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6 de janeiro de 2021

A polícia ativou a turba de extrema direita que invadiu violentamente o edifício do Capitólio

A multidão de extrema direita que tomou o Capitólio hoje nunca teria passado pela porta da frente se a polícia federal não tivesse permitido que eles entrassem. O simples fato é que os manifestantes de esquerda são tratados com brutalidade, enquanto os de direita os manifestantes são mimados.

Peter Gowan
Apoiadores de Trump invadem o Capitólio dos EUA em Washington, DC, em 6 de janeiro de 2021. (Win McNamee / Getty Images)

Tradução / Vamos direto ao ponto: se a polícia federal não queria que os manifestantes de extrema direita estivessem dentro do Capitólio, eles não estariam dentro do Capitólio. No verão passado, a polícia e a Guarda Nacional atacaram manifestantes pacíficos do movimento Black Lives Matter que ousaram se aproximar demais de prédios federais. Inúmeras pessoas, inclusive eu, ficaram feridas.

A violência de hoje, que foi incitada pelo presidente Trump e viu tiros disparados e manifestantes posando para as câmeras na tribuna da Câmara dos Deputados, nunca teria passado pela porta da frente sem a aquiescência da Polícia Federal. As autoridades ofereceram resistência mínima à horda de pessoas enviada pelo presidente para impedir a contagem dos votos eleitorais. Com poucas exceções, a resposta tem sido simplesmente deixar a multidão de extrema direita passar e esperar para ver, em vez de evitar a violência e a invasão das instituições federais que está ocorrendo. A capital do Estado de Kansas também foi saqueada por partidários de Trump.

O turbilhão de hoje deixou claro o caráter do Estado nos EUA. Não vivemos em uma verdadeira democracia, e o aparato repressivo desse Estado simplesmente não adota abordagens diferentes para os manifestantes de esquerda e de direita por coincidência. Ele reprime brutalmente aqueles que ameaçam a classe dominante e mima aqueles que não o fazem.

Se a recém-confirmada maioria democrata quisesse, eles poderiam tornar este um momento divisor de águas na política dos EUA – um momento em que os liberais percebem que sua passividade só será enfrentada com mais violência. Agora é a hora de conter a ameaça violenta da direita, expurgando os agentes de segurança que simpatizam com a extrema direita, expulsando os membros republicanos do Congresso que incitaram essa violência e trabalhando para democratizar a vida econômica e política do país.

Não podemos, entretanto, contar com a própria força de segurança que permitiu que esse desastre o resolvesse. Devemos resistir firmemente aos esforços para aumentar os orçamentos e poderes da polícia em nome do contra-extremismo, visto que a polícia está do lado dos extremistas de direita, até mesmo posando para selfies com eles.

O Senado acabará por se reunir novamente, Joe Biden será confirmado como o presidente e o prédio do Capitólio saqueado será eventualmente esvaziado. Mas o que restará é a sensação entre a população e os representantes eleitos de que não estão protegidos da violência da direita e que uma multidão fascista pode ameaçar sua segurança com resistência mínima da policia. E sem uma resposta drástica, isso não é um bom presságio para nenhum de nós.

Sobre o autor

Peter Gowan é um pesquisador irlandês e membro residente do Next System Project do Democracy Collaborative.

13 de março de 2020

Crise do coronavírus exige congelamento de rendas e moratória aos despejos

É indefensável que as pessoas devam recear ser despejadas durante uma crise de saúde pública. A crise do coronavírus exige um controlo de emergência do mercado da habitação.

Peter Gowan


Foto: 70023venus2009/Flickr

Tradução / À medida que a realidade do Covid-19 se instala globalmente, a nossa capacidade – ou a falta dela – para lidar com a crise é, de repente, uma questão candente. A segurança habitacional é uma preocupação crescente e sem garantia habitacional muitas pessoas estão em risco.
Disponibilidade de habitação pública ou social de uma forma generalizada, o controle das rendas, a abolição da situação de sem abrigo e uma carta de direitos do inquilino são medidas essenciais para proteger as pessoas do comportamento predador dos senhorios e de despejos injustos. Mas ainda não vivemos nesse mundo, e medidas de emergência na área da habitação serão necessárias para estabilizar e proteger as pessoas no decorrer da crise de saúde pública em desenvolvimento.

Numa crise em que, de repente, temos de trabalhar menos e com isto arriscarmo-nos a uma quebra de rendimentos ou ainda a uma possível situação de suspensão de contrato, muitos inquilinos receiam o despejo e ainda cair em situação de sem abrigo por não conseguirem cumprir com os pagamentos. Isto tem de mudar.

Socialistas e progressistas podem e devem exigir um programa de emergência imediato para estabilizar as pessoas nas suas casas até que a crise passe. Contra os lucros dos senhorios e especuladores, devemos exigir as medidas básicas de apoio à saúde pública, permitindo que as pessoas tirem tempo do trabalho sem recear serem despejados.

As medidas propostas de seguida devem ser consideradas em complementaridade, e não em substituição, às medidas para proteção da suspensão de contrato, ou ao acesso a testes, tratamentos e, por fim, vacinas universais e gratuitas. Devemos também exigir subsídios de doença pagos de forma substancial. No entanto, sem controlo do mercado habitacional, é bem provável que os medos e pressões persistam.

Segurança Habitacional abrangente

Como base, necessitamos de leis que garantam às pessoas o direito de se manterem nas suas casas enquanto este período durar e nos dias imediatamente seguintes. O primeiro passo, deverá ser o de impor um congelamento de todas as rendas, à data de 2019, e uma moratória a todos os despejos, fins de contrato, assim como suspensão da acumulação de juros de hipoteca de casa própria e de habitação destinada ao arrendamento. Isto assegurará a estabilidade das pessoas nas suas casas enquanto a crise durar, independentemente de continuarem a trabalhar.

Um congelamento de rendas a nível nacional significa que não poderá haver lugar a aumento de renda para lá do valor praticado a dezembro de 2019. Qualquer aumento de renda desde aí, ou que seja anunciado antes da publicação da lei, deverá ser revertido para os preços de dezembro de 2019. (Se o arrendamento iniciou depois de 2019, as rendas devem ficar paralisadas no menor valor praticado desde o início do arrendamento). Isto deverá aplicar-se a arrendamentos familiares ou residenciais. Deverá ser aplicado universalmente a qualquer arrendatário habitacional, e deverá ser aplicado na base da unidade ou quarto e não apenas do detentor do contrato, porque se alguém deixar um quarto voluntariamente o senhorio não poderá cobrar mais do que o anterior inquilino pagava pelo aluguer.

Esta medida deve aplicar-se durante a crise de COVID terminando após um período de três a seis meses transcorridos começando a contar do momento em que o número total de casos cai para menos de 1/3 relativo ao pico da crise – e repondo-se automaticamente no caso de as ocorrências voltarem a aumentar e ultrapassarem os valores estabelecidos.

Para prevenir extorsão após este período, os aumentos de renda anuais devem ser indefinidamente indexados ao índice do preço do consumidor local ou 3%, o que se apresentar como o menor valor – como proposto pela Campanha “Homes Guarantee”. Esta deverá ser a norma durante um longo período, idealmente permanentemente.

Enquanto dure esta crise (incluindo a fase de rescaldo), todos os despejos devem ficar suspensos. No entanto deve continuar a solicitar-se que se mantenham as condições do aluguer e que se paguem as rendas congeladas a quem é capaz de o fazer, mas sanções altamente punitivas, incluindo despejos, devem ser totalmente afastados do cenário.

Estas são as medidas necessárias de forma a assegurar que ficar em casa para não ir trabalhar não resulta em despejo e na situação de sem abrigo. Se um “pau” menos rígido resulta em algumas pessoas não pagarem a renda que devem, esta consequência é bem menos grave que as pessoas irem trabalhar com coronavírus. No rescaldo, e para garantir que não existem despejos de retaliação, aos inquilinos deve garantir-se uma legislação apertada, justa e permanente de enquadramento do despejo a nível federal, limitando as razões pelas quais é possível despejar a um conjunto pequeno de circunstâncias e de que se faça prova em tribunal.

O Governo deveria oferecer-se para adquirir propriedades, das quais os senhorios não desejem continuar a ser proprietários, com um desconto significativo, e converte-las em arrendamento compatível com os rendimentos, através da aplicação de um limite baseado numa taxa de esforço, de forma a assegurar que as pessoas que perderem o seu trabalho ainda são capazes de pagar as suas rendas sem entupir os serviços disponíveis. Também deverá, provavelmente, estabelecer um fundo para compensar os senhorios a quem os inquilinos não estejam a pagar as rendas, estabelecidas com os limites definidos, por dificuldades de rendimento. Se os senhorios em geral não são um grupo muito empático, isto poderia ajudar a aliviar o fardo para aqueles agentes mais simpáticos, que de outra forma poderiam afundar a proposta. A limitação de renda baseada numa data anterior assegura que este fundo não pode ser explorado por senhorios que aumentem a renda artificialmente para extorquir dinheiro do Estado, o que de outra forma poderia ser uma preocupação muito real. Os pedidos no âmbito deste fundo devem ser feitos mediante prova de que a propriedade está de acordo com o regime do edificado e com licença habitacional – qualquer obra legalmente exigida deve ser feita recorrendo ao valor da compensação atribuída.

A acumulação de juros hipotecários em habitações, ocupadas pelo proprietário ou alugadas para habitação própria e permanente, afetadas pela limitação de rendas deve ser temporariamente suspensa, e os donos devem ser protegidos da retaliação que possa resultar da suspensão dos pagamentos durante a crise (apesar de que lhes deve ser permitido continuar a pagar se assim escolherem). Execuções em habitações ocupadas pelo proprietário devem também ser suspensas – incluindo a suspensão de processos pendentes no momento.

Estas medidas pretendem mudar o custo da crise para montante, dos proprietários e pequenos senhorios para os bancos e fundos de investimento, que podem, se necessário, aceder a recursos públicos criados para assegurar a estabilidade financeira. O meu colega Thomas Hanna do Democracy Collaborative propõe que bancos requerentes de resgates devem ter como condição a transferência permanente para a propriedade pública.

Estas medidas devem conter o impacto geral da crise na classe trabalhadora – não apenas os mais pobres, mas também pessoas com rendimentos médios a médio-altos que provavelmente estarão a sofrer dificuldades ou doentes em resultado do impacto do coronavírus nos seus locais de trabalho.

Uma suspensão dos despejos deve estender-se para uma proibição de encerramento das residências estudantis e uma reabertura daquelas que se encontram já encerradas. Muitos dos estudantes que já pagaram os seus quartos estão a ser forçados a sair sem ter para onde ir. Se as cantinas são vistas como um risco, deve encontrar-se uma alternativa para a manutenção de canais estáveis de alimentação. As aulas podem e devem manter-se suspensas enquanto necessário.
As pessoas nas prisões estão muito provavelmente sob grande risco, resultado da alta concentração de população a viver em frequentes condições de insalubridade em equipamentos frequentemente subfinanciados e sobrelotados. Devem fazer-se esforços para rapidamente reduzir a população e para assegurar habitação acessível e segura para os que sejam libertos. O mesmo se aplica para os equipamentos de detenção de imigrantes – deixando de parte os argumentos morais, pessoas amontoadas em campos e celas podem exacerbar uma situação de crise de saúde pública.

Um risco sério é a concentração de pessoas em situação de sem abrigo em equipamentos sem condições sanitárias, albergues e abrigos. Estas pessoas precisam da sua própria habitação, mas uma solução provisória poderia ser a utilização de quartos sobrantes e casas vazias para encaminhar esta população para respostas com condições sanitárias até que a crise passe.

Proprietários de casas devolutas e de múltiplas propriedades, assim como aqueles donos de mansões com muitos quartos, devem ser chamados a ajudar a apoiar esta população, muita da qual está atualmente concentrada em abrigos ou respostas de emergência, garantindo que são albergadas em locais que não permitam o contágio generalizado. Ás pessoas em situação de sem abrigo deve ser garantido um quarto privado enquanto durar esta crise. Um programa de abrigo voluntário deve ser instalado, mas se não for suficiente, proprietários e senhorios abastados devem ser compelidos a providenciar esse abrigo para a manutenção da saúde pública. A longo prazo deve ser adquirida ou construída habitação permanente para a população em situação de sem abrigo.

Enquanto movimento, os Socialistas Democráticos da América (DSA) devem exigir que os custos do coronavírus não são impostos na classe trabalhadora. Esta exigência tem diferentes aplicações conforme o setor, mas as medidas acima propostas são uma extensa garantia para trabalhadores arrendatários ou hipotecários.

Podemos reconhecer que é pouco provável que estas medidas sejam implementadas a nível federal – mas os representantes socialistas devem advogá-las. A nível local e estadual, os nossos representantes eleitos devem seguir o exemplo de Dean Preston, membro do Conselho de Supervisores do DSA de São Francisco e fazer tudo ao seu alcance para implementá-las.

Sobre o autor

Peter Gowan é um investigador irlandês e colaborador residente no Next System Project do Democracy Collaborative.

1 de outubro de 2009

Os caminhos do mundo

Em uma entrevista gravada no início deste ano, Peter Gowan relembra sua trajetória política e intelectual, do fim dos impérios à militância marxista, dos estaleiros do Bloco Oriental à ascensão do Regime Dólar-Wall Street.

Peter Gowan


NLR 59 • Sept/Oct 2009

Peter Gowan

Os caminhos do mundo

Entrevistado por Mike Newman e Marko Bojcun

Você poderia nos contar sobre sua infância e educação?

Nasci em Glasgow em 1946 e depois me mudei para Belfast com minha mãe e minha irmã, onde moramos até meus oito anos. (Nosso pai era um escocês-canadense que passou sua licença de guerra com nossa mãe, mas voltou para sua esposa e família no Canadá no final da guerra.) Aos nove anos, fui enviado para uma escola preparatória na Inglaterra e depois para Haileybury e para o Imperial Service College. Esta era a antiga escola da Companhia das Índias Orientais, criada para treinar os administradores coloniais que governariam a Índia, e era um foco de benthamismo. Tinha o que se poderia chamar de tradição imperialista trabalhista: Attlee e vários outros ministros trabalhistas estiveram lá. Isso foi na década de 1950, quando a Grã-Bretanha não só continuava a ter um império, como ainda se considerava o centro do mundo. Portanto, tínhamos uma consciência muito maior do que estava acontecendo no mundo do que muitos estudantes hoje — e também uma sensação muito maior de que o que a Grã-Bretanha decidia importava. A escola combinava uma forte ligação com o império — as paredes da capela eram cobertas por placas em homenagem aos ex-alunos que morreram no Passo de Khyber — com uma tradição de preocupação social com os pobres. Penso nisso como uma espécie de Milnerismo, em homenagem a Lord Milner, embora o ethos seja anterior a isso: a ideia de que o Estado deveria ser governado por uma elite dedicada, combinada com a ideia do império como uma alavanca para o progresso global.

