Mostrando postagens com marcador Kevin Murphy. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kevin Murphy. Mostrar todas as postagens

4 de abril de 2020

A formação da classe dominante soviética

O retrato da elite soviética sob Stalin feito por Yuri Slezkine é uma obra-prima excêntrica. Mas seu retrato dos bolcheviques como uma seita religiosa é uma caricatura da história.

Kevin Murphy

Jacobin

Joseph Stalin, novembro de 1933. Wikimedia Commons

Resenha de Yuri Slezkine, The House of Government: A Saga of the Russian Revolution (Princeton University Press, 2017)

Tradução / A Casa do Governo, de Yuri Slezkine, é certamente uma das obras mais ambiciosas sobre a história soviética que apareceu em muitos anos. Um livro extenso e excêntrico com claras aspirações literárias, conta a história da elite comunista soviética e seu destino sob Stalin, através do prisma do vasto complexo de apartamentos na Rua Serafimovicha de Moscou - a “Casa no Aterro” - onde muitos deles viviam (e de onde tantos foram arrancados pela polícia secreta de Stalin para terminar seus dias em prisões e campos de trabalho).

Em 1935, a Casa do Governo de Moscou tinha 2.655 inquilinos - a maioria famílias de funcionários do Estado e do partido: "Era o quintal da vanguarda; uma fortaleza protegida por portões de metal e guardas armados; um dormitório onde os funcionários do Estado viviam como maridos, esposas, pais vizinhos; um lugar onde os revolucionários voltavam para casa e a revolução ia para morrer."

Seria razoável esperar que uma saga da Revolução Russa, de mil páginas, escrita por um dos mais talentosos e provocativos historiadores russos instigaria o interesse dos socialistas ao redor do mundo. Contudo, dada a influência da universidade norte-americana e sua capacidade de produzir uma quantidade infinita de trabalhos anticomunistas sobre a Revolução Russa - a reviravolta social mais importante da história mundial - a falta de engajamento sério da esquerda com estes estudos é até compreensível.

Conheci Yuri Slezkine em 2000, no Arquivo do Partido Comunista em Moscou, onde ele graciosamente comparou seu estudo a respeito da Casa do Governo, conjunto habitacional construída no final dos anos 1920 onde residiu a elite soviética, ao meu trabalho sobre a fábrica Foice e Martelo - com a diferença crucial que o seu trabalho era de história social da elite e não dos trabalhadores (cf. Murphy, 2005). Slezkine sabia das dificuldades que enfrentava: é sabido que as coleções arquivistas soviéticas foram organizadas por espaço de trabalho e não por comunidade. Será que seu ambicioso projeto seria sequer factível?

Quando o premiado livro de Slezkine, The Jewish Century, foi publicado em 2004, eu achava que a resposta era não e que o projeto anterior havia sido abandonado. Contudo, The House of Government: A Saga of the Russian Revolution (Slezkine, 2017) foi finalmente publicado, no centenário da Revolução Russa. Uma leitura rápida em suas copiosas notas "nais realizadas a partir de dezessete arquivos revela a solução que Slezkine encontrou para seu desa"o metodológico: ela representa o ponto culminante de vinte anos de uma pesquisa espetacular, incluindo dezenas de longas entrevistas realizadas nos anos 1990 com residentes do conjunto habitacional ainda vivos. A publicação deste livro reúne meia vida de trabalho acadêmico e em arquivo, e merece atenção específica dos historiadores críticos.

Duas das três “tensões” temáticas do livro de Slezkine são verdadeiramente instigantes. A primeira são as histórias familiares de muitos residentes, conhecidos e desconhecidos. A capacidade de reunir o relato emocionante - frequentemente trágico - de tantas vidas dos residentes é o centro do trabalho. Além disso, existe a exploração que o autor realiza dos fundamentos literários da visão de mundo bolchevique. "Para os velhos bolcheviques, ler os 'tesouros da literatura mundial' era uma parte crucial da conversão de experiências, dos rituais amorosos, das "universidades" da prisão e da domesticidade da Casa de Governo".

Esta terceira tensão analítica é problemática, a identificação que Slezkine faz dos bolcheviques como milenaristas sectários. Esta não é uma proposição nova, esteve presente na literatura da Guerra Fria e mesmo antes. Durante as Jornadas de Julho, em 1917, Nikolai Berdiaev sugeriu em seu Religious Foundations of Bolchevism que os bolcheviques desejavam “transformar pedras em pão, mergulhar de cabeça no abismo revolucionário na esperança de um milagre revolucionário e fundar um reino eterno na terra, substituindo o reino de Deus”.

Se a afirmação dos bolcheviques como milenaristas sectários pode ganhar aplausos do público anticomunista, ela tem o risco de afastar os leitores mais críticos, o que seria um desperdício já que o livro é muito mais do que isso. É difícil compreender por que nenhum pesquisador experiente entre as dúzias que leram o manuscrito não considerou prudente alertar Slezkine a respeito de escorregadas óbvias no enquadramento conceitual do trabalho. Sua decisão bizarra de adotar o paradigma da historiografia do Escritório de Serviços Estratégicos (OSS) no momento em que o pós-modernismo perde força nos estudos soviéticos revela a extensão da pasmaceira intelectual que ainda afeta o campo.

Vidas revolucionárias

Muitos dos nomes proeminentes entre os residentes da Casa são familiares aos estudiosos da Revolução Russa: Nikita Khrushchev, Primeiro Secretário do Comitê do Partido em Moscou e, posteriormente, Primeiro Secretário do Partido Comunista; Aleksandr Voronsky, escritor de ficção, membro da Oposição Uni"cada e editor do jornal literário Red Virgin Soil; Valerian Osinsky, líder da Oposição Democrática Centralista e presidente do Conselho Supremo da Economia Nacional; Maria Shaburova, dirigente da Seção das Mulheres, editora do Rabotnitsa (Trabalhadora) e Comissária do Povo para o Bem-Estar Social da República Russa; Karl Radek, presidente do Comintern; da Oposição de Esquerda e Oposição Unificada; Nikolai Podvoisky, presidente do Comitê Militar Revolucionário, que comandou o assalto ao Palácio de Inverno; Ivar Smilga, Comissário Revolucionário do Front Ocidental, Líder de bancada do Comitê Estatal de Planificação, da Oposição de Esquerda e Oposição Unificada.

Alguma das histórias de família são de pessoas que “não reconhecemos”, mas suas vidas são tão interessantes que o leitor começa a achar que cada uma mereceria um livro. Slezkine é mestre em contar histórias, em uma narrativa na qual, em determinados momentos, abruptamente somos lembrados da época perigosa em que os residentes da Casa viviam. Tal é o caso de Fedor Fedotov, Roza Marcus e de seu filho Lyova, “cronista, escritor, músico” e artista.

Fedotov nasceu em uma família camponesa em 1887, juntou-se a um círculo socialista ainda jovem e passou um tempo na prisão por distribuir panfletos. Por volta de 1914, emigrou aos Estados Unidos onde conheceu sua futura esposa, Rosa Markus, e ingressou na seção Bolchevique de Nova Iorque. Entre 1915-1916, tornou-se presidente do sindicato dos estivadores e organizador do Partido Comunista; foi preso um pouco depois – durante as diligências para prender ativistas de esquerda coordenadas pelo procurador A. Mitchell Palmer, que deu nome à operação – e sentenciado a dez anos de prisão.

Em sua cela, de acordo com Roza, “havia apenas um tênue "o de luz de sol vindo de cima. Ele costumava seguir o "o com o livro nas mãos para ler.” Fedotov escapou da Prisão Trenton um ano depois, e voltou com Roza para a Rússia. Nos anos 1920 e 1930, ele serviu nos partidos comunistas em Alma-Ata, Tashkent na República do Quirguistão, e escreveu livros de ficção e infantis.

Depois de sua morte devido a um acidente de caça, Roza se mudou para a Casa do Governo e sua "ampla, próxima, móvel e ascendente” família judaica proveu Lyova “de professores e amigos, bem como de um elo vital entre o Apt. 262 e a história mundial, a descoberta e o socialismo". Roza trabalhou como "gurinista no Teatro da Juventude de Moscou, mas o orgulho de sua vida foi seu "lho Lyova: "Eu nunca o vi apenas sentado fazendo nada. Quando se sentava, Lyova lia. Seu pai era assim também. Você não poderia dizer que se tratava de uma escrivaninha de criança. Era a mesa de... um tipo de professor."

Seu amigo de infância, Yuri Trifonov, descreveu Lyova:

Desde pequeno ele se esforçava apaixonadamente e ansiosamente para ser melhor de todas as maneiras possíveis, devorando rapidamente todas as ciências, artes, livros, música e todo o mundo - como se tivesse medo de não ter tempo suficiente. Aos doze anos, ele parecia viver com o sentimento de ter pouco tempo e muita coisa para realizar. Ele se interessava por muitas ciências, especialmente mineralogia, paleontologia e oceanografia; desenhava muito bem – suas aquarelas eram exibidas em exposições de arte e publicadas na revista Jovem Pioneiro; amava música clássica e escrevia romances em cadernos grossos, encadernados com tecido.

A guerra de Stálin contra os camponeses – com a coletivização forçada e a fome daí resultante – é descrita no Cazaquistão do ponto de vista do tour de inspeção feito por Sergei Mironov na região junto de sua companheira, Agnessa Argiropulo. Eles continuaram a viver um estilo de vida luxuoso entre as autoridades, embora Argiropoulo tenha notado que “por alguma razão, Mirosha está se tornando mais sombrio e mais retraído a cada dia, e eu nem sempre consigo tirá-lo dessa condição”. Na visita à cidade fantasma de Karanga, Mironov havia se deparado com canibalismo, uma criança órfã que comera seu irmão de dois anos - “cortando pedaços para comer e alimentando sua irmã até não sobrar mais nada”.

Moronov estava “muito irritado”, notou Argiropoulo, mas “tentava não pensar nessas coisas e afastá-las de si. Ele sempre acreditou que tudo o que o partido fazia era correto, era muito leal.” Em Petropavlovsk, participou de um banquete para comer um porco suculento junto aos burocratas partidários locais no qual “vários criados, lacaios e lambe-botas serviam todos os tipos imagináveis de comidas - até mesmo laranjas. Nem sequer remeto aos diferentes tipos de sorvetes e uvas”.

Pobreza e privilégio

Mesmo na relativamente privilegiada Moscou, a forma alcançou a Casa do Governo, e muitos residentes convidavam familiares para viver consigo. A maior parte dos residentes chegados de áreas rurais possuía parentes que haviam passado fome, e muitas das faxineiras da Casa eram refugiadas dos processos de coletivização. Em 1933, próximo à Grande Ponte de Pedra, mendigos eram “adultos e crianças que pareciam pequenos esqueletos com suas mãos esticadas”. Apesar da segurança da Casa do Governo ser restritiva, ainda em 1935 era possível ver “crianças esquálidas perto dos edifícios, passando por entre as grades de metal e cercas, escondidas entre as colunas, mendigando por comida”.

Crianças da classe trabalhadora que viviam perto dos dormitórios, quartéis e cortiços "cavam “impressionadas com a riqueza com a qual se deparavam” na Casa do Governo. Ocasionalmente as garotas da casa visitavam seus colegas fora da comunidade protegida, “chocavam com a miséria que encontravam e não desejavam não voltar mais ali”, enquanto os garotos “corriam o risco de serem pegos de surpresa e apanhar” quando voltavam da escola para a casa.

Durante a construção, entre 1928 e 1931, trabalhadores temporários das regiões rurais que trabalhavam na edificação da Casa do Governo viviam em tendas sem aquecimento e saneamento compartilhadas entre várias pessoas, trabalhavam dez horas por dia e comiam “comida estragada com vermes”. Já em 1928, o a direção local do partido notou que o principal desconforto político entre os trabalhadores era um “igualitarismo vulgar no que diz respeito às relações entre cidade e campo”, ao mesmo tempo em que centenas de trabalhadores abandonavam a construção sem trabalhar um dia sequer.

