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13 de novembro de 2022

"Latifundismo" de extrema-direita quer desapropriar populações inteiras

De Israel ao Brasil, as violentas forças de extrema direita adotaram a linguagem dos “proprietários” defendendo suas propriedades ameaçadas. A guerra deles contra os despossuídos baseia-se em uma afirmação simples: nós somos donos deste país, vocês só moram aqui.

Daniel Kressel

Jacobin

Uma seção do muro israelense na Cisjordânia entre a cidade de Salfit e o assentamento de Ariel. (Wikimedia Commons)

Tradução / Em quarenta e oito horas, o mundo viu a derrota eleitoral de um líder de direita e o retorno triunfante de outro. Embora Jair Bolsonaro não tenha reconhecido que havia perdido o segundo turno presidencial brasileiro de 30 de outubro, ele agora parece ter sido forçado a desistir de sua reivindicação ao poder. Enquanto isso, em Israel, Benjamin Netanyahu venceu as eleições gerais de 1º de novembro, caminhando para uma coalizão de extrema direita de um tipo que o país nunca viu antes.

Cabe um breve esclarecimento: a maioria dos israelenses não votou em Netanyahu (seu bloco recebeu 48,4%). No entanto, ele terá maioria no parlamento (64 das 120 cadeiras) graças a uma lei aprovada por seu partido em 2014 que aumentou o limite para os partidos entrarem no Knesset para quatro cadeiras (3,25% do voto popular), criando obstáculos para o minoria palestina, tradicionalmente dividida em vários pequenos partidos. De fato, com dois partidos de esquerda não conseguindo atingir esse limite (Meretz e Balad), e com um partido supostamente anti-Netanyahu montando um esforço transparente para desperdiçar votos de esquerda (Habayit Hayehudi de Ayelet Shaked), mais de 7% dos eleitores anti-Netanyahu não serão representados no próximo parlamento. É assim que o gerrymandering* parece em Israel.

Ainda assim, o grande vencedor das eleições israelenses não é tanto Netanyahu quanto seu novo aliado, Itamar Ben-Gvir. Um provocador de extrema direita na campanha que levou ao assassinato de Itzhak Rabin em 1995, ele atua à margem da política de extrema direita israelense há décadas. Netanyahu, que enfrenta vários casos de corrupção, permitiu a Ben-Gvir mobilizar jovens israelenses e vencer as eleições na esperança de que uma coalizão de direita possa mudar as leis que levaram Netanyahu a julgamento, ou aprovar leis que anulem o poder de Suprema Corte de Israel. Ao fazer isso, Netanyahu legitimou o partido de Ben-Gvir (Otzma Yehudit, ou “Poder Judaico”) e sua ideologia. De fato, os discursos de Ben-Gvir se tornaram um espetáculo comum nos noticiários da TV israelense – uma forma de entretenimento. Com quatorze cadeiras no parlamento, Ben-Gvir e seus seguidores agora esperam conquistar o Ministério da Segurança Interna. Ainda não se sabe se Netanyahu está em posição de barganhar com seu novo aliado fanático.

Do Brasil à Israel, os dois líderes de direita e o fanatismo religioso que impulsiona seus movimentos políticos, nunca foram tão parecidos. Enquanto os populistas de direita na Europa e nos Estados Unidos rotularam retoricamente seus adversários políticos como a anti-nação, as versões israelense e brasileira estão desapropriando sistemática e ativamente populações indígenas que acreditam não ter o direito de estar lá. Em outras palavras, a retórica de Ben-Gvir e as saudações nazistas dos apoiadores de Bolsonaro são simplesmente as manifestações descaradas de movimentos que fizeram da limpeza étnica o centro de seu projeto político.

"Estado Judeu" ou "Terra dos Judeus"?
 
Para entender quem é Ben-Gvir e o que ele quer, devemos ressaltar que suas ideias histéricas dificilmente são originais. Desde novembro de 1947, quando a Palestina foi obrigada a se dividir em duas, Israel – e o movimento sionista como seu núcleo ideológico – não conseguiu resolver o nó górdio entre ser um estado “democrático” e um Estado “judeu”. A nuance nesta fórmula complica ainda mais as coisas. De 1947 em diante, Israel tem sido de fato um “Estado judeu”: sua língua formal é o hebraico, opera de acordo com o calendário judaico, suas leis são inspiradas na legalidade rabínica e seu sistema educacional ensina até as crianças israelenses mais seculares as verdades da bíblia judaica.

