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26 de janeiro de 2024

Primeiro líder do MST criado em assentamento vê Lula mais distante e cobra alma

Agricultor e cientista social, João Paulo Rodrigues defende que movimento capitaneie uma "revolução verde" em 7 anos

Guilherme Seto
Nicollas Witzel

Quando tinha dez anos, João Paulo Rodrigues cumpriu sua primeira missão no MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

Em 1990, coube a ele e a um primo da mesma idade correr 5 km, atravessar um riacho a nado, reunir as famílias despejadas de um acampamento no Pontal do Paranapanema e repassar as instruções da cúpula do MST sobre o local para onde deveriam rumar —os agentes tentavam dispersá-las e diziam que elas deveriam voltar para suas cidades de origem.

Hoje com 44 anos, Rodrigues é a principal liderança da segunda geração do MST, a primeira a ter sido criada em assentamentos. Os antecessores que fundaram o MST em 1984, em Cascavel (497 km de Curitiba), formaram-se em grupos religiosos, sindicatos e outros movimentos rurais.

João Paulo Rodrigues, dirigente nacional do MST, durante entrevista à Folha - Bruno Santos-7.jun.2022/Folhapress

No MST, que chega aos 40 anos neste janeiro, ele tem ocupado funções de comando desde a adolescência e atualmente é responsável pela articulação política. Entre os representantes de movimentos sociais, é um dos mais próximos ao presidente Lula (PT).

Essa conjunção de fatores o levou a ocupar a posição de coordenador de mobilização popular da campanha de Lula em 2022, quando ficou encarregado de elaborar estratégias de disseminação do nome do petista para além dos marcos da comunicação oficial.

Hoje, diz à Folha, MST e Lula estão mais distantes. Diferentemente do esperado, o presidente ainda não recebeu o movimento e não visitou assentamentos.

O dirigente camponês afirma que o movimento precisa ter consciência de que não está no governo, apesar de apoiá-lo. Ao mesmo tempo, diz ele, o presidente também tem que compreender as manifestações dos sem-terra, que classificam 2023 como o pior ano em número de assentamentos em quatro décadas. E tem que entender também os protestos e as invasões (chamadas pelos sem-terra de ocupações).

Rodrigues se define como um agricultor. Enquanto membro da segunda geração do MST, foi encorajado a estudar e tem diplomas de técnico agrícola e de ciências sociais.

João Paulo Rodrigues, do MST, com quadro que leva imagem de Che Guevara - Patricia Santos-9.mai.2001/Folhapress

A cada 20 dias, ele parte para seu terreno no assentamento Gleba 15 de Novembro, no extremo oeste paulista, para "tocar a roça". No restante do tempo, fica na capital ou viaja para atividades do MST.

"Lá tem pato, ganso, galinha d’angola, pavão, peixe, porco, cavalo. Sou especialista em criação de carneiro e de porco. E o que me dá mais renda é o leite e a mandioca."

O surgimento da Gleba foi um marco na disputa agrária no estado. Em 1984, o então governador Franco Montoro (PMDB) desapropriou uma área grilada reivindicada pelos sem-terra no Pontal do Paranapanema, um dos epicentros dos conflitos por terra no país, e a estabeleceu como primeiro assentamento de São Paulo.

Após dois anos acampada, a família Rodrigues então foi assentada. João Paulo é filho de Valmir Rodrigues Chaves, mais conhecido como Bill, ex-meeiro da cafeicultura no Paraná e pioneiro do MST na região.

Nessa época, formou-se politicamente no movimento e na convivência com petistas em ascensão –o PT surgiu em 1980, quatro anos antes do que o movimento dos sem-terra.

"Vi o Lula pela primeira vez nessa época, o [Luiz] Gushiken, o [José] Genoino, porque eles iam lá em casa. Com oito anos, eu tinha relação com todos esses papas da política", rememora. Ele afirma que participou de quase todas as invasões no Pontal nesse período. Com 16 anos, já coordenava ações de repercussão.

Rodrigues afirma que a juventude em assentamentos lhe deu visão privilegiada e desapaixonada da experiência sem-terra. Ele diz que lembra com nitidez da sensação da lona da barraca sobre si quase derretendo no verão e pingando gotas geladas no inverno.

