Mostrando postagens com marcador Paul Krugman. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paul Krugman. Mostrar todas as postagens

12 de julho de 2012

Fugindo com algo

Como é que Wall Street passou a dominar tão completamente a política econômica de Obama?

Paul Krugman e Robin Wells


O presidente Barack Obama e o secretário do Tesouro Timothy Geithner durante a cúpula do G20 em Cannes, França, novembro de 2011. Pete Souza/White House

The Escape Artists: How Obama's Team Fumbled the Recovery
by Noam Scheiber
Simon and Schuster, 351 pp., $28.00

Pity the Billionaire: The Hard-Times Swindle and the Unlikely Comeback of the Right
by Thomas Frank
Metropolitan, 225 pp., $25.00

The Age of Austerity: How Scarcity Will Remake American Politics
by Thomas Byrne Edsall
Doubleday, 256 pp., $24.95

Tradução / Na primavera de 2012, a campanha de Obama decidiu ir atrás da história de seu oponente, Mitt Romney, na Bain Capital, uma firma de administração de fundos privados [private equity] que se especializou em assumir o controle de empresas e multiplicar o capital de seus investidores – às vezes, promovendo seu crescimento, mas frequentemente às custas dos seus trabalhadores. Na verdade, houve vários casos em que a Bain conseguiu lucrar mesmo quando as empresas adquiridas foram à falência.

Havia razões política claras para tal atitude. O próprio senador Ted Keneddy havia suscitado, com sucesso, a história dos trabalhadores arruinados pela Bain, em sua campanha contra Ronney em Massachussetes, em 1994. Além disso, o único discurso possível para Romney, na atual disputa pela presidência, é sua afirmação de que pode, como um homem de negócios bem- sucedido, consertar a economia. Fazia todo o sentido apontar as muitas sombras que pairam sobre a história de negócios de Romney – e fisar que o que é bom para a Bain, definitivamente não serve aos Estados Unidos.

No entanto, enquanto escrevíamos este artigo, dois políticos destacados do Partido Democrata minaram a estratégia. Primeiro, Cory Booker, o prefeito de Newark, descreveu os ataques ao private equitycomo “repugnantes”. Depois, ninguém menos do que Bill Clinton apressou-se a descrever a história de Romney como “legítima”, acrescentando: “Não acho que devemos ficar na posição em que dizer: ‘este é um trabalho ruim’, ou ‘este é um bom trabalho’”. (Mais tarde, ele apareceu ao lado de Obama e disse que uma presidência de Romney seria “calamitosa”).

O está acontecendo? A resposta atinge o centro das decepções — políticas e econômicas – com o governo Obama.

Quando o presidente foi eleito, em 2008, muitos progressistas esperavam uma repetição do New Deal. A situação econômica era, afinal, muito semelhante. Como em 1930, um sistema financeiro descontrolado levou primeiro a excesso de endividamento privado; e, em seguida, a uma crise financeira. A contração econômica que se seguiu (e persiste até hoje), embora não tão severa quanto a Grande Depressão, mantém uma semelhança óbvia com a do século passado. Por que as políticas deveriam seguir um script semelhante?

Mas, embora a economia de hoje mantenha forte semelhança com a dos anos 1930, o cenário político não a acompanha — pois nem os democratas, nem os republicanos são o que eram outrora. Ao chegar à presidência com Obama, boa parte do Partido Democrata foi quase capturada pelos interesses financeiros que levaram à crise. Como mostraram os incidentes com Booker e Clinton, parte do partido permanece nesta condição. Enquanto isso, os republicanos tornaram-se extremistas a um ponto que nunca se imaginou, três gerações atrás. A oposição radical que Obama tem enfrentado em questões econômicas contrasta com o fato de que a maioria dos republicanos no Congresso votou a favor, e não contra, a principal conquista de Roosevelt: a lei instituiu a Seguridade Social nos EUA, em 1935.


Essas mudanças nos partidos políticos dos EUA explicam o motivo de não ter havido um segundo New Deal; e por que a resposta política à crise econômica prolongada tem sido tão inadequada. A captura parcial do Partido Democrata por Wall Street e o efeito de distorção que ela produziu na política são os temas centrais do livro de Noam Scheiber, The Escape Artists: How Obama’s Team Fumbled the Recovery, uma visão, a partir de dentro, das ações da equipe econômica de Obama, desde os primeiros dias transição presidencial até o final de 2011.

Scheiber começa tratando da influência que Wall Street exerceu sobre o conjunto da equipe econômica. Em suas primeiras páginas, ele conta como a campanha de Obama apoiava-se nos conselhos políticos de “acadêmicos obscuros, radicais sem muitos vínculos e burocratas ultrapassados” – a exemplo de Austan Goolsbee, um jovem professor de economia da Universidade de Chicago, e Paul Volcker, o octogenário embora ainda vigoroso ex-presidente do Federal Reserve[o equivalente americano do Banco Central – Nota da tradução]. Porém, em setembro de 2008, um outro grupo havia se formado e começou a disputar influência. Era composto por endinheirados de dentro do mercado. A maioria deles tinha trabalhado para o ex-secretário do Tesouro de Clinton, Robert Rubin — que foi sócio da Goldman Sachs antes de integrar o governo de Bill Clinton e, após sair, tornou-se diretor, conselheiro e depois presidente do Citigroup. Eram os rubinistas.

Em pouco tempo, este grupo substituiu inteiramente a equipe anterior. Por exemplo, a pessoa encarregada de estudar possíveis contratações era Jason Furmam, economista de Washington que dirigiu o Projeto Hamilton, um think tank de tendência neoliberal fundado por Rubin e mantido por financistas simpatizantes do Partido Democrata. Mike Froman – um auxiliar de Rubin durante seu mandato como secretário do Tesouro (e que o acompanhara no Citigroup) — foi o chefe pessoal da equipe de transição formada por Obama. Foi Froman quem indicou e apoiou, posteriormente, Larry Summers e Tim Geithner como principais candidatos para o departamento do Tesouro.

Summers, economista de Harvard e ex-subsecretário do Tesouro de Robert Rubin, (mais tarde, seu substituto como secretário do Tesouro e também consultor de um fundo de hedge de Wall Street), seria o principal assessor econômico de Obama, na condição de diretor do Conselho Econômico Nacional. Geithner – que havia sido o braço direito de Summers na secretaria do Tesouro de Clinton e, mais tarde, presidente do Federal Reserve de Nova York – fora uma das três pessoas que agiram, no outono de 2008, para salvar os maiores bancos do país, em termos muito favoráveis a estes. Como Scheiber escreve: “Ao escalar Mike Froman como encarregado da contratação, Obama escolheu para seu governo um staff composto por infiltrados (do mercado financeiro) e gente do establishment.”


O domínio dos rubinistas no novo governo chocou muitos progressistas. Para muitos a revogação da Lei Glass-Steagall, promovida por Bill Clinton e defendida por Robert Rubin (mas contestada por Paul Volcker, presidente do FED), simbolizava as relações muito amigáveis entre o governo Clinton e Wall Street, e ajudara a disparar a crise financeira de 2008. A lei Glass-Steagall, datada da época da Grande Depressão, proibia as instituições financeiras de manter contas bancárias garantidas pelo Estado e, ao mesmo tempo, atuar nos mercados de derivativos. Ela não teria impedido a implosão de 2008 em Wall Street. O incêndio teve como combustíveis os níveis extraordinariamente elevados de alavancagem de bancos de investimento como o Lehman e Merrill Lynch e a construção de imensos portfólios de hipotecas de segunda linha, por instituições como o Bank of America. Mas os progressistas estavam certos, ao lembrar que Wall Street fora perigosamente desregulada por muito tempo, e que todo o país agora estava pagando por isso.

No entanto, o novo governo se fez de surdo a estas preocupações. Como relata Scheiber, quando um senador democrata protestou que a equipe liderada por Geithner e Summers tinha sido muito simpática com Wall Street durante a década de 1990, Obama rejeitou as preocupações, afirmando que “precisava de pessoas com quem pudesse contar em uma crise. Além disso… eles tinham mudado”.

Foi algo como uma conspiração? Não – como Scheiber explica, tudo foi menos intencional e mais complicados do que parece. Por um lado, Obama tinha necessidade de ter mãos experientes e credibilidade imediata, em meio à pior crise financeira desde a Grande Depressão. Por outro, pesou a inapetência do presidente por decisões politicas fortes. Mas também é claro que a personalidade de Obama e seu temperamento foram fundamentais para alinhar a sorte do presidente com a dos pupilos de Rubin. Como Scheiber observa com correção, Obama e Tim Geithner têm, em comum, infâncias similares como expatriados e um discreto estilo auto-depreciativo, que os leva a evitar o conflito direto. Sem dúvida, a equipe econômica dos sonhos de Obama deu-lhe a “afirmação intelectual” pela qual, observa Scheiber, “ele suplicava.”

