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1 de maio de 2025

Revisionismo ocidental exalta Dia D e apaga papel decisivo da URSS

Desde o fim da Segunda Guerra, narrativa anticomunista trata nazismo e bolchevismo como irmãos separados ao nascer

Breno Altman
Jornalista, fundador do site Opera Mundi e autor do livro “Contra o Sionismo: Retrato de uma Doutrina Colonial e Racista” (Alameda Editorial)


[RESUMO] Autor sustenta que a definição do país responsável por selar a derrota de Hitler se tornou o principal terreno de disputa da historiografia sobre a Segunda Guerra Mundial, influenciado pelo conflito entre EUA e URSS durante a Guerra Fria. O revisionismo ocidental, escreve, vem distorcendo eventos históricos para minimizar o papel do Exército Vermelho e justificar a teoria dos dois demônios, que compara a URSS ao regime nazista.

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Batizou-se de Guerra Fria o período no qual, de 1947 a 1991, o mundo se viu dividido entre o campo capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e o socialista, comandado pela União Soviética. Muitas foram as frentes desse conflito —entre elas, a historiografia. O principal choque de narrativas deu-se sobre a luta contra o nazifascismo e se estende até os nossos dias.

Cumpria papel ideológico e cultural fundamental definir qual teria sido a força decisiva na derrota da Alemanha hitlerista, empreitada na qual os soviéticos estiveram aliados às democracias liberais. Inserido na disputa geopolítica, esse debate sempre foi reavivado, nos últimos 20 anos, pela decadência do bloco ocidental.

Bandeira da URSS hasteada no Reichstag, sede do parlamento em Berlim, depois do suicídio de Hitler e a tomada da cidade pelo Exército Vermelho - 2.mai.45/AFP

Os fatos de guerra, porém, constituíam enorme obstáculo para o discurso antissoviético. Mais de 25 milhões de cidadãos da primeira pátria socialista haviam sido mortos, contra cerca de 1 milhão de norte-americanos e britânicos. Quando ocorreu o desembarque na França, em junho de 1944, a sorte dos alemães já estava selada: os soldados da URSS haviam quebrado a coluna vertebral dos exércitos inimigos na Batalha de Stalingrado, finalizada em fevereiro de 1943, e marchavam rumo a Berlim.

Alguns estudiosos exaltam a ajuda material norte-americana à URSS, mas os próprios dados acessíveis nos Arquivos Nacionais dos EUA revelam um suporte periférico.

A Lei de Empréstimos e Arrendamentos, aprovada em 1941, permitiu o fornecimento de armas e equipamentos no montante de US$ 50 bilhões. Desse total, somente US$ 11,3 bilhões foram destinados à URSS —aproximadamente US$ 180 bilhões em valores atuais contra cerca de US$ 280 bilhões que os EUA, o Reino Unido e a União Europeia forneceram desde 2022 à Ucrânia, em uma guerra de envergadura infinitamente menor.

Esse aporte foi importante para resolver estrangulamentos específicos da logística soviética, deficiente em transporte, com a entrega de caminhões e locomotivas que chegaram a representar mais de 35% dos meios de mobilidade. Em seu livro "Russia's Life-Saver: Lend-Lease Aid to the U.S.S.R. in World War II", o norte-americano Albert L. Weeks, assessor do Departamento de Estado, reivindica que o auxílio prestado foi essencial em vários setores, mas não contesta os números soviéticos, de que seu volume ficou apenas entre 4% e 10% de toda a produção industrial da URSS de 1941 a 1945.

Durante a beligerância antinazista, de toda maneira, o protagonismo da URSS foi ressaltado pela indústria cinematográfica e a imprensa estadounidenses, que contrabalançavam tal predomínio com a exaltação de batalhas no oceano Pacífico contra o Japão imperial, depois incorporando o desembarque na Normandia e outras façanhas. Poucos meses após a derrocada do Eixo, tudo mudou: uma escalada de filmes, livros e estudos acadêmicos foi desatada para reescrever a história e torná-la útil na nova jornada anticomunista.