E você compartilhava dessa visão geral?

Com certeza. Eu era o editor da revista da escola e meus editoriais estavam repletos desses sentimentos. Eu era um fervoroso apoiador do Partido Trabalhista, muito a favor da nacionalização. Minha irmã mais velha, a quem eu admirava muito, era cristã e socialista, e eu levava suas ideias muito a sério. Além disso, desenvolvi uma forte orientação terceiro-mundista. Na escola, eu acompanhava de perto o fim dos impérios, principalmente na África. Mas a grande experiência para mim aconteceu durante meu ano sabático, entre a escola e a universidade. Eu estava viajando de carona pela Europa e pelo Norte da África e encontrei um jovem sueco na fronteira da Tunísia com a Argélia. Viajamos juntos pela Argélia e Marrocos, até a Espanha. Dick foi o primeiro comunista que conheci. Ele tinha apenas dezoito anos, era engenheiro em uma fábrica em Gotemburgo e membro da Liga dos Jovens Comunistas, com uma formação política bastante sólida. Tínhamos discussões acaloradas sobre o papel britânico no Congo. Insisti que a política britânica era apoiar a ONU no fim da secessão de Katanga, que os belgas apoiavam. Dick me informou que eu estava falando bobagem: os britânicos queriam sabotar a independência congolesa e estavam ativamente engajados, militarmente, ao lado dos belgas. Eles haviam enviado suas tropas da Rodésia do Norte para Katanga. Tudo o que estava acontecendo na ONU era apenas um estratagema. Rejeitei seus argumentos. Eu lia o The Times com bastante devoção e tinha certeza do meu ponto de vista. Mas quando voltei para a Inglaterra e li os relatos sobre a crise do Congo por Thomas Hodgkin e Conor Cruise O'Brien, percebi que Dick estava certo e eu errado. Foi um choque enorme, não pelos detalhes do Congo, mas porque percebi que o The Times vinha mentindo sistematicamente sobre o que os britânicos estavam tramando por lá. Isso me fez pensar que o mundo era muito mais complicado do que eu imaginava.

Em 1964, você foi para a Universidade de Southampton para estudar História Moderna, Política e Economia. Como essas ideias se desenvolveram enquanto você estava lá?

Em Southampton, especializei-me em história econômica irlandesa, 1780-1820, sob a orientação de Miriam Daly. Havia muito pouca literatura secundária, então trabalhamos com materiais primários. Miriam nos fez pensar sobre diferentes métodos de interpretação, comparando as abordagens dos economistas clássicos ao problema camponês com as dos marxistas. Comecei a perceber que o marxismo poderia fornecer algumas ferramentas analíticas poderosas para esse tipo de trabalho. Eu também lia sobre a África, não de forma muito sistemática: o movimento Mau Mau no Quênia e o Nkrumahismo em Gana. A partir de 1965, acompanhávamos o que estava acontecendo no Vietnã. Evasivos americanos começaram a aparecer na Grã-Bretanha e foram uma influência importante para nós, assim como o movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos. Um estudante malaio, muito anti-imperialista, me fez ler a New Left Review, e isso foi muito emocionante. Eu também estava muito interessado na revolução cubana. Por fim, tive uma aula sobre história europeia de 1870 e, durante essa aula, li Deutscher sobre a Revolução Russa. Foi uma experiência emocional e intelectual enorme para mim.

Todos esses interesses ocorreram em paralelo a uma abordagem social-democrata de esquerda convencional em relação ao governo Wilson. Eu estava no Clube Trabalhista da Universidade e participei das conferências nacionais dos Estudantes Trabalhistas, onde conheci pela primeira vez a extrema esquerda britânica: o Partido Comunista, os Socialistas Internacionais e alguns membros da Quarta Internacional, organizados em torno de um jornal chamado The Week, que mais tarde formaria o Grupo Marxista Internacional. Não entrei para o IMG nessa época, mas gostei deles porque, em primeiro lugar, eram fortemente a favor de trabalhar no Partido Trabalhista, e eu acreditava que não havia sentido em fantasiar que a classe trabalhadora britânica fosse algo diferente do que era: o movimento trabalhista na Grã-Bretanha era o Partido Trabalhista e os sindicatos, e tínhamos que estar nele — isso era uma espécie de dever. Em segundo lugar, eles estavam muito envolvidos no movimento anti-imperialista, principalmente em relação ao Vietnã. A terceira coisa que me atraiu foi a dupla faceta da visão deles sobre a União Soviética: que, por trás de um sistema político terrível e maciçamente distorcido, havia um impulso emancipatório enterrado em algum lugar; não era um Estado capitalista. Eu havia participado de uma viagem estudantil à União Soviética em 1966, e na Universidade Estatal de Moscou o clima entre os estudantes ainda era relativamente aberto. Eles me falaram com bastante liberdade sobre o início da repressão sob Brejnev em 1966 e sobre como estavam perturbados com os julgamentos dos escritores Sinyavsky e Daniel. Senti então que havia a possibilidade de movimento e reforma ali. E, em contraste, eu simpatizava bastante com o Partido Comunista, mas não tanto com o Socialismo Internacional — principalmente porque tinha ido ouvir Chris Harman falar sobre a Revolução Cubana. Fiquei chocado com a animosidade de seu discurso e com a hostilidade em relação a Castro. Havia algo muito estreito e jesuítico nele, completamente alheio à realidade de um tremendo movimento de libertação em Cuba.

Em 1967, você foi para o Centro de Estudos Russos e do Leste Europeu em Birmingham para fazer um doutorado sobre a União Soviética.

Sim, eu estava estudando o período da Guerra Civil na província de Tambov. Esta foi a única província com excedente de grãos que permaneceu com os soviéticos durante todo o conflito. E então, assim que a Guerra Civil terminou, houve uma revolta muito poderosa em Tambov, liderada por pessoas dos Socialistas-Revolucionários, mais ou menos na mesma época da rebelião de Kronstadt. Ficou conhecida como tambovshchina, uma espécie de revolta anarquista contra os soviéticos liderada por camponeses, professores e assim por diante. Ninguém havia escrito sobre isso, então minha tarefa era analisar os materiais primários; em parte, era uma extensão do meu trabalho sobre os camponeses na Irlanda. Eu admirava muito muitos funcionários do Centro, era um lugar maravilhoso. Mas eu estava cada vez mais envolvido em trabalho político. Entrei para o IMG no final da primavera de 1968, em Birmingham. A primeira reunião que organizamos foi sobre Malcolm X — convidamos C. L. R. James, o marxista caribenho, para dar uma palestra sobre ele. Estávamos profundamente envolvidos na Campanha de Solidariedade ao Vietnã. Em 1969, mudei-me para Londres para trabalhar no jornal Black Dwarf, editado por Tariq Ali, e desempenhar um papel mais central na liderança do IMG — abandonando efetivamente o doutorado.

Como a repressão da Primavera de Praga e a invasão da Tchecoslováquia em 1968 afetaram sua atitude em relação à União Soviética?

Comecei a tentar descobrir por que isso havia acontecido. É claro que havia uma explicação pronta dentro do movimento trotskista, que dizia que havia um grupo burocrático no poder nessas sociedades, que havia se distanciado da massa da população e estava usando a repressão política para aumentar seus privilégios e seu poder. Isso, então, levaria a coisas como a repressão da Primavera de Praga. Mas esses argumentos não me convenceram completamente, simplesmente porque não explicavam a Primavera de Praga em si, que, a meu ver, havia vindo com bastante força tanto de cima quanto de baixo. Pode-se argumentar que foram os confrontos no topo que geraram uma dinâmica em direção ao fim da censura. Certamente, fomos muito inspirados pelas mudanças que estavam ocorrendo na Tchecoslováquia na primavera de 1968 e lideramos os protestos contra a invasão em frente à Embaixada Soviética em Londres naquele agosto. Mas, curiosamente, a invasão não nos desmoralizou inicialmente, porque achávamos que ela poderia ser rapidamente rechaçada — não entendíamos a dinâmica na Tchecoslováquia. Foi um grande choque quando a liderança de Dubcćek não conseguiu mobilizar a população e foi finalmente derrotada e destituída na primavera de 69.

Qual foi a sua experiência na Quarta Internacional nessa época?

Fui ao Nono Congresso da Internacional em Rimini, em 1969. Havia pessoas de todo o mundo — América Latina, Extremo Oriente, Europa. Dos líderes da Internacional naquela época, Pierre Frank foi o que mais me influenciou. Ele esteve no Partido Comunista Francês no período entreguerras e na Oposição de Esquerda internacionalmente, durante toda a guerra. Sua abordagem sempre foi: a análise concreta de uma situação concreta; nada na política era tão claro quanto se poderia imaginar. Ernest Mandel era uma figura muito atraente, e fui enormemente influenciado por seu livro sobre teoria econômica marxista. Mas não o considerava necessariamente muito confiável em análise política; Havia muito romantismo em seus discursos.

Na década de 1970, envolvi-me no "trabalho de segurança" da FI, que envolvia ajudar pessoas na América Latina ou em outros lugares que precisavam de documentos falsos, e também fui muito ativo na Europa Oriental. Como resultado, eu viajava muito: ia a Paris quase uma vez por mês para as perguntas de segurança e organizava entregas de material proibido para a Tchecoslováquia. Nossos contatos iniciais foram por meio da oposição Dubčekista exilada, sob a liderança de Jiří Pelikan, que mantinha contato próximo com a oposição de esquerda em Praga: Josef Smrkovský, Zdeněk Mlynář, o próprio Dubček e outros. Fui responsável por esse trabalho durante toda a década de 1970 e conheci pessoas muito interessantes lá. Dirigíamos vans através da fronteira, recolhendo livros e documentos escondidos em compartimentos falsos e trazendo coisas para fora. Entregar o material era sempre estressante, assim como atravessar a fronteira em si. Em cada viagem, levávamos entre cinquenta e cem livros de um tipo ou outro, muitos deles bastante anticomunistas. A situação ficou cada vez mais difícil, e eventualmente um membro da nossa equipe foi parado na fronteira. Outros assumiram o controle, foram presos e mantidos presos por alguns meses antes de serem libertados.

Para mim, a perspectiva política era basicamente a de Deutscher, a de construir um movimento por reforma e renovação no Leste. Eu achava que a esquerda ocidental tinha um papel significativo nisso. Minha experiência na Europa Centro-Oriental era que esses Estados eram autoritários, sem dúvida; mas não eram regimes totalitários de gângsteres, aterrorizando a população. Eu também acreditava que havia elementos reformistas dentro dos partidos governantes, inclusive na União Soviética. Eu era, claro, ingênuo quanto a isso. Mas eu era ingênuo principalmente quanto ao momento. O que eu não percebi foi o quão profundamente desmoralizante a esmagadora Primavera de Praga havia sido para essas forças reformistas. Os grupos de apoio à reforma, muito substanciais, que existiam nos anos 60 foram drasticamente reduzidos depois disso.

Com quais países você mais se envolveu?

Hungria, Polônia e Tchecoslováquia foram os principais lugares que visitei. Mas eu estava muito interessado no que acontecia dentro da União Soviética. Halya e eu fizemos uma longa viagem para lá em 1975 — foi uma espécie de lua de mel, na verdade; viajamos por toda a Ucrânia, e foi muito útil para obter vários aperçus sobre o que estava acontecendo lá. No final da década de 70, eu estava profundamente envolvido no trabalho sobre a Polônia, por meio de dois grupos extremamente interessantes. Um deles era uma rede de psicólogos que trabalhavam nas grandes fábricas e empresas do país. Ela havia sido criada com o apoio da liderança do Partido após as revoltas de 1970-71, para humanizar os locais de trabalho, abordar os problemas ocupacionais dos trabalhadores e assim por diante. Eu estava em contato particularmente próximo com um psicólogo que trabalhava nos estaleiros de Szczecin. Por meio dele, pude conhecer a vida dos trabalhadores do estaleiro e, em 1980, quando as greves começaram e o Solidarność estava sendo organizado, estive no estaleiro mais ou menos desde o início e tive um acesso fantástico ao que estava acontecendo por lá. Uma segunda rede era um grupo semiclandestino na Universidade de Varsóvia, conhecido como Clube Sigma. Envolvia principalmente marxistas — tanto professores quanto estudantes — discutindo o que percebiam ser a crise na República Popular da Polônia. Por meio deles, obtive relatórios muito detalhados, fornecidos por sociólogos, sobre as revoltas de 1976 em vários estaleiros, mas também em Radom e na grande fábrica de tratores em Ursus. Também ajudei Edmund Baluka, o líder exilado da greve no estaleiro de Szczecin em 1970-71, a restabelecer contato com membros de seu comitê de greve.

Este foi meu primeiro contato real com a vida dos operários industriais na Polônia, e o que me impressionou em Szczecin foi a alta qualidade de vida dos operários dos estaleiros. Fiquei em um prédio de apartamentos inteiramente dedicado à acomodação de operários dos estaleiros, e eles viviam muito bem, em termos ocidentais. Havia uma excelente creche, uma policlínica, um supermercado — era uma estrutura agradável. Isso confirmou meus preconceitos, porque, fundamentalmente, eu via esses estados no Leste como dominados por uma espécie de aristocracia operária; eles eram um tipo peculiar de Estado operário, no qual pessoas da classe trabalhadora — muitas vezes trabalhadores de primeira geração, cujos pais eram camponeses — vinham das grandes fábricas e ascendiam a posições de autoridade no Estado. Muitas vezes eram bastante autoritários, lembrando o tipo de chefes sindicais que se pode encontrar no Ocidente — nada de individualistas liberais. Mas, para que o sistema funcionasse efetivamente, eles precisavam manter o apoio da classe trabalhadora industrial.

No final da década de 1970, houve uma crise nesse sistema social, de um tipo muito específico. Houve uma abertura significativa para o Ocidente no campo econômico; uma crescente mercantilização e diferenciação social. A representação ocidental típica da política ali era a de um monólito comunista no qual nada acontecia, e então havia vários dissidentes, certo? Essa não era a situação. Os grandes movimentos grevistas de 1980 foram o resultado, entre outras coisas, de uma grande revolta dentro do Partido. No início de 1980, houve um Congresso do Partido no qual houve uma tremenda revolta vinda de baixo; pessoas que estavam claramente destinadas à liderança máxima no início do Congresso foram varridas ao final dele. E essa revolta vinha da classe trabalhadora industrial, dos bastiões vermelhos de Gierek: as minas da Baixa Silésia, os estaleiros.