É verdade que Israel não inventou o estado-nação como um conceito. Mas no caso israelense há algo diferente: o uso da política de imigração e colonização de terras palestinas para confeccionar uma maioria demográfica. Os judeus têm o direito de “retornar” e obter cidadania imediata em Israel. Para os gentios, por outro lado, a naturalização em Israel é impossível a menos que seja casado com um israelense — um judeu israelense, para ser mais preciso. Um palestino israelense não pode esperar que sua esposa palestina não israelense se torne cidadã. As leis estaduais de Israel – e a infame “Lei das Nações” de 2018 em particular – deixaram esse ponto claro. Ainda assim, dentro de suas fronteiras soberanas, Israel é considerado pelo Ocidente como a “única democracia no Oriente Médio” e um país que defende os direitos individuais, cumprindo assim os mais elevados valores liberais.

Ben-Gvir ameaça desfazer essa fachada. Para ele, e para o movimento de colonos messiânicos que o apoia, Israel não é simplesmente um Estado judeu (Medina Yehudit), mas a “Terra dos Judeus” (Medinat Ha’yehudim). Como tal, tudo dentro de seus perímetros é propriedade judaica por definição. Da mesma forma, eles acreditam que o aparato estatal deve servir aos interesses daqueles que as autoridades rabínicas consideram ter sangue judeu em suas veias. Não é de surpreender que Ben-Gvir e seus seguidores tenham sido atores-chave em Lehava – uma organização projetada para impedir a mistura racial (Hitbolelut) entre judeus e árabes, mas que na verdade é conhecida por espancar indiscriminadamente homens palestinos inofensivos nas ruas de Jerusalém. Em sua mente, Israel deveria se tornar um gueto judeu do tamanho de um Estado, cujo único propósito é criar judeus em números pré-Holocausto e, por sua vez, apressar a vinda do messias judeu.

O slogan da campanha eleitoral de Ben-Gvir "Quem são os proprietários aqui?" (Mi Po Ba'aley Ha'bait) é inequívoco. Essa pergunta retórica grosseira envia uma mensagem simples: os proprietários voltaram para expulsar os invasores de suas propriedades. A identidade deste último também está longe de ser um mistério. Para Ben-Gvir, os seis milhões de palestinos que vivem entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo são candidatos à deportação imediata, seguidos por seus apoiadores na sociedade israelense (judeus israelenses de esquerda), refugiados africanos e, sem dúvida, até membros da comunidade LGBTQ.

Essas ideias vêm se formando nas margens da extrema direita israelense há décadas. Além deles, Ben-Gvir está agora reintroduzindo outras insinuações que soam fascistas. Informado pela ideologia do teórico racista israelense Rabi Meir Kahane, ele não apenas rejeita a ética universal do liberalismo e da democracia, mas exalta a violência política como um valor em si. De fato, ele foi condenado por inúmeros atos de violência contra palestinos. Surpreendentemente, Ben-Gvir não está interessado no status quo político na Cisjordânia, mais conhecido como os “territórios ocupados” israelenses. Em vez disso, ele busca ativamente um confronto violento definitivo que livrará Israel de seus inimigos externos e internos de uma vez por todas e, ao longo do caminho, reconstruirá a nação de acordo com valores espirituais judaicos estritos – como ele os entende, pelo menos. Sua ideologia é, portanto, tão messiânica quanto insidiosamente fascista.

Israel na América Latina

Judeus americanos pró-israelenses, sejam conservadores ou liberais, tendem a ignorar a radicalização de direita de Israel nas últimas décadas. Mas os cristãos evangélicos ao redor do mundo notaram. Como parte de sua cosmologia intrigante, eles não apenas compartilham as fantasias de limpeza étnica de Ben-Gvir, mas também promovem ativamente a batalha contra o mundo muçulmano como um confronto de extrema importância escatológica.

