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31 de março de 2024

Cinema de Thomaz Farkas acompanhava desejo de mudar o Brasil

Fotógrafo e cineasta tem retrospectiva no É Tudo Verdade, o maior festival dedicado ao cinema documental do país

Inácio Araujo

Folha de S.Paulo

Num dos documentários que serão apresentados em sua homenagem no festival É Tudo Verdade, Thomaz Farkas lembra que o desejo de fazer cinema nos anos 1960 acompanhava o desejo de transformar o Brasil e testemunhar o nascimento de um país moderno.

Daí não ter sido difícil ter ao seu lado um grupo de cineastas, como Geraldo Sarno, Maurice Capovilla, Paulo Gil Soares e tantos outros que partilhavam o mesmo objetivo e seguiam os mesmos métodos. Desse encontro nasceu a hoje mitológica Caravana Farkas, que rodou por um Brasil desconhecido —entenda-se, basicamente o Nordeste— e revelou costumes, crenças e atividades que no Sudeste e no Sul por vezes era possível ouvir falar, mas raramente ver.

Thomaz Farkas em retrato de 2006 - Leonardo Wen/Folhapress

Mostrar o Brasil profundo, com o atraso e a riqueza que convive com esse atraso, foi a chave que criou a mitologia da Caravana, alimentado por vários lados. Essencial também foi o fato dessa série de filmes quase não ter sido vista em seu tempo. Os filmes não se prestavam a circular comercialmente. Estávamos em plena ditadura militar, e o Nordeste era uma região particularmente malvista pelos censores.

Uma tentativa de exibição na TV Cultura foi bloqueada por razões políticas —os filmes mostravam muita miséria, além de serem em preto e branco. Mesmo assim, eles se tornaram uma referência no cinema brasileiro da época. Na década de 1970, aliás, vários dos autores da Caravana contribuíram para a fama dos documentários da série "Globo-Shell Especial", uma espécie de revolução no jornalismo da televisão brasileira.

Quanto a Farkas, antes de ser cineasta, este brasileiro nascido meio que por acaso na Hungria, em 1924, foi fotógrafo. Na verdade, cresceu entre equipamentos. Seu pai já era dono da loja Fotoptica, quando Farkas chegou definitivamente ao Brasil, por volta dos 5 anos. Mais tarde viria a herdar e expandir a empresa. Desde criança fotografava. Tornou-se um dos melhores e mais originais de sua geração.

Era capaz de captar a vibração de um estádio de futebol como o do Pacaembu lotado em dia clássico. Mas seus trabalhos também impressionam, como alguém comenta, pelos ângulos insólitos e enquadramentos assimétricos.

Esses dois registros, o dos ângulos insólitos e o Brasil popular, digamos assim, das fotos do Pacaembu, talvez resumam essas duas paixões de Farkas —a de ver um Brasil liberto do seu atraso e sua população liberta da pobreza.

O cinema, que veio um pouco mais tarde, estimulado pelas câmeras que a Fotoptica vendia, também reflete essa dupla preocupação.

Dos dois documentários que homenageiam o cineasta, o de Eduardo Escorel dá conta sobretudo de sua arte, mas também da amizade com José Medeiros, importante repórter fotográfico e, depois, diretor de fotografia mais importante ainda. Ali já é possível entrever a personalidade discretamente exuberante de Farkas, sua afetividade e humor.

Essa personalidade se mostra por inteiro no documentário de Walter Lima Junior. Ali Farkas, morando em Paraty, diz, por exemplo, que queria mesmo é ser baiano. Justamente por ser uma terra em que o afeto se sobrepõe à violência. E revela quem queria ser: Batatinha, o compositor baiano, nascido como ele em 1924.

Batatinha morreu em 1997. Thomas Farkas prosseguiu. Já aposentado das funções de professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, realizou um trabalho essencial como presidente do conselho da Cinemateca Brasileira, na ocasião em que a instituição foi absorvida pela secretaria do Audiovisual do Mininistério da Cultura. Foi o início de uma era de ouro da instituição, que terminaria apenas durante a gestão Marta Suplicy no MinC.

Farkas morreu em 2011, aos 86 anos. Desde então, ficou mais fácil notar como todas as linhas das atividades audiovisuais brasileiras confluíram em sua direção: foi autor, produtor, consumidor e batalhou pela preservação de suas imagens.

HERMETO CAMPEÃO

Quando Dia 8/4, às 14h, na Estação Net de Cinema Botafogo e dia 10/4, às 15h, na Estação Net de Cinema Rio, no Rio de Janeiro; dia 12/4, às 14h30, na Cinemateca Brasileira e dia 13/4, às 14h, no Espaço Itaú de Cinema Augusta, em São Paulo
Classificação Livre Produção Brasil, 1981 Direção Thomaz Farkas

PARAÍSO, JUAREZ

Quando Dia 8/4, às 14h, na Estação Net de Cinema Botafogo e dia 10/4, às 15h, na Estação Net de Cinema Rio, no Rio de Janeiro; dia 12/4, às 14h30, na Cinemateca Brasileira e dia 13/4, às 14h, no Espaço Itaú de Cinema Augusta, em São Paulo
Classificação Livre Produção Brasil, 1971 Direção Thomaz Farkas

TODOMUNDO

Quando Dia 7/4, às 14h, na Estação Net de Cinema Botafogo, no Rio de Janeiro; 8/4, às 18h, no Espaço Itaú de Cinema Augusta, em São Paulo; 9/4, às 15h, na Estação Net de Cinema Rio, no Rio de Janeiro; 11/4, às 14h30, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo
Classificação Livre Produção Brasil, 1980 Direção Thomaz Farkas

THOMAZ FARKAS, BRASILEIRO

Quando Dia 7/4, às 14h, na Estação Net de Cinema Botafogo, no Rio de Janeiro; 8/4, às 18h, no Espaço Itaú de Cinema Augusta, em São Paulo; 9/4, às 15h, na Estação Net de Cinema Rio, no Rio de Janeiro; 11/4, às 14h30, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo
Classificação Livre Produção Brasil, 2004 Direção Walter Lima Jr.

