual Aristide se autoproclamara rei”. Para o New York Times, a invasão foi um belo exemplo de como os aliados conseguem “encontrar um terreno comum e aproveitá-lo ao máximo”. Tudo o que restou foi Bush ligar para Chirac e agradecer, exprimindo seu prazer com “a excelente cooperação franco-americana” .

Os meios de comunicação ocidentais tinham preparado o caminho para outra “intervenção humanitária” segundo a fórmula já conhecida. Diante de repetidas acusações de corrupção, clientelismo, drogas, desrespeito aos direitos humanos, autocracia etc., o consumidor ocasional dos comentários da grande imprensa foi estimulado a acreditar que o que estava em jogo não tinha nada a ver com uma batalha prolongada entre a maioria pobre e uma elite minúscula, mas que se tratava, sim, apenas de um complicado vale-tudo em que todos os lados estavam igualmente errados. A imprensa francesa, sobretudo, tendia a pintar um retrato dramático de níveis “africanos” de miséria e superstição, para servir tanto de alerta para os territórios remanescentes da França nas Antilhas quanto de desafio que poria à prova, mais uma vez, a “missão civilizadora” da comunidade internacional. Como ex-potência colonizadora e escravista, a França estaria errada se “desse as costas”, argumentou o relator-chefe da comissão de investigação de Villepin sobre as relações franco-haitianas. O bicentenário da independência do Haiti em 2004 seria uma boa oportunidade de uma reconciliação madura com o passado, de modo que a França pudesse “livrar-se do peso que a servidão impõe aos senhores” e negociar um novo relacionamento.

Em vez de uma briga política, em vez de uma batalha de princípios e prioridades, a luta pelo Haiti tornou-se apenas mais um caso de corrupção mesquinha e de vitimização em massa que se supõe caracterizar a vida pública fora dos portões bem guardados da democracia ocidental. Em vez de condicionada pela radical polarização de classe ou pela mecânica da exploração sistemática, a derrubada de Aristide foi apresentada, a maior parte das vezes, como mais uma demonstração do tema talvez mais constante nos comentários ocidentais sobre a ilha: aquele pobre povo negro continua incapaz de governar a si mesmo.

Rompendo a corrente

A base estrutural da pobreza debilitante do Haiti é herança direta da escravidão e do período que a ela se seguiu. O Tratado de Ryswick, de 1697, formalizou a ocupação francesa do terço ocidental da ilha de Hispaniola, possessão espanhola, com o nome de São Domingos. No século seguinte, a colônia cresceu e tornou-se a mais lucrativa do mundo; na década de 1780, era, para seus senhores, uma fonte de renda maior que todas as treze colônias norte-americanas da Grã-Bretanha juntas. Nenhuma fonte isolada de receita deu contribuição tão grande à prosperidade crescente da burguesia comercial francesa e à riqueza de cidades como Bordéus, Nantes e Marselha. Os escravos que produziam esses lucros revoltaram-se em 1791. O esforço britânico, espanhol e francês combinado para esmagar a rebelião alimentou uma guerra que durou treze anos e terminou numa inequívoca derrota imperial. Tanto Pitt quanto Napoleão perderam cerca de 50 mil soldados na tentativa de restaurar a escravidão e o status quo.

No final de 1803, para espanto universal dos observadores da época, os exércitos liderados por Toussaint L’Ouverture e Dessalines romperam a corrente da escravidão colonial “naquele que fora, em 1789, seu elo mais forte”. Rebatizado de Haiti, o novo país comemorou sua independência em janeiro de 1804. Defendi noutro texto que na história moderna houve poucos acontecimentos cujas conseqüências fossem mais ameaçadoras para a ordem dominante: a mera existência do Haiti independente era uma advertência às nações da Europa que comerciavam escravos, um exemplo perigoso para os Estados Unidos escravistas e uma inspiração para sucessivos movimentos de libertação africanos e latino-americanos . Boa parte da história subseqüente do Haiti foi conformada pelos esforços internos e externos de sufocar as conseqüências desse evento e preservar a herança essencial da escravidão e do colonialismo – aquela injustíssima distribuição de trabalho, riqueza e poder que caracterizou toda a história pós-colombiana da ilha.

A principal prioridade dos escravos que conquistaram a independência em 1804 foi impedir a volta à economia de plantation com a manutenção de algum controle direto sobre seu meio de vida e sua terra. Diversamente da maioria dos outros países latino-americanos e caribenhos, o desenvolvimento de latifúndios voltados para a exportação foi limitado pela sobrevivência generalizada de pequenas propriedades camponesas, e, hoje, 93% dos camponeses haitianos ainda têm pelo menos algum acesso à própria terra . No entanto, a redução do tamanho médio das propriedades para menos de um hectare, combinada à queda dos preços agrícolas, à drástica erosão do solo e à falta crônica de investimentos, faz com que a maior parte desses camponeses mantenha sua independência à custa, na verdade, de uma privação permanente.

A extensão dessa privação ao país como um todo foi garantida pelo isolamento de sua economia arruinada nas décadas que se seguiram à independência. A França da Restauração só restabeleceu o comércio e as relações diplomáticas essenciais para a sobrevivência do novo país depois que o Haiti concordou, em 1825, em pagar à sua antiga senhora colonial uma “indenização” de cerca de 150 milhões de francos pela perda dos escravos – quantia mais ou menos igual ao orçamento anual francês da época, ou por volta de dez anos de receita total do Haiti – e conceder descontos comerciais muito onerosos. Com a economia ainda abalada pela guerra colonial, o Haiti só conseguiu começar a pagar a dívida tomando emprestados, a juros extorsivos, 24 milhões de francos de bancos privados franceses. Embora a exigência francesa acabasse caindo de 150 para 90 milhões de francos, no final do século XIX os pagamentos do Haiti à França consumiam cerca de 80% do orçamento nacional. A França recebeu a última prestação em 1947. Assim, os haitianos tiveram de compensar três vezes os seus antigos opressores: com o trabalho inicial dos escravos, com a indenização aos franceses pela perda dessa mão-de-obra e depois com os juros sobre o pagamento da indenização. Nenhum outro fator teve papel tão importante para fazer do Haiti um país sistematicamente endividado, condição que, por sua vez, “justificou” uma série longa e debilitante de apropriações por navios armados.

A mais importante dessas intervenções estrangeiras foi deflagrada por Woodrow Wilson em 1915, numa contrapartida a seus ataques punitivos à Revolução Mexicana. A ocupação norte-americana durou quase vinte anos e ampliou-se, de 1916 a 1924, com uma incursão paralela na vizinha República Dominicana. O regime militar dos Estados Unidos pôs-se a instituir uma versão precoce de programa de ajuste estrutural: aboliu a cláusula da Constituição que impedia estrangeiros de possuírem propriedades no Haiti, ocupou o Banco Nacional, reorganizou a economia para garantir pagamentos mais “confiáveis” da dívida externa, desapropriou terras para criar suas próprias plantations e treinou uma violenta tropa militar cujas únicas vitórias seriam contra o povo haitiano. As rebeliões, como a de Charlemagne Peralte, no norte do país, nos primeiros anos da ocupação, e a onda de greves de 1929 foram selvagemente reprimidas. Quando se retiraram, em 1934, os soldados dos Estados Unidos tinham quebrado a espinha da resistência camponesa inicial a essa engenharia socioeconômica, matando de 5 mil a 15 mil pessoas.

O exército que os Estados Unidos construíram tornou-se o poder dominante depois que os marines partiram, mantendo sob controle tanto a população quanto os políticos, enquanto os próprios generais se alternavam como presidentes. Foi como contrapeso a essa força que François Duvalier, ex-médico e míope, organizou sua própria milícia assassina, os Tonton Macoutes, depois de vencer as eleições presidenciais de 1957 que se seguiram à derrubada do regime militar anterior. Nos catorze anos seguintes, em que “Papa Doc” declarou-se a encarnação divina da nação haitiana, os 10 mil Macoutes foram usados para aterrorizar todos os adversários de seu domínio. A princípio cautelosos com esse nacionalismo vaudouiste, os Estados Unidos logo abraçaram o ferrenho regime anticomunista de Duvalier. Quando François morreu, em 1971, seu filho Jean-François, o “Baby Doc”, foi proclamado presidente vitalício e gozou de apoio norte-americano ainda mais ardente. A ajuda externa e a corrupção da elite dispararam, mas, para a massa dos haitianos, a pauperização e a opressão política não se reduziram.

Cresce a enchente

Em meados da década de 1980, uma nova geração amadurecia nas favelas cada vez maiores de Porto Príncipe, sensível aos encantos da teologia da libertação nos sermões codificados em kreyòl dos padres radicais – sendo o principal deles Jean-Bertrand Aristide. Nascido em 1953, Aristide cresceu fora dos limites da classe política tradicional do Haiti. Lingüista talentoso, destacou-se no seminário salesiano e, nos anos 1970, lia psicologia e filosofia na Universidade do Estado, juntamente com as obras de Leonardo Boff e outros teólogos da libertação. Começou a transmitir programas nas estações católicas de rádio que brotaram no final da década de 1970, antes de ser enviado por sua ordem, em 1979, para estudar arqueologia no Oriente Médio e de lá para Montreal para uma certa “reprogramação teológica” (malsucedida)10.

Em 1985, estava de volta à pregação no Haiti, enquanto o aumento da insatisfação popular com o regime inchado de Baby Doc transformava-se numa onda de protestos em massa. O sermão de Páscoa feito por Aristide naquele ano – “O caminho dos haitianos que rejeitam o regime é o caminho da virtude e do amor” – foi gravado em dúzias de fitas cassete e ouvido em todo o país. Seu grito “Va-t’en, Satan!” [“Vai-te embora, Satã!”] foi adotado pelo movimento de massa, que, em fevereiro de 1986, forçou Baby Doc a se exilar na França, semanas antes de Marcos, sob pressão semelhante, ser despachado das Filipinas. A tática assassina da junta que se seguiu, comandada pelo general Namphy, não conseguiu desmobilizar a enchente – lavalas, em kreyòl – de grupos políticos, sindicatos, organizações de massa, associações camponesas e grupos comunitários da “pequena igreja”, a ti legliz. Aristide pregava então em horário integral na igreja de São João Bosco, nos arredores da favela La Saline, em Porto Príncipe. As eleições marcadas para novembro de 1987 foram canceladas pelo exército no dia da votação, mas não antes de engendrar o assassinato de dúzias de eleitores que esperavam para votar.

Em setembro de 1988, os Macoutes atacaram a igreja apinhada de Aristide, mataram membros da congregação e destruíram o prédio; Aristide foi levado para lugar seguro por seus partidários. Nos protestos que se seguiram, os soldados rasos revoltaram-se contra os oficiais, expulsando Namphy, antes que um contragolpe do general Avril lançasse na cadeia os líderes dos ti soldats. O outono de 1989 trouxe mais greves e mobilizações em massa contra o regime de Avril, outra repressão sangrenta e novos protestos. Em março de 1990, ele também foi expulso do poder.

Primeira vitória da Lavalas

Em dezembro de 1990, Aristide foi candidato à Presidência pela Front National pour le Changement et la Démocratie (FNCD) [Frente Nacional pela Mudança e pela Democracia], coalizão frouxa de organizações populares formada para concorrer nas primeiras eleições livres do Haiti. Obteve uma vitória inesperada no primeiro turno, com 67% dos votos (o preferido pelos Estados Unidos, Marc Bazin, economista do Banco Mundial e ex-ministro de Duvalier, obteve apenas 14%). A elite haitiana não perdeu tempo para tentar desestabilizá-lo. A primeira tentativa de golpe veio um mês depois da eleição e foi impedida por uma contramobilização maciça. No cargo, o espaço de manobra de Aristide foi limitado pela minoria da FNCD no parlamento, pela dilapidação do Estado e do aparelho jurídico e pelos ataques constantes dos Macoutes, só contidos pela ameaça de resistência popular nas favelas. E o talento de Aristide como líder de massas não se traduziu com facilidade em coalizões parlamentares nem na manipulação dos controles do Estado. No poder, Aristide agiu com cautela, enquanto continuava a falar numa mudança radical na distribuição de renda. Conquistou o apoio dos credores internacionais ao equilibrar o orçamento e reduzir a burocracia eivada de corrupção. Fora isso, restringiu-se a leves reformas nos setores agrário e educacional e à nomeação de uma comissão presidencial para investigar as mortes extrajudiciais dos cinco anos anteriores.

Até esses passos moderados foram demais para a tolerância da elite. Em setembro de 1991, apenas sete meses depois da posse, o exército retomou o poder, instalando uma nova junta, comandada pelo general Cédras. Nos três anos seguintes, os militares instituíram um reinado de terror na tentativa de desmantelar as redes da Lavalas nas favelas; cerca de 5 mil partidários foram mortos. Invadiram-se igrejas e organizações comunitárias; pregadores e líderes foram assassinados. Em setembro de 1993, brutamontes liderados por Louis Jodel Chamblain, treinado pela CIA, assassinaram Antoine Izméry, ativista que lutava pela democracia e principal aliado de Aristide. Em abril de 1994, paramilitares comandados por Jean Tatoune, outro produto da CIA, chacinaram dezenas de civis no chamado Massacre de Raboteau, na cidade de Gonaïves.

Ao mesmo tempo, o embargo econômico (cheio de isenções) imposto ao regime de Cédras levou a uma fome generalizada. Ondas de emigrantes tentaram fugir para os Estados Unidos. Aristide, exilado em Washington, tentou conquistar apoio diplomático. Hostil ao programa de Aristide e mordido pelo recente caso Irã-Contras, o primeiro presidente Bush preferiu fingir que nada via. Clinton, confiante de que “a missão é possível e limitada”, foi mais amigável. O sucesso militar no Haiti ajudaria a reparar o dano causado na Somália, e a volta de Aristide interromperia a torrente de refugiados. Entretanto, as condições ditadas pelos Estados Unidos foram exorbitantes. Aristide teve de concordar com a anistia aos golpistas, praticamente perdoando o assassinato de milhares de partidários seus. Foi obrigado a aceitar que seu mandato como presidente do Haiti terminaria em 1995, como se o tivesse cumprido inteiramente. Teria de dividir o poder com os adversários que derrotara completamente em 1990 e adotar a maior parte de suas políticas ultraconservadoras; especificamente, exigiram que implementasse um drástico programa de ajuste estrutural do FMI.

É claro que Aristide tinha perfeita consciência do custo político do ajuste estrutural; seu livro mais recente sobre as conseqüências opressoras da globalização é bastante coerente com seus discursos do final da década de 198011. A questão que começou a dividir o movimento Lavalas em meados dos anos 1990 foi, simplesmente, que tipo de resistência aos objetivos dos Estados Unidos e do FMI seria factível. Até alguém como Christophe Wargny, tão crítico da “virada ditatorial” de Aristide, creditava que “nenhum governo haitiano pode sobreviver sem o apoio norte-americano”12. Como Lakhdar Brahimi – enviado dos Estados Unidos e atualmente em intensa atividade em Bagdá – explicou ingenuamente à rádio haitiana em 1996, nunca houve dúvidas de que os Estados Unidos e a ONU jamais tolerariam a menor tentativa de diluir o monopólio do poder econômico da elite13. Nessas circunstâncias, o novo governo Aristide sentiu que tinha pouco espaço de manobra. E, mesmo recebendo 87% dos votos na eleição presidencial de 1995, embora com um número menor de eleitores, o sucessor de Aristide, René Préval, viu-se em posição ainda mais difícil.

As tentativas do primeiro-ministro de Préval, Rosny Smarth, de impor pela lei o programa impopular do FMI rachariam permanentemente a coalizão Lavalas, tanto dentro do parlamento quanto no país como um todo. Os políticos mais alinhados com as prioridades de Washington e que mais criticavam o estilo de Aristide, condenado como de ponta-cabeça, uniram-se a seu rival Gérard Pierre-Charles para formar uma facção mais “moderada”, que acabou se autodenominando Organisation du Peuple en Lutte [Organização do Povo em Luta]. A partir do final de 1996, Aristide começou a organizar um partido mais coeso com seus próprios partidários, a Fanmi (“família”) Lavalas, aproveitando sua própria autoridade em relação aos pobres haitianos. A divisão entre a OPL e a FL logo se tornou irreversível, paralisando a legislatura e bloqueando a nomeação de um novo primeiro-ministro e de todo o gabinete depois da renúncia de Smarth, em 199714 . Por fim, Préval rompeu o impasse parlamentar dissolvendo a Assembléia Nacional em 1999 e, depois de alguma demora, houve novas eleições em maio de 2000.

A globalização chega ao Haiti

Previsivelmente, o tratamento do FMI para com a pobreza desesperada do Haiti envolvia uma queda ainda maior de salários já reduzidos a níveis de fome, a privatização do setor estatal, a reorientação da produção doméstica para os produtos agrícolas comerciais populares nos supermercados norte-americanos e a eliminação das tarifas de importação. Foi a última dessas medidas, a mais fácil de implantar, que teve o impacto mais imediato. Com a tarifa sobre o arroz reduzida de 50% para os 3% decretados pelo FMI, o Haiti, antes auto-suficiente nesse produto, foi inundado pelo arroz norte-americano subsidiado, e a importação subiu de apenas 7 mil toneladas em 1985 para 220 mil toneladas em 2002. A produção doméstica de arroz praticamente desapareceu15. Um desdobramento semelhante eliminou o setor avícola do Haiti, à custa de cerca de 10 mil empregos. Os fazendeiros haitianos tenderam a associar essa sucessão de eventos com a mais ferozmente detestada das várias intervenções agressivas da comunidade internacional em sua economia doméstica: o extermínio de toda a população nativa de porcos do Haiti – para aplacar os temores dos importadores norte-americanos, preocupados com um surto de peste suína – e sua posterior substituição por animais de Iowa que demandavam condições de vida muito melhores do que as da maior parte da população humana da ilha.