"Não tem glamour. Nossa luta radicalizada não é componente ideológico, é questão de sobrevivência. Quando a gente ocupava terra, fazia saques, fechava rodovia, era para resolver o problema da minha subsistência como sujeito que estava fazendo reforma agrária. A consciência política de que aquilo estava dentro de uma atuação maior vem depois das ocupações", argumenta.

Nos anos seguintes, Rodrigues ascenderia na burocracia. Em 2002, interrompeu o curso de filosofia na Universidade Metodista para coordenar o escritório do MST em Brasília. Na ocasião, ganhou projeção ao tomar a frente nas negociações da ocupação da fazenda da família do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), localizada em Buritis (MG).

Ele ainda ficaria responsável pela juventude e pelas relações internacionais do MST antes de ser alçado ao posto de articulador político. Em 2014, concluiu o curso de ciências sociais na Uninove (Universidade Nove de Julho), em São Paulo.

Rodrigues já estava entre os principais líderes do MST durante o governo da petista Dilma Rousseff (2011-2016) quando o movimento promoveu uma clivagem em seu projeto.

Diante da desilusão com as administrações petistas, o MST diagnosticou a falência da batalha pela reforma agrária clássica, baseada em tentativa de aliança com os setores industriais mais progressistas, e abraçou um programa de reforma agrária popular, alicerçado no desenvolvimento agroecológico e no enfrentamento do latifúndio e das empresas transnacionais.

João Paulo Rodrigues, do MST, durante evento do 1º de Maio com o presidente Lula (PT) - Amanda Perobelli-1.mai.2023/Reuters

Rodrigues é um dos principais entusiastas da reforma agrária popular no MST. Ele diz que os próximos sete anos, contando com uma reeleição do PT, são a janela de oportunidade para que o MST proponha um modelo de agricultura alternativo ao agronegócio para o país. Uma "revolução verde no campo".

"Nas bases do MST há 10 milhões de hectares. Se conseguirmos ter nessa cadeia produtiva agroindústrias de sementes, parcerias de bancos, e conseguirmos avançar em ter toda a produção agroindustrializada e beneficiada, poderemos ser uma das maiores organizações de produção de alimento do mundo", afirma Rodrigues.

A ideia é produzir sem agrotóxicos, com o mínimo de participação de máquinas pesadas, no modelo cooperativado, e não somente familiar. O MST possui hoje 185 cooperativas, e de algumas delas saem as produções mais massivas do movimento, como a de arroz orgânico e de leite.

Um desafio para o MST é conseguir dominar toda a cadeia de um produto, da criação à comercialização. No caso do leite, a estimativa é que, dos 7 milhões de litros que o movimento produz por dia, 6 milhões sejam entregues puros para a indústria tradicional, que então concentra o lucro.

Na cadeia do suco de uva, o movimento discute a instalação de uma fábrica de vidro no Rio Grande do Sul para envasar os 3 milhões de litros por safra, além de vinho e geleia. A ideia é buscar apoio do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento).

Mais do que os antecessores, Rodrigues tem uma preocupação própria com o papel do MST nas guerras culturais. É nesse sentido que ele defende a persistência das ocupações. Segundo ele, elas e as greves são "irmãs gêmeas da radicalidade", às quais camponeses e trabalhadores recorrem pelo contínuo efeito de novidade.

As ocupações ajudariam, então, nas tarefas que o MST tem de propor o debate sobre o direito à terra e manter vivo o sonho da "sociedade socialista", de "plantar a semente de que nós vamos ser iguais", "sem explorado e sem explorador", diz Rodrigues.

Foi nesse campo da "disputa dos imaginários" que o MST fez uma aposta pela aproximação com a sociedade civil, por meio de ações como doações de alimentos e de sangue, e pelo estreitamento de laços com os grupos LGBTQIA+, negros e indígenas. É o MST que vende milhares de camisetas e bonés por mês.

"Sempre negamos na história do MST ser uma organização identitarista, ongueira, de flertar com setores médios, etc. Mas a crise do movimento clássico, sindical, partidário, nos ‘obrigou’ a ter outros canais com quem está falando com o povo", diz.



João Paulo Rodrigues (dir.), coordenador do MST, com indígenas acampados na Câmara dos Deputados - Alan Marques-19.abr.2004/Folhapress

"Não perdemos a irmandade com CUT, PT, PDT, e procuramos novos atores que estão fazendo luta sem nenhum preconceito", completa. "Para enfrentar um agro que é pop, temos que construir uma luta."