Isso nos leva a Jair Messias Bolsonaro. Netanyahu é um aliado declarado do agora ex-presidente brasileiro, assim como de Donald Trump e outros líderes de extrema direita como o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán. Ainda assim, a afiliação de Bolsonaro a Israel vai além de ser uma alma gêmea de Netanyahu. Bolsonaro e sua esposa se identificam com Israel de uma forma quase bizarra. Michelle Bolsonaro, uma pronunciada evangélica, apareceu no dia das eleições no Brasil vestindo uma camiseta com a bandeira israelense e continuou a escrever nas redes sociais: “Que as bênçãos de Deus estejam sobre o Brasil e Israel.

A direita brasileira está interessada no destino de Israel e dos judeus em todo o mundo? Não mesmo. Na maioria das vezes, essas pessoas e a ditadura militar a que serviram, e da qual são nostálgicas, tendem a expressar sentimentos antissemitas, como fizeram todas as ditaduras militares na América Latina. Vídeos que surgiram nos últimos dias mostrando centenas de apoiadores de Bolsonaro realizando a saudação nazista apenas mostram que essas pessoas estão dispostas a evocar, conscientemente, símbolos que sabem muito bem que significam horror absoluto para judeus e israelenses.

Dito de outra forma, Bolsonaro e seus seguidores não se identificam com Israel. Em vez disso, eles acreditam que são Israel. Israel na América Latina. Assim como Israel, eles, os (brancos) brasileiros evangélicos do sul, acreditam ser o povo escolhido de Deus e, portanto, os verdadeiros “proprietários” de seu próprio país. Como tal, eles também acreditam estar em uma luta contra um intruso estrangeiro, ou seja, os “comunistas” do norte (escuros) do PT, da esquerda, e as minorias indígenas do Brasil. O fato de Bolsonaro representar os poderosos latifundiários e o agronegócio do Brasil torna esse sentimento de “proprietário” ainda mais evidente. Essa semelhança entre a ocupação israelense na Cisjordânia e a apropriação de terras indígenas na Amazônia é impressionante: os latifundiários não sentem necessidade de pedir desculpas pelas violações desenfreadas de direitos humanos que cometem, nem mesmo assassinato. Afinal, Deus está do lado deles. Esta é a casa deles, e contra um intruso a pessoa age em legítima defesa.

Certamente há diferenças significativas entre os dois países. O Brasil é uma superpotência hemisférica com mais de duzentos milhões de habitantes, pouco propenso a sucumbir às pressões internacionais. Israel talvez acredite ser uma superpotência, mas, na verdade, depende dos Estados Unidos e da União Européia – política, militar e financeiramente. Felizmente para o Brasil, as eleições de outubro de 2022 demonstraram as limitações do latifúndio de direita no Brasil.

O caso de Israel é diferente apenas pelo fato de Netanyahu ser um político muito mais habilidoso do que Bolsonaro jamais poderia ser. Particularmente notável é a capacidade de Netanyahu de falar em múltiplas, senão contraditórias, vozes para diferentes públicos. Não obstante, o campo de direita israelense é mais fraco do que se poderia supor, e seu latifúndio está em grande parte distante da realidade. Seus líderes talvez ajam a partir de um senso bíblico de direito, mas também possuem um senso equivocado de impunidade e respeitabilidade internacional. Como tal, são mais sensíveis à pressão internacional do que a direita brasileira.

Não repreensões, mas ações

O que nos leva à pergunta: o que pode ser feito? Embora possa ser inapropriado para eles se intrometer ativamente nos assuntos internos de Israel, é mais do que razoável que os Estados Unidos e a União Européia – cujos impostos de cidadãos mantêm a Autoridade Palestina, sustentando assim a ocupação de Israel e a desapropriação de terras – tomem uma posição firme contra a onda de extrema-direita de Israel, em vez de continuar com a linha de que Israel é uma democracia vibrante.

Qualquer violação potencial de direitos pessoais ou desestabilização do sistema legal israelense, pelo futuro governo de Netanyahu, deve ser enfrentada não apenas com repreensões, mas com ações. Com a Alemanha no comando, o tratamento dado pela União Europeia a Israel ainda é marcado por um complexo histórico de culpa. Embora essa realidade possa não mudar, o que pode mudar é a tendência dos europeus de apoiar educadamente qualquer governo israelense, independentemente de quem sejam seus ministros.