Como resultado dessas e de outras “reformas” econômicas correlatas, a produção agrícola caiu de cerca de 50% do PIB, no final da década de 1970, para apenas 25% no final dos anos 1990. Supunha-se que o ajuste estrutural compensaria o colapso agrário com a expansão dos setores de indústria leve e de montagem. Os salários mais baixos do hemisfério, sustentados pela quase proibição de sindicatos, encorajaram empresas e empreiteiros, sobretudo norte-americanos, a empregar cerca de 60 mil pessoas nesse setor no final dos anos 1970, e, até meados da década de 1990, empresas como Kmart e Walt Disney continuavam a pagar aos haitianos aproximadamente onze centavos de dólar por hora para fazer pijamas e camisetas16. As empresas passam a beneficiar-se de isenções tributárias válidas por até quinze anos, podem repatriar todos os lucros e são obrigadas apenas a fazer investimentos mínimos em equipamento e infra-estrutura17. Em 1999, os haitianos mais afortunados que trabalhavam no pequeno setor industrial e de montagem do país ganhavam salários estimados em menos de 20% do nível de 1981. Ainda assim, taxas de exploração ainda mais dramáticas encorajaram muitas dessas empresas a mudar-se para lugares como China e Bangladesh, e somente umas 20 mil pessoas ainda estavam empregadas nas fabriquetas de Porto Príncipe no fim do milênio. O PIB real per capita em 1999-2000 foi estimado como “substancialmente abaixo” do nível de 199018.

Seria errado pensar que essas reformas foram implementadas com empenho parecido com o da Terceira Via. Pelo contrário, o governo da Lavalas foi constantemente criticado por sua “falta de vigor” pelas instituições financeiras internacionais: “As políticas impostas como condição pelos credores internacionais obtiveram, na melhor das hipóteses, o apoio morno das autoridades locais e, na pior, a rejeição violenta do público”19. Com as costas contra a parede, a Lavalas recorreu às famosas “armas dos fracos”, assim apelidadas por James Scott: uma mistura de prevaricação e não-cooperação evasiva. Isso teve algum sucesso como forma de rechaçar pelo menos um dos principais golpes do ajuste estrutural – a privatização do pouco que sobrava do patrimônio público do Haiti. A Lavalas tinha boas razões para fazer corpo mole. Por exemplo, quando se privatizou a usina de açúcar estatal em 1987, ela foi comprada por uma única família, que prontamente a fechou, demitiu os funcionários e começou a importar açúcar mais barato dos Estados Unidos, para vendê-lo a preços que derrubaram o mercado doméstico. O Haiti, que já fora o mais lucrativo exportador mundial de açúcar, importava, em 1995, 25 mil toneladas de açúcar norte-americano, e a maioria dos camponeses não podia mais comprá-lo20. Em contraste, Aristide demitiu seu primeiro-ministro, em setembro de 1995, por preparar a venda das fábricas estatais de farinha e cimento sem insistir que o FMI honrasse qualquer um dos termos progressistas que prometera – abrir a venda à participação da classe média e de pequenos investidores e garantir que parte do dinheiro gerado fosse para alfabetização, educação e indenizações às vítimas do golpe de 1991. No entanto, Aristide só conseguiu retardar o processo por dois anos. Em 1997, a fábrica de farinha foi devidamente vendida por apenas 9 milhões de dólares, numa época em que seu lucro anual era estimado em 25 milhões de dólares21.

Entretanto, o governo da Lavalas nunca cedeu à pressão dos Estados Unidos para privatizar os serviços públicos do Haiti. Ao mesmo tempo, e com recursos dramaticamente limitados, supervisionou a criação de mais escolas do que em todos os 190 anos anteriores. Imprimiu milhões de cartilhas e criou centenas de centros de alfabetização, oferecendo aulas para mais de 300 mil pessoas; entre 1990 e 2002, o analfabetismo caiu de 61% para 48% da população. Com ajuda cubana, construiu-se uma nova escola de medicina, e a taxa de infecção pelo HIV – herança do turismo sexual das décadas de 1970 e 1980 – foi congelada, com a criação de clínicas e programas de treinamento como parte de uma campanha pública crescente contra a Aids. Houve passos importantes para limitar a exploração generalizada das crianças. O governo de Aristide aumentou as contribuições tributárias da elite e, em 2003, anunciou a duplicação de um salário mínimo de extrema insuficiência22.

A oposição a Aristide

A linha do governo criou inimigos na direita e na esquerda. Não surpreende que Aristide tenha ficado sob o fogo dos que defendiam uma obediência mais entusiasmada aos Estados Unidos e ao FMI, entre eles os (impopularíssimos) primeiros-ministros Smarck Michel (1994-95) e Rosny Smarth (1996-97), além de outros integrantes da OPL. Desde o princípio, a simples presença da Lavalas no governo aterrorizou uma grande parcela da classe dominante. “Na elite haitiana”, explicou Robert Fatton, “o ódio a Aristide era absolutamente incrível, uma obsessão.”23 Com a Lavalas no poder, muitos observadores notaram “uma nova segurança do povo pobre do Haiti”24. Pela primeira vez na lembrança dos vivos, a distribuição da propriedade privada parecia vulnerável, já que casos eventuais de invasão e ocupação de terras não enfrentaram oposição. Embora, na prática, Aristide tendesse a cooperar com os líderes empresariais e os credores internacionais, parecia disposto a pesar a mão no governo com ameaças veladas de violência popular contra os “ladrões burgueses”25. “O pânico tomou a classe dominante”, observa Fatton. “Temia morar perto de la populace e barricou-se contra a Lavalas.”26 Os condomínios fechados multiplicaram-se e os serviços de segurança particular tornaram-se um dos setores de crescimento mais rápido do Haiti. A solidariedade de classe entre as elites ocidentais que se sentiam do mesmo modo ameaçadas, tanto em casa quanto no exterior, explica boa parte da opinião internacional recente sobre o regime da Lavalas.

Enquanto isso, a desconfiança crescente no “populismo demagógico” de Aristide afastou, lentamente, muitos intelectuais estrangeiros ou exilados – René Depestre, James Morrell, Christophe Wargny – que já o tinham apoiado27. Foi ainda mais relevante o fato de que várias organizações camponesas importantes do Haiti, como o Movman Peyizan Papay (MPP), o Tèt Kole Ti Peyizan e a Kozepep, além do pequeno grupo militante Batay Ouvriye, condenaram a Fanmi Lavalas por sua cooperação com o ajuste estrutural e acusaram-na de tornar-se “anti-populaire”. Clément François, da Tèt Kole, falou por muitos críticos da Lavalas quando defendeu que Aristide não deveria ter concordado com as condições norte-americanas que lhe permitiram voltar do exílio: “Ele deveria ter ficado lá fora e deixado os Estados Unidos continuarem a luta pela democracia; em vez disso, concordou em entregar o país de bandeja para que pudesse voltar ao cargo”28. Chavannes Jean-Baptiste, líder do MPP, afirmou a mesma coisa em 1994, pouco antes de envolver-se numa azeda briga pessoal com Aristide.

A real extensão do desgosto popular com a Lavalas é difícil de medir. Em regra, os comentaristas estrangeiros acham “complicado dar crédito à força da comoção que Aristide despertou e continua a despertar no Haiti”29 . Seguramente a Tèt Kole e o MPP ficaram enfraquecidos com sua oposição a Aristide, e nenhum dos dois grupos continua a ser uma força política importante. No fim dos anos 1990, Jean-Baptiste tornou-se aliado da OPL pró-americana de Pierre-Charles, antes de se unir, em 2000, à Convergence Démocratique, abertamente reacionária; a militância de seus partidários foi ofuscada, como observa Stan Goff, “pelo pinga-pinga constante de dólares para projetos que fluíam pela lista quase interminável de organizações não-governamentais que infestam todos os cantos do Haiti”30. A própria OPL é, provavelmente, o partido que mais se parece com aquela alternativa “cívica” à Lavalas tão apreciada pelos comentaristas liberais, mas depois de anos de manobras parlamentares fúteis foi praticamente varrida nas eleições de 200031 .

Em outras palavras, apesar de todas as suas inegáveis falhas, a FL permanece como única força significativa para a mobilização popular no país. Nenhum outro personagem político dos últimos cinqüenta anos chegou perto da estatura de Aristide junto aos pobres urbanos e rurais. Falando de Porto Príncipe em março de 2004, o correspondente da BBC viu-se obrigado a reconhecer que, embora Aristide fosse “universalmente detestado” pela elite rica, ainda era quase universalmente apoiado pela grande maioria dos pobres urbanos32 . O médico e ativista Paul Farmer, que trabalhou no Planalto Central do Haiti desde meados da década de 1980, defende com força ainda maior a profundidade duradoura da popularidade de Aristide no campo33 . A única demonstração apreciável contra a FL durante as eleições mais recentes foi uma manifestação do MPP organizada em setembro de 2000. Reuniu vários milhares de pessoas. Fora isso, a oposição política a Aristide confinou-se quase por inteiro às fileiras da classe dominante34 . A elite haitiana achou difícil conquistar apoio nas ruas. Um relatório da Economist Intelligence Unit descreve assim o protesto anti-Aristide realizado em novembro de 2003 pelo “Grupo dos 184”, que afirma representar uma faixa ampla de organizações da sociedade civil:

Na manhã da manifestação, algumas centenas de partidários do Grupo dos 184 reuniram-se no lugar marcado, mas viram-se sobrepujadas em número por cerca de 8 mil seguidores de Aristide. Quando alguns partidários do governo jogaram pedras e gritaram ameaças para seus adversários, a polícia lutou para manter a ordem. Como a situação se deteriorava rapidamente, a polícia dispersou a multidão com gás lacrimogêneo e disparou para o ar com munição de verdade. Enquanto isso, o carro de som do Grupo dos 184 foi detido pela polícia a caminho da manifestação, e trinta pessoas que iam junto num comboio foram presas quando a polícia encontrou armas ilegais. Claramente incapaz de agir como planejado, os organizadores do Grupo dos 184 cancelaram a manifestação antes mesmo que ela começasse [...] André Apaid [coordenador do Grupo] disse que o episódio demonstrou que as autoridades não permitiam que seus adversários se reunissem e, portanto, não previam eleições justas.

O relatório deixou de mencionar que Apaid é um empresário internacional que possui várias fábricas no Haiti, fundou o canal de TV comercial mais importante do país e foi um dos líderes de uma campanha de 2003 para rejeitar a decisão de Aristide de dobrar o salário mínimo. No entanto, o relatório observa que:

O comparecimento à manifestação foi menor do que o sugerido pela declaração do Grupo de que teria como membros mais de 300 organizações. Mal conseguiram reunir um número de manifestantes maior que esse. A presença na manifestação de muitos integrantes do setor mais rico da sociedade reforçou a opinião de que o Grupo dos 184, apesar de suas pretensões de representar a sociedade civil, é uma organização com pouco apelo popular. Essa interpretação foi confirmada pelo fracasso de uma “greve geral” convocada pelo Grupo em 17 de novembro. Embora muitas empresas privadas de Porto Príncipe, inclusive bancos e escolas particulares, não tenham aberto as portas, os bancos estatais, os órgãos do governo e o transporte público, assim como as feiras, funcionaram normalmente. No restante do país, a greve foi em grande parte ignorada.35

O divisor de águas de maio de 2000

Entretanto, apesar da preponderância maciça de seu apoio popular, nem Préval nem Aristide, nos períodos de 1991 e 1994-95 no cargo, conseguiram governar com apoio total do parlamento. Mas, nas eleições parlamentares e locais de maio de 2000, a Fanmi Lavalas unida conquistou maioria em todos os níveis do governo, ocupando 89 dos 115 cargos de prefeito, 72 das 83 cadeiras da Câmara dos Deputados e 18 das 19 cadeiras disputadas no Senado36. As eleições de 1995 já tinham “desacreditado por completo os chamados partidos políticos tradicionais, sobretudo aqueles que colaboraram com o regime militar entre 1991 e 1994”, eliminando-os efetivamente de todo novo papel na política eleitoral37. Em maio de 2000, os integrantes da coalizão Lavalas original que se voltaram contra Aristide sofreram o mesmo destino. Para a oposição anti-Aristide, as eleições provaram que não havia possibilidade de derrotar a FL nas urnas em futuro próximo.

Foi nesse ponto que a campanha para desacreditar o governo da Lavalas entrou numa fase nova e mais intensa. No verão de 2000, a maioria dos adversários de Aristide – dissidentes como a OPL de Pierre-Charles e o MPP de Jean-Baptiste, junto com evangélicos de direita, líderes empresariais e ex-duvalieristas – reuniu-se para formar a Convergence Démocratique. Desde o início, o principal objetivo da CD era a “Option Zéro”: a anulação total das eleições de 2000 e a proibição de que Aristide participasse de qualquer votação subseqüente38 . Para fazer essa estratégia parecer compatível com as convenções democráticas, a CD teve, primeiro, de redobrar seus esforços para retratar a FL como irredimivelmente antidemocrática, autoritária, violenta e corrupta – acusações já conhecidas havia muito tempo na propaganda que acompanhou o golpe de Cédras em 199139.

A prioridade foi lançar dúvidas sobre a legitimidade da vitória eleitoral da FL. O pretexto, nesse caso, foi um problema técnico de somenos importância apontado por observadores da Organização dos Estados Americanos. Na verdade, a OEA descrevera as eleições de maio de 2000 como “um grande sucesso para a população haitiana, que compareceu em peso e em ordem para escolher seus governantes locais e nacionais. Estimados 60% dos eleitores registrados foram às urnas” e “pouquíssimos” incidentes de violência e fraude foram relatados. Até o Centre for International Policy [Centro de Política Internacional], ferrenhamente contrário à FL, concordou que as eleições de maio de 2000 tinham sido “as melhores até então” realizadas no Haiti40. A OEA, mais tarde, caracterizou as eleições como “falhas” não porque contestasse a justeza da votação ou a clareza avassaladora de seu resultado, mas porque, depois de registradas as vitórias da Lavalas, fez objeções à metodologia usada pelo Conselho Eleitoral Provisório (CEP) do Haiti para contar os votos de oito cadeiras do Senado. Em vez de incluir todos os candidatos menos populares em seu cálculo dos percentuais de votação, o CEP – que a constituição do Haiti identifica como árbitro único e derradeiro em todas as questões eleitorais – decidiu contar apenas os votos dados aos quatro primeiros candidatos de cada disputa. Com esse método, os candidatos da Lavalas conquistaram dezesseis cadeiras do Senado no primeiro turno, obtendo em média 74% dos votos41.

A própria OEA esteve intimamente envolvida na elaboração dessa forma de cálculo, e não há boas razões para acreditar que o equilíbrio de poder no Senado seria diferente caso fosse usado outro método. Os resultados são coerentes tanto com os números inquestionáveis registrados na votação para a Câmara dos Deputados, feita ao mesmo tempo, quanto com uma pesquisa Gallup encomendada pelos Estados Unidos e realizada em outubro de 2000. Em novembro do mesmo ano, Aristide venceu a eleição presidencial com 92% dos votos válidos, com uma participação do eleitorado estimada, pelos poucos observadores internacionais que ficaram no país, em cerca de 50% (embora a oposição tenha afirmado que tal participação fora muito menor do que isso).

Ajuda sufocante

A resposta imediata do governo Clinton foi agarrar-se à objeção da OEA aos cálculos para as vagas no Senado a fim de justificar um embargo debilitante da ajuda estrangeira – escrúpulos democráticos que não combinam bem com o apoio de Washington às ditaduras dos Duvalier e das juntas militares que as sucederam. Em abril de 2001, depois de cortar seu próprio auxílio ao governo do Haiti, os Estados Unidos impediram a liberação de 145 milhões de dólares de empréstimos já aprovados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e de mais 470 milhões programados para os anos seguintes. Em 1995, o governo haitiano recebeu perto de 600 milhões de dólares de auxílio. Em 2003, o orçamento total do governo reduzira-se a apenas 300 milhões, abaixo de 40 dólares anuais per capita para seus 8 milhões de cidadãos, menos o pagamento anual de 60 milhões de dólares da dívida nacional (45% da qual fora contraída pelas ditaduras dos Duvalier)42. A resposta do FMI e dos outros credores internacionais foi obrigar o Haiti a fazer cortes ainda mais profundos no orçamento e pagar quantias ainda mais elevadas de amortização.

Poucos governos sobreviveriam a um ataque financeiro tão permanente. O efeito combinado dessas medidas foi arrasar uma economia já abalada. O PIB haitiano caiu de 4 bilhões de dólares em 1999 para 2,9 bilhões em 2003. Embora as exportações norte-americanas para o Haiti tenham subido substancialmente nos últimos anos, a maioria dos haitianos vive hoje à beira da fome, sem acesso a água tratada nem remédios; a renda média chega a pouco mais de um dólar por dia, e o desemprego flutua em torno de 70%. Em 2001, Aristide, falido, concordou com praticamente todas as concessões exigidas por seus adversários: obrigou os ocupantes das cadeiras questionadas do Senado a renunciar, aceitou a participação de vários ex-partidários de Duvalier em seu novo governo, concordou em convocar um novo CEP mais afinado com a oposição e a realizar outro turno de eleições parlamentares vários anos antes do previsto. Mas ainda assim os Estados Unidos recusaram-se a suspender o embargo à ajuda financeira.

A prioridade seguinte da campanha da CD foi retratar a FL como fundamentalmente autoritária e corrupta. É claro que havia certa base para isso. O fluxo de drogas – havia muito tempo que o Haiti era uma escala para a cocaína colombiana que seguia para o norte – aumentou desde 1990. Como noutros países destituídos, o clientelismo continua generalizado, ainda que bem menor que a “pirataria oficialmente sancionada” característica do período pré-Lavalas43. O mais grave é que a herança de violência do Haiti, desde a época colonial até as ditaduras encabeçadas por Duvalier, Namphy e Cédras, deixou cicatrizes profundas; o próprio Aristide sobreviveu a várias tentativas de homicídio. O ataque assassino à Lavalas durante seu primeiro exílio levou alguns grupos pró-FL, como a Jeunesse Pouvoir Populaire [Juventude Poder Popular] e a Petite Communauté de L’Église de Saint Jean Bosco [Pequena Comunidade da Igreja de São João Bosco], a adotar formas semimilitares de autodefesa contra os ex-soldados desmobilizados mas não desarmados em 1995. Com certeza os grupos armados ligados à Lavalas são responsáveis por parte da violência dos últimos anos. Os críticos da FL logo igualaram esses grupos aos Tonton Macoutes de Duvalier44.