Nesse aspecto, o governo Lula tem falhado, avalia. Para além de não ter registrado avanços significativos nos programas –"não acho razoável que não se tenha sinalizado qual é o modelo de reforma trabalhista que teremos"–, a gestão petista não tem dado espaço para a participação popular e não tem produzido simbologia no trato da política social, afirma Rodrigues.

"Gosto muito dos eventos que são feitos no Palácio do Planalto, mas não acho simbologia nenhuma (...) Preciso de um Lula mais próximo de atividades populares para ele ouvir, sentir e sinalizar", cobra.

Rodrigues conta que um ministro lhe disse que o governo vai bem, "mas sem alma", com o que ele concorda.

"Preciso saber para onde ele está indo para eu convencer outros. Não consigo ver só pelo Lula internacional ou só pela Fazenda. Preciso que este governo nos dê elementos para fazer assembleias e discutir políticas públicas nos acampamentos ou nas pequenas cidades", conclui.

22 de janeiro de 2024

Rainha se tornou face pública das invasões e teve ruptura nebulosa com MST

Capixaba comandou sem-terra no ápice dos conflitos no extremo oeste paulista na década de 1990

Guilherme Seto
Nicollas Witzel

Folha de S.Paulo

Um dos rostos mais conhecidos da história do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), José Rainha Júnior, 63, também é um dos personagens mais controversos do grupo em suas quatro décadas, completas neste janeiro. Entre militantes, ele é tratado com admiração, respeito, desconfiança e decepção, muitas vezes pela mesma pessoa.

A fama que acompanha Rainha é a de comandante carismático das frentes de massa —o agrupamento de pessoas para uma invasão (ou ocupação, como dizem os sem-terra). Perseguições, prisões e tiroteios compõem a lenda do capixaba de São Gabriel da Palha (200 km de Vitória), cujas histórias seguem sendo compartilhadas pelos camponeses.

"Tem que ter coragem e audácia para ser liderança de massas. Se parar para pensar sobre o medo, você não faz nada", diz ele.

Por outro lado, as atitudes também despertaram o receio de dirigentes do movimento de que essa ousadia colocasse os sem-terra em risco e estigmatizasse a luta pela reforma agrária se fosse mal dosada.

José Rainha Júnior durante entrevista à Folha em sua casa no Mirante do Paranapanema, no extremo oeste do estado de São Paulo - Nicollas Witzel-12.dez.2023/Folhapress

Rainha teve uma ruptura nebulosa com o MST, que se arrastou de 2003 a 2007. Em 2014, fundou a FNL (Frente Nacional de Luta Campo e Cidade), cuja proposta é aglutinar movimentos sociais que brigam por moradia nas zonas rurais e urbanas.

Ele comanda a frente a partir de sua casa em um assentamento no Mirante do Paranapanema (610 km de São Paulo), cidade do Pontal do Paranapanema, na divisa de São Paulo com o Paraná, que foi o epicentro do conflito agrário do qual ele foi um dos protagonistas na década de 1990.

É nela, sob um gazebo ao lado de um pequeno lago, que ele recebe a Folha, cercado de objetos da sua memorabilia militante: uma chaleira que teria pertencido a Luiz Carlos Prestes e um facão enferrujado que ganhou de seu irmão.

José Rainha Júnior, líder da FNL, durante entrevista à Folha na sua casa em Mirante do Paranapanema (SP) - Nicollas Witzel-12.dez.2023/Folhapress

A trajetória de Rainha nos movimentos do campo começou aos 17 anos, em 1978, quando conheceu Frei Betto, frade dominicano adepto da Teologia da Libertação, corrente da Igreja Católica que une princípios cristãos a uma ótica de esquerda. O religioso atuou pela construção das Comunidades Eclesiais de Base no Espírito Santo logo após deixar a prisão no regime militar.

A família de Rainha morava em Linhares (ES), havia perdido o terreno que possuía e tinha se tornado meeira na cafeicultura, ou seja, trabalhava em terras alheias e repartia os rendimentos. Nesse contexto precário, as falas do religioso sobre reforma agrária levaram-no a se juntar à Pastoral da Juventude, onde aprenderia a ler e a escrever.

Depois de passagem pelo sindicalismo urbano em São Paulo, Rainha se juntou ao MST em 1985, por ocasião do primeiro congresso nacional do movimento, em Curitiba (PR). Ele recebeu, então, a tarefa de expandir o MST pelo Nordeste.