Durante a fome, os residentes da casa passavam férias na Riviera Branca onde “a qualquer hora do dia ou da noite um empregado poderia ser enviado para conseguir comida quente”. Em 1933, os convidados da nomenklatura provaram caviar, peixe defumado, presunto, salsicha, carne, pão branco, pão preto, entre outras iguarias. Na Casa do Governo, os residentes compravam em lojas alimentícias exclusivas, tinham empregadas, babás e motoristas. A maior parte das mulheres, de acordo com a sobrinha de Stálin, Kira, vestiam roupas feitas por encomenda – “não apenas vestidos e ternos, como também sobretudos e casacos de pele”.

A chegada do terror

O estilo de vida extravagante de alguns dos moradores da Casa do Governo não parecia tão chocante como sua propensão à violência que, de acordo com Skezkine, está presente de maneira proeminente no marxismo como “movimento apocalíptico”. “Violência geralmente produz uma boa orientação teórica. Todos os bolcheviques a viam como parte da Revolução, e ninguém poderia negá-la por princípio.” Slezkine não consegue explicar por que os eventos de outubro foram tão violentos em Moscou e quase sem sangue em Petrogrado ou por que durante “os anos 1920 a intensidade da violência diminuiu.”

Mas Slezkine dificilmente é o único nesta apresentação seletiva da violência. Um quarto de século depois de David Floglesong (1995) detalhar o financiamento massivo e secreto dos Estados Unidos de alguns dos sujeitos mais violentos e antissemitas do século XXI, os socialistas ainda podem esperar o dia em que um desses grandes especialistas falarão das intenções dos Estados Unidos em estabelecer “ditaduras militares” favoráveis aos seus interesses.

Slezkine reúne uma base sólida de informações a respeito da violência sob o Terror, mas sua maior contribuição é a história intrincadamente tecida de histórias humanas destruídas. Por mais estranho que possa parecer hoje, há poucas décadas os argumentos dos “revisionistas” – apologistas de Stálin – eram levados a sério. Enquanto os guerreiros ocidentais da Guerra Fria adicionavam dígitos aos números de mortes, os revisionistas respondiam por meio de tentativas de minimizar a escala da repressão e o papel de Stálin nos assassinatos em massa.

Ao todo, entre 1936 e 1939, por volta de 800 residentes da Casa do Governo foram presos e 344 executados. Slezkine complementa o que já é bastante conhecido a respeito do escopo e natureza do Terror com numerosas histórias pessoais das vítimas, executores e, às vezes, ambos ao mesmo tempo. A polícia secreta (NKVD) realizava prisões a priori para preencher cotas e organizava listas de acusados, incluindo 335 listas pessoalmente assinadas por Stálin. Privação do sono, interrogatórios que duravam dias inteiros e espancamentos eram usados para forçar “confissões”, muitas das quais editadas por Stálin.

Seus agentes utilizaram privação de sono, interrogatórios 24 horas por dia e espancamentos severos para extrair “confissões” forçadas que eram frequentemente editadas por Stalin. Em agosto de 1937, o chefe da NKVD, Ezhov, expediu a Ordem n. 00486 que ordenada a busca e prisão das “esposas dos traidores da pátria mãe” e “seus "lhos maiores de quinze anos socialmente perigosos e capazes de engajamento em atividades antissoviéticas”.

Slezkine oferece uma explicação convincente para a dinâmica cada vez mais extensa do Terror. Quando Bukharin respondeu às acusações apontando as inconsistências de seus acusadores, foi comunicado de que seu “comportamento advocatício” era irrelevante. Seus juízes disseram que sua culpa estava dada e que seu único trabalho era confessar e se arrepender, não argumentar.

O que importava, comenta Slezkine, não era se os traidores "zessem determinadas coisas ou não; o que importava era que eles haviam traído o Partido e poderiam fazê-lo novamente. Todos, com exceção de Stálin, haviam pecado contra o Partido em algum momento, por meio de pensamentos ou ações, e deveriam ser responsabilizados por atividade terrorista criminosa. Slezkine mostra que muitos dos envolvidos nestas terríveis operações acreditavam em sua retórica, achavam que estavam realmente “desmascarando os inimigos do povo”. Em seu pensamento, diz Slezkine, não havia espaço para erros, acidentes, desastres naturais – todo fracasso era resultado de sabotagem deliberada.

Contudo, ele está errado ao sugerir que o combate aos sabotadores, espiões e vândalos tenha começado a ganhar força apenas em abril de 1937. Na fábrica Foice e Martelo, engenheiros, opositores e os supostos “kulaks” já existiam desde o primeiro plano quinquenal. A repressão atinge seu apogeu em 1937, mas os processos que se valiam dos bodes expiatórios que Slezkine descreve estavam intrinsecamente relacionados ao processo de industrialização rápida e às tentativas brutais de remediar os problemas estruturais inerentes a ele.

Vítimas e aniquiladores

Entre as muitas vítimas do Terror havia Tania Miakova e sua família. Miakova, então com vinte anos, se juntara aos bolcheviques na Ucrânia durante a Revolução de 1917; se formou na Universidade Comunista Sverdlov, em Moscou, casou-se com Michael Poloz - chefe do Planejamento Ucraniano – e teve uma filha, Rada, em 1924. Em 1927 passou a fazer parte da oposição e passou a década seguinte no exílio, prisão e campos de trabalho forçado, inclusive no infame Gulag de Kolyma na região nordeste da Sibéria.

Em Astrakhan, ela juntou dinheiro para muitos exilados desempregados, organizou reuniões da oposição e distribuiu pan!etos acusando a liderança do Partido de trair a classe trabalhadora. Como muitos trotskistas, Tania tornou-se obcecada pela industrialização, “geralmente tudo o que eu preciso são o plano de cinco anos e sandálias tamanho 37”. Depois do encontro com seu marido no Cazaquistão, Tania terminou por assinar uma carta de retratação – não se sabe se por medo pela segurança de sua família ou se pelo Partido não estar mais apaziguando o conflito com oficiais da NEP e kulaks.

Depois de sua soltura, Tania, Poloz e sua "lha se mudaram para a Casa do Governo, mas ela foi detida novamente em 1931 por encontrar-se com ex-oposicionistas e, de acordo com a polícia secreta, por expressar preocupações a respeito da coletivização do trabalho. Slezkine recupera longamente as emocionantes cartas que Tania escreveu para a "lha, marido e mãe nas quais procura se manter otimista, oferecer orientação para a educação da "lha à distância e provar sua lealdade ao regime - completamente ciente da vigilância sob a qual se encontrava.

Ao final, Tania é traída por sua companheira de quarto em Kolyma por ser uma “trotskista não reformada” e é executada por “manter contato regular com trotskistas convictos”. Poloz também é executado e uma das acusações é a de “manter correspondência com sua esposa, uma trotskista”. Rada trabalharia como enfermeira durante a II Guerra e seria presa durante o cerco de 1949 contra “familiares dos traidores da pátria mãe”.

Os responsáveis pelo combate aos sabotadores tiveram, por vezes, sua sanidade questionada. O chefe de E.m Shchadenko expressou suas preocupações de que “a qualquer momento” ele poderia “sucumbir sob um acesso de loucura delirante”. Enviado a Kiev em julho de 1937 para “liquidar os efeitos das sabotagens”, Shchadenko declarou a um camarada do período da Guerra Civil que “eu como sempre, sou impiedoso com o inimigo, atacando pela direita e pela esquerda, aniquilando-o e seus atos vis”.

Sua esposa, Maria Denisova (retratada no poema épico de Maiakovski, Nuvem de calças), fazia sua própria busca por inimigos do povo na Casa do Governo, usando apenas camisola e por vez carregando uma pistola ou faca para avançar sobre os vizinhos”, ameaçando-os “com palavras completamente sem sentido”.

Caricatura do bolchevismo

A incursão extensa e habilidosa de Slezkine na "cção contemporânea permite a textura de profundidade de cada época da casa. A literatura da NEP, diz Slezkine, “retém a memória e a esperança dos últimos dias, mas havia mais, mais do que tudo essa era a literatura do grande desapontamento”. Os bolcheviques contaram o tempo sagrado em anos e assumiram, como o profeta Paulo, “que o mundo em sua forma presente está acabando”. Citando favoravelmente o economista Lev Kritsman (apartamento 186) em seu !e Heroic Period of Russian Revolution (1924) a função da NEP era preparar para a “batalha mundial histórica que se aproxima entre capital e proletariado”, fomentar a revolução mundial fora da URSS e educar internamente os beneficiados por ela.

Ainda que muitos autores e alguns dos líderes partidários pensassem assim, ao menos entre os mais significativos no interior do Politburo, Slezkine aposta no sentido inverso. Depois de sete anos de guerra, guerra civil e revoluções europeias fracassadas, o socialismo em um só país de Stálin era assimilado pelas seções mais conservadoras do Partido em nome da estabilidade contra o aventureirismo de Trotsky, descrito como o Dom Quixote do comunismo. Já em 1924, durante a campanha maliciosa contra Trotsky, Stálin deletara sua própria referência anterior à revolução internacional como um pré-requisito para o socialismo em Foundations of Leninism.

A repetida caracterização de Slezkine do bolchevismo como um “movimento de homens” é igualmente embaraçosa. Esta afirmação só pode ser feita se ignorarmos os 700.000 participantes do movimento de mulheres proletárias durante a NEP. A maioria das mulheres na fábrica Hammer and Sickle participava regularmente de reuniões que abordavam suas queixas sobre questões como assistência à infância, assédio gerencial e licença-maternidade. Slezkine também negligencia as opiniões de muitas mulheres bolcheviques, como Alexandra Kollontai, que contribuiu para amplas discussões sobre o código familiar de 1926, preferindo se concentrar em Yakov Brandenburgsky, a quem ele chama de “o principal especialista bolchevique no problema do casamento.

Slezkine apresenta um conhecimento supreendentemente desinformado a respeito das regras bolcheviques e sobre como foram mudando sob Stálin. Ele afirma que “era tradição do Partido ‘proibir a defesa de certas visões’; que a única maneira para um oposicionista permanecer no Partido seria ‘revendo as visões’ proibidas”. Na verdade, quando Zinoviev exigiu a retratação de Trotsky no 13º Congresso do Partido, em maio de 1924, essa foi a primeira vez que esse tipo de postura foi exigido e Krupskaya - que não apoiava a oposição - se opôs a essa “demanda psicologicamente impossível”.

Se, por um lado, Slezkine é capaz de identificar a profunda contradição entre os estilos de vida suntuosos, o poder e os privilégios dos residentes da Casa do Governo e a “construção do socialismo”, é uma pena que escolha enquadrar sua narrativa nos paradigmas antiquados e simplistas associados à equivalência entre stalinismo e socialismo.

Séquitos necessitam de líderes imbatíveis e “Lenin era tanto a criatura como a garantia da unidade dos que pensavam igual”. Durante a NEP, enquanto o “novo regime se conteve para esperar”, a sua mais importante tarefa era “disciplinar os fiéis”. E, como “Bukharin relembrou, o Partido em 1922, logo depois da introdução da NEP e do banimento das ‘facções’ internas, ‘unidade da vontade’ sempre foi a chave para o bolchevismo”. Já em 1924, “quando o partido adquiria força antes da batalha final, o desafio era primordial”.

A tentativa desajeitada de Slezkine de projetar o stalinismo como a continuação mais lógica de 1917 não é nova. Como Stephen Cohen (1985) argumentou, o bolchevismo era, na verdade, “um movimento político diferente – ideologicamente, programaticamente, em termos geracionais” e “muito mais amplo e diverso que Lenin era o próprio leninismo”. Apesar disso, o enquadramento da história soviética com “ausência de diferenças signi"cativas ou descontinuidades entre bolchevismo e stalinismo” tornou-se a missão acadêmica dominante, bem como o uso intercambiável entre esses dois termos e “leninismo” como se fossem “o mesmo, politicamente e ideologicamente”. A história bolchevique antes de 1929 é tratada como mera precursora ao inevitável, “antessala do stalinismo”. Os argumentos de Cohen contra a “tese da continuidade” da Guerra Fria são de 1984, mais de vinte anos antes de Slezkine começar a pesquisa do livro.

