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24 de julho de 2026

A crise soviética era previsível. Seu desfecho, não.

O colapso soviético em 1991 foi tão repentino e abrangente que acabou parecendo inevitável. Novos trabalhos de historiadores da URSS questionam se a crise do sistema poderia ter resultado na reforma de suas estruturas, em vez de sua desintegração.

Mike Haynes

Jacobin

Até 1991, a URSS era central para o desenvolvimento da política global, mas hoje representa um mundo perdido. O livro de Mark Smith, Exit Stalin, é uma tentativa de recriar esse mundo soviético com foco no cotidiano. (David Turnley / Corbis / VCG via Getty Images)

Resenha de Exit Stalin: The Soviet Union as Civilisation 1953–1991, de Mark B. Smith (Allen Lane, 2026)

Até 1991, era impossível estar à esquerda e não ter uma opinião sobre a União Soviética. Moscou era — observa Mark Smith em sua nova história da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) do período pós-Stalin — o centro de metade do mundo. O destino desse mundo parecia depender da relação em constante mudança entre os Estados Unidos e a URSS.

Hoje, a URSS não existe mais. Seus dois maiores componentes de outrora, Rússia e Ucrânia, estão em guerra um contra o outro. A China e outros países ganham maior destaque nas questões que levantamos sobre o futuro do mundo.

A URSS representa um mundo que a esquerda, para o bem ou para o mal, perdeu. O livro de Smith é uma tentativa de recriar esse mundo soviético com foco no cotidiano. Com esse objetivo, ele o descreve como "uma história em fragmentos".

Futuros possíveis

Para Smith, a Rússia soviética era "uma civilização revolucionária", mas seu interesse não reside nas "grandes teorias". Ele afirma que seu livro apresenta seis teses inter-relacionadas sobre periodização, revolução, descolonização, subjetividade, normalidade e cultura. No entanto, essas questões são abordadas de forma leve na obra. Qualquer leitor que busque uma análise estruturada da natureza social da URSS — seja como modo de produção ou formação social — e de suas dinâmicas mais amplas ficará frustrado.

Até 1991, era impossível estar à esquerda e não ter uma opinião sobre a União Soviética.

O mesmo vale para aqueles que desejam entender como os acontecimentos posteriores se conectavam a 1917. É famosa a afirmação de Victor Serge de que não via problema em admitir que o germe do stalinismo já estava presente no bolchevismo desde o início, uma vez que o bolchevismo também abrigava uma infinidade de outros germes ou possibilidades. Embora Smith não cite essa observação, ele parece compreendê-la, ao falar em "múltiplos futuros possíveis" durante o desenvolvimento da URSS.

Ao mesmo tempo, ele também escreve sobre linhas retas que partem do passado. Essa abordagem não parece particularmente útil. Linhas retas podem seguir em qualquer direção a partir de um único ponto de origem.

Importa que outras obras tratem dessas questões de maneira mais sistemática? Creio que não. O foco de Smith é a recriação do mundo em que viveram várias gerações de russos soviéticos. Ele faz eco à historiadora Svetlana Alexievich — ela própria outrora soviética e hoje bielorrussa —, cuja ambição tem sido nos falar sobre "amor, ciúme, infância, velhice, música, dança, penteados. A infinidade de detalhes variados de um modo de vida desaparecido". Smith segue esses caminhos e nos convida a formar nossos próprios juízos sobre a vida cotidiana, o trabalho e as mentalidades que esse contexto gerou.

O livro é permeado por um sentimento de perda — inclusive, como descobrimos ao final, uma perda pessoal. Ainda assim, Smith mantém um olhar atento aos muitos aspectos negativos e ambíguos da sociedade soviética. Ele se baseia em algumas das melhores pesquisas históricas, incluindo as suas próprias. Detalhes fascinantes emergem à medida que cada fragmento segue direções distintas.

Os herdeiros de Stalin

Smith interessa-se pelas diferentes noções de tempo. A URSS parecia tão perene e, no entanto, mal conseguiu perdurar por setenta e cinco anos após 1917. A era pós-Stalin durou pouco menos de trinta e nove anos.

O censo soviético de 1989 registrou uma população de 287 milhões de pessoas. Apenas doze milhões tinham mais de setenta anos e, possivelmente, guardavam lembranças dos primeiros anos do pós-revolução, enquanto 3,5 milhões tinham mais de oitenta anos e podiam ter alguma memória da Rússia czarista. Bem mais de 70 por cento desses sobreviventes de longa data eram mulheres.

A URSS parecia tão permanente; no entanto, mal conseguiu durar setenta e cinco anos após 1917. A era pós-Stalin não chegou a completar trinta e nove anos.

A história soviética havia dizimado desproporcionalmente a população masculina. No entanto, houve alguns sobreviventes do sexo masculino de destaque que haviam vivenciado a revolução já na idade adulta, como Vyacheslav Molotov, que morreu em 1986 aos noventa e seis anos, e Lazar Kaganovich, que faleceu em 1991, prestes a completar noventa e oito anos. Por outro lado, em 1989, 68% da população tinha menos de quarenta e cinco anos e, portanto, não poderia ter qualquer memória significativa de Stalin.

O problema era que o legado do regime de Stalin e o papel da repressão — ainda que atenuada — persistiam. Se considerarmos o início do regime stalinista em 1929, ele durou vinte e quatro anos — o dobro do tempo de duração do governo nazista. Nesse período, cerca de doze milhões de pessoas foram enviadas para o Gulag.

Contudo, o regime soviético, em todas as suas formas, reivindicava ser o sucessor natural de 1917. Ele abraçava a aspiração de alcançar e superar o Ocidente. Orgulhava-se de sua contribuição para a vitória na Segunda Guerra Mundial — um orgulho que se tornou central para a "civilização" soviética do pós-guerra.

Com a morte de Stalin, tornou-se evidente que o sistema precisava mudar. No entanto, o que o poeta Yevgeny Yevtushenko chamou de "arrancar Stalin de dentro dos herdeiros de Stalin" provou ser uma tarefa difícil, e as reformas foram irregulares.

