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9 de agosto de 2016

Porque al-Sisi odeia os sindicatos

A repressão do Estado egípcio sobre o trabalho é uma tentativa nua de anular a força por trás da revolução da Praça Tahrir

Ari Paul

Jacobin

Hossam el-Hamalawy / Flickr

Tradução / Uma noite, durante a Primavera Árabe, após uma viagem de carro pela rodovia que liga Alexandria e Cairo, um colega jornalista e eu chegamos em Zamalek, o arborizado bairro do Cairo onde estávamos. Tínhamos passado o dia com sindicalistas em Sadat City, uma das muitas zonas industriais do delta do Nilo, onde há muitos trabalhadores, o direito do trabalho é frouxo, e as empresas estrangeiras fazem uma festa na combinação.

O ditador de longa data Hosni Mubarak renunciara após protestos maciços seis meses antes e os sindicalistas independentes estavam otimistas. Durante décadas, o governo havia controlado os sindicatos do país através do seu relacionamento com a Federação Egípcia de Sindicatos. Na euforia após a queda de Mubarak, os ativistas esperavam que estivessem a caminho reformas que permitiriam aos sindicatos independentes proliferar. Ainda assim, permaneceram cautelosos com a repressão do governo.

Naquela noite, ao longo de algumas garrafas de Stella, um dos meus companheiros perguntou ao nosso colega, o egípcio-canadense jornalista Mohamed Fahmy, quais eram as chances de que o grupo de trabalhadores com o qual havíamos falado sobre a formação de sindicatos tivessem sido infiltradas por informantes do governo. “100 por cento”, disse ele.

Dois anos mais tarde, Fahmy e dois outros funcionários da Al-Jazeera foram presos pelo novo governo militar liderado por Abdel Fatah al-Sisi (e apoiado pelos EUA). Enquanto eu observava a cena na TV, dos Estados Unidos – Fahmi vestido com uniforme branco da prisão, julgado por um tribunal de faixada – ficou claro o quão perigoso o Egito tornara-se para alguém disposto a falar contra a ordem vigente ou se associar com esses dissidentes marcados.

Os relatórios continuaram a transmitir repressão atrás de repressão, centenas de mortos e presos, muitos deles jornalistas e ativistas proeminentes. Um fotógrafo com o qual tínhamos trabalhado foi baleado na perna por forças de segurança.

O governo militar – que tinha derrubado Mohamed Morsi, o primeiro líder democraticamente eleito do país – estava reprimindo os mesmos tipos de protestos que haviam derrubado Mubarak.

As revoltas operárias

Para a média dos observadores estrangeiros, a revolta contra Mubarak parecia ter pouco a ver com a luta de classes ou os direitos dos trabalhadores. Mas o movimento operário foi crucial para o sucesso da revolta inicial. Baseado em uma história de luta contra as intrigas dos estado-capital, os trabalhadores interromperam a produção e forneceram seu conhecimento organizativo para forçar a renúncia de Mubarak. A revolução da Praça Tahrir Square, na sua essência, uma revolução operária.

Como o Los Angeles Times, relatando a partir da cidade de El Mahalla el Kubra, escreveu à época, “A revolta balançando o Cairo não foi iniciado no Cairo. Começou nesta cidade de fábricas têxteis e de poluição asfixiante rodeada pelos campos de algodão e vegetais do delta do Nilo”. A socióloga Nada Matta também destacou as lutas operária como um importante impulso, escrevendo no The Bullet, em fevereiro de 2011:

“O fato de que os trabalhadores de Mahalla estejam entrando em greve desde 2006 e tenham sido capazes de obter concessões do estado em 2006 e 2007 chamou a atenção dos movimentos liberais egípcios e jovens ativistas. Após a greve de Mahalla em 2006, um total de cerca de 300.000 trabalhadores protestaram em várias indústrias, inciando a mais significativa luta da força de trabalho desde a década de 1940. Mahalla se tornou um símbolo de revolta e um desafio para o regime, e as demandas dos trabalhadores tornaram-se mais radicais.”

E, como a recente morte do jornalista sindical Giulio Regini parece indicar, o governo al-Sisi não se esqueceu disso.

Regeni, um estudante italiano de 28 anos, mudou-se para o Egito no ano passado para realizar pesquisas sobre os sindicatos independentes do país. Ele passou seu tempo livre redigindo relatórios sobre o movimento operário para publicações de esquerda e se reuniu com líderes da oposição e sindicatos.