Mas essa equipe, que pode ter dado a Obama afirmação intelectual, não lhe ofereceu conselhos muito bons. No fim das contas, a resposta de Obama à crise financeira foi desequilibrada e inadequada. Wall Street recebeu um resgate generoso, com poucas exigências de contrapartidas; os trabalhadores e proprietários de imóveis hipotecados foram abandonados por planos impotentes de estímulo e redução das dívidas.

É verdade, nem todos os membros da equipe agiram errado. Sabemos hoje que especialmente Christina Romer, uma professora de Berkeley nomeada para chefiar o Conselho de Assessores Econômicos de Obama, reivindicou, desde o início, um estímulo econômico muito maior que proposto pelo governo. Mas Romer foi escanteada. Quem falava ao ouvido de Obama era Larry Summers — uma pessoa que não tem vergonha em mostrar seu brilhantismo. A princípio, isso poderia não fazer muita diferença. Enquanto acadêmico, Summers defende perspectivas econômicas keynesianas não muito diferentes das de Romer (ou das nossas). Mas, em vez de transmitir uma análise econômica sóbria, ele tentou mostrar sua astúcia política antevendo o que o Congresso estaria disposto a aceitar. Como resultado, deixou de defender a causa de um estímulo econômico maior.


Mas é Tim Geithner, o secretário do Tesouro de Obama, que aparece – ainda mais que o presidente – como o elemento decisivo desta saga. Em contraste com Summers – retratado por Scheiber como um rubinista flexível, disposto a alterar seus pontos de vista diante de provas e convencido, em especial, de que os acionistas de bancos socorridos podiam e devia pagar mais para os contribuintes – Geithner é descrito como um rubinista doutrinário, que enxerga, como sua principal tarefa, restaurar a confiança do mercado financeiro. Em sua cabeça, isso significa não fazer nada que possa perturbar Wall Street.

Um pacote de socorro financeiro era, sem dúvida, necessário. Mas Geithner atropelou Summers – e até mesmo Obama – desenhando um resgate no qual: (I) os contribuintes assumiram todo o risco, sem ganhar nada em troca; (II) as investidas especulativas do Goldman Sachs contra a AIG foram honradas na íntegra e validadas graças ao resgate da empresa pelo governo; e (III) o plano de regulação dos mercados de derivativos foi, como disse um lobista, “o que o próprio mercado gostaria de ter formulado”. Não houve, é claro, debate algum sobre responsabilidade ou dolo, sequer uma insinuação de que os banqueiros tinham feito algo errado, ao colocando a economia em tal situação. Isso, afinal, poderia “minar a confiança”...

Como Geithner conseguiu dominar tão completamente as políticas econômicas? Em parte, graças sua habilidade como articulador. Mesmo quando não podia ganhar uma disputa pelo argumento, ele o fazia por outros meios. Muitas vezes, ele simplesmente esperava as pessoas desistirem – foi sua tática com Rahm Emanuel, sabendo que a atenção maníaca deste acabaria desviando-o para outro assunto. E, crucialmente, Geithner foi autorizado pela falta de vontade de Obama em resolver impasses entre seus assessores. Quando a opinião pública manifestou seu ódio diante do socorro aos bancos, David Axelrod, Robert Gibbs, e Rahm Emanuel voltaram-se para Geithner e insistiram com ele para que acionistas de bancos pagassem algum preço pelo resgate oferecido pelo governo ao setor bancário. Geithner simplesmente recusou-se a ceder, argumentando de modo capcioso que os bancos já haviam pago um preço por serem forçados a levantar capital no mercado. Como Scheiber aponta com precisão, esta fala ignorava o fato de que, ao respaldar os bancos durante sua implosão autoinfligida, o governo norte-americano fornecera-lhes uma apólice de seguro de bilhões de dólares. No final, Geithner ganhou.

Se Geithner foi o designer ativo do plano de resgate de Wall Street, Obama foi o facilitador passivo da intransigência do Partido Republicano. Scheiber descreve como, por inúmeras vezes, a busca de soluções bipartidárias, por parte do presidente, deixou o partido mais conservador em vantagem. Scheiber observa que “na mente de Obama, ‘partidário’ está igualado a ‘paroquial’, ou mesmo a ‘corrupto'”, o que o levou a “fazer enormes concessões, antes mesmo que a negociação tivesse começado”. Também ressalta que o apetite do presidente para ser aceito pelos dois partidos sempre foi “profundamente confuso” e que, ao contrário da abordagem de Obama, “as pressões dos partidos podem muito bem servir ao interesse público, quando não há outro caminho para passar a legislação”.

O centrismo inato de Obama levou-o a adotar a preocupação com o déficit orçamentário de Geithner e de Peter Orszag (o chefe do Escritório de Orçamento e Gestão, outro protegido de Rubin), desprezando os protestos verbais de Summers e Romer, para quem não era o momento de se preocupar com déficits. Como resultado, Obama nunca compreendeu que o estímulo econômico original foi suficiente. Esta posição deixou-o emparedado quando se tornou claro – já no verão de 2010, ou mesmo antes — que as medidas eram, na verdade, quase insignificantes.

O ponto mais baixo, no balanço de Scheiber, foi a participação inepta de Obama nas negociações de 2010 sobre o destino dos cortes de tributos para os ricos, que haviam sido decretados no governo Bush. A própria equipe econômica, profundamente preocupada porque “o presidente estava ausente” do embate, passou a agir por conta própria. Foram Geithner e o antigo braço direito político de Clinton, Gene Sperling, que arrancaram concessões dos republicanos no acordo final, enquanto Obama ainda procurava um consenso. Outra vítima desse período foi a busca real de qualquer alívio da dívida para os proprietários de imóveis hipotecados. Por volta do final de 2010, tanto Summers quanto Romer deixaram Washington frustrados.


O livro de Scheiber é, portanto, uma história deprimente a respeito de quanto a influência de Wall Street sobre os democratas livrou o sistema financeiro de pagar pelo caos que provocou e evitar, de quebra, uma regulamentação eficaz de sua atividade. Também conta como Obama foi incapaz de confrontar os republicanos mais intransigentes. Mas o que tornou este partido tão extremista? Este é, de diferentes maneiras, o tema de dois outros livros recentes: Pity the Billionaire de Thomas Frank e The Age of Austerity de Thomas Edsall.

Frank concentra-se no que chama de “algo único na história de movimentos sociais dos Estados Unidos: uma conversão em massa para a teoria do livre mercado como resposta aos tempos difíceis”. Trata-se de algo realmente notável. Afinal, por três décadas, antes da crise financeira norte-americana, as políticas públicas e a política institucional foram crescentemente dominadas pela ideologia do laissez-faire – a crença de que os mercados (e os mercados financeiros, em particular) devem ser autorizados a correr soltos. Depois, veio a queda inevitável. Mas, longe de exigir um retorno a uma maior regulamentação, grande parte do eleitorado norte-americano voltou-se para a visão de que a crise foi causada, em muito, pela intervenção do Estado. Em consequência, este setor agrupou-se em torno de políticos dispostos a mergulhar ainda mais fundo nas políticas que levaram à crise.

Como isso aconteceu? A resposta de Frank é que a causa foram os próprios resgates. Ao agir à la Geithner, socorrendo os banqueiros sem rédeas e sem culpa, o governo Obama deixou grande parte público norte-americano irritado e com a sensação – correta – de que alguém estava fugindo com algo. A direita foi hábil em explorar essa sensação. O famoso discurso de Rick Santelli da CNBC, em fevereiro de 2009 – que iniciou o movimento Tea Party – foi uma denúncia do TARP, o resgate aos grandes bancos aprovado nos últimos dias da administração Bush (embora uma enormidade de eleitores acreditem que foi aprovado no governo Obama). É verdade que Santelli dirigiu toda a sua ira para uma parte ínfima do TARP – a ajuda prevista aos proprietários de imóveis em dificuldades, que, em grande parte, nunca se materializou – evitando mencionar o socorro muito maior oferecido aos bancos. Mas pelo menos ele estava culpando alguém, coisa que o governo Obama recusou-se a fazer.

E na hora em que Obama começou, timidamente, a sugerir que alguns banqueiros poderiam ter se comportado relativamente mal, já era tarde demais. Todo o Partido Republicano (e grande parte do eleitorado) já tinha aderido a uma narrativa na qual a crise financeira de 2008 – que se seguiu a 14 anos de domínio da extrema-direita republicana no Congresso e a oito anos nos quais os conservadores linha-dura controlaram todos os três ramos do governo – foi causada... por excesso de intervenção do governo, para ajudar os pobres e, especialmente, os não-brancos. Nas palavras de Frank:

“O culpado, para variar, é o governo.... Os funcionários forçaram os bancos a oferecer empréstimos especiais para uma minoria de tomadores (...) e toda a crise financeira foi resultado da interferência do governo.”