A zona de lama e neve derretida

Em grande parte da antiga URSS, a transição entre a neve e o gelo do inverno e a primavera é marcada por um período de lama e neve derretida (slush). Smith vê o "degelo" dos anos de Nikita Khrushchev como uma "zona de lama e neve derretida" na sociedade soviética. A URSS caminhava para uma ditadura mais estável.

O número de "crimes contrarrevolucionários" caiu de quarenta mil por ano, pouco antes da morte de Stalin, para 623 em 1956.

Os campos de prisioneiros foram sendo esvaziados aos poucos. O número de "crimes contrarrevolucionários" caiu de quarenta mil por ano, pouco antes da morte de Stalin, para 623 em 1956. A desestalinização criou o que Smith chama de "um ambiente moralmente habitável", no qual as pessoas se viam divididas entre olhar para trás, receosas, e vislumbrar horizontes futuros.

A sociedade começou a avançar. A ampla reconstrução das grandes cidades — especialmente Moscou, que os planejadores esperavam transformar em uma "metrópole resplandecente" — oferecia sinais de esperança, e o programa habitacional soviético revelou-se "uma das grandes reformas sociais da história europeia".

No entanto, a desestalinização ainda deixava "resquícios na mentalidade do povo soviético", como observa Smith. Além disso, o progresso social ainda era limitado. Quando Yuri Gagarin se livrou do paraquedas em uma área rural, após orbitar a Terra em 1961, teve de procurar um telefone para informar aos seus superiores onde estava.

Tendo sucedido Khrushchev em 1964, Leonid Brejnev governou até sua morte, em 1982, aos setenta e cinco anos. O livro traz uma foto dele em 1956, com aparência jovem e dinâmica, embora já tivesse sofrido seu primeiro ataque cardíaco. No final da década de 1970, era evidente para todos que sua condição física e mental estava em declínio.

A maioria dos historiadores vê a condição de Brejnev como uma metáfora para o declínio da União Soviética como um todo. Para Smith, contudo, a "longa década de 1970" ainda foi positiva para a maioria das pessoas, mesmo que o ritmo de melhoria tenha desacelerado a partir de meados daquela década.

Centro e periferia

Durante esse período, o padrão de vida geral se elevou e o lazer ganhou importância. A transição para uma sociedade mais voltada ao consumo, iniciada sob Khrushchev, consolidou-se sob Brejnev. Emergia uma esfera privada mais ampla e propensa à sociabilidade. Apesar das pressões dos gastos militares, o vasto programa habitacional prosseguiu, com a redução gradual (embora não a eliminação) das formas de moradia coletiva.

A transição para uma sociedade mais voltada ao consumo, iniciada sob Khrushchev, consolidou-se sob Brejnev.

As lojas continuavam mais rudimentares do que no Ocidente, mas seu número crescia. Os preços da maioria dos itens de necessidade cotidiana eram baixos e relativamente estáveis. Apesar das filas, a quantidade, a variedade e — ainda que em ritmo mais lento — a qualidade dos produtos estavam aumentando. Os cidadãos soviéticos começaram a adquirir de tudo: desde chapéus e casacos de pele até frigideiras, móveis e, em alguns casos, automóveis. Houve até, observa Smith, um aumento significativo na posse de animais de estimação — um reflexo da maior disponibilidade de espaço habitacional, da melhoria das condições de vida e de uma atitude mais positiva em relação aos animais.

Para compreender como as próprias pessoas entendiam aquele mundo, Smith entrelaça dados concretos de história social com relatos extraídos de canções, poemas, romances, programas de televisão e filmes da época. Esses elementos ajudaram a moldar a cultura dos cidadãos soviéticos — ou, pelo menos, a de seus segmentos mais instruídos.

Ele reconhece que tendemos a enxergar o passado soviético sob a ótica dos estratos urbanos e mais instruídos. Em 1989, 66% da população vivia em áreas urbanas, com nove milhões de habitantes em Moscou e cinco milhões em Leningrado. Isso significava que metade da população ainda vivia no campo ou em núcleos urbanos com populações entre três mil e cem mil habitantes. Compreender a "profunda URSS" é um desafio para os pesquisadores.

Há uma questão correlata que Smith também reconhece: nossa tendência de ver a URSS através das lentes de suas regiões russas (e, em menor grau, ucranianas). Em 1989, apenas 51% da população vivia na República Socialista Federativa Soviética da Rússia (RSFSR). A fragmentação da URSS nos tornou mais atentos às histórias dos outros 49%, mas é mais difícil sintetizar as experiências desse grupo em uma narrativa única.

Essas experiências mais amplas afetavam não apenas a "periferia", mas também o centro. A rápida industrialização e a urbanização geraram mobilidade social. Os líderes, como enfatiza Smith, eram geralmente pessoas de fora, que "vinham das margens geográficas e sociais". Levaria tempo até que os filhos herdassem os cargos de seus pais.

A longa década de 1970

Para a maioria das pessoas comuns, a "longa década de 1970" acabou personificando o que Smith chama de "uma eternidade soviética". Havia problemas e contradições, assim como no Ocidente, mas eles não prenunciavam o fim do sistema. Elas também não moldaram a compreensão que a maioria das pessoas tinha de seu mundo. Smith cita um historiador da Grã-Bretanha daquela mesma época, que observa que “a maioria das pessoas vive feliz com contradições”. E assim era na URSS.

A URSS permaneceu um Estado de partido único, onde o Estado de direito era limitado e não havia sindicatos livres nem greves legais.

Isso não durou. As melhorias não foram suficientes, e os problemas eram evidentes na estagnação da expectativa de vida e nos recursos limitados destinados à prestação de serviços de saúde. Politicamente, o stalinismo — a "variante de máxima coerção da Revolução Russa" — havia sido substituído pelo que Smith chama de uma "guerra civil de baixa intensidade" contra a dissidência durante a era Brejnev.