Eu estava profundamente ciente dessa crise estrutural do Estado polonês. Até 13 de dezembro de 1981, quando Jaruzelski deu o golpe de Estado, eu acreditava — e não mudei de opinião sobre isso — que poderia ter havido um acordo entre o Solidariedade e a liderança do Partido Comunista. Havia uma corrente muito forte no Partido que dizia que, em hipótese alguma, deveria haver um confronto coercitivo entre o Partido e os trabalhadores; o aparato militar era uma questão diferente. Em segundo lugar, havia outra corrente, especialmente evidente na base, que queria transformar o Partido dos Trabalhadores Unidos Poloneses em um partido social-democrata — não um partido de vanguarda, mas um partido democrático com diferentes tendências. Era uma corrente mais ou menos ignorada no Ocidente, mas não é impossível que tivesse funcionado — tinha representação na alta liderança do Partido e bons laços com o Solidariedade.

Depois de 13 de dezembro de 1981, pela primeira vez, vi a possibilidade do colapso do bloco soviético. Após o golpe, Tamara Deutscher organizou um jantar com Maria Nowicki, então bibliotecária sênior na London School of Economics. Ela havia sido secretária de Gomułka no governo de Lublin no início da década de 1940 e comunista polonesa até a década de 1960. Era próxima do filósofo Adam Schaff, um pensador extremamente sofisticado. Ela concordou comigo que se tratava de uma crise interna do Partido Comunista; não deveria ser entendida como obra de um pequeno grupo de dissidentes de fora; nem se deveria pensar que a sociedade polonesa estivesse gemendo sob um jugo totalitário e pronta para se livrar dele na primeira oportunidade: na verdade, a sociedade e a política ali eram altamente articuladas e complexas. Mas ela duvidava que existissem energias para um projeto de desenvolvimento socialista na Polônia. Ela achava que o golpe de Jaruzelski era provavelmente o fim da história; Em vez disso, veríamos desmoralização, decadência e todo tipo de correntes católicas surgindo. Eu realmente não tinha uma resposta para isso; pensei repetidamente no que ela disse e senti que ela estava certa. O conceito de desmoralização me pareceu especialmente importante. Durante a década de 1980, a sociedade polonesa e a intelectualidade estavam, sem dúvida, em declínio. A ideia de que 1989 foi uma espécie de primavera dos povos era uma farsa do clima real na Polônia: era exatamente o oposto, como se pode perceber pela participação irrisória nas primeiras eleições livres, em 1989. Era uma sociedade profundamente desmoralizada, cheia de contradições ideológicas e políticas que se tornaram muito claras depois de 1989.

Podemos voltar e falar sobre o periódico Labour Focus on Eastern Europe, que você fundou em 1977?

A ideia do Labour Focus era muito direta: era defender uma abertura democrática não com base na restauração capitalista, mas em uma economia nacionalizada contínua, embora, é claro, isso não excluísse reformas econômicas. Insistíamos em mudanças democráticas, liberdade de expressão — todas demandas políticas essencialmente liberais, mas de uma fonte claramente esquerdista; e buscávamos nos envolver com os comunistas do Leste nesse tipo de linha. Também publicávamos o máximo de material documental possível de dissidentes de esquerda — principalmente da União Soviética — e informações sobre movimentos de base.

Tínhamos todo tipo de figuras intrigantes surgindo e nos oferecendo benefícios pecuniários substanciais, se ao menos víssemos a luz e fizéssemos algumas pequenas adaptações ao que estávamos fazendo. Lembro-me, em particular, de um cara chamado Roy Godson — não sei para qual agência ele realmente trabalhava, a CIA ou uma das outras — e tive uma reunião secreta com ele na estação de Stratford, no leste de Londres. Ele me ofereceu uma quantia de cinco dígitos, uma turnê de palestras pelos Estados Unidos — tudo o que eu precisava fazer era me livrar de qualquer comunista de verdade no conselho editorial do Labour Focus!

Como você viu a chegada de Gorbachev e o período após 1985?

Zdeněk Mlynář me disse que, se Gorbachev chegasse ao poder, haveria grandes mudanças no sentido da liberalização e democratização na União Soviética. Ele era amigo de longa data de Gorbachev; eles foram colegas de quarto na Universidade Estatal de Moscou no início dos anos 50. O discurso de Gorbachev no Congresso do Partido em 1986 corroborou em muito a análise de Mlynář. Mas ficou claro que, embora o projeto Gorbachev confirmasse a ideia alemã de que poderia haver um impulso significativo para a democratização, Gorbachev não conseguiu dar o salto final necessário para uma nova base de legitimação na vitória eleitoral democrática. E essa foi uma fraqueza crítica. Eu realmente acreditei, inicialmente, que Yeltsin poderia ser uma aposta melhor, porque ele estava pronto para assumir a responsabilidade. Infelizmente, Yeltsin foi comprado por um projeto diferente e acabou se revelando um demagogo bastante desastroso.

O que você achava que precisava ser feito que Gorbachev não estava fazendo?

Era preciso haver um Rechtsstaat — um Estado governado por lei; um sistema político democrático no qual pudesse haver, em princípio, pluralismo; obviamente, seria um sistema federal no contexto soviético. Havia também a questão da reforma econômica, e aqui Gorbachev claramente errou feio. Mas, essencialmente, o problema era que, durante o período Brejnev, a nomenklatura e a aktiv partidária, para usar o jargão deles — os altos funcionários do comunismo — haviam adquirido um estilo de vida cada vez mais corrupto e confortável. Não que fossem fabulosamente ricos, mas corruptamente e seguramente abastados. Gorbachev era um pé no saco — ameaçando tudo — e eles responderam querendo ir até o fim: proteger seus novos direitos de propriedade e obter mais, tornando-se uma classe capitalista privada. Essa tendência foi muito poderosa. Em outras palavras, a desmoralização da nomenklatura soviética foi muito forte, eu diria, após 1968. On the other hand, the idea that this transition to capitalism was being pushed for and demanded by the Soviet people is absolute rubbish. It came upon them as an entirely external event of shocking proportions; it was a huge trauma for many, and they couldn’t make sense of it. What you had in the 1990s in the post-Soviet Union were deeply demoralized societies, where the great hope was the next bottle of alcohol. That’s what was going on there, not some great liberation movement.

How would you describe the effect of the collapse on your political thinking?

Well, of course it was a huge ideological shock. My world-view had been that we were in a historical period of transition from capitalism towards socialism. And the Soviet bloc was, factually, a gain in that direction. I was never dewy-eyed about the Soviet leadership; but in comparison with the kind of racist imperialism that we’d seen in the first half of the twentieth century in Europe—and the United States, if you look at the Pacific War, not to speak of the treatment of the black population—it was a gain. I regarded the Soviet bloc, and the Soviet victory in the Second World War, as not only speeding the collapse of the empires, but also helping to bring the welfare state in Western Europe. So all of this was a huge blow to me. But, alongside that, I didn’t change two other opinions: one, that, with the collapse of the Soviet bloc, you would have the Western capitalist states going on the rampage again; so I was much more prepared than many for what has subsequently happened. Secondly, I still basically believed in Marx’s approach to history and politics—namely, that the great effort is to move towards freedom. This means something very mundane and straightforward for Marx: it means free time; it means liberating humanity from the realm of necessity, and in order to do this you have to get beyond capitalism. Capitalism has, of course, liberated humanity from a great deal: the forty-hour week, pensions—these were huge gains. Nevertheless, there is an irreducible drive in capitalism to block further progress along these lines, because it is all about creating insecurities and scarcities, and finding ways to exploit the maximum labour for the maximum profit.

Moving to the 1990s, how did you see the process of European integration? Did your views change significantly over time?

Up to the early 1990s, I didn’t have any settled view on European union. I found myself torn. I liked Tom Nairn’s polemics against British nationalist attitudes towards the eec; I was not, in principle, hostile to the idea of monetary union—why should one be? But on the other hand, I was pretty appalled by some aspects of the single market, and critical of the legal regime of the eu. I really came towards a view of the European Union through my research on what it was up to vis-à-vis Central and Eastern Europe in the 1990s: through studying the eu’s so-called technical assistance programme. I was shocked, actually, as I went into the nitty-gritty of what was going on. I have always liked to immerse myself in the empirical detail of anything that I’m trying to understand; there is an unfortunate tendency among many Marxists to think that there’s no need for empirical research—a view completely contradicted by Marx’s own gargantuan appetite for empirical investigation, which he thought was absolutely vital to theory. But when you get into the detail, the way things actually work is often much more dreadful than one could imagine. The fact was that the West Europeans adopted a ruthless policy of turning east-central Europe into a kind of passive, support hinterland for West European multinationals.

Would it be true to say that, before you reached that conclusion, you’d actually seen some potential for the European Union—led, perhaps, by France and Germany—to defend or promote a European social model against Anglo-Saxon trends in the United States and Britain?

Yes, to some extent. But the main idea was slightly different: namely, that American elites were extremely worried about that possibility. It was the United States’ concern about the potentials of Franco-German partnership, rather than its reality, that was driving tensions in the transatlantic relationship. The United States was preoccupied by the danger of losing control of high politics—namely, security politics—to a German or Franco-German effort to give Europe a bigger say on these issues within the alliance. This was crucially at stake in us policy over Yugoslavia.

How do you see the European Union today?

The crucial point is the Hayekian notion of the European Union as negative integration: its function is to stop states from exercising their economic sovereignty and deciding freely how they want to organize their capitalism. It is not a Union to construct a positive, integrated, federal Europe. The Hayekian eu preserves the nation-states, retaining these national capitalisms while simultaneously taking out their economic sovereignty. Of course, with the economic crisis, the emphasis on free competition, privatizations, strict controls on state aid and so on turns out to be little more than a house of cards, all resting on the notion that the Anglo-American financial regime would work. When it doesn’t, massive state aid is shovelled in and competition policy goes out the window. The monetary union arrangements are totally inadequate for dealing with this crisis. It turns out that banks actually presuppose authoritative tax-raising bodies to protect them, and no such body exists at an eu level; so they turn back to the national level. And of course, the crisis explodes at the weakest link—the way the two halves of Europe were put together after the Cold War, using east-central Europe as a handy support system for West European capitalism.

Could the European Union in any sense be a semi-independent actor, a counterweight to the United States, or is that possibility a phantom of the past?

The trend, probably, is towards a much greater readiness of the West European states to work very closely with the Americans, and not to engage in any ‘irresponsible’ activity vis-à-vis China, say, or Iran. I don’t think we should expect to see the eu acquiring a more autonomous role. There’s another problem: while the United States insisted during the Cold War on controlling Europe’s geopolitics very tightly, it simultaneously gave the West European states a significant role in the management of the international political economy—in the imf, the World Bank, the wto. Now, with the rise of East Asia, India and China, there has to be reform which will involve a considerable cut in West European influence and voting rights. The same goes for the un Security Council. What will the European reaction be? As far as the British are concerned, their only solution is to ask: how can we continue to make ourselves useful to Uncle Sam?

How would you summarize the position of the United States today?

The big question now is whether the United States, in practice, retains its hegemony in the international political economy. Can measures taken by the Obama administration turn round the economic situation in the us and lead the world out of economic crisis, or not? The answer to this will be hugely important for the next twenty years. I have a feeling that the measures won’t work, because political obstacles inside the United States are too great, including the limits which Obama and Geithner have placed upon themselves. And if Washington can’t turn things around, then the rest of the world will need to make its own arrangements, which may involve dismantling things that are very important to the us, and some that are very important to the Europeans as well. And then you will get a real crisis of strategy in Washington—what to do in those circumstances? But this is a practical question for the future; whether or not the us loses its hegemony will not be determined by intellectual activity on our part; it will be decided in the real world. The key question is, does the American strategy elite have the capacity, the resourcefulness and imagination to adapt? My impression is that, on the political-economy front, it probably does not. On foreign-policy issues there has been a substantial degree of rebranding after Bush. There was a general elite consensus on the need for that, which the Obama administration represents. But on key neuralgic issues, whether it is America’s right to engage in what they call pre-emptive war, or extraordinary renditions, Obama has been very careful to stay within the consensus.

Looking back, would you say that there is a constant set of themes that characterizes your work?

What is probably distinctive about my work is its jack-of-all-trades dimension: interdisciplinary, if you like. I’ve always been interested in thinking across politics and economics, and thinking in historical terms. Hayek said: someone who is only an economist is no economist, and I would say the same about politics. These categories—economics and politics—which are treated as utterly autonomous within conventional thought, are absolutely imbricated with each other, in very complicated ways. The second thing is that I don’t, on the whole, have the courage to write in the field of general theory; instead, I write in a kind of analytical mode. Analytical work has narrow parameters—it’s confined to particular times and particular spaces, and doesn’t claim truth across all ages; and much of my work is also contemporary. When I write, I do try to look downwards, if you like, towards the empirical, and upwards towards the theoretical. But I also find that when you get into this kind of work, you discover the specificities of relationships and dynamics which are much more peculiar and distinctive than one could ever have imagined. Last point: I consider myself to be at the opposite extreme from, say, Gerry Cohen in his Marx’s Theory of History, in that I do not think that economic and technological determinism can explain anything. This economic–technological determinism, what I would call ‘mechanical materialism’, is the approach of the classical political economists: Adam Smith and Ricardo. It’s quite extraordinary to me that such a huge number of Marxists have adopted it; Marx himself spent his life doing what he called a critique of political economy—i.e. of that mechanical approach. I think it is very helpful to make a distinction between the constitutive and the causal: the ontological significance of capitalism, of that social structure, is fundamental for understanding modern politics, and modern economics. But that doesn’t at all mean that you should start with what’s going on in the capitalist economy to find the causes of conflicts and changes.

Could you explain that a little further?

Well, by ‘ontological’ I mean a very simple thing: your theory of what the world—the social world—is made up of. The standard approach in Western social science—the one used by Weber, but it’s an ideology that’s become as naturalized as the air people breathe—is an atomistic one: that the world is essentially made up of individuals. In addition, the individuals may be pushed by certain drives; Weber would say by rational drives in the economic field and by non-rational drives in the political field. But Marxists have taken the view that there are big objects out there which are not atomistic: social structures such as capitalism, for example, that are changing and shaping the everyday world. When we are looking at contemporary developments—say, in international politics—we need to ask ourselves what kind of ontological assumptions we are making, and what they imply for our analysis.