Desse modo, a direita consegue reposicionar-se como suposta inimiga do odiado “Big Business” – não porque ele maneja negócios, mas porque seria “insuficientemente capitalista”. Não há melhor prova da circulação deste ponto de vista, pontua Frank, que um artigo de Paul Ryan [o vice-presidente na chapa de Mitt Rommey], na Forbes de 2009. Intitulado “Abaixo o Big Business”, o texto exorta: “cabe ao povo americano – inovadores e empreendedores, pequenos empresários... tomar uma atitude”.

Mas por que a direita foi tão mais capaz de aproveitar o momento que Obama e companhia? Já vimos uma parte da resposta: os democratas em geral, e o presidente em particular, estavam próximos demais de Wall Street, para lidar com uma crise que os mercados financeiros haviam criado. Frank também destaca um ponto importante: no clima político recente, a ignorância tem sido realmente uma força... É preciso lembrar que o universo intelectual hermético que a direita criou para si mesma – uma espécie de realidade alternativa, murada contra qualquer evidência que possa contradizer a fé nas maravilhas do livre mercado e os males da intervenção do governo – seria um peso para o Partido Republicano. E ele, de fato, destrói a capacidade de formular políticas reais. Em termos políticos, no entanto, a atitude tem dado aos republicanos unidade e certeza, onde os democratas apresentam-se fracos e divididos.


E de onde a unidade republicana realmente vem? Frank não explica isso, mas há uma teoria nova e boa em A Era da Austeridade de Thomas Edsall. Curiosamente, não se trata da teoria que o próprio Edsall expõe.

A tese ostensiva de Edsall, desenvolvida já no início do livro, é de há escassez, na raiz de nossas novas batalhas políticas. Teríamos penetrado numa nova era de jogo pesado na política institucional, porque o encolhimento da economia e um déficit orçamentário considerável tornaram impossível satisfazer as necessidades dos dois partidos políticos ao mesmo tempo

“Os dois principais partidos políticos estão presos em uma luta de morte para proteger os benefícios e bens que fluem para suas respectivas bases, cada um tentando expropriar os recursos do outro. Estamos diante de um futuro brutal.”

No entanto, o máximo de evidência que Edsall arrola em favor desta é apontar para as consequências da crise econômica — que não, de modo algum, uma crise de escassez, mas sim de políticas financeira e macroeconômica ruins. Por que, exatamente, deveria haver uma “luta de morte” por recursos, quando a economia norte-americana poderia produzir, segundo estimativas do Gabinete do Orçamento do Congresso, 900 bilhões de dólares a mais, em bens e serviços – bastando recolocar em movimento os trabalhadores desempregados, e outros recursos não-utilizados? Por que deve haver uma luta amarga em torno do orçamento, quando o governo dos EUA, embora reconhecidamente tenha grandes déficits, continua capaz de obter empréstimos às taxas de juros mais baixas da história?

A verdade é que a austeridade que Edsall enfatiza é mais o resultadodo que a causa da nossa política amargurada. Temos uma economia deprimida, em grande parte, porque os republicanos bloquearam quase todas as iniciativas propostas por Obama para criar empregos, recusando-se até mesmo a confirmar as indicações do presidente para o conselho do Federal Reserve (Peter Diamond, economista do MIT laureado com o Nobel, foi rejeitado por falta de qualificações suficientes…). Vivemos uma batalha enorme em torno dos déficits não porque eles realmente representem um problema imediato, mas porque os conservadores encontraram na histeria em torno deles uma maneira útil para atacar programas sociais.

Então de onde vem a amargura da política vem? Edsall fornece grande parte da resposta. Nomeadamente, o que ele retrata é um Partido Republicano radicalizado não pela luta por recursos – a carga tributária sobre os ricos é a menor em várias gerações –, mas por medo de perder o controle político, numa nação em processo de mudanças. A parte mais marcante de A Era da Austeridade, pelo menos segundo nossa leitura, é o capítulo enganosamente intitulado “A Economia da imigração”. Ele não diz muito seu título; o que faz, em vez disso, é documentar em que medida os imigrantes e os seus filhos estão, literalmente, mudando a cara do eleitorado americano.

Como Edsall admite, a face em mutação do eleitorado tem tido o efeito de radicalizar o Partido Republicano.

“Para os brancos de inclinação conservadora”, ele escreve – e não é esta a própria definição da base republicana? – a mudança para uma nação de minoria-maioria [isto é, uma nação na qual as minorias compõem a maioria quantitativa] irá reforçar a visão já amplamente difundida, de que programas que beneficiam os pobres estão transferindo os dólares do contribuinte para minorias – dos brancos para negros, primeiro; e agora, além de tudo, para os “pardos”.

É a retórica de Rick Santelli bem aqui, diante de nós.

O Partido Republicano poderia, em princípio, ter respondido a essas mudanças, tentando redefinir-se como uma agremiação para além das pessoas brancas. Em vez disso, escreve Edsall, a resposta tem sido “apostar que podem continuar a ganhar como um partido branco, apesar da crescente força do voto minoritário.” E isso significa uma estratégia de tratoragem radical, que vai desde política de imigração até os tributos – passando, é claro, pela questão do estímulo econômico, que beneficiaria em alguma medida também as minorias.


O efeito imediato desse confronto amargo tem sido paralisar a política econômica na crise. Obama poderia ter se aproveitado de uma janela de oportunidade, em seus primeiros meses na presidência. Mas, como mostra Scheiber, essa janela se perdeu e houve pouca possibilidade de ação efetiva desde então. Por isso, a contração se arrasta. Mas, como Thomas Mann e Norman Ornstein dizem no título de seu novo livro, It’s Even Worse Than It Looks. Eles argumentam que o Congresso – e, na verdade, o sistema político norte-americano – está perto de chegar ao colapso institucional. Entramos em uma nova política de “tomada de reféns”, eles nos dizem, sintetizada pela batalha de 2011 sobre o teto da dívida. E eles sugerem que o fiasco da política macroeconômica em curso pode ser apenas o começo.

É um livro notável, embora deprimente, especialmente impressionante dada sua origem. Mann e Ornstein são estudiosos do Congresso profundamente respeitados, e seu livro parece, na aparência, sintetizar o tipo de esforço bipartidário que os insiders de Washington dizem amar. Mann está na Brookings Institution, liberal; Ornstein, no American Enterprise Institute, conservador. No entanto, eles rejeitam a tentação de nublar suas conclusões em nome de “equilíbrio”. O que o país enfrenta, escrevem, não é um problema com o partidarismo em abstrato, e sim um problema com um partido:

"Embora a imprensa tradicional e analistas não-partidários tenham dificuldade em compreender, um dos dois principais partidos, o Republicano, rumou para um extremo ideológico; desdenhoso da herança social e política da ordem política americana; incapaz de assumir compromissos; não persuasível pelo entendimento convencional de fatos, provas, e ciência; pouco respeitoso com a legitimidade de sua oposição política. Quando um partido se move dessa forma, para tão longe do centro da política norte-americana, é extremamente difícil implementar políticas que respondam aos desafios mais prementes ao país."

E onde, em tudo isso, está a esperança, que foi tão difundida em 2008? Francamente, é difícil encontrá-la agora. O presidente Obama tem parte da culpa por isso; ele escolheu ouvir as pessoas erradas, e, possivelmente, perdeu sua melhor chance de transformar a economia (Só para ficar claro, isso não é uma sugestão que Mitt Romney faria melhor. Pelo contrário, Romney está profundamente comprometido com a falsa narrativa republicana sobre o que aflige a nossa economia, e todas as indicações são de que, se ganhar, irá agravar dramaticamente uma má situação). Mas, no final das contas, o problema de fundo não tem a ver com personalidades ou lideranças individuais. Diz respeito à nação como um todo. Algo deu muito errado com os Estados Unidos. Não envolve apenas sua economia, mas sua capacidade de funcionar como nação democrática. E é difícil prever quando e como o dano poderá ser sanado.

Sobre os autores

Paul Krugman is a columnist for The New York Times and Distinguished Professor of Economics at the Graduate Center of the City University of New York. He was awarded the Nobel Prize in Economics in 2008.
 (July 2016)

Robin Wells is the coauthor, along with Paul Krugman, of Economics and has taught economics at Princeton, Stanford Business School, and MIT.
 (July 2012)

2 de setembro de 2009

Como é que os economistas se enganaram tanto?

A Grande Recessão foi o resultado não só de uma regulamentação frouxa em Washington e da assunção de riscos imprudentes em Wall Street, mas também de uma teorização deficiente no meio acadêmico. Os economistas podem aprender com seus erros?