As batalhas travadas pelos soviéticos foram sendo atiradas ao limbo, enquanto feitos ocidentais, como a retirada de Dunquerque (1940) e o Dia D (1944), viravam epopeias e passavam a ser apresentados como mitos fundadores da saga antinazista.

Ainda que essa campanha tenha colhido frutos na opinião pública internacional, mesmo na contramão da realidade, era insuficiente para transformar Josef Stálin e seus companheiros de heróis antinazistas em inimigos da democracia. Não bastava a crítica aos abusos autoritários, verdadeiros ou falsos, da experiência socialista: era necessário aparentá-lo ao nazismo, para que a bandeira democrática fosse, de vez, um monopólio do Ocidente.

Nazismo e bolchevismo deveriam ser tratados como irmãos de berço, separados ao nascer. Aspectos pontuais vieram a ser descontextualizados, destacados e comparados para justificar a teoria dos dois demônios, embalada sob o conceito de totalitarismo e lapidada por liberais como Hannah Arendt.

A contradição central da humanidade, pelas lentes da Guerra Fria, era exibida como uma queda de braço entre sistemas democráticos e regimes totalitários. Mas haveria sempre espaço, na primeira categoria, é claro, a ditaduras sanguinárias que tivessem sido impostas para conter o risco, real ou imaginário, de revoluções socialistas.

O episódio mais relevante para provar o suposto parentesco do comunismo com o nazismo tem sido, nesse longo período, o Pacto Molotov-Ribbentrop, assinado em 23 de agosto de 1939 pelos chanceleres da URSS e da Alemanha. Seria a evidência definitiva do renascimento, em pleno século 20, dos irmãos Abel e Caim.

O Parlamento Europeu decidiu, em 2009, consagrar a data desse acordo como dia da memória das vítimas de todos os regimes totalitários. A escolha foi justificada por considerar o tratado germano-soviético o estopim do conflito mundial, ao repartir a Polônia e os Estados bálticos, que supostamente teria aberto caminho para a ação alemã em 1º de setembro de 1939.

Essa posição omite as circunstâncias daquele pacto e falsifica seu alcance estratégico. Simplesmente ignora o empenho soviético, desde 1933, para estabelecer uma coalizão com as democracias liberais contra Hitler, frustrada pela preferência ocidental em incentivar que a tirania nazista atacasse e destruísse a URSS.

Sob a liderança de Stálin, Moscou aderiu à Liga das Nações pouco depois da ascensão do hitlerismo ao poder. A partir de 1934, a Internacional Comunista adotou como linha política a construção de frentes populares contra o fascismo, enquanto expoentes liberais continuavam flertando com Mussolini e Hitler.

A prova de fogo foi a Guerra Civil Espanhola, detonada por um fracassado golpe em 1936. Os franquistas receberam pleno apoio da Alemanha e da Itália, enquanto os republicanos eram acolhidos pela solidariedade soviética —e os governos ditos democráticos lavavam as mãos no sangue de Guernica.

Naquela mesma época, de 1933 a 1939, vários governantes preferiram estender a mão ao ditador nazista. Projetavam que sua sede expansionista, conforme anunciado em "Minha Luta" (1925), estaria limitada ao país dos sovietes. Apostavam que a pugna pelo espaço vital germânico, o "Lebensraum", mediante acenos diplomáticos e concessões territoriais, poderia poupar outras nações.

A Polônia de Józef Pilsudski puxou a fila, em 1934, assinando um pacto de não agressão com Berlim, seguida por outros governos. O ápice dessa estratégia ocorreria em setembro de 1938, quando Reino Unido e França aderiram ao Acordo de Munique, subscrito também por alemães e italianos, pelo qual parte da Tchecoslováquia —a região dos Sudetos— foi cedida a Hitler. Tratava-se da política de apaziguamento advogada pelos primeiros-ministros Neville Chamberlain e Édouard Daladier, sua resposta objetiva aos apelos recorrentes da URSS por uma frente antinazista.