You’ve written on international political economy, historical thinkers—Schmitt, Kant, Grotius, De Maistre—and political institutions, such as the un . Are there any areas that you feel happiest working in?

In terms of subject-matter, I don’t think so. What I have always found myself doing is taking up issues where I think there is a crisis in conventional approaches, but where there isn’t an obvious answer from anybody else. Often the result of this is that I find myself, in the first instance, drawing upon heterodox work which is not necessarily Marxist. Sometimes I get pulled to heterodox, non-Marxist positions, and sometimes towards what I would take to be more strictly Marxist ones. But it’s very important to keep oneself open to the material.

How does your work on financial systems relate to both Marxist and non-Marxist thinking?

That’s a good question. In the 1990s there was a tremendous amount of energy around the idea of what was called financial globalization. The notion was championed right across the political spectrum—there were plenty of Marxists who bought into it, as well as liberals and conservatives. What was common to these ideas was the mechanical materialism of the classical political economists—or, if you like, utilitarians—that I referred to before: the notion that what is going on is an organic development within the world economy, proceeding from the national, and therefore the international, towards the global in the field of finance. It is no good pretending that you can escape this development; you simply have to accept it and operate on its basis.

Now, I approach this with great scepticism. To me, what was called financial globalization seemed to be radically counter-intuitive, even within a capitalist logic. To give a simple example: there were huge swings in exchange rates between the main currencies, the dollar, euro and yen. These swings are completely counter-efficient for international investment across currency zones: you cannot calculate the profitability of you, as a German, making an investment in the dollar zone over the next five years, when you have no idea whether the dollar is going to be 100 per cent up or 100 per cent down against the euro. The privatization of exchange-rate risk involved in ‘financial globalization’ seemed to be a regression from the international to something much more primitive and imperial. I found the work of Susan Strange—a sort of progressive Weberian—and a number of other heterodox thinkers very helpful on this. From Strange I gained a lot of insights on the importance of the global monetary system, and the significance of the United States’ destruction of the Bretton Woods architecture. My position has been at the opposite end of the spectrum from the globalization-theory people. I have not accepted the idea that national capitalisms have been transcended; any notions of that sort I regard as simply false. So, too, of course is the notion that national capitalisms were ever autarkic: ever since the British constructed a genuine world market in the late eighteenth century, there has always been a global market. I came to the conclusion that the real-world referent of what people talk about as financial globalization has got the Stars and Stripes tacked all over it: it’s an American system.

Then one needs to ask why, and how does it fit in with other things we know about the United States? In the early 1970s, when the Bretton Woods system collapsed, I took the view, under the influence of Mandel, that it was a devastating blow to the dollar and to American dominance; now, I’ve come to exactly the opposite view—that it was a breathtaking assertion of American dominance over the rest of the capitalist world. Robert Wade, at lse, has quite rightly said that my work on all this has rather a one-eyed character. Certainly, my thinking on this has been modified since I wrote The Global Gamble—in particular, as I acknowledged in Critical Asian Studies a few years ago, I underplayed the extent to which this system of dollar dominance rested upon co-operation from East Asia. That is an example of what was one-eyed in the earlier system of thinking. But it doesn’t actually involve a huge transformation of the main argument.

You describe your work as fundamentally Marxist, but how would you react to the suggestion that, actually, what really interests you is power, and particularly us state power; and to some extent, you interpret international developments through that prism? What would you say to the idea that there’s a pretty strong dose of realism in your approach?

Well, first of all, I have never actually said that I regard my work as ‘fundamentally Marxist’. I do regard it as being inspired by Marxism, and I would hope that the insights which Marx has provided do genuinely influence my work. But I am pulled all the time in different directions. Secondly, I am very much interested in relations of power—not least because they are so commonly denied in liberal thought, sometimes naively, sometimes disingenuously; and liberal thought tends to downplay the coercive dimensions of international politics. But one of my claims to have made a theoretical contribution is my critique of American neo-realism, and in particular of Mearsheimer’s work.footnote1 My critique hinges on one core assumption of American neo-realism, which in my view is completely false in a capitalist world: that at the centre of world politics there is a struggle between states for their very existence—an assumption that is crucial to the whole neo-realist architecture. Empirically, I think this is quite false for the advanced capitalist states in the twentieth century. There was a tremendously violent war between, say, the United States and Japan in the Pacific, and one side won. So, presumably, the state that lost was wiped off the face of the earth, if states are involved in a struggle for their very existence. Well, Japan is still there—it wasn’t like that; far from it. You might say Germany is a bit more complicated because it was split. That’s perfectly true; but it was partitioned for reasons that realists have nothing to say about: namely, because of the social-system divide between the two great powers. Again, German capitalism and the German state—the frg—was revived after it was smashed to the ground in the Second World War.

So as far as advanced capitalist states are concerned, there are simply no grounds for this claim that they are in a fight for their existence. Of course, in the rise and spread of capitalism, lots of states have disappeared: almost all the indigenous states of Africa and the Americas were destroyed. But as capitalism spreads and consolidates across the world, the main powers are increasingly reluctant to tamper with the division of the world into different geographical states. Look at the Americans in Iraq: they didn’t go down the road of breaking the whole thing up. The real drive of capitalist states is not to wipe other capitalist states off the face of the earth; it’s to change their internal regimes, again something that realists don’t concern themselves with. Capitalism involves an endless struggle for value streams, and the social preconditions for the right kinds of value streams to come out of different areas—and capitalist states get very agitated if other states create spheres of influence which cut them out of the value stream. So there are tremendous efforts to restructure the internal regimes of states, along with, of course, efforts to restructure the external regimes. One of the absurdities in so much of the orthodox economic discussion is the way people talk about markets: ‘the market’ does this, ‘the market’ does that. Markets are like clothes—all shapes and sizes. And how a market is shaped—who wins in it—is a hugely important political question.

How do you see the relationship between capital in the us and state power? Who are the agents behind particular state policies—how does the state determine what its policy is?

Firstly, the United States is in a lot of difficulties at the moment. Given what I’ve said about the importance of regime-shaping, the extent to which leading states can actually solve the problems of other capitalisms, in a way that enables them to flourish, is a very big issue. Power, in that context, is the capacity to give a development perspective to others. In my opinion, American claims to be able to do that are under huge challenge right now.

When it comes to the relationship between state and capital, this varies, of course, very greatly, between states. But I think Marx’s approach is still a very important one: the state as the committee that tries to work out the strategic problems of its own national capitalism, and the solutions to them. There is a tendency to collapse the notion of capitalist class into the idea that the state is an aggregate of ceos of big companies. I think that’s quite wrong. Some of these ceos may be into politics—may be into thinking synthetically and strategically; others, not. But why should a ceo have strategic vision for a whole class? It’s the task of the state executive to come up with that vision and the capacity to implement it. Of course, the state executive does this in dialogue with other leaders who emerge from within the ranks of capital, who turn out to be capable and persuasive. But there needs to be some distance and some tension between the ‘committee’ that tries to take a strategic view and the chief executives of different companies—the individual capitals, if you like.

The peculiarity of the United States is, first, that it is, to an extraordinarily complete degree, a bourgeois democracy—a democracy in which the power and wealth of capital has sway over virtually every field of policy-making. More: there is almost no barrier to individual American capitalists building mafias of influence to block or control policy. There is no autonomous, if you like, state committee. And this is an anomaly—and a weakness: when Washington has to make strategic turns, it’s very difficult to do so. One is seeing that now, when the us really needs to think through an alternative relationship between its financial sector and its industrial economy. It is particularly hard for it to do this because, historically, the way the us has given itself a strategic vision—a capacity to think synoptically about its problems—has been through recruiting investment bankers from Wall Street, and lawyers from giant New York or Washington law firms. The result has been that Wall Street has had an extraordinarily big political role in Washington, because the investment banker has had a global view. But also, ensconced in the centres of power in Washington, one is going to be feathering one’s own nest, because that’s the American way. In Europe, there was a different approach, much more elitist: a mandarinate, most classically in Britain and in France. Historically, these mandarinates have had the capacity to integrate thinking and produce strategic ideas for the forward path of the state. In the British case, it took a hammering under Thatcher, and from the subsequent Americanization of the British policy-making system. One result is that the Treasury, along with other parts of the senior civil service, has been pretty much gutted of the capacity to do anything at all. So in Britain there is neither a mandarinate nor any particularly developed, sophisticated private-business bunch capable of acting as the committee for capital.

How do you see the future world outlook?

The fall of the Soviet bloc was a world-changing event. With it, the whole symbolic order and discourse of Communism collapsed, and socialism as a set of ideas ceased to have resonance on an international scale. Now there are very few theorists on the left who are continuing to do research on positive left alternatives to the capitalist order. Yet the last two decades don’t suggest that the Atlantic world’s resources really offer development potential to the rest; globalization hasn’t done that. I think new movements for world reform will arise, because some of the contradictions that Marx wrote about cannot be resolved; they are going to create more and more problems. One of these is the planet of slums that Mike Davis speaks of: hundreds of millions of people living in these megacities, expelled from proper insertion in the international division of labour, and experiencing a terrible social and economic degradation. Another is the inability of capitalism to transcend the nation-state, and therefore the constant swinging between two choices: either free trade, which is a form of imperialism, because the strong dominate the market; or protectionism, which is a form of mercantilism, leading towards political conflict. So I think there will be a need to look for a radical alternative.

Will these radical alternatives be taken up by parts of the insider intelligentsia, within capitalism, distancing themselves from class interests and class logic? History doesn’t show many examples of this happening without the threat of some very big social challenge. We won’t get radical alternatives coming out of the current economic crisis; that’s already clear in the Anglo-Saxon world from what they’re doing at the moment. There were some pretty radical alternatives after Stalingrad, in the 1940s—genuine rethinking about how to organize things in the Western world. The thirty glorious years of growth and development were to some extent down to the idea that, in Western Europe, it was necessary to build a multi-class democracy, not just a narrow bourgeois democracy; and to a degree that became a reality in north-west Europe. But as soon as the Soviet Union collapsed, all this went out the window. That’s unfortunate, because the West European multi-class, social-democratic model was a genuine advance over anything that we’ve seen anywhere else.

Reflecting on all the work you’ve done, what are you most proud of, and why?

I think the thing that makes me most proud, insofar as it is true, has been my effort to perceive what’s going on in the world from a non-provincial perspective: to try to make sense of it from the angle of the the great mass of the world’s population. That applies not only to my research, but also to my teaching—I think it is very important for young people to be shaken out of nationalist prejudices and falsehoods. It’s been a huge satisfaction to me that, in my work, I’ve been able to keep that going. As to whether one has come up with anything in the intellectual field that is going to restructure the way some people think about the world, I would be extremely modest in this area. But I think there have been some benefits to the left from some of the debates I’ve been involved in. I don’t want to exaggerate the importance of these debates in changing the way the world operates. But I do think that, ultimately, we’re going to see a new movement for world reform; and in that movement, the role of intellectuals will certainly be important—and I hope that some of what I’ve written will at least help to set the record straight on a few questions for a new generation of intellectuals coming forward with projects for that movement.

From January to June 2009, Marko Bojcun and Mike Newman, friends and colleagues of Peter Gowan at London Metropolitan University, recorded a series of interviews with him. This text is an edited version, based on several of those sessions.

1 ‘A Calculus of Power’, nlr 16, July–August 2002.

1 de fevereiro de 2009

Crise no centro: Consequências do novo sistema de Wall Street

Contra as contas tradicionais, Peter Gowan argumenta que as origens da crise financeira global estão na dinâmica do Novo Sistema de Wall Street que surgiu desde a década de 1980. Contornos do modelo atlântico e implicações — geopolíticas, ideológicas, econômicas — do seu estouro.

Peter Gowan

New Left Review

NLR 55 • JAN/FEB 2009

Tradução / A longa crise do crédito que teve início no mundo atlântico em agosto de 2007 é estranha por seus escopo e intensidade extraordinários. O discurso mainstream, ao referir-se a uma crise do subprime, implica que a crise do crédito foi causada por, em vez de ter disparado, uma bolha na economia real. Isso é, na melhor das hipóteses, uma ingenuidade: afinal, o estouro de uma bolha igualmente grande no mercado imobiliário espanhol não levou a tamanha explosão em seu sistema bancário nacional (Crawford & Tett, 2008). A noção de que uma queda no preço das casas possa suspender metade de todos os empréstimos na economia americana em uma questão de meses – e não apenas hipotecas, mas financiamentos de carros, cartões de crédito, papéis comerciais, propriedades comerciais e dívidas corporativas – não faz sentido. Em termos quantitativos, isso significou um encolhimento de cerca de US$ 24 trilhões no crédito, quase o dobro do Produto Interno Bruto (PIB) americano. [1] Os credores de outrora logo começaram a correr não apenas de títulos subprime, mas também da dívida supostamente mais segura de todas, a categoria "supersênior", cujo preço no fim de 2007 era um décimo do que havia sido apenas um ano antes (Patterson, 2008).

Para entender a crise do crédito, é preciso que transcendamos o senso comum de que mudanças na chamada economia real provocam resultados numa suposta superestrutura financeira. Promover essa "ruptura epistemológica" não é fácil. Uma razão pela qual tão poucos economistas viram que uma crise estava chegando, ou não conseguiram perceber a sua escala mesmo depois que ela chegou, foi a de que seus modelos presumiam tanto que sistemas financeiros "funcionam", no sentido de ajudar eficientemente as operações da economia real, quanto que tendências financeiras são, em si, pouco significativas.[2] Daí a presunção de que a enorme bolha nos preços de petróleo entre o outono de 2007 e o verão de 2008 foi causada por fatores de oferta e demanda, e não por operadores financeiros que, vacilantes por causa do início da crise, fizeram subir o preço de US$ 70 por barril para US$ 140 em menos de um ano, antes de deixar a bolha estourar em junho último; um ciclo que teve efeitos enormemente negativos na "economia real". Explicações semelhantes foram oferecidas para o aumento no preço das commodities no mesmo período; mas esse aumento foi causado, em grande parte, por investidores institucionais, fundos de pensão e fundos do mercado monetário evitando emprestar aos bancos de Wall Street, que injetaram centenas de bilhões de dólares em índices de commodities, enquanto os fundos hedge, apertados contra a parede, ajudaram a inflar bolhas nos mercados de café e cacau (Blas, 2008; Flood, 2008).[3]

Romper com a noção ortodoxa de que foram atores da "economia real" que causaram a crise carrega consigo um preço político: significa que os mutuários não podem mais ser culpados pela crise do crédito, nem os chineses pela bolha no mercado de commodities, nem produtores árabes inflexíveis pelo repentino aumento no preço do petróleo. Mas essa ruptura pode permitir que entendamos aspectos da crise que seriam de outra forma inexplicáveis; sendo um dos mais importantes o crescimento extraordinário do próprio subprime. Tomaremos como ponto de partida, portanto, a necessidade de analisar a transformação estrutural do sistema financeiro americano nos últimos 25 anos. Defenderei que um Novo Sistema de Wall Street surgiu nos Estados Unidos nesse período, produzindo novos atores, novas práticas e novas dinâmicas. A estrutura financeira resultante, aliada a seus agentes, foi a força motriz por trás da crise atual. No percurso, ela provou ser um sucesso espetacular para os grupos mais ricos nos Estados Unidos: o setor financeiro era, de longe, o componente mais lucrativo das economias americana e britânica e seu mais importante produto de "exportação". Em 2006, nada menos que 40% dos lucros corporativos americanos foram para o setor financeiro (Summers, 2008).[4] Mas a nova estrutura necessariamente produziu a dinâmica que levou à explosão.

