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8 de janeiro de 2024

O lulismo em câmera lenta

Perspectivas após um ano no poder.

André Singer e Fernando Rugitsky

Sidecar


Um ano após o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, é possível fazer uma avaliação preliminar de sua estratégia de governo. Após a sua eleição em outubro de 2022, à frente de uma coligação heterogênea que esperava proteger a democracia brasileira do bolsonarismo, o presidente reviveu a abordagem lulista clássica: concessões no atacado à burguesia juntamente com medidas varejistas para beneficiar as massas. Quando assumiu pela primeira vez a presidência, há duas décadas, esta combinação de pactos de elite e reformas graduais era ao mesmo tempo inovadora e preocupante. Lula recusou-se a romper com o legado neoliberal do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, mas lutou para elevar os padrões de vida da maioria empobrecida: expandindo as transferências monetárias através do programa Bolsa Família, estender crédito barato e garantir aumentos regulares em termos reais do salário mínimo. Este programa social garantiu a sua reeleição em 2007 e ocupou o centro das atenções na sua campanha de 2022. Se pode ser sustentado permanece uma questão em aberto.

Desde o início, o “reformismo fraco” de Lula foi assolado por uma infinidade de contradições. Para citar apenas alguns: os ganhos no poder de compra dos trabalhadores não foram acompanhados por melhorias equivalentes nos cuidados de saúde públicos, na educação, nos transportes ou na segurança. O maior acesso a diplomas universitários não foi acompanhado por oportunidades de emprego digno. Não houve um plano coerente para estimular a indústria nacional ou abandonar as exportações de matérias-primas. A decisão do Brasil de sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas levou a conflitos violentos e ao deslocamento de comunidades. Na esfera eleitoral, contudo, o fraco reformismo provocou um realinhamento decisivo, com os pobres a apoiarem em massa o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula, enquanto as classes médias se uniram em torno do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), de centro-direita, de Cardoso. Esse modelo levou a quatro vitórias consecutivas nas eleições presidenciais do PT. No seu auge, um sonho rooseveltiano de mudança sem conflito conquistou muitos corações e mentes.

No entanto, a insatisfação, tanto a nível popular como da elite, começou a aumentar na década de 2010. Protestos em massa eclodiram em 2013 após um aumento nas tarifas do transporte público. Seguiu-se uma onda de ativismo judicial contra o governo, o impeachment ilegítimo da sucessora de Lula, Dilma Rousseff, e finalmente a prisão do próprio Lula. Tendo ascendido à presidência através de um golpe no Congresso em 2016, Michel Temer lançou o seu plano ultraliberal “Ponte para o Futuro”, destruindo os direitos dos trabalhadores e promovendo políticas de austeridade, incluindo um limite constitucional para a despesa pública. Os anos seguintes assistiram ao regresso ao atraso associado à ditadura militar do século anterior. Temer e Bolsonaro enterraram o sonho de justiça social sob os escombros do lulismo. A pobreza e a falta de moradia dispararam. A regressão social foi agravada pelo atavismo político, com o exército aspirando a governar novamente o Estado. Após esta demolição, Lula foi chamado de volta para reconstruir a partir das ruínas.

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Depois de vencer por uma margem estreita, Lula assumiu o cargo em 1 de janeiro de 2023, prometendo “unidade e reconstrução”. Ele não estabeleceu metas específicas para sua administração. Os seus discursos enfatizaram os objetivos gerais de curar a sociedade, superar o clima de ódio, combater a desigualdade e tirar o país do seu isolamento internacional. Ao longo de sua campanha foi evocado o contraste entre os bons momentos do lulismo e o subsequente período de crise. As perspectivas futuras foram relegadas para segundo plano.

Uma vez no poder, a “unidade” foi procurada principalmente através de acordos com o capital e o Congresso, que permaneceram dominados pelas forças conservadoras. Os legisladores de centro-esquerda raramente representam mais de 30% da Câmara, por isso Lula sempre procurou formar alianças com partidos de todo o espectro político. Desde 2018, no entanto, a extrema direita estabeleceu uma presença significativa na legislatura. O Partido Liberal (PL), que hoje hospeda Bolsonaro, é o maior da Câmara, tendo conquistado 99 das 513 cadeiras nas últimas eleições. A ascensão do conservadorismo radical acompanhou o declínio tanto do PSDB, que tinha 70 assentos em 2003 e desde então caiu para 13, como do PT, que encolheu de 91 para 68 no mesmo período. Estas mudanças reduziram a margem de manobra do Lulismo. Mas isto não implica necessariamente uma maior pressão parlamentar por uma política fiscal austera. Na verdade, todo o campo da direita mantém os seus laços com a burguesia, oferecendo acesso privilegiado aos fundos públicos e resistindo aos aumentos de impostos. A sua sobrevivência está intimamente ligada à utilização dos recursos orçamentais.

Para o capital brasileiro, no entanto, a austeridade continua a ser a principal prioridade. Ao longo do ano passado, Lula confiou ao seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a função de fazer concessões às grandes empresas. Estas incluem o novo “quadro fiscal” do governo, que analisaremos abaixo, bem como as suas reformas fiscais modernizadoras - que consolidarão uma série de impostos federais, estaduais e municipais num único Imposto sobre o Valor Agregado. Este projeto de lei, que se seguiu a três décadas de debate sobre o sistema fiscal, foi aprovado pelo Congresso em 15 de dezembro, com apenas o voto contra da extrema direita. Quatro dias depois, a Standard and Poor's melhorou a classificação do país nos mercados internacionais.