Em fevereiro o seu corpo foi descoberto em trecho da rodovia Alexandria, espancado de tal maneira que sua mãe só pôde identificá-lo pela ponta do nariz. Enquanto o governo egípcio nega responsabilidade pela morte de Regini, agentes de segurança admitiram à Reuters neste verão que ele estava sendo monitorado por causa de sua associação com militantes operários.

Apropriadamente, o último despacho de Regini – publicado no jornal italiano Il Manifesto – reportou tentativas do Centro de Sindicatos e Serviços dos Trabalhadores (CTUWS) para unir mais de cinquenta organizações operárias sob um chamado pelo fim dos ataques contra o sindicalismo independente. A história recente da CTUWS é um testamento para o medo do estado frente a uma classe trabalhadora organizada: em 2012 o líder do CTUWS na época, Kamal Abbas, foi condenado a seis meses de prisão por insultar um ministro do governo.

Alguns analistas sugeriram que o governo militar seria forçado a permitir sindicatos independentes, mesmo que apenas para pacificar os trabalhadores descontentes com as más condições de trabalho, os baixos salários e desemprego generalizado.

Mas o governo tem feito exatamente o oposto neste ano, invalidando as reivindicações de qualquer sindicato independente, pondo em questão o princípio legal da “pluralidade sindical.” “Nenhuma das federações de sindicatos independentes tem sido capaz de suportar a repressão geral do regime de al-Sisi”, diz o historiador Joel Beinin.

Não é por falta de tentativa. Os sindicatos estão lutando contra a nova proibição nos tribunais e os trabalhadores estão tomando as ruas. Já este ano houve quase quinhentos protestos operários.

Se somando a esse esforço, o diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho escreveu uma carta a al-Sisi, em abril, exigindo que ele revogasse a proibição de sindicatos independentes.

Mas os militares, como era de se esperar, reagiram com indiferença.

Resistindo à repressão

Infelizmente, mesmo a atenção internacional gerada pela morte de Regini provavelmente não vai deter al-Sisi. Com a continuada deterioração da economia nacional, o ditador militar provavelmente vai se tornar ainda mais repressivo.

A indústria do turismo tem estado em queda livre, a inflação e o desemprego aumentam e ajuda externa está se tornando mais escassa. Ativistas, jornalistas e organizadores podem esperar mais detenções e mais violência nos próximos meses.

Em 2011, quando os protestos irromperam no Egito, muitas pessoas de fora olharam para os levantes como algo “ecumênico” e não-partidário –ações de uma população que simplesmente ansiava por ser livre, unida contra um déspota desligado de seu povo. Mas os protestos liberais nas ruas tiveram sua origem nas fábricas e usinas.

Se al-Sisi vier a cair – uma difícil tarefa, na verdade – será porque a auto-organização da classe trabalhadora novamente forneceu o impulso necessário.

15 de novembro de 2014

Servir ao povo

A falta de moradia não é um acidente. É o resultado de um sistema econômico brutal e de políticas governamentais conscientes.

Ari Paul

Jacobin

Garry Knight / Flickr

Tradução / Arnold Abbott, de noventa anos, tem ganhado as manchetes após ser preso por estar organizando atos de alimentação para moradores de rua em espaço público na sua cidade. O prefeito da cidade, Jack Seiler, acredita que o mais apropriado para o idoso seria uma sentença dequatro meses, ele conta aos repórteres que Abbott ‘’decidiu que esses indivíduos não deveria ter nenhuma interação com o governo, que eles deveriam ser simplesmente alimentados nos parques públicos. Nós discordamos.’’

Além da natureza ‘’Davi e Golias’’ do caso, os absurdos de tal injunção são inúmeros. Não seria uma clara Primeira Emenda da liberdade para as pessoas convocar? Poderia um estado que se diz democrático realmente evitar atos de caridade? E como o estado decide quem é sem-teto? Por exemplo, poderia um couch-surfer ser considerado sem abrigo e assim, sob essa lógica grotesca, ser um risco para a segurança pública?

Embora possa ser fácil de descartar isso como mais uma ocorrência estranha no famoso ‘’Sunshine State’’, Florida não se reduz a mais um estado insensível dos EUA. Ao redor do país os municípios tem implementado uma variedade de métodos e estatutos para perseguir e criminalizar aqueles que não possuem abrigo: a proibição da mendicância, estabelecendo ‘’qualidade de vida’’, confiscando bens pessoais, jogando ao leu construções em expansão (o que soa um tanto desencorajador), e até mesmo matar um homem por ter acampado no deserto.

