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19 de dezembro de 2022

Há espaço para política industrial em meio à desglobalização?

Tensão entre modelo econômico e apelo à soberania tecnológica é crescente

Marília Bassetti Marcato
Professora do Instituto de Economia da UFRJ, é assessora da presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)

Folha de S.Paulo

Da hiperglobalização à desglobalização, diversos analistas buscaram situar historicamente as mudanças na natureza da globalização.

A expansão da produção internacionalmente fragmentada é uma das marcas da hiperglobalização. Dani Rodrik, quem originalmente propôs tal termo, argumenta que, como consequência da hiperglobalização, as restrições às políticas industriais são a restrição externa mais significativa que os países em desenvolvimento enfrentam. Haveria cada vez menos espaço político para que esses países empreendessem políticas industriais.


Cabe então indagar sobre o espaço para política industrial em meio à desglobalização. Na última década, a desaceleração dos fluxos de comércio em relação ao PIB levantou questões acerca de um "pico" das cadeias globais de valor, com implicações diretas para a prática de negócios das corporações e estratégias dos países para melhorar suas posições na economia global. Uma das discussões que têm ganhado fôlego, em um primeiro momento nos países desenvolvidos, é justamente sobre a capacidade de um Estado de desenvolver tecnologias que considera críticas para o bem-estar e a competitividade.

A relação entre desglobalização e soberania tecnológica tem sido discutida a partir da vulnerabilidade das cadeias a choques cada vez mais graves e frequentes. Uma sequência de eventos climáticos —como o terremoto e tsunami Tohoku no Japão, as enchentes na Tailândia e o furacão Harvey nos EUA— impactou a organização da produção internacional. Também são diversos os choques geopolíticos, macroeconômicos e ataques cibernéticos, com diferentes graus de intensidade, durabilidade e efeitos cascata em diferentes regiões e setores. Do ponto de vista da vulnerabilidade das cadeias, a pandemia é o evento disruptivo recente de maior duração, magnitude e amplitude.

No nível corporativo, um relatório da McKinsey revelou algumas fontes de vulnerabilidade das cadeias: a estrutura das redes de fornecedores —concentração geográfica da produção, substitutibilidade e interconectividade e número de níveis dos fornecedores—, o planejamento de demanda e gerenciamento de estoque, as interrupções inesperadas na infraestrutura física ou digital e o fechamento de fronteiras. A fragilidade financeira dos fornecedores e as características do produto também aparecem como dimensões importantes para avaliar a capacidade de construir cadeias mais resilientes.

No campo das formulações de políticas, as principais considerações sobre resiliência versam sobre competitividade e segurança nacional. Em uma era de antagonismos geopolíticos e intensificação da competição global de base tecnológica, há uma crescente demanda para que os Estados preservem sua capacidade de agir estrategicamente e de forma autônoma. Esse movimento, é claro, não está isento de contradições.

Recentemente, o ministro de Finanças da França, Bruno Le Maire, manifestou seu descontentamento com a estratégia dos EUA para "desenvolver sua capacidade industrial em solo americano" em sintonia com o modelo chinês de política industrial. Ao seu lado na entrevista, o ministro alemão da Economia, Robert Habeck. Há algumas semanas, a Alemanha barrou a venda de duas empresas produtoras de chips do país, em linha com decisões articuladas pelos EUA para impedir o salto tecnológico chinês na indústria de semicondutores. Habeck ressaltou que o setor de semicondutores é importante para proteção da soberania tecnológica e econômica da Alemanha e da Europa.

A tensão entre o modelo econômico dominante e o apelo à soberania tecnológica é crescente, embaralhando o discurso dos países desenvolvidos sobre política industrial na desglobalização.

Certamente o espaço para que países em desenvolvimento estabeleçam políticas industriais —sem receio de assim chamá-las e cientes das mudanças no cenário internacional— deverá ser disputado. Mais uma vez, o custo de não enfrentar tais questões será alto.

19 de maio de 2020

A economia mainstream sobreviverá à pandemia?