Enquanto isso, Lula dedicou os meses desde a sua eleição a encontrar brechas através das quais as necessidades do povo pudessem ser atendidas. Em dezembro de 2022, depois de contornar a pressão por medidas de austeridade imediatas ao nomear habilmente o vice-presidente Geraldo Alckmin para presidir a equipe de transição presidencial, Lula conseguiu aprovar um aumento de R$ 145 bilhões no orçamento de 2023 com a chamada "Emenda Constitucional da Transição". Evitou assim cortar esquemas de segurança social, como transferências monetárias e subsídios para medicamentos.

A astúcia desta medida residiu no estabelecimento de um diálogo com Arthur Lira, o poderoso presidente da Câmara, que tinha sido responsável pelo chamado “orçamento secreto”. Esse mecanismo, formalizado no governo Bolsonaro, deu ao presidente da Câmara aproximadamente R$ 20 bilhões para distribuir entre os deputados - geralmente usados para financiar obras em seus círculos eleitorais - sem a necessidade de transparência. O Supremo Tribunal Federal considerou a prática inconstitucional, mas Lula concordou em mantê-la informalmente, caso a caso (a ser negociado com o executivo), e prometeu apoio à reeleição de Lira como presidente da Câmara, em troca da aprovação da Emenda Constitucional da Transição. Com isso, no dia em que assumiu o cargo, Lula conseguiu prorrogar o programa Auxílio Brasil e, em março, lançou o Bolsa Família 2.0, com mínimo de R$ 600 por domicílio elegível, ao qual acrescentou R$ 150 em benefícios previdenciários por criança até os sete anos de idade. Retribuiu assim a lealdade da sua base subproletária e protegeu-se da queda vertiginosa nos índices de aprovação que enfraqueceu outros líderes progressistas na América Latina.

No entanto, entre as concessões concedidas a Lira, a porcentagem das receitas correntes líquidas destinadas aos parlamentares foi agora aumentada de 1,2% para 2%, em parte para compensar o enfraquecimento do orçamento secreto. Isso reforça o poder do Congresso, que vem crescendo desde que o presidente Eduardo Cunha orquestrou a derrubada de Dilma em 2016. Durante o reinado do sucessor de Cunha, Rodrigo Maia, falava-se em "parlamentarismo informal", que persistiu com o apoio de Bolsonaro até Lira ser eleito. À luz disso, alguns comentaristas afirmam que o sistema político brasileiro passou de hiperpresidencialista para semipresidencialista. Esta tendência restringe ainda mais o poder de Lula, uma vez que a sua política fiscal enfrenta agora pressão em duas frentes - de uma classe capitalista que exige mais austeridade, e do avanço constante do poder conservador do Congresso sobre o orçamento.

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O quadro fiscal de Lula, revelado em março de 2023, foi o principal meio de apaziguar o capital. Formulado pelo Ministério da Fazenda, foi apresentado como um substituto mais flexível ao teto de gastos que Temer havia imposto sete anos antes. Dada a ausência de economistas ortodoxos na equipe do Ministro das Finanças Haddad, a timidez do plano provavelmente resultou não de quaisquer convicções teóricas, mas de um acordo com as frações da classe capitalista que relutantemente apoiaram Lula no segundo turno de 2022 - o sistema financeiro globalizado em particular.

O efeito global do quadro é colocar o reformismo fraco em uma velocidade ainda mais baixa. Ao contrário das restrições da era Temer, que congelaram os gastos em termos reais, permite que os gastos cresçam à medida que as receitas fiscais também se expandem. No entanto, o aumento da despesa está limitado a 70% dos ganhos em receitas públicas e não deve exceder um máximo de 2,5% por ano. Ao garantir que a despesa cresça a um ritmo mais lento do que a receita, a regra impõe uma redução gradual na dimensão do Estado, à semelhança da infame reforma de Temer. Como destacou o economista Pedro Paulo Bastos, a proposta não é sequer compatível com o aumento do salário mínimo para acompanhar o crescimento do PIB, ou com a manutenção dos pisos constitucionais para os gastos com educação e saúde. As contradições inerentes ao lulismo sempre estiveram destinadas a criar problemas a longo prazo, mas agora até o curto prazo está ameaçado.

As tentativas de Lula de apaziguar a classe investidora não pararam por aí. O executivo também se comprometeu com a ousada meta de abolir o défice primário em 2024 e garantir excedentes de 0,5% e 1% do PIB durante o período de dois anos seguinte. Dado que se espera que o défice primário em 2023 exceda 1%, reduzi-lo a zero exigiria cortes significativos - maiores do que os do primeiro mandato de Lula, que catalisou a criação do PSOL como um desafiante de esquerda ao PT. O governo afirma que o plano não é reduzir os gastos, mas sim aumentar as receitas, em parte através da tributação dos ricos. Começou a dar alguns passos positivos nesse sentido: impostos sobre fundos de investimento exclusivos e offshore; reformas que dão ao executivo mais poder nas disputas fiscais com empresas privadas; a Medida Provisória de Subsídios, que busca fortalecer a capacidade de arrecadação do governo; e a revisão das chamadas “despesas fiscais”, principalmente subsídios e benefícios fiscais concedidos a setores específicos.