Paul Krugman

The New York Times Magazine

Dan Winters para o New York Times

I. Confundir beleza com a verdade

Tradução / É difícil acreditar agora, mas não faz muito tempo que os economistas se congratulavam com o sucesso do seu campo. Esses sucessos – ou assim acreditavam – eram tanto teóricos como práticos, conduzindo a uma era de ouro para a profissão. Do lado teórico, eles pensavam que tinham resolvido as suas disputas internas. Assim, num artigo de 2008 intitulado “O Estado da Macro” (ou seja, macroeconomia, o estudo de grandes questões como as recessões), Olivier Blanchard do MIT, agora o economista principal do Fundo Monetário Internacional, declarou que “o estado da macro é bom”. As batalhas de outrora, disse ele, tinham terminado, e tinha havido uma “ampla convergência de visão”. E no mundo real, os economistas acreditavam ter as coisas sob controlo: o “problema central da prevenção da depressão foi resolvido”, declarou Robert Lucas da Universidade de Chicago no seu discurso presidencial de 2003 à Associação Económica Americana. Em 2004, Ben Bernanke, um antigo professor de Princeton que é agora presidente do Conselho da Reserva Federal, celebrou a Grande Moderação no desempenho económico nas duas décadas anteriores, o que atribuiu em parte à melhoria da elaboração da política económica.

No ano passado, tudo se desmoronou.

Poucos economistas viram vir a nossa crise atual, mas este fracasso preditivo foi o menor dos problemas do campo. Mais importante foi a cegueira da profissão perante a própria possibilidade de falhas catastróficas numa economia de mercado. Durante os anos dourados, os economistas financeiros passaram a acreditar que os mercados eram inerentemente estáveis – de facto, que as ações e outros ativos tinham sempre os preços corretos. Nada nos modelos predominantes sugeria a possibilidade do tipo de colapso que aconteceu no ano passado. Entretanto, os macroeconomistas estavam divididos nas suas opiniões. Mas a principal divisão era entre aqueles que insistiam que as economias de mercado livre nunca se extraviam e aqueles que acreditavam que as economias podem desviar-se de vez em quando, mas que quaisquer desvios importantes do caminho da prosperidade poderiam e seriam corrigidos pelo todo-poderoso FED. Nenhum dos lados estava preparado para lidar com uma economia que descarrilou, apesar dos melhores esforços do FED.

E, na sequência da crise, as linhas de falha na profissão económica foram mais amplas do que nunca. Lucas diz que os planos de estímulo da administração Obama são de “economia de merda”, e o seu colega de Chicago John Cochrane diz que eles se baseiam em “contos de fadas desacreditados”. Em resposta, Brad DeLong, da Universidade da Califórnia, Berkeley, escreve sobre o “colapso intelectual” da Escola de Chicago, e eu próprio escrevi que os comentários dos economistas de Chicago são o produto de uma Idade das Trevas da macroeconomia em que o conhecimento duramente conquistado foi esquecido.

O que aconteceu à profissão de economista? E para onde vai a partir daqui?

A meu ver, a profissão de economista desviou-se porque os economistas, como grupo, confundiram a beleza, revestida de uma matemática impressionante, com a verdade. Até à Grande Depressão, a maioria dos economistas agarrou-se a uma visão do capitalismo como um sistema perfeito ou quase perfeito. Essa visão não era sustentável face ao desemprego em massa, mas à medida que as memórias da Depressão se desvaneceram, os economistas apaixonaram-se de novo pela velha visão idealizada de uma economia em que indivíduos racionais interagem em mercados perfeitos, desta vez, com equações extravagantes. O romance renovado com o mercado idealizado foi, sem dúvida, em parte uma resposta à mudança dos ventos políticos, em parte uma resposta aos incentivos financeiros. Mas enquanto os sabáticos na Hoover Institution e as oportunidades de emprego em Wall Street não são nada para desdenhar, a causa central do fracasso da profissão foi o desejo de uma abordagem abrangente e intelectualmente elegante que também deu aos economistas uma oportunidade de mostrar as suas proezas matemáticas.

Infelizmente, esta visão romantizada e esterilizada da economia levou a maioria dos economistas a ignorar todas as coisas que podem correr mal. Fizeram vista grossa às limitações da racionalidade humana que muitas vezes levam a bolhas e a grandes colapsos; aos problemas das instituições em dificuldades; às imperfeições dos mercados – especialmente dos mercados financeiros – que podem fazer com que o sistema operativo da economia sofra quedas súbitas e imprevisíveis; e aos perigos criados quando os reguladores não acreditam na regulação.

É muito mais difícil dizer para onde vai a profissão de economista a partir daqui. Mas o que é quase certo é que os economistas terão de aprender a viver com a desordem económica. Ou seja, terão de reconhecer a importância de um comportamento irracional e muitas vezes imprevisível, enfrentar as imperfeições frequentemente idiossincráticas dos mercados e aceitar que uma elegante “teoria de tudo” económica está muito longe. Em termos práticos, isto traduzir-se-á em conselhos políticos mais cautelosos – e uma vontade reduzida de desmantelar as salvaguardas económicas na fé de que os mercados resolverão todos os problemas.

II. De Smith a Keynes e vice-versa

O nascimento da economia como disciplina é geralmente creditado a Adam Smith, que publicou “A Riqueza das Nações” em 1776. Durante os 160 anos seguintes foi desenvolvido um extenso corpo de teoria económica, cuja mensagem central foi: Confia no mercado. Sim, os economistas admitiram que havia casos em que os mercados podiam falhar, dos quais o mais importante era o caso das “externalidades” – custos que as pessoas impõem aos outros sem pagar o preço, como o congestionamento do tráfego ou a poluição. Mas a presunção básica da economia “neoclássica” (nome dado aos teóricos do final do século XIX que desenvolveram os conceitos dos seus antecessores “clássicos”) era que devíamos ter fé no sistema de mercado.

Esta fé foi, no entanto, abalada pela Grande Depressão. Na verdade, mesmo perante o colapso total, alguns economistas insistiram que o que quer que aconteça numa economia de mercado deve estar certo: “As depressões não são simplesmente males”, declarou Joseph Schumpeter em 1934 – 1934! São, acrescentou ele, “formas de algo que tem de ser feito”. Mas muitos, e eventualmente a maioria, dos economistas voltaram-se para as ideias de John Maynard Keynes, para uma explicação do que aconteceu e de uma solução para futuras depressões.


Jason Lutes

Keynes não queria, apesar do que você possa ter ouvido, que o governo gerisse a economia. Descreveu a sua análise na sua obra-prima de 1936, “The General Theory of Employment, Interest and Money”, como “moderadamente conservadora nas suas implicações”. Ele queria consertar o capitalismo, não substituí-lo. Mas desafiou a noção de que as economias de mercado livre podem funcionar sem um mínimo de cuidado, expressando particular desprezo pelos mercados financeiros, que considerava dominados pela especulação de curto prazo com pouca consideração pelos fundamentos económicos. E apelou à intervenção ativa do governo – imprimindo mais dinheiro e, se necessário, gastando fortemente em obras públicas – para combater o desemprego durante os colapsos da economia.

É importante compreender que Keynes fez muito mais do que fazer afirmações ousadas. “A Teoria Geral” é um trabalho de análise profunda – análise que persuadiu os melhores jovens economistas da época. No entanto, a história da economia no último meio século é, em grande medida, a história de um recuo do keynesianismo e de um regresso ao neoclassicismo. O renascimento neoclássico foi inicialmente conduzido por Milton Friedman da Universidade de Chicago, que afirmou já em 1953 que a economia neoclássica funciona suficientemente bem enquanto descrição da forma como a economia realmente funciona para ser “tanto extremamente frutífera como merecedora de muita confiança”. Mas e as depressões?

O contra-ataque de Friedman contra Keynes começou com a doutrina conhecida como monetarismo. Os monetaristas não discordaram, em princípio, da ideia de que uma economia de mercado necessita de uma estabilização deliberada. “Agora somos todos keynesianos”, disse Friedman uma vez, embora mais tarde tenha afirmado que tinha sido citado fora do contexto. Os monetaristas afirmaram, contudo, que uma forma muito limitada e circunscrita de intervenção governamental – nomeadamente, instruir os bancos centrais para manter a oferta monetária da nação, a soma do dinheiro em circulação e dos depósitos bancários, crescendo numa trajetória estável – é tudo o que é necessário para evitar depressões. Notoriamente, Friedman e a sua colaboradora, Anna Schwartz, argumentaram que se a Reserva Federal tivesse feito o seu trabalho corretamente, a Grande Depressão não teria acontecido. Mais tarde, Friedman apresentou um argumento convincente contra qualquer esforço deliberado do governo para combater o desemprego para um nível inferior ao seu nível “natural” (atualmente pensa-se que seja de cerca de 4,8% nos Estados Unidos): políticas excessivamente expansionistas, previu ele, levariam a uma combinação de inflação e elevado desemprego – uma previsão que foi confirmada pela estagflação dos anos 70, o que fez avançar grandemente a credibilidade do movimento anti-Keynesiano.