Como está registrado no livro "Stalin's Wars", do historiador inglês Geoffrey Roberts, o chefe comunista ainda tentaria, nos meses seguintes, dobrar Londres e Paris. Apresentou uma derradeira proposta de proteção à Polônia e à Romênia contra o regime nazista, dispondo-se a mover suas tropas até a fronteira alemã, pelo território polaco, desde que contasse com o engajamento franco-britânico em uma tripla aliança militar contra Hitler.

Os líderes poloneses e romenos, ferrenhamente anticomunistas, recusaram-se a dar passagem aos soldados soviéticos. Chamberlain e Daladier cruzaram os braços, insistindo que as conversações continuassem exclusivamente no plano diplomático. Stálin sentiu cheiro de traição no ar. Aos seus olhos, França e Reino Unido estavam empurrando a Alemanha para cima da União Soviética. Virou o jogo e mudou de tática. O resultado seria a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop.

Considerando que a economia e a defesa de seu país precisavam de prazo para estarem à altura de uma guerra solitária contra a Alemanha, o sucessor de Lênin tratou de convencer Hitler de que uma ofensiva a oeste seria sua melhor opção. Em troca de um cordão sanitário que deveria ir da Finlândia ao trio báltico (Estônia, Letônia e Lituânia), passando por um pedaço do território polonês, Stálin assumia um compromisso de não agressão e oferecia outras facilidades para os exércitos alemães.

Ganhar tempo e se fortalecer ao máximo possível eram os objetivos soviéticos. A guerra era inevitável, mas foi adiada por quase dois anos. A URSS só entrou em combate quando atacada. Essa prorrogação terá sido decisiva? Só nos resta julgar pelo desfecho que conhecemos: a invasão alemã de 1941 deparou-se com a mais tenaz resistência que o mundo já viu e terminou com a chegada épica do Exército Vermelho na capital alemã.

O hasteamento da bandeira soviética sobre as ruínas do parlamento germânico deu vida à foto mais marcante de como terminou o maior de todos os embates militares. Desde então, a sôfrega missão do revisionismo histórico tem sido apear e destruir, pelas armas da propaganda, o estandarte que simbolizou o fim do regime nazista.

A verdade, contudo, é que Moscou continua a ser o lugar certo para celebrar a capitulação do Reich de mil anos.

24 de outubro de 2024

Governo de Israel merece ódio de todos, não só da esquerda

Práticas genocidas deveriam ser incompatíveis com valores de qualquer pessoa

Breno Altman
Jornalista judeu, fundador do site Opera Mundi e autor do livro “Contra o Sionismo: Retrato de uma Doutrina Colonial e Racista” (Alameda Editorial)

Folha de S.Paulo

[RESUMO] Em resposta a texto publicado na Ilustríssima, jornalista refuta que Israel tenha sido criado sob valores autênticos de esquerda e que as críticas desse espectro político ao país tenham fundo antissemita. Para autor, movimento sionista se estruturou em bases religiosas e nacionalistas reacionárias que resultaram em limpeza étnica e carnificina ainda em curso contra o povo palestino.

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Um dos recursos retóricos mais constantes dos sionistas é tentar estabelecer equivalência entre sionismo e judaísmo, de tal sorte que críticas a essa corrente e a sua encarnação estatal possam ser invalidadas como antissemitas. No embornal dessa mutreta sofística, abriga-se o conceito de "israelofobia": o combate ao Estado de Israel seria uma adaptação do preconceito antijudaico.

A Folha publicou artigo que transita por essa via, intitulado "Como Israel, criado sob ideias socialistas, virou alvo de ódio da esquerda". A autoria é da jornalista Sabrina Abreu, diretora da Stand With Us Brasil, agência pertencente ao lobby sionista. Sua resposta à indagação que encabeça o texto omite décadas de colonização, limpeza étnica e carnificina contra o povo palestino.

Manifestação da comunidade palestina em São Paulo, na região da av. Paulista, contra a guerra em Gaza - Zanone Fraissat-22.out.23/Folhapress

Entabulando um raciocínio fantasioso, esconde as práticas genocidas de Israel, como se isso não fosse motivo suficiente para provocar o ódio da esquerda e de qualquer pessoa com índole humanista.