A aprovação destas medidas significou, no entanto, conceder novas concessões à maioria conservadora na Câmara, resultando em alianças com o Partido Progressista (PP), um antigo bastião da direita que apoiou a ditadura militar, e os Republicanos, veículo eleitoral criado pela neopentecostal Igreja Universal do Reino de Deus, ligada a Bolsonaro. Em setembro, esses partidos receberam respectivamente os ministérios do Esporte e dos Portos e Aeroportos, bem como outros cargos de segundo nível de governo. Em teoria, isto significa que o bloco parlamentar de Lula excede o quórum de três quintos necessário para aprovar emendas constitucionais. Sem esse número, acredita-se que haja um risco constante de motim do Congresso contra o presidente. Mas, na realidade, graças à natureza mutável e amorfa dos partidos, o acordo não é garantia de estabilidade. A relação entre a Presidência e a Assembleia continuará a ser caracterizada por negociações retaliatórias que poderão fracassar a qualquer momento.

As partes do quadro fiscal que procuram mudar o sistema fiscal regressivo do Brasil são bem-vindas. E a redução do défice através do aumento dos impostos sobre os ricos tende a ser menos prejudicial ao crescimento do que o corte da despesa. No entanto, o limite máximo para os aumentos das despesas significa que este programa irá, na melhor das hipóteses, reduzir a austeridade sem a revogar. O limite de 2,5% representa um forte freio ao progresso que não existia nos governos Lula anteriores. No primeiro e segundo mandatos Lula a taxa de crescimento dos gastos federais foi de 7,2% ao ano. Entre 2003 e 2010, os gastos primários em proporção do PIB aumentaram de cerca de 15% para 18%, criando as condições para a dispensa do Bolsa Família e aumentando o salário mínimo em termos reais em 66%. Da mesma forma, tanto durante o segundo mandato de Cardoso como durante o primeiro mandato de Dilma, os gastos cresceram duas vezes mais rápido do que o permitido pelo quadro. De acordo com um estudo contrafactual, se as novas regras tivessem sido adotadas em 2003, as despesas públicas não teriam aumentado, mas sim caído para 11% do PIB. As restrições são agora tão fortes que as camadas populares não conseguem avançar. Isso é lulismo em câmera lenta.

Pode-se argumentar que o crescimento de 3% do PIB do Brasil em 2023 contradiz a ideia de uma compressão. Mas ainda não vivemos sob os efeitos restritivos do novo quadro fiscal. A recente aceleração econômica deveu-se em parte aos gastos de 2022 - o resultado da utilização do orçamento por Bolsonaro como ferramenta eleitoral - bem como à Emenda Constitucional de Transição e à bonança agrária provocada por uma colheita recorde em 2022-23. O regime fiscal proposto porá fim a este surto de crescimento. Lula sabe bem disso, por isso começou a falar em afrouxar a camisa de força fiscal. No final de outubro afirmou que o défice para o próximo ano “não tem de ser zero”. Quase imediatamente, o mercado de ações caiu e o dólar subiu. O capital exigiu um compromisso com a austeridade e, por enquanto, o governo cedeu, mantendo a atual meta em vigor. No entanto, a disputa continua, com o PT recentemente intensificando as suas críticas à austeridade. Continua a ser possível que as metas rigorosas sejam flexibilizadas nos próximos meses. Mas será isto suficiente?

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Para colocar o programa de Lula em perspectiva, vale a pena compará-lo com a administração de Andrés Manuel López Obrador no México, que assumiu o cargo no final de 2018. AMLO é geralmente associado à centro-esquerda, apesar do que é visto como a sua personalidade populista e o seu abordagem duvidosa à Covid-19. A sua agenda combina contenção fiscal com redistribuição de rendimentos e, até agora, revelou-se extremamente popular entre as massas trabalhadoras. As previsões sugerem que o seu sucessor está no caminho certo para vencer confortavelmente as eleições deste ano. O presidente tem prosseguido o que chama de “austeridade republicana”, que procura restringir o controle privado dos recursos públicos, ao mesmo tempo que aumenta os impostos sobre os mais ricos. Existem semelhanças óbvias com a cruzada de Haddad contra o patrimonialismo e as suas propostas fiscais. No entanto, AMLO governa com uma flexibilidade que seria impossível no quadro brasileiro. O primeiro ano do seu mandato foi marcado por uma política fiscal expansionista, que se intensificou quando a pandemia atingiu em 2020.

Nos três anos seguintes assistiu-se a uma contracção global da despesa pública, mas este número global obscurece mudanças importantes na atribuição de fundos. O tradicional programa de transferência monetária do México, Progresa, sempre foi visto com suspeita por muitos nas margens do país devido às suas condições e critérios de elegibilidade rigorosos. No âmbito do AMLO, foi substituído por programas de transferência universais, aumentando o número de beneficiários. Ao mesmo tempo, o seu governo aumentou significativamente o salário mínimo e reforçou os direitos laborais - financiando estas medidas através de cortes na função pública. Quaisquer que sejam as deficiências do programa de AMLO, ele manteve a economia mexicana crescendo a mais de 3% ao ano desde 2021, o que contribuiu para a sua popularidade persistente. A sua austeridade republicana é, do ponto de vista macroeconômico, muito menos austera do que a que agora se propõe para o Brasil. É mais evocativo do lulismo original do que de seu renascimento limitado.

Lula pode não gostar dos índices de aprovação de AMLO, que têm permanecido consistentemente acima dos 60%, mas ainda assim teve um desempenho melhor do que muitos dos seus outros homólogos latino-americanos. Gabriel Boric, do Chile, viu a sua audiência cair 22% durante o seu primeiro ano no cargo, enquanto Gustavo Petro, da Colômbia, sofreu uma queda de 23% no mesmo período. Em contraste, o apoio a Lula diminuiu apenas 11%: de 49% no início do seu mandato para 38% no mês passado. Embora presidindo uma nação extremamente polarizada, ele conseguiu manter uma base popular significativa, embora diminuída em comparação com dezembro de 2003 e dezembro de 2007. No entanto, esta estabilidade relativa será em breve ameaçada quando, como é amplamente previsto, a economia do Brasil começar a vacilar sob as novas restrições.