Esta análise não é oferecida como uma explicação monocausal da crise. Uma condição fundamental, que criou o solo no qual o Novo Sistema de Wall Street podia brotar e florescer, foi o projeto do sistema de dólar fiduciário, a privatização do risco cambial e a retirada dos controles de câmbio – todos chamados pelo eufemismo de "globalização financeira". Além disso, o sistema não poderia ter brotado e florescido se não oferecesse respostas – não importa quão doentias em última instância – para diversos problemas entranhados no capitalismo americano como um todo. Há, portanto, um cerne racional, dialético na distinção superficial entre a superestrutura financeira e a economia americana "real". A seguir, esboçarei em primeiro lugar os principais elementos do Novo Sistema de Wall Street e mostrarei brevemente como sua crise assumiu formas tão espetaculares. Em seguida, defenderei que, para entender as raízes mais profundas desse mal-estar generalizado, precisamos realmente investigar as características socioeconômicas e sociopolíticas gerais do capitalismo americano na forma pela qual ele se desenvolveu nos últimos 25 anos. Levantarei a possibilidade de sistemas alternativos, incluindo um modelo bancário e de crédito de utilidade pública. Finalmente, discutirei as dinâmicas internacionais desencadeadas pela presente crise e suas implicações para o que chamei em outros artigos de Regime de Dólar-Wall Street.[5]

1. O Novo Sistema de Wall Street

A estrutura e a dinâmica do sistema bancário de Wall Street mudaram drasticamente no quarto de século após meados dos anos 1980. As principais características do novo sistema incluem: (i) a ascensão do modelo credor-negociante; (ii) a arbitragem especulativa e o estouro da bolha no preço dos ativos; (iii) o empenho em maximizar a alavancagem e a expansão do balanço patrimonial; (iv) a ascensão do sistema bancário paralelo, com seu braço londrino, e as "inovações financeiras" associadas; (v) a proeminência dos mercados monetários e sua transformação em financiadores de negócios especulativos em bolhas de ativos; (iv) o novo papel central de derivativos de crédito. Essas mudanças reforçaram-se mutuamente, formando um todo integrado e complexo, que depois se desintegrou ao longo de 2008. Examinaremos cada uma delas brevemente.

Modelos de negócios

Durante a maior parte do período pós-guerra, os bancos de investimento de Wall Street envolviam-se muito pouco eles mesmos no comércio de títulos, diferentemente do que faziam em nome de seus clientes; enquanto os bancos comerciais depositários desprezavam esse tipo de atividade. Mas, a partir de meados da década de 1980, os investimentos diretos (proprietary trading) em títulos financeiros e outros foram se transformando numa atividade cada vez mais central para os bancos de investimento e até mesmo para muitos bancos comerciais. Essa mudança estava relacionada, de início, à nova volatilidade dos mercados de câmbio após o desmantelamento de Bretton Woods; e, depois, às oportunidades criadas pela liberalização financeira doméstica, sobretudo ao descarte dos controles de capital e à abertura de outros sistemas financeiros nacionais a operadores americanos. Essas mudanças proporcionaram oportunidades para uma grande expansão das negociações em Wall Street, que se tornariam uma fonte crucial de lucros para os bancos de investimento.[6] A guinada na direção do investimento direto especulativo em títulos financeiros foi liderada pelo Salomon Brothers, cujo Arbitrage Group foi estabelecido em 1977 e adquiriu lucratividade extraordinária sob o comando de John Meriwether durante os anos 1980.[7]

Além de começar a investir eles mesmos em títulos financeiros, os bancos de Wall Street envolveram-se cada vez mais no empréstimo de fundos a outras instituições, para que elas os usassem em negociações: fundoshedges, os chamados grupos de private equity (que investem em empresas), ou veículos de investimento especial (SIV) e conduits, criados pelos próprios bancos de investimento.8 Esses empréstimos, conhecidos no jargão como corretagem prime, também eram uma atividade extremamente lucrativa para os bancos de Wall Street: para muitos, sua principal fonte de renda (Mackintosh, 2008). Essa guinada para o modelo credor-negociante não significou que os bancos de investimento suspenderam suas atividades de corretagem, administração de fundos etc. Mas essas atividades adquiririam nova importância à medida que forneciam aos bancos grandes quantidades de informações em tempo real sobre os mercados, algo de grande valia para suas próprias atividades de negociação.9

Atividades de negociação, aqui, não significam investimentos de longo prazo, no estilo de Warren Buffet, neste ou naquele título, mas comprar e vender ativos reais e financeiros para explorar – até mesmo gerando – diferenças de preço e variações de preço. Esse tipo de "arbitragem especulativa" tornou-se uma das atividades centrais não apenas dos bancos de investimento, mas também de bancos comerciais (Saber, 1999). O mesmo ocorreu com o esforço para gerar bolhas nos preços de ativos. Repetidamente, Wall Street podia entrar num mercado em particular, gerar uma bolha de preços, auferir grandes lucros provenientes de especulação e então se retirar, estourando a bolha. Esse tipo de atividade era muito fácil nas chamadas economias emergentes com mercados pequenos de ações ou de títulos de dívidas. Os bancos de Wall Street ganharam muita experiência em inflar essas bolhas nos mercados de ações poloneses, checos ou russos nos anos 1990 e depois estourá-las, gerando muitos lucros. A bolha ponto.com nos Estados Unidos mostrou então como a mesma operação poderia ser realizada no centro sem prejuízo significativo para os bancos de Wall Street (diferentemente de alguns operadores europeus, notadamente as companhias de seguros, ansiosas por lucrar com a bolha, mas atingidas por seu estouro).

Tanto os reguladores de Washington quanto Wall Street aparentemente acreditavam que, juntos, conseguiriam administrar os estouros (Greenspan, 2008). Isso significava que não havia necessidade de evitar que essas bolhas ocorressem: ao contrário, é óbvio e patente que tanto os reguladores quanto os operadores ativamente geraram-nas, sem dúvida acreditando que uma das formas de administrar estouros era inflar outra bolha dinâmica em outro setor: depois da ponto.com, a bolha imobiliária; depois, uma bolha nos preços de energia ou em mercados emergentes etc. Isso parece implicar uma autoridade financeira formidavelmente centralizada operando no coração desses mercados. De fato: o Novo Sistema de Wall Street era dominado por apenas cinco bancos de investimento, reunindo mais de US$ 4 trilhões em ativos e capazes de requisitar ou literalmente mover outros trilhões de dólares das instituições por trás deles, tais como os bancos comerciais, os fundos monetários, os fundos de pensão, e assim por diante. O sistema estava muito distante do mercado descentralizado, com milhares de atores, todos obedientes aos preços que lhe são impostos, retratado pela economia neoclássica. De fato, os sistemas de crença operantes no que pode ser chamado de Greenspan-Rubin-Paulson milieu pareciam ser pós-minskianos. Eles entendiam a teoria de Minsky sobre bolhas e estouros, mas acreditavam que pudessem usá-la estrategicamente para inflar bolhas, estourá-las e administrar o resultado inflando mais algumas.

Maximizando a alavancagem

O processo de arbitragem e estouro de bolhas requer mais dos operadores financeiros do que simplesmente juntar o máximo de informação possível sobre as condições em todos os mercados; também exige a capacidade de mobilizar fundos gigantescos para injetar em qualquer jogo de arbitragem em particular, para mudar a dinâmica do mercado em favor do especulador. Os bancos de investimento usaram seu grau de alavancagem como a meta a ser atingida sempre, em vez de como um limite máximo de risco, a ser reduzido quando possível, mantendo superávit de capital. Um relatório recente do Federal Reserve (FED) de Nova York demonstra como essa abordagem provou ser poderosamente pró-cíclica em uma bolha do mercado de ativos, levando os bancos a ampliar seus empréstimos conforme subiam os preços dos ativos (Adrian & Song Shin,2008).10 Em sua ilustração, os autores do relatório, Tobias Adrian e Hyun Song Shin, presumem que o banco ativamente gerencia seu balanço para manter um grau constante de alavancagem a 10. Supondo que o balanço inicial seja assim: o banco tem 100 em títulos, e financiou isso com um patrimônio de 10, mais dívidas valendo 90.


O grau de alavancagem do banco de títulos em relação ao patrimônio é, portanto, 100/10 = 10.

Suponha que o preço dos títulos aumente então 1%, para 101. As proporções serão então: títulos 101, patrimônio 11, dívida 90. Então, sua alavancagem está agora em 101/11 = 9,2. Se o banco ainda tem como meta uma alavancagem de 10, precisa contrair mais dívidas ("d"), para comprar d títulos do lado do passivo, para que a proporção de ativo/patrimônio seja: (101+d)/11 = 10, ou seja d = - 9.

O banco contrai então uma dívida adicional de 9, e com esse dinheiro compra títulos no valor de 9. Depois da compra, a alavancagem está de volta a 10. Assim, um aumento de 1 no preço do título leva a uma posição adicional de 9: a curva de demanda está ascendente.


O mecanismo funciona ao contrário também. Suponha que o preço dos títulos sofra um choque, de forma que o valor dos títulos caia para 109 agora. Do lado do passivo, o ônus do ajuste recai sobre o patrimônio, já que o valor da dívida permanece aproximadamente constante.


Mas com títulos a 109, patrimônio a 10 e dívida a 99, a alavancagem está agora muito alta: 109/10 = 10.9

O banco pode ajustar sua alavancagem vendendo títulos no valor de 9, e amortizando 9 de sua dívida. Assim, uma queda no preço dos títulos leva a uma venda de títulos: a curva da oferta está descendente.

Um mecanismo importante por meio do qual os bancos de investimento podiam reagir a aumentos nos preços de ativos era tomar empréstimos no mercado de "acordo de recompra" – ou "repo". Tipicamente, o banco de investimentos quer comprar um título, mas precisa tomar fundos emprestados para fazê-lo. Na data de liquidação, o banco recebe o título, e então usa-o como garantia para o empréstimo necessário para pagar por ele. Ao mesmo tempo, ele promete ao credor que vai recomprar o título numa determinada data futura. Dessa forma, o banco pagará o empréstimo e receberá o título. Mas tipicamente os fundos para recomprar o título do credor são adquiridos mediante a venda do título para outra pessoa. Assim, no dia da liquidação, o credor original do banco de investimento é pago e entrega o título, que é imediatamente repassado ao novo comprador em troca de dinheiro. Esse tipo de operação de financiamento repo pressupõe uma alta nos preços dos ativos. Foi responsável por um aumento de 43% na alavancagem entre bancos de Wall Street, segundo o mesmo relatório do FED de Nova York. Os repos também foram a maior forma de dívida nos balanços dos bancos de investimento em 2007-2008 (Adrian & Song Shin, 2008).

Surge a questão de por que os bancos de Wall Street (seguidos de outros) estenderam seus empréstimos ao limite da alavancagem de forma tão sistemática. Uma explicação é a de que eles o faziam de acordo com os desejos de seus acionistas (uma vez que haviam se transformado em companhias de sociedade limitada). O capitalismo do "valor para o acionista" supostamente exige que a proporção de ativos em relação ao capital seja maximizada. O superávit de capital reduz o retorno do patrimônio acionário e puxa para baixo os rendimentos por ação.11 Mas também há outra possível explicação para tomar empréstimos até o limite da alavancagem: a briga pela participação no mercado e pelo maior poder de precificação em atividades de negociação. Se você é um arbitrador especulativo ou um inflador de bolhas de ativos, a escala operacional financeira é essencial para mover mercados, por meio da alteração dos preços na direção para a qual você quer que eles sigam. Ao avaliar qual dessas pressões – o poder dos acionistas ou o poder de estabelecer preços – deu impulso ao processo, é preciso observar quão prontos estavam os executivos do Tesouro, do FED e de Wall Street para pisotear os interesses dos acionistas durante a crise do crédito, mas quão resolutamente tentaram proteger os níveis de alavancagem dos maiores bancos de investimento durante a bolha. De tudo o que se sabe, a guinada do Citigroup na direção da expansão de seu balanço e de sua alavancagem até o máximo possível para atividades de investimento derivou não da pressão de seus acionistas, mas da chegada de Robert Rubin (2008), após seu período como secretário do Tesouro americano.

O sistema bancário paralelo

O ímpeto por escala e por alavancagem cada vez mais alta leva a outra característica básica do Novo Sistema de Wall Street: o esforço para criar e expandir um setor bancário paralelo. Suas características mais óbvias eram os novos bancos inteiramente desregulamentados, sobretudo os fundos hedge. Eles não têm nenhum papel funcional específico – eles têm sido simplesmente bancos de negócios livres de qualquer controle regulatório ou transparência em sua arbitragem especulativa. Grupos de private equity também são, em essência, bancos de negócios paralelos, especializados na compra e venda de companhias. Os Veículos de Investimento Especial (SIV) e conduits são, de forma semelhante, parte desse sistema. Nas palavras do diretor de regulação do Banco Central da Espanha, esses SIV e conduits "eram como bancos, mas sem capital ou supervisão". Ainda assim, como uma matéria do Financial Times observou: "Nas últimas duas décadas, a maioria dos reguladores encorajou os bancos a tirar seus ativos do balanço e colocá-los em SIV e conduits" (Crawford & Tett, 2008).