O desfile de barbaridades começa na primeira frase do texto dela: "Israel nasceu sob o domínio da esquerda". Explicando sua afirmação, a autora relembra que o sionismo trabalhista liderou o regime em sua etapa inicial, de 1948 a 1977, e recorre à mitologia dos kibutzim (comunidades agrícolas coletivas) para demonstrar o "ideal socialista" do Estado.

Para início de conversa, o trabalhismo sionista não brota do movimento socialista dos séculos 19 e 20, ao contrário do que insinua Abreu. Limita-se a ser uma variante moderada no interior do sionismo, destinada a camuflar sua identidade frente a massas judaicas influenciadas por correntes anticapitalistas.

Fundado em 1897, por judeus reacionários da estirpe de Theodor Herzl, o movimento sionista se estruturou sobre pilares que exalavam o nacional-chauvinismo típico da direita europeia: a construção de um Estado sob supremacia étnico-religiosa judaica e a ocupação da Palestina para viabilizar esse projeto.

Apresentou-se como sinônimo de "autodeterminação do povo judeu". Essa credencial nunca passou de clichê vulgar. Não há comparação possível com as lutas anticoloniais, através das quais distintas nacionalidades, definidas como intersecção entre povos e territórios, buscam se libertar de metrópoles usurpadoras.

O nacionalismo proposto pelos sionistas era uma trapaça: recrutar a diáspora judaica, através de uma narrativa prenha de misticismo religioso, para se instalar como etnocracia sobre um território no qual outro povo, árabe-muçulmano, respondia por 85% da densidade demográfica.

Esse ponto de vista logo foi combatido por vozes de esquerda, incluindo aquelas de origem judaica. São conhecidos os textos de Eduard Bernstein (judeu!) Karl Kautsky, Victor Adler (também judeu!), Vladimir Lênin, Leon Trótski (outro judeu!) e Josef Stálin, entre muitos, tratando o sionismo como ideologia abominável.

Para esses personagens, a superação do antissemitismo dependeria de a revolução socialista eliminar a base objetiva do ódio contra os judeus, a saber, o quase monopólio da função mercantil e creditícia exercido desde a Antiguidade. Kautsky escreveu, em "Raça e Judaísmo" (1914), que os judeus se constituíam em um "povo-classe" cuja emancipação como povo dependeria do desaparecimento da classe de mercadores e rentistas à qual historicamente estavam vinculados.

Outras organizações judaicas foram criadas para enfrentar o antissemitismo, mas com viés oposto ao indicado por Herzl e seus pares. A mais relevante dessas entidades foi a Liga Geral dos Trabalhadores Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia, parida também em 1897 e conhecida como Bund.

Essa instituição, identificada como o partido socialista judaico, defendia que os judeus vivessem de forma plena e assimilada nas sociedades para as quais seus ancestrais tinham emigrado, embora preservando características comunitárias autônomas —como o idioma, a tradição cultural e a crença religiosa.

Acusava o sionismo de estar ligado aos interesses da burguesia judaica e do imperialismo britânico. Denunciava também sua cumplicidade com o antissemitismo, já que buscava se beneficiar da perseguição aos judeus sob o Império Russo, aliciando-os para o projeto de colonização da Palestina com o beneplácito do czar.

A crítica de esquerda era de tal alcance, entre judeus da Europa Oriental, que veio a surgir, no âmbito do próprio sionismo, um setor que se identificava como "socialista", cujo interesse era representar os trabalhadores judeus, alijados pela fração mais conservadora.

Seu principal líder, no início, foi Ber Borochov, fundador do partido Poale Zion, ou Trabalhadores do Sião. Buscava mesclar sionismo e marxismo, subordinando formulações socialistas aos princípios etnocráticos listados por Herzl.