Em sua caricatura da história bolchevique, Slezkine falha em mencionar as diferenças por vezes profundas entre os bolcheviques em diversos assuntos importantes. Desconsiderar a análise das diferenças pode ajudar a evidenciar a uniformidade do partido, mas não deixa de ser uma operação descuidada e irresponsável. Os adversários bolcheviques de Lenin em abril de 1917 (e depois) são frequentemente omitidos, bem como suas posições. Os mencheviques estavam presentes na agressiva reunião de Krzesinska em 4 de abril. Três dias antes Stálin e Kamenev aceitaram a oferta de discussões unitárias feitas por Tsereteli com acordo a respeito do apoio ao Governo Provisório e a continuidade dos esforços de guerra. Três meses depois, Tsereteli assumiria pessoal a responsabilidade de solicitar o mandado de prisão contra Lenin. Em seu estudo seminal sobre o bolchevismo em 1917, Alexander Rabinowitch (1976) mostrou que “o caráter democrático, tolerante e descentralizado da estrutura partidária e do método de operação, bem como seu caráter aberto e massivo, em contraste com o modelo leninista tradicional”.

Há mais de um século, Roy Medvedev evidenciou que as facções bolcheviques, tais como os Comunistas de Esquerda, os Centralistas Democráticos e a Oposição dos Trabalhadores, elegeram delegados para os Congressos com plataformas programáticas próprias, que em 1921 o banimento das facções foi uma medida temporária durante a crise do início do ano. Apesar da falsificação dos resultados pelos representantes stalinistas, sabemos hoje que em 1923 a Oposição de Esquerda obteve a maioria entre os partidários de Moscou. Certamente Slezkine sabe de tudo isso, ou deveria.

Destruindo Marx e Trotsky

Slezkine evita enfrenta um problema muito mais amplo em sua tentativa simplista de conectar os pontos. Nada dos arquivos da antiga URSS revelados nas últimas décadas contribuiu para provar que Stálin dispusesse de um grande plano de coletivização e industrialização preparado para ser lançado quando “a espera” terminasse e o momento fosse favorável.

Stálin, na verdade, era um fervoroso defensor da NEP. Foi apenas durante a crise profunda da fase mais tardia da NEP, como mostra Michal Reiman, que o estrato dominante “segregou-se do povo e passou a atuar de maneira hostil a ele” com vistas a implementar “soluções extremistas”. Quando a ampla e violenta política de coletivização foi iniciada em 7 de novembro de 1929, Slezkine a"rma (sem comprovar) que estava já estava “prevista (contida) em Marx, Engels e Lenin”.

Aqui, contra Slezkine seria possível simplesmente retomar os elogios de Preobrazhensky para Stálin em 1934: “Você sabe que sequer Marx ou Engels, os quais escreveram muito sobre a questão do socialismo no campo, sabiam as especificidades que a transformação rural assumiria”.

Slezkine também recupera a análise de Trotsky a respeito do stalinismo, citando sua declaração de 1928 de que a ação de Stálin contra Bukharin era “indiscutivelmente, uma tentativa de alcançar nossa posição” e, em seguida, declara que Trotsky em seguida teria afirmado que o socialismo “finalmente está sendo construído”, mas “que não poderia juntar-se às suas "leiras”. Na verdade, a análise – problemática – de Trotsky era do stalinismo como “bonapartismo”, ou seja, oscilante desse entre os interesses da classe trabalhadora e aqueles da pequena burguesia, e seguiria sendo assim.

Por vezes os leitores podem começar a se perguntar se estão com o livro errado nas mãos. Nele, tanto bolcheviques como nazistas supostamente seguiram Marx, “mas Hitler não sabia (e os bolcheviques não sabiam de Hitler e não costumavam ler a Contribuição à crítica da Filosofia de Hegel ou a Questão Judaica de Marx.

Nascimento de uma classe dominante

Apesar destes problemas graves, como estudo prosopográfico da conversão de uma parte significativa do aparato do partido em uma nova classe dominante, The House of Government preenche um grande buraco na história do stalinismo, mesmo se seu autor não vê as coisas nestes termos. Infelizmente, o argumento elitista dos “bolcheviques como facção milenarista” obscurece ao invés de esclarecer esse processo. Ao longo dos anos 1920, uma seção significativa de seus membros assumiu a causa e condição da classe trabalhadora e camponesa de maneira séria e seus dirigentes expressaram isso e de muitas e amplas maneiras. Slezkine gostaria que pensássemos diferente a esse respeito.

Durante os anos 1920, residentes de muitos prédios das Casas do Sovietes assumiram estilos de vida privilegiados, mas também trabalhavam longas horas a ponto de exaustão. Em 1927, por volta de 65% os líderes soviéticos na Casa de Repouso Lenin reclamavam de algum tipo de complicação emocional. Quando eles começaram a se mudar para a Casa do Governo, em 1931, Slezkine leva em conta esse sentimento de dedicação e autoconsideração coletiva dos “chefes construtores do novo mundo”. O que é particularmente impressionante é o quão distantes esses novos governantes estavam de sua concepção anterior a respeito do papel emancipador da classe trabalhadora, substituído por sua própria atuação com força da mudança.

Ao celebrar a repressão nas regiões rurais no “Congresso dos Vencedores”, em 1934, Preobrazhensky reverenciou a “liderança do camarada Stálin” em alcançar “as maiores transformações da história do mundo”. Nos anos 1930, poucos residentes da Casa faziam referência à classe trabalhadora ou ao proletariado e, quando isso acontecia, era sempre de maneira retórica. Menos frequente ainda era a tentativa, mesmo privada, de compatibilizar o socialismo de caserna com o marxismo. Slezkine reconhece essa contradição, mas oferece agulhadas irônicas ao invés de se aprofundar na “industrialização que se apoiava no trabalho forçado tanto quanto em seus ‘genuínos entusiastas’”.

Esse é o aspecto analítico mais frustrante do estudo de Slezkine. É possível perceber em diversos momentos, de relance, o caráter dos residentes da Casa como governantes, bem como a mudança de sua concepção a respeito do marxismo. Uma concepção que evolui do socialismo emancipatório de 1917 para uma versão mais distorcida e paternalista nos anos 1920 depois dos bolcheviques substituírem o governo da classe trabalhadora pelo seu próprio.

Nos anos 1930, o stalinismo representou uma ruptura completa em relação ao marxismo quando a produtividade se tornou um mantra onipresente, combinado com o silêncio e complacência de trabalhadores e camponeses. Ao invés de analisar essa mudança, Slezkine se sente compelido a afirmar a continuidade – mesmo sabendo que a história soviética, desde o início, é repleta de descontinuidades, em particular quando se trata da substituição promovida pelos “chefes construtores” ao assumir o lugar de “agência transformadora” da classe trabalhadora.

Mesmo que existam dúvidas, ambivalências e visões divergentes a respeito do que pensavam estes "chefes construtores", é inegável que o ethos produtivista do stalinismo atravessava sua visão de mundo. A maioria dos bolcheviques, “ortodoxos e não ortodoxos, acreditava que o socialismo estava sendo construído e que o final estava próximo”. Slezkine é convincente ao dar suporte a essa perspectiva de consenso entre os residentes da Casa ao descrever suas ações e comentários, ainda que ele não realize o mesmo quando se trata da classe trabalhadora nas fábricas. Por vezes, Slezkine parece esquecer o objeto do seu estudo - de fato, os historiadores revisionistas nunca conseguiram encontrar as abelhas operárias felizes stalinistas que supunham encontrar.

O compromisso dos residentes da Casa do Governo com o projeto stalinista e com sua própria função social foi decisivo no processo. Como o crítico literário Aleksandr Voronsky afirmou, “a determinação do que era bom para a construção do socialismo era tarefa da liderança do partido”. A industrialização acelerada foi determinada como boa e ninguém poderia se opor. O crucial, a"rmado por Stálin aos administradores industriais em 1931 e citado de maneira textual muitas vezes, era diminuir cinquenta ou mesmo cem anos de atraso econômico em relação aos países avançados em uma década, “ou seremos destruídos”.

O custo dessa industrialização frenética foi o “tributo” dos camponeses no interior, apontado por Slezkine, mas também dos trabalhadores das cidades, o que não é mencionado. A implementação dessas políticas exigiu uma ampla máquina estatal coercitiva e "el, comprometida com o processo draconiano de acumulação primitiva. “Classes são grupos”, argumentou Lenin, “os quais podem se apropriar do trabalho alheio devido à diferença de sua posição em um sistema econômico dado”. Sob esta perspectiva, A Casa do Governo é um estudo fascinante dos governantes stalinistas e de seu projeto.

Uma obra-prima falha

O livro é o mais contraditório estudo sobre a Revolução Russa já publicado. Brilhante, cativante, de dar aperto no coração. Sob muitos aspectos é história social da melhor qualidade. Muitos dos críticos acadêmicos de Slezkine autores de trabalhos empoeirados devem ser lembrados de que não existe nada comparável publicado nos últimos 50 anos e provavelmente não será superado tão cedo. Yuri Slezkine deve ser elogiado por ter dedicado tantos anos de sua vida para produção deste livro incontornável para todos os estudiosos sérios da Revolução Russa.

Isso não nos impede de sermos rigorosos com suas falhas. Conceitualmente, A Casa do Governo é uma completa confusão que torna esta grande obra épica uma história previsível, contada tantas vezes antes e que projeta um argumento de continuidade repleto de erros factuais e omissões. Leitores atentos, capazes de perceber as análises exasperantes e tratar o ruído indesejado de fundo, vão gostar da viagem.

Colaborador

Kevin Murphy teaches Russian history at the University of Massachusetts Boston. His Revolution and Counterrevolution: Class Struggle in a Moscow Metal Factory won the 2005 Deutscher Memorial Prize.

7 de novembro de 2017

Do compromisso ao poder

Ao longo de 1917, o Soviete de Petrogrado transformou-se de um corpo disposto a negociar com o capital para um pronto para a revolução.

Kevin Murphy

Reunião do Congresso dos Sovietes de Petrogrado em 1917. Wikimedia

Tradução / Em apenas alguns poucos dias, a Revolução de Fevereiro varreu o czarismo russo. Depois da revolta, o eleito Soviete dos Delegados Operários e Soldados de Petrogrado ficou lado a lado com o não-eleito Governo Provisório. Seu papel ao longo de 1917 não podia ser mais central.

Os militantes operários tinham dado início ao primeiro soviete durante a greve geral de massas de 1905. A ideia se tornou tão arraigada no movimento revolucionário que, no segundo dia do levante de 1917, algumas fábricas começaram a eleger seus representantes, antecipando a própria criação do novo Soviete.

Mas quando os Mencheviques convocaram esses operários, no dia 27 de fevereiro, o socialista moderado Alexander Kerensky prometeu que ele trabalharia para “manter a ordem”. Diferente do que ocorrera em 1905 – quando os sovietes eram órgãos de luta – o Soviete de Petrogrado acabou por eleger, quase que exclusivamente, intelectuais que não tinham participado ativamente da revolução para o seu Comitê Executivo.

No final de março, 2.000 delegados super-representavam as 150.000 tropas em Petrogrado, enquanto apenas 800 delegados representavam os cerca de 400.000 trabalhadores industriais da cidade. Apesar do papel central das operárias têxteis no levante de Fevereiro, a composição do Soviete era dominantemente masculina, com apenas alguma dúzia de delegadas mulheres. As desorganizadas e tumultuadas assembleias gerais indicavam que era o Comitê Executivo que conduzia a maioria dos assuntos importantes.