O sistema bancário paralelo não competia com o sistema regulado: era um produto dele. Os bancos comerciais e de investimento regulados funcionavam como os corretores preferenciais (prime brokers) dos operadores dos bancos paralelos, auferindo assim grandes lucros com suas atividades. Essa característica cada vez mais importante da atividade bancária oficial era, na realidade, uma forma de expandir maciçamente seus balanços e sua alavancagem. Para conseguir financiamento dos bancos de Wall Street, os fundos de hedge tinham que lhes dar garantias; mas por meio de uma prática conhecida como re-hipotecagem, uma proporção desses ativos dados como garantia podia ser usada pelo prime broker como sua própria garantia para levantar seus próprios fundos. O resultado era o autofinanciamento de atividades de prime brokerage altamente lucrativas pelos bancos de Wall Street, em grande escala, sem nenhum comprometimento extra de seu próprio capital: uma forma engenhosa de aumentar muito seus graus de alavancagem (Mackintosh, 2008). O debate ao redor da questão se a desregulação ou a reregulação no setor financeiro tem ocorrido desde os anos 1980 parece ignorar que havia uma combinação de um sistema regulado e um sistema desregulado paralelo, trabalhando juntos de forma dinâmica.

O sistema bancário paralelo refere-se não apenas a agentes institucionais, como os fundos de hedge, mas também a práticas e produtos que permitiram que os bancos de investimento expandissem sua alavancagem. Desde o fim dos anos 1990, uma parte cada vez mais importante desse lado do sistema bancário paralelo tem sido um mercado de derivativos de crédito do "mercado de balcão", notadamente Obrigações de Dívida Colateralizada (CDO) e Credit Default Swaps (CDS). O atrativo mais óbvio deles repousa na arbitragem regulatória que ofereciam, permitindo que os bancos expandissem sua alavancagem (Bannier & Hänsel, 2008). Tradicionalmente, os bancos tinham que segurar suas operações de crédito, e esse seguro implicava o fornecimento de garantias. A beleza dos CDS estava no fato de que, por serem produtos paralelos do "mercado de balcão", eles não exigiam o compromisso de parcelas de capital como garantia e, assim, permitiam mais alavancagem. A expansão dos CDS ganhou escala depois que especialistas em derivativos do JP Morgan Chase convenceram a AIG de começar a vendê-los a eles para garantir CDO em 1998 (Morgenson, 2008).

Os CDO também eram uma solução inteligente para problemas de alavancagem. Ao adquirir grandes quantidades de empréstimos securitizados e, dessa forma, expandir muito seus balanços, os bancos deveriam ter expandido sua base patrimonial. Mas os CDO famosamente agregavam dezenas ou centenas desse tipo de empréstimos, de qualidade muito variada, permitindo que os bancos aumentassem sua alavancagem. Os CDO eram tipicamente emitidos pelas agências de classificação de risco, mediante o pagamento de uma taxa, e em seguida classificados com uma avaliação Triplo A pela mesma agência, mediante o pagamento de uma segunda taxa. Essas avaliações permitiam que os comprometimentos de patrimônio do banco fossem minimizados. Esses empréstimos securitizados – especialmente do mercado imobiliário, mas também de dívidas de cartões de crédito e financiamentos de carros – ofereciam aos investidores taxas muito mais altas de retorno do que eles podiam obter nos mercados monetários. O aspecto principal desses chamados "títulos estruturados" não era o fato de que eram empréstimos securitizados: esse tipo de empréstimo poderia, em princípio, ser perfeitamente seguro; afinal, uma obrigação nada mais é, na verdade, do que um empréstimo securitizado. Mas as obrigações têm uma fonte claramente identificável: um operador econômico cuja solvabilidade e capacidade de fluxo de caixa podem ser avaliadas; elas também têm preços claros em mercados secundários de obrigações. Os produtos que eram agregados nos CDO, contudo, vinham de centenas de milhares de fontes, cuja solvabilidade e capacidade de fluxo de caixa não eram conhecidas; eles eram vendidos no "mercado de balcão", sem nenhum mercado secundário para determinar preços, muito menos um mercado organizado para minimizar o risco da contraparte. Em resumo, eles eram, na melhor das hipóteses, extremamente arriscados porque quase totalmente obscuros para aqueles que os compravam. Na pior das hipóteses, eles provaram ser um conto-do-vigário, tanto que, em poucos meses no final de 2007, as parcelas de dívida supostamente superseguras e supersênior desses CDO estavam sendo rebaixadas ao status de lixo (junk).

Restrições à alavancagem também estavam sendo removidas por meio de políticas públicas. Hank Paulson teve sucesso notável nessa área em 2004, quando, como presidente do Goldman Sachs, liderou a campanha em Wall Street para conseguir que a Comissão de Valores Mobiliários (SEC) concordasse em relaxar a chamada "regra do capital líquido", que restringia a alavancagem para grandes bancos de investimento. A partir daí, as empresas eram efetivamente permitidas a decidir sobre sua própria alavancagem tendo como base seus modelos de risco. O resultado foi um aumento rápido nos graus de alavancagem dos grandes bancos (Labaton, 2008).12 Um aspecto importante disso é que permitia que eles transferissem sua base de capital para novas atividades, como as obrigações de dívida colateralizadas, que subsequentemente se tornaram um elemento tão importante de seus negócios.

O papel de Londres

Todas essas mudanças são agrupadas sob o título eufemístico de "inovação financeira" – mudanças em arranjos institucionais, produtos, estruturas de supervisão, permitindo que os bancos de Wall Street escapassem de restrições regulatórias e expandissem suas atividades e lucros. Dezenas de mudanças desse tipo poderiam ser documentadas. Mas uma das mais fundamentais foi a construção de um novo e grande sistema bancário paralelo em Londres, ao lado do setor regulado "oficial". No início dos anos 1990, os bancos de investimento americanos tinham eliminado suas contrapartes londrinas e dominado os mercados de ativos do centro financeiro de Londres, que adquiriu um papel cada vez mais "wimbledonizado" no Novo Sistema de Wall Street.13 Gordon Brown institucionalizou o novo relacionamento em 1997 criando a Financial Services Authority [Autoridade de Serviços Financeiros], que alegava operar de acordo com "princípios" em vez de regras: um dos princípios mais importantes era o de que os bancos de Wall Street podiam se autorregular. Londres assim se tornou para Nova York algo como o que Guantánamo se tornaria para Washington: o lugar onde você pode fazer no estrangeiro o que não pode fazer em casa; nesse caso, um local para arbitragem regulatória.

O termo "Wall Street" deveria, portanto, ser entendido como incluindo Londres, como um satélite para esses operadores americanos.14 Juntas, Londres e Nova York dominam a emissão de novas ações e obrigações. Elas são o centro do mercado cambial. De forma mais significativa, elas dominaram a venda de derivativos do mercado de balcão, que representam a vasta maioria das vendas de derivativos.15 Em 2007, o Reino Unido tinha uma participação de 42,5% nos derivativos mundiais baseados em taxas de juros e moedas, e os Estados Unidos, 24%. Em termos de negociações de derivativos de crédito, os Estados Unidos foram responsáveis por 40% delas em 2006, enquanto Londres negociou 37% (menos do que os 51% em 2002).

Financiando a especulação

A enorme expansão das atividades dos bancos de Wall Street e de seu sistema paralelo exigia fundos cada vez maiores. Esses fundos, classicamente, eram providos pela reciclagem de poupanças de varejo paradas em contas de depósito e, de forma ainda mais importante, pela criação pelos bancos de grandes ofertas de crédito. Mas, na América pós-década de 1980, essas poupanças eram minúsculas – uma questão para a qual retornaremos –, e o dinheiro de crédito dos bancos comerciais, apesar de significativo, era desesperadamente insuficiente. Nessas circunstâncias, os bancos de negócios voltaram-se aos mercados monetários por atacado. No cerne desses mercados estavam os mercados interbancários, com taxas de juros iguais à taxa do FED, ou apenas alguns pontos-base acima. Historicamente, esses mercados eram usados para assegurar que os bancos fossem capazes de fechar facilmente suas operações diárias, em vez de como uma fonte de financiamentos novos e de larga escala, muito menos de financiamentos especulativos. Também havia o mercado de papéis comerciais, tipicamente usados pelas grandes corporações para financiamentos de curto prazo, mais uma vez, especialmente para facilitar suas operações.

No Novo Sistema de Wall Street, porém, esses mercados monetários se transformaram. Eles permaneceram sendo centros de oferta de empréstimos de curto prazo, mas passaram cada vez mais a financiar negociações especulativas. Do lado da oferta, os fundos disponíveis para empréstimos a Wall Street expandiam-se rapidamente, em especial por meio da expansão dos fundos de pensão durante os anos 1980 e 1990. De forma tipicamente americana, uma pequena mudança na legislação tributária por meio da emenda 401K em 1980 abriu as portas para esse desenvolvimento. Essa emenda concedeu isenção de impostos a empregados e empregadores se eles colocassem dinheiro em planos de pensão; o resultado foi um fluxo maciço de renda dos trabalhadores nesses planos, totalizando quase US$ 400 bilhões até o final dos anos 1980. No final dos anos 1990, essa quantia subira para quase US$ 2 trilhões (Lowenstein, 2004, p.24-5).16

Ao mesmo tempo que se tornaram fontes importantes para os passivos dos fundos de investimento por meio de empréstimos de curto prazo para eles, os fundos mútuos, fundos de pensão etc. também se tornaram alvos importantes para os esforços de Wall Street para vender títulos lastreados em ativos, em particular obrigações de dívida colateralizada. Assim, o Novo Sistema de Wall Street tentou atrair os gestores de fundos para atividades de inflação de bolhas tanto do lado do financiamento (passivo) quanto do lado dos ativos, permitindo a expansão cada vez maior de seus balanços.

As causas da crise

Pode ser, em princípio, que o conjunto de inovações mutuamente reforçadas que chamamos de Novo Sistema de Wall Street tenha sido uma reação ao surgimento de uma bolha no mercado imobiliário dos Estados Unidos a partir de 2001. Se esse fosse o caso, teríamos tido uma crise minskiana clássica relacionada ao mercado imobiliário. Mas, na verdade, todas as inovações-chave já haviam sido feitas antes do início da bolha. De fato, há diversos indícios de que os bancos de Wall Street planejaram uma bolha no preço dos imóveis de forma bastante deliberada e gastaram bilhões de dólares em campanhas publicitárias para persuadir os americanos a aumentar sua dívida relacionada à hipoteca. O Citigroup lançou uma campanha de um bilhão de dólares com o tema "Viva ricamente" nos anos 1990, com o objetivo de fazer que proprietários de imóveis fizessem uma segunda hipoteca para gastar com o que quisessem. Outros bancos de Wall Street agiram de forma semelhante, com muito sucesso: a dívida proveniente de segundas hipotecas subiu para mais de US$ 1 trilhão.

A bolha que gerou a crise do crédito de 2007 repousava, porém, não apenas – e nem mesmo especialmente – no mercado imobiliário, mas no próprio sistema financeiro. A crise foi desencadeada não apenas pelo tamanho da bolha de dívidas, mas por suas formas. Numa crise normal gerada por excesso de oferta de empréstimos, quando os bancos acabam com empréstimos não-honrados (como ocorreu no Japão na década de 1990), tanto a localização quanto o tamanho do problema podem ser identificados sem muita dificuldade. Mas, em 2007, a bolha de dívidas dentro do sistema financeiro estava concentrada em derivativos do mercado de balcão, na forma de CDO individuais que não tinham preço de mercado ou mecanismo de precificação – além da opinião das agências de classificação de risco – e que eram distribuídos às dezenas de milhares às instituições no topo do sistema financeiro, assim como seus órgãos-satélite, tais como os SIV. Uma vez que esse conjunto de arranjos de acúmulo de dívidas demonstrou ser lixo (junk), nos dois casos Paribas em agosto de 2007, os financiadores de crédito, como os fundos monetários e de pensão, perceberam que não tinham como saber quanto do resto da montanha de CDO também não tinha nenhum valor. Então eles fugiram. Sua recusa em continuar fornecendo ao punhado de bancos de investimento obscuros de Wall Street e seus filhotes os fundos necessários para manter o mercado de CDO a salvo foi o que produziu a crise do crédito.

Os bancos de investimento haviam inicialmente espalhado por aí que o efeito da sua securitização de dívidas havia sido a vasta disseminação do risco por diversas de entidades. Mas isso parece ser uma falsidade: as próprias instituições no topo de Wall Street estavam segurando as chamadas parcelas supersênior de dívidas, em dezenas de milhares de CDO (Tett, 2008). Elas haviam tomado bilhões emprestados nos mercados monetários para comprar esses instrumentos, ganhando juros sobre eles às vezes 10 pontos-base acima dos seus custos de empréstimo. Para continuar tendo tamanho lucro, elas tiveram que recorrer repetidamente aos mercados monetários para arrolar suas dívidas. Mas agora os mercados monetários estavam fechando suas portas.17 Quando investidores dos mercados monetários fugiram da reciclagem de empréstimos de curto prazo no verão de 2007, a pirâmide inteira centrada nos CDO começou a desmoronar. Quando os bancos de Wall Street tentaram passar para a frente seus CDO, descobriram que não havia mercado para eles. As companhias de seguro que haviam segurado os CDO com CDS encontraram seu mercado em colapso também.

Muito permanece obscuro sobre os mecanismos precisos por meio dos quais a crise do crédito ganhou tamanho escopo e profundidade em 2007 e 2008, especialmente porque os principais operadores de Wall Street tentaram eles mesmos esconder a natureza de seus apuros e suas táticas de sobrevivência. Mas é possível traçar diversas fases pelas quais a crise passou. Primeiro, a tentativa pelo FED e pelo Tesouro de defender o modelo de bancos de investimento como o topo do sistema, agindo como seu emprestador de último recurso. Segundo, com a queda do Lehman Brothers, o colapso dessa tentativa e o desaparecimento do modelo do banco de investimento, produziu-se um ímpeto para consolidar um modelo de banco universal no qual as negociações dos bancos de investimento ocorreriam dentro do banco universal depositário, e seriam protegidas por ele. Nessa fase, o FED essencialmente colocou-se no lugar das instituições credoras do sistema de crédito, fornecendo empréstimos e financiamento de "mercado monetário" e de "mercado de papéis comerciais" aos bancos. Entre abril e outubro de 2008, essa enorme operação de financiamento do Banco Central envolveu US$ 5 trilhões em créditos pelo FED, o ECB e o Bank of England – equivalente a 14% do PIB mundial. Enquanto esse financiamento estatal puder continuar ocorrendo sem criar problemas sérios de solvência soberana, a fase mais difícil e perigosa da reação à crise pode começar seriamente. Envolverá a desalavancagem dos maiores bancos, agora no contexto de loops de feedback negativo de recessões cada vez mais profundas. Como e quando isso acontecerá nos dará uma noção dos contornos da crise do crédito.