A URSS continuava sendo um Estado de partido único, onde o Estado de Direito era limitado e não havia sindicatos livres nem greves legais. As prisões e os campos de detenção persistiam, assim como a experiência do exílio, agora acrescida do uso de hospitais psiquiátricos para alguns dissidentes.

Isso não impediu revoltas ocasionais. Smith inicia seu livro descrevendo o momento em que manifestantes que protestavam contra o aumento dos preços dos alimentos foram baleados em Novocherkassk, em 1962. Em termos absolutos, observa ele, a KGB era "a maior força de polícia secreta do mundo".

Havia pessoas uniformizadas por toda parte. Quando os Jogos Olímpicos foram realizados em Moscou, em 1980, um contingente adicional de quarenta e cinco mil agentes uniformizados foi mobilizado na cidade. As pessoas respiravam com mais liberdade após 1953, mas ainda estavam cientes dos limites impostos.

Entre 1989 e 1991, o colapso da URSS mergulhou a vida de quase trezentos milhões de pessoas em um estado de turbulência. Quando isso aconteceu, parecia que uma mudança de tamanha magnitude histórica só poderia ter nascido de uma crise profunda no sistema — fosse qual fosse a natureza desse sistema.

Suicídio por acidente?

Comentaristas posteriores não têm tanta certeza disso. Em sua seção final, Smith argumenta que a União Soviética foi "o país que cometeu suicídio por acidente". Se alguma reforma era necessária, será que não haveria uma alternativa ao que realmente aconteceu?

Em sua seção final, Smith argumenta que a União Soviética foi “o país que cometeu suicídio por acidente”.

Smith fala, como muitos fazem, de uma possível opção ao estilo chinês. Não se tratava de seguir diretamente a China da era de Deng Xiaoping. Entre 1989 e 1991, aquele modelo ainda não estava consolidado e mal era discutido como tal. A questão, na verdade, é se as consequências políticas da reforma econômica poderiam ter sido controladas de forma muito mais rigorosa.

Smith parece acreditar que sim. Ele concentra sua análise nos processos de alto nível que levaram à perda de controle, incluindo o que ele considera uma visão admirável, porém politicamente ingênua, de Mikhail Gorbachev sobre o poder e o apoio ao regime. Essa parece ser uma perspectiva muito restrita, que deixa de lado grande parte da efervescência gerada pela reforma nas bases da sociedade.

Ele aborda de forma superficial a maneira como partes do sistema e alguns dos grupos mais poderosos conseguiram sobreviver. "As pessoas que administravam o Estado desistiram e foram embora", diz ele. Mas isso é apenas parcialmente verdade. Encerrar a narrativa em 1991, sem uma abordagem mais estruturada do período subsequente, parece limitar excessivamente a análise.

Já se passaram três décadas e meia desde 1991 — um período apenas um pouco mais curto do que o intervalo entre 1953 e 1991. A descrição que Smith faz daquela época é valiosa para quem está fora da Rússia e deseja entender as transformações no cotidiano daquele período. No entanto, se o passado parece distante para nós, ele também se torna cada vez mais remoto para os próprios russos.

Hoje, a Rússia — Estado sucessor da URSS — tem uma população de apenas 147 milhões de habitantes. Apenas as pessoas com mais de quarenta anos podem ter alguma lembrança significativa dos últimos anos da União Soviética. Aqueles que tinham dezoito anos em 1991 estão agora com cinquenta e três anos ou mais, constituindo menos de um terço da população. A "eternidade soviética", como observa Smith, foi passageira.

Colaborador

Mike Haynes é historiador econômico e social; entre suas obras, destacam-se Russia: Class and Power 1917–2000 e Productivity.

2 de novembro de 2025

Por que a reforma econômica soviética não conseguiu salvar o sistema

Muito antes de Mikhail Gorbachev, planejadores e economistas soviéticos já debatiam amplamente a reforma econômica. Mas jamais consideraram seriamente a opção de um modelo de socialismo genuinamente participativo e democrático que empoderasse os trabalhadores.

Mike Haynes

Jacobin

Mikhail Gorbachev e seus assessores ainda buscavam novas maneiras de avançar. Eles não faziam ideia de que desencadeariam um processo que levaria o sistema à implosão, como de fato aconteceu. (Sergei Guneyev / Getty Images)

Resenha de Building a Ruin: The Cold War Politics of Soviet Economic Reform, de Yakov Feygin (Harvard University Press, 2024).

Já se passaram cerca de três décadas e meia desde o colapso da União Soviética. Mas seu passado continua a assombrar a esquerda, e sua experiência ajuda a definir o "breve século XX", de 1917 a 1989-91.

Entre 1917 e 1953, o território que hoje conhecemos como União Soviética passou por uma sucessão de crises. A revolução e a guerra civil deram lugar a um período de estabilidade sob a Nova Política Econômica, antes da experiência da coletivização e industrialização, da repressão em massa e da invasão nazista durante as décadas de 1930 e 1940. Após a vitória na guerra, houve uma nova onda de repressão, à medida que Josef Stalin se tornava mais paranoico nos últimos anos de seu governo.

Mas, durante todo esse período, o progresso continuou. Sob o governo de Stalin, como Isaac Deutscher disse de forma memorável, a URSS fez a transição de “uma Rússia que trabalhava com arado de madeira” para uma terra “equipada com armas atômicas”. Depois disso, estabeleceu-se em um padrão de desenvolvimento mais pacífico, como o principal inimigo do Ocidente na Guerra Fria.

Uma nova geração de historiadores está agora investigando seu passado. Yakov Feygin está entre eles. Sua obra Building a Ruin: The Cold War Politics of Soviet Economic Reform examina os tortuosos debates econômicos que ocorreram após a morte de Stalin. No centro desses debates, escreve Feygin, estava a busca por “um sistema econômico melhor e mais flexível” que pudesse começar a fornecer “tanto armas quanto bens de consumo”.