De 1985 a 1990, partiu da Bahia e desbravou Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão, montando acampamentos e assentamentos.

Em 1991, assumiu a missão de rumar para o Pontal do Paranapanema, onde a luta dos sem-terra ganhava corpo, mas atingiria novo patamar ao longo da década, com sua contribuição.

Jose Rainha (dir.) conversa com sem-terra após retirada de cerca de fazenda de ex-sócio do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) - Flávio Florido-20.set.2000/Folhapress

Localizada no extremo oeste paulista, a região engloba 32 municípios e transformou-se em um dos principais focos de conflito de terra no país devido a mais de 1 milhão de hectares de terras devolutas que ali se concentram —áreas públicas ocupadas irregularmente que nunca tiveram destinação definida pelo poder público e em nenhum momento tiveram dono particular.

O MST fez sua primeira ocupação na região em 1990, à qual se sucederam dezenas, já com a participação de Rainha. Ele então se tornaria conhecido ao ser apresentado como principal líder sem-terra na região pelos veículos de comunicação de maior alcance.

Com as ocupações, o MST transformou o problema da reforma agrária em pauta nacional. Na mesma época, os massacres de Corumbiara (Rondônia), em 1995, e de Eldorado do Carajás (Pará), em 1996, jogaram ainda mais luz sobre o movimento. No segundo caso, 19 sem-terra foram mortos em ação de policiais militares para desocupar uma rodovia.

Em 1996, a novela "O Rei do Gado", da TV Globo, tematizou a disputa agrária e colocou como um de seus personagens o sem-terra Regino, interpretado por Jackson Antunes. O autor Benedito Ruy Barbosa trocou impressões com Rainha ao longo da exibição da novela para moldar o personagem.

As ocupações e a popularização do MST transformaram Rainha em pessoa visada. Denúncias de ameaças e ataques da UDR (União Democrática Ruralista), entidade de latifundiários recriada no Pontal em reação aos sem-terra, foram frequentes no período.

Ao longo dos anos, Rainha foi preso 13 vezes, nove delas somente no Pontal do Paranapanema. Em 1997, foi condenado a 26 anos e seis meses de cadeia, acusado de participação nos homicídios de um fazendeiro e de um policial em Pedro Canário, no norte capixaba.

Senador Eduardo Suplicy (PT) e José Rainha durante marcha do MST em Brasília - Sérgio Lima/Folhapress

Um dos maiores advogados criminalistas do país, Evandro Lins e Silva, aos 88 anos, assumiu então o caso, a pedido de João Pedro Stedile, fundador do MST, e José Saramago, escritor português. Rainha foi absolvido em 2000, e o principal argumento de contestação foi o de que ele estava no Ceará na data dos assassinatos. O episódio é considerado um marco na história do MST.

Em 2002, ele levou um tiro nas costas do pecuarista Roberto Junqueira, irmão da proprietária de uma fazenda que havia sido ocupada.

Em março do ano passado, Rainha e dois integrantes da FNL, Luciano de Lima e Claudio Passos, foram presos preventivamente por três meses, sob acusação de extorsão de fazendeiros. Relatório da Polícia Civil apresentou prints de conversas pelo WhatsApp, gravações e extratos bancários.

Ele diz que a polícia não tem provas e que foi uma prisão política —o mesmo que afirma sobre as detenções anteriores—, como resposta a nove ocupações de terras promovidas pela FNL no chamado Carnaval Vermelho, em fevereiro de 2023.

"É tudo retórica", diz o líder da FNL, recorrendo a uma frase que repete quando confrontado com alguma informação com potencial desabonador. Segundo ele, são narrativas fabricadas na disputa política, mas que não correspondem à realidade. Nenhum dos processos de que é alvo transitou em julgado até hoje, sublinha.

José Rainha e os advogados Evandro Lins e Silva (esq.) e Luiz Eduardo Greenhalgh após a decisão pela absolvição do líder sem-terra - Ana Carolina Fernandes-20.nov.2010/Folhapress

Durante a entrevista à Folha, a expressão tornou-se um cacoete quando Rainha era perguntado a respeito das muitas idas e vindas das suas articulações políticas. Levaram ao rompimento, além do desgaste com o chamado aventureirismo, que ele nega ("nunca perdi um companheiro comigo na batalha"), as movimentações que destoavam das pautas do MST no momento.