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O Planalto sabe que o "fator sentir-se bem" é crucial em anos eleitorais. Daqui a dez meses, o sentimento público irá se refletir nas eleições municipais e para autarcas em todo o país. A derrota em círculos eleitorais de alto nível certamente lançará uma sombra sobre o início da campanha para as eleições presidenciais de 2026. Daí os recentes passos do governo no sentido de alterar os termos do quadro fiscal. Daí, também, os esforços dos parlamentares para garantir as parcelas desejadas do orçamento. Em São Paulo, que muitas vezes funciona como um barômetro eleitoral, a próxima disputa está no fio da navalha. O candidato de esquerda a prefeito, Guilherme Boulos, fez uma forte campanha em 2020, e Lula conquistou os eleitores nos limites da cidade em 2022. No entanto, a direita pode ser eficaz na exploração dos instintos conservadores das classes médias metropolitanas, geralmente decisivos para o resultado das eleições municipais. Aqui, como em outros lugares, o destino da economia provavelmente determinará a forma como votarão.
A dinâmica global introduziu outra nota de incerteza. Desde o final de 2022, a inflação nos EUA, na Zona Euro e no Reino Unido tem caído - e as taxas de juro deverão seguir o mesmo caminho, reforçando tendências semelhantes no Brasil. Com alguma sorte, isto permitirá a recuperação da liquidez global e estimulará o crescimento ao sul do equador. No entanto, a crescente tensão geopolítica, os fluxos voláteis de capitais e os fenômenos climáticos extremos continuarão afetando desproporcionalmente os países periféricos. Lula está tentando reduzir a vulnerabilidade do Brasil a esses ventos contrários externos, encontrando novas oportunidades de desenvolvimento, especialmente aquelas que não envolvem confronto com a burguesia. No setor da energia, por exemplo, recusou-se a bloquear a prospecção de petróleo na foz do Rio Amazonas, apesar de esta ter sido oficialmente proibida pelo próprio Instituto do Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis do governo. (Isto suscitou críticas ferozes de ambientalistas e até da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que supervisionou uma queda de 22% na desflorestação na Amazônia no ano passado e propôs um limite máximo para a produção de petróleo.)

Há também aqueles que apostam na possibilidade de ajuda da China, no meio da crescente rivalidade sino-americana. Lula tem geralmente demonstrado uma audácia nos assuntos globais que lhe faltou na frente interna. A sua ênfase na política externa tem sido tão grande que os eleitores criticaram as suas viagens internacionais como excessivas (em 2023 visitou 24 países e passou 62 dias no exterior). No exterior, ele tentou mediar entre o governo venezuelano e a oposição, revitalizar as relações com Cuba e estabelecer uma posição independente nas guerras entre a Rússia e a Ucrânia e o Hamas e Israel. Em setembro, Lula assumiu a presidência rotativa do G20, utilizando a sua plataforma para denunciar “os erros estruturais do neoliberalismo”. O objetivo final, ao que parece, é sinalizar que o Brasil não estará automaticamente alinhado com nenhuma grande potência - que espera concessões tanto dos blocos americano como chinês, especialmente quando se trata do objetivo de longo prazo do país: a reindustrialização. No entanto, nesta frente, o progresso permanece glacial. Tudo o que sabemos até agora é que os chineses concordaram em construir uma fábrica de veículos elétricos na Bahia após a saída da Ford.

É claro que é improvável que qualquer estratégia externa tenha peso suficiente para mover uma nação continental como o Brasil. Isto abre uma janela de oportunidade para a extrema direita, que poderia explorar condições de estagnação para se apresentar como a única força genuína de mudança. Se o primeiro e o segundo mandatos de Lula criaram a ilusão de um progresso indolor, o seu terceiro praticamente removeu a justiça social de cena. Alguns observadores argumentam que, dadas as atuais circunstâncias, a prioridade deveria ser salvar a democracia e deixar o resto para mais tarde. Mas a democracia não pode ser estabilizada sem transformação estrutural - o que, sob o regime emergente do lulismo desacelerado, está se revelando cada vez mais difícil de imaginar.

30 de junho de 2022

Crítica de Pessôa é questionável, mas é bom saber que não se opõe a taxar os ricos

André Singer e Fernando Rugitsky respondem a economista sobre revogação do teto de gastos

André Singer
Professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Lulismo" e "O Lulismo em Crise"

Fernando Rugitsky
Professor do Departamento de Economia da USP e da Universidade do Oeste da Inglaterra, em Bristol


[RESUMO] André Singer e Fernando Rugitsky respondem a críticas feitas pelo colunista da Folha Samuel Pessôa a artigo que publicaram na Ilustríssima e reafirmam a tese de que aumentar o gasto público é fundamental para alavancar a economia e proteger a democracia de ameaças autoritárias.

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Em recente coluna nesta Folha, o economista Samuel Pessôa contesta raciocínios e informações usados por nós em artigo publicado na Ilustríssima sobre a revogação do teto de gastos. Para além de eventuais divergências de fundo, cabe esclarecer as objeções pontuais do colunista, de modo que os termos do debate fiquem equilibrados perante a opinião pública. Como é sabido, o diabo mora nos detalhes.