Esse comitê tinha objetivos muito menos ambiciosas que aquelas dos operários e soldados. Ao invés de tomar o poder, ele imediatamente pressionou seus relutantes aliados liberais a formarem um governo. Os Mencheviques acreditavam que “o governo que substituiria o czarismo deveria ser exclusivamente burguês”, como escrevera Nikolai Sukhanov.

Após o Soviete ter entregue o poder ao Governo Provisório, no dia 2 de março, o jornal oficial do órgão, Izvestiia, explicava que o conselho pressionaria o novo governo para atender os interesses em prol “da democracia”, mas sem forçar demais e gerar, com isso, uma contrarrevolução.

Contudo, o Comitê Executivo não conseguiu sequer atingir seu objetivo mais modesto. Para acalmar o Governo Provisório, os líderes do Soviete recuaram em praticamente todos os grandes temas. Eles postergaram a questão agrária até que fosse eleita uma Assembleia Constituinte, um evento que ele mesmo foi adiado repetidamente. Incrivelmente, eles chegaram até mesmo a concordar com um retorno à monarquia – apesar dessa decisão ter vindo por meio do irmão de Nicolau II, Miguel.

Sobre o tenso debate acerca da guerra, o Soviete lançou um manifesto pacifista no dia 14 de maio, o qual o jornal dos Bolcheviques, o Pravda, descreveu como “um compromisso consciente entre diferentes tendências representadas no Soviete”. O consenso resultante foi tão vago que até mesmo o belicista ministro do exterior, Pavel Milyukov, o assinou, bem como Josef Stalin e Lev Kamenev em nome dos Bolcheviques.

De fato, é difícil distinguir os registros dos Bolcheviques, nesses primeiros dias, em relação àqueles dos Mencheviques e dos Socialistas-Revolucionários (SRs). Os registros do Comitê Executivo revelam que os líderes das facções permaneceram em silêncio na maioria das questões de princípio, o que confirmava a posição de Trotsky na época:

“Ainda está para encontrar nos registros e na imprensa pelo menos uma proposta, anúncio ou protesto no qual Stalin tenha expressado o ponto de vista dos Bolcheviques em oposição à sabujice dos Mencheviques e SRs”.

Tal registro dos Bolcheviques, durante o domínio de Stalin e Kamenev, era tão macabro que, anos depois, eles iriam pressionar Alexander Shliapnikov a revisar suas memórias.

Nessas primeiras semanas, o único ato realmente significante do Soviete foi a Ordem Número 1, que só foi aprovada por conta da pressão de soldados radicais sobre os seus líderes. Esse famoso decreto empoderou os homens alistados no Exército, permitindo que eles elegessem seus próprios comitês e rejeitassem ordens que contrariassem os Sovietes. A Ordem Número 1 se tornou um enorme obstáculo para os objetivos militaristas do Governo Provisório.

Lenin rapidamente reconheceu a instabilidade do sistema dual de poder. O Governo Provisório e o Soviete tinham interesses de classe opostos e que nem a diplomacia e nem a conciliação poderiam unificar. Ao se aproximar de Trotsky e dos grupos extremistas dos Bolcheviques de Vyborg, as Teses de Abril de Lenin argumentavam em favor de sabotar o esforço de guerra a partir da política de confraternização no front, de transferir o poder do Estado aos sovietes e deixar os conselhos operários em controle de toda “produção social e da distribuição de produtos”.

Nas vinte quatro horas seguintes após o seu retorno, no dia 3 de abril, Lenin falou em inúmeros comícios, partilhando sua nova perspectiva radical para milhares de militantes Bolcheviques. Ele agitou contra “a guerra dos piratas capitalistas”, implodiu as negociações de unidade com os Mencheviques que Stalin e Kamenev estavam tocando e invocou a fúria de vários oponentes ao longo do espectro político.

O jornal dos Mencheviques vociferava que o novo programa de Lenin representava um “indubitável perigo” à revolução, enquanto a imprensa amarela, mais histérica, comparava ele à “lenda do Anticristo”. O primeiro ministro Lvov em breve reclamara que, ao invés de receber o “incondicional apoio” que o Soviete prometera, ele teria se tornado “suspeito”. Enquanto isso, na Avenida Nevsky, trabalhadores e soldados carregando faixas com as inscrições “Abaixo os ministros capitalistas!” enfrentavam-se contra liberais que carregavam faixas dizendo “abaixo Lenin!”.

A guerra e a crise de abril

O papel da Rússia na Primeira Guerra Mundial iria levar essas tensões a um ponto de efervescência rapidamente. Pressionado pelo Menchevique Irakli Tsereteli, o Governo Provisório anunciou, no dia 27 de março, que ele tinha apenas objetivos defensivos para com a guerra. Contudo, menos de um mês depois, Milyukov, um membro do liberal Partido Constitucional Democrata (os Kadetes) expediu um bilhete aos Aliados que essencialmente descartava a declaração anterior do Governo.

Milyukov argumentava que a Rússia poderia “levar a guerra mundial a uma vitória decisiva”, tomando controle de Constantinopla e dos Dardanelos. Ao invés de ter enfraquecido os objetivos militaristas do Império, ele acreditava que a revolução havia fortalecido “o desejo universal de levar a guerra mundial a uma vitória decisiva” e que as “garantias e sanções” – o que significava anexações e indenizações – iriam prevenir conflitos futuros.

A sincera explanação de Milyukov sobre os objetivos predatórios do imperialismo russo e dos Aliados despedaçaram a frágil paz que existia entre o Soviete e o Governo Provisório. O Comitê Executivo reuniu-se até tarde da noite naquele dia, mas não conseguiu chegar a nenhum acordo.

Quando o bilhete de Milyukov apareceu nos jornais matutinos de 20 de abril, um sargento do Regimento Finlandês conclamou uma manifestação anti-guerra. Muitos outros regimentos e os marinheiros do Báltico logo juntaram-se ao protesto, até que 25 mil soldados armados foram em direção ao Palácio Mariinsky com placas que diziam “Abaixo Milyukov!”.

No dia seguinte, uma grande manifestação chamada pelos Bolcheviques tomou forma enquanto os Mencheviques e os SRs imploravam aos trabalhadores e soldados que não participassem. Ao longo da imensa faixada do Palácio Mariinsky, os Bolcheviques esticaram um longo estandarte vermelho com as palavras: “Vida longa à Terceira Internacional!”. Os Kadetes convocaram sua própria contra-manifestação, em apoio ao governo e, pela primeira vez desde fevereiro, lutas campais irromperam ao longo da Avenida Nevsky.

Alguns Bolcheviques levaram o apelo “Abaixo o Governo Provisório” de forma bastante literal, tentando atacar o palácio e prender os ministros. O general Lavr Kornilov sugeriu bombardear os manifestantes com sua artilharia. Quando as notícias chegaram aos líderes do Soviete, eles ordenaram que as tropas permanecessem nos quartéis.

O Izvestiia reclamara que a liderança estava tentando resolver o conflito, mas que “muitos apoiadores estavam se manifestando sob bandeiras cujos slogans não correspondiam aos objetivos do Soviete”, tais como “exigir a derrubada do Governo e a transferência de poder ao Soviete”. Naquela noite, o Governo Provisório mandou uma nota reformulada ao Soviete, a respeito da guerra, a qual o Comitê Executivo aprovou numa votação apertada por 34 a 19. Esses líderes consideraram a crise encerrada e expediram um mandato contra futuras manifestações.

Lenin ridicularizou a resolução, dizendo que “os capitalistas são a favor de continuar a guerra” e, depois “da primeira crise, outras virão”. Ele rejeitou as “tentativas blanquistas de tomada de poder” e advogou em prol de uma estratégia de longa duração para persuadir a favor “do método proletário para acabar com a guerra” e para “eleger membros dentro do Soviete”.

O recall ultra-democrático dos delegados dos Sovietes iria atuar em prol dos Bolcheviques. No final de abril, o partido de Lenin tinha conseguido aproximadamente 1/4 dos delegados do Soviete de Petrogrado e um número ainda maior nos conselhos dos distritos. No front, os agitadores chamavam pela política de confraternização para com os soldados alemães, o que angariou apelo perante as já exaustas tropas.

No dia 6 de maio, o Izvestiia fustigava o Pravda e sua tentativa de “sabotar a confiança da soldadela perante os apelos do Soviete [...] Se você acredita no seu Soviete, então aceite o seu apelo para pararem com as ‘confraternizações’!”.

A ofensiva militar de Kerensky

A previsão de Lenin de que o bilhete de Milyukov era apenas a primeira de muitas crises que viriam em seguida mostrou-se verdadeira. Em junho, Kerensky propôs uma ofensiva militar que dividiu ainda mais o Governo Provisório, os Sovietes e o povo que eles supostamente representavam.

Quando o Primeiro Congresso dos Sovietes se reuniu, no dia 3 de junho, em Petrogrado, os socialistas moderados gozavam de um enorme apoio e podiam afirmar que falavam em nome de vinte milhões de operários e soldados. Esse grupo endossava o avanço de Kerensky, mas no clima politicamente carregado da capital, a radicalização desses operários e soldados já superava em muito a do resto do país.

Em preparação para o renovado esforço de guerra, Keresnky tentou reinstituir a disciplina militar, mas enfrentou a reação dos soldados radicais. Uma reunião da Organização Militar dos Bolcheviques de Petrogrado, no dia 23 de maio, anunciava que eles “estavam prontos para agir por conta própria se uma decisão positiva não fosse adotada pelas lideranças”.

No dia 8 de junho, os líderes Bolcheviques, incluindo a Organização Militar, votaram esmagadoramente a favor para fazerem uma manifestação em protesto contra os planos de Kerensky. O jornal Bolchevique, Soldatskaia Pravda, zombava do chamado do Governo Provisório para uma “guerra até sua conclusão vitoriosa”, criando um novo slogan: “guerra até sua conclusão vitoriosa contra os capitalistas”.

Apesar do apoio disseminado na base, o apelo dos Bolcheviques desafiou tanto o Congresso dos Sovietes como o Soviete de Petrogrado. Na manhã do dia 10 de junho, um recuado Comitê Central Bolchevique cancelou a manifestação numa peculiar votação em três a zero, com Yakov Sverdlov e Lenin se abstendo perante a maioria.

A decisão ultrajou os militantes do partido e alguns dos membros em Vyborg rasgaram seus cartões de membros do partido. No comitê de São Petersburgo, orador atrás de orador criticavam o Comitê Central. Receoso de repetir os erros da isolada Comuna de Paris, Lenin apelava aos seus camaradas para que tivessem “a máxima calma, cautela, paciência e organização”.

Numa sessão conjunta do Soviete de Petrogrado e da Presidência do Congresso dos Sovietes, no dia 11 de junho, um histérico Tsereteli acusava os Bolcheviques de tramarem contra a revolução e exigia medidas repressivas.

Kamenev falou em nome dos Bolcheviques. Ele argumentou que nenhum slogan deles falava sobre “tomada de poder”, apenas falavam em “todo poder aos Sovietes!”. “Prendam-me e nós veremos quem, afinal, está tramando contra a revolução”, ele desafiou, enquanto retirava-se junto com os Bolcheviques em protesto perante as acusações.

No dia seguinte, o Congresso endossou a ofensiva planejada por Kerensky e convocou para o dia 18 de junho uma marcha unificada para coincidir com o avanço militar. Porém, os líderes do Soviete de Petrogrado, temendo que os Bolcheviques sequestrassem a manifestação, sugeriram que apenas slogans aprovados pelo Soviete fossem utilizados.

Essa nítida ruptura com as normas revolucionárias – que, de qualquer forma, teria sido impossível de controlar – acabou fazendo com que muitos trabalhadores e soldados se voltassem contra suas lideranças conservadoras. As fábricas e os regimentos que antes eram dominados pelos SRs e pelos Mencheviques resolveram apoiar os slogans dos Bolcheviques.