Finalmente, porém, a contra-revolução anti-Keynesiana foi muito além da posição de Friedman, que se revelou relativamente moderada em comparação com o que os seus sucessores estavam a dizer. Entre os economistas financeiros, a visão depreciativa de Keynes sobre os mercados financeiros como um “casino” foi substituída pela teoria do “mercado eficiente”, que afirmava que os mercados financeiros obtêm sempre os preços corretos dos ativos, dada a informação disponível. Entretanto, muitos macroeconomistas rejeitaram completamente o quadro de Keynes para compreender as quedas económicas. Alguns voltaram à visão de Schumpeter e outros apologistas da Grande Depressão, vendo as recessões como uma coisa boa, parte do ajustamento da economia à mudança. E mesmo aqueles que não estavam dispostos a ir tão longe argumentaram que qualquer tentativa de combater uma recessão económica faria mais mal do que bem.

Nem todos os macroeconomistas estavam dispostos a seguir este caminho: muitos passaram a auto-descrever-se como os Novos Keynesianos, que continuaram a acreditar num papel ativo para o governo. No entanto, até eles aceitaram na sua maioria a noção de que os investidores e consumidores são racionais e que os mercados em geral acertam.

Claro que houve exceções a estas tendências: alguns economistas desafiaram a hipótese de comportamento racional, questionaram a crença de que se pode confiar nos mercados financeiros e apontaram para a longa história de crises financeiras que tiveram consequências económicas devastadoras. Mas nadavam contra a maré, incapazes de fazer grandes progressos contra uma complacência generalizada e, em retrospectiva, uma complacência tola.

III. Finanças panglossianas

Na década de 1930, os mercados financeiros, por razões óbvias, não eram muito levados em consideração. Keynes comparou-os com “aqueles concursos de jornais em que os concorrentes têm de escolher as seis caras mais bonitas de entre cem fotografias, sendo o prémio atribuído ao concorrente cuja escolha corresponde mais ou menos às preferências médias dos concorrentes como um todo; de modo que cada concorrente tem de escolher, não as caras que ele próprio acha mais bonitas, mas aquelas que ele pensa que mais agradam aos outros concorrentes”.

E Keynes considerou uma péssima ideia deixar que tais mercados, nos quais os especuladores passam o seu tempo a perseguirem-se uns aos outros, ditassem decisões empresariais importantes: “Quando o desenvolvimento do capital de um país se torna um subproduto das atividades de um casino, é provável que o trabalho seja mal feito”.

Por volta de 1970, mais ou menos, o estudo dos mercados financeiros parecia ter sido assumido pelo Dr. Pangloss de Voltaire, que insistiu que vivemos no melhor de todos os mundos possíveis. A discussão sobre a irracionalidade dos investidores, das bolhas, da especulação destrutiva tinha praticamente desaparecido do discurso académico. O campo foi dominado pela “hipótese da eficiência do mercado”, promulgada por Eugene Fama, da Universidade de Chicago, que afirma que os mercados financeiros fixam os preços dos ativos precisamente pelo seu valor intrínseco, tendo em conta toda a informação disponível ao público. (O preço das ações de uma empresa, por exemplo, reflecte sempre com precisão o valor da empresa, dada a informação disponível sobre os lucros da empresa, as suas perspetivas comerciais e assim sucessivamente). E nos anos 80, os economistas financeiros, nomeadamente Michael Jensen, da Harvard Business School, argumentavam que, uma vez que os mercados financeiros obtêm sempre os preços certos, o melhor que os chefes de empresa podem fazer, não só para si próprios mas para o bem da economia, é maximizar o preço das suas ações. Por outras palavras, os economistas financeiros acreditavam que deveríamos colocar o desenvolvimento do capital da nação nas mãos do que Keynes tinha chamado um “casino”.

Jason Lutes

É difícil argumentar que esta transformação na profissão foi impulsionada pelos acontecimentos. É verdade que a memória de 1929 estava gradualmente a recuar, mas continuava a haver mercados agressivamente em alta (ditos mercados de touros), com histórias generalizadas de excesso de especulação, seguidos de mercados em baixa (ditos mercados de ursos). Em 1973-4, por exemplo, as ações perderam 48 por cento do seu valor. E a queda das ações em 1987, em que o Dow mergulhou quase 23% num dia sem razão clara, deveria ter levantado pelo menos algumas dúvidas sobre a racionalidade do mercado.

Estes acontecimentos, porém, que Keynes teria considerado como prova da falta de fiabilidade dos mercados, pouco fizeram para mitigar a força de uma bela ideia. O modelo teórico que os economistas financeiros desenvolveram ao assumir que cada investidor equilibra racionalmente o risco contra a recompensa – o chamado modelo de avaliação dos ativos financeiros, dito modelo CAPM (Capital Asset Pricing Model) – é maravilhosamente elegante. E, se aceitar as suas premissas, é também extremamente útil. O CAPM não só lhe diz como escolher a sua carteira – ainda mais importante do ponto de vista da indústria financeira, diz-lhe como se posicionar em derivados financeiros, em créditos sobre créditos. A elegância e a aparente utilidade da nova teoria levou a que os seus criadores ganhassem Prémios Nobel e muitos dos defensores da teoria também receberam recompensas mais mundanas: armados com os seus novos modelos e formidáveis capacidades matemáticas – os usos mais misteriosos do CAPM requerem cálculos ao nível da física – os professores das escolas de negócios de formação científica moderada podiam e tornaram-se cientistas de foguetões de Wall Street, ganhando salários de Wall Street.

Para ser justo, os teóricos das finanças não aceitaram a hipótese da eficiência do mercado apenas porque era elegante, conveniente e lucrativa. Também produziram uma grande quantidade de provas estatísticas, que no início pareciam apoiar fortemente a sua teoria. Mas esta evidência era de uma forma estranhamente limitada. Os economistas financeiros raramente colocaram a questão aparentemente óbvia (embora não facilmente respondida) de saber se os preços dos ativos faziam sentido, dados os fundamentos do mundo real, tal como os ganhos. Em vez disso, perguntavam apenas se os preços dos ativos faziam sentido, tendo em conta os preços de outros ativos. Larry Summers, agora o principal conselheiro económico da administração Obama, em tempos ridicularizou os professores de finanças com uma parábola sobre “economistas de ketchup” que “mostraram que garrafas de dois litros de ketchup invariavelmente vendem exatamente o dobro das garrafas de um litro de ketchup”, e concluíram a partir daí que o mercado de ketchup é perfeitamente eficiente.

Mas nem esta zombaria nem as críticas mais polidas de economistas como Robert Shiller, de Yale, tiveram muito efeito. Os teóricos das finanças continuaram a acreditar que os seus modelos estavam essencialmente certos, e o mesmo aconteceu com muitas pessoas que tomavam decisões no mundo real. Entre eles estava Alan Greenspan, que era então o presidente do FED e um apoiante de longa data da desregulamentação financeira, cuja rejeição dos apelos para controlar os empréstimos subprime ou abordar a sempre inflacionada bolha da habitação assentava em grande parte na crença de que a economia financeira moderna tinha tudo sob controlo. Houve um momento revelador em 2005, numa conferência realizada para honrar o mandato de Greenspan no FED. Um corajoso participante, Raghuram Rajan (da Universidade de Chicago, surpreendentemente), apresentou um documento avisando que o sistema financeiro estava a assumir níveis de risco potencialmente perigosos. Foi ridicularizado por quase todos os presentes – incluindo, a propósito, Larry Summers, que rejeitou os seus avisos como “não tendo sentido”.

Em Outubro do ano passado, contudo, Greenspan admitia que estava num estado de “incredulidade chocada”, porque “todo o edifício intelectual” tinha “desmoronado”. Uma vez que este colapso do edifício intelectual foi também um colapso dos mercados do mundo real, o resultado foi uma severa recessão – a pior, por muitas medidas, desde a Grande Depressão. O que devem fazer os decisores políticos? Infelizmente, a macroeconomia, que deveria ter dado uma orientação clara sobre como enfrentar a economia em queda, estava ela no seu próprio estado de grande desordem.

IV. O problema com a macro

“Envolvemo-nos numa confusão colossal, tendo cometido um erro no controlo de uma máquina delicada, cujo funcionamento não compreendemos. O resultado é que as nossas possibilidades de criar riqueza podem correr o risco de serem desperdiçadas durante algum tempo – talvez por muito tempo”. Foi o que John Maynard Keynes escreveu num ensaio intitulado “The Great Slump of 1930”, no qual tentou explicar a catástrofe que então se abateu sobre o mundo. E as possibilidades do mundo em criar riqueza foram de facto desperdiçadas durante muito tempo; foi preciso a Segunda Guerra Mundial para levar a Grande Depressão a um fim definitivo.

Porque é que o diagnóstico de Keynes sobre a Grande Depressão como uma “confusão colossal” foi tão convincente no início? E porque é que a economia, por volta de 1975, se dividiu em campos opostos sobre o valor das opiniões de Keynes?

Gosto de explicar a essência da economia keynesiana com uma história verdadeira que também serve como uma parábola, uma versão em pequena escala das confusões que podem afligir economias inteiras. Considere o trabalho da Capitol Hill Baby-Sitting Co-op.