Há pouca dúvida de que Ben-Gvir e os membros de seu partido em breve ocuparão importantes cargos ministeriais. Os Estados Unidos e a União Europeia devem deixar bem claro que, a menos que esses políticos de extrema-direita rejeitem publicamente suas declarações racistas, e se comprometam a proteger as liberdades civis em Israel e na Cisjordânia, eles serão desconsiderados, desfinanciados, e excluídos dos fóruns internacionais. Qualquer coisa menor do que isso significaria que os Estados Unidos e a União Européia serão cúmplices de sua retórica e atos.

Para ficar claro, isso não é um chamado para “boicotar Israel”. Em vez disso, é um chamado para estabelecer um preço internacional para o latifúndio iliberal de extrema direita que vem corroendo os sistemas políticos nas sociedades democráticas em todo o mundo. Se esse roteiro funcionar em Israel, pode servir de exemplo para outros lugares, antes do retorno de Bolsonaro, por exemplo. Se alguém acredita que o bolsonarismo simplesmente desaparecerá da política brasileira, deve estudar rapidamente as lições do retorno de Netanyahu. Bolsonaro talvez tenha perdido as eleições de 2022 e parece improvável (ou incapaz) de encenar um golpe de estado em um futuro próximo. Mas ele e seu movimento não vão a lugar nenhum. Os proprietários raramente o fazem.

Colaborador

Daniel Kressel é bolsista Lady Davis no Departamento de Estudos Espanhóis, Portugueses e Latino-Americanos da Universidade Hebraica de Jerusalém. Seu próximo livro, “Hispanic Technocracy: Turning Fascism into Catholic Authoritarianism in Spain, Argentina, and Chile”, explora as fases iniciais da virada neoliberal da América Latina.

19 de dezembro de 2021

A direita chilena transformou as eleições de hoje em uma cruzada anticomunista

O candidato de extrema direita José Antonio Kast coloca a eleição chilena de hoje como uma batalha para salvar "direitos sagrados de propriedade". A insistência de sua campanha de que os dogmas neoliberais pertencem a uma essência nacional inabalável destaca os impulsos antidemocráticos no coração da direita chilena.

Daniel Kressel

Jacobin

José Antonio Kast, presidential candidate for Chile's Republican Party, speaks to supporters during his final campaign rally in Santiago on December 16. (Claudio Santana / Getty Images)

Hoje, os chilenos votam no segundo turno das eleições presidenciais no que o The Economist apelidou de uma "disputa entre extremos". De um lado está o candidato da ala esquerda Gabriel Boric e, do outro, da ala direita José Antonio Kast. Esse retrato é, para dizer o mínimo, uma distorção.

No panorama da esquerda internacional, nada marcaria o programa de Boric como “extremo”. Quanto a Kast, é uma história diferente. Candidato marginal até não muito tempo atrás, sua retórica e táticas mostram o que há de pior no populismo de direita latino-americano. Como seu amigo e aliado presidente brasileiro Jair Bolsonaro, sua campanha eleitoral misturou influências que vão do moralismo conservador e dogmas neoliberais a elementos que parecem extraídos do manual de mentiras políticas de Steve Bannon.

Sem dúvida, Gabriel Boric não é um candidato normativo de centro-esquerda. Tendo começado sua carreira política como líder do movimento estudantil do Chile em 2011, ele manteve sua imagem de um revolucionário lutador de rua que ergueu os punhos desde então. Deus me livre - alegam seus oponentes - ele até fumou maconha. Ainda assim, Boric parece particularmente preocupado em atender ao que pode ser definido vagamente como a classe média social-democrata do Chile, ao mesmo tempo que deseja ser reconhecido como um estranho ao establishment político. A plataforma de votação de seu partido prioriza a instituição de sistemas públicos de previdência, saúde e educação. Esses serviços públicos existem de uma forma ou de outra em quase todos os países altamente desenvolvidos, mas foram retirados dos chilenos durante quarenta anos de neoliberalismo.

A posição "extrema" parece ser a determinação de continuar com esse estado de coisas, ao invés do plano de Boric para uma mudança de curso. No entanto, certamente não é assim que Kast e seus seguidores retratam as coisas. Embora a constituição neoliberal de Augusto Pinochet de 1980 tenha sido anulada em um referendo nacional em outubro passado, de acordo com os apoiadores de Kast, mesmo sugerir que o modelo econômico neoliberal do Chile deveria ser alterado é um perigo para os princípios sagrados. Embora Boric possa descrever seu oponente como o herdeiro ideológico de Pinochet, Kast e seus seguidores se descrevem como o verdadeiro Chile lutando contra uma "antinação" imoral e ilegítima liderada externamente.