No entanto, em termos comparativos, a violência política durante os governos da Lavalas foi muito menor do que nos regimes haitianos anteriores. Os relatórios da Anistia Internacional para os anos 2000-03 atribuem à polícia e aos partidários da FL um total de mais ou menos vinte ou trinta homicídios – muito longe dos 5 mil cometidos pela junta e seus partidários em 1991-94 e mais longe ainda dos 50 mil que costumam ser atribuídos às ditaduras Duvalier45 . O exame da violência da Lavalas indicaria também que, na verdade, era em grande parte uma questão de brigas entre grupos. Há grupos armados em Porto Príncipe, assim como em São Paulo, Lagos ou Los Angeles; seu número inchou nos últimos anos com a deportação para a ilha de mais de mil haitianos e haitiano-americanos condenados pelo sistema prisional dos Estados Unidos. Acima de tudo, é preciso destacar que a parte do leão da violência recente no Haiti foi perpetrada pelas tropas paramilitares treinadas nos Estados Unidos e mobilizadas pelos adversários do regime Lavalas desde o verão de 2001.

Ataque final

As restrições econômicas paralisaram o governo da Lavalas, e a pressão política o encurralou, mas, no fim das contas, só a coação militar à moda antiga, no modelo dos Contras, poderia desalojá-lo do poder. Personalidades de liderança na Convergence Démocratique não fizeram segredo de suas intenções na época da nova posse de Aristide como presidente, em fevereiro de 2001; clamaram abertamente por outra invasão norte-americana, “desta vez para acabar com Aristide e reconstruir o exército haitiano desmobilizado”. Se isso falhasse, disseram ao Washington Post, “a CIA deveria treinar e equipar oficiais haitianos exilados na vizinha República Dominicana para que eles mesmos pudessem encetar a própria volta”46. Parece que os Estados Unidos obedeceram ao pé da letra as instruções.

A revolta que acabou provocando o segundo golpe começou exatamente quando parecia que o novo governo Aristide estaria afinal fazendo algum progresso político. Pouco depois de conversações realizadas em meados de julho de 2001 no Hotel Montana, Pierre-Charles, da OPL, e outros líderes da CD admitiram estar a ponto de chegar a um “acordo total” com a FL. Menos de duas semanas depois, em 28 de julho, grupos de veteranos do exército realizaram ataques contra postos policiais ao longo da fronteira da República Dominicana, matando pelo menos cinco guardas. O que aconteceu depois é típico do padrão que persistiu até o término da “Option Zéro” em 29 de fevereiro de 2004. O governo prendeu 35 suspeitos ligados aos ataques, inclusive alguns partidários da CD. Com a aprovação do embaixador dos Estados Unidos, a CD reagiu rompendo todas as negociações com a FL, alegando que o próprio Aristide encenara os ataques para justificar a ofensiva a seus adversários. Um desdobramento semelhante ocorreria com o incidente importante que se seguiu: um ataque em grande escala ao Palácio Presidencial em dezembro de 200147.

Em outras palavras, o que na realidade começou a se desencadear no Haiti em 2001 foi menos “uma crise dos direitos humanos” do que uma guerra de baixo nível entre elementos das antigas forças armadas e o governo eleito que os desmobilizara. Os relatórios da Anistia Internacional indicam que pelo menos vinte policiais ou partidários da FL foram mortos por veteranos do exército em 2001 e mais 25 em novos ataques paramilitares em 2003, principalmente no baixo planalto central, perto da fronteira dominicana monitorada pelos norte-americanos. A militarização de alguns grupos regionais da FL foi uma conseqüência quase inevitável. Em sua maioria, os líderes conhecidos dessa revolta foram treinados pelos Estados Unidos e, embora seja difícil encontrar indícios do apoio direto de Washington aos “rebeldes”, as alianças norte-americanas ficaram perfeitamente explícitas na esteira da expulsão de Aristide.

No outono de 2003, os guerrilheiros sediados na fronteira (liderados por Louis Jodel Chamblain e Guy Philippe) ficaram fortalecidos com uma nova revolta dentro do próprio Haiti liderada por Jean Tatoune. Apesar de suas ligações íntimas com os Estados Unidos e da condenação por seu papel no Massacre de Raboteau, em 1994, Tatoune conseguiu virar contra a Lavalas o bando sediado em Gonaïves conhecido como “Exército Canibal”, depois de fazer a denúncia implausível mas muito noticiada de que Aristide estava por trás do assassinato, em setembro de 2003, de seu ex-líder Amiot Métayer, por muito tempo ativista da Lavalas e que também era inimigo igualmente antigo de Tatoune.

Exigência de reembolso

Em abril de 2003, Aristide, desesperadamente sem dinheiro, tentou unir seus conterrâneos com a exigência de que, no ano do bicentenário da independência haitiana, a França reembolsasse os 90 milhões de francos que o Haiti fora obrigado a pagar entre 1825 e 1947 como compensação pela perda da propriedade colonial. Supondo um retorno modesto de 5% de juros anuais, calculou que a quantia equivaleria então a 21 bilhões de dólares norte-americanos. Como observou Michael Dash, “Aristide conseguiu muito apoio para essa pretensão, dentro e fora do Haiti”, sobretudo na África e na América Latina48 . Diversamente da maioria das exigências de reparação relativas à escravidão ventiladas hoje em dia, a pretensão haitiana refere-se a uma quantia exata e documentada extraída em moeda forte pela potência colonial. Embora tenha desdenhado de pronto tal pretensão, o governo francês ficou claramente irritado, e Chirac logo recorreu a ameaças: “Antes de fazer reivindicações dessa natureza”, alertou em meados de 2003, “é preciso reiterar às autoridades do Haiti a necessidade de estarem muito atentas – como direi – à natureza de suas ações e do seu regime”49.

A comissão despachada pelo Ministério do Exterior para elaborar uma defesa mais “filosófica” da posição francesa concluiu devidamente que, embora o Haiti tivesse sido de fato “impecável” em seus pagamentos à França, não havia “base legal” para a reivindicação de reembolso. Com aplausos gerais dos meios de comunicação franceses, o Relatório da Comissão descreveu a exigência da FL como “propaganda agressiva” baseada numa “contabilidade alucinatória”. Observou, com alguma satisfação, que “nenhum membro da oposição democrática a Aristide leva a sério as pretensões de reembolso”. Reconheceu, contudo, que faltava à oposição e aos paramilitares “força mobilizadora” suficiente para encerrar a questão, e que os norte-americanos, embora atrapalhados por considerações domésticas (“boat-people [refugiados], Black Caucus”), buscavam um “modo honroso de sair da crise”. Insistia que um envolvimento francês “mais afirmativo” no Haiti não se realizaria contra os interesses dos Estados Unidos, mas num espírito de “harmonia e visão de futuro”. Estava em jogo uma oportunidade de “coordenação audaciosa e resoluta”50.

Sem essa intervenção, como admitia o Relatório, o governo da Lavalas não poderia ser desalojado. A pedra no caminho era a popularidade constante de Aristide. O bombardeio dos últimos quinze anos tinha cobrado seu preço a esse apoio, mas, como conclui o estudo mais detalhado – e de modo algum acrítico – dos últimos anos, sem dúvida alguma Aristide ainda gozava de “popularidade inquestionada e avassaladora” diante da massa de haitianos51. A pesquisa Gallup realizada em outubro de 2000 classificou a FL como treze vezes mais popular que o concorrente mais próximo, e mais da metade dos entrevistados identificou Aristide como o líder em quem mais confiavam52. Segundo a última avaliação confiável, outra pesquisa Gallup, realizada então em março de 2002, a FL continuava quatro vezes mais popular que todos os seus concorrentes importantes juntos53.

A volta da velha guarda

Os reais objetivos da ocupação que começou em 29 de fevereiro de 2004 são perfeitamente visíveis: silenciar ou obliterar todos os vestígios desse apoio. Durante a primeira semana de sua mobilização, a invasão franco-americana agiu quase exclusivamente em bairros pró-Aristide e só matou partidários da FL. Seu novo primeiro-ministro fantoche, Gérard Latortue (um ex-representante da ONU de 69 anos e apresentador de um programa de entrevistas em Miami), abraçou publicamente Tatoune, genocida condenado, e seus ex-soldados rebeldes de Gonaïves como “combatentes da liberdade” – ação interpretada pelo New York Times como “uma mensagem clara de estabilidade”54 . O “governo de unidade nacional” de Latortue compõe-se exclusivamente de integrantes da elite tradicional. Em 14 de março, a polícia haitiana começou a prender militantes da Lavalas como suspeitos de crimes não-identificados, mas decidiu não perseguir os líderes do esquadrão da morte rebelde, nem mesmo aqueles já condenados por atrocidades. O novo chefe de polícia nacional, Léon Charles, explicou que, embora “haja um monte de partidários de Aristide” a ser presos, o governo “ainda tem de tomar uma decisão sobre os rebeldes – isso está além do meu poder”55 . Em 22 de março, o novo Ministro do Interior de Latortue, o ex-general Hérard Abraham, anunciou planos para integrar os paramilitares à força policial e confirmou sua intenção de restabelecer o exército que Aristide abolira em 199556 . No final de março, os esquadrões da morte anti-Aristide continuavam a controlar a segunda maior cidade do país, Cap Haïtien, onde “dúzias de corpos crivados de balas foram levados para o necrotério no mês passado”57 . Enquanto dezenas de outros partidários de Aristide eram mortos em todo o país, a Guarda Costeira dos Estados Unidos aplicou a ordem de Bush e manteve a costumeira prática norte-americana (mas em violação flagrante da lei internacional) de recusar antecipadamente todos os pedidos haitianos de asilo.

A resolução do Conselho de Segurança que, em 29 de fevereiro de 2004, determinou a criação da força invasora franco-americana como Força Provisória Multinacional da ONU falava numa posterior Missão de Estabilização das Nações Unidas que assumiria o comando três meses depois. Em março, Kofi Annan enviou devidamente seu assessor especial, John Reginald Dumas, e Hocine Medili para avaliar a situação no local. O “Relatório do Secretário-Geral sobre o Haiti”, publicado em abril, levou os eufemismos obscuros do discurso da ONU a um novo nível. “É uma infelicidade que, no ano de seu bicentenário, o Haiti tenha de apelar novamente à comunidade internacional para ajudá-lo a superar uma grave situação política e de segurança”, escreveu Annan. As circunstâncias da derrubada do presidente eleito foram contornadas com todo o decoro, e o Secretário-Geral só observou que “antes, em 29 de fevereiro, o sr. Aristide deixou o país”. A derrubada do governo constitucional foi vista como oportunidade de “um futuro pacífico, democrático e de propriedade local” para os haitianos58.

Estava claro que a concretização daquele futuro teria de ser um pouco retardada. Annan observou que, embora todos os partidos políticos locais, como a Fanmi Lavalas e a Convergence Démocratique, esperassem eleições gerais antes do final de 2004, “integrantes da sociedade civil e a comunidade internacional são da opinião de que seria necessário mais tempo”. Além disso, a democracia – quando chegasse a hora – deveria começar em nível municipal, já que “a vida política do Haiti foi dominada com demasiada freqüência por eleições presidenciais altamente personalizadas, promovendo a retórica inflamada e afastando a atenção da população dos desafios locais”. Em 29 de abril, o Conselho de Segurança aprovou por unanimidade o envio da Força de Estabilização da ONU, com efetivo de 8300 soldados, a partir de 1º de junho, sob a liderança do Brasil de Lula, para “promover o governo democrático” e, naturalmente, “dar poder ao povo haitiano”. Entre os modelos de dar poder ao povo pelo envio de tropas ao Haiti estão Nepal, Angola, Benin e Paquistão59 . “Ficaremos até a democracia ser reinstaurada”, anunciou o embaixador chileno na ONU, cujo país uniu-se à força invasora inicial, ao lado dos Estados Unidos, da França e do Canadá. Em breve este último pode sofrer nova pressão para provar sua lealdade, já que, em razão da Costa do Marfim e do Burundi, a ONU diz ter dificuldade para reunir suficientes soldados francófonos para todas as missões em andamento. Como confessou David Wimhurst, porta-voz da ONU, ao Los Angeles Times: “Há um surto de manutenção da paz e uma redução do número de soldados. Estamos preocupados porque os países de língua francesa terão dificuldades em se responsabilizar pela tarefa”60.

Haiti exemplar

Em 1804, o resultado da guerra de independência do Haiti foi um golpe sem precedentes na ordem colonial. A vitória comemorada há duzentos anos inspiraria gerações de líderes revolucionários de toda a África e das Américas. O triunfo que o neocolonialismo obteve em fevereiro de 2004 visava claramente a garantir que o Haiti jamais será outra vez “a ameaça de um bom exemplo”. Reduzido à pobreza e à dependência do crédito pelo pagamento de indenizações à sua ex-senhora colonial, o país foi ainda mais brutalizado pela polarização dramática de riqueza e poder imposta por sua minúscula elite governante. Em meados da década de 1980, as violentas e corruptas ditaduras Duvalier terminaram provocando um movimento de protesto de massas poderoso demais para ser controlado. Quando a elite haitiana perdeu a confiança na capacidade de Jean-Claude Duvalier de manter o status quo, buscou, de início, meramente substituir seu regime por outro tipo de comando militar. Essa solução durou de 1986 a 1990, mas o exército só podia reprimir o movimento crescente recorrendo a níveis inaceitáveis de violência pública. A repressão incansável levou o Haiti à beira da revolução.

O que começou depois da vitória eleitoral da Lavalas em 1990 foi a mobilização de uma estratégia mais ou menos nova para desarmar essa revolução, num momento em que a Guerra Fria não oferecia mais justificativas automáticas para o uso avassalador da força na repressão de movimentos de massa. Pensada não só para suprimir o movimento popular como para desacreditá-lo e destruí-lo totalmente, essa estratégia tinha como chave a implementação de medidas econômicas que visavam a intensificar o nível já debilitante de pobreza das massas – medidas apoiadas pela repressão militar à moda antiga e pela propaganda que pretendia retratar a resistência aos interesses da elite como antidemocrática e corrupta. A operação teve um sucesso notável – sucesso tão grande que, em 2004, com o apoio entusiasmado dos meios de comunicação, da ONU e da mais ampla “comunidade internacional”, resultou na remoção de um governo constitucionalmente eleito cujos líderes sempre gozaram do apoio da grande maioria da população.

Há todas as razões possíveis para suspeitar que, no fim deste ano, muitas centenas de ativistas da FL estarão mortos. Com eles morrerá a possibilidade de reconstruir algum movimento popular inclusivo durante pelo menos mais uma geração. Os líderes da Lavalas tinham muitas falhas e há muito o que aprender com sua derrota. Mas a Lavalas foi a única organização do último meio século a mobilizar com sucesso as massas haitianas num questionamento social e político de sua situação intolerável, e foi removida do poder mediante os esforços conjuntos daqueles que, por razões óbvias, temiam esse questionamento e a ele se opunham. Se a Lavalas continua a ser uma força amargamente divisiva, isso se deve, em grande parte, ao fato de ter sido o único movimento popular em grande escala a questionar as desigualdades maciças de poder, influência e riqueza que sempre dividiram a sociedade haitiana. O fato de que a Lavalas pouco tenha conseguido fazer para reduzi-las revela menos as fraquezas do movimento do que a força extraordinária dessas desigualdades hoje em dia.

Notas:

[1] Sou muito grato a Paul Farmer, Brian Concannon, Randall White, Charles Arthur, Dominique Esser, Richard Watts e Cécile Winter pela ajuda em várias partes deste artigo.

[2] Régis Debray, Rapport du comité indépendant de réflexion et de propositions sur les relations francohaïtiennes, janeiro de 2004, p. 5, 53.

[3] Conselho de Segurança da ONU, Report of the Secretary-General on Haiti, 16/4/2004.

[4] Ver Patrick Sabatier, Libération, 31/12/2003 e 24/2/2004.

[5] Financial Times, 2/3/2004; International Herald Tribune, 4/3/2004; Sabatier, Libération, 1/3/2004; Elaine Sciolino, New York Times, 3/3/2004.

[6] Debray, Rapport, cit., p. 6, 9.

[7] Robin Blackburn, The overthrow of colonial slavery (Londres, 1989), p. 258. Hallward, “Haitian inspiration: notes on the bicentenary of Haiti’s independence”, Radical Philosophy, 123, janeiro-fevereiro de 2004.

[9] Carolyn Fick, The making of Haiti: the Saint Domingue revolution from below (Knoxville, 1990), p. 249; Banco Mundial, Haiti: the challenges of poverty reduction, agosto de 1998, p. 4.

[10] Mark Danner, “Haiti on the verge”, New York Review of Books, 4/11/1993.

11 Aristide, Eyes of the heart: seeking a path for the poor in the age of globalization (Monroe, Maine, 2000).

12 Wargny, Le Monde, 23/2/2004; e Haïti n’existe pas (Paris, 2004).

13 A elite, explicou Brahimi, deveria “saber duas coisas: que as mudanças políticas são inevitáveis, mas que, na frente ideológica e econômica, têm a simpatia do Grande Irmão, o capitalismo”. Citado em Haiti Briefing, n. 25, setembro de 1997.

14 Ver Kim Ives em Haïti Progrès, 12/3/2003 e 27/11/2002.

15 Oxfam, Trade Blues, maio de 2002.

16 National Labor Committee , The US in Haiti: how to get rich on 11 cents an hour (Nova York, 1996), e NLC, Why is Disney lying? (Nova York, 2004); ver também Ray Laforest em Haïti Progrès, 13/8/1997.

17 Charles Arthur, Haiti in focus (Londres, 2002), p. 51.

18 Economist Intelligence Unit, Haiti: country profile 2003, p. 24, 19.

19 Ibidem, p. 17.

20 Lisa McGowan, Democracy undermined, economic justice denied: structural adjustment and the aid juggernaut in Haiti (Washington, DC, 1997).