Essa é a origem do trabalhismo israelense, o chamado "sionismo de esquerda": sairia desse campo o primeiro núcleo dirigente do Estado de Israel, governando-o ininterruptamente de 1948 a 1977. Para essa gente, tratava-se de erguer o Estado sob supremacia judaica na Palestina colonizada, mas oferecendo possíveis instrumentos de proteção a judeus pobres emigrados —como os kibutzim citados por Sabrina Abreu. Árabes-muçulmanos deveriam ser marginalizados, expulsos ou mortos.

As fazendas coletivas, aliás, são pouco mais que uma lenda ideológica. Antes do desmoronamento econômico provocado pelas políticas privatistas posteriores a 1977, os kibutzim, restritos a judeus, atingiram um máximo de 5% da população, registrados em 1953.

De acordo com o historiador israelense Tom Segev, "o serviço mais importante fornecido pelos kibutzim à luta nacional judaica foi militar, não econômico ou social". Com código discriminatório semelhante, e muito mais relevante que as comunidades agrícolas, a Histadrut, central sindical sionista, foi criada em 1920.

Chefiada pelos trabalhistas, essa entidade nasceu representando trabalhadores judeus, tornou-se um grande conglomerado empresarial judaico, com empregos somente para judeus. Aceitou a filiação de árabes-israelenses a partir de 1959, mas preservando seus vínculos com o projeto segregador.

O colaboracionismo de setores sionistas com o nazismo, nos anos 1930, foi outro elemento que alimentou a ira marxista contra o pretenso "nacionalismo judaico". O caso mais marcante, de uma extensa lista, foi o Acordo Haavara, entre a Federação Sionista da Alemanha e o governo Hitler, vigente de 1933 a 1938.

O elemento principal desse pacto estava na liberdade para judeus saírem da Alemanha com seus ativos financeiros, desde que emigrassem para a Palestina e esses recursos, tributados por Berlim em 25%, fossem utilizados para aquisição de mercadorias e serviços alemães.

Costurada para favorecer os mais ricos e arrefecer a resistência antinazista, essa combinação violava o boicote mundial estabelecido, a partir de 1935, contra as Leis de Nuremberg —exatamente a legislação que institucionalizaria o antissemitismo hitleriano.

Como se pode ver, o confronto entre esquerda e sionismo é bem anterior à Guerra dos Seis Dias, de 1967, a despeito da argumentação esgrimida pela jornalista da agência pró-Israel. Mas houve um intervalo nesse embate, logo após a Segunda Guerra Mundial.

A comoção gerada pelo Holocausto, com 6 milhões de judeus martirizados, amainou as tensões com o sionismo, então liderado por sua ala trabalhista. A União Soviética, sob comando de Stálin, ofereceu apoio à criação do Estado de Israel, aprovando a resolução 181 das Nações Unidas, determinando a partilha da Palestina.

Mais que isso: através da Tchecoslováquia, armou as tropas de Ben-Gurion, primeiro chefe de governo de Israel, na guerra de 1948-49 contra os palestinos e países árabes, que se recusavam a entregar mais da metade do território às pretensões sionistas.

Um crasso erro do chefe comunista: fracassou ao imaginar que Israel poderia ser, no prólogo da Guerra Fria, um aliado contra o arco imperialista que vinha sendo forjado pelos Estados Unidos.

O regime sionista, nos anos 1950, deslocou-se para o bloco norte-americano, acabando com a trégua entre sionismo e esquerda —à exceção de partidos sociais-democratas incorporados ao campo pró-capitalismo no pós-guerra.

Em contrapartida, Israel recebeu monumentais transferências financeiras e aportes militares que possibilitaram uma firme expansão colonial, até que a Guerra dos Seis Dias consolidasse seu domínio por toda a região.

Foram décadas de opressão e violência praticadas pelo Estado sionista até chegarmos ao genocídio atual do povo palestino. As piores previsões da esquerda a respeito do sionismo, fixadas há mais de cem anos, apenas roçaram os crimes de limpeza étnica e extermínio em curso.

O governo Netanyahu representa a confluência natural do sistema de apartheid entranhado na doutrina de Herzl e abraçado por todas as alas do movimento.