Política da produtividade

Feygin se baseia em material de arquivo que não estava disponível para aqueles de nós que tínhamos idade suficiente para observar alguns desses eventos à distância. Ele também contextualiza a experiência soviética em uma perspectiva muito mais ampla. "Construindo uma Ruína" utiliza a ideia de Charles Maier de que os governos ocidentais responderam à crise internacional criada pela Revolução Russa e às novas condições que se formaram após 1945 buscando uma "política da produtividade" tecnocrática.

Entre 1917 e 1953, o território que hoje conhecemos como União Soviética vivenciou uma sucessão de crises.

A produtividade era o meio pelo qual os Estados podiam fortalecer-se para competir entre si e proporcionar padrões de vida mais elevados para seus cidadãos, mitigando assim a ameaça do conflito de classes. Segundo Feygin, a liderança soviética e seus assessores também internalizaram uma política da produtividade, o que ajudou a moldar os debates econômicos sobre como o sistema deveria ser administrado.

Tenho duas críticas à análise de Feygin. A primeira crítica é que os debates que ele descreve eram frequentemente acompanhados de perto no Ocidente na época, apesar de estarem parcialmente ocultos pelo véu do sigilo soviético. Mas há poucas referências a essas análises contemporâneas.

A segunda crítica, e mais substancial, é que o relato de Feygin me parece subestimar o impacto do mundo exterior sobre os desenvolvimentos internos da URSS. Isso é uma pena, porque uma das mudanças interessantes nos trabalhos recentes sobre a história da URSS e seus satélites tem sido explorar como eles foram “integrados” à economia mundial e as diferentes formas que essa integração assumiu.

Feygin poderia considerar isso uma crítica perversa, porque uma noção vaga do global permeia seu relato. Independentemente do discurso sobre “socialismo em um só país” ou sistemas diferentes, a liderança soviética estava ciente de que seu Estado existia em uma única economia mundial. O sucesso dependeria da capacidade da URSS de mensurar e igualar os níveis de produtividade dos Estados Unidos, da Europa Ocidental e (em breve) do Japão. É fascinante ver Feygin traçar os caminhos pelos quais as novas gerações de economistas soviéticos se tornaram sensíveis ao acompanhamento (e à tentativa de aprender com) os desenvolvimentos no Ocidente.

No entanto, não há uma discussão real que relacione os desenvolvimentos soviéticos a dinâmicas globais mais específicas. Não vemos, exceto incidentalmente, como mudanças específicas no ambiente externo criaram dificuldades e, mais raramente, oportunidades. Os principais marcos da Guerra Fria mal são mencionados.

Criado na década de 1930, o complexo militar-industrial soviético permanece sombrio no pano de fundo desta narrativa. Feygin cita uma observação reveladora do vice-diretor da Agência Central de Estatística: “Em assuntos militares, costuma-se dizer que quem fica para trás está morto. É o mesmo na economia, só que acontece mais lentamente”. Contudo, ele não desvenda essa tensão.

A colocação de vírgulas

Ainda há muito interesse na abordagem de Feygin, ao explorar como diferentes gerações tentaram pensar em maneiras de aprimorar o sistema soviético. Debates econômicos podiam facilmente se transformar em debates políticos, o que às vezes era perigoso para os participantes, embora Feygin mantenha o foco em questões econômicas mais específicas.

Crucialmente, ele não descarta abordagens mais conservadoras dentro desse campo. A maioria dos economistas, gestores e líderes políticos envolvidos não estava satisfeita com o status quo. Eles estavam divididos sobre se formas de mudança mais radicais ou mais restritas representavam o melhor caminho a seguir. Mas ele vê os participantes como pessoas inteligentes que, mesmo que estivessem sob a ótica do regime, ainda assim devem ser levadas a sério.

Debates econômicos podiam facilmente se transformar em debates políticos, o que às vezes era perigoso para os participantes.

Em 1985, a União Soviética tinha uma população de 285 milhões. 66% da população era urbana. Possuía uma força nuclear formidável, além de satélites no espaço e mais de cinco milhões de estudantes no ensino superior. Dirigir esse sistema, apesar de todas as deficiências de seus governantes, era uma tarefa que exigia certo talento. Percebemos, porém, um certo grau de respeito mútuo que se desenvolveu à medida que os ocidentais se deparavam com seus homólogos soviéticos.

A análise de Feygin sobre os argumentos econômicos acerca da natureza do sistema soviético divide-se em quatro partes. Primeiramente, ele discute a criação do sistema econômico stalinista. Este foi construído em torno do impulso para industrializar a economia e fortalecer a indústria pesada e o poderio militar.

As preocupações pragmáticas predominavam. A teoria econômica era pouco mais que uma política racionalizada, baseada na vaga ideia da “lei do desenvolvimento proporcional planejado” e em debates (como Feygin coloca) sobre “a colocação de vírgulas nos Problemas Econômicos do Socialismo na URSS de Stalin”.

A industrialização exigia investimento e a supressão do consumo. Violava a lógica de mercado e, se reduzíssemos a lei do valor à ideia restrita de relações de mercado, isso significava que a lei aparentemente não se aplicava na URSS.

Ou será que aplicava? Nem a liderança nem os economistas da época conseguiam chegar a uma conclusão. Com o tempo — em parte impulsionados pelo próprio Stalin — eles se inclinaram para o argumento de que talvez, afinal, fosse verdade.

A recuperação

A segunda fase foi a dos anos de Nikita Khrushchev. Externamente, o principal concorrente da URSS passou a ser os Estados Unidos. Houve também um novo grau de competição interblocos, impulsionada pelos satélites da Europa Oriental, e os líderes soviéticos vislumbraram oportunidades crescentes de influência no mundo em processo de descolonização.

A competição global deslocou-se mais para a competição militar de alta tecnologia e para uma competição econômica generalizada, com o objetivo de "alcançar e ultrapassar" o Ocidente e vencer a batalha mais ampla por influência. Internamente, a economia também havia crescido em escala e complexidade, e a privação dos anos stalinistas deu lugar a uma maior ênfase no consumo.

Abriu-se uma oportunidade para a "economia" como disciplina, e os economistas encontraram espaço em novas instituições. Começaram a debater a alocação de recursos entre os ramos da economia, o papel das empresas e melhores maneiras de adequar a oferta à demanda ou aumentar a eficiência e a qualidade da produção.