"É um grande líder de massas, e tinha muitas boas contribuições para o MST. Mas começou a tomar atitudes individuais, a fazer coisas por conta própria, sem respeitar o coletivo", afirma Stedile.

Durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Rainha encontrou-se com o presidente sem combinar com o movimento. No livro "Diários da Presidência (1997-1998)", o tucano escreve que Rainha não poderia ser visto e que pediu a reunião para falar que a posição do MST era "mais agressiva" que a dele, que estaria disposto a "mais diálogo".

No governo Lula 1 (2003-2006), Rainha fez gestos para o presidente enquanto a tensão entre o governo e o MST escalavam. Em meio a onda de ocupações de prédios públicos em protesto pela reforma agrária, Rainha posou para fotos com o petista em assentamento na Bahia. Em discurso, o presidente criticou a cúpula do MST e disse que ele e Rainha continuariam companheiros quando deixasse a presidência.

José Rainha e sua esposa na época, Diolinda Alves, em almoço com Lula (PT) em Vitória (ES) - Dado Junqueira-8.fev.1998/Folhapress

A saída de Rainha foi oficializada em 2007, quando o MST distribuiu nota em que afirmava que o ex-membro não falava mais pelo movimento.

Nos últimos anos, Rainha se aproximou da corrente Movimento Esquerda Socialista do PSOL. Em entrevista para revista do MES, em 2020, disse ter sido expulso do MST por não concordar com a adesão à "política de conciliação de classes" proposta por Lula.

Rainha hoje diz que o presidente "é o cara", que de fato não conseguiria governar sem dialogar com todo o campo político e que espera ser recebido por ele. E a conciliação de classes? "Retórica, coisas pontuais. Não tem relevância".

O capixaba diz atualmente que vai levar "para o cemitério" os motivos reais da cisão. A ambição agora é a reconciliação com o MST. E a sua contribuição não é uma novidade.

"Acho que o MST abandonou, ou não valorizou muito, o maior patrimônio que tinha, a frente de massas. Investiu na produção, o que acho correto. É o maior produtor de arroz orgânico. Legal. Mas precisa retomar a sua frente de massas. Se faltar alguém, eu vou para lá", diz Rainha.

Sua proposta é juntar forças, FNL e MST. Organizar ocupações conjuntas. Seria, então, mais uma transição do líder camaleônico: a volta do lugar de onde partiu.

E qual seria o propósito dessa unificação? Segundo ele, colocar um milhão de pessoas acampadas nas ruas para forçar a reforma agrária.

"É isso que eu quero dizer ao MST: a saída está na unidade. E precisamos construí-la. E é por isso que eu sou soldado nessa construção. Porque a história, em determinados momentos, te obriga a tomar caminhos (...) Quando você tiver essa força, é como uma represa. É só soltar. O que estiver na frente, leva".

21 de janeiro de 2024

Stedile viveu reinvenção do MST após desilusão com PT e prevê mais invasões

Economista que virou cabeça do movimento mesclou aproximação e confronto com petistas e afirma que 2024 deve ter aumento de ocupações

Guilherme Seto
Nicollas Witzel

Folha de S.Paulo

João Pedro Stedile, fundador do MST, durante entrevista à Folha no Parque da Água Branca, em São Paulo - Marlene Bargamo-8.mai.2023/Folhapress

As trajetórias de João Pedro Stedile, 70, e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que completa 40 anos neste mês de janeiro, se entrelaçam de maneira inseparável. "Não tenho uma história individual", diz Stedile à Folha na sede nacional do movimento, localizada na região central de São Paulo.

O sobrado foi comprado com recursos da venda do livro "Terra", de 1997, no qual Sebastião Salgado retratou a vida dos sem-terra do país. As fotografias mais impactantes foram feitas nos dias que sucederam o massacre de Eldorado do Carajás, no Pará, em 1996, quando 19 sem-terra foram assassinados por policiais militares.

O fotógrafo viajou para o Norte após Stedile ceder a ele seu lugar em um avião fretado pelo PT. "É mais importante você fotografar a chacina do que eu ir lá como dirigente", reproduz Stedile, lembrando o que teria dito a Salgado, que cederia os direitos autorais do livro ao movimento.