O primeiro reparo de Pessôa diz respeito aos Estados Unidos. Segundo o colunista, "os números do mercado de trabalho americano" não sustentam a interpretação que adotamos, segundo a qual o bloqueio ao programa American Families Plan, proposto por Joe Biden em 2021, contribui para a sobrevivência do trumpismo. A geração de emprego tem ido bem e a renda começa a se recuperar, diz ele. O verdadeiro risco para os democratas na eleição de meio de mandato seria a inflação, conclui.


A visão de Pessôa é parcial. A fragilidade do Partido Democrata nas eleições deste ano deve ser explicada à luz das condições de vida deterioradas de boa parte da população, não apenas por baixos salários, como também pelas mazelas do sistema de saúde, endividamento e precariedade dos postos de trabalho.

A atual escalada inflacionária —que, diga-se de passagem, tem origem na pandemia e na Guerra da Ucrânia— sem dúvida derruba ainda mais a popularidade do presidente. Todavia, não atua no vácuo, e o artigo que assinamos visava destacar tal pano de fundo, que levou Biden a propor, assim que assumiu, um vasto projeto de gastos públicos, que incluía o plano familiar barrado no Congresso.

A inflação, corretamente apontada por Pessôa como relevante fator eleitoral, reforça, aliás, a importância do American Families Plan, o qual poderia atenuar efeitos da alta dos preços sobre grupos vulneráveis.

Diante de um mercado de trabalho em que os proventos, em termos reais, estão caindo, medidas na direção do Welfare State ajudariam a atravessar a onda inflacionária. Por isso, o senador Bernie Sanders tem defendido que o partido reapresente no Congresso as propostas bloqueadas. "Está na hora de mostrar de que lado estamos", escreveu no jornal britânico The Guardian.

No que se refere ao Brasil, Pessôa afirma que "não é verdade" haver um estudo, conforme dissemos, da Instituição Fiscal Independente (IFI) mostrando "que o gasto público teria estimulado o crescimento entre 2006 e 2014".

Aqui, a redação do colunista induz a um erro quase ofensivo, pois o próprio Pessôa admite, na frase seguinte, a existência de um estudo que estima impulso fiscal positivo no período 2003-2014 (intervalo usado em nosso artigo). Para comprová-lo, basta consultar o Estudo Especial número 17 do IFI, publicado em 22 de dezembro de 2021, verificando o gráfico B1 da página 19.

Neste ponto seremos obrigados, pela opção de Pessôa e a exiguidade de espaço, a usar certo jargão econômico que pode parecer pouco claro ao leitor não especializado. Em dois parágrafos elípticos, o colunista expressa uma interpretação questionável do significado do impulso fiscal naquele período.

Os números por ele empilhados de forma apressada indicariam que, ao fazer a economia brasileira operar acima de sua capacidade, os gastos do governo teriam produzido um crescimento artificial (e inflacionário), que viria a ser revertido, portanto anulado.

Ocorre que a identificação da capacidade de crescimento de uma economia ou, para usar o termo técnico, de seu produto potencial, é sabidamente controversa. Mais: no caso concreto, os dados do mercado de trabalho não sustentam a ideia de que a economia estivesse com "pleno emprego", especialmente no início do período mencionado pelo articulista.

Em que pesem as confusões geradas pela coluna, ficamos felizes ao perceber no final da mesma que Pessôa se coloca como aliado para tornar o sistema tributário mais progressivo e, mediante tal mudança, revogar o teto de gastos. Persistir apostando na austeridade já se provou economicamente contraproducente e politicamente ameaçador para a própria democracia.

14 de junho de 2022

Revogar teto de gastos é essencial para Lula e democracia

Emenda paralisa Estado, sufoca economia e favorece projeto autoritário

André Singer
Professor titular do Departamento de Ciência Política da USP e autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Lulismo" e "O Lulismo em Crise"

Fernando Rugitsky
Professor do Departamento de Economia da USP e da Universidade do Oeste da Inglaterra - Bristol


[RESUMO] Promulgado em 2016, na gestão Temer, o teto de gastos tornou-se um mecanismo de sabotagem que visa destruir o pacto da Constituição de 1988 e abre caminho para a extrema direita, analisam autores. Revogar essa emenda que limita de forma draconiana o gasto público, travando o crescimento da economia, é crucial para o sucesso de um eventual governo Lula e, sobretudo, para o futuro da democracia brasileira.

Uma polêmica que se anunciava há algum tempo ganhou voltagem com a prévia do plano de governo do ex-presidente Lula enviada para os seis partidos aliados ao PT. A partir dele, PSB, PC do B, PV, PSOL, Rede e Solidariedade terão que se pronunciar sobre a proposta de revogar o teto de gastos, que seria, segundo o documento, a forma de "recolocar os pobres e os trabalhadores no Orçamento".

Adiantando-se ao parecer das agremiações aliadas, a Bolsa caiu e o dólar subiu diante do vazamento das diretrizes petistas, reagindo ao que o mercado denomina "aumento do risco fiscal". O confronto entre a necessidade social do dispêndio público e a desconfiança que esta causa aos investidores privados constituirá o centro da encruzilhada democrática no provável terceiro mandato lulista.