Pelo bem e a verdade

Os populistas de direita parecem não gostar de plataformas eleitorais, quanto mais de programas. O primeiro-ministro israelense de longa data, Benjamin Netanyahu, até se orgulhava de seu partido não ter nenhum. Da mesma forma, o Partido Republicano de Kast não tem programa, apenas "princípios orientadores". Alguns parecem pertencer ao reino da metafísica pura; por exemplo, a afirmação de que a parte “acredita no Bem e na Verdade como realidades objetivas”. Outros promovem a "justiça social" e a "economia social de mercado", mas rejeitam o "bem-estar de Estado". Para um partido que escolheu “Ouse!” (Atrévete) como lema, pouca ousadia tem nesses slogans além da determinação de consagrar o status quo neoliberal como solo sagrado.

Ainda mais do que nos Estados Unidos, para os chilenos conservadores, o neoliberalismo não é apenas um sistema econômico — justificado em termos de atração de investimentos estrangeiros diretos —, mas uma religião. Desde a década de 1950, seus porta-vozes postulam a “sacralidade da propriedade privada” como o ápice de sua ordem moral, imbuindo assim o neoliberalismo de espiritualidade católica. Incorporando esse projeto ideológico estavam o mentor de Kast, o ideólogo espiritualista Jaime Guzmán, e o irmão mais velho de Kast, Miguel. Enquanto o primeiro projetou a constituição do Chile de 1980, o último ajudou a orquestrar a virada neoliberal do Chile por meio do aparato de planejamento e coordenação de Pinochet.

No Chile, o status quo já se tornou sinônimo de concentração de riqueza nas mãos de uma oligarquia de algumas famílias poderosas e corporações internacionais. O país liderou os índices de desigualdade vergonhosos da OCDE por muitos anos. Ainda assim, Kast e seus seguidores reagem a noções como redistribuição de riqueza apelidando-as de “ideologias” que ameaçam os “fundamentos mais profundos da pátria”. Como Guzmán antes deles, por “ideologia” eles entendem um conceito abstrato do século XIX que é estranho à essência cultural chilena. Independentemente da posição de Boric como líder estudantil, ou se sua coalizão de partidos envolve (e envolve) comunistas autodefinidos, o fato de a campanha de Kast ter usado slogans como “lealdade ou comunismo” e “liberdade ou comunismo” tem pouco a ver com o verdadeiro interior ideológico de seu oponente. Em vez disso, destina-se a transformar a política nacional em um campo de batalha maniqueísta em que ou você está do lado da Verdade ou é um traidor em potencial.

No entanto, parece que até Kast entende que considerar seus adversários “comunistas” - como Donald Trump e Bolsonaro fazem habitualmente – não é necessariamente suficiente para transcender sua base política e vencer as eleições. Isso pode explicar por que ele se absteve de fazer analogias históricas entre Boric e Salvador Allende. Ao contrário de seu homólogo brasileiro - e apesar de suas próprias ligações pessoais com Pinochet – Kast astuciosamente se absteve de elogiar o suposto “milagre econômico” de Pinochet. No Chile de 2021, ele sabe, essa abordagem pode sair pela culatra. Mesmo os documentos mais extremos da Ação Republicana (seu movimento que precedeu o Partido Republicano) contêm pouca ou nenhuma referência ao passado autoritário do Chile.

Em outras palavras, o Partido Republicano do Chile afirma ter o olhar voltado para o futuro. Isso permitiu a Kast não apenas negar qualquer responsabilidade pelas crises social e política do país, mas também focar sua campanha inteiramente em questões que parecem retiradas do manual Trump-Bolsonaro, especificamente “lei e ordem” e imigração ilegal. Parte integrante dessa estratégia é a sugestão de que Boric e seus homens apoiam “terroristas” de minorias étnicas e apóiam a imigração como parte de algum tipo de teoria da “Grande Substituição”. Repleto de racismo e notícias falsas, a campanha de Kast também se baseou no moralismo - comprometendo-se a defender os valores familiares da “ideologia de gênero”, por exemplo - embora esse esforço tenha sido diminuído pelo medo muito mais eficaz.