21 Aristide, Eyes of the heart, cit., p. 31, 15.

22 Para um resumo dessas realizações, ver especificamente o folheto de 2003 do Haiti Action Committee, Hidden from the headlines: the US war against Haiti.

23 Fatton, citado em Marty Logan, “Class hatred and the hijacking of Aristide”, Inter Press Service News Agency, 16/3/2004.

24 David Nicholls, From Dessalines to Duvalier: race, colour, and national independence in Haiti (New Brunswick, New Jersey, 1996).

25 Sobre a antiga mistura de retórica revolucionária e prática constitucional de Aristide, ver Mark Danner, “The fall of the prophet”, New York Review of Books, 2/12/1993, e Alex Dupuy, Haiti in the New World Order: the limits of the democratic revolution (Boulder, Colorado, 1997), p. 128-9.

26 Robert Fatton, Haiti’s predatory republic: the unending transition to democracy (Boulder, Colorado, 1997), p. 86-7.

27 Tracy Kidder, “Trials of Haiti”, The Nation, 27/10/2003.

28 François citado em “Behind Aristide’s fall”, Socialist Worker, 12/3/2004, p. 6.

29 Arthur, Haiti in focus, cit., p. 60; cf. Paul Farmer, The uses of Haiti (Monroe, Maine, 2003), p. 113-4.

30 Stan Goff, “A brief account of Haiti”, BRC-NEWS, outubro de 1999; cf. Goff, Hideous dream: a soldier’s memoir of the US invasion of Haiti (Nova York, 2000).

31 Wargny, “Haiti’s last chance”, Le Monde Diplomatique, julho de 2000.

32 Lak, “Poverty and pride in Port-au-Prince”, BBC Radio 4, 20/3/2004.

33 Farmer, Uses of Haiti, cit., p. 348-75; Farmer, “Who removed Aristide?”, London Review of Books, 15/4/2004.

34 Ver Béatrice Pouligny, Libération, 13/2/2001; Fatton, Haiti’s predatory republic, cit., p. 144-7, 169, nota 40.

35 EIU, Country Report January 2004: Dominican Republic, Haiti, p. 40-1.

36 Criada pela Constituição de 1987, a Assembléia Nacional é formada de uma Câmara de Deputados com 84 participantes, eleitos diretamente pelos municípios, e um Senado de 27 cadeiras, no qual cada três senadores representam uma das nove províncias do Haiti.

37 Dupuy, Haiti in the New World Order, cit., p. 172.

38 Entre junho de 2000 e fevereiro de 2004, a CD rejeitou todas as ofertas da FL de novas eleições até a tentativa final de solução pacífica para o conflito, uma proposta intermediada pela Caricom e aprovada pela OEA em meados de fevereiro de 2004, segundo a qual Aristide aceitaria um de seus adversários como primeiro-ministro, realizaria novas eleições parlamentares e cumpriria o restante do mandato com poderes muito limitados. Aristide imediatamente aceitou a proposta, assim como a França e os Estados Unidos. A CD também recusou-a de imediato e depois conseguiu de algum modo “persuadir” seus patronos imperiais a segui-la, deixando a Aristide a escolha entre o exílio e a guerra civil.

39 Quanto a 1991, ver as contribuições importantes do repórter Howard French, do New York Times, como “Aristide’s autocratic ways ended Haiti’s embrace of democracy”, New York Times, 22/10/1991. De várias maneiras, os artigos de French parecem esboços preliminares dos ataques recentes, como a tirada de Andrew Gumbel: “The little priest who became a bloody dictator like the one he once despised” [“O padreco que se tornou um ditador sanguinolento como o outro que desprezava”], Independent, 21/2/2004; Lyonel Trouillot, “In Haiti, all the bridges are burned”, New York Times, 26/2/2004; Peter Dailey, “Fall of the house of Aristide”, New York Review of Books, 13/3/2003. Kim Ives submete esse último artigo a uma refutação ponto a ponto em Haïti Progrès, 12/3/2003.

40 Relatório Final da Missão da OEA no Haiti, 13/12/2000, p. 2. Um relatório mais substancial da International Coalition of Observers concluiu igualmente que as eleições de 2000 foram ao mesmo tempo “justas e pacíficas”: Melinda Miles e Moira Feeney, Elections 2000: participatory democracy in Haiti, fevereiro de 2001; Henry Carey, “Not perfect, but improving”, Miami Herald, 12/6/2000.

41 Haïti Progrès, 31/5/2000. Na província do nordeste, para usar um dos exemplos menos favoráveis à Lavalas, houve um total de 132.613 votos para duas cadeiras do Senado. Se fossem contados os votos de todos os candidatos, seriam necessários 33.154 votos para conquistar uma cadeira no primeiro turno; somando apenas os quatro candidatos mais votados, os da FL – que receberam respectivamente 32.969 e 30.736 votos; seu rival mais próximo teve menos de 16 mil votos – entraram com confortável maioria. O líder da CEP sustentou que esse método estava de acordo com a prática anterior (Haïti Progrès, 28/6/2000). Isso foi questionado pelo Departamento de Estado norte-americano e por adversários da FL (James Morrell, “Snatching defeat from the jaws of victory”, Centre for International Policy, agosto de 2000).

42 Anne Street, Haiti: a nation in crisis, texto de divulgação do Catholic Institute for International Relations (Londres, 2004), p. 4.

43 Janice Stromsem e Joseph Trincellito, “Building the Haitian national police”, Haiti Papers, n. 6 (Washington, DC, abril de 2003).

44 Jean-Claude Jean e Marc Maesschalck, Transition politique en Haïti: radiographie du pouvoir Lavalas (Paris, 1999), p. 104-11.

45 Em 2000, a Anistia noticiou que “alguns candidatos eleitorais, membros do partido e parentes seus foram mortos, em sua maioria por agressores não-identificados”; entre os mortos, o corajoso radiojornalista Jean Dominique. Houve também “vários relatos de assassinatos ilegais cometidos pela polícia; a maioria das vítimas era suspeita de crimes”. Em 2001, outro jornalista, Brignol Lindor, foi morto “por uma multidão que incluía integrantes de uma organização pró-FL”, e a Anisitia se refere a “vários homicídios de supostos suspeitos de crime pela polícia ou por multidões realizando ‘justiça popular’ ”, mas só identifica uma dessas vítimas (Mackenson Fleurimon, que “em 11 de outubro foi morto a tiros supostamente pela polícia no bairro Cité Soleil, de Porto Príncipe”). Em 2002, “afirma-se que pelo menos cinco pessoas foram mortas” em confrontos entre integrantes de partidos adversários, e sete pessoas (três delas identificadas como partidários da FL) parecem ter sido executadas ou estão “desaparecidas”. A Anistia também se refere a duas outras mortes em 2002: o homicídio a tiros de Christophe Lozama, juiz de paz partidário da FL, e o assassinato do guarda-costas da viúva de Jean Dominique. À espera da publicação do relatório de 2004 (que cobrirá 2003), um resumo provisório publicado em 8/10/2003 fala do aumento da violência em choques entre partidários e adversários da FL; identifica dois partidários da FL mortos em confrontos com a polícia e cita as declarações do governo de que quatro outros seguidores seus foram mortos em Cité Soleil. Todos os relatórios estão em www.amnesty.org. Ver também Arthur, Haiti in focus, cit., p. 25; Patrick Bellegarde Smith, Haiti: no breached citadel (Boulder, Colorado, 1990), p. 97-101.

46 Washington Post, 2/2/2001.

47 Fatton, Haiti’s predatory republic, cit., p. 184-5, 206-7.

48 Citado em Dionne Jackson Miller, “Aristide’s call for reparations from France unlikely to die”, Inter Press Service News Agency, 12/3/2004.

49 Miami Herald, 18/12/2003; Heather Williams, “A coup for the Entente Cordiale! Why France joined the US in Haiti”, Counterpunch, 16/2/2004.

50 Debray, Rapport, cit., p. 13, 11, 12, 52-4.

51 Fatton, Haiti’s predatory republic, cit., p. 182.

52 Na pesquisa de outubro de 2000, os rivais mais próximos de Aristide, Evans Paul e Gérard Pierre-Charles, ambos desafetos da coalizão Lavalas original, só tiveram 3,8% e 2,1% respectivamente; o pobre Bazin, rival de Aristide em 1990, teve menos de 1%.

53 Uma rápida troca de palavras no início de março no principal noticiário da BBC ilustra como esse apoio foi tratado pelos meios de comunicação mundiais. Depois de uma breve entrevista com o agora exilado Aristide, na qual ele repetiu sua declaração de que foi forçado a abandonar o cargo por pressão dos Estados Unidos, o âncora do programa voltou-se para o correspondente da BBC em Porto Príncipe, Daniel Lak, e perguntou, da maneira imparcial característica da empresa: “Então não foi tudo forjado, Aristide tem mesmo gente que o apóia, não é apenas um punhado de brutamontes pagos por ele?”. E Lak respondeu: “Ah, de jeito nenhum. Quem o apóia são os pobres deste país, a imensa maioria. Há 8 milhões de haitianos, e provavelmente 95% deles são paupérrimos [...] São os ricos e a pequena classe média que apóiam os adversários de Aristide, e os pobres em geral apóiam Aristide”. E as explicações conflitantes sobre a partida de Aristide? Foi mesmo um golpe ou uma renúncia voluntária? “É possível investigar e determinar a verdade a esse respeito”, perguntou o âncora, “ou é difícil demais, de onde você está?” A resposta de Lak diz tudo: “Acho bem difícil, hum... As duas opções são bastante viáveis. Mas está claro que os americanos querem ver o sr. Aristide pelas costas” (“The world at one”, BBC Radio 4, 8/3/2004).

54 New York Times, 21/3/2004.

55 Michael Christie, “Haiti police begin rounding up Aristide associates”, Reuters, 14/3/2004.

56 Ibon Villelabeitia e Joseph Guyler Delva, “Haiti to integrate rebels into police force”, Reuters, 23/3/2004.

57 Paisley Dodds, “Cap-Haïtien scene”, Associated Press, 23/3/2004.

58 Conselho de Segurança da ONU, “Report of the Secretary-General on Haiti”, 16/4/2004, p. 31, 3.

59 Votaram a favor da força de ocupação, além dos cinco membros permanentes: Alemanha, Angola, Argélia, Benin, Brasil, Chile, Espanha, Filipinas, Paquistão e Romênia.

60 Los Angeles Times, 1/5/2004.

1 de abril de 2004

Planeta de favelas

História futura das megacidades pós-industriais do Terceiro Mundo. Um proletariado global de bilhões de pessoas expulso da economia formal, com o islamismo e o pentecostalismo como canções dos despossuídos.

Mike Davis

New Left Review

NLR 26 • MAR/APR 2004

Tradução / Em algum momento do ano que vem, uma mulher vai dar à luz na favela de Ajegunle, em Lagos; um rapaz fugirá de sua aldeia, no oeste de Java, para as luzes brilhantes de Jacarta; e um fazendeiro partirá com a família empobrecida para um dos inumeráveis pueblos jovenes de Lima. O evento exato não importa e passará sem sequer ser notado. Ainda assim, representará um divisor de águas na história humana. Pela primeira vez, a população urbana da Terra será mais numerosa que a rural. Na verdade, dada a imprecisão dos recenseamentos no Terceiro Mundo, essa transição sem paralelo pode já ter ocorrido.

A Terra urbanizou-se ainda mais depressa do que previra de início o Clube de Roma em seu relatório sabidamente malthusiano de 1972, Limits of growth [Limites do crescimento]. Em 1950, havia 86 cidades no mundo com mais de um milhão de habitantes; hoje, são 400 e, em 2015, serão pelo menos 550[1]. Na verdade, as cidades absorveram quase dois terços da explosão populacional global desde 1950 e crescem hoje no ritmo de um milhão de bebês e migrantes por semana[2]. A população urbana atual (3,2 bilhões de pessoas) é maior que a população total do planeta em 1960. Enquanto isso, no mundo todo o campo chegou a sua população máxima (3,2 bilhões de pessoas) e começará a encolher a partir de 2020. Como resultado, as cidades serão responsáveis por todo o crescimento populacional futuro da Terra – espera-se que seu ponto máximo, cerca de 10 bilhões de habitantes, seja atingido em 2050[3].

O climatério urbano

Onde estão os heróis, os colonizadores, as vítimas da Metrópole? 
Brecht, registro no Diário, 1921

Desse aumento mundial, 95% ocorrerá nas áreas urbanas dos países em desenvolvimento, cuja população dobrará para quase 4 bilhões de pessoas na próxima geração[4]. (Na verdade, a população urbana combinada da China, da Índia e do Brasil já é mais ou menos igual à da Europa somada à da América do Norte.) O resultado mais notado será o desenvolvimento de novas megacidades com mais de 8 milhões de habitantes e, ainda mais espetaculares, hipercidades com mais de 20 milhões de habitantes (a população urbana mundial estimada na época da Revolução Francesa)[5]. Em 1995, só Tóquio atingira incontestavelmente esse patamar. Em 2025, segundo a Far Eastern Economic Review, a Ásia, sozinha, poderá ter dez ou onze conurbações desse tamanho, como Jacarta (24,9 milhões), Daca (25 milhões) e Karachi (26,5 milhões). Xangai, cujo crescimento foi congelado durante décadas pela política maoísta de suburbanização deliberada, poderia ter até 27 milhões de moradores em sua imensa região metropolitana estuarina[6]. Enquanto isso, prevê-se que Mumbai (Bombaim) atinja 33 milhões de habitantes, embora ninguém saiba se concentrações tão gigantescas de pobreza são sustentáveis em termos biológicos ou ecológicos[7].

Mas, se as megacidades são as estrelas mais brilhantes do firmamento urbano, três quartos do fardo do crescimento populacional será suportado por cidades pouco visíveis de segundo nível e por áreas urbanas menores – lugares onde, como enfatizam os pesquisadores da ONU, “há pouco ou nenhum planejamento para acomodar tais pessoas e prestar-lhes serviços”[8]. Na China (oficialmente 43% urbana em 1997), o número oficial de cidades disparou de 193 para 640 desde 1978. Mas as grandes metrópoles, apesar do crescimento extraordinário, na verdade reduziram sua participação relativa no total da população urbana. Pelo contrário, são as cidades pequenas e as vilas recentemente “promovidas” a cidades que absorveram a maior parte da força de trabalho rural tornada excedente pelas reformas do mercado depois de 1979[9]. Na África, do mesmo modo, o crescimento ao estilo supernova de algumas cidades gigantescas como Lagos (de 300 mil habitantes em 1950 para 10 milhões hoje) foi igualado pela transformação de várias dezenas de cidadezinhas e oásis como Uagadugu, Nuakchote, Duala, Antananarivo e Bamako em cidades maiores que São Francisco e Manchester. Na América Latina, onde as cidades principais monopolizaram por um bom tempo o crescimento, cidades secundárias como Tijuana, Curitiba, Temuco, Salvador e Belém estão hoje em expansão, “com o crescimento mais veloz acontecendo nas cidades que possuem entre 100 mil e 500 mil habitantes”[10].

Além disso, como insistiu Gregory Guldin, a urbanização precisa ser conceituada como transformação estrutural e intensificação da interação em todos os pontos de uma linha contínua urbano-rural. Em seu estudo do sul da China, o campo vem se urbanizando in situ, além de gerar migrações nunca vistas. “As aldeias tornam-se mais parecidas com as vilas xiang e os mercados e as cidadezinhas do interior ficam mais parecidas com cidades grandes.” O resultado, na China e em boa parte do sudeste da Ásia, é uma paisagem híbrida, um campo parcialmente urbanizado que, defendem Guldin e outros, pode ser “um caminho novo e importante de povoação humana e desenvolvimento [...] uma forma nem rural nem urbana, mas uma mistura dos dois, na qual uma rede densa de transações liga grandes núcleos urbanos com suas regiões circundantes”[11]. Na Indonésia, onde um processo semelhante de hibridação rural/urbana está bem avançado em Jabotabek (a grande Jacarta), os pesquisadores chamam esses novos padrões de uso de terra de desokotas e discutem se são paisagens de transição ou uma espécie nova e dramática de urbanismo[12].

Os urbanistas também especulam sobre os processos que interligam as cidades do Terceiro Mundo em redes, corredores e hierarquias novos e extraordinários. Por exemplo, os deltas dos rios Pérola (Hong Kong–Guangju) e Yang-tsé (Xangai), juntamente com o corredor Beijing-Tianjin, estão se transformando rapidamente em megalópoles comparáveis a Tóquio-Osaka, ao baixo Reno ou a Nova York–Filadélfia. Mas esse pode ser apenas o primeiro estágio do surgimento de uma estrutura ainda maior: “um corredor urbano contínuo que se estende do Japão/Coréia do Norte até o oeste de Java”[13]. Xangai, quase com certeza, irá então se unir a Tóquio, Nova York e Londres como uma das “cidades mundiais” que controlam a rede global de fluxos de capital e informação. O preço dessa nova ordem urbana será a desigualdade cada vez maior em e entre cidades de diferentes tamanhos e especializações. Guldin, por exemplo, cita interessantes discussões chinesas sobre a possível substituição, hoje em dia, do antigo abismo de renda e desenvolvimento entre a cidade e o campo por uma lacuna igualmente básica entre as cidades pequenas e as gigantes litorâneas[14].

De volta a Dickens

Vi hostes inumeráveis, condenadas à escuridão, à sujeira, à pestilência, à obscenidade, ao sofrimento e à morte precoce. 
Dickens, "A December vision", 1850

A dinâmica da urbanização no Terceiro Mundo recapitula e confunde os precedentes da Europa e da América do Norte no século XIX e início do século XX. Na China, a maior revolução industrial da história é a alavanca de Arquimedes que desloca uma população do tamanho da européia das aldeias rurais para cidades cheias de fumaça e arranha-céus. Como resultado, “a China deixa[rá] de ser o país predominantemente rural que foi por milênios”[15]. Na verdade, o grande óculo do Centro Financeiro Mundial de Xangai pode, daqui a pouco, olhar para um vasto mundo urbano jamais imaginado por Mao, nem, aliás, por Le Corbusier. Mas, na maior parte do mundo em desenvolvimento, faltam ao crescimento das cidades o poderoso motor industrial-exportador da China e sua enorme importação de capital estrangeiro (hoje em dia, equivalente à metade do investimento estrangeiro total no mundo em desenvolvimento).