O Izvestiia reclamava que “os segmentos mais baixos e ignorantes da população” estavam tomados por uma “propaganda anarquista-Bolchevique”. Na véspera da manifestação, Tsereteli disse aos representantes Bolcheviques: “nós vamos ver quem a maioria vai seguir, se são vocês ou se somos nós”.

A manifestação de mais de 400 mil pessoas foi, nas palavras de Maxim Gorky em seu Novaya zhizn, “um completo triunfo do bolchevismo perante o proletariado de São Petersburgo”. As bandeiras e palavras de ordem dos Bolcheviques dominavam. Apenas uma pequena minoria de slogans oficiais dos Soviete, Mencheviques e SRs apareciam no mar de cartazes que exigia “Todo poder aos Sovietes!” e “Abaixo os dez ministros capitalistas!”.

A demonstração coincidiu com o início da terrível ofensiva de Kerensky, que mataria cerca de 40 mil soldados. O Izvestiia reportava que uma delegação do Comitê do Front do Décimo Exército estava sendo chamada para “explicar a essas pessoas o ponto de vista da democracia russa”. Em muitos regimentos, o

“Comitê ouviu que os soldados não reconheciam a sua autoridade, o Soviete de Petrogrado, ou mesmo o Ministro da Guerra e não iriam participar da ofensiva. Eles não pretendiam morrer agora que havia liberdade na Rússia e a chance de finalmente ter uma terra”.

No regimento 703, os soldados ridicularizavam a delegação por “exigir que nós obedeçamos a ordem de Kerensky” e os espancaram, ameaçaram matar e por fim prenderam a delegação do Soviete de Petrogrado.

A tão esperada ofensiva de Kerensky mostrou-se catastrófica. Enquanto publicamente ele afirmava seu sucesso, ele afirmou, em um telegrama codificado no dia 24 de junho que “após os primeiros dias, às vezes após as primeiras horas da batalha”, “os espíritos se arrefeceram” e as unidades “começaram a criar resoluções com exigências em prol de debandarem imediatamente para a retaguarda”.

A semi-insurreição de julho

As Jornadas de Julho intensificaram esses conflitos. Os rebeldes imploraram para que o Soviete de Petrogrado tomasse o poder enquanto os seus líderes, paradoxalmente, imploravam às tropas para que os defendessem desses manifestantes. Um trabalhador mais corpulento expressou, de forma célebre, essa contradição, quando confrontara o líder dos SRs, Viktor Chernov no lado de fora do Palácio Tauride, gritando: “Tome o poder, seu filho da puta, quando ele é dado a você!”.

Em fevereiro, milhares de manifestantes do Primeiro Corpo de Metralhadoras tinham marchado de Orenburg até Petrogrado para defender a revolução. Esses soldados iniciaram uma revolta tão logo dois-terços deles tinham sido mandados de volta ao front, o que eles consideravam ser praticamente uma sentença de morte. No dia 1º de julho, o Soviete exigiu que esses atiradores voltassem aos quartéis, mas eles continuaram com seus planos de fazer uma manifestação armada.

Os delegados da conferência da Organização Militar Bolchevique de Todas as Rússia chegaram com rifles em suas costas, prontos para a luta. Organizações provinciais registravam uma raiva disseminada contra Kerensky e os seus planos. Os soldados exigiam preparações imediatas para um levante armado, o que repetidamente interrompia a conferência. O discurso de Lenin foi uma ducha de água fria, alertando para o risco de estarem fazendo justamente o que queria o Governo Provisório, ao darem início a um levante prematuro e desorganizado.

Em julho, alguns Bolcheviques extremistas mais pareciam anarquistas. No dia 2 daquele mês, uma reunião de anarquistas exigia uma revolta armada e, de fato, esse grupo desempenharia “um papel significativo no levante”, como argumentara Alexander Rabinowich.

O anarquista Bleichman instava aos metralhadores para que derrubassem o governo, mas sua crença de que “a rua irá nos organizar” levou apenas ao caos. Quando dez mil marinheiros armados chegaram de Kronstadt, os líderes do Soviete imploraram para que eles voltassem para casa, mas eles tinham mais simpatias a Bleichman, que novamente instava por uma insurreição.

O Izvestiia imprimia as exigências que aquela massiva manifestação tinha submetido ao Comitê Executivo do Soviete de Todas as Rússias:

“A remoção dos dez ministros burgueses, todo o poder aos sovietes, fim da ofensiva, confisco da imprensa burguesa, transformar a terra em propriedade do Estado e o controle estatal da produção”.

Naquela mesma noite, Kamenev e Zinoviev convenceram os líderes bolcheviques a cancelarem a manifestação do dia seguinte, com medo de que ela saísse completamente fora de controle. Quando ficou claro que a manifestação iria acontecer de qualquer forma e que a estratégia da direita Bolchevique seria entendida como uma traição, o Pravda de 4 de julho foi publicado com um espaço vazio, onde originalmente estaria ali o apelo para o cancelamento.

Meio milhão de pessoas marcharam naquele dia e o governo reagiu violentamente. O Izvestiia descreveu aquele ato como uma bem orquestrada tramoia:

“Conforme eles [os manifestantes] estavam passando por uma Igreja, um sino tocou no campanário e, como se fosse um sinal, os rifles e metralhadoras dispararam nos pontos mais altos das casas”.

Quando eles corriam para o outro lado, “os tiros passaram a vir das casas do lado oposto”. O jornal Menchevique também noticiou que os canhões dos cossacos tinham sido disparados contra os manifestantes.

As Jornadas de Julho mostraram que havia acabado a frágil unidade nacional que se seguiu após a abdicação do czar. “Sob a bandeira vermelha, marcharam apenas os trabalhadores e os soldados”, escrevera um participante:

“Os brasões dos oficiais, os brilhantes botões dos estudantes, os chapéus das “damas simpatizantes”, não eram mais vistos... Os escravos ordinários do capitalismo estavam marchando”.

O célebre membro dos Kadetes, Vladmir Nabokov, escreveu que os manifestantes tinham “as mesmas faces insanas, estúpidas e bestializadas que o lembravam dos dias de fevereiro”. O ódio de classe era agora mútuo. Os trabalhadores carregavam cartazes que diziam “Lembrem-se, capitalistas, que aço e metralhadoras irão esmagá-los!”.

Ao ouvirem que Kerensky estava indo para o front de trem, alguns dos metralhadores fizeram uma caçada em busca dele na Estação do Báltico. Outros se apropriaram dos automóveis dos ricos residentes e dirigiram até Avenida Nevsky, bradando suas armas.

No lado de fora do Palácio Tauride, Chernov pedia calma, até que os marinheiros de Kronstadt o prenderam. Trostky finalmente interviu e assegurou a soltura do líder dos SRs.

Operários armados fizeram uma busca no palácio atrás de Tsereteli e invadiram uma sessão do Soviete onde, de acordo com Sukhanov, alguns dos delegados “falharam na tentativa de mostrar coragem e um adequado auto-controle”. Um dos trabalhadores saltou em direção ao púlpito do orador e, balançando seu rifle, declarou:

“Camaradas! Até quando nós trabalhadores vamos aguentar essa traição? Vocês estão aqui debatendo e fazendo acordos com os latifundiários... Vocês estão ocupados traindo a classe trabalhadora. Bem, então entendam uma coisa: a classe trabalhadora não vai mais tolerar isso! Há 30.000 de nós na fábrica Putilov. E nós vamos fazer as coisas do nosso jeito. Todo poder aos sovietes! Não vamos largar nossos rifles! Seus Kerenskys e seus Tseritelis não vão nos enganar!”

A balança de poder havia virado contra a liderança do Soviete. Designado para encontrar tropas leais, o Menchevique Wladimir Woytinsky descreveu seus “esforços infrutíferos para alistar soldados para defender o Palácio Tauride”. Ironicamente, as primeiras tropas que chegaram eram leais à organização interdistrital de Trotsky. A apavorada liderança do Soviete os recebeu com exclamações de alegria.

Naquela noite, os Bolcheviques clamaram pelo fim das manifestações e, na manhã seguinte, o Governo Provisório lançou uma campanha contra Lenin e seus camaradas afirmando que eles eram agentes alemães.

No final das Jornadas de Julho, os não-socialistas que estavam no governo decidiram esmagar a revolução, restaurar a disciplina no Exército e aniquilar os sovietes. Essa solução de massacrar o levante, contudo, iria fortalecer o próprio alvo que eles esperavam destruir. Os sovietes finalmente se levantariam para proteger a revolução.

O Soviete se radicaliza

Lenin fugiu para a Finlândia, enquanto centenas de Bolcheviques estavam sendo presos por conta de acusações espúrias. Um exemplo delas é que o Governo Provisório afirmava que Trotsky havia viajado no “trem blindado” que os alemães teriam fornecido a Lenin – o que seria prova suficiente de que ambos revolucionários atuaram em prol do inimigo russo; o problema é que naquela época, Trotsky estava preso num campo de concentração em Nova Escócia, no Canadá.

Tsereteli assinou o pedido de prisão para Lenin e momentaneamente pareceu que os Mencheviques haviam se juntado à contrarrevolução. Mas os ataques aos sindicatos dos metalúrgicos, sedes Mencheviques e a prisão de alguns delegados dos sovietes deixaram claro que mesmo os mais conservadores dentre os socialistas não estavam à salvo diante da grande rede repressiva que o Governo Provisório havia lançado.

A conferência do Partido dos Kadetes abandonou suas premissas democráticas e clamou em favor de um ditador forte. Os oradores nesse encontro culparam Kerensky e o Soviete pela Ordem Número 1 e pela “presente e terrível situação na Rússia”.

Os magnatas dos grandes negócios, no Congresso do Comércio e da Indústria daquele ano, pediram por “uma ruptura radical… para com a ditadura dos sovietes” que havia levado a Rússia “à beira da destruição”. Vladmir Purishkevich, pogromista e fundador da União dos Povos Russos, juntou-se ao coro e exigiu a imediata dissolução do Soviete dos Delegados Operários e Soldados.

Os contrarrevolucionários encontraram seu homem forte no general Lavr Kornilov, o mais novo comandante do Exército Russo. Na noite antes de sua tentativa de golpe, Kornilov anunciara que “era hora de enforcar os agentes alemães e espiões, Lenin antes dos demais, e com isso dispersar os sovietes”. Ele prosseguiu, então, prometendo “enforcar todos os membros do Soviete dos Delegados Operários e Soldados” se assim fosse necessário.

De certa forma, isso era um tema comum para o general. Antes mesmo da revolução, Kornilov falava abertamente em enforcer “todos esses Guchkovs e Milyukovs”, mas agora ele estava do lado dos liberais, já que ambos queriam aniquilar a revolução.

Kerensky e Kornilov negociaram os detalhes da restauração da ordem. Eles concordaram em reinstaurar a pena de morte na retaguarda, em dissolver os comitês dos soldados e em instituir lei marcial em Petrogrado.

As tropas começaram a se mover em direção à capital revolucionária no dia 25 de agosto e, dois dias depois, Kornilov reportou que o Terceiro Regimento chegaria nos arredores da cidade naquela noite. Ele então pediu a Kerensky que declarasse lei marcial.

Naquele mesmo dia, os Mencheviques propuseram um Comitê de Defesa contra a contrarrevolução. Se “o comitê quiser agir com seriedade”, comentou Sukhanov, deveria se reconhecer que “apenas os Bolcheviques tinham recursos para tal”.

Cerca de 40 mil pessoas se voluntariaram para as Guardas Vermelhas e outros milhares vieram em apoio. Metalúrgicos militantes produziram centenas de canhões em questões de dias, trabalhando em turnos de 16 horas. A Rússia Revolucionária parecia estar à beira de uma guerra civil aberta.