Revertendo a revolta social

No entanto, a estratégia de Kast não parece tão eficaz quanto a de seu colega brasileiro. Por um lado, as taxas de criminalidade no Chile dificilmente são tão altas quanto nos Estados Unidos, muito menos no Brasil, e estão fundamentalmente ligadas às taxas de pobreza e ao enfraquecimento das instituições estatais - problemas aos quais neoliberais como o presidente Sebastián Piñera e o Partido Republicano de Kast oferecem sem soluções programáticas.

Mais preocupante para Kast é sua dificuldade em superar a narrativa da revolta do Chile em 18 de outubro de 2019 e suas repercussões. Com a mobilização contra o aumento das tarifas do transporte público logo se transformando em um movimento de protesto massivo contra o status quo neoliberal, este foi certamente um momento crucial na história chilena. Em outubro seguinte, os chilenos votaram de forma esmagadora para desfazer a constituição de 1980 em um plebiscito nacional (com 78 por cento dos votos para redigir um novo documento) e, em maio de 2021, quando os chilenos foram novamente convocados às urnas, deram aos candidatos de esquerda e independentes mais de dois terços dos assentos na Assembleia Constituinte, em tese impedindo a direita de bloquear o processo.

Kast e seus seguidores não podem mudar essas circunstâncias nem ignorar o que o plebiscito provou: que o público chileno está profundamente descontente com o status quo há muitos anos. Um oponente vocal da mudança constitucional, Kast optou por duas estratégias. Uma delas foi tentar convencer a chamada maioria silenciosa de que a esquerda pode ter ido longe demais e que, como presidente, ele intervirá nos trabalhos da assembléia para que as liberdades e a propriedade privada dos chilenos permaneçam ilesas. Por outro lado, apoiado pelos meios de comunicação conservadores do Chile, ele procurou revisar e redefinir o "surto social" do 18-O. Nesse relato, o levante não foi um momento inspirador de empoderamento popular, mas um período em que a nação perdeu sua soberania para uma gangue de “vândalos e delinquentes” bem organizados que agora iriam “destruir o Chile”. Falando na sexta-feira, ele chegou a afirmar que o Chile “não acordou” no dia 18-O, mas sim “entrou em um pesadelo” do qual “acordará no domingo”. Se há alguma “ousadia” a ser buscada em sua campanha insípida, é esse esforço para persuadir milhões de cidadãos de que o que eles testemunharam em outubro de 2019 foi, na verdade, o Chile perdendo a batalha para os violentos, ideológicos e imorais anti-nação.

Na mesma sexta-feira, os apoiadores de Kast buscaram encerrar sua campanha com um tom mais criativo. Eles chegaram à Praça Baquedano, cobrindo sua metade sul com tinta branca e flores trançadas, deixando o resto da praça suja e abandonada como estava. Ajudando aqueles incapazes de interpretar a imagem (que Kast rapidamente twittou) veio o parlamentar conservador Diego Schalper, que explicou que ela representava o Chile de “violência e destruição” de Boric em relação ao Chile de Kast - "florescendo com vitalidade e futuro." Ao fazer isso, ele indicou o quanto a política conservadora chilena gradualmente se alinhou com a visão de mundo binária de Kast.

É impossível prever como esse movimento populista de direita vai amadurecer ainda mais, se é que vai amadurecer. Afinal, Trump levou vários anos para convencer seus apoiadores a atacar o Capitólio em 6 de janeiro de 2021 e salvar a nação de uma conspiração traiçoeira. De sua parte, Boric levantou preocupações de que Kast pode não aceitar os resultados se for derrotado, mas parece que ainda não chegamos lá. Mesmo assim, em uma terra onde uma ditadura militar executou mais de três mil cidadãos sob o argumento de que suas lealdades ideológicas ameaçavam erradicar os próprios alicerces do Chile, até as flores mais bonitas podem adquirir uma aparência profundamente sinistra.

Colaborador

Daniel Kressel é bolsista da Minerva Stiftung no Instituto de Estudos Latino-Americanos da Free University of Berlin. Seu próximo livro, Hispanic Technocracy: Turning Fascism into Catholic Authoritarianism in Spain, Argentina, and Chile, explora as fases iniciais da virada neoliberal da América Latina.

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