Em conseqüência, a urbanização em outros lugares foi radicalmente desligada da industrialização e até do desenvolvimento propriamente dito. Alguns argumentariam que esta é a expressão de um pendor inexorável: a tendência intrínseca do capitalismo informatizado de desvincular o crescimento da produção do crescimento do nível de emprego. Mas, na África subsaariana, na América Latina, no Oriente Médio e em partes da Ásia, a urbanização sem crescimento é mais claramente herança de uma conjuntura política global – a crise da dívida externa do final da década de 1970 e a subseqüente reestruturação das economias do Terceiro Mundo pelo FMI nos anos 1980 – do que lei férrea do avanço da tecnologia. Além disso, a urbanização do Terceiro Mundo continuou em seu ritmo velocíssimo (3,8% ao ano entre 1960 e 1993) durante os anos difíceis da década de 1980 e do início da de 1990, apesar da queda do salário real, da alta dos preço e da disparada do desemprego urbano[16].

Essa expansão urbana “perversa” contradisse os modelos econômicos ortodoxos, que previam que o feedback negativo da recessão urbana retardaria ou até reverteria a migração do campo. O caso africano foi especialmente paradoxal. Como as cidades da Costa do Marfim, da Tanzânia, do Gabão e de outros países cuja economia se contraía 2% a 5% ao ano conseguiram ainda manter um crescimento populacional anual de 5% a 8%17? Obviamente, parte do segredo é que as políticas de desregulamentação agrícola e “descampesinação” impostas pelo FMI (e hoje pela OMC) aceleraram o êxodo da mão-de-obra rural excedente para as favelas urbanas, ainda que as cidades deixassem de ser máquinas de empregos. O crescimento da população urbana, apesar do crescimento econômico urbano zerado ou negativo, é a face extrema do que alguns pesquisadores rotularam de “superurbanização”[18]. É apenas uma das várias ladeiras inesperadas para as quais a ordem mundial neoliberal empurrou a urbanização do milênio.

É claro que a teoria social clássica, de Marx a Weber, acreditava que as grandes cidades do futuro seguiriam os passos industrializantes de Manchester, Berlim e Chicago. Na verdade, Los Angeles, São Paulo, Pusan e, hoje, Ciudad Juárez, Bangalore e Guangju seguiram mais ou menos essa trajetória clássica. Mas a maioria das cidades do hemisfério sul é mais parecida com a Dublin vitoriana, que, como enfatizou Emmet Larkin, não teve igual dentre “todos os montes de cortiços produzidos no mundo ocidental no século XIX [...] [porque] seus cortiços não foram resultado da revolução industrial. Dublin, na verdade, sofreu mais com os problemas da desindustrialização do que com a industrialização entre 1800 e 1850”[19].

Do mesmo modo, Kinshasa, Cartum, Dar-es-Salaam, Daca e Lima cresceram de modo prodigioso, apesar da ruína da indústria de substituição de importações, do encolhimento do setor público e da decadência da classe média. As forças globais que “empurram” as pessoas para fora do campo – a mecanização em Java e na Índia, a importação de alimentos no México, no Haiti e no Quênia, a guerra civil e a seca de modo generalizado na África e, por toda parte, a consolidação de pequenas propriedades em grandes e a competição do agronegócio em escala industrial – parecem manter a urbanização mesmo quando a “atração” da cidade é enfraquecida drasticamente pelo endividamento e pela depressão[20]. Ao mesmo tempo, o rápido crescimento urbano no contexto do ajuste estrutural, da desvalorização da moeda e da redução do Estado foi a receita inevitável da produção em massa de favelas[21] . Assim, boa parte do mundo urbano corre de volta para a época de Dickens.

A predominância espantosa das favelas é o principal tema do relatório histórico e sombrio publicado em outubro passado pelo Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas (UN-Habitat)[22]. The challenge of the slums [O desafio das favelas] (daqui em diante apenas Slums) é a primeira auditoria verdadeiramente global acerca da pobreza urbana. Integra com competência diversos estudos de casos urbanos, de Abidjan a Sydney, com dados globais sobre as famílias, incluindo, pela primeira vez, a China e o antigo bloco soviético. (Os autores da ONU registram sua dívida especial a Branko Milanovic, economista do Banco Mundial que foi o pioneiro do uso de micropesquisas como uma lente poderosa para estudar a crescente desigualdade global. Num de seus artigos, Milanovic explica: “Pela primeira vez na história humana, os pesquisadores têm dados razoavelmente exatos sobre a distribuição de renda ou bem-estar [despesas ou consumo] em mais de 90% da população do mundo”[23].)

Slums também é incomum em sua honestidade intelectual. Um dos pesquisadores ligados ao relatório contou-me que “os tipos de ‘Consenso de Washington’ (Banco Mundial, FMI etc.) sempre insistiram em definir os problemas das favelas globais não como resultado da globalização e da desigualdade, mas como resultado do ‘mau governo’”. No entanto, o novo relatório rompe a seriedade e a autocensura tradicionais da ONU para condenar abertamente o neoliberalismo, em especial os programas de ajuste estrutural do FMI[24].

A direção principal das intervenções nacionais e internacionais durante os últimos vinte anos na verdade aumentou a pobreza urbana e as favelas, elevou a exclusão e a desigualdade e enfraqueceu a elite urbana em seu esforço de usar as cidades como motores do crescimento.[25]

Slums, é verdade, negligencia (ou guarda para outros relatórios do UN-Habitat) algumas das questões mais importantes sobre o uso da terra causadas pela superurbanização e pelo assentamento informal, como o espalhamento, a degradação ambiental e os perigos urbanos. Também deixa de lançar luz sobre os processos que expulsam a mão-de-obra do campo e de incorporar uma literatura volumosa e de crescimento rápido sobre a dimensão sexuada da pobreza urbana e do emprego informal. Mas, afora essas pequenas objeções, Slums é um documento valiosíssimo que dá destaque às descobertas insistentes da pesquisa diante das autoridades institucionais das Nações Unidas. Se os relatórios do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática constituem um consenso científico sem precedentes sobre os perigos do aquecimento global, Slums parece ser um alerta igualmente enfático sobre a catástrofe global da pobreza urbana. (Algum dia um terceiro relatório talvez examine o terreno sinistro da interação dos dois[26].) E, para os propósitos desta resenha, constitui um arcabouço excelente para o exame inicial dos debates contemporâneos sobre urbanização, economia informal, solidariedade humana e ação histórica.

A urbanização da pobreza

A montanha de lixo parecia estender-se até muito longe e então, aos poucos, sem demarcação nem fronteira visível, virava outra coisa. Mas o quê? Uma coleção de estruturas, confusa e sem caminhos. Caixas de papelão, compensado e tábuas podres, carcaças de carros enferrujadas e sem vidros tinham sido amontoados para formar habitações. 
Michael Thelwell, The harder they come, 1980

A primeira definição conhecida e publicada da palavra inglesa slum* surgiu no Vocabulary of the flash language [Vocabulário da linguagem vulgar], em que é sinônimo de racket ou “comércio criminoso”[27]. No entanto, nos anos da cólera nas décadas de 1830 e 1840, os pobres moravam em slums, em vez de praticá-los. Uma geração depois, identificaram-se slums na América e na Índia, em geral reconhecidos como fenômeno internacional. O “slum clássico” era um lugar pitoresco e sabidamente provinciano, mas em geral os reformadores concordavam com Charles Booth que todos se caracterizavam por um amálgama de habitações dilapidadas, excesso de população, pobreza e vício. É claro que, para os liberais do século XIX, a dimensão moral era fundamental, e a favela era considerada, acima de tudo, um lugar onde o “resíduo” social apodrecia num esplendor imoral e quase sempre turbulento. Os autores de Slums descartam as calúnias vitorianas, mas fora isso conservam a definição clássica: excesso de população, habitações pobres ou informais, acesso inadequado a água potável e esgoto sanitário e insegurança da posse da terra[28].

Essa definição multidimensional é, na verdade, um padrão bem conservador do que qualifica uma favela; muitos leitores ficarão surpresos pela conclusão da ONU, contrariando o que se vê, de que somente 19,6% dos mexicanos urbanos moram em favelas. Mas, mesmo com essa definição restritiva, Slums estima que, em 2001, havia pelo menos 921 milhões de moradores de favelas: população quase igual à do mundo todo quando o jovem Engels aventurou-se pela primeira vez pelas ruas miseráveis de Manchester. Na verdade, o capitalismo neoliberal multiplicou exponencialmente o famoso slum Tom-All-Alone de Dickens em A casa soturna. Os moradores de favela constituem espantosos 78,2% da população urbana dos países menos desenvolvidos e o total de um terço da população urbana global[29]. Extrapolando a estrutura etária da maioria das cidades do Terceiro Mundo, pelo menos metade da população favelada tem menos de vinte anos[30]

Os maiores percentuais de moradores de favelas do mundo são da Etiópia (espantosos 99,4% da população urbana), Tchade (também 99,4%), Afeganistão (98,5%) e Nepal (92%)[31]. No entanto, é provável que a população urbana mais pobre esteja em Maputo e Kinshasa, onde (segundo outras fontes) dois terços dos moradores ganha menos do que o custo da nutrição diária mínima necessária[32]. Em Délhi, os planejadores queixam-se amargamente das “favelas dentro das favelas”, em que as pessoas ocupam os pequenos espaços abertos das colônias de reassentamento na periferia para onde os antigos pobres urbanos foram violentamente removidos em meados da década de 1970[33]. No Cairo e em Phnom Penh, os recém-chegados à cidade ocupam ou alugam espaço nos telhados, criando favelas no ar.

Muitas vezes a população das favelas é deliberadamente – e às vezes maciçamente – subcalculada. No final dos anos 1990, por exemplo, Bangcoc tinha uma taxa de pobreza “oficial” de apenas 5%, mas as pesquisas encontraram quase um quarto da população (1,16 milhão) morando em favelas e acampamentos de ocupação[34]. Do mesmo modo, a ONU descobriu recentemente que estava, sem querer, deixando de contar por uma grande margem a pobreza urbana na África. Por exemplo, é provável que os moradores de favelas de Angola sejam duas vezes mais numerosos do que se pensava a princípio. Do mesmo modo, a organização subestimou o número de habitantes urbanos pobres da Libéria, o que não surpreende, já que a população de Monróvia triplicou num só ano (1989-90) quando, apavorados, moradores do interior fugiram de uma violenta guerra civil[35].

Pode haver mais de 250 mil favelas na Terra. Sozinhas, as cinco maiores metrópoles do sul da Ásia (Karachi, Mumbai, Délhi, Kolkata e Daca) somam cerca de 15 mil comunidades faveladas diferentes com um total de mais de 20 milhões de habitantes. Uma população favelada ainda maior cobre o litoral em urbanização da África ocidental, enquanto outras conurbações imensas de pobreza espalham-se pela Anatólia e pelas terras altas da Etiópia; abraçam a base dos Andes e do Himalaia; explodem para longe dos núcleos de arranha-céus da Cidade do México, de Jo-burg, Manila e São Paulo; e, claro, ladeiam as margens dos rios Amazonas, Níger, Congo, Nilo, Tigre, Ganges, Irrawaddy e Mekong. É paradoxal que os tijolos desse planeta-favela sejam ao mesmo tempo totalmente intercambiáveis e espontaneamente únicos, como os bustees de Kolkata, os chawls e zopadpattis de Mumbai, os katchi abadis de Karachi, os kampungs de Jacarta, os iskwaters de Manila, as shammasas de Cartum, os umjondolos de Durban, os intra-murios de Rabat, as bidonvilles de Abidjan, os baladis do Cairo, os gecekondus de Ancara, os conventillos de Quito, as favelas do Brasil, as villas miseria de Buenos Aires e as colonias populares da Cidade do México. São os antípodas tenazes das paisagens genéricas de fantasia e dos parques temáticos residenciais – os burgueses “Offworlds” [mundos de fora], de Philip K. Dick – nos quais a classe média global cada vez mais prefere se enclausurar.

Enquanto, por um lado, o modelo clássico do slum era o cortiço decadente do centro da cidade, as novas favelas, por sua vez, localizam-se, em geral, na orla das explosões espaciais urbanas. É claro que o crescimento horizontal de cidades como México, Lagos ou Jacarta foi extraordinário e que o “alastramento das favelas” é um problema tão grande no mundo em desenvolvimento quanto o alastramento dos subúrbios de classe média nos países ricos. A área construída de Lagos, por exemplo, dobrou numa só década, entre 1985 e 1994[36]. O governador do estado de Lagos disse a jornalistas, no ano passado, que “cerca de dois terços dos 3577 km² da superfície terrestre total do estado podia ser classificada como barracos ou favelas”[37]. Realmente, como escreve um correspondente da ONU,

boa parte da cidade é um mistério [...] auto-estradas sem iluminação passam por desfiladeiros de lixo fumegante antes de dar lugar a ruas de terra que volteiam entre duzentas favelas, os esgotos correndo com dejetos não-tratados [...] Ninguém sequer sabe com certeza o tamanho da população – oficialmente são seis milhões, mas a maioria dos especialistas estima-a em dez milhões – e, menos ainda, o número de assassinatos a cada ano [ou] a taxa de infeçcão pelo HIV.[38]

Além disso, Lagos é, simplesmente, o maior entroncamento do corredor de 70 milhões de favelados que se estende de Abidjan a Ibadan – provavelmente a maior área de solo coberta de pobreza urbana em nosso planeta[39]. É claro que a ecologia da favela gira em torno da oferta de espaço para assentamento. Winter King, num estudo recente publicado na Harvard Law Review, afirma que 85% dos moradores urbanos do mundo desenvolvido “ocupam propriedades ilegalmente”[40]. Em última instância, a indeterminação da propriedade da terra e/ou a propriedade frouxa do Estado foram as brechas pelas quais uma vasta porção da humanidade despejou-se nas cidades. Os modos de assentamento das favelas variam num grande espectro, das invasões de terra disciplinadíssimas da Cidade do México e de Lima aos mercados de aluguel de organização complexa (mas muitas vezes ilegal) nos arredores de Beijing, Karachi e Nairóbi. Até em cidades como Karachi, onde a periferia urbana pertence formalmente ao governo, “lucros imensos oriundos da especulação imobiliária [...] continuam a se acumular no setor privado à custa das famílias de baixa renda”[41]. Na verdade, a máquina política nacional e local costuma aceitar o assentamento informal (e a especulação privada ilegal) enquanto conseguir controlar a compleição política das favelas e receber um fluxo regular de propinas ou aluguéis. Sem títulos formais de propriedade da terra ou da casa própria, impõe-se aos moradores das favelas uma dependência quase feudal de autoridades e líderes partidários locais. A deslealdade pode significar expulsão ou até o arrasamento de um bairro inteiro.

Enquanto isso, o fornecimento da infra-estrutura de sobrevivência arrasta-se bem atrás do ritmo da urbanização, e, muitas vezes, as áreas de favela periurbanas não oferecem nenhum serviço público nem saneamento básico[42]. Em geral, as áreas pobres das cidades latino-americanas têm melhor prestação de serviços básicos que as do sul da Ásia, que, por sua vez, costumam ter serviços urbanos mínimos, como fornecimento de água e eletricidade, que faltam a muitas favelas africanas. Como em Londres no início da época vitoriana, a contaminação da água por dejetos humanos e animais é a causa das doenças diarréicas crônicas que matam pelo menos dois milhões de crianças urbanas todos os anos[43]. Estimados 57% dos africanos urbanos não têm acesso a saneamento básico, e, em cidades como Nairóbi, os pobres precisam usar “banheiros voadores” (defecar num saco plástico)44. Em Mumbai o problema do saneamento é definido pela proporção de um assento sanitário para quinhentos habitantes nos bairros mais pobres. Somente 11% dos bairros pobres de Manila e 18% de Daca têm meios formais de dispor do esgoto[45]. Sem contar a incidência da epidemia de HIV/Aids, a ONU considera que dois em cada cinco moradores de favelas africanas vivem num nível de pobreza que é, literalmente, uma “ameaça à vida”[46].

Paralelamente, por toda parte os pobres urbanos são forçados a habitar terrenos perigosos e nada apropriados para a construção – encostas muito íngremes, margens de rios e alagados. Do mesmo modo, instalam-se à sombra mortal de refinarias, indústrias químicas, depósitos de lixo tóxico ou à margem de ferrovias e auto-estradas. Em conseqüência, a pobreza “construiu” um problema de desastre urbano de freqüência e alcance sem precedentes, como exemplificam as inundações crônicas em Manila, Daca e Rio de Janeiro; as explosões de dutos na Cidade do México e em Cubatão (no Brasil); a catástrofe de Bhopal, na Índia; a explosão de uma fábrica de munição em Lagos e os deslizamentos fatais em Caracas, La Paz e Tegucigalpa47. Além disso, as comunidades de pobres urbanos sem direito de voto são vulneráveis às explosões súbitas de violência estatal, como na famosa destruição, em 1990, da favela praiana de Maroko, em Lagos (“uma agressão à paisagem para a comunidade vizinha de Victoria Island, fortaleza dos ricos”), ou a demolição, em 1995, sob clima congelante, da grande cidade de ocupantes ilegais de Zhejiangcun, nos arredores de Beijing[48].