Os líderes soviéticos visavam manter o planejamento, ao mesmo tempo que aprimoravam sua operação utilizando ferramentas matemáticas e econométricas mais sofisticadas.

Durante esse período, a questão do funcionamento da lei do valor voltou à tona, e os planejadores retomaram cautelosamente a discussão sobre o papel do planejamento e do mercado na política econômica. Na prática, isso culminou nas reformas econômicas de Kosygin, de 1964 a 1969, após a queda de Khrushchev, que buscaram flexibilizar o sistema.

A terceira fase foi a dos anos de Leonid Brezhnev. Quando as reformas de Kosygin não produziram as melhorias esperadas, a atenção se voltou para a possibilidade de incentivar uma “revolução científico-técnica” que impulsionasse a economia. Sob Brezhnev, havia o desejo de estabilidade política. No entanto, por meio do desenvolvimento da revolução científico-técnica, os líderes soviéticos visavam manter o planejamento, aprimorando seu funcionamento com o uso de ferramentas matemáticas e econométricas mais sofisticadas, obtendo, ao mesmo tempo, mais recursos e mais recursos financeiros.

Os teóricos soviéticos, e aqueles envolvidos em níveis mais práticos, puderam se inspirar em desenvolvimentos semelhantes no Ocidente. Na época, muito se falava sobre um certo grau de convergência entre os sistemas econômicos do Leste e do Oeste, e isso não era apenas conversa fiada. Economistas soviéticos de alto escalão, embora frequentemente a portas fechadas, tentavam acompanhar os desenvolvimentos e se reunir com seus pares ocidentais, especialmente na área de pesquisa em gestão.

Contudo, essa fase também não produziu resultados satisfatórios. A questão das proporções econômicas persistia, assim como a escassez no sistema soviético. Parecia haver retornos decrescentes sobre o investimento. Com pouca flexibilidade nos preços, sempre havia consumidores capazes de comprar o que quer que chegasse ao mercado, e as filas eram uma parte comum do cotidiano.

Jogando o jogo

Com a ascensão de Mikhail Gorbachev, houve uma nova tentativa de revitalizar o sistema, desta vez inclinando-se novamente para as reformas de mercado. "Construindo uma Ruína" é um título provocativo porque, em 1985, a URSS estava longe de ser uma ruína. Gorbachev e seus aliados ainda buscavam novas maneiras de avançar. Eles não faziam ideia de que desencadeariam um processo que levaria o sistema à implosão, como de fato aconteceu.

Com a ascensão de Mikhail Gorbachev, houve uma nova tentativa de revitalizar o sistema, desta vez inclinando-se novamente para as reformas de mercado.

O relato de Feygin sobre o desfecho final é um tanto superficial. Ele descreve brevemente como as reformas saíram do controle com a formação de novos grupos de interesse. Talvez fosse melhor para o autor ter refletido mais sobre como dar sentido aos processos mais amplos que descreve, em vez de terminar com alguns comentários casuais sobre sua relevância para a China.

Mas isso não deve nos impedir de reconhecer o interesse de sua discussão central. Então, o que uma esquerda crítica pode aprender com isso?

Os críticos do socialismo argumentam que é uma fuga dizer que a URSS não era socialista. Mas parece claro que, na prática, aqueles que administravam o sistema estavam tentando vencer o capitalismo em seu próprio jogo. Eles não estavam apenas aprisionados em uma lógica competitiva, mas também limitados por seus horizontes restritos.

É claro que isso não nos diz o que era o sistema econômico soviético. Fazer essa pergunta, como alguns fizeram na URSS, era sair da ordem dominante e atrair represálias. O trabalho dos economistas que Feygin discute era ajudar o sistema a funcionar melhor.

No entanto, mesmo alguns daqueles que estavam no centro desses debates "internos" não puderam deixar de se perguntar exatamente o que era a URSS. Feygin cita, em particular, Yakov Konrod, que passou quatro décadas ou mais tentando pensar não apenas sobre reformas, mas também sobre relações de valor e a questão da alienação e da exploração no sistema soviético (o livro de David Mandel sobre Konrod, Democracy, Plan, and Market,, não é citado, porém). No fim das contas, a URSS e o bloco liderado pelos soviéticos entraram em colapso, tornando-se a “ruína” mencionada no título de Feygin. Não conseguiram alcançar (muito menos ultrapassar) o Ocidente e falharam em satisfazer as aspirações de sua própria população. A ideia de socialismo de cima para baixo, dirigido por um plano, não se recuperou de fato. Quando pensamos, portanto, em ir além do capitalismo, devemos pensar em fins diferentes, bem como em meios diferentes.

Um sistema participativo de baixo para cima pode ser problemático de diversas maneiras, mas precisa envolver as pessoas. Na URSS, os trabalhadores soviéticos nunca foram os agentes conscientes de seu próprio destino. Eles figuravam apenas como uma restrição e, possivelmente, quando se revoltavam, como em Novocherkassk, em 1962, onde as tropas mataram duas dezenas de pessoas e feriram setenta (várias outras foram executadas posteriormente). Feygin menciona Novocherkassk, mas é revelador que, embora “consumo” e “bens de consumo” sejam frequentemente citados em seu índice, “trabalhadores” não apareçam em nenhum momento.

Colaborador

Mike Haynes é um historiador econômico e social cujas obras incluem "Russia: Class and Power 1917–2000" e "Productivity".

17 de julho de 2017

Violência e revolução em 1917

A violência revolucionária de 1917 empalidece em comparação com aquela nas frentes da Grande Guerra.

Mike Haynes


Pintura de Pyotr Ossovsky Leonid Li / Flickr

Tradução / Vivemos em um mundo de violência e não podemos deixar de tratá-la politicamente.