Teorias prevalecentes

Grande parte do debate mainstream sobre as causas da crise tomou a forma de uma teoria de "acidentes", explicando a catástrofe como o resultado de ações contingenciais por, digamos, o Federal Reserve de Greenspan, os bancos, os reguladores ou as agências de classificação de risco. Já contestamos isso, propondo que uma estrutura relativamente coerente que chamamos de Novo Sistema de Wall Street deve ser entendida como tendo gerado a crise. Mas, além do argumento anterior, devemos observar outro aspecto crucial dos últimos 20 anos: a extraordinária harmonia entre operadores de Wall Street e reguladores de Washington. Típicas da história americana são fases de grande tensão, não apenas entre Wall Street e o Congresso, mas também entre Wall Street e o Executivo. Isso ocorreu, por exemplo, em grande parte dos anos 1970 e início dos anos 1980. Mas uma convergência ocorreu claramente no último quarto de século, sinalizando um projeto bastante bem integrado.18

Uma explicação alternativa, muito favorecida em círculos social-democratas, defende que tanto Wall Street quanto Washington foram tomados por uma ideologia "neoliberal" ou "de livre-mercado" falsa, que os desviou do caminho. Uma variação engenhosa disso proposta pela direita sugere que a ideologia problemática era a dolaissez-faire – ou seja, a ausência de regulação – enquanto o que é necessário é o "pensamento de livre-mercado", que implica alguma regulação. A consequência de ambas as versões é geralmente uma discussão sem rumo sobre "quanta" e "que tipo" de regulação colocaria as coisas no rumo certo.19 O problema dessa explicação é que, apesar de o Novo Sistema de Wall Street ter sido legitimado por pontos de vista favoráveis ao livre-mercado, ao laissez-faire ou neoliberais, eles não pareciam ser ideologias operantes entre seus praticantes, seja em Wall Street, seja em Washington. O estudo detalhado de Philip Augar sobre os bancos de investimento de Wall Street, The Greed Merchants (os mercadores da ganância), citado antes, defende que eles operaram em grande parte como um cartel consciente – o oposto de um mercado livre.

É evidente que nem Greenspan nem os chefes dos bancos acreditavam na versão séria dessa doutrina: a economia financeira neoclássica. Greenspan não argumentou que os mercados financeiros são eficientes ou transparentes; ele admitiu integralmente que eles podem tender a criar bolhas e estouros. Ele e seus colegas tinham muita consciência do risco de uma crise financeira séria, na qual o Estado americano teria de injetar enormes quantidades de dinheiro dos contribuintes para tentar salvar o sistema. Eles também entendiam que todos os diversos modelos de risco usados pelos bancos de Wall Street eram falhos, e estavam destinados a sê-lo, já que pressupunham um contexto geral de estabilidade do mercado financeiro, no qual um banco, em um setor do mercado, poderia enfrentar uma ameaça repentina; suas soluções giravam, em essência, ao redor da diversificação do risco por vários mercados. Os modelos, portanto, pressupunham que não ocorreria a ameaça sistêmica da qual Greenspan e outros tinham plena consciência: nomeadamente, uma mudança repentina negativa em todos os mercados (Greenspan, 2008; Beattie & Politi, 2008).

As duas principais alegações de Greenspan eram bastante diferentes. A primeira era que, entre o estouro de uma bolha e outro, a melhor forma de o mercado financeiro fazer grandes quantidades de dinheiro é retirar as restrições ao que os atores privados podem fazer; um setor altamente regulado vai lucrar muito menos. Essa alegação é certamente verdadeira. Sua segunda alegação era a de que, quando bolhas estouram e explosões acontecem, os bancos, com forte auxílio das autoridades estatais, conseguem lidar com as consequências. Como observou William White, do BIS, isso também era um artigo de fé para Bernanke (apud Cassidy, 2008).

3. Opções sistêmicas

O verdadeiro debate sobre a organização de sistemas financeiros nas economias capitalistas não diz respeito a métodos e modos de regulação. É um debate entre opções sistêmicas, em dois níveis:

  • Um sistema bancário de utilidade pública, voltado para a acumulação de capital no setor produtivo versus um sistema bancário e de crédito capitalista, subordinando todas as outras atividades econômicas a seus próprios esforços para ter lucro.
  • Um sistema financeiro e monetário internacional sob controle cooperativo nacional-multilateral versus um sistema de caráter imperial, dominado pelos bancos e Estados atlânticos trabalhando em conjunto.

Podemos analisar cada uma dessas opções brevemente.

Um modelo de utilidade pública?

Todos os sistemas econômicos modernos, capitalistas ou não, precisam de instituições de crédito para facilitar trocas e transações; eles precisam de bancos para produzir dinheiro de crédito e sistemas de compensação para facilitar o pagamento de dívidas. Esses são serviços públicos vitais, como um sistema de saúde. Eles também são inerentemente instáveis: a essência de um banco, afinal, é que não mantém fundos suficientes para cobrir saques simultâneos de todos os depositários em nenhum dado momento. Assegurar a segurança do sistema exige que a concorrência entre bancos seja suprimida. Além disso, questões relacionadas a políticas sobre para onde o crédito deveria ser canalizado têm muita relação com o momento econômico, social e político. Assim, a propriedade pública do sistema bancário e de crédito é racional e, de fato, necessária, ao lado do controle democrático.

Um modelo de utilidade pública nessa linha pode, em princípio, operar dentro do capitalismo. Até hoje, a maior parte do sistema bancário alemão permanece nas mãos do Estado, por meio de bancos de poupança e Landesbanken. O sistema financeiro chinês é fortemente centrado em um punhado de bancos enormes, públicos, e o governo chinês direciona de fato as estratégias de crédito desses bancos. É possível vislumbrar um modelo de utilidade pública assim operando com bancos privatizados. Pode-se dizer que o sistema bancário japonês do pós-guerra tinha esse caráter, com todos os seus bancos estritamente subordinados ao controle do Banco do Japão via um "sistema de limitação de empréstimos (window-guidance)". O cartel de bancos comerciais britânicos do pós-guerra também poderia ser visto como tendo operado nesse sistema, apesar de ter auferido lucros excessivos de seus clientes.

Um sistema de crédito capitalista privado, centrado nos bancos, operaria, porém, sob a lógica do capital monetário – na fórmula de Marx, M-M': adiante dinheiro a outros para fazer mais dinheiro. Uma vez que esse princípio é aceito como o alfa e o ômega do sistema bancário, a lógica funcional aponta para a apoteose de Greenspan. Esse foi o modelo adotado nos Estados Unidos e no Reino Unido desde os anos 1980: tornar o capital monetário rei. Isso implica a total subordinação das funções públicas do sistema de crédito à autoexpansão do capital monetário. De fato, todo o espectro da atividade capitalista é puxado pela correnteza do capital monetário, no sentido de que o último absorve uma fatia cada vez maior dos lucros gerados em todos os outros setores. Esse é o modelo que se tornou dominante no que chamamos de Novo Sistema de Wall Street. Gerou uma riqueza extraordinária dentro do sistema financeiro e transformou de fato o processo de formação de classes nas economias anglo-saxãs. Esse modelo está agora passando por uma profunda crise.

O segundo debate centra-se na subscrição dos sistemas financeiros. Sejam eles públicos ou privados, sistemas bancários e de crédito são inerentemente instáveis em qualquer sistema no qual o produto é validado depois da produção, no mercado.20 Em tais circunstâncias, esses sistemas precisam ser subscritos e controlados por autoridades públicas com capacidade de arrecadar impostos e imprimir dinheiro. À medida que são órgãos minimamente públicos – não totalmente capturados pelos interesses privados do capital monetário –, essas autoridades vão tentar evitar crises por meio da tentativa de alinhar aproximadamente o comportamento do sistema financeiro a objetivos (micro e macro) econômicos amplos. Hoje, apenas Estados têm a capacidade de desempenhar esse papel. Acordos como o Basileia I e Basileia II não a têm; nem a Comissão da União Europeia ou o Banco Central Europeu.

De forma intrigante, os projetos atlânticos agrupados sob o nome de "globalização econômica" – o sistema de dólar fiduciário, o fim dos controles de capital, a livre entrada e saída de grandes operadores atlânticos em outros sistemas financeiros – asseguraram que a maioria dos Estados fosse privada da capacidade de subscrever e controlar seus próprios sistemas financeiros: daí as explosões financeiras sem fim no Sul nos últimos 30 anos. Os interesses empresariais atlânticos se beneficiaram dessas crises, não apenas porque suas perdas eram integralmente cobertas pelo seguro do FMI – pagas depois pelos pobres nos países atingidos –, mas também porque foram usadas como ocasiões para abrir os mercados de produtos e trabalho desses países para a penetração atlântica. Mas agora as explosões atingiram a própria metrópole. Obviamente, as economias atlânticas vão querer manter esse sistema funcionando: as práticas cobertas pela "globalização financeira" são seu setor de exportação mais lucrativo. Mas não está tão claro que o resto do mundo vai comprar uma fórmula para mais do mesmo. A alternativa seria algum retorno ao controle público, assim como à subscrição pública. Isso só poderia ser realizado por Estados-nação individuais retomando o controle efetivo, via novos sistemas cooperativos multilaterais comparáveis àqueles que existiam antes de 1971, implantados em escala regional, se não inteiramente internacional.

Aqui, contudo, iremos nos concentrar na questão de por que o modelo financeiro centrado no Novo Sistema de Wall Street conseguiu adquirir tamanha hegemonia no capitalismo americano nas últimas décadas. Isso nos leva, finalmente, para fora da esfera financeira e para dentro do campo mais amplo das relações socioeconômicas e sociopolíticas nos Estados Unidos desde os anos 1970. Dentro desse contexto mais amplo, podemos começar a entender como a ascensão do Novo Sistema de Wall Street até atingir o domínio dentro dos Estados Unidos poderia ter sido vista como uma ideia estratégica para lidar com os problemas da economia americana.

Domínio financeiro como estratégia nacional

Dos anos 1970 até o início dos anos 1980, o Estado americano lutou uma batalha vigorosa para ressuscitar a economia industrial, em parte por meio de uma guinada mercantilista na política externa comercial, mas sobretudo por meio de um confronto nacional com a força de trabalho para reduzir sua fatia da renda nacional. Essa era a visão de líderes como Paul Volcker; presumia-se que essas medidas levariam a indústria americana de volta ao domínio mundial. Ainda assim, o esperado revival industrial de base ampla não aconteceu. Em meados dos anos 1980, a América corporativa não financeira começou a ser influenciada pelas táticas de engenharia financeira de curto prazo, voltadas para o objetivo de aumentar o "valor para o acionista" imediato. O que se seguiu foi onda após onda de fusões e aquisições e buyouts por operadores financeiros, encorajados por bancos de investimento de Wall Street que lucravam consideravelmente com essas operações. O argumento legitimador de que isso estava "aumentando a eficiência industrial" parece pouco crível. Um argumento mais convincente seria o de que essas tendências eram impulsionadas pela nova centralidade do setor financeiro dentro da estrutura do capitalismo americano.21

Uma explicação completa dessa evolução não está, creio, disponível ainda. Mas a tendência produziu algumas características estruturais do capitalismo americano que estão presentes desde então. Por um lado, um setor militar-industrial protegido permanece intacto, financiado por orçamentos federais e estaduais. Alguns setores de alta tecnologia, especialmente tecnologias de comunicação e informação (TIC), também foram fortemente apoiados por subsídios estatais nos anos 1980 e 1990 e envolveram novos investimentos industriais reais, não tendo ainda desempenhado um papel transformador na economia geral: o principal impacto das TIC foi no setor financeiro e no varejo. Mas a parte principal da economia americana, da qual o crescimento depende, foi marcada por uma estagnação ou queda na renda da massa da população e nenhum motor de crescimento a partir de novos investimentos, públicos ou privados. Com a exceção parcial do investimento em TIC no final dos anos 1990, o crescimento do PIB nos Estados Unidos não foi impulsionado por novos investimentos. Como é amplamente reconhecido, ele passou a depender do estímulo da demanda do consumidor; ainda assim, o consumo doméstico foi ele próprio inibido pelas rendas estagnadas da população.

Essa quadratura do círculo foi famosamente resolvida de duas formas. Na primeira e mais importante delas, o problema de estimular a demanda do consumidor foi resolvido pela contínua oferta de crédito pelo sistema financeiro. Na segunda, commodities baratas podiam ser compradas indefinidamente de outros países – especialmente da China – já que o domínio do dólar permitia aos Estados Unidos acumular enormes déficits em conta corrente, já que os outros países permitiam que suas exportações aos Estados Unidos fossem pagas em dólar. A oferta de crédito do sistema financeiro à massa de consumidores por meio dos mecanismos habituais de cartão de crédito, financiamento de carro e outros empréstimos e hipotecas foi, contudo, suplementada pelo mecanismo particular das bolhas nos preços dos ativos, que gerou os chamados efeitos de riqueza numa camada relativamente ampla. A bolha no mercado de ações dos anos 1990 elevou o valor dos papéis das pensões privadas da massa de americanos, dando-lhes assim a sensação de que estavam ficando mais ricos e podiam gastar (e se endividar) mais. A bolha imobiliária teve um efeito duplo: não apenas fez que consumidores americanos se sentissem confiantes de que o valor de suas casas estava subindo, permitindo-lhes gastar mais, como também foi reforçada por uma intensa campanha dos bancos, como vimos, exortando-os a fazer segundas hipotecas e a usar o dinheiro novo em despesas de consumo.