Mas as favelas, apesar de mortais e inseguras, têm um futuro brilhante. Por um curto período o campo ainda conterá a maioria dos pobres do mundo, mas esse título de reputação duvidosa passará para as favelas urbanas por volta de 2035[49]. Pelo menos metade da próxima explosão populacional urbana do Terceiro Mundo será creditada às comunidades informais. Dois bilhões de favelados em 2030 ou 2040 é uma possibilidade monstruosa, quase incompreensível, mas a pobreza humana por si só superpõe-se às favelas e excede-as. Na verdade, Slums ressalta que, em algumas cidades, a maioria dos pobres mora, na verdade, fora da favela propriamente dita[50]. Além disso, os pesquisadores do “Observatório Urbano” da ONU alertam que, em 2020, “a pobreza urbana no mundo chegará a 45% a 50% do total de moradores de cidades”[51].

O "Big Bang" da pobreza urbana

Depois de sua risada misteriosa, mudaram rapidamente de assunto para outras coisas. Como as pessoas lá em casa vinham sobrevivendo ao PAE? 
Fidelis Balogun, Adjusted lives, 1995

A evolução da nova pobreza urbana foi um processo histórico não-linear. O acréscimo lento de cortiços e barracos ao invólucro da cidade é marcado por tempestades de pobreza e explosões de construção de favelas. Em sua coletânea de histórias Adjusted lives [Vidas ajustadas], o escritor nigeriano Fidelis Balogun descreve a chegada do Programa de Ajuste Estrutural (PAE) do FMI, em meados da década de 1980, como equivalente a uma grande catástrofe natural, destruindo para sempre a antiga alma de Lagos e “reescravizando” os nigerianos urbanos.

Parecia que a lógica esquisita desse programa econômico era que, para devolver a vida à economia moribunda, todo o suco tinha antes de ser esPAEmido da maioria desprivilegiada dos cidadãos. A classe média logo desapareceu, e os montes de lixo dos poucos cada vez mais ricos tornaram-se a mesa da multiplicada população dos abjetamente pobres. O escoamento dos cérebros para os países árabes ricos em petróleo e para o mundo ocidental transformou-se numa torrente.[52]

O lamento de Balogun sobre “privatizar a todo vapor e ficar mais faminto a cada dia” e sua enumeração das conseqüências malévolas do PAE soariam instantaneamente familiares aos sobreviventes não só dos outros trinta PAEs africanos como também de centenas de milhões de asiáticos e latino-americanos. Os anos 1980 – quando o FMI e o Banco Mundial usaram a alavancagem da dívida para reestruturar a economia da maior parte do Terceiro Mundo – foram a época em que as favelas tornaram-se um futuro implacável não só para os migrantes rurais pobres como também para milhões de habitantes urbanos tradicionais, desalojados ou jogados na miséria pela violência do “ajuste”.

Como enfatiza Slums, os PAEs foram “de natureza deliberadamente antiurbana” e projetados para reverter qualquer “viés urbano” que existisse nas políticas de bem-estar social, na estrutura fiscal ou nos investimentos governamentais53.

Em toda parte o FMI, agindo como delegado dos grandes bancos e apoiado pelos governos Reagan e Bush, ofereceu aos países pobres o mesmo cálice envenenado de desvalorização, privatização, remoção dos controles da importação e dos subsídios aos alimentos, redução forçada dos custos com saúde e educação e enxugamento impiedoso do setor público. (Um famoso telegrama de 1985 de George Shultz, Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, a oficiais do USAID no exterior ordenava: “Na maioria dos casos, as empresas do setor público têm de ser privatizadas”54 .)

Ao mesmo tempo, os PAEs devastaram os pequenos proprietários rurais ao eliminar subsídios e expulsá-los, no esquema “ou vai ou racha”, para o mercado global de commodities dominado pelo agronegócio do Primeiro Mundo55.

Como ressalta Ha-Joon Chang, os PAEs, de maneira hipócrita, “chutaram a escada” (ou seja, as tarifas e os subsídios protecionistas) que as nações da OCDE empregaram historicamente em sua própria subida da agricultura para os bens e serviços urbanos de alto valor agregado56 . Slums afirma a mesma coisa quando argumenta que “a principal causa isolada do aumento da pobreza e da desigualdade nas décadas de 1980 e 1990 foi o recuo do Estado”. Além das reduções diretas impostas pelos PAEs aos gastos e à propriedade do setor público, os autores da ONU destacam a diminuição mais sutil da capacidade do Estado que resultou da “subsidiaridade”: a descentralização do poder entre os escalões mais baixos do governo e, em especial, as ONGs ligadas diretamente às principais entidades de auxílio internacional.

Toda a estrutura aparentemente descentralizada é estranha à noção de governo representativo nacional que tão bem serviu ao mundo desenvolvido e, ao mesmo tempo, bastante submissa ao funcionamento de uma hegemonia global. O ponto de vista internacional dominante [ou seja, o de Washington] torna-se o paradigma de fato do desenvolvimento, de modo a unificar rapidamente o mundo todo no sentido geral daquilo que os financiadores e as organizações internacionais apóiam.57

A África e a América Latina urbanas foram as mais atingidas pela depressão artificial arquitetada pelo FMI e pela Casa Branca. Com efeito, em muitos países o impacto econômico dos PAEs durante os anos 1980, em conjunto com as secas prolongadas, o aumento do preço do petróleo, a disparada dos juros e a queda do preço das commodities, foi mais grave e duradouro que a Grande Depressão.

O balanço do ajuste estrutural na África examinado por Carole Rakodi inclui fuga de capitais, colapso da indústria, aumento marginal ou negativo da receita de exportação, cortes drásticos nos serviços públicos urbanos, disparada de preços e declínio acentuado do salário real58. Em Kinshasa (“uma aberração ou um sinal do que está para acontecer?”), o assainissement varreu a classe média de funcionários públicos e produziu um “declínio inacreditável do salário real”, que, por sua vez, patrocinou o pesadelo do aumento da criminalidade e das gangues predatórias59.

Em Dar-es-Salaam, as despesas com serviços públicos caíram 10% por pessoa ao ano durante a década de 1980 – na prática, uma demolição do Estado local60. Em Cartum, a liberalização e o ajuste estrutural, de acordo com pesquisadores locais, /fabricaram 1,1 milhão de “novos pobres”, “saídos em sua maioria dos grupos assalariados ou dos funcionários do setor público”61. Em Abidjan, uma das poucas cidades tropicais africanas com um setor fabril importante e serviços urbanos modernos, a submissão ao regime do PAE levou, aqui e ali, à desindustrialização, ao colapso da construção civil e a uma rápida deterioração do transporte público e do saneamento básico62. Na Nigéria de Balogun, a extrema pobreza, cada vez mais urbanizada em Lagos, Ibadan e outras cidades, entrou em metástase e passou de 28% em 1980 para 66% em 1996. “O PNB per capita, hoje de cerca de 260 dólares”, relata o Banco Mundial, “está abaixo do nível da época da independência, há quarenta anos, e abaixo do nível de 370 dólares atingido em 1985.”63

Na América Latina, os PAEs (muitas vezes implementados por ditaduras militares) desestabilizaram a economia rural e arrasaram o emprego e a habitação urbanos. Em 1970, as teorias “foquistas” guevaristas de rebelião rural ainda se adequavam a uma realidade continental em que a pobreza do campo (75 milhões de pobres) ofuscava a das cidades (44 milhões). No entanto, no final da década de 1980, a imensa maioria dos pobres (115 milhões em 1990) morava em colonias e villas miseria urbanas, em vez de fazendas ou aldeias (80 milhões)64.

Enquanto isso, a desigualdade urbana explodia. Em Santiago, a ditadura de Pinochet arrasou favelas e expulsou antigos ocupantes radicais, obrigando as famílias pobres a se tornarem allegadas, amontoando-se – às vezes duas ou três famílias – na mesma moradia alugada. Em Buenos Aires, a participação do decil mais rico na renda total, que era de dez vezes a do decil mais pobre em 1984, aumentou para 23 vezes em 198965. Em Lima, onde o valor do salário mínimo caiu 83% durante a recessão do FMI, o percentual de famílias abaixo da linha de pobreza aumentou de 17% em 1985 para 44% em 199066. No Rio de Janeiro, a desigualdade, medida pelos coeficientes Gini clássicos, disparou de 0,58 em 1981 para 0,67 em 198967. Na verdade, em toda a América Latina a década de 1980 aprofundou os vales e elevou os picos da topografia social mais contrastada do mundo. (Segundo um relatório de 2003 do Banco Mundial, os coeficientes Gini são 10 pontos mais altos na América Latina que na Ásia; 17,5 pontos mais altos que na OCDE; e 20,4 pontos mais altos que na Europa oriental68.)

Em todo o Terceiro Mundo, os choques econômicos dos anos 1980 obrigaram os indivíduos a reagrupar-se em volta dos recursos somados da família e, principalmente, da capacidade de sobrevivência e da engenhosidade desesperada das mulheres. Na China e nas cidades em industrialização do sudeste da Ásia, milhões de moças escravizaram-se às linhas de montagem e à miséria fabril. Na África e na maior parte da América Latina (com exceção das cidades da fronteira norte do México), essa opção não existiu. Em vez disso, a desindustrialização e a dizimação dos empregos masculinos no setor formal obrigaram as mulheres a improvisar novos meios de vida como montadoras pagas por peça, vendedoras de bebidas, camelôs, faxineiras, lavadeiras, catadoras, babás e prostitutas. Na América Latina, onde a participação das mulheres urbanas na força de trabalho sempre foi menor que em outros continentes, o surto de mulheres nas atividades informais terciárias durante a década de 1980 foi especialmente dramático69. Em relação à África, onde o símbolo do setor informal são as mulheres que abrem biroscas e vendem produtos agrícolas nas ruas, Christian Rogerson nos recorda que a maioria dessas trabalhadoras informais não é autônoma nem economicamente independente, mas trabalha para outras pessoas70. (Essas redes onipresentes e cruéis de microexploração, com pobres explorando os muito pobres, costumam ficar ocultas nas descrições do setor informal.)

A pobreza urbana também foi maciçamente feminilizada nos países do antigo Comecon depois da “liberação” capitalista em 1989. No início da década de 1990, a extrema pobreza dos antigos “países de transição” (como a ONU os chama) disparou de 14 milhões de pessoas para 168 milhões: uma pauperização em massa quase sem precedentes na história71. Se, no balanço global, essa catástrofe econômica foi em parte compensada pelo mui louvado sucesso da China na elevação da renda de suas cidades litorâneas, o “milagre” do mercado chinês foi comprado com “um aumento enorme da desigualdade salarial entre os trabalhadores urbanos [...] no período entre 1988 e 1999”. As mulheres e as minorias ficaram particularmente em desvantagem72.

É claro que, em teoria, a década de 1990 deveria ter corrigido os erros dos anos 1980 e permitido às cidades do Terceiro Mundo recuperar o terreno perdido e fechar os abismos de desigualdade criados pelos PAEs. A dor do ajuste seria seguida pelo analgésico da globalização. Com efeito, a década de 1990, como Slums observa ironicamente, foi a primeira em que o desenvolvimento urbano global aconteceu segundo parâmetros quase utópicos de liberdade de mercado neoclássica.

Durante a década de 1990, o comércio continuou a se expandir num ritmo quase sem precedentes; áreas antes vedadas se abriram e as despesas militares diminuíram. [...] Todos os insumos básicos da produção ficaram mais baratos com a queda rápida dos juros, juntamente com o preço das commodities básicas. Os fluxos de capital foram cada vez menos atrapalhados por controles nacionais e puderam encaminhar-se velozmente para as áreas mais produtivas. Sob condições econômicas quase perfeitas, de acordo com a doutrina econômica neoliberal dominante, seria possível imaginar que a década teria prosperidade e justiça social inigualáveis.73

No caso, contudo, a pobreza urbana continuou seu acúmulo incessante, e “a lacuna entre países pobres e ricos aumentou, como acontecera nos vinte anos anteriores, e, na maioria dos países, a desigualdade de renda cresceu ou, no máximo, estabilizou-se”. A desigualdade global, medida pelos economistas do Banco Mundial, atingiu um coeficiente Gini inacreditável de 0,67 no final do século. Matematicamente, era uma situação equivalente àquela em que os dois terços mais pobres do mundo recebessem renda zero, e o terço mais rico, tudo74.

Um excedente de humanidade?

Limpamos nosso caminho perto da cidade, mantendo-nos nele por suas mil brechas de sobrevivência [...] 
Patrick Chamoiseau, Texaco (1997)

O tectonismo violento da globalização neoliberal desde 1978 é análogo aos processos catastróficos que, a princípio, deram forma ao “Terceiro Mundo” durante a época do imperialismo vitoriano tardio (1870-1900). Neste último caso, a incorporação forçada ao mercado mundial dos grandes campesinatos de subsistência da Ásia e da África provocou a morte de milhões pela fome e o desenraizamento de outras dezenas de milhões de suas posses tradicionais. O resultado final, também na América Latina, foi uma “semiproletarização” rural: a criação de uma classe enorme de semicamponeses e trabalhadores agrícolas miseráveis sem a segurança existencial da subsistência[75]. (Em conseqüência, o século XX não se tornou uma época de revoluções urbanas, como imaginava o marxismo clássico, mas de levantes rurais e guerras camponesas de libertação nacional inéditos.) Parece que o recente ajuste estrutural provocou uma reconfiguração igualmente fundamental do futuro humano. Como concluem os autores de Slums: “Em vez de serem um foco de crescimento e prosperidade, as cidades tornaram-se o depósito de lixo de um excedente de população que trabalha nos setores informais de comércio e serviços, sem especialização, desprotegido e com baixos salários”. “O crescimento d[este] setor informal”, declaram sem rodeios, “é [...] resultado direto da liberalização.”[76]

Na verdade, a classe trabalhadora informal global (que se sobrepõe mas não é idêntica à população favelada) tem quase um bilhão de pessoas, constituindo a classe social de crescimento mais rápido e mais sem precedentes da Terra. Desde que o antropólogo Keith Hart, que trabalhava em Accra, criou o conceito de “setor informal” em 1973, uma imensa literatura (que, em sua maior parte, não distingue microacumulação de sub-subsistência) enfrentou os formidáveis problemas teóricos e empíricos envolvidos no estudo das estratégias de sobrevivência dos pobres urbanos77. Há, no entanto, o consenso básico de que a crise da década de 1980 inverteu as posições estruturais relativas dos setores formal e informal, promovendo a busca informal da sobrevivência como novo meio de vida principal da maioria das cidades do Terceiro Mundo.

Alejandro Portes e Kelly Hoffman avaliaram recentemente o impacto geral dos PAEs e da liberalização sobre a estrutura de classes urbana e latino-americana a partir da década de 1970. De modo coerente com as conclusões da ONU, verificaram que, desde então, tanto os funcionários públicos quanto o proletariado formal se reduziram em todos os países da região. Em contraste, o setor informal da economia, junto com a desigualdade social geral, expandiu-se de forma dramática.

Diversamente de alguns pesquisadores, eles fazem uma distinção fundamental entre a pequena burguesia informal (“a soma dos donos de microempresas informais, que empregam menos de cinco trabalhadores, mais os profissionais e técnicos que trabalham por conta própria”) e o proletariado informal (“a soma dos trabalhadores autônomos, menos profissionais liberais e técnicos, com empregados domésticos e trabalhadores pagos e não-pagos de microempresas informais”).

Demonstram que esse primeiro estrato, os “microempresários” tão louvados nas escolas de administração norte-americanas, costumam ser profissionais desalojados do setor público e trabalhadores especializados demitidos. Desde a década de 1980, cresceram de 5% para 10% da população urbana economicamente ativa, tendência que reflete “o empreendedorismo forçado imposto aos ex-assalariados pelo declínio do emprego no setor formal”78.

No geral, de acordo com Slums, os trabalhadores informais são cerca de dois quintos da população economicamente ativa do mundo em desenvolvimento79. Segundo os pesquisadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento, a economia informal emprega atualmente 57% da força de trabalho latino-americana e oferece quatro de cada cinco novos “empregos”80. Outras fontes afirmam que mais da metade dos indonésios urbanos e 65% dos moradores de Daca subsistem no setor informal81. Do mesmo modo, Slums cita pesquisas que comprovam que a atividade econômica informal responde por 33% a 40% do emprego urbano na Ásia, 60% a 75% na América Central e 60% na África82. Com efeito, nas cidades subsaarianas a criação de “empregos formais” praticamente deixou de existir. Um estudo da OIT sobre o mercado de trabalho urbano do Zimbábue durante o ajuste estrutural “estagflacionário” do início dos anos 1990 descobriu que o setor formal só criava 10 mil empregos por ano, em contrapartida a uma força de trabalho urbana que crescia em mais de 300 mil indivíduos por ano83. Slums estima, ainda, que um total de 90% das novas vagas urbanas da África na próxima década virão, de algum modo, do setor informal84.

Os gurus do moto perpétuo do capitalismo, como o incontrolável Hernando de Soto, podem ver essa população enorme de trabalhadores marginalizados, funcionários públicos demitidos e ex-camponeses como, na verdade, uma colméia frenética de ambiciosos empreendedores desejosos de direitos formais de propriedade e espaço competitivo não-regulamentado, mas faz bem mais sentido tomar a maioria dos trabalhadores informais como desempregados “ativos”, que não têm escolha senão subsistir de algum jeito para não passar fome85 . É pouco provável que os estimados 100 milhões de crianças de rua – que nos desculpe o señor De Soto – comecem a emitir ações e negociar obrigações futuras sobre a venda de chicletes86. E a maior parte dos 70 milhões de “trabalhadores flutuantes” da China, que vivem furtivamente na periferia urbana, não vai acabar se capitalizando como pequenos empreiteiros nem se integrará à classe trabalhadora urbana formal. E a classe trabalhadora informal, submetida por toda parte à micro e à macroexploração, está, quase universalmente, privada da proteção das leis e dos padrões trabalhistas.