O ex-governador Geraldo Alckmin (PSB, à esq.), o deputado federal Alessandro Molon (PSB) e o ex-presidente Lula (PT) durante evento da chapa sobre programa de governo petista

Em meados de abril, o Financial Times, uma das bíblias dos capitalistas internacionais, havia sintetizado o desacordo. Reportagem assinada por Bryan Harris, correspondente do jornal inglês em São Paulo, apresentava de maneira resumida o duelo entre formuladores do PT e economistas vinculados aos mercados financeiros. Nela, falando pelo PT, Guilherme Mello, professor da Unicamp, defendeu a substituição do teto de gastos por regras fiscais compatíveis com as necessidades de investimento por parte do Estado brasileiro. O teto gerou "mais pobreza, mais miséria, mais inflação e mais fome", disse Guilherme.

Defendendo as cores do dinheiro, Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, argumentou que aumentar o investimento público e social, sem um forte ajuste no resto do Orçamento, agravaria o quadro econômico nacional. "Abolir o teto seria bom apenas se houvesse uma regra melhor", afirmou Sergio, "mas isso não parece provável".

Devido a uma conjunção de fatores, a divergência em torno do dispêndio estatal é chave. Vencer a eleição e superar as ameaças golpistas de Bolsonaro e apoiadores não será fácil e vai requerer unidade e capacidade estratégica redobrada das forças democráticas. Múltiplos e perigosos escolhos precisarão ser superados nos próximos quatro meses.

Os desafios, porém, estão longe de terminar na almejada posse pacífica do vencedor. A disputa sobre os rumos da política econômica, enraizados em diferentes perspectivas de classe, coloca um dilema para a jovem e instável democracia brasileira.

O busílis está no destino da Emenda Constitucional (EC) 95, que limitou de maneira draconiana o gasto público até 2036 (com uma revisão intermediária prevista para 2026). Como se recorda, promulgada pelo Congresso Nacional em 2016, durante o consulado de Michel Temer, a chamada emenda do teto foi uma das consequências estruturais do impedimento de Dilma Rousseff (PT).

Item principal do opúsculo Uma Ponte para o Futuro, programa oficial do MDB para o golpe parlamentar que derrubou a presidenta, a emenda bloqueava por pelo menos duas décadas qualquer tentativa de recolocar o Brasil na trilha do desenvolvimento. Juntamente com a reforma trabalhista e a da Previdência (alavancada pelo atual presidente), representaram, na prática, uma pinguela para o abismo.

Bolsonaro, que simboliza o poço sem fundo em que caímos, aduziu a autonomia do Banco Central como contribuição própria para salgar a terra de modo que o desenvolvimentismo nunca mais ousasse erguer a cabeça por aqui.

Dentre as quatro leis sagradas do atraso, porém, a do teto é a pedra angular. Com frequência descrita como mero instrumento para conter o aumento supostamente explosivo dos gastos públicos, forçando uma discussão de prioridades, é bem mais do que aparenta.

Na verdade, a regulamentação paralisa, em termos reais, o montante de recursos que o Executivo pode empenhar, destoando das mais rigorosas regras impostas a nações atacadas pela austeritite. O congelamento significa que, caso a economia cresça, o percentual do PIB que caberá ao Orçamento cairá, pois este ficará estancado nos limites de 2016, devendo ser reajustado apenas pela inflação.

Estimativas de Esther Dweck, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, publicadas no livro "Economia Pós-Pandemia", sugerem que os gastos primários (isto é, descontando-se o pagamento de juros da dívida pública) ameaçam cair de cerca de 20% do PIB, em 2017, para pouco mais de 13%, em 2036. No macabro sonho neoliberal não cabem o SUS, as universidades federais e tantas outras instituições que visam garantir os direitos inscritos na Carta de 1988.

No entanto, a EC 95 não se restringe a reduzir o tamanho do Estado. Possui destacado efeito macroeconômico de curto prazo. Ao comprimir o dispêndio público, faz com que um dos principais motores do crescimento no capitalismo contemporâneo passe a funcionar como freio, o qual constantemente trava o PIB, dificulta a criação de empregos e a elevação da renda do trabalhador.

Cálculos da Instituição Fiscal Independente do Senado indicam que, entre 2017 e 2019, no triênio inicial da EC e antes do choque provocado pela pandemia, a gestão fiscal reduziu o crescimento do PIB, enquanto entre 2003 e 2014 ela o acelerava.

Em 2020, o teto foi flexibilizado por conta da Covid-19, e a política fiscal assumiu transitoriamente um caráter expansionista. Em 2021, contudo, o bloqueio voltou a se manifestar. Em suma, respeitada a limitação neoliberal estabelecida, a economia tenderá a andar de lado, sem produzir os postos de trabalho e os salários indispensáveis para consolidar a opção democrática que, segundo as pesquisas, a maioria do eleitorado deverá fazer na próxima eleição.

CONTRA A AUSTERIDADE E O AUTOCRATISMO

O árido debate fiscal adquiriu, portanto, centralidade política, com os gastos do governo passando a assumir lugar de destaque entre as armas escolhidas para combater a ascensão da extrema direita. Nos Estados Unidos, por exemplo, Joe Biden propôs um conjunto audaz e importante de planos para reconstruir o país assim que assumiu a Presidência.

Perspicaz, Biden, um quadro sabidamente convencional, colocou na equipe econômica gente que criticava a austeridade. Queria sinalizar a urgência das medidas que precisavam ser tomadas. A sua agenda previa nada menos que US$ 7 trilhões a serem aplicados pelo Estado. Era tão avançada, que foi vista, nos meses inaugurais, como o fim do neoliberalismo. O "fundamentalismo de mercado [...] está sendo substituído por algo muito diferente", escreveu Dani Rodrik, laureado professor de Harvard.