2 de abril de 2022

"História da Guerra Civil" defende olhar de Dziga Vertov sobre o confronto

Recuperado em 2021 depois de ter sido considerado perdido, documentário faz parte do festival É Tudo Verdade

Inácio Araujo

Folha de S.Paulo

Cena de "Entusiasmo", do cineasta soviético Dziga Vertov - Austrian Film Museum/Divulgação

"Ver a maçã como Newton!" escreve Dziga Vertov (1896-1954) em "Start", poema de juventude reproduzido no precioso volume "Cine-Olho: Manifestos, Projetos e Outros Escritos" (editora 34), organizado por Luis Felipe Labaki. A formulação dá conta do deslumbramento de Vertov diante do cinema: o espaço em que se pode ver algo que estava diante de todos os olhos desde os tempos bíblicos e naquilo descobrir algo inteiramente novo.

Essa empreitada começa, na prática, com os kino-trens que documentavam a longa guerra civil ao longo da qual os soviéticos enfrentaram a tentativa de deposição dos czaristas e aliados. Vertov (o livro grafa o nome como Viértov, de acordo com estudos mais recentes da língua russa), desde sempre adepto do "natural" (o documentário) contra o "posado" (cinema de ficção), colocou já em 1917 como prioridade trabalhar o cinema como propaganda do novo regime.

Ele e seus cinegrafistas partiram para o front (os diversos frontes, na verdade) em que se desenrolaram os combates. É dessa atividade que resulta "História da Guerra Civil", síntese das atividades filmadas entre 1918 e 1921 para apresentação no 3º Congresso da Internacional Comunista, em junho de 1921.

Recuperado em 2021 depois de ter sido considerado perdido, o documentário de Vertov cobre o desenrolar da Guerra Civil na Rússia (1918-1920) em 12 partes, ordenadas cronologicamente. O filme é um dos destaques da 27ª edição do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários.

É difícil ter uma ideia de como essas imagens podem ter sido recebidas pelos congressistas e espectadores da época. A rigor, Vertov passou despercebido nesta parte do mundo até pelo menos o final dos anos 1960, quando Jean-Luc Godard integrou o "Grupo Dziga Vertov" e encampou as ideias anti-representação do cineasta russo.

No entanto, o desejo de registrar e mostrar, de olhar um mundo original que então lutava para existir, está presente nessa "História". No início, a ênfase vai para o potencial destrutivo do inimigo: sabotagens contra pontes e equipamentos inutilizados por seu poder de fogo, em contraposição aos esforços das forças revolucionárias para recolocá-los em condições.

A documentação dos três anos varia desde a exposição de material bélico e desfiles oficiais até momentos mais detidos, como, por exemplo, a abertura de uma vala comum para combatentes mortos, os soldados aprendendo a dominar os "monstros" ingleses (tanques de guerra provavelmente capturados ao inimigo), o entorno do julgamento de Anton Denikin —ex-general do império integrado às forças soviéticas, acusado de desprezar os comissários do partido e partir para uma investida temerária—, ou a casa onde foi morto Kornilov, importante chefe militar das forças inimigas.

Os dados parecem mais fartos à medida que a guerra se aproxima de seu final: a tomada de Baku é vista de diversos ângulos, a revolta do Kronstadt é esmagada e já começa a reconstrução do país, em particular a atividade agrícola.

Torna-se claro para o espectador que assiste ao filme um século depois que o conjunto deve ter impressionado e até mesmo comovido as plateias, tanto do congresso quanto as menos oficiais daquele momento. Tratava-se de, ali, perceber aquela documentação fragmentária com o mesmo olhar único de Newton para a maçã —um mundo novo nascia das cinzas daquele enfrentamento feroz não apenas contra os adeptos do czarismo, afinal, o "velho mundo" empenhava-se em sustentar os "brancos", adversários dos "vermelhos" nessa história.

Ao mesmo tempo, acumulam-se dúvidas sobre a natureza do filme. Pode-se entender que Vertov tenha se detido mais demoradamente na atividade de líderes intermediários, mas certas ausências suscitam dúvidas sobre mexidas posteriores na obra.

Zinoviev aparece fugazmente, e ele era um dos líderes políticos mais importantes do partido bolchevique. A aparição de Trótski, então, é meteórica. Existe um plano dele discursando, logo no início, embora sem menção a seu nome, mas o mais estranho é mais adiante, quando o chefe do Exército Vermelho faz um discurso e pode ser visto em plano geral, a distância, ou apanhado de trás, a um quarto de perfil. Quando ele se volta para a câmera, no entanto, um close se insinua, mas de imediato é cortado. Será que no congresso de 1921 isso seria bem recebido?

Essas particularidades não desmerecem o filme. São sombras que dizem respeito menos ​à ação de agitprop a que se dedicou Vertov e ao valor do trabalho de documentação do que ao desenrolar do próprio regime soviético. Sombras que expõem outros aspectos da maçã, ou antes, que levantam questões sobre o desenrolar do regime soviético após a morte de Lênin, em 1924, vão muito além do que o cineasta podia prever em 1921.

A HISTÓRIA DA GUERRA CIVIL

Quando Rússia, 1921

Direção Dziga Vertov

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