Além disso, como defende Alain Dubresson no caso de Abidjan, “o dinamismo dos ofícios braçais e do pequeno comércio depende em boa medida da demanda do setor assalariado”. Ele lança um alerta contra a “ilusão” cultivada pela OIT e pelo Banco Mundial de que “o setor informal pode substituir com eficiência o setor formal e promover um processo de acumulação suficiente para uma cidade com mais de 2,5 milhões de habitantes”87. Seu aviso é repetido por Christian Rogerson, que, distinguindo (como Portes e Hoffman) microempresas “de sobrevivência” e “de crescimento”, escreve sobre as primeiras: “Em termos gerais, a renda gerada por essas empresas, cuja maioria tende a ser administrada por mulheres, costuma ficar abaixo até do padrão de vida mínimo e envolve pouco investimento de capital, praticamente nenhuma habilidade especializada e oportunidades apenas restritas de crescer e se transformar num negócio viável”. Com até os salários urbanos do setor formal da África baixos a ponto de os economistas não conseguirem imaginar como os trabalhadores sobrevivem (o chamado “enigma salarial”), o setor terciário informal tornou-se uma arena de extrema competição darwinista entre os pobres. Rogerson cita os exemplos do Zimbábue e da África do Sul, onde os nichos informais controlados por mulheres – spazas (lojinhas informais que vendem de tudo) e biroscas – estão hoje apinhados e sofrem de queda de lucratividade88.

Em outras palavras, a tendência macroeconômica real do trabalho informal é a reprodução da pobreza absoluta. Mas, se o proletariado informal não é a menorzinha das pequenas burguesias, também não é um “exército de reserva de mão-de-obra” nem um “lumpemproletariado”, em nenhum dos sentidos obsoletos do século XIX. Parte dele, é verdade, é uma força de trabalho invisível da economia formal, e numerosos estudos já mostraram como as redes de terceirização da Wal-Mart e de outras megaempresas penetram profundamente na miséria das colonias e chawls. Mas no fim das contas a maior parte dos favelados urbanos, radical e verdadeiramente, não encontra lar na economia internacional contemporânea. É claro que as favelas se originam no campo global onde, como nos recorda Deborah Bryceson, a competição desigual com a grande escala da agroindústria vem “arrebentando as costuras” da sociedade rural tradicional89. Conforme as áreas rurais perdem sua “capacidade de armazenamento”, as favelas tomam seu lugar, e a “involução” urbana substitui a involução rural como ralo da mãode- obra excedente, que só consegue acompanhar a subsistência com façanhas cada vez mais heróicas de auto-exploração e uma subdivisão competitiva ainda maior dos nichos de sobrevivência já densamente povoados90. A “Modernização”, o “Desenvolvimento” e, agora, o “Mercado” irrestrito já tiveram seus bons dias.

A força de trabalho de um bilhão de pessoas foi expelida do sistema mundial, e quem consegue imaginar algum cenário plausível, sob os auspícios neoliberais, que a reintegre como trabalhadores produtivos ou consumidores em massa?

Marx e o espírito santo

[Diz o Senhor:] Virá o tempo em que o pobre dirá que nada tem para comer e o trabalho desaparecerá [...] Isso fará o pobre partir para esses lugares e invadir para ter comida. Isso fará o rico sair com sua arma e declarar guerra ao homem que trabalha [...] haverá sangue nas ruas como uma chuva que se despeja dos céus. 
Profecia do "Avivamento da rua Azusa", de 1906

Portanto, a recente triagem capitalista da humanidade já aconteceu. Além disso, o crescimento global de um vasto proletariado informal é uma evolução estrutural totalmente original, não prevista pelo marxismo clássico nem pelos gurus da modernização. Na verdade a favela desafia a teoria social a perceber a novidade de um verdadeiro resíduo global sem o poder econômico estratégico da mão-de-obra socializada, mas maciçamente concentrado num mundo de barracos em torno dos enclaves fortificados dos ricos urbanos.

É claro que a tendência à involução urbana já existia durante o século XIX. As revoluções industriais européias foram incapazes de absorver toda a oferta de mão-de-obra rural desalojada, sobretudo depois que a agricultura continental sofreu a competição devastadora das pradarias norte-americanas a partir da década de 1870. Mas a migração em massa para as sociedades coloniais das Américas e da Oceania, assim como para a Sibéria, constituiu uma válvula de segurança dinâmica que impediu tanto o surgimento de mega-Dublins quanto a disseminação do tipo de anarquismo da classe baixa que se enraizara nas partes mais empobrecidas do sul da Europa. Hoje, pelo contrário, o excesso de mão-de-obra enfrenta barreiras sem precedentes – uma “grande muralha” literal da imposição de uma fronteira de alta tecnologia – que bloqueiam a migração em grande escala para os países ricos. Do mesmo modo, os controvertidos programas de reassentamento populacional em regiões de “fronteira” como Amazônia, Tibete, Kalimantan e Irian Jaya produzem devastação ambiental e conflitos étnicos sem reduzir de forma substancial a pobreza urbana no Brasil, na China e na Indonésia.

Assim, só resta a favela como solução totalmente franqueada ao problema de armazenar o excedente de humanidade do século XXI. Mas não são as grandes favelas – como já imaginara a burguesia vitoriana apavorada – vulcões esperando para entrar em erupção? Ou será que a impiedosa competição darwinista, em que um número cada vez maior de pobres compete pelos mesmos restos informais, ainda garante a violência comunitária que consome a si mesma como forma mais elevada de involução urbana? Até que ponto o proletariado informal possui o talismã marxista mais poderoso, a “atuação histórica”? Pode a mão-de-obra desincorporada ser reincorporada a um projeto emancipador global? Ou a sociologia do protesto na megacidade empobrecida é uma regressão à multidão urbana préindustrial, que explodia de quando em quando nas crises de consumo mas, fora isso, era fácil de manobrar com o clientelismo, o espetáculo populista e os apelos à unidade étnica? Ou há algum novo tema histórico inesperado, à moda de Hardt e Negri, arrastando-se rumo à supercidade?

Na verdade, a literatura atual sobre a pobreza e o protesto urbano oferece poucas respostas a perguntas de tamanho alcance. Alguns pesquisadores, por exemplo, questionariam se os favelados etnicamente diferentes ou os trabalhadores informais economicamente heterogêneos chegam a constituir uma verdadeira “classe em si mesma”, quanto mais uma “classe em si mesma” potencialmente ativista. Com certeza, o proletariado informal traz “ligações radicais”, no sentido marxista de ter pouco ou nenhum interesse oculto na preservação do modo de produção existente. Mas os migrantes rurais desenraizados e os trabalhadores informais, tendo sido em grande parte desapossados da força de trabalho fungível ou reduzidos ao serviço doméstico na casa dos ricos, têm pouco acesso à cultura do trabalho coletivo ou da luta de classes em grande escala. Seu estágio social, necessariamente, tem de ser o da favela ou da feira, não o da fábrica ou da linha de montagem internacional.

As lutas dos trabalhadores informais – como enfatiza John Walton numa resenha recente da pesquisa sobre movimentos sociais em cidades pobres – tenderam, acima de tudo, a ser episódicas e descontínuas. Também costumam concentrar-se em questões imediatas de consumo: invasões de terra em busca de moradia acessível e revoltas contra o aumento dos preços dos alimentos ou dos serviços públicos. No passado, pelo menos, “os problemas urbanos das sociedades em desenvolvimento foram mais comumente mediados pelas relações clientelistas do que pelo ativismo popular”91 . Desde a crise da dívida externa na década de 1980, os líderes neopopulistas da América Latina obtiveram marcante sucesso na exploração do desejo desesperado dos pobres urbanos de ter estruturas de vida cotidiana mais estáveis e previsíveis. Embora Walton não afirme de modo explícito, o setor informal urbano foi ideologicamente promíscuo no apoio a salvadores populistas: uniu-se a Fujimori no Peru, mas na Venezuela abraçou Chávez92 . Na África e no sul da Ásia, por outro lado, o clientelismo urbano iguala-se, com demasiada freqüência, ao domínio de fanáticos étnico-religiosos e ao pesadelo de suas ambições de limpeza étnica. Os exemplos mais famosos são as milícias antimuçulmanas do Congresso do Povo Oodua, em Lagos, e o movimento semifascista Shiv Sena, em Bombaim93 .

Essas sociologias de protesto do século XVIII persistirão até meados do XXI? É provável que o passado seja um mau guia para o futuro. A história não é uniformitarista. O novo mundo urbano vem evoluindo com rapidez extraordinária e muitas vezes em direções imprevistas. Por toda parte a acumulação contínua de pobreza solapa a segurança da vida e impõe desafios ainda mais extraordinários à engenhosidade econômica dos pobres. Talvez haja um ponto de virada no qual a poluição, a aglomeração, a ganância e a violência da vida urbana cotidiana vençam afinal a civilidade específica e as redes de sobrevivência da favela. Com certeza, no antigo mundo rural havia patamares, muitas vezes calibrados pela fome, que levavam diretamente à erupção social. Mas ninguém sabe ainda em que temperatura social as novas cidades da pobreza entram em combustão espontânea.

Na verdade, pelo menos por enquanto, Marx cedeu o palco histórico a Maomé e ao Espírito Santo. Se Deus morreu nas cidades da Revolução Industrial, surgiu de novo nas cidades pós-industriais do mundo em desenvolvimento. O contraste entre as culturas da pobreza urbana nas duas épocas é extraordinário. Como demonstrou Hugh McLeod em seu estudo magistral sobre a religião da classe operária vitoriana, Marx e Engels acertaram bastante em sua crença de que a urbanização estava secularizando a classe trabalhadora. Embora Glasgow e Nova York fossem, em parte, exceções, “a linha de interpretação que associa o afastamento da igreja da classe trabalhadora com o aumento da consciência de classe é, em certo sentido, incontestável”. Conquanto as pequenas igrejas e as seitas dissidentes prosperassem nas favelas, a principal corrente era a descrença ativa ou passiva.

Já na década de 1880, Berlim escandalizava os estrangeiros como “a cidade menos religiosa do mundo”, e, em Londres, o comparecimento médio dos adultos às igrejas do East End proletário e das Docklands, em 1902, era de meros 12% (e, ainda assim, na maioria de católicos)94. Em Barcelona, claro, a classe operária anarquista saqueou as igrejas durante a Semana Trágica, enquanto nas favelas de São Petersburgo, Buenos Aires e até em Tóquio os trabalhadores militantes abraçaram avidamente as novas fés de Darwin, Kropotkin e Marx.

Hoje, pelo contrário, o islamismo populista e o cristianismo pentecostal (e, em Bombaim, o culto de Shivaji) ocupam um espaço social análogo àquele do socialismo e do anarquismo no início do século XX. No Marrocos, por exemplo, onde todo ano um contingente de meio milhão de emigrantes rurais é absorvido pelas cidades apinhadas e onde metade da população tem menos de 25 anos, movimentos islamistas como o “Justiça e Bem-Estar”, fundado pelo xeque Abdessalam Yassin, tornaram-se o verdadeiro governo das favelas, organizando escolas noturnas, fornecendo apoio legal às vítimas de agressões do Estado, comprando remédios para os doentes, subsidiando peregrinações e pagando funerais.

Como admitiu recentemente o primeiro-ministro Abderrahman Yussufi – líder socialista que já foi exilado pela monarquia – a Ignacio Ramonet: “Nós [a esquerda] nos aburguesamos. Isolamo-nos do povo. Precisamos reconquistar os bairros populares. Os islamistas seduziram o nosso eleitorado natural. Prometem-lhes o paraíso na Terra”. Por outro lado, um líder islamista disse a Ramonet: “Diante da negligência do Estado e em face da brutalidade da vida cotidiana, as pessoas descobrem, graças a nós, a solidariedade, a auto-ajuda, a fraternidade. Entendem que islamismo é humanismo”95.

A contrapartida do islamismo populista nas favelas da América Latina e em boa parte da África subsaariana é o pentecostalismo. É claro que hoje o cristianismo, em sua maioria, é uma religião não-ocidental (dois terços de seus seguidores vivem fora da Europa e da América do Norte), e o pentecostalismo é seu missionário mais dinâmico nas cidades da pobreza. Na verdade, a especificidade do pentecostalismo é tal que é a primeira grande religião mundial a ter crescido quase inteiramente no solo da favela urbana moderna. Com raízes no antigo metodismo extático e na espiritualidade afro-americana, o pentecostalismo “despertou” quando o Espírito Santo concedeu o dom das línguas aos participantes de uma maratona inter-racial de oração num bairro pobre de Los Angeles (a rua Azusa), em 1906. Unidos em torno do batismo espiritual, da cura milagrosa, de pastores carismáticos e de uma crença pré-milenar numa iminente guerra mundial entre capital e trabalho, o pentecostalismo norte-americano primitivo, como observaram repetidas vezes os historiadores religiosos, nasceu como “democracia profética”, cujos públicos rural e urbano sobrepunham-se, respectivamente, aos do populismo e do IWW96. Na verdade, como os agitadores do IWW, seus primeiros missionários na América Latina e na África “viviam muitas vezes em extrema pobreza, com pouco ou nenhum dinheiro, raramente sabendo onde passariam a noite ou como conseguiriam a refeição seguinte”97. Também não deixaram nada a dever ao IWW em suas denúncias veementes das injustiças do capitalismo industrial e sua destruição inevitável.

Sintomaticamente, a primeira congregação brasileira, num bairro operário anarquista de São Paulo, foi fundada por um artesão imigrante italiano que trocara Malatesta pelo Espírito Santo em Chicago98. Na África do Sul e na Rodésia, o pentecostalismo criou suas primeiras cabeças-de-ponte nos complexos mineiros e nos bairros pobres, onde, segundo Jean Comaroff, “parecia harmonizar-se com as noções autóctones de forças espirituais pragmáticas e compensar a despersonalização e a impotência da vivência da mão-de-obra urbana”99. Concedendo um papel maior às mulheres do que as outras Igrejas cristãs e dando imenso apoio à abstinência e à frugalidade, o pentecostalismo – como descobriu R. Andrew Chesnut nas baixadas de Belém do Pará – sempre exerceu atração especial sobre “o estrato mais empobrecido das classes empobrecidas”: as esposas abandonadas, as viúvas e as mães solteiras100. Desde 1970, e principalmente graças ao seu encanto para as mulheres da favela e sua fama de não escolher cor, cresceu e tornou-se, comprovadamente, o maior movimento auto-organizado dos pobres urbanos do planeta101.

Embora as afirmações recentes sobre a existência de “mais de 533 milhões de pentecostais/carismáticos no mundo em 2002” sejam provavelmente exageradas, não é nada difícil que alcancem metade desse número. Aceita-se em geral que 10% da América Latina é pentecostal (cerca de 40 milhões de pessoas) e que o movimento foi a reação cultural isolada mais importante à urbanização explosiva e traumática102. É claro que, quando o pentecostalismo se globalizou, diferenciou-se em correntes e sociologias distintas. Mas embora na Libéria, em Moçambique e na Guatemala as igrejas com patrocínio norte-americano tenham sido vetores da ditadura e da repressão e algumas congregações dos Estados Unidos tenham hoje se enobrecido como a principal linha de fundamentalismo da classe média suburbana, a onda missionária do pentecostalismo no Terceiro Mundo continua mais próxima do espírito milenarista original da rua Azusa103. Acima de tudo, como descobriu Chesnut no Brasil, “o pentecostalismo [...] continua a ser uma religião da periferia informal” (e em Belém, especificamente, “dos mais pobres dentre os pobres”). No Peru, onde o pentecostalismo vem crescendo de forma quase exponencial nas vastas barriadas de Lima, Jefrey Gamarra defende que o crescimento das seitas e da economia informal “são conseqüência e resposta um do outro”104. Paul Freston acrescenta que “é a primeira religião de massa autônoma da   América Latina [...] Os líderes podem não ser democráticos, mas vêm da mesma classe social”105.

Ao contrário do islamismo populista, que enfatiza a continuidade da civilização e a solidariedade da fé entre as classes, o pentecostalismo, seguindo a tradição de sua origem afro-americana, mantém uma identidade fundamentalmente exílica. Embora, assim como o islamismo das favelas, o pentecostalismo crie uma relação eficiente com a necessidade de sobrevivência da classe trabalhadora informal (organizando redes de auto-ajuda para as mulheres pobres, oferecendo a cura espiritual como paramedicina, auxiliando a recuperação de alcoólatras e dependentes de drogas, protegendo as crianças das tentações das ruas e assim por diante), sua premissa básica é a de que o mundo urbano é corrupto, injusto e impossível de reformar. Ainda não se sabe se – como defendeu Jean Comaroff em seu livro sobre as Igrejas sionistas africanas (muitas das quais são hoje pentecostais) – essa religião dos “marginalizados dos bairros pobres da modernidade neocolonial” é na verdade uma resistência “mais radical” do que a “participação na política sindical formal”106. Mas, com a esquerda ainda muito ausente da favela, a escatologia do pentecostalismo rejeita de forma admirável o destino inumano da cidade do Terceiro Mundo para o qual Slums alerta. Também santifica aqueles que, em todos os sentidos estruturais e existenciais, realmente vivem no exílio.

Notas

1 UN Population Division, World urbanization prospects, the 2001 revision (Nova York, 2002).

2 Population Information Program, Population reports: meeting the urban challenge, v. XXX, n. 4, outono [quarto trimestre] de 2002, p. 1.

3 Wolfgang Lutz, Warren Sandeson e Sergei Scherbov, “Doubling of world population unlikely”, Nature, n. 387, 19/6/1997, p. 803-4. No entanto, a população da África subsaariana triplicará, e a da Índia dobrará.

4 Global Urban Observatory, Slums of the world: the face of urban poverty in the new millenium? (Nova York, 2003), p. 10.

5 Embora não se duvide da velocidade da urbanização global, a taxa de crescimento de cidades específicas pode frear-se repentinamente com o atrito do tamanho e da aglomeração. Um caso famoso de uma dessas “reversões de polarização” é a Cidade do México, que todos previam que atingiria 25 milhões de habitantes na década de 1990 (a população atual é, provavelmente, de 18 ou 19 milhões). Ver Yue-man Yeung, “Geography in an age of mega-cities”, International Social Sciences Journal, n. 151, 1997, p. 93.

6 Ver o ponto de vista de Yue-man Yeung, “Viewpoint: integration of the Pearl River delta”, International Development Planning Review, v. 25, n. 3, 2003.