A jornalista Sabrina Abreu falsifica fatos quando atribui ao antissemitismo o ódio da esquerda, e de boa parte da humanidade, contra o regime sionista. A verdade é que racismo e colonialismo, mesmo quando embalados em discursos nacional-socialistas de fachada democrática, são incompatíveis com valores progressistas.

6 de novembro de 2020

Indígenas combateram golpe e resgataram sonho de Estado plurinacional na Bolívia

Resistência de povos originários foi peça-chave para vitória de Lucho Arce e volta do partido de Evo ao poder

Breno Altman
Jornalista e fundador do site Opera Mundi

Folha de S.Paulo

[RESUMO] Para jornalista, vitória do candidato do MAS nas eleições deste ano na Bolívia demonstra a importância da luta de etnias indígenas contra o jugo colonial a que foram historicamente submetidas e indica o resgate do Estado plurinacional, sonho do líder mítico Túpac Katari.

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Conta-se que Julián Apasa Nina liderou o povo aimará contra as autoridades espanholas. Depois de trabalhar nas minas do altiplano andino, em regime forçado, e viver do comércio itinerante da folha de coca, juntou-se aos seguidores de Túpac Amaru II, bisneto do último imperador inca, Atahualpa, e chefe da chamada Grande Rebelião, iniciada em 1780 na região de Cusco, hoje território peruano.

Recebeu a tarefa de levar uma carta do líder, com instruções de combate em Potosí e Oruro, para Tomaz Katari, que comandava os rebeldes no Alto Peru, atual Bolívia. Quando chegou ao destino, porém, o cacique aimará tinha sido assassinado pelos espanhóis. Era janeiro de 1781. Quatro meses depois, Túpac Amaru também estaria morto.

Uma assembleia comunitária acabou por decidir que Apasa deveria continuar a luta, designando-lhe o nome composto dos dois mártires: Túpac Katari.

Apoiadores do ex-presidente da Bolívia Evo Morales protestam em La Paz com bandeiras da whipala, símbolo dos povos indígenas. Jorge Bernal/AFP

Formou um exército com mais de 40 mil homens e cercou por duas vezes a cidade espanhola de La Paz. Terminou derrotado, no entanto, pelas manobras políticas e militares dos colonizadores. Seria executado e esquartejado em novembro de 1781, ao lado de outras lideranças da revolta ameríndia, incluindo sua esposa e sua irmã.

Antes de tombar, deixou para o futuro suas últimas palavras. “Matam apenas a mim. Voltarei e serei milhões”, declarou diante dos carrascos.

Essa passagem da história boliviana simboliza a relevância da questão colonial, um tema vital e ancestral para quem quiser compreender a espetacular vitória de Lucho Arce, do MAS (Movimento ao Socialismo), apoiado pelo ex-presidente Evo Morales, onze meses depois que um levante civil e militar parecia ter enterrado o bloco de esquerda, livrando as elites senhoriais da wiphala, a bandeira plurinacional rasgada pelos golpistas em nome da Bíblia dos cristãos.

A compreensão plena desse fenômeno exige ir além do enfoque antirracista. Os estratos ameríndios constituem nações destroçadas —com território, idioma, institucionalidade, cultura e crenças religiosas estabelecidas. Ao contrário de processos nos quais houve extermínio, ampla miscigenação e integração às sociedades forjadas pelo colonialismo, na Bolívia os povos originários persistiram historicamente como pátria desconstruída e ocupada.

O país tem população de 11 milhões de habitantes, dos quais 55% são constituídos por indígenas de 37 etnias. As duas mais numerosas são os quéchuas e os aimarás, somando 5 milhões de homens e mulheres. Os restantes 30% são mestiços, e apenas 15% são brancos.

Até a posse de Evo Morales, em 2006, no entanto, do domínio espanhol ao período independente, essas etnias sentiam-se vivendo sob jugo colonial em sua própria terra, submetidas ao tacão dos interesses políticos, econômicos e sociais dos predadores de riquezas minerais e dos latifundiários que repartiram o país entre si.