Contudo, o confronto militar nunca se materializou. Kornilov permaneceu nos quartéis de Mogilev, deixando o general Alesandr Krymov liderar os cossacos e a Divisão de Cavalaria Nativa Caucasiana, melhor conhecida como a Divisão Selvagem. Enquanto isso, o Soviete tinha conseguido chegar até os ferroviários revolucionários, que por sua vez sabotaram os trilhos e isolaram as tropas de Krymov, fragmentando-os em oito diferentes linhas. Os agitadores do Soviete enfrentaram a Divisão Selvagem e os soldados que tinham sido chamados para suprimir a revolução acabaram levantando uma bandeira vermelha por “Terra e Liberdade”.

Em Petrogrado, 2 mil tropas leais estavam sendo esperadas para responder ao fictício levante dos Bolcheviques. O líder cossaco, Alexander Dutov, reclamara: “eu chamei as pessoas para virem às ruas, mas ninguém me seguiu”.

O general Khrystofor Baranovsky, em Petrogrado, apelara ao general Mikhail Alexiev, no quartel-general de Mogilev, afirmando “que os sovietes estavam furiosos e que essa atmosfera só poderá ser dissipada por uma demonstração de poder, com a prisão de Kornilov”. Alexiev respondeu: “nós caímos ferrenhamente nas garras dos sovietes”.

O centro entra em colapso

No dia 30 de agosto, o golpe planejado havia obviamente colapsado, levando junto com ele o Partido dos Kadetes. O seu jornal anunciava que “os objetivos de Kornilov são os mesmos que nós cremos serem necessários para a salvação do país. [...] Nós advogamos eles antes mesmo de Kornilov”.

No dia 1º de setembro, Tsereteli tentou defender seus antigos aliados. Ignorando a proposta de Milyukov para tornar o general Alexiev o novo ditador, esperando com isso apaziguar tanto Kerensky quanto Kornilov, Tsereteli afirmou que “pelo menos as figuras proeminentes dele [o partido Kadete] mantiveram a revolução”.

Tanto os Mencheviques quanto os SRs romperam com seus aliados liberais apenas para voltarem atrás nas semanas seguintes. Enquanto isso, o Soviete e o público aprenderam que Kerensky tinha trabalhado junto com Kornilov para suprimir o conselho popular. O jornal da esquerda dos SRs, o Znamya truda, enfaticamente trouxe isso à tona:

“O golpe de Kornilov não foi uma conspiração contra o Governo Provisório, mas sim um acordo com ele e contra as organizações democráticas”.

Os Mencheviques e a direita dos SRs desesperadamente se agarraram ao agora totalmente desacreditado regime de Kerensky e eles, por fim, pagaram o preço por essa estratégia. No início de setembro, a esquerda dos SRs dominara a conferência do Partido na conferência de Petrogrado. O distrito Menchevique de Vasilevsky, em sua totalidade, juntara-se aos Bolcheviques. Os antigos bastiões Mencheviques nas fábricas agora faziam recall de seus delegados nos sovietes, favorecendo os Bolcheviques. Em outras fábricas, os antigos delegados imploravam por perdão e até mesmo rasgavam e jogavam fora os retratos de Kerensky.

O confronto decisivo pelo controle do Soviete de Petrogrado aconteceu durante a eleição da mesa presidencial no dia 9 de setembro. Trotsky, falando pela primeira vez desde que tinha sido solto da prisão alguns dias atrás, lembrou os seus ouvintes de que “quando eles propuserem a vocês para sancionar a linha política da mesa presidencial, não esqueçam que vocês estarão sancionando as políticas de Kerensky”.

“Todos entenderam que nós estávamos decidindo a questão do poder – da guerra – do destino da revolução”, Trotsky escrevera mais tarde. Ao invés de ser uma típica votação nominal, a assembleia reunida simplesmente decidiu que aqueles que estavam na liderança se resignassem e abandonassem o salão.

Trabalhadores e soldados se dirigiram em direção a porta, em meio a trocas de gritos e acusações de “Kornilovistas!” e “heróis de julho!”. A conta final indicava que 414 tinham votado a favor da mesa Menchevique-SR e do governo de coalizão; 519 votaram contra; e 67 se abstiveram.

Tsereteli congratulou a si mesmo e aos outros antigos líderes, falando que eles eram “a consciência que, por meio ano [...] manteve valorosamente a bandeira da revolução no topo”. Trotsky, por sua vez, lembrou os líderes removidos que “as acusações contra os Bolcheviques [...] de estarem a serviço do Estado-maior alemão, não havia sido retirada”. O Soviete então decidiu “dar todo o seu desprezo aos autores, distribuidores e propagadores da calúnia”.

Com ambos os Kadetes e o próprio Kerensky sendo renegados, Lenin brevemente defendeu uma saída de compromisso com a liderança do Soviete: eles tomariam o poder e os Bolcheviques seriam sua leal oposição. Porém, depois dessa saída, os socialistas persistiram apoiando a coalizão de Kerensky – que ainda incluía os Kadetes – e após os Bolcheviques terem obtido a maioria em Petrogrado, Moscou e nos sovietes de outras cidades, Lenin então voltara-se a estratégia de “Todo poder aos sovietes”. Nas seis semanas seguintes, ele incessantemente barrou todas as exigências do Comitê Central em prol de uma insurreição imediata.

Todo poder aos sovietes

Mesmo depois da famosa resolução do dia 10 de outubro em prol de uma “insurreição armada”, os líderes Bolcheviques titubearam. Alguns deles até mesmo debilitaram as ações revolucionárias.

Quando Kamenev e Grigory Zinoviev publicaram seus argumentos contrários à insurreição no Novaia zhizn, em 18 de outubro, Lenin tinha chegado ao seu limite, defendendo que os “fura-greves fossem expulsos” do partido.

Para aumentar o seu apoio popular, os líderes decidiram que seria a instituição do Soviete de Petrogrado – ao invés de ser o partido Bolchevique – que iria organizar o levante. No dia 16 de outubro, o Comitê Executivo que agora estava à esquerda, anunciara a formação de um Comitê Militar Revolucionário para “a defesa da capital”.

Na batalha por autoridade perante as tropas, o comitê mandou uma delegação ao quartel-general de Petrogrado e informou a eles que “a partir daquele momento, qualquer ordem que não fosse assinada por eles, seria inválida”. Os generais se recusaram a reconhece-los e, no dia seguinte, o comitê declarou que ao romper com o Soviete, o quartel-general havia se tornado uma “arma direta das forças contrarrevolucionárias”.

No meio das frenéticas assembleias do Soviete de Petrogrado nos dias que antecederam o Segundo Congresso, muitos soldados chegavam e exigiam que o Soviete tomasse o poder. Os Mencheviques repetidamente advertiam contra “os rios de sangue” que correriam a partir da insurreição.

Quando Eva Broida perguntou se o Comitê Militar Revolucionário iria organizar uma insurreição, Trotsky lhe perguntou: “em nome de quem, Broido está perguntando, é em seu nome, no nome de Kerensky, do serviço de inteligência, da polícia secreta ou de alguma outra instituição?”

De fato, os Mencheviques não anunciaram suas ações militares com antecedência. Durante a assembleia do dia 23 de outubro, um dos líderes do Soviete de Moscou, Lomov, reportou que os cossacos haviam atacado o Soviete de Kaluga. Os Mencheviques e os SRs da duma da cidade tinham pedido tropas que acabaram por “infringir ultrajante violência” contra os líderes do Soviete.

Naquela mesma noite, Trotsky declarou que a criação de um Exército Revolucionário era um passo político em direção à tomada de poder e transferí-lo para os sovietes”, mas no dia seguinte, 24 de outubro, ele negou que estivesse planejando tal ação.

Na Assembleia Geral, no dia seguinte, Trotsky declarou a uma extasiada plateia que “o Governo Provisório não mais existe. [...] Na história do movimento revolucionário, eu não conheço nenhum outro exemplo em que tivesse tanta participação das massas e que tenha se desenrolado de forma tão pacífica”. Enquanto os oponentes de Lenin, incluindo alguns dentro de seu próprio partido, acreditaram que o novo regime dos sovietes duraria apenas algumas semanas, Lenin manteve-se imperturbavelmente otimista de que a terceira Revolução Russa “iria levar à vitória do socialismo”. Ele estava confiante de que “nós seremos ajudados pelo movimento da classe trabalhadora no mundo todo, algo que está começando a acontecer na Itália, na Inglaterra e na Alemanha”.

A estratégica dos Mencheviques e da direita dos SRs, de comprometer-se com o capitalismo, tinha se mostrado um fracasso. Num momento crucial na história da classe trabalhadora, muitos desses Mencheviques e SRs tinham saído do Congresso dos Sovietes para juntarem forças com o progromista Purishkevich e com outros antissocialistas.

Conforme nos aproximamos do aniversário da Revolução de Outubro, os anticomunistas novamente irão tentar marcar a vitória dos Bolcheviques como um golpe de Estado promovido por uma minoria. Essa fabricação grosseira ignora o mandato democrático que os Bolcheviques buscavam e conquistaram ao longo dos meses de luta.

Colaborador

Kevin Murphy ensina história russa na Universidade de Massachusetts em Boston. Seu Revolution and Counterrevolution: Class Struggle in a Moscow Metal Factory ganhou o Deutscher Memorial Prize de 2005.

8 de março de 2017

A história da Revolução de Fevereiro

Trabalhadores russos entraram em greve no Dia Internacional da Mulher de 1917. Eles acabaram derrubando o tzarismo.

Kevin Murphy


Nicolau II, o último czar da Rússia, em 1909. Wikimedia Commons

Tradução / Não foi coincidência que a greve mais importante da história mundial tenha começado com mulheres do setor têxtil em Petrogrado no Dia Internacional da Mulher de 1917 – 23 de fevereiro no antigo calendário juliano. Trabalhando treze horas diárias enquanto seus maridos e filhos estavam no front, essas mulheres estavam fadadas a uma vida monótona e imutável, provendo suas famílias e esperando numa fila, durante horas, num frio abaixo de zero graus, na esperança de conseguir um pão. Assim, como afirma Tsuyoshi Hasegawa em seu sólido estudo acerca da Revolução de Fevereiro, “nenhuma propaganda foi necessária para incitar essas mulheres a agir”.

A profunda crise social da Rússia decorreu do fracasso do regime tsarista ao aprovar certas reformas significativas e do abismo econômico entre os ricos e o resto da sociedade russa. A Rússia era governada por um autocrata, o tsar Nicolau II, que repetidamente dispensou a Duma – um corpo eleitoral impotente que por lei era administrado por proprietários de terras.

Às vésperas da guerra, a atividade grevista era comparável à da Revolução de 1905 e os trabalhadores erguiam barricadas nas ruas da capital. A guerra deu ao tsarismo um alívio temporário, mas as crescentes derrotas militares e as cerca de sete milhões de baixas do exército trouxeram à tona acusações sem precedentes de corrupção do regime em praticamente todos os setores da sociedade. Tão profunda foi a desmoralização que o futuro primeiro-ministro, o príncipe Lvov, liderou uma conspiração – embora sem tomar nenhuma atitude de fato – a fim de deportar o tsar e encarcerar a tsarina em um mosteiro. Rasputin, um monge charlatão, que ganhou enorme influência na corte do tsar, foi assassinado não por anarquistas, mas sim pelos próprios monarquistas em dezembro de 1916.

Na esquerda, os Bolcheviques eram a força dominante em um meio mais abrangente de revolucionários que lideravam a maior onda de greve da história mundial (os setores pró-guerra dos socialistas moderados frequentemente se abstinham de ações grevistas).

Durante anos houve lutas contra o tsarismo. Trinta greves políticas foram registradas em meia década desde o massacre de 270 trabalhadores no centro minerador de Léna, em 1912; os grevistas também se defrontaram com uma série de prisões realizadas pela polícia secreta tsarista (Okhrána). O registro dos revolucionários presos em 1915 e 1916 revelou a relativa força da esquerda em Petrogrado: Bolcheviques 743, não-partidários 553, Socialistas Revolucionários (SR) 98, Mencheviques 79, Internacionalistas 51, anarquistas 39. Com cerca de 600 membros bolcheviques em fábricas metalúrgicas, de engenharia e têxtil em Výborg, o distrito foi, de longe, o mais militante durante a guerra.