Assim, o Novo Sistema de Wall Street alimentou diretamente o boom americano liderado pelos consumidores de 1995-2008, que garantiu que os Estados Unidos continuassem sendo o maior condutor da economia mundial. Isso foi apoiado por uma campanha global segundo a qual o boom americano não era resultado de um crescimento alimentado por dívidas, auxiliado por tendências destrutivas no sistema financeiro, mas das instituições de livre-mercado americanas. Aqui, então, estava a base nas relações sociais mais amplas do capitalismo americano para a ascensão até a dominância do Novo Sistema de Wall Street: ele desempenhava o papel principal na garantia do crescimento alimentado por dívidas. Esse modelo anglo-saxão era baseado na acumulação de dívidas pelo consumidor: era crescimento hoje pago com o crescimento esperado de amanhã. Não era baseado no fortalecimento dos meios de geração de valor nas economias envolvidas. Em resumo, era um blefe, sustentado por algumas práticas criativas de contabilidade nacional que exageravam a extensão doboom americano e dos ganhos de produtividade na economia dos Estados Unidos.22

O papel da China e de outras economias exportadoras asiáticas nesse modelo de crescimento estendia-se além da exportação de seus grandes excedentes de bens de consumo aos Estados Unidos. Esses excedentes de exportação eram reciclados de volta ao sistema financeiro americano por meio da compra de ativos financeiros dos Estados Unidos, barateando assim os custos da dívida ao expandir maciçamente a "liquidez" dentro do sistema financeiro. Os resultados dessas tendências podem ser resumidos nos números a seguir. A dívida agregada americana como porcentagem do PIB subiu de 163% em 1980 para 346% em 2007. Os dois setores responsáveis por esse aumento foram o da dívida das famílias e o da dívida interna do setor financeiro. A dívida das famílias subiu de 50% do PIB em 1980 para 100% do PIB em 2007. Mas o salto realmente dramático no endividamento ocorreu dentro do próprio sistema financeiro: de 21% do PIB em 1980 para 83% em 2000 e 116% em 2007 (Wolf, 2008).

4. Implicações

Os efeitos ideológicos da crise serão significativos, apesar de que, é claro, muito menos significativos do que o imaginado por aqueles que acreditam que os regimes financeiros são produto de paradigmas intelectuais e não de relações de poder. Ainda assim, a cantilena do Tesouro Americano e do FMI chegou ao fim. Modelos de sistema financeiro no estilo americano são agora percebidos como perigosos. Não menos arriscada é a estrutura do sistema financeiro e bancário da União Europeia, que a crise demonstrou ser um castelo de cartas, mesmo que ele ainda esteja de pé no momento em que escrevo este artigo. A ideia que guia a União Europeia é a de que sistemas bancários são protegidos por boas normas em vez de por Estados com autoridade e poderes de tributação. Isso demonstrou ser uma piada perigosa. O projeto da União Econômica e Monetária da União Europeia encorajou os bancos a crescer demais para que seus Estados nacionais os salvem, ao mesmo tempo que não oferece nenhuma alternativa no nível da União Europeia ou mesmo da Eurozona. De forma absurda, as normas do Mercado Único e da concorrência no setor financeiro insistem na livre-concorrência entre bancos a qualquer custo, e proíbem qualquer assistência estatal a eles; enquanto, se os critérios de estabilidade fossem respeitados, qualquer crise de crédito totalmente desenvolvida necessariamente se transformaria em uma depressão como a ocorrida nos anos 1930. Obviamente, essas normas são ridículas, mas ao mesmo tempo são os principais esteios da economia política da União Europeia.23

Essa crise das estruturas americanas e europeias sem dúvida terá dois efeitos intelectuais. Primeiramente, aumentar a credibilidade do modelo chinês de um sistema financeiro estatal centrado em bancos. Essa é a alternativa séria aos modelos de crédito do mundo atlântico. A manutenção de controles de capital e uma moeda não conversível – que a China possui – são essenciais para a segurança desse sistema. Em segundo lugar, conforme a crise se desenrola, é provável que uma discussão mais ampla sobre o modelo de utilidade pública retorne à vida política, reabrindo um debate que parecia ter sido silenciado desde 1991.

Alguns preveem mudanças de curto prazo muito mais arrebatadoras, como a substituição do dólar como a moeda global ou o colapso das instituições líderes ocidentais na economia mundial. Uma desvalorização completa do dólar pelo governo Obama poderia, talvez, levar a uma corrida para liquidá-lo globalmente, junto com uma retirada para blocos de comércio imperiais regionais ou estreitos.24 Mas não menos improvável seria um fortalecimento temporário do dólar na próxima década: uma longa estagnação nos Estados Unidos pode muito bem ser acompanhada de taxas de juros muito baixas e um dólar baixo. Isso poderia produzir um novocarry-trade com dólares, no qual todos tomam emprestado em dólares para convertê-los em ativos de maior valor. Isso produziria uma tendência forte de desacoplamento (decoupling) de outras taxas de câmbio do dólar, mas não necessariamente prejudicaria o elemento central da dominância do dólar: a disposição de outros Estados de receber pagamentos por seus bens e créditos em dólares.

Também é provável que vejamos a intensificação das duas tendências estruturais básicas nas relações de longo prazo de crédito e dívida na economia mundial. Em primeiro lugar, as relações de credor entre o mundo atlântico e seu Sul tradicional na América Latina, na África e em outros locais, historicamente policiados pelo FMI. Essa relação se enfraqueceu na última década, mas deve ser reforçada durante a presente crise. Em segundo lugar, as relações complicadas de devedor entre os Estados Unidos e as economias do Novo Centro de Crescimento do Leste Asiático, que também devem se aprofundar e se tornar mais próximas, particularmente entre a China e os Estados Unidos. Essa é uma relação de poder na qual a China (e outros credores) pode exercer influência política real sobre Washington. Já vimos isso acontecendo tanto no timing quanto na forma da renacionalização da Fannie Mae e da Freddie Mac.25 Vamos voltar a vê-lo quando o Tesouro dos Estados Unidos procurar compradores para suas grandes novas parcelas de dívida em 2009.

As economias do Leste Asiático, sobretudo a China, provavelmente serão cada vez mais críticas em relação às tendências macroeconômicas globais, enquanto a antiga centralidade dos Estados Unidos enfraquecerá durante sua longa estagnação. O poder financeiro fortalecido da China e de outros Estados do Leste Asiático poderia se chocar com as velhas relações imperiais de crédito e dívida entre o mundo atlântico e o Sul, ao oferecer ao último fontes alternativas de apoio financeiro. Essa ameaça já está instigando exortações no mundo atlântico para que Washington amenize as condições predatórias que tradicionalmente impôs na África, na América Latina e em outros locais (Rothkopf, 2008).

Se isso, porém, significa que o Leste Asiático vai começar a construir novos arranjos institucionais de mercado para a economia mundial, desafiando aqueles do mundo anglo-americano, não se sabe, por dois motivos: primeiro, as divisões internas no Leste Asiático; e, segundo, a questão das prioridades estratégicas atuais da China. Assim, o Leste Asiático tem um óbvio interesse coletivo racional em construir seus próprios mercados decommodities e de petróleo centralizados e levá-los à liderança mundial, acabando com o domínio de Londres e Chicago. Novas estruturas de mercado surgiram, mas estão divididas: uma em Hong Kong, uma no Japão e uma em Cingapura. Quanto à China, está hoje sobretudo concentrada em manter o crescimento doméstico e completar o salto de acumulação dinâmica de capital da costa para o interior. Atualmente, não está demonstrando o menor interesse em desafiar os americanos pela liderança na influência sobre as instituições da economia mundial. Assim, os Estados Unidos têm algum espaço para respirar. Mas tamanha é a força social e econômica de Wall Street, e tamanha a fraqueza das forças sociais que poderiam pressionar por um revivalindustrial nos Estados Unidos, que parece mais provável que a classe capitalista americana vá desperdiçar sua chance. Se isso ocorrer, gozará de mais uma rodada de crescimento do PIB alimentado pela dívida e financiado pela China e outros, enquanto os Estados Unidos se tornarão cada vez menos centrais para a economia mundial, cada vez menos capazes de determinar suas regras e cada vez mais enredados na subordinação de suas dívidas de longo prazo à matriz de crédito do Leste Asiático.

1 A dívida total dos setores privados financeiros e não financeiros nos Estados Unidos em 2008 foi calculada em US$ 48 trilhões (Magnus, 2008).

2 Para uma pesquisa útil sobre por que a maioria dos economistas foram completamente incapazes de perceber a crise, ver Giles (2008).

3 O fato de que esses operadores financeiros foram capazes de inflar e estourar essas bolhas deriva, é claro, do fato de que os mercados de petróleo e commodities estão organizados em Londres, Nova York e Chicago, com normas pensadas para combinar com os interesses do capital americano e britânico. Como Jeff Sprecher (2008), executivo do Intercontinental Exchange (ICE) – o mercado sediado em Londres cujas normas permitiram inflar a bolha do petróleo –, explicou ao Financial Times, os organizadores do mercado não conseguiam entender por que membros do Congresso quereriam abrir mão do controle deste setor por meio do fechamento do ICE.

4 A porcentagem de 40% na verdade é menor do que a fatia dos lucros que vão para o sistema financeiro, já que parte deles é ocultada ao ser transformada em enormes bônus aos funcionários para reduzir os lucros aparentes; uma razão para o sistema de bônus é que é frequentemente ignorado.

5 Para uma análise anterior dessas questões, ver Gowan (1999).

6 A maior parte da renda dos bancos de investimento de Wall Street eram comissões (cartelizadas) para negociar títulos em nome de clientes até 1975, quando uma mudança na lei limitou essas comissões. No início dos anos 1980, essa renda proveniente de comissões ainda era maior do que os lucros advindos de negócios feitos em causa própria. Mas, a partir de meados dos anos 1980, esses bancos mergulharam seriamente nos investimentos diretos. No fim dos anos 1990, a renda proveniente dessas negociações era um terço maior do que a renda advinda de comissões para negociar em nome de outros. E, em alguns dos maiores bancos, metade de seus lucros veio dessas negociações (ver Gapper, 2008).

7 Sobre o Salomon Brothers e a subsequente carreira da equipe de John Meriwether nos anos 1990, quando eles construíram o Long-Term Capital Management com o patrocínio da Merrill Lynch, ver (Lowenstein, 2001).

8 Depois do escândalo da Enron, SIV e conduits foram inicialmente proibidos de se envolver em negociações em causa própria, mas essa restrição foi logo levantada.

9 Philip Augar (2006) fornece uma vívida narrativa sobre quão importante foi essa centralização de informações para dar aos bancos de investimento uma decisiva vantagem competitiva em relação aos bancos menores, de investimento ou não, seus concorrentes.

10 O termo alavancagem refere-se à relação entre o "patrimônio" ou "capital" de um banco e seus ativos — a soma que ele emprestou. É geralmente expressa como uma proporção, de forma que, se dissermos, por exemplo, que a alavancagem do Lehman no momento de seu colapso era de 25, isso significa que, para cada dólar de capital, o banco tinha 25 dólares de ativos. Mas isso também significa que, para cada dólar de capital, o Lehman tinha 24 dólares de dinheiro que tomou emprestado – ou seja, passivo.

11 Os bônus de altos executivos dos bancos eram frequentemente ligados ao aumento dos rendimentos por ação (ver Kay, 2008).

12 Em uma manobra típica, isso foi vendido como uma guinada da SEC na direção de maior regulação dos bancos de investimento. Do ponto de vista formal, isso estava correto: a SEC adquiriu jurisdição regulatória sobre eles, mas simultaneamente removeu restrições básicas relacionadas à base de capital. Além disso, de 2004 em diante, a SEC tinha sete funcionários para supervisionar os cinco grandes bancos de investimento, que tinham ativos combinados de mais de US$ 4 trilhões em 2007.

13 O torneio anual de tênis em Wimbledon é amplamente considerado, pelo menos no Reino Unido, como o mais importante do mundo, mas há décadas nenhum britânico chega às finais.

14 Existem alguns bancos comerciais britânicos muito grandes, mas eles deveriam ser diferenciados da City londrina porque, enquanto alguns participaram ativamente do Novo Sistema de Wall Street, outros como o Hongkong and Shanghai Banking Corporation (HSBC), segundo alguns critérios o maior banco do mundo, e o Standard Chartered Bank têm se concentrado fortemente em atividades no Leste Asiático.

15 A Chicago Mercantile Exchange, contudo, domina as vendas de derivativos negociados em bolsa.

16 Essa expansão do financiamento bancário a negociações especulativas por meio da transformação de mercados "de atacado" cruzava, é claro, com o fim dos controles de capital, permitindo o crescimento da tomada de empréstimos internacionais por atacado pelos bancos e a ascensão de operações de "carry trade", como aquela baseada no iene: bancos tomando dinheiro emprestado em iene, a 0,5% ou menos, e investindo os fundos para a coroa islandesa, a 18%. O financiamento de bancos comerciais britânicos, em sua grande maioria doméstico no início dos anos 1990, tornara-se em grande parte baseado em empréstimos estrangeiros de atacado, chegando a cerca de 650 bilhões de libras em 2007.

17 Para uma narrativa útil (e apologética) de mainstream sobre os riscos envolvidos em CDO e derivativos de mercado de balcão como CDS, ver a publicação do FMI escrita por Schinasi (2006).

18 Houve tensões entre Wall Street e o regulador do Estado de Nova York Eliot Spitzer depois que a bolha ponto.com estourou, mas isso simplesmente destacou quão forte era o consenso nos níveis superiores.

19 Referências a esses tipos de debates podem ser encontradas em Baker et al. (2005).

20 Apesar de isso não significar que eles sejam todos igualmente instáveis.

21 Isso não quer dizer que a produção industrial americana desapareceu: ela permaneceu grande, especialmente no setor relacionado ao orçamento de defesa, assim como nos setores automobilístico, aeroespacial, de TIC e farmacêutico.

22 Uma série de mudanças em regras nacionais de contabilidade a partir de 1995 exagerou tanto os números de crescimento quanto os de produtividade. Notável aqui foi o uso dos chamados "indicadores hedônicos".

23 Adicionalmente, os Estados ocidentais da União Europeia (EU) impuseram uma precondição não oficializada, mas real, para a expansão para o Leste de que os novos membros deveriam entregar a maior parte de seus bancos comerciais a suas contrapartes ocidentais; um lance imperialista digno de nota. Esses bancos comerciais agora vão querer deixar os membros orientais da UE a seco no que diz respeito ao crédito, enquanto tentam usar todos os truques para desalavancar-se e sobreviver. Irão as autoridades políticas da UE intervir no mercado para evitar isso? Em caso positivo, como?

24 Uma tendência nessa direção fica evidente na decisão dos Estados Unidos de dar tratamento especial ao México, ao Brasil, a Cingapura e à Coreia do Sul em termos de apoio em financiamento em dólares.

25 O Financial Times relatou que o secretário do Tesouro americano Paulson confrontou o fato de que "o Banco da China diminuíra sua exposição a títulos da dívida de organismos públicos (agency debt) durante o verão" e assim: "encontrou-se diante de um fait accompli. O governo federal tinha que restabelecer a confiança dos investidores estrangeiros em títulos da dívida de organismos públicos se quisesse evitar o caos nos mercados financeiros e uma pressão sobre o dólar. Isso cheira às antigas crises da dívida nos países da América Latina, onde a pressão final para o resgate veio de investidores estrangeiros" (Gapper, 2008).

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