Em 1917, a violência da guerra espalhava-se por toda parte. Perto do final da sua História da Revolução Russa, Trotsky escreveu:

“Não é notável que aqueles que falam com mais indignação sobre as vítimas da revolução social são geralmente os mesmos que, se não diretamente responsáveis pelas vítimas da Guerra Mundial, as prepararam e glorificaram, ou ao menos as aceitaram?”

Relatos registram o número de mortes civis e militares durante a I Guerra Mundial entre 15 milhões e 18 milhões. No fim de 1917, um médico socialista calculou que “a louca corrida da carruagem da morte” levou a “6.364 mortes por dia, 12.726 feridos e 6.364 inválidos”. Sua precisão é provavelmente falsa, mas seu senso de escala não. As pessoas morreram em combates assim como de fome e doenças que os acompanhavam.

A Revolução de Fevereiro estourou na 135ª semana da guerra. A de Outubro chegou na 170ª. Nos cerca de 250 dias desse meio-tempo — que alguns historiadores descrevem como um período de massacre revolucionário, com talvez 2.500 mortes —, na Europa, o número de possíveis mortes chegou a estarrecedores 1,5 milhão.

Menos pessoas morreram nos fronts orientais entre Fevereiro e Outubro, mas a taxa de mortalidade ainda assim alcançou a marca de cem mil. Essa relativa paz aconteceu principalmente devido às tropas russas terem começado a se desmantelar, algumas vezes atirando em quem tentava deter sua retirada. Assassinatos cometidos para escapar da morte e evitar que outros morressem: a violência é uma coisa complexa.

E atua em diversas direções. Em maio de 1917, trabalhadoras das lavanderias de Petrogrado entraram em greve. Elas tentaram forçar suas companheiras a abandonar o trabalho jogando água nos fornos e nos ferros de passar. Alguns de seus patrões, por sua vez, usaram água fervente contra as grevistas, ameaçando-as com ferros de passar roupa, tições e até revólveres.

É verdade que nenhuma verdadeira revolução social ocorreu sem derramamento de sangue. Mas grande parte da violência vem depois, quando a velha ordem, a princípio desorientada, começa a contra-atacar.

Em 1917, a escala da violência foi modesta se comparada à brutalidade da I Guerra ou da iminente Guerra Civil. É possível encontrar até exemplos de revolucionários tratando seus inimigos com generosidade – atitudes tolas, já que seus beneficiários rapidamente se juntavam à contrarrevolução armada.

É muito simplista afirmar que “violência gera violência”. Faremos melhor se analisarmos alguns dos mitos sobre a revolução e sua violência.

A sangrenta revolução sem derramamento de sangue

A Revolução de Fevereiro parecia ter obtido o mais amplo apoio, mas foi extremamente violenta comparada a outros eventos daquele ano. Exército e polícia atiravam nas multidões, e algumas vezes, as multidões respondiam atirando. Soldados atiravam em outros soldados.

A maioria dos relatos dão conta de cerca de 1.500 mortos em Petrogrado, mas provavelmente este número está subestimado. Aqueles que tombaram em defesa da revolução foram homenageados com o maior funeral já visto. Quase metade da cidade – um milhão de pessoas – compareceu.

A velha ordem havia partido. As multidões lamentavam e homenageavam as vítimas com um recém-descoberto sentimento de irmandade. Ainda hoje, tendemos a enxergar Fevereiro de maneira positiva, talvez por causa da forte mudança de ânimos que ocorreria nos meses seguintes.

O novo governo provisório – muito à esquerda em relação ao resto do mundo – queria estabelecer a mais avançada forma de democracia liberal imaginável, mas teria que fazê-lo sobre as ruínas da velha ordem czarista.

Alexander Kerensky escreveu posteriormente que “por toda a extensão da Rússia não apenas não existia nenhum poder governamental, mas literalmente nenhum policial”. As prisões foram abertas em Fevereiro e não apenas prisioneiros políticos, mas milhares de criminosos foram libertados.

O governo tentou estabelecer novas polícias, novas instituições e novas organizações, incluindo milícias populares, para manter a paz. Concedeu anistias, aboliu a pena de morte e garantiu o direito de reunião.

Ele também se tornou uma ponte entre proprietários e proletári. E aí residia o problema: as elites queriam um tipo de ordem e o povo, outro. Alguns dias após a abdicação do czar, um oficial escreveu “eles (os soldados rasos) acham que as coisas deveriam ser melhores para eles e piores para nós”. Os dois lados entraram em conflito sobre o que significava justiça e ordem, e que tipo de força seria necessário mobilizar para assegurá-las.

Em abril, o príncipe L’vov, então primeiro ministro, enviou circulares implorando às pessoas que parassem de cometer crimes. É necessário, dizia ele, “colocar um fim a toda manifestação de violência e roubos com todo o poder da lei”. Isso incluía roubos nas ruas, mas também deter os “roubos” de terras cometidos por camponeses contra os proprietários do campo.

Estabelecer a ordem era quase impossível. Pressões locais forçavam as novas autoridades a agir – ou deixar de agir – de maneira a enfraquecer as instruções de Petrogrado. De modo que mais tarde, em outubro, apenas trinta e sete das cinquenta províncias da Rússia Europeia contavam com as novas milícias policiais. Enquanto isso, grandes setores das forças armadas começavam a ficar inquietas.

Um mundo de cabeça para baixo

Em um dia de Fevereiro, um criminoso esperto roubou uma casa alegando que era de um comitê revolucionário. Outros rapidamente seguiram seu exemplo. As taxas de criminalidade aumentaram por todos os lugares.

Em Outubro, John Reed escrevera: “as colunas dos jornais [de Petrogrado] estavam cobertas com detalhes dos mais audaciosos roubos e assassinatos, e os criminosos ficavam impunes”. As pessoas pararam andar com itens de valor e reforçaram suas portas. Os criminosos brincavam que eles é que precisavam de proteção da polícia pois eram os únicos que tinha algo digno de ser roubado.

O colapso do exército tornou-se um problema ainda maior. Onde permaneceu, manteve a ordem, mas o controle escapou do governo provisório para as mãos dos revolucionários. Enquanto isso, deserções em massa levaram ao crescimento da violência na medida em que gangues de soldados saqueadores tentavam voltar para casa ou sobreviver na marginalidade da vida na cidade.