7 Far Eastern Economic Review, Asia 1998 Yearbook, p. 63.

8 UN-Habitat, The challenge of the slums: global report on human settlements 2003 (Londres, 2003), p. 3.

9 Gregory Guldin, What’s a peasant to do: village becoming town in Southern China (Boulder, Colorado, 2001), p. 13.

10 Miguel Villa e Jorge Rodriguez, “Demographic trends in Latin America’s metropolises, 1950-1990”, em Alan Gilbert (org.), The mega-city in Latin America (Tóquio, 1996), p. 33-4.

11 Guldin, Peasant, cit., p. 14, 17. Ver também Jing Neng Li, “Structural and spatial economic changes and their effects on recent urbanization in China”, em Gavin Jones e Pravin Visaria (orgs.), Urbanization in large developing countries (Oxford, 1997), p. 44.

12 Ver T. McGee, “The emergence of Desakota regions in Asia: expanding a hypothesis”, em Northon Ginsburg, Bruce Koppell e T. McGee (orgs.), The extended metropolis: settlement transition in Asia (Honolulu, 1991).

13 Yue-man Yeung e Fu-chen Lo, “Global restructuring and emerging urban corridors in Pacific Asia”, em Lo e Yeung (orgs.), Emerging world cities in Pacific Asia (Tóquio, 1996), p. 41.

14 Guldin, Peasant, cit., p. 13.

15 Wang Mengkui, assessor do Conselho de Estado, citado no Financial Times, 26 de novembro de 2003. Desde as reformas de mercado do final da década de 1970, estima-se que quase 300 milhões de chineses mudaram-se das áreas rurais para as cidades. Espera-se que mais 250 ou 300 milhões os sigam nas próximas décadas (Financial Times, 16/12/2003).

16 Josef Gugler, “Introduction – II. Rural-urban migration”, em Gugler (org.), Cities in the developing world: issues, theory and policy (Oxford, 1997), p. 43. Para uma visão contrária, que contesta os dados geralmente aceitos do Banco Mundial e da ONU sobre as taxas de urbanização elevadas e contínua da década de 1980, ver Deborah Potts, “Urban lives: adopting new strategies and adapting rural links”, em Carole Rakodi (org.), The urban challenge in Africa: growth and management of its large cities (Tóquio, 1997), p. 463-73.

17 David Simon, “Urbanization, globalization and economic crisis in Africa”, em Rakodi, Urban challenge, cit., p. 95.

18 Ver Josef Gugler, “Overurbanization reconsidered”, em Gugler, Cities in the developing world, cit., p. 114-23. Em contraste, a economia anterior dominante na União Soviética e na China maoísta restringia a migração interna para as cidades e, assim, tendia à “suburbanização”.

19 Prefácio de Jacinta Prunty, Dublin slums 1800-1925: a study in Urban Geography (Dublin, 1998), p. IX.

20 “Assim, parece que, nos países de baixa renda, uma queda significativa da renda urbana talvez não produza necessariamente, a curto prazo, o declínio da migração rural-urbana” (Nigel Harris, “Urbanization, economic development and policy in developing countries”, Habitat International, v. 14, n. 4, 1990, p. 21-2).

21 Sobre a urbanização no Terceiro Mundo e a crise global da dívida externa, ver York Bradshaw e Rita Noonan, “Urbanization, economic growth, and women’s labour-force participation”, em Gugler, Cities in the developing world, cit., p. 9-10.

22 Slums, cit.

23 Branko Milanovic, True world income distribution 1988 and 1993, Banco Mundial (Nova York, 1999). Milanovic e seu colega Schlomo Yitzhaki foram os primeiros a calcular a distribuição de renda mundial com base em dados de pesquisas com famílias de cada país.

24 O Unicef, para ser justo, criticou durante anos o FMI, destacando que “centenas de milhares de crianças do mundo em desenvolvimento deram a vida para pagar a dívida de seus países”. Ver The state of the world’s children (Oxford, 1989), p. 30.

25 Slums, cit., p. 6.

26 Supõe-se que um estudo assim examinaria, de um lado, os riscos urbanos e o colapso da infr estrutura e, de outro, o impacto da mudança climática sobre a agricultura e a migração.

27 Prunty, Dublin slums, cit., p. 2.

28 Slums, cit., p. 12.

29 Slums, cit., p. 2-3.

30 Ver A. Oberai, Population growth, employment and poverty in Third World mega-cities (Nova York, 1993), p. 28. Em 1980, a coorte 0-19 das grandes cidades da OCDE era de 19% a 28% da população; nas megacidades do Terceiro Mundo, de 40% a 53%.

31 Slums of the world, cit., p. 33-4.

32 Simon, “Urbanization in Africa”, cit., p. 103; e Jean-Luc Piermay, “Kinshasa: a reprieved megacity?”, em Rakodi, Urban challenge, cit., p. 236.

33 Sabir Ali, “Squatters: slums within slums”, em Prodipto Roy e Shangon Das Gupta (orgs.), Urbanization and slums (Délhi, 1995), p. 55-9.

34 Jonathan Rigg, Southeast Asia: a region in transition (Londres, 1991), p. 143.

35 Slums of the world, cit., p. 34.

36 Salah El-Shakhs, “Toward appropriate urban development policy in emerging mega-cities in Africa”, em Rakodi, Urban challenge, cit., p. 516.

37 Daily Times of Nigeria, 20/10/2003. Lagos cresceu de forma mais explosiva que todas as outras grandes cidades do Terceiro Mundo, com exceção de Daca. Em 1950, tinha apenas 300 mil habitantes, mas depois cresceu quase 10% ao ano até 1980, quando reduziu o ritmo para cerca de 6% – ainda bem veloz – durante os anos de reajuste estrutural.

38 Amy Otchet, “Lagos: the survival of the determined”, Unesco Courier, junho de 1999.

39 Slums, cit., p. 50.

40 Winter King, “Illegal settlements and the impact of titling programmes”, Harvard Law Review, v. 44, n. 2, setembro de 2003, p. 471.

41 Nações Unidas, Karachi, série “Population growth and policies in megacities” (Nova York, 1988), p. 19.

42 A ausência de infra-estrutura, no entanto, cria incontáveis nichos para trabalhadores informais: vender água, transportar excrementos, reciclar lixo, fornecer gás de cozinha, e assim por diante.

43 World Resources Institute, World resources: 1996-97 (Oxford, 1996), p. 21.

44 Slums of the world, cit., p. 25.

45 Slums, cit., p. 99.

46 Slums of the world, cit., p. 12.

47 Encontra-se um exemplar estudo de caso em Greg Bankoff, “Constructing vulnerability: the historical, natural and social generation of flooding in Metropolitan Manila”, Disasters, v. 27, n. 3, 2003, p. 224-38.

48 Otchet, “Lagos”; e Li Zhang, Strangers in the city: reconfigurations of space, power and social networks within China’s floating population (Stanford, 2001); Alan Gilbert, The Latin American city (Nova York, 1998), p. 16.

49 Martin Ravallion, On the urbanization of poverty, artigo do Banco Mundial, 2001.

50 Slums, cit., p. 28.

51 Slums of the world, cit., p. 12.

52 Fidelis Odun Balogun, Adjusted lives: stories of structural adjustment (Trenton, New Jersey, 1995), p. 80.

53 The challenge of slums, cit., p. 30. Os teóricos do “viés urbano”, como Michael Lipton, que inventou a expressão em 1977, argumentam que a agricultura tende a ser subcapitalizada nos países em desenvolvimento, e as cidades, relativamente “sobre-urbanizadas”, porque as políticas fiscais e financeiras favorecem a elite urbana e distorcem o fluxo dos investimentos. No limite, as cidades seriam vampiros do campo. Ver Lipton, Why poor people stay poor: a study of urban bias in world development (Cambridge, 1977).

54 Citado em Tony Killick, “Twenty-five years in development: the rise and impending decline of market solutions”, Development Policy Review, v. 4, 1986, p. 101.

55 Deborah Bryceson, “Disappearing peasantries? Rural labour redundancy in the neoliberal era and beyond”, em Bryceson, Cristóbal Kay e Jos Mooij (orgs.), Disappearing peasantries?: rural labour in Africa, Asia and Latin America (Londres, 2000), p. 304-5.

56 Ha-Joon Chang, “Kicking away the ladder. Infant industry promotion in historical perspective”, Oxford Development Studies, v. 31, n. 1, 2003, p. 21. “A renda per capita dos países em desenvolvimento cresceu 3% ao ano entre 1960 e 1980, mas somente cerca de 1,5% entre 1980 e 2000 [...] Os economistas neoliberais, portanto, defrontam-se aqui com um paradoxo. Os países em desenvolvimento cresceram muito mais depressa quando usaram ‘más’ políticas durante 1960-90 do que quando usaram políticas ‘boas’ (ou pelo menos ‘melhores’) nas duas décadas seguintes” (p. 28).

57 Slums, cit., p. 48.

58 Carole Rakodi, “Global forces, urban change, and urban management in Africa”, em Rakodi, Urban challenge, cit., p. 50, 60-1.

59 Piermay, “Kinshasa”, cit., p. 235-6; “Megacities”, Time, 11/1/1993, p. 26.

60 Michael Mattingly, “The role of the government of urban areas in the creation of urban poverty”, em Sue Jones e Nici Nelson (orgs.), Urban poverty in Africa (Londres, 1999), p. 21.

61 Adil Ahmad e Ata El-Batthani, “Poverty in Khartoum”, Environment and Urbanization, v. 7, n. 2, outubro de 1995, p. 205.

62 Alain Dubresson, “Abidjan”, em Rakodi, Urban challenge, cit., p. 261-3.

63 Banco Mundial, Nigeria: country brief, setembro de 2003.

64 ONU, World urbanization prospects, p. 12.

65 Luis Ainstein, “Buenos Aires: a case of deepening social polarization”, em Gilbert, Mega-city in Latin America, cit., p. 139.

66 Gustavo Riofrio, “Lima: mega-city and mega-problem”, em Gilbert, Mega-city in Latin America, cit., p. 159; e Gilbert, Latin American city, cit., p. 73.

67 Hamilton Tolosa, “Rio de Janeiro: urban expansion and structural change”, em Gilbert, Megacity in Latin America, cit., p. 211.

68 Banco Mundial, Inequality in Latin America and the Caribbean (Nova York, 2003).

69 Orlandina de Oliveira e Bryan Roberts, “The many roles of the informal sector in development”, em Cathy Rakowski (org.), Contrapunto: the informal sector debate in Latin America (Albany, 1994), p. 64-8.

70 Christian Rogerson, “Globalization or informalization? African urban economics in the 1990s”, em Rakodi, Urban challenge, cit., p. 348.

71 Slums, cit., p. 2.

72 Albert Park et al., “The growth of wage inequality in urban China, 1988 to 1999”, documento estimativo do Banco Mundial, fevereiro de 2003, p. 27 (citação); e John Knight e Linda Song, “Increasing urban wage inequality in China”, Economics of Transition, v. II, n. 4, 2003, p. 616 (discriminação).

73 Slums, cit., p. 34.

74 Shaohua Chen e Martin Ravallion, How did the world’s poorest fare in the 1990s?, documento do Banco Mundial, 2000.

75 Ver meu Late Victorian holocausts: El Niño famines and the making of the Third World (Londres, 2001), principalmente as páginas 206-9.

76 Slums, cit., p. 40, 46.

77 Keith Hart, “Informal income opportunities and urban employment in Ghana”, Journal of Modern African Studies, v. II, 1973, p. 61-89.

78 Alejandro Portes e Kelly Hoffman, “Latin American class structures: their composition and change during the neoliberal era”, Latin American Research Review, v. 38, n. 1, 2003, p. 55.

79 Slums, cit., p. 60.

80 Citado em Economist, 21/3/1998, p. 37.

81 Dennis Rondinelli e John Kasarda, “Job creation needs in Third World cities”, em Kasarda e

Allan Parnell (orgs.), Third World cities: problems, policies and prospects (Newbury Park, Califórnia, 1993), p. 106-7.

82 Slums, cit., p. 103.

83 Guy Mhone, “The impact of structural adjustment on the urban informal sector in Zimbabwe”, Issues in development, documento para discussão n. 2, Organização Internacional do Trabalho (Genebra, sem data), p. 19.

84 Slums, cit., p. 104.

85 Orlandina de Oliveira e Bryan Roberts enfatizam corretamente que os estratos inferiores da força de trabalho urbana deveriam ser identificados “não só pelo título de suas ocupações ou pelo emprego formal ou informal, mas pela estratégia da família para obter renda”. A massa de pobres urbanos só consegue existir mediante a “soma dos rendimentos, a divisão da moradia, da alimentação e de outros recursos” com familiares ou conterrâneos (“Urban development and social inequality in Latin America”, em Gugler, Cities in the developing world, cit., p. 290).

86 Estatística sobre crianças de rua: Natural History, julho de 1997, p. 4.

87 Dubresson, “Abidjan”, cit., p. 263.

88 Rogerson, “Globalization or informalization?”, cit., p. 347-51.

89 Bryceson, “Disappearing peasantries”, cit., p. 307-8.

90 Na definição original e inimitável de Clifford Geertzs, “involução” é “a ultrapassagem de uma forma estabelecida, de modo a torná-la rígida mediante a superelaboração interna dos detalhes”. Agricultural involution: social development and economic change in two Indonesian towns (Chicago, 1963), p. 82.  De forma mais prosaica, a “involução” agrícola ou urbana pode ser descrita como o aumento incessante da auto-exploração da mão-de-obra (mantendo fixos os outros fatores), que continua, apesar da redução do rendimento, enquanto produzir algum retorno ou incremento.

91 John Walton, “Urban conflict and social movements in poor countries: theory and evidence of collective action”, trabalho apresentado na “Cities in Transition Conference”, Humboldt University, Berlim, julho de 1987.

92 Kurt Weyland, “Neopopulism and neoliberalism in Latin America: how much affinity?”, Third World Quarterly, v. 24, n. 6, 2003, p. 1095-115.

93 Para uma descrição fascinante, mas assustadora, da ascensão do Shiv Sena em Bombaim à custa das antigas políticas comunistas e sindicalistas, ver Thomas Hansen, Wages of violence: naming and identity in postcolonial Bombay (Princeton, 2001). Ver também Veena Das (org.), Mirrors of violence: communities, riots and survivors in South Asia (Nova York, 1990).

94 Hugh McLeod, Piety and poverty: working-class religion in Berlin, London and New York, 1870- 1914 (Nova York, 1996), p. XXV, 6, 32.

95 Ignacio Ramonet, “Le Maroc indécis”, Le Monde Diplomatique, julho de 2000, p. 12-3. Outro ex-esquerdista disse a Ramonet: “Quase 65% da população vive abaixo da linha da pobreza. As pessoas das bidonvilles estão inteiramente isoladas das elites. Vêem as elites da maneira como costumavam ver os franceses”.

96 Em sua controvertida interpretação sociológica do pentecostalismo, Robert Mapes Anderson afirmou que “a intenção inconsciente [do pentecostalismo]”, como a dos outros movimentos milenaristas, era na verdade “revolucionária” (Vision of the disinherited: the making of American pentecostalism [Oxford, 1979], p. 222).

97 Anderson, Vision of the disinherited, cit., p. 77.

98 R. Andrew Chesnut, Born again in Brazil: the pentecostal boom and the pathogens of poverty (New Brunswick, 1997), p. 29. Sobre as ligações históricas do pentecostalismo com o anarquismo no

Brasil, ver Paul Freston, “Pentecostalism in Latin America: characteristics and controversies”, Social Compass, v. 45, n. 3, 1998, p. 342.

99 David Maxwell, “Historicizing christian independency: the Southern Africa pentecostal movement, c. 1908-60”, Journal of African History, n. 40, 1990, p. 249; e Jean Comaroff, Body of power, spirit of resistance (Chicago, 1985), p. 186.

100 Chesnut, Born again, cit., p. 61. Na verdade, Chesnut descobriu que o Espírito Santo não só movia as línguas como melhorava o orçamento familiar. “Por eliminar despesas associadas ao complexo de prestígio masculino, os assembleianos conseguiam subir das fileiras inferior e mediana da pobreza para os seus escalões mais altos, e alguns quadrangulares migraram da pobreza [...] para as faixas inferiores da classe média” (ibidem, p. 18).

101 “Em toda a história humana, nenhum outro movimento humano voluntário não-político ou militarista cresceu tão depressa quanto o movimento pentecostal carismático nos últimos vinte anos” (Peter Wagner, prefácio para Vinson Synan, The holiness-pentecostal tradition [Grand Rapids, 1997], p. XI).

102 A estimativa mais elevada é de David Barret e Todd Johnson, “Annual statistical table on global mission: 2001”, International Bulletin of Missionary Research, v. 25, n. 1, janeiro de 2001, p. 25. Synan diz que havia 217 milhões de pentecostais em 1997 (Holiness, cit., p. ix). Sobre a América Latina, conferir Freston, “Pentecostalism”, cit., p. 337; Anderson, Vision of the disinherited, cit.; e David Martin, “Evangelical and charismatic christianity in Latin America”, em Karla Poewe (org.) Charismatic christianity as a global culture (Colúmbia, 1994), p. 74-5.

103 Ver o brilhante Christianity and politics in Doe’s Liberia (Cambridge, 1993), de Paul Gifford. E também Peter Walshe, Prophetic christianity and the liberation movement in South Africa (Pietermaritzburg, 1995), principalmente p. 110-1.

104 Jefrey Gamarra, “Conflict, post-conflict and religion: Andean responses to new religious movements”, Journal of Southern African Studies, v. 26, n. 2, junho de 2000, p. 272. Andres Tapia cita o teólogo peruano Samuel Escobar, que vê o Sendero Luminoso e os pentecostais como “dois lados da mesma moeda”: “ambos buscavam um forte rompimento com as injustiças, só os meios eram diferentes”. “Com o declínio do Sendero Luminoso, o pentecostalismo surgiu como vencedor na luta pelas almas dos peruanos pobres” (“In the ashes of the shining path”, Pacific News Service, 14 de fevereiro de 1996).

105 Freston, “Pentecostalism”, cit., p. 352.

106 Comaroff, Body of power, cit., p. 259-61.

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