O atual presidente norte-americano o fez porque percebeu que não era a sobrevivência da máquina clintoniana que estava em jogo, e sim a do regime democrático. De maneira análoga, no Brasil, não é o futuro do lulismo, mas os alicerces da democracia que se encontram em questão.

A tradução econômica a ser dada para o voto de confiança que a chapa Lula-Alckmin receberá em outubro precisa responder às demandas emergenciais dos setores populares. É provável que o neoliberalismo não tenha acabado, mas a natureza do embate se alterou com a entrada em cena de componentes fascistas, exigindo uma postura audaz dos que apostam no regime democrático.

Nos EUA, as resistências que algumas das medidas propostas por Biden enfrentam por parte de setores conservadores têm restringido o impacto da guinada política proposta, comprometendo a superação do legado de Trump. A parte já em execução permitiu a retomada da atividade econômica, a criação de empregos e até certo fortalecimento de alguns setores da classe trabalhadora.

No entanto, o bloqueio ao chamado American Families Plan, que teria efeitos potencialmente mais estruturais e duradouros, tem contribuído para a sobrevivência do trumpismo, que pode até prevalecer nas eleições de novembro próximo. O caso norte-americano ensina que, se os democratas do mundo não forem capazes de entregar com rapidez o que prometeram, o autocratismo tende a recrudescer.

A extrema direita pós-factual, para usar uma expressão de Wolfgang Streeck, que nasceu com o brexit em 2016 e se estendeu para o mundo pelas mãos de Donald Trump e Steve Bannon, veio para ficar, como revela a recente competitividade das candidaturas de José Antonio Kast, no Chile, e Rodolfo Hernández, na Colômbia. Se as coalizões democráticas não produzirem medidas sociais efetivas, acabarão sem instrumentos para provar aos setores populares que o jogo democrático vale a pena, adubando o solo de onde brota o autoritarismo.

CONTRADIÇÕES DA CONJUNTURA

A conjuntura externa apresenta elementos contraditórios. Na economia global, prevalece a incerteza sobre consequências de médio prazo da Guerra da Ucrânia e a respeito da velocidade de recomposição das cadeias de suprimento, ainda chacoalhadas pela pandemia.

É plausível que a continuidade da escalada inflacionária nas nações ricas reduza a liquidez global e piore a situação brasileira, com uma eventual desvalorização cambial, empurrando o Banco Central a subir ainda mais os juros e, em consequência, reter o crescimento.

Não se deve excluir, porém, a possibilidade de ventos favoráveis soprarem em 2023, se a inflação mundial ceder, puxada pelos preços dos produtos manufaturados, e as commodities exportadas pelo Brasil seguirem em alta.

Vale lembrar que, nos primeiros quatro meses de 2022, ocorreu um boom de commodities como não acontecia há meio século, conforme indicam os economistas Bráulio Borges e Ricardo Barboza. Desse ponto de vista, portanto, é possível que o país se encontre, coincidentemente, em situação similar à que permitiu a ascensão do lulismo.

No entanto, naquela ocasião, a bonança das exportações aumentou as receitas e permitiu acelerar o crescimento e a geração de empregos sem reduzir o superávit primário. Isto é, foi viável expandir a ação do Estado porque havia mais dinheiro entrando nos cofres do Tesouro, sem incrementar a dívida.

Com a emenda 95, contudo, mesmo com uma eventual majoração de receitas, o montante disponível para usar seguirá limitado, pois o regime fiscal isola a economia dos eventuais impulsos positivos vindos de fora. No fundo, sejamos claros, o teto foi criado para evitar que, em circunstâncias favoráveis, outro "milagre" lulista pudesse se produzir. Ao mesmo tempo, retira do Executivo instrumentos para lidar com impulsos negativos vindos de fora. Eventuais bonanças são desprezadas, enquanto as tempestades são acolhidas de braços abertos.

Se o boom de commodities não pode ser aproveitado, e as turbulências globais não têm como ser combatidas, as melhorias tão aguardadas, e com as quais Lula é identificado, se inviabilizam. O efeito político não se faria esperar: a alternativa democrática enfrentaria enfraquecida o bolsonarismo nas nossas "eleições de meio de mandato", as municipais de 2024.

O CICLO POLÍTICO DA ECONOMIA

No plano interno, vê-se que a pressão no sentido do corte de gastos tende a aumentar, como acontece em ano de pleito presidencial. Tome-se como exemplo o subsídio de até R$ 46 bilhões para o consumo de combustíveis, energia elétrica, comunicações e transportes.

Até as pedras sabem que é mais uma das medidas voltadas a favorecer o desempenho de Bolsonaro nas urnas eletrônicas (que ele, aliás, despreza), como foram o Auxílio Brasil, a liberação do FGTS, a anistia do Fies, entre outras. A cada uma, aumenta a grita em favor de um corte correspondente nas despesas do Estado.

Afinal, para os capitalistas, a estabilidade das contas públicas vem antes de qualquer consideração política ou social. Segundo Lula, os banqueiros e empresários com os quais se reúne só querem saber de responsabilidade fiscal, perguntando se ele "vai manter ou não o teto de gastos".

Com efeito, o mantra do equilíbrio orçamentário, cuja inviolabilidade, aliás, foi o centro da pregação histórica de várias personagens agora cogitadas para formular o programa definitivo da chapa democrática, volta a figurar no âmago da avaliação de figuras do mercado.