Economistas neoclássicos não estão acostumados a lidar com pessoas

Marília Bassetti Marcato

Folha de S.Paulo

Uma das principais lições da pandemia do novo coronavírus é o risco de eleger lideranças que tenham como hábito ignorar as evidências.

Atualmente, sabemos que idosos e pessoas de qualquer idade com sérias condições médicas subjacentes correm risco maior de contrair doença grave por causa da Covid-19. Pessoas com doença pulmonar crônica ou asma de moderada a grave, pessoas com problemas cardíacos, pessoas imunocomprometidas, pessoas que transplantaram órgãos, pessoas de qualquer idade com obesidade grave, pessoas com diabetes, pessoas com insuficiência renal ou doença hepática. Pessoas.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, em Brasília. Pedro Ladeira/Folhapress

Os economistas neoclássicos não estão acostumados a lidar com pessoas. Historicamente, eles buscaram artificialmente se separar de outros campos de estudo, isentando-se da exigência de testabilidade empírica tão cara às ciências “duras”. Nesse tortuoso caminho, a economia neoclássica parece ter invertido o objetivo da pesquisa científica de descobrir a realidade sob a aparência, assumindo a forma de uma estrutura analítica cada vez mais formalista, axiomática e dedutiva.

Um “indivíduo sem individualidade” costuma assustar àqueles que não possuem treinamento fornecido em graduações de economia. Em pouco tempo, o aspirante a economista entende que é preciso fazer sacríficos para gerar soluções. Assim, não são incomuns análises econômicas que eliminam o tempo e o espaço, sem qualquer referência às evidências empíricas.

O prodigioso reducionismo da economia neoclássica estabeleceu conceitos e aparato técnico fundamentais para expandir a influência da economia para outras ciências sociais. Segundo Ben Fine e Dimitris Milonakis em “From economics imperialism to freakonomics”, essa característica reducionista teria um caráter triplo. Primeiro, o reducionismo do indivíduo constitui o principal elemento analítico (com o coletivo a partir da simples agregação de indivíduos). Segundo, a economia é reduzida às relações de oferta e demanda de mercado. Por fim, a análise econômica seria baseada em princípios sem apego à história.

Se o mundo real é profundamente diferente, este não parece ser um problema. Para os preocupados com o irrealismo das suposições, Milton Friedman deu a palavra de ordem metodológica: “Não se preocupem com as suposições, apenas observem suas consequências”. Pouco importa se todos os empresários buscam ou não maximizar seus lucros, o que importa é que tudo deve ocorrer como se os mesmos se comportassem de tal forma.

Mas o que restará da economia mainstream após a pandemia?

É certo que se ocupar de problemas concretos é uma virtude rara no meio da ciência econômica dominante, uma vez que não é de hoje que a dita ciência triste escolhe tratar de tópicos com menor probabilidade de suscitar questões de importância fundamental. Mas momentos de crise como o atual incitam perguntas fundamentais sobre a relação entre Estado e mercado que parecem desafiar a nossa compreensão.

A pandemia reforça a necessidade de repensar dogmas sobre o funcionamento da economia. Não há como separar a economia da sociedade e é, portanto, falsa a noção de que o arranjo econômico pode ser analisado independentemente dos processos de saúde pública e das interações sociais. Com isso em mente, não é preciso muito para identificar o descaramento dos sociólogos de mercado brasileiros quando comemoram que o pico da doença nas classes altas já passou.

No entanto, persiste a incapacidade da economia mainstream de considerar o funcionamento e a dinâmica dos sistemas econômicos em seus modelos abstratos e com amnésia histórica. Se todos somos keynesianos em momentos de crise, supor que o mercado é uma máquina autorreguladora certamente contém “um elemento de verdade, um elemento de má-fé e também algum engano” (salve, Braudel!).

Mas há uma esperança. Se a arrogância —traço tão comum aos economistas mainstreams— der lugar ao reencontro da ciência econômica com as demais ciências, em especial as sociais, é possível que os cálculos de quanto vale uma vida sejam deixados de lado.

Caso contrário, caberá à desconfiança popular decretar a morte da ciência econômica antes que a ciência econômica mate o povo.​

Marília Bassetti Marcato
Professora do Instituto de Economia da UFRJ

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