Em 9 de janeiro de 1917, no décimo segundo aniversário do massacre do Domingo Sangrento, que desencadeou a Revolução de 1905, 142 mil trabalhadores deram início à greve. Quando a Duma abriu, em 14 de fevereiro, outros 84 mil trabalhadores saíram em um ato liderado por mencheviques pró-guerra.

O aumento da escassez de alimentos fez com que o governo realizasse a requisição de grãos no campo. Com as padarias de Petrogrado fechadas e os suprimentos para várias semanas reduzidos drasticamente, as autoridades tsaristas exacerbaram a crise alegando que não havia falta de alimento. A Okhrana relatou inúmeros conflitos entre policiais e operárias nas linhas de pão de Petrogrado. Mães “olhando seus filhos meio famintos e doentes estão, talvez, muito mais próximas da revolução do que os senhores Miliukov, Khodtchev e cia. e, sem dúvida, elas são muito mais perigosas”.

Em 22 de fevereiro, o bolchevique Kaiurov dirigiu-se a uma reunião de mulheres em Vyborg, a fim de instruí-las a não iniciarem a greve no Dia Internacional da Mulher e sim, a ouvirem “as instruções do partido”. Para grande desgosto do camarada Kaiurov – ele escreveria mais tarde que estava “indignado” pelas mulheres bolcheviques terem ignorado as diretrizes partidárias – cinco usinas têxteis deram início à greve na manhã seguinte.

O grupo de mulheres instigadoras das fábricas têxteis de Nevá que gritavam: “às ruas! Parem! Basta!”, abriram as portas e conduziram centenas de mulheres para as indústrias de metal e de engenharia mais próximas. Atirando bolas de neve contra a fábrica Nobel, a multidão de mulheres sacolejando os braços e gritando “Venham para fora! Parem de trabalhar!”, convenceu os trabalhadores a se unirem a elas. As mulheres ainda marcharam até a indústria Erikson, lugar em que Kaiurov e outros Bolcheviques se reuniam brevemente com os Socialistas Revolucionários e Mencheviques, que decidiram, por unanimidade, convencer outros trabalhadores a se juntarem.

A polícia deparou-se com multidões de mulheres e trabalhadores mais jovens exigindo “pão” e cantando canções revolucionárias. As mulheres apanharam as bandeiras vermelhas dos homens durante a marcha: “Este é o nosso feriado. Levaremos as bandeiras”. Na ponte Litinaia, apesar dos repetidos brados e apupos dos manifestantes, a polícia os impediu de marchar para o centro da cidade. Ao final da tarde, centenas de trabalhadores atravessavam o gelo e lá foram atacados pela polícia. No centro, “mil pessoas, majoritariamente mulheres e jovens” chegaram a avenida Nievski, mas foram dispersados. A Okhrana relatou que a manifestação era tão provocativa que era “necessário reforçar os destacamentos de policiais em todos os lugares”.

Sessenta mil dos setenta e oito mil grevistas eram do distrito de Vyborg. Embora a campanha levantada fosse anti-guerra e anti-tsarista, a demanda mais proeminente era para o recebimento de pão. De fato, as autoridades tsaristas consideraram isso apenas mais uma revolta do pão, embora estivessem alarmadas com a hesitação de suas confiáveis tropas cossacas em combater os manifestantes. Naquela noite, os Bolcheviques de Vyborg se reuniram e votaram para organizar uma greve geral de três dias com marchas em direção à Nievski.

No dia seguinte, o movimento de greve dobrou para cento e cinquenta e oito mil, tornando-se a maior greve política da guerra. Setenta e cinco mil trabalhadores de Vyborg entraram em greve, assim como vinte mil de cada um dos distritos de Petrogrado, Vassilievski e Moscou e mais nove mil de Narva. Os jovens “lutadores de rua” da classe trabalhadora tomaram a dianteira, lutando contra a polícia e as tropas nas pontes e pelo controle da Nievski no centro da cidade.

Na fábrica Aviaz, os oradores Mencheviques e Socialistas Revolucionários pediram a remoção do governo, alertaram aos trabalhadores que não se envolvessem em atos irresponsáveis e os encorajou a marcharem para o Palácio de Tauride, onde os membros da Dúma tentaram desesperadamente persuadir o tsarismo a fazer concessões. Os Bolcheviques da fábrica Erikson imploraram aos trabalhadores para marcharem até a praça de Kazan e armarem-se com facas, utensílios metálicos e gelo para o iminente combate com a polícia.

Uma multidão de quarenta mil manifestantes lutou contra policiais e soldados na Ponte Litínaia, mas foram mal recebidos novamente. 2,5 mil trabalhadores da Erikson foram confrontados por cossacos na avenida Sampsónievski. Os oficiais atacaram a multidão, mas os cossacos seguiram cautelosamente pelo corredor recém-aberto pelos oficiais. “Alguns deles sorriam”, lembra-se Kaiúrov, “e um deles deu aos trabalhadores uma bela piscadela”. Em muitos lugares, as mulheres tomaram a iniciativa: “Nós temos maridos, pais e irmãos no front… vocês também têm mães, esposas, irmãs e crianças. A nossa demanda é o pão e um fim para a guerra”.

Os manifestantes não fizeram nenhuma tentativa de conciliar-se com a execrada polícia. Os jovens pararam os carros nas ruas, cantaram canções revolucionárias e arremessaram bolas de neve e botas contra os policiais. Depois de vários milhares de trabalhadores atravessarem o gelo, romperam ferozes batalhas entre os manifestantes e a polícia pelo controle da Niévski. Enquanto isso, os trabalhadores conseguiram realizar comícios nos locais revolucionários tradicionais de Kazán e na famosa estátua “hipopótamo” de Alexandre III na Praça Známienskaia. As demandas tornaram-se mais políticas, assim os oradores não só exigiam pão, mas também denunciavam a guerra e a autocracia.

No dia 25, a greve tornou-se geral, com mais de duzentos e quarenta mil trabalhadores de fábricas unidos com trabalhadores de escritórios, professores, garçons e garçonetes, estudantes universitários e até mesmo estudantes do ensino médio. Os motoristas de táxi juraram que só dirigiriam para os “líderes” da revolta.

Novamente os trabalhadores começaram a reunir-se em suas fábricas. Numa ruidosa reunião na fábrica Parviánen em Výborg, os oradores Bolcheviques, Mencheviques e Socialistas Revolucionários estimularam os trabalhadores a marcharem para a Niévski. Um dos oradores terminou com o verso revolucionário: “Fora do caminho, mundo obsoleto, podre de cima à baixo. A jovem Rússia está em marcha!”

Os manifestantes envolveram-se em dezessete violentos confrontos com policiais e soldados, mas os trabalhadores conseguiram organizar-se de maneira a libertar camaradas capturados pela polícia. Os rebeldes ganharam a dianteira, esmagando as forças tsaristas em muitas pontes ou cruzando o gelo até o centro. Ao assumirem o controle da Niévski, os manifestantes se reuniram uma vez mais na Známienskaia. Os policiais e cossacos chicoteavam a multidão, mas quando o chefe da polícia investiu contra os manifestantes foi derrubado – por um sabre cossaco. As trabalhadoras voltaram a desempenhar um papel crucial: “Abaixem as suas baionetas”, insistiram. “Juntem-se a nós”.

Ao cair da noite, Výborg era controlada pelos rebeldes. Os manifestantes saquearam os postos policiais, capturaram revólveres e sabres das sentinelas tsaristas e forçaram policiais e gendarmes a fugir.

A revolta levou o tsar Nicolau II ao limite. “Eu ordeno que a arruaça na capital termine amanhã” proclamou, e ordenou ao comandante das tropas de Petrogrado, Khabálov, que dispersasse as multidões com poder de fogo. Khabálov estava cético (“Como poderiam pará-los no dia seguinte?”), mas acatou a instrução. Na prefeitura, o Ministro do Interior, Protopópov, incitou os defensores da autocracia a reprimir a revolta: “Orem e esperem pela vitória”, disse ele. Cedo, na manhã seguinte, declarações proibindo as manifestações foram decretadas advertindo que caso descumprido o decreto, os manifestantes seriam reprimidos através do uso de armas de fogo.

Ao alvorecer do domingo 26, a polícia prendeu o núcleo do Comitê Bolchevique de Petersburgo e outros socialistas. Fábricas foram fechadas, pontes foram levantadas, e o centro de cidade transformou-se em um acampamento militar. Khabálov telegrafou ao quartel-general dizendo que “desde de manhã a cidade tem estado calma”. Pouco depois deste relatório, milhares de trabalhadores cruzaram o gelo e surgiram na Niévski cantando canções revolucionárias e gritando palavras de ordem, mas os soldados atiraram sistematicamente sobre eles.

Destacamentos do Regimento Volýnski foram encarregados de evitar comícios na Praça Známienskaia. Patrulhas à cavalo chicoteavam a multidão, mas não conseguiam dispersá-la. O comandante então ordenou que as tropas atirassem. Embora alguns soldados disparassem para o ar, cinquenta manifestantes foram mortos dentro e ao redor da Praça Známienskaia, e os trabalhadores dispersos se esconderam dentro das casas e correram para os cafés. A maior parte da chacina foi levada a cabo pelas excelentes “unidades leais” que eram utilizadas para treinar funcionários não-comissionados.

Todavia a sangria não anulou a rebelião.

Um relatório policial descreve o espantoso nível de resistência e sacrifício dos rebeldes:

No decorrer dos tumultos observou-se, como um fenômeno geral, que as multidões revoltosas mostraram-se um extremo desafio para as patrulhas militares, pois quando pedidas para dispersar, lançavam pedras e pedaços de gelo pegos na rua. Quando os primeiros tiros foram dados para o ar, a multidão não só não se dispersou, como também respondeu aos disparos com riso. Apenas quando os cartuchos foram descarregados em meio à multidão, foi possível dispersá-la. Os participantes... esconderam-se nos jardins das casas vizinhas e, assim que o tiroteio cessou, voltaram novamente às ruas.

Os trabalhadores apelaram aos soldados para que baixassem as armas, buscando por uma conversão que envolvia uma luta pelo próprio coração do soldado. Assim como observou Trótski, os contatos “entre mulheres e homens trabalhadores e soldados, sob o constante crepitar de rifles e metralhadoras, o destino do governo, da guerra, do país, está sendo decidido”.

Na noite do dia 26, os líderes Bolcheviques de Výborg encontraram-se numa horta nos arredores da cidade. Muitos sugeriram que já estava na hora de cessar a revolta; esta ideia, entretanto, foi abandonada. O defensor mais vociferante para continuar a batalha, mais tarde, descobriu-se ser um agente da Okhrána. A partir de uma perspectiva militar, a revolução deveria acabar após o dia 26. Mas a polícia não poderia esmagar a rebelião sem o apoio de milhares de soldados.

Na tarde anterior, os trabalhadores se aproximaram do quartel Pavlóvski: “Diga aos seus camaradas que os Pavlóvski também estão atirando em nós – vimos soldados com seu uniforme na Niévski”. Os soldados “pareciam todos angustiados e pálidos”. Apelos semelhantes ressoavam por quartéis de outros regimentos. Naquela noite, os soldados de Pavlóvski tornaram-se os primeiros a se juntar aos rebeldes (embora, percebendo que estavam isolados, voltaram para seus quartéis e trinta e nove líderes foram imediatamente presos).

Cedo, no dia 27, a revolta atingiu o regimento Volýnski, cujo corpo de treinamento havia disparado contra manifestantes na Praça Známienskaia. Quatrocentos se amotinaram dizendo ao seu tenente: “Não vamos mais atirar e também não desejamos derramar o sangue de nossos irmãos em vão”. Quando ele respondeu lendo a ordem do tsar para suprimir a rebelião, foi sumariamente abatido. Outros soldados de Volýnski se juntaram à rebelião e depois se mudaram para os quartéis vizinhos dos regimentos Preobrajiénski e Lituanos, que também se amotinaram.