O maior problema, entretanto, era que a revolução havia virado o mundo de cabeça para baixo. A velha Rússia do respeito e deferência havia desaparecido. Pessoas que usavam seus uniformes civis e militares, suas fitas, condecorações, broches e patentes em todo lugar, agora não podiam sair de casa sem correr o risco de sofrer violência.

Em um primeiro momento, a elite olhava o desdobramento dos eventos de cima com uma satisfação irônica. “A revolução era vista pelas camadas inferiores como algo semelhante a um carnaval oriental”, escreveu um contemporâneo, “criados, por exemplo, desapareciam por dias inteiros, passeando com suas fitas vermelhas, dirigindo automóveis, e chegavam em casa pela manhã somente para se lavarem e saírem para farrear de novo”.

Mas os ânimos mudaram quando começou a ficar claro que a revolução não ia parar. As massas deixaram de mostrar-se resignadas e patrióticas, agradecidas por migalhas. Agora, vestidas com farrapos sujos, elas começaram a fazer exigências. Elas resmungavam, tossiam, cuspiam e falavam palavrões. Ao invés de um “mito patriótico”, disse Trotsky, o povo tornou-se “uma terrível realidade”.

Nota-se o clima diferente na maneira em que observadores descreviam o povo. Os heróis de Fevereiro agora eram retratados como uma turba ignorante.

Quando Vladimir Nabokov, um elegante Democrata Constitucional, descreveu os dias de Julho em Petrogrado, disse que as pessoas tinham “os mesmos rostos insanos, animalescos e estúpidos, que todos lembramos dos dias de Fevereiro”. Eles representavam uma “destruidora torrente dos elementos desencadeados”.

Os privilegiados diziam, sem nenhuma ironia, “não façam conosco o que fizemos com vocês”. Quando comunidades camponesas apropriavam-se de terras, eles distribuíam-nas igualitariamente. Em alguns casos, os camponeses davam ao seu antigo proprietário uma fração da terra. Ao ver seu casarão ser queimado pelos revoltosos, ele provavelmente considerava isso uma humilhação. Mas, para os camponeses, tratava-se de um ato genuíno de justiça.

Quando oficiais presos reclamaram das condições da fortaleza de Kronstadt, seus novos carcereiros justificaram: “é verdade que as instalações de Kronstadt são horríveis, mas são as mesmas das prisões construídas pelo czarismo para nos encarcerar”.

Trotsky, que havia sido preso pelo Governo Provisório, ficou perplexo quando, em outubro, os apoiadores do governo suplicaram para que ele não encarcerasse os ministros nos mesmo lugares em que ficara preso; ele então permitiu a prisão domiciliar por um período.

A Revolução de 1917 não se limitou a questões abstratas de lei e ordem: o povo travou verdadeiras batalhas a respeito de qual lei e ordem iria governar o país.

Terra de quem?

A lei emerge das estruturas políticas e sociais. Um jornal insistia que “os princípios mais fundamentais da sociedade são a segurança pessoal e o respeito à propriedade privada”, mas o cartaz de uma manifestação dizia “o direito à vida é maior que o direito à propriedade privada”.

A questão da posse de terras tornou-se o embate mais intenso.

A maioria dos camponeses acreditava que os senhorios usavam o poder do Estado para tomar suas terras. “A posse de terra como propriedade é o menos natural dos crimes”, mas “esse crime é julgado como direito pelas leis humanas”, escreveu um camponês autodidata. “A injustiça da posse privada de terras é inevitavelmente atrelada às diversas injustiças e maldades necessárias para a sua proteção”. Retomar as terras tornou-se um ato de restituição.

Alguns membros das agências locais do Governo Provisório concordavam com esse ponto de vista, mas os proprietários obviamente não. Em Petrogrado, o governo equivocadamente prometeu uma reforma agrária dentro da legalidade para o futuro. Os radicais encararam de uma forma diferente.

“Existe uma contradição básica entre o que nós e nossos oponentes compreendem como ordem e lei”, disse Lenin:

“Até agora, eles acreditavam que lei e ordem estavam de acordo com os interesses de proprietários de terra e burocratas, mas nós asseguramos a lei e a ordem de acordo com os interesses da maioria camponesa […]. O importante para nós é a iniciativa revolucionária; a lei deve ser resultado disso. Se você esperar que a lei seja escrita e não desenvolver sua própria energia revolucionária, ficara sem lei e nem terra”.

Essa crença exigia um novo sistema legal vindo dos de baixo.

Em Estado e Revolução, Lenin trabalhou em cima desse extraordinário argumento. Para lidar com excessos e crimes, ele escreveu:

“Um aparato de repressão especial não é necessário; isso será resolvido pela própria população armada com a mesma tranquilidade e calma com a qual um grupo de pessoas civilizadas nas sociedades contemporâneas separa brigões ou não permitem violência contra a mulher”.

Maxim Górki discordava, citando momentos em que viu pessoas nas aldeias camponesas participando alegremente de atos de violência, inclusive contra mulheres. Historiadores têm, em sua maioria, concordado com Górki, dando pouca atenção ao que esse conflito entre nova e velha ordem de fato produziu.

Após Fevereiro, novas forças da ordem começaram a aparecer. Sovietes e comitês de fábricas cresceram em número e passaram a organizar suas forças, ainda que inadequadamente. Em Kronstadt, visto por alguns como a personificação da brutalidade revolucionária, o soviete e os comitês fecharam bordéis, proibiram a embriaguez em público e até jogos de cartas.

Formaram-se milícias compostas por trabalhadores separadas daquelas que seguiam ordens do governo provisório. Estas milícias apareceram espontaneamente em Petrogrado e em alguns outros lugares. Talvez, com algum exagero, o Pravda afirmou que, devido a estes grupos, “o vandalismo desapareceu das ruas como poeira levada por ventos de tempestada”.