Esta cooperativa, cujos problemas foram relatados num artigo de 1977 no The Journal of Money, Credit and Banking, era uma associação de cerca de 150 casais jovens que concordaram em ajudar-se mutuamente, tomando conta dos filhos uns dos outros, quando os pais queriam sair à noite. Para se assegurar que cada casal fizesse a sua parte de baby-sitting, a cooperativa introduziu uma forma de certificados: cupões feitos de pesados pedaços de papel, cada um dando ao portador direito a uma meia hora de presença. Inicialmente, os membros recebiam 20 cupões ao aderirem e eram obrigados a devolver a mesma quantia ao saírem do grupo.

Jason Lutes

Infelizmente, verificou-se que os membros da cooperativa, em média, queriam manter uma reserva de mais de 20 cupões, talvez, para o caso de quererem sair várias vezes seguidas. Como resultado, relativamente poucas pessoas queriam gastar os seus certificados e sair, enquanto muitas queriam fazer de baby-sitter para que pudessem aumentar a sua reserva. Mas como as oportunidades de tomar conta de bebés só surgem quando alguém sai à noite, isto significava que era difícil encontrar trabalhos de baby-sitting, o que tornava os membros da cooperativa ainda mais relutantes em sair, tornando os trabalhos de baby-sitting ainda mais escassos...

Em suma, a cooperativa caiu numa recessão.

O.K., o que pensa desta história? Não a menospreze como sendo tola e trivial: os economistas têm usado exemplos em pequena escala para lançar luz sobre grandes questões desde que Adam Smith viu as raízes do progresso económico numa fábrica de alfinetes, e têm razão em fazê-lo. A questão é se este exemplo particular, em que uma recessão é um problema de procura inadequada – não há procura suficiente de baby-sitting para proporcionar empregos a todos os que os querem – chega à essência do que acontece numa recessão.

Há quarenta anos atrás a maioria dos economistas teria concordado com esta interpretação. Mas desde então a macroeconomia tem-se dividido em duas grandes fações: economistas “de água salgada” (principalmente nas universidades costeiras dos EUA), que têm uma visão mais ou menos keynesiana do que são as recessões; e economistas “de água doce” (principalmente nas escolas do interior), que consideram essa visão um disparate.

Os economistas de água doce são, essencialmente, puristas neoclássicos. Acreditam que toda a análise económica válida parte da premissa de que as pessoas são racionais e os mercados funcionam, uma premissa violada pela história da cooperativa de baby-sitting. Na opinião deles, não é possível uma falta geral de procura suficiente, porque os preços evoluem sempre para fazer corresponder a oferta à procura. Se as pessoas quiserem mais cupões de baby-sitting, o valor desses cupões aumentará, de modo a valerem, digamos, 40 minutos de baby-sitting em vez de meia hora – ou, equivalentemente, o custo de uma hora de baby-sitting cairia de 2 cupões para 1,5. E isso resolveria o problema: o poder de compra dos cupões em circulação teria aumentado, de modo que as pessoas não sentiriam necessidade de acumular mais, e não haveria recessão.

Mas não parecem as recessões períodos em que simplesmente não há procura suficiente para empregar todos os que estão dispostos a trabalhar? As aparências podem ser enganadoras, dizem os teóricos da água doce. A economia sólida, na sua opinião, diz que as falhas globais da procura não podem acontecer – e isso significa que não acontecem. A economia keynesiana tem sido “comprovadamente falsa”, diz Cochrane, da Universidade de Chicago.

No entanto, as recessões acontecem. Porquê? Nos anos 70, o principal macroeconomista de água doce, o prémio Nobel Robert Lucas, argumentou que as recessões eram causadas por confusão temporária: os trabalhadores e as empresas tinham dificuldade em distinguir as mudanças globais no nível de preços devido à inflação ou à deflação das mudanças na sua própria situação empresarial específica. E Lucas advertiu que qualquer tentativa de combater o ciclo económico seria contraproducente: as políticas ativistas, argumentou ele, apenas contribuiriam para aumentar a confusão.

Na década de 1980, porém, mesmo esta aceitação muito limitada da ideia de que as recessões são coisas más tinha sido rejeitada por muitos economistas de água doce. Em vez disso, os novos líderes do movimento, especialmente Edward Prescott, que estava então na Universidade do Minnesota (pode-se ver de onde vem o pseudónimo de água doce), argumentaram que as flutuações de preços e as mudanças na procura na realidade nada tinham a ver com o ciclo económico. Pelo contrário, o ciclo económico reflete flutuações no ritmo do progresso tecnológico, que são amplificadas pela resposta racional dos trabalhadores, que voluntariamente trabalham mais quando o ambiente é favorável e menos quando é desfavorável. O desemprego é uma decisão deliberada dos trabalhadores de tirar um tempo de folga.

Colocada assim, esta teoria soa a tolice – será que a Grande Depressão foi realmente umas Férias Grandes? E, para ser honesto, penso que é realmente uma tolice. Mas a premissa básica da teoria do “ciclo económico real” de Prescott foi incorporada em modelos matemáticos engenhosamente construídos, que foram mapeados em dados reais, utilizando técnicas estatísticas sofisticadas, e a teoria passou a dominar o ensino da macroeconomia em muitos departamentos universitários. Em 2004, refletindo a influência da teoria, Prescott partilhou um Nobel com Finn Kydland da Carnegie Mellon University.

Enquanto isso, os economistas de água salgada vacilaram. Onde os economistas de água doce eram puristas, os economistas de água salgada eram pragmáticos. Enquanto economistas como N. Gregory Mankiw, em Harvard, Olivier Blanchard, no MIT, e David Romer, na Universidade da Califórnia, Berkeley, reconheceram que era difícil conciliar uma visão keynesiana da procura de recessões com a teoria neoclássica, encontraram a evidência de que as recessões são, de facto, demasiado convincentes para serem rejeitadas. Assim, estavam dispostos a desviar-se do pressuposto de mercados perfeitos ou racionalidade perfeita, ou ambos, acrescentando imperfeições suficientes para acomodar uma visão mais ou menos keynesiana das recessões. E na perspetiva dos economistas da água salgada, a política ativa de combate às recessões continuava a ser desejável.

Jason Lutes

Mas os auto-descritos economistas do Novo Keynesianismo não eram imunes aos encantos de indivíduos racionais e mercados perfeitos. Eles tentaram manter os seus desvios da ortodoxia neoclássica tão limitados quanto possível. Isto significava que não havia espaço nos modelos predominantes para coisas tais como bolhas e colapso do sistema bancário. O facto de tais coisas continuarem a acontecer no mundo real – houve uma terrível crise financeira e macroeconómica em grande parte da Ásia em 1997-8 e uma quebra no nível de depressão na Argentina em 2002 – não se refletiu na corrente dominante do pensamento Novo Keynesianismo.

Mesmo assim, poderia ter-se pensado que as diferentes visões de mundo dos economistas de água doce e água salgada os teriam colocado constantemente em desacordo em relação à política económica. Contudo, de forma algo surpreendente, entre 1985 e 2007, as disputas entre economistas de água doce e de água salgada foram principalmente sobre teoria e não sobre ação. A razão, creio eu, é que os Novos Keynesianos, ao contrário dos Keynesianos originais, não pensavam que a política fiscal – mudanças nas despesas ou impostos governamentais – era necessária para combater as recessões. Eles acreditavam que a política monetária, administrada pelos tecnocratas do FED, poderia proporcionar quaisquer remédios que a economia precisasse. Numa celebração dos 90 anos de Milton Friedman, Ben Bernanke, anteriormente um professor mais ou menos Novo Keynesiano em Princeton, e até então membro do conselho de administração do FED, declarou sobre a Grande Depressão: “Tem razão. Fizemo-lo. Lamentamos muito. Mas graças a si, não voltará a acontecer”. A mensagem clara era que tudo o que precisava para evitar depressões era de um FED mais inteligente.

E enquanto a política macroeconómica foi deixada nas mãos do maestro Greenspan, sem programas de estímulo do tipo keynesiano, os economistas de água doce pouco se queixaram. (Eles não acreditavam que a política monetária fizesse qualquer bem, mas também não acreditavam que fizesse qualquer mal).
Seria preciso uma crise para revelar o pouco terreno que havia em comum e o carácter panglossiano dos economistas neo-Keynesianos.

V. Ninguém poderia ter previsto...

Em recentes e penosas discussões económicas, a frase choque para todos os fins passou a ser “ninguém poderia ter previsto...”. É o que se diz em relação a desastres que poderiam ter sido previstos, deveriam ter sido previstos e na verdade foram previstos por alguns economistas que foram ridicularizados pelas suas ideias.