Sob a rubrica de "consolidação fiscal", a defesa do teto funciona como chantagem: caso não se dê garantias, os capitais ficarão nervosos e irão embora. Sergio Vale já avisou no FT que, a seu ver, a situação fiscal hoje é pior do que a que Lula herdou em 2003. "Vamos terminar o ano com uma dívida ao redor de 84% do PIB, um déficit primário acima de 1% do PIB e juros muito altos. Não adianta o governo querer gastar, se não existe espaço para isso", declarou.

No entanto, espaço existe, como mostrou o auxílio emergencial adotado em 2020. Naquela ocasião, a flexibilização do teto não apenas atenuou a queda do PIB como, também, contribuiu para que o aumento da relação dívida/PIB fosse contido, segundo cálculos do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP.

O exemplo revela o fundo ideológico da defesa da austeridade. Se a preocupação fosse mesmo o endividamento, seria possível travar uma discussão técnica sobre as alternativas disponíveis —várias delas menos custosas, econômica e socialmente, do que a inscrita na EC.

A defesa teimosa da austeridade assenta-se, como notou Michal Kalecki (1899-1970), no interesse em reduzir o tamanho do Estado, abrindo fronteiras para a apropriação privada de lucros e fortalecimento do controle do capital sobre a dinâmica macroeconômica. Já nos anos 1940, o economista polonês notou, em seu clássico artigo "Aspectos Políticos do Pleno Emprego", que os capitalistas resistiam ao alargamento da ação estatal para manter seu "poderoso controle indireto sobre as políticas do governo".

As propostas liberais são, segundo a interpretação dele, uma forma de disciplinar a democracia pelo mercado: "tudo que pode afetar o nível de confiança precisa ser cuidadosamente evitado, porque pode causar uma crise econômica".

Convencionalmente, o clamor por austeridade tende a ser atendido em inícios de mandatos presidenciais. Premido pela necessidade de ganhar votos, o Executivo solta as rédeas do Tesouro no período em que as urnas são acionadas e faz um ajuste fiscal no início do período seguinte. A academia norte-americana deu ao fenômeno o nome de political business cycle, vinculando à dinâmica eleitoral o conflito desvelado por Kalecki.

Lula sofreu a pressão correspondente quando assumiu a Presidência em 2003, levando-o a cortar na carne, sob a forma de um ajuste considerado duríssimo. Dilma fez um segundo, quando chegou à cadeira presidencial em 2011. Ocorre que, agora, se Lula não aproveitar a potência que trará dos sufrágios amealhados para romper a camisa de força fiscal, perderá um tempo nevrálgico.

O risco de esperar a revisão da emenda, prevista para 2026, é alto. Tal espera implicaria assumir o ônus de impor a austeridade a uma população desamparada e desiludida pelos próximos quatro anos. Haverá um respiro democrático se o teto for revogado logo no primeiro semestre de 2023, quando a coalizão vitoriosa terá força máxima no Congresso. Depois, o inevitável desgaste de administrar uma sociedade arrebentada pela década perdida (mais uma) cobrará o preço em matéria de apoio e negociação partidária.

Como as bases fiscais do Estado foram deterioradas pela crise que se abriu em 2014 e segue, será necessário combinar a revogação do teto com uma repactuação tributária que permita conferir progressividade ao sistema. Se o fizer, a recuperação da capacidade de gasto não implicará uma explosão da dívida pública, o que não apenas engessaria a concentração de renda, ao ampliar a canalização do fundo público para os detentores da dívida, como fragilizaria o Estado diante dos rentistas.

A alternativa de substituir a regra atual, simplesmente, por alguma austeridade atenuada, impossibilitando o poder público de agir no curto prazo, representaria mais do mesmo.

A posse de Lula não desarmará, por si só, a ameaça autoritária e não desarticulará em um passe de mágica a base militante e organizada da extrema direita. Fazer frente ao autocratismo exigirá melhorar as condições de vida deterioradas, recuperando a criação de empregos e aumentando a renda. Não há como conciliar essa tarefa com o atendimento das demandas por austeridade.

Austeridade, aliás, que não entrega o que promete. O golpe parlamentar e a aprovação do teto lograram recuperar os índices de confiança e os preços das ações negociadas na Bolsa de Valores, mas a população segue esperando os frutos da estratégia.

A lei do teto não é apenas uma emenda constitucional, é um mecanismo de sabotagem que visa desconstruir o pacto de 1988 e abre uma avenida para o bolsonarismo. Voltamos a Kalecki: "a luta das forças progressistas pelo pleno emprego é, ao mesmo tempo, uma maneira de prevenir o retorno do fascismo".

Se para derrotar a ameaça autocrática impõe-se a conformação de uma aliança interclassista, tal como a que ocorreu nos EUA para tirar Trump da Casa Branca, deve ter-se claro os termos da respectiva negociação interna.

Nos EUA, graças ao levante do Black Lives Matter, em junho de 2020, o peso relativo de Bernie Sanders e do DSA (Democratic Socialists of America) cresceu. Não por acaso, o pacote apresentado por Biden em abril de 2021 foi considerado por Sanders, se aprovado, como o maior avanço em favor da classe trabalhadora desde o New Deal de Franklin Roosevelt, presidente entre 1933 e 1945. Sua implementação, contudo, segue sofrendo resistências no interior do próprio Partido Democrata, para não falar do Republicano.

No Brasil, como de hábito, o jogo é mais duro, e a pressão para inibir a necessária ousadia futura começou antes mesmo do pleito. Trata-se de um conflito que recoloca questões de classe no núcleo do combate ao autocratismo de viés fascista. O seu desfecho definirá os rumos da democracia brasileira.

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