No final de março, enquanto o governo tentava criar sua própria força policial, os trabalhadores criavam mais Guardas Vermelhas, especialmente em Petrogrado. Seu número variava ao longo do tempo, mas explodiu em Outubro. Às vésperas da revolução, podiam ser encontradas por toda a Rússia.

Jovens e inexperientes, mas possivelmente mais eficientes que a desmoralizada milícia civil, esses oficiais serviam de exemplo para uma ordem alternativa. “A imprensa acusa a milícia de atos de violência, requisições e detenções ilegais” escreveu Trotsky:

“Sem dúvidas a milícia empregou violência: ela foi criada para isso. Entretanto, seu crime consistiu em fazer uso dessa violência ao lidar com representantes de uma classe que não estava acostumada a ser objeto da violência e tampouco pretendia acostumar-se”.

Os revolucionários também convocaram unidades do exército pró-bolcheviques, e, em Petrogrado, elas desempenharam um papel-chave em Outubro.

O choque de visões de mundo aparecia na forma como esses soldados foram descritos. O Governo Provisório os considerava “não confiáveis”, mas para os que empurravam a revolução adiante, as “unidades não confiáveis” eram os que ainda apoiavam o governo.

Ordem a partir de baixo

Em sua busca por ordem, o Governo Provisório voltou-se para o uso da violência. Ele transformou as agitações contra a guerra no front em crime punível com trabalhos forçados. Kerensky lançou uma ofensiva na esperança de ajudar os esforços de guerra dos Aliados e encorajando a manutenção da ordem interna, mas muitos soldados se recusaram a combater. Então, em julho, em manifestações de rua turbulentas realizadas em Petrogrado, cinquenta e seis pessoas morreram.

O governo considerou os Dias de Julho uma tentativa de golpe. Trotsky foi preso e Lenin obrigado a se esconder. O exército reintroduziu a pena de morte no front, mas levou a cabo poucas execuções porque as próprias tropas se opuseram e elas.

As classes superiores começaram a ver no comandante-em-chefe, General Kornilov, um grande líder. Quando sua aposta pelo poder falhou, a situação tornou-se ainda mais tensa. As expropriações de terras aumentaram no campo e o governo enviou suas poucas tropas confiáveis para detê-las.

Os eventos de Outubro contrastaram fortemente com a violência caótica de Fevereiro. Talvez, quinze pessoas morreram em Petrogrado, com mais de cinquenta feridos. O Governo Provisório se transformou em uma casca vazia. “Estamos cheirando podre”, disse um ministro. A violência foi contida devido ao surgimento de um novo poder – o soviete.

Na segunda, 22 de outubro, o regime de Fevereiro testemunhou centenas de milhares tomarem as ruas para comemorar o Dia do Soviete de Petrogrado. Se conflitos sérios tivessem ocorrido, o frágil governo poderia ter convocado um apoio armado de, no máximo, 25 mil homens. Pelo menos, cem mil soldados estavam preparados para lutar pelo soviete.

De fato, os revolucionários assumiram o controle da situação de forma notavelmente ordeira. O soviete preparou cartazes dizendo o seguinte:

“O Soviete dos Deputados dos Trabalhadores e Soldados assume para si a proteção da ordem revolucionária na cidade (…). A guarnição de Petrogrado não permitirá qualquer ato de violência e desordem. A população está chamada a deter arruaceiros e membros dos Centenas Negras e conduzi-los aos comissários do soviete nos quarteis mais próximos”.

Quando o Palácio de Inverno foi tomado, os comandantes bolcheviques pouparam os antigos ministros do fuzilamento e decretaram sua prisão. Soldados revistavam apoiadores, opositores e ladrões comuns para impedir saques.

Em precário funcionamento, o Ministério da Guerra ofereceu congratulações desajeitadas aos revolucionários em um de seus últimos comunicados:

“Os insurretos estão preservando a ordem e a disciplina. Não estão ocorrendo casos de depredações ou pogroms. Ao contrário, patrulhas de insurretos têm detido soldados vadios (…). A insurreição foi planejada com antecipação e, sem dúvida, ocorreu no momento certo e foi levada a cabo inflexível e harmoniosamente”.

Em 26 de outubro, o soviete apelou ao restante da Rússia para aderir à nova ordem: “Toda a Rússia revolucionária e todo o mundo estão olhando para vocês”. Em Petrogrado, as adegas de vinhos foram destruídas para limitar a embriaguez dos vitoriosos.

Uma luta intensa tomou conta de Moscou, e várias centenas morreram. Mas na maioria do país, Lenin diria mais tarde, “nós entrávamos em qualquer cidade e proclamamos o governo soviético, e em alguns dias 9 dentre 10 trabalhadores passavam para nosso lado”.

As coisas começaram a ficar violenta na periferia, onde os apoiadores do Governo Provisório puderam utilizar segmentos do antigo exército para resistir à revolução. Foi nesses lugares que o derramamento de sangue foi maior.

Aprendendo a ser cruel

Revoluções são atos violentos, mas a violência tem diversos aspectos. No início de 1918, a Revolução Russa parecia ter sido vitoriosa. Ela clamava pela paz e pedia ao povo que se levantasse para obtê-la.

Mas as potências europeias não queriam paz e nem tampouco uma revolução vitoriosa na soleira de sua porta – as Potências Centrais romperam o armistício e voltaram sua violência para o front oriental. Elas também apoiaram a violência contrarrevolucionária no interior da Rússia. De fato, sem ajuda externa, é difícil imaginar como a guerra civil teria se sustentado.

No final de 1917, o antigo comandante-em-chefe, general Alekseev, convocou forças anti-bolcheviques a se reunirem em Don e em Kuban. Em fevereiro de 1918, apenas 4 mil soldados se apresentaram. No ano anterior, havia cerca de 250 mil oficiais nas forças armadas. Aparentemente, pouquíssimos desejavam continuar lutando.

Sem maior ajuda do exterior, esses contrarrevolucionários não teriam confiança ou meios para continuar sua guerra. Neste contexto, como diria Trotsky mais tarde, a revolução também teve que aprender a ser cruel.

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