Veja-se, por exemplo, a subida e queda abrupta dos preços das habitações. Alguns economistas, nomeadamente Robert Shiller, identificaram a bolha e alertaram para as consequências dolorosas caso esta rebentasse. No entanto, os principais decisores políticos não conseguiram ver o óbvio. Em 2004, Alan Greenspan rejeitou o discurso de uma bolha imobiliária: “uma grave distorção nacional dos preços”, declarou ele, era “muito improvável”. Os aumentos dos preços internos, disse Ben Bernanke em 2005, “refletem em grande medida fortes fundamentos económicos”.

Como é que não viram a bolha? Para ser justo, as taxas de juro eram invulgarmente baixas, possivelmente explicando parte do aumento do preço. É possível que Greenspan e Bernanke também quisessem celebrar o sucesso do FED em tirar a economia da recessão de 2001; admitir que grande parte desse sucesso assentava na criação de uma bolha monstruosa teria colocado um enorme travão nas festividades.
Mas havia algo mais a acontecer: uma crença geral de que as bolhas, simplesmente, não acontecem. O que é impressionante, quando se relê as garantias de Greenspan, é que elas não se baseavam em provas – baseavam-se na afirmação “a priori” de que simplesmente não pode haver uma bolha na habitação. E os teóricos das finanças foram ainda mais inflexíveis sobre este ponto. Numa entrevista de 2007, Eugene Fama, o pai da hipótese da eficiência do mercado, declarou que “a palavra ‘bolha’ me deixa louco”, e continuou a explicar porque podemos confiar no mercado da habitação: “Os mercados imobiliários são menos líquidos, mas as pessoas são muito cuidadosas quando compram casas. É tipicamente o maior investimento que vão fazer, por isso olham à sua volta com muito cuidado e comparam preços. O processo de licitação é muito detalhado”.

De facto, os compradores de casas geralmente comparam cuidadosamente os preços – ou seja, comparam o preço da sua potencial compra com os preços de outras casas. Mas isto não diz nada sobre se o preço global das casas é justificado. É economia do ketchup, mais uma vez: porque uma garrafa de dois litros de ketchup custa o dobro do que uma garrafa de um litro, os teóricos financeiros declaram que o preço do ketchup deve ser o correto.

Jason Lutes

Em suma, a crença em mercados financeiros eficientes cegou muitos, se não a maioria dos economistas, ao aparecimento da maior bolha financeira da história. E a teoria da eficiência do mercado também desempenhou um papel significativo na inflação dessa bolha em primeiro lugar.

Agora que a bolha não diagnosticada rebentou, o verdadeiro risco de ativos supostamente seguros foi revelado e o sistema financeiro demonstrou a sua fragilidade. As famílias americanas viram evaporar 13 milhões de milhões de dólares em riqueza. Perderam-se mais de seis milhões de postos de trabalho, e a taxa de desemprego parece estar a atingir o seu nível mais alto desde 1940. Então, que orientação tem a economia moderna a oferecer na nossa atual situação difícil? E devemos nós confiar nela?

VI. A querela dos estímulos

Entre 1985 e 2007, uma falsa paz instalou-se no campo da macroeconomia. Não tinha havido qualquer convergência real de pontos de vista entre as fações da água salgada e da água doce. Mas estes foram os anos da Grande Moderação – um período prolongado durante o qual a inflação foi subjugada e as recessões foram relativamente moderadas. Os economistas de água salgada acreditavam que a Reserva Federal tinha tudo sob controlo. Os economistas de água doce achavam que as ações da Reserva Federal não eram realmente benéficas, mas estavam dispostos a deixar que as coisas mentissem.

Mas a crise acabou com a paz falsa. De repente, as políticas estreitas e tecnocráticas que ambos os lados estavam dispostos a aceitar já não eram suficientes – e a necessidade de uma resposta política mais ampla trouxe os velhos conflitos para o exterior, mais ferozes do que nunca.

Porque é que essas políticas reduzidas e tecnocráticas não eram suficientes? A resposta, numa palavra, é zero.

Durante uma recessão normal, o FED responde comprando títulos do Tesouro – dívida de curto prazo do governo – aos bancos. Isto faz baixar as taxas de juro da dívida pública; os investidores que procuram uma taxa de retorno mais elevada deslocam-se para outros ativos, fazendo baixar também outras taxas de juro; e normalmente estas taxas de juro mais baixas acabam por conduzir a uma retoma económica. O FED lidou com a recessão que começou em 1990, fazendo baixar as taxas de juro de curto prazo de 9% para 3%. Lidou com a recessão que começou em 2001, conduzindo as taxas de 6,5% para 1%. E tentou lidar com a atual recessão, conduzindo as taxas de juro de 5,25% para zero.

Mas zero, afinal de contas, não é suficientemente baixo para pôr fim a esta recessão. E o FED não pode empurrar as taxas abaixo de zero, uma vez que, a taxas próximas de zero os investidores simplesmente acumulam dinheiro em vez de o emprestar. Assim, no final de 2008, com taxas de juro basicamente ao nível a que os macroeconomistas chamam o “limite inferior a zero”, mesmo quando a recessão continuou a aprofundar-se, a política monetária convencional tinha perdido toda a sua capacidade de atuação.

E agora? Esta é a segunda vez que a América enfrenta o limite inferior zero, sendo a ocasião anterior a Grande Depressão. E foi precisamente a observação de que existe um limite inferior para as taxas de juro, que levou Keynes a defender uma maior despesa governamental: quando a política monetária é ineficaz e o sector privado não pode ser persuadido a gastar mais, o sector público deve tomar o seu lugar no apoio à economia. O estímulo orçamental é a resposta keynesiana ao tipo de situação económica de depressão em que nos encontramos atualmente.

Este pensamento keynesiano está subjacente às políticas económicas da administração Obama – e os economistas de água doce estão furiosos. Durante cerca de 25 anos toleraram os esforços do FED para gerir a economia, mas uma retoma do tipo keynesiano completo foi algo completamente diferente. Em 1980, Lucas, da Universidade de Chicago, escreveu que a economia keynesiana era tão ridícula que “nos seminários de investigação, as pessoas já não levam a sério a teorização keynesiana; o público começa a sussurrar e a rir-se uns aos outros”. Admitir que Keynes tinha razão, afinal de contas, seria uma confissão demasiado humilhante.

E assim, Cochrane, de Chicago, indignado com a ideia de que as despesas governamentais poderiam mitigar a última recessão, declarou: “Não faz parte do que se tem ensinado aos estudantes diplomados desde os anos 60. As ideias [keynesianas] são contos de fadas que se têm revelado falsos. É muito reconfortante em tempos de stress voltar aos contos de fadas que ouvimos quando crianças, mas isso não os torna menos falsos”. (É uma marca da profundidade da divisão entre água salgada e água doce que Cochrane não acredite que “alguém” ensina ideias que são, de facto, ensinadas em lugares como Princeton, MIT e Harvard).

Jason Lutes

Entretanto, os economistas de água salgada, que se tinham confortado com a crença de que a grande divisão na macroeconomia estava a estreitar-se, ficaram chocados ao perceberem que os economistas de água doce não tinham estado a ouvir de modo nenhum. Os economistas de água doce que se opunham ao estímulo não pareciam estudiosos que tinham pesado os argumentos keynesianos e os tinham achado desprovidos de argumentos. Pelo contrário, pareciam-se com pessoas que não tinham ideia do que era a economia keynesiana, que estavam a ressuscitar falácias anteriores a 1930 na crença de que estavam a dizer algo novo e profundo.

E não foi apenas Keynes cujas ideias pareciam ter sido esquecidas. Como Brad DeLong da Universidade da Califórnia, Berkeley, salientou nas suas lamentações sobre o “colapso intelectual” da escola de Chicago, a posição atual da escola equivale também a uma rejeição generalizada das ideias de Milton Friedman. Friedman acreditava que a política do FED em vez de mudanças nas despesas governamentais deveria ser utilizada para estabilizar a economia, mas nunca afirmou que um aumento nas despesas governamentais não pode, em circunstância alguma, aumentar o emprego. De facto, relendo o resumo de Friedman de 1970 das suas ideias, “Um Quadro Teórico para a Análise Monetária”, o que é surpreendente é como ele parece keynesiano.

E Friedman certamente nunca acreditou na ideia de que o desemprego em massa representa uma redução voluntária no esforço de trabalho ou a ideia de que as recessões são realmente boas para a economia. No entanto, a atual geração de economistas de água doce tem vindo a apresentar ambos os argumentos. Assim, Casey Mulligan, de Chicago, sugere que o desemprego é tão elevado porque muitos trabalhadores estão a optar por não aceitar empregos: “Os trabalhadores enfrentam incentivos financeiros que os encorajam a não trabalhar. A diminuição do emprego explica-se mais pela redução da oferta de mão-de-obra (a vontade das pessoas de trabalhar) e menos pela procura de mão-de-obra (o número de trabalhadores que os empregadores precisam de contratar)”. Mulligan sugeriu, em particular, que os trabalhadores estão a optar por permanecer desempregados porque isso melhora as suas probabilidades de receberem apoio hipotecário. E Cochrane declara que o desemprego elevado é atualmente uma coisa boa: “Deveríamos ter uma recessão. As pessoas que passam as suas vidas a bater pregos no Nevada precisam de algo mais para fazer”.