Mais tarde um participante descreveu a cena: “Um caminhão repleto de soldados com rifles na mão, separou a multidão enquanto o motor rugia pela Sampsónievski. Bandeiras vermelhas tremulavam nas baionetas dos rifles, algo nunca visto antes… A notícia que trouxe o caminhão – que as tropas se haviam amotinado – se espalhou como um incêndio”. Enquanto um destacamento repressor, liderado pelo General Kútepov, agiu, por horas, sem nenhuma restrição – disparando contra os manifestantes e caminhões cheios de trabalhadores – pela noite, Kútepov escreveu, “uma grande parte da minha força misturou-se com a multidão”.

Naquela manhã, o General Khabálov caminhava altiva e soberbamente ao redor dos quartéis da cidade ameaçando os soldados com a pena de morte caso se rebelassem. À noite, o General Ivánov, cujas tropas estavam a caminho de apoiar os leais tsaristas, telegrafou para Khabálov para avaliar a situação.

Ivánov: Em quais partes da cidade está preservada a ordem? 
Khabálov: A cidade toda está nas mãos de revolucionários. 
Ivánov: Todos os ministérios estão funcionando corretamente? 
Khabálov: Os ministérios foram tomados pelos revolucionários. 
Ivánov: Que forças policiais estão à sua disposição neste momento? 
Khabálov: Absolutamente nenhuma. 
Ivánov: Quais instituições técnicas e de abastecimento do Departamento de Guerra estão agora sob seu controle? 
Khabálov: Não tenho nenhuma.

Ciente da situação, o General Ivánov decidiu recuar. A fase militar da revolução havia terminado.

O paradoxo da Revolução de Fevereiro foi que, embora tenha varrido o tsarismo, substituiu-o por um governo de liberais não eleitos que estavam horrorizados com a própria revolução que os havia colocado no poder. No dia 27 “ouviam-se suspiros… Ela estava chegando, ou melhor, estava trazendo francas expressões de medo pela vida”, escreveu um deputado liberal da Duma. Isso foi interrompido brevemente pela alegre, mas imprecisa notícia de que “os tumultos em breve chegariam ao fim”. Um outro observador apontou que “eles estavam horrorizados, estremeciam, sentiam-se cativos em mãos hostis percorrendo uma estrada desconhecida”.

Durante a revolução, “a posição da burguesia era bastante clara; por um lado, sua posição era manter distância da revolução e traí-la em favor do tsarismo e, por outro, explorá-la para seus próprios fins”. Esta foi a avaliação de Sukhánov, um líder do Soviéte de Petrogrado que era simpático aos Mencheviques e desempenharia um papel crucial na entrega do poder aos liberais.

Ele receberia bastante ajuda de socialistas mais moderados. O líder Menchevique Skóbielev aproximou-se de Rodziánko, presidente da Quarta Dúma, para conseguir um quarto no Palácio de Tauride. Seu objetivo era organizar um soviéte de deputados operários, a fim de manter a ordem. Kérenski acalmou os receios de Rodziánko de que o soviéte pudesse ser perigoso, dizendo-lhe: “alguém deve tomar conta dos trabalhadores”.

Ao contrário do soviéte dos trabalhadores de 1905, que surgiu como instrumento de luta de classes, o soviéte formado em 27 de fevereiro foi estabelecido após a revolta e os principais membros de seu comitê executivo eram quase exclusivamente intelectuais que não haviam participado ativamente da revolução.

Havia outras falhas também: a categoria de cento e cinquenta mil soldados em Petrogrado estava muito mais representada neste soviéte de trabalhadores e soldados. A presença era esmagadoramente masculina, o punhado de mulheres delegadas, entre os mil e duzentos delegados (eventualmente quase três mil), estava terrivelmente sub-representada. O soviéte nem sequer discutiu a manifestação de sufrágio feminino em 19 de março, na qual participaram vinte e cinco mil mulheres, incluindo milhares da classe trabalhadora.

O Soviéte de Petrogrado aprovou a famosa Ordem Número 1 – que autorizava os soldados a eleger seus próprios comitês para dirigir suas unidades e obedecer aos oficiais e ao Governo Provisório somente se as ordens não contradissessem as dadas pelo soviéte – mas esta ordem foi decretada por iniciativa dos próprios soldados radicais.

Ainda assim, a formação dos soviétes forçou os liberais e seu aliado Socialista Revolucionário Kérenski a agir. Rodziánko argumentou que “se não tomarmos o poder, outros o farão”, porque já haviam “eleito algum tipo de patife nas fábricas”. “A menos que formemos um governo provisório imediatamente”, escreveu Kérenski, “o soviéte se proclamará autoridade suprema da Revolução”. Segundo o plano, um grupo que se autonomeasse Comitê Provisório agiria como um contraponto aos soviétes. Mas os conspiradores não estavam muito confiantes em seu próprio plano; eles deixaram os líderes Mencheviques e Socialistas Revolucionários do soviéte fazer seu trabalho sujo.

A álgebra Menchevique da revolução determinou que o “governo que tome o lugar do tsarismo deve ser exclusivamente burguês”, escreveu Sukhánov. “Toda a máquina estatal… só poderia obedecer a Miliukóv”.

As negociações entre o executivo soviéte e os líderes liberais não eleitos ocorreram no dia 1 de março. “Miliukóv entendeu perfeitamente que o Comitê Executivo estava em uma posição perfeita para dar poder ao governo burguês, ou não dá-lo”, mas, acrescentou Sukhánov, “o poder destinado a substituir o tsarismo deve ser apenas um poder burguês… Devemos nos conduzir por este princípio. Caso contrário, a revolta não terá tido êxito e a revolução entrará em colapso”.

Os líderes soviétes estavam dispostos a abandonar até mesmo o mínimo programa das “três baleias” que todos os grupos revolucionários haviam concordado (o dia de oito horas, o confisco de terras estatais e uma república democrática) se os liberais só tomassem o poder. Assustado com a possibilidade de ter de governar, Miliukóv insistiu teimosamente em fazer uma última tentativa de salvar a monarquia.

Incrivelmente, os socialistas concederam e permitiram ao irmão do tsar, Miguel, decidir por si mesmo se deveria governar. Sem receber nenhuma garantia de sua segurança pessoal, o Grão-Duque recusou educadamente. Todas essas negociações foram, obviamente, conduzidas nos bastidores, fora do alcance dos trabalhadores e soldados.

O sistema de “poder dual” que emergiu dessas discussões – o soviéte de um lado e o Governo Provisório não eleito do outro – duraria oito meses.

Ziva Galili descreveu essas negociações como “o melhor momento dos Mencheviques”. Trótski comparou-a a uma peça de vaudeville dividida pela metade: “Em um, os revolucionários estavam implorando aos liberais para salvar a revolução; no outro, os liberais estavam implorando à monarquia para salvar o liberalismo “.

E por que então os operários e soldados, que haviam lutado tão valentemente para derrubar o tsarismo, permitiam que o soviéte entregasse o poder a um novo governo que representava os homens de propriedade? Por um lado, a maioria dos trabalhadores ainda tinham que compreender as políticas dos vários partidos socialistas. Além disso, os próprios Bolcheviques não eram muito claros sobre pelo que estavam lutando, em parte porque tinham mantido uma compreensão (rapidamente desatualizada) da revolução como democrático-burguesa, na qual um governo revolucionário provisório governaria. O que isso significava na prática, particularmente após a formação do Governo Provisório, estava aberto a interpretações diferentes.

Embora os militantes Bolcheviques tenham desempenhado um papel crítico durante os dias revolucionários, por vezes, o fizeram ignorando as diretrizes de seus líderes. As mulheres do setor têxtil deram início à revolta em fevereiro mesmo com as objeções de líderes partidários que consideravam o tempo “ainda não estava maduro” para a ação militante.

Faltava também a liderança do Bureau Bolchevique: Chliápnikov, Mólotov e Zalútski. Mesmo depois da greve de 23 de fevereiro, Chliápnikov argumentou que era prematuro pedir uma greve geral. O Bureau não conseguiu produzir um folheto para dar às tropas e recusou, frente a batalhas iminentes, as demandas de armamento dos trabalhadores.

A maior parte da iniciativa veio do comitê do distrito de Výborg, que atuou como líder de fato para a organização partidária da cidade, ou de membros de base — especialmente no primeiro dia, quando as mulheres ignoraram as condutas do partido e desempenharam um papel decisivo no desencadeamento do movimento grevista.

Durante todo o mês de março, a confusão e a divisão revoltaram os Bolcheviques. Quando o Soviéte de Petrogrado entregou o poder político à burguesia em 1 de março, nenhum dos onze Bolcheviques do comitê executivo se opôs. Quando os delegados Bolcheviques deixados no soviéte apresentaram uma moção pedindo que o soviéte formasse um governo, apenas dezenove votaram a favor, enquanto muitos Bolcheviques votaram contra. Em 5 de março, o Comitê de Petersburgo apoiou o chamado dos soviétes para que os trabalhadores retornassem às suas ocupações, ainda que o dia de oito horas, uma das principais reivindicações do movimento revolucionário, ainda não tivesse sido instituído.

Sob o jugo de Chliápnikov o escritório do partido aproximou-se dos radicais de Výborg, que pediam que o soviéte governasse. Mas quando Kámenev, Stálin e Muránov retornaram do exílio siberiano e assumiram o posto em 12 de março, a política do partido desviou-se bruscamente para a direita – para o deleite dos líderes mencheviques e socialistas revolucionários e para a ira de muitos militantes do partido nas fábricas, alguns dos quais pediram a expulsão do novo triunvirato.

Lênin estava entre os irados. Em 7 de março, ele escreveu na Suíça: “Este novo governo já está atolado dos pés à cabeça no capital imperialista, na política imperialista de guerra e pilhagem”. Kámenev, em contrapartida, argumentou no Právda em 15 de março que “pessoas livres” ficarão “firmes em seus postos, responderão bala por bala, cartucho por cartucho”. E no final de março, Stálin falou a favor da unificação com os Mencheviques e argumentou que o Governo Provisório “assumiu o papel de fortificador das conquistas da revolução”.

Lênin estava tão preocupado com a mudança de direção da liderança que, em 30 de março, ele escreveu que preferia uma “separação imediata com qualquer um em nosso Partido, quem quer que fosse, a fazer concessões com o social-patriotismo de Kérenski e companhia”. Nenhum advogado era necessário para esclarecer as palavras de Lênin ou sobre quem ele estava falando. “Kámenev deve perceber que ele carrega consigo uma responsabilidade histórica mundial”.

A essência do leninismo de 1905 enfatizava a desconfiança total do liberalismo como uma força contrarrevolucionária e uma forte crítica daqueles socialistas empenhados em tentar apaziguá-lo. No entanto, a formulação feita pelo próprio Lênin em 1905, que pedia um governo revolucionário provisório para realizar uma revolução burguesa, contrastava com o que ele chamou de “ideias absurdas e semianarquistas” de Trótski, que reivindicava uma “revolução socialista”. O próprio Lênin agora avançava para essa ideia absurda de socialismo, enquanto os velhos e conservadores Bolcheviques evidentemente o acusavam de “trotskismo”.

Em muitos aspectos, o golpe de Estado do início de março foi típico dos que ocorreram no último século — um pequeno e não eleito grupo usurpando o poder para seus propósitos de classe, às custas de um movimento que os colocou num posto de autoridade. No entanto, houve duas grandes diferenças. Uma delas era que havia um partido das massas trabalhadoras que lutaria implacavelmente por seus interesses. E segundo, havia soviétes.

A Revolução Russa tinha apenas começado.

Colaborador

Kevin Murphy ensina história russa na Universidade de Massachusetts em Boston. Seu Revolution and Counterrevolution: Class Struggle in a Moscow Metal Factory ganhou o Deutscher Memorial Prize de 2005.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...