As forças de esquerda, até finais do século 20, não tinham muito lugar ao sol, relativamente afastadas da base indígena e camponesa, de seus costumes e organizações. Ainda que certos partidos, em alguns momentos, tenham estabelecido vínculos com núcleos de trabalhadores urbanos e mineiros, além de frações das camadas médias, tampouco essas correntes socialistas eram percebidas pela maioria colonizada como alternativa confiável.

ASCENSÃO DE EVO MORALES

Seria apenas a partir dos anos 1980, com a paulatina ascensão de Evo Morales, que a divisão entre indígenas e socialistas seria superada.

De origem aimará, chefe sindical dos cocaleros no Trópico de Cochabamba, o ex-presidente seria capaz de unificar, nas décadas seguintes, uma ampla gama de movimentos sociais, conduzindo a maioria dos povos originários a uma fusão política com parcelas da esquerda tradicional. O trajeto bloqueado, dos socialistas aos indígenas, fora desimpedido quando o sentido da mão se inverteu, dos indígenas aos socialistas.

As diversas organizações do campesinato indígena se comporiam, em 1995, na Assembleia pela Soberania dos Povos (ASP). Tentaram fundar o seu próprio partido, mas não conseguiram apoio suficiente. Aproximaram-se da Esquerda Unida para disputar eleições em 1997, quando Evo foi eleito deputado nacional.

Depois se afastaram, em 1999, para ocupar uma pequena sigla chamada Movimento ao Socialismo (MAS), com registro eleitoral conquistado quase dez anos antes. Rebatizaram a nova casa, acoplando ao velho nome a denominação complementar Instrumento Político pela Soberania dos Povos (IPSP).

A bem da verdade, o MAS-IPSP não é exatamente um partido, mas ancoradouro institucional para agrupamentos representados na ASP, que preservam autonomia e controlam o poder decisório sobre a legenda, também reforçada por militantes e tendências de esquerda. O presidente eleito, Lucho Arce, por exemplo, é antigo ativista do Partido Socialista, de orientação marxista, explodido em pedaços há muito tempo.

Esse duplo movimento, de unificação do campesinato indígena e de fusão com a esquerda tradicional, permitiu a Evo Morales e sua agremiação colecionar importantes vitórias desde 2005, quando foi eleito presidente pela primeira vez, com 53,7% dos votos. Nos pleitos seguintes, em 2009 e 2014, faria 64,2% e 61,4%, respectivamente, sempre com triunfo no primeiro turno e o MAS recolhendo maioria nas duas casas do parlamento.

Com sua base social fortemente mobilizada —tendo como eixos a emancipação dos povos originários, a defesa da soberania e a luta contra a desigualdade—, o massismo refundou a República como um Estado plurinacional na Assembleia Constituinte de 2007, com a nova carta referendada cerca de dois anos depois. Sob protestos das elites brancas e mestiças, foram reconhecidos direitos políticos, econômicos, sociais e culturais das nações indígenas. A wiphala foi oficializada como um dos símbolos nacionais.

Os resultados positivos do governo Evo Morales consolidaram sustentação de ampla maioria, com a elevação das condições materiais e subjetivas de vida dos ameríndios e das classes trabalhadoras. As políticas de nacionalização das riquezas minerais fortaleciam o ingresso público e a capacidade do Estado em fomentar políticas sociais, programas de emprego e renda, expansão do mercado interno e investimentos em infraestrutura. Os setores médios mais conservadores e os oligarcas da planície, centralizados em Santa Cruz, acabaram isolados e enfraquecidos.

A liderança do MAS e de Evo, nessas circunstâncias, decidem convocar um referendo, realizado em 2016, para permitir mais uma reeleição do presidente, no pleito que se realizaria em 2019: a proposta foi rechaçada por 51,3% dos eleitores, pesadamente atacada pela imprensa e pela oposição de direita.