Pessoalmente, penso que isto é uma loucura. Porque é que deveria ser necessário o desemprego em massa em toda a nação para que os carpinteiros se mudem do Nevada? Poderá alguém afirmar seriamente que perdemos 6,7 milhões de empregos porque há menos americanos a querer trabalhar? Mas era inevitável que os economistas de água doce se vissem presos neste beco sem saída: se partirmos do pressuposto de que as pessoas são perfeitamente racionais e os mercados são perfeitamente eficientes, temos de concluir que o desemprego é voluntário e que as recessões são desejáveis.

No entanto, se a crise empurrou os economistas de água doce para o absurdo, também criou muita necessidade de introspeção pela parte dos economistas de água salgada. O seu enquadramento teórico, ao contrário do da Escola de Chicago, admite a possibilidade de desemprego involuntário e consideram-na uma coisa má. Mas os modelos dos novos keynesianos, que passaram a dominar o ensino e a investigação, assumem que as pessoas são perfeitamente racionais e que os mercados financeiros são perfeitamente eficientes. Para conseguir algo como a atual queda nos seus modelos, os Novos Keynesianos são forçados a introduzir algum tipo de fator de fraude que, por razões não especificadas, deprime temporariamente a despesa privada. (Fiz exatamente isso em alguns dos meus próprios trabalhos). E se a análise de onde estamos agora assenta neste fator de “fraude”, quanta confiança podemos ter nas previsões dos modelos sobre para onde vamos?

O estado da macro, em suma, não é bom. Então, para onde vai a profissão a partir daqui?

VII. Falhas e fricções

A economia, como um corpo, ficou em apuros porque os economistas foram seduzidos pela visão de um sistema de mercado perfeito e sem fricções. Se a profissão se quiser redimir, terá de se reconciliar com uma visão menos sedutora – a de uma economia de mercado que tem muitas virtudes, mas que também é atravessada por falhas e fricções. A boa notícia é que não temos de começar do zero. Mesmo durante o apogeu da economia de mercado perfeita, foi feito muito trabalho sobre as formas como a economia real se desviou do ideal teórico. O que provavelmente vai acontecer agora – de facto, já está a acontecer – é que a economia com falhas e fricções vai passar da periferia da análise económica para o seu centro.

Já existe um exemplo bastante bem desenvolvido do tipo de economia que tenho em mente: a escola de pensamento conhecida como finanças comportamentais. Os praticantes desta abordagem sublinham duas coisas. Primeiro, muitos investidores do mundo real têm pouca semelhança com as calculadoras fixes da teoria da eficiência do mercado: estão todos demasiado sujeitos ao comportamento do rebanho, a crises de exuberância irracional e ao pânico injustificado. Em segundo lugar, mesmo aqueles que tentam basear as suas decisões em cálculos frios descobrem frequentemente que não conseguem, que problemas de confiança, credibilidade e garantias limitadas os forçam a correr com o rebanho.

Sobre o primeiro ponto: mesmo durante o auge da hipótese da eficiência do mercado, parecia óbvio que muitos investidores do mundo real não são tão racionais como os modelos predominantes assumidos. Larry Summers começou uma vez um trabalho sobre finanças, declarando: “HÁ IDIOTAS. Olha à tua volta”. Mas de que tipo de idiotas (o termo preferido na literatura académica, na verdade, é “negociantes sobre ruído”) estamos a falar? As finanças comportamentais, recorrendo ao movimento mais amplo conhecido como economia comportamental, tenta responder a essa pergunta relacionando a aparente irracionalidade dos investidores com preconceitos conhecidos na cognição humana, como a tendência para se preocuparem mais com pequenas perdas do que com pequenos ganhos ou a tendência para extrapolar demasiado facilmente a partir de pequenas amostras (por exemplo, assumindo que, porque os preços das casas subiram nos últimos anos, vão continuar a subir).

Jason Lutes

Até à crise, os defensores da eficiência do mercado, como Eugene Fama, rejeitaram as provas produzidas em nome das finanças comportamentais como uma coleção de “artigos de curiosidade” sem verdadeira importância. Esta é uma posição muito mais difícil de manter agora que o colapso de uma vasta bolha – uma bolha corretamente diagnosticada por economistas comportamentais como Robert Shiller, de Yale, que a relacionou com episódios passados de “exuberância irracional” – pôs a economia mundial de joelhos.

Sobre o segundo ponto: suponha que existem, de facto, idiotas. O quanto é que eles são importantes? Não muito, argumentou Milton Friedman num influente jornal de 1953: investidores inteligentes ganharão dinheiro comprando quando os idiotas venderem e vendendo quando estes comprarem e assim com este processo estabilizarão os mercados. Mas a segunda vertente das finanças comportamentais diz que Friedman estava errado, que os mercados financeiros são por vezes altamente instáveis, e neste momento essa visão parece difícil de rejeitar.

Provavelmente o artigo mais influente nesta linha foi uma publicação de 1997 de Andrei Shleifer, de Harvard, e Robert Vishny, de Chicago, que constituiu uma formalização da antiga linha de que “o mercado pode permanecer irracional por mais tempo do que você pode permanecer solvente”. Como eles salientaram, os grandes apostadores – as pessoas que supostamente compram baixo e vendem alto – precisam de capital para fazer o seu trabalho. E um grave mergulho nos preços dos ativos, mesmo que não faça sentido em termos de fundamentos, tende a esgotar esse capital. Como resultado, o dinheiro inteligente é forçado a sair do mercado, e os preços podem entrar numa espiral descendente.

A propagação da atual crise financeira pareceu quase como uma lição objetiva sobre os perigos da instabilidade financeira. E as ideias gerais subjacentes aos modelos de instabilidade financeira revelaram-se altamente relevantes para a política económica: a tónica posta no capital esgotado das instituições financeiras ajudou a orientar as ações políticas tomadas após a queda do Lehman, e parece (cruze os dedos) que estas ações conseguiram evitar um colapso financeiro ainda maior.

Entretanto, que é feito da macroeconomia? Acontecimentos recentes rejeitaram de forma bastante decisiva a ideia de que as recessões são uma resposta ótima às flutuações no ritmo do progresso tecnológico; uma visão mais ou menos keynesiana é o único jogo plausível no país. No entanto, os modelos padrão dos Novos Keynesianos não deixaram espaço para uma crise como a que estamos a ter, porque esses modelos geralmente aceitaram a visão do mercado de eficiência do sector financeiro.

Houve algumas excepções. Uma das linhas de trabalho, cujo elemento pioneiro era nada mais nada menos que Ben Bernanke, em colaboração com Mark Gertler, da Universidade de Nova Iorque, enfatizou a forma como a falta de garantias suficientes pode dificultar a capacidade das empresas de angariar fundos e procurar oportunidades de investimento. Uma outra linha de trabalho conexa, largamente estabelecida pelo meu colega Nobuhiro Kiyotaki e John Moore, da London School of Economics, argumentou que os preços de ativos como os imóveis podem sofrer fortes quedas auto-reforçadoras que, por sua vez, deprimem a economia como um todo. Mas até agora, o impacto das finanças disfuncionais não tem estado no centro nem mesmo da economia keynesiana. É evidente que isso tem de mudar.

VIII. Retomar Keynes

Por isso, eis o que penso que os economistas têm de fazer. Primeiro, têm de enfrentar a realidade inconveniente de que os mercados financeiros estão muito longe da perfeição, que estão sujeitos a delírios extraordinários e à loucura das multidões. Segundo, têm de admitir – e isto será muito difícil para as pessoas que gozaram e sussurraram sobre Keynes – que a economia keynesiana continua a ser o melhor enquadramento que temos para dar sentido a recessões e depressões. Em terceiro lugar, terão de fazer o seu melhor para incorporar as realidades das finanças na macroeconomia.

Muitos economistas irão achar estas mudanças profundamente perturbadoras. Levará muito tempo, se é que alguma vez o farão, antes das novas abordagens mais realistas das finanças e da macroeconomia oferecerem o mesmo tipo de clareza, completude e pura beleza que caracteriza a abordagem neoclássica completa. Para alguns economistas, esta será uma razão para se agarrarem ao neoclassicismo, apesar do seu total fracasso em dar sentido à maior crise económica em três gerações. Este parece, no entanto, ser um bom momento para recordar as palavras de H. L. Mencken: “Há sempre uma solução fácil para todos os problemas humanos – clara, plausível e errada”.

No que diz respeito ao problema de recessões e depressões, os economistas precisam de abandonar a solução pura mas errada de assumir que todos são racionais e que os mercados funcionam perfeitamente. A visão que emerge quando a profissão repensar os seus fundamentos pode não ser assim tão clara; certamente não será pura; mas podemos esperar que tenha a virtude de estar, pelo menos em parte, certa.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...