João Pedro Stedile, fundador do MST, durante entrevista à Folha no Parque da Água Branca, em São Paulo - Marlene Bargamo-8.mai.2023/Folhapress

A passagem é ilustrativa da maneira como Stedile tem exercido sua liderança no MST: uma presença em todos os momentos decisivos, mas sem alarde. Não à toa, ele é chamado com frequência de "presidente do MST", cargo que não existe na estrutura. Em 2015, Lula (PT) se referiu ao movimento como "exército de Stedile". Ele é, na verdade, um dos coordenadores nacionais do grupo.

A posição de relevo que ocupa, no entanto, o joga no centro de um conflito com o governo Lula.

Em dezembro, ele classificou 2023 como o pior em número de famílias assentadas em 40 anos, repetindo acusações que fez em outras gestões petistas, e foi rebatido pelo ministro Paulo Teixeira (PT), do Desenvolvimento Agrário. Protagoniza, assim, mais um capítulo das relações ora de confronto, ora de aproximação com políticos petistas.

João Paulo Rodrigues, dirigente nacional do MST, descreve Stedile como franciscano: não tem casa própria, carro ou celular. Tem um computador de mesa, que utiliza para enviar emails, e evita eventos com muitas pessoas.

Sob essa postura, Rodrigues e diversos outros enxergam na figura de Stedile a confluência das linhas de orientação do MST, como a autonomia (sem submissão a partidos), a cautela (contra invasões incertas) e a priorização das bases (os assentamentos estão articulados a direções estaduais e nacional, mas são independentes). Quando saiu desses trilhos, o MST se complicou, afirmam.

Em livros, artigos e entrevistas, Stedile sistematizou uma leitura histórica do MST inspirada na teoria marxista e na Teologia da Libertação, corrente progressista da Igreja Católica, cujos traços são reconhecíveis nas bandeiras e práticas do movimento.

A ênfase na família (em detrimento de indivíduos) como base da mobilização, o entendimento dos assentamentos como espaços de disciplina e de sociabilidade (onde os membros são obrigados a seguir regras rígidas e a estudar) se somam a críticas à burguesia e ao capitalismo.

Filho de pequenos agricultores, Stedile nasceu em dezembro de 1953 em Lagoa Vermelha, no Rio Grande do Sul. Formou-se em economia na PUC-RS e, durante a faculdade, passou em concurso para trabalhar na Secretaria da Agricultura do estado.

Em 1978 e 1979, teve participação decisiva nas invasões (chamadas pelos sem-terra de ocupações) das granjas Macali e Brilhante, reconhecidas como os embriões do MST.

Na ocasião, indígenas kaingangs expulsaram agricultores da reserva de Nonoai, no norte gaúcho. Stedile então convenceu os camponeses a não atacar os indígenas, mas ocupar as fazendas que estavam em terras públicas que haviam sido ilegalmente arrendadas para latifundiários locais –ele sabia disso devido ao seu trabalho no governo estadual.

A ação marcou a retomada da mobilização camponesa no país após a interrupção imposta pelo golpe militar de 1964 e lançou as bases do MST, que seria fundado em Cascavel (PR) em janeiro de 1984. Nesse momento, diz Stedile, a visão do movimento ainda era estreita.

"Achávamos que bastava terra para quem nela trabalha, para sair da pobreza."

Reunião que marcou a criação do MST em janeiro de 1984, em Cascavel (PR) - Acervo de Arquivo e Memória MST

Com o tempo, o diagnóstico ganhou densidade, e ele argumenta que as soluções dos anos seguintes foram os grandes acertos em quatro décadas: a organização da produção para o mercado, as escolas nos assentamentos e a defesa da agroecologia.

Stedile tornou-se o principal articulador político e porta-voz do MST e foi incumbido da tarefa de levar as pautas dos sem-terra para parlamentares e chefes de Executivo.

No caso dos governos petistas, vistos como aliados, a relação tornou-se motivo de tensão. Em alguns momentos, a proximidade gera críticas a uma suposta leniência do MST. Em outros, os protestos são encarados por petistas como traições. Fora do campo progressista, o PT é criticado quando acena aos sem-terra.

Nos governos Lula 1 e 2 (2003-2010), a promessa de campanha da reforma agrária foi abandonada. O PT acenou com a meta de assentar 500 mil famílias (em 1994, eram 800 mil; em 1998, 1 milhão), mas depois a retirou do programa de governo.