A própria tradição coletivista de quéchuas e aimarás parecia falar mais alto. Com um recurso à Corte Suprema, consegue-se decisão que permitiria anular os efeitos da consulta, mas com o efeito colateral de gerar onda de desconforto perante o aparente desrespeito à soberania popular.
GOLPE

As urnas do ano passado registrariam esse desgaste. Evo Morales caiu para 47% dos sufrágios, perdendo 14 pontos percentuais em relação às eleições anteriores. Uma vitória apertada, com pouco mais de 10% de dianteira sobre o segundo colocado, animou seus adversários a deslanchar uma operação golpista, com apoio dos Estados Unidos e seus aliados, recusando o resultado. Um falso informe de fraude da OEA (Organização dos Estados Americanos) foi a cereja do bolo.

As forças de direita conseguiram mobilizar seus seguidores, encurralar o MAS e atrair apoio tanto nas Forças Armadas quanto nas estruturas policiais. Desarticulado e despreparado diante da reviravolta no cenário político, o governo sucumbiu.

O comando do Estado retornou, então, para as antigas castas senhoriais, sob a batuta da senadora Jeanine Añez, autoproclamada presidente por meio de uma manobra sem respaldo legal. Os novos governantes, cavalgando na soberba, interpretaram a derrocada da esquerda como irreversível e fizeram o de sempre: muita repressão, botim sobre as finanças públicas, medidas de favorecimento às corporações privadas, submissão às demandas dos países capitalistas centrais e atropelo dos povos originários.

Desde a primeira hora, as etnias do altiplano entraram em luta direta contra a ditadura Añez, embora o movimento sindical e outros setores continuassem divididos. Mulheres e homens dos grupos ameríndios, às dezenas de milhares, ocuparam as ruas de La Paz e de outras cidades, trancando estradas e combatendo o golpe.

Era um caso sui generis: a vanguarda estava provisoriamente desbaratada, batendo em retirada, mas as massas indígenas reagiam contra o que lhes parecia a retomada da dominação colonial.

O novo governo tomava medidas que ofendiam os direitos de uma enorme parcela da população. Diante da eclosão pandêmica, meteu os pés pelas mãos e foi incapaz de proteger minimamente a saúde pública. Afora isso, os partidos do golpe se dividiram, fracionados por interesses, ambições e pendengas regionais. Mesmo com sucessivos adiamentos das eleições, inicialmente previstas para maio, a direita inscreveu cinco candidaturas, depois reduzidas a três, com a renúncia da presidente interina e de Tuto Quiroga.

O MAS, ao contrário, manteve sua unidade. Escolheu um candidato branco, indicado pelo ex-presidente, que representa a fusão entre ideias socialistas e movimento indigenista. Para a Vice-Presidência, indicou o líder aimará David Choquehuanca, que expressa uma vertente mais nacionalista e étnica entre os povos originários. Qualquer cisão poderia ter sido mortal.

Bastaram poucos meses de ditadura senhorial, com o massismo reorganizado e em campanha, para o pêndulo do eleitorado se deslocar novamente em direção à esquerda. O mau humor com Evo, motivado aparentemente pelo desrespeito ao referendo, rapidamente foi suplantado pela percepção que, sem o MAS, com a direita, a regressão colonialista seria brutal.

ELEIÇÕES 2020

Esse estado de espírito, encarnado nas ruas em gigantescas mobilizações populares, empurrou para cima e para o alto a fórmula comandada por Arce, eleito com folga no primeiro turno, com 55,1% dos votos, aplastando as duas principais candidaturas restauracionistas, Carlos Mesa (28,83%) e Luiz Fernando Camacho (14%). O partido do presidente eleito ainda conquistou maioria parlamentar, com 21 das 36 cadeiras no Senado e 73 das 130 na Câmara dos Deputados.

Por ora, os antigos senhores estão aparvalhados e confusos, mas ainda detêm força econômica, midiática e militar, além de articulação internacional. Voltarão a atacar, mais cedo ou mais tarde. Porém, se depararam, dessa vez, com povos que tomaram o destino em suas próprias mãos.

Não é à toa que as festas no altiplano se encheram com as cores da wiphala. O Estado plurinacional, sonho de Túpac Katari, sobreviveu e foi resgatado pelas multidões indígenas que, nas ruas e no voto, cumpriram a senda anunciada pelo líder antológico: retornado da morte, converteu-se em milhões.

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