O objetivo, claro, é empurrar esses ‘’incoveniente’’ para a periferia ao invés de resolver o problema subjacente. E o problema é de fato terrível: a falta de moradia está em ascensão a nível nacional.

Aproximadamente cinquenta mil pessoas estão sem moradia na cidade de Nova Iorque. O número dos sem-teto em Washington DC deverá aumentar 16% nesse inverno. E em Massachusetts o número disparou em 40% desde 2007. (Uma exceção surpreendente é Utah, onde um governo republicano começou simplesmente a fornecer moradia para os sem abrigo.) Na maioria das vezes, o número das pessoas sem teto aumenta quando pessoas ricas passam a possuir certas áreas, suas riquezas deslocam os locatários que, eventualmente, não podem mais alugar qualquer lugar.

A situação na florida não tem sido nada mais do que esclarecedora. Ela mostra como a miséria não somente é produzida por acidentes e erros do mecanismo do mercado, mas também por uma politica precisamente fria do estado. Austeridade não é um triunfo dos valores de mercado sobre o tão chamado ‘’grande governo’’, mas sim um desvio dos recursos do estado que deveriam prestar serviços as pessoas que passam por necessidade, ao invés disso essas forças atuam contra essas pessoas. Vale-refeição são cortados, no entanto, subvenções federais para os departamentos de polícia continuam fluindo.

Muitas vezes, alguns esquerdistas coíbem-se da ideia de caridade com o fundamento de que se trata de uma suspensão temporária do sofrimento causado pela desigualdade estrutural, um desperdício de tempo e energia e, que seria mais adequado se, de fato, houvesse atitudes que fizessem a sociedade mais justa e igualitária. Caridade também viria a introduzir relações de subordinação: ao invés de afirmar seus direitos à moradia e comida, os que são marginalizados aceitam a caridade alheia.

O assalto da austeridade sobre a caridade é, no entanto, um lembrete de que ela pode ser um ato subversivo. Alivia-se o sofrimento daqueles do lado perdedor do capitalismo, enganando a ‘’ordem natural’’ do Darwinismo Social, Também pode fortalecer os lados entre ativistas e aqueles que procuram por justiça. No entanto, caridade pode ser um meio para se se organizar contra políticas que garantem a desigualdade.

Na verdade, isso é o que motivou parte dos protestos do Occupy Wall Street, especialmente durante as consequências do furacão Sandy. Enquanto algumas pessoas viram os trabalhos de assistências como um provedor de serviços fragmentados, a ideologia do movimento centralizou-se no conceito de oferecer ajuda aos afetados pelo furacão, enquanto o estado falhava em prover assistência.

Um dos objetivos foi criar novos tipos de solidariedade, uma oportunidade para os movimentos que em sua maioria possuía integrantes brancos para se juntar a uma causa comum com comunidades negras de baixa renda, no entanto, outros objetivos eram mais a de acordo com uma visão de organização socialista radical – usando caridade para mostrar o modo como as prioridades do estado estão amarradas às vontades da elite.

Em certo sentido, Abbott, está mostrando um estado que usa a violência contra aqueles que fazem caridade ao invés de resolver um sistema que cria falta de moradia. E as noticias de Ft. Lauderdale não é somente um incidente isolado, como a Rádio Pública Nacional informou, tais leis anti-caridade estão apenas se tornando mais prevalecentes. Os trabalhadores de caridade que estão com mais frequência sendo presos não irão somente provar para o mundo que o capitalismo tem criado crises de falta de moradia, mas que tamanho sofrimento é cuidadosamente e fortemente imposto ao público pelo governo que serve aos poderosos.

É nesse sentido que caridade pode tomar um papel transformador – não simplesmente apaziguando aqueles que necessitam, mas denunciando um sistema que vira as costas para os direitos básicos desses cidadãos. Combater superficialmente ordenanças ”anti-sem-abrigo” e apenas distribuir caridade não será o suficiente. Nós devemos nos organizar para a erradicação das faltas de moradia e da própria fome.

Sobre o autor


Ari Paul is a journalist in New York City who has covered politics for the Nation, VICE News, the Guardian, the Forward, the New York Observer, Al Jazeera America, and the Brooklyn Rail.

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