Em 2007, Stedile chegou a dizer que o MST havia se iludido com Lula. Dois anos depois, os sem-terra invadiram o Ministério da Fazenda e entoaram cânticos: "Lula, lá, o que aconteceu? Cadê a reforma agrária que você nos prometeu?".

Ainda assim, os governos Lula tiveram 20% menos invasões do que os de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Os tucanos atribuíram o dado a uma suposta postura chapa branca do MST com o PT.

Gilmar Mauro e João Pedro Stedile, dirigentes nacionais do MST, concedem entrevista para contestar dados da gestão FHC - Claudia Guimarães - 9.jan.96/Folhapress

Com Dilma Rousseff (2011-2016), os assentamentos despencaram para patamares inferiores aos das gestões do PSDB. O desencantamento promovido pelos mandatos petistas aliados cristalizou uma mudança nas concepções de Stedile e do próprio MST.

O sonho da reforma agrária clássica, baseada em aliança com os setores industriais mais progressistas para superar o atraso no campo, havia morrido. Seu espaço, então, deveria ser tomado por um programa de reforma agrária popular, alicerçado no desenvolvimento agroecológico e em um embate contra o latifúndio e as empresas transnacionais.

"A reforma agrária popular é no sentido de que ela deixou de ser apenas uma reivindicação dos agricultores pobres. Tem que ser um programa que atenda a todo o povo brasileiro, e não apenas aos que se envolvem no trabalho da terra. Incluímos a defesa da natureza, da água, do reflorestamento", afirma.

Acrescentaram também a agroindústria, que amparou o MST na sequência dos governos Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), diante do esvaziamento de projetos de reforma agrária e de agricultura familiar. Diante do temor da violência, com os discursos de Bolsonaro que incentivavam o uso de armas no campo, o MST recomendou aos sem-terra que evitassem ocupações com potencial de conflito.

Ao voltar-se para dentro, o MST organizou suas cadeias produtivas, chegou a 185 cooperativas e firmou-se como referência na produção de arroz orgânico, leite e suco de uva.

Em 2015, fez a primeira Feira Nacional da Reforma Agrária, em São Paulo; em 2023, 300 mil pessoas passaram por ela. Em 2016, criou a primeira unidade do Armazém do Campo, também na capital paulista, onde vende os seus produtos. Hoje, já são 34 lojas físicas.

No período em que recuou das invasões, passou por um "rebranding" e vendeu milhares de bonés, camisetas e bandeiras.

Ainda assim, a política de ocupações não pode ser abandonada, afirma o líder do MST. A pressão nos governantes deve ser constante. "Não há, na história da reforma agrária do mundo, nenhum processo de correção das distorções fundiárias sem que a população se mobilize. Em nenhum país do mundo o governo resolveu 'ah, onde é que tem sem-terra? Vou dar terra para vocês'".

No contexto em que os movimentos sociais se viram encalacrados sob Bolsonaro, abraçar novamente Lula em 2022 foi uma decisão natural, diz Stedile. Mas sem as ilusões do passado.

"Era uma questão de salvar a democracia. Nunca nos envolvemos na campanha do Lula imaginando 'agora a reforma agrária vai'", afirma. Ainda que as expectativas fossem baixas, os desentendimentos logo renasceram.

Em abril do ano passado, a ocupação de um terreno da Embrapa em Pernambuco irritou o governo Lula. A ação contrariava o discurso do movimento de que só ocupa terras improdutivas. Do lado do MST, avolumam-se críticas à morosidade na política de assentamentos e na compra de produtos da agricultura familiar.

Em 2024, as invasões devem aumentar, prevê Stedile. E não será por uma decisão do movimento, mas pelas dificuldades dos sem-terra. "Se o governo não toma a iniciativa, a crise capitalista continua se aprofundando. O ser humano não é igual ao sapo, que o boi pisa e ele morre sem dizer nada. Vai haver muito mais luta social", completa.

Para o próximo ciclo, Stedile traça um desafio a ser encarado pelo MST: "a nova geração de jovens militantes está demorando a se constituir com têmpera, com vontade".

"Quando eu era jovem, a turma que ia organizar a ocupação ia naquele espírito da vontade, da coragem. Não ganhava nada com os outros. Era ajudar os pobres a se libertarem. A nova militância está mais acomodada. Já consegue entrar na universidade. O jovem sem-terra ou assentado está mais vagaroso para as atividades militantes. Mais influenciado pelas redes sociais", arremata.

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