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1 de abril de 2020

COVID-19 e os circuitos do capital: de Nova York à China e vice-versa

A COVID-19, a doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, o segundo vírus da síndrome respiratória aguda grave desde 2002, agora é oficialmente uma pandemia. Desde o final de março, cidades inteiras estão protegidas e, um a um, os hospitais estão entrando em impasse médico causado por surtos de pacientes.

Rob Wallace, Alex Liebman, Luis Fernando Chaves e Rodrick Wallace

Monthly Review

Monthly Review Vol. 72, No. 01 (May 2020)

Este artigo é a Review of the Month da edição de maio de 2020. A versão impressa terá a mesma data no final do artigo do dia em que foi publicada pela primeira vez, 27 de março de 2020. O fato de estarmos publicando a Resenha do Mês online com mais de um mês de antecedência da publicação da edição como um todo é inédito para nós e testemunha a emergência atual. Prevemos que pequenas atualizações serão adicionadas ao artigo quando a revista completa for publicada online em 1º de maio.

—Os Editores

Cálculo

Tradução / COVID-19, a doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, o segundo vírus de síndrome respiratória aguda grave desde 2002, é agora oficialmente uma pandemia. Ao final de março, cidades inteiras estão abrigadas e, um a um, os hospitais estão entrando em impasses médicos causados por ondas de novos pacientes.

A China, com seu surto inicial em contração, atualmente respira mais fácil [1]. Coréia do Sul e Cingapura também. A Europa já se dobra sob o peso das mortes ainda no início do surto, especialmente Itália e Espanha, mas cada vez mais outros países. A América Latina e a África estão apenas começando a acumular casos, alguns países se preparando melhor que outros. Nos Estados Unidos, um indicador importante como o país mais rico da história do mundo, o futuro próximo parece sombrio. O surto não deve atingir seu pico nos EUA até maio, e os profissionais de saúde e os visitantes de hospitais já estão lutando pelo acesso ao fornecimento dos escassos equipamentos de proteção individual [2]. Enfermeiras, para quem o Centro de Controle e Proteção de Doenças (CDC) recomendou terrivelmente o uso de bandanas e lenços como máscaras, já declararam que "o sistema está condenado" [3].

Enquanto isso, a administração dos EUA continua exigindo dos estados individuais equipamentos médicos básicos, que, em primeiro lugar, se recusou a comprar para eles. Também anunciou um recrudescimento nas fronteiras, como uma intervenção de saúde pública, enquanto o vírus se alastra como pólvora pelos mal-atendidos país adentro [4].

Uma equipe de epidemiologia do Imperial College projetou que a melhor campanha de mitigação - achatando a curva de casos acumulados ao colocar em quarentena os casos detectados e distanciando socialmente os idosos - ainda deixaria os Estados Unidos com 1,1 milhão de mortos e um total de casos oito vezes maior do que o país dispõe de camas de tratamento intensivo [5]. A supressão de doenças, com o objetivo de encerrar o surto, levaria a saúde pública a uma quarentena familiar e ao estilo da China, também ao distanciamento em nível comunitário, incluindo o fechamento de instituições. Isso reduziria os Estados Unidos a uma perspectiva projetada de cerca de 200.000 mortes.

O grupo do Imperial College estima que uma campanha bem-sucedida de supressão teria que ser realizada por pelo menos dezoito meses, carregando consigo um acrescimo na contração econômica e na decadência dos serviços comunitários. A equipe propôs equilibrar as demandas de controle da doença e de economia ativando e desativando as quarentenas comunitárias, a depender de um nível definido de leitos de tratamento intensivo preenchidos.

Outros projetistas recuaram. Um grupo liderado por Nassim Taleb, autor do famoso Cisne Negro, declara que o modelo do Imperial College não inclui rastreamento de contatos e monitoramento de porta em porta [6]. O contraponto deles esquece que o surto tenha ultrapassado a disposição de muitos governos de estabelecer esse tipo de cordão sanitário . Somente quando o surto começar a declinar que muitos países verão essas medidas como apropriadas, com sorte detendo um teste funcional e apropriado. Como disse um espertalhão: “O coronavírus é radical demais. Os EUA precisam de um vírus mais moderado ao qual possamos responder de forma gradual" [7].

O grupo Taleb observa a recusa da equipe do Imperial em investigar sob quais condições o vírus pode ser levado à extinção. Essa extirpação não significa zero casos, mas isolamento suficiente para que casos únicos não produzam novas cadeias de infecção. Na China, apenas 5% dos suscetíveis que entraram em contato com um caso foram posteriormente infectados. De fato, a equipe Taleb é a favor do programa de supressão da China, fazendo tudo rápido o suficiente para levar o surto à extinção sem entrar em uma dança das cadeiras, alternando entre controlar a doença e garantir à economia que não falte mão-de-obra. Em outras palavras, a abordagem estrita da China ( e de alta demanda de recursos) libera sua população do sequestro de meses - ou mesmo anos - que a equipe do Imperial recomenda que outros países participem.

O epidemiologista matemático Rodrick Wallace, um de nós, derruba completamente a mesa de modelagem. As modelagens emergenciais, por necessárias que sejam, ignoram quando e por onde começar. As causas estruturais também fazem parte da emergência. Incluí-las nos ajuda a descobrir a melhor forma de responder, avançando além de apenas reiniciar a economia que produziu o estrago. "Se os bombeiros receberem recursos suficientes", escreve Wallace,

sob condições normais, a maioria dos incêndios, na maioria das vezes, pode ser contida com baixas e destruição de propriedades mínimas. No entanto, essa contenção depende criticamente dos empreendimentos muito menos românticos, mas não menos heroicos, dos esforços regulamentares persistentes e contínuos que limitam os riscos de construção por meio do desenvolvimento e aplicação de normas, e isso também garante o fornecimento de recursos de combate a incêndio, saneamento e preservação em todos nos níveis necessários... 
O contexto é de infecções pandêmicas, e as atuais estruturas políticas que permitem que empresas agrícolas multinacionais privatizem lucros enquanto externalizam e socializam prejuízos, devem ficar sujeitas à “aplicação de normas” que reinternalizem esses custos, se realmente pretende-se evitar uma doença pandêmica fatal de massas no futuro próximo [8].

O fracasso em se preparar e reagir ao surto não começou apenas em dezembro, quando países ao redor do mundo falharam em agir assim que o COVID-19 saiu de Wuhan. Nos Estados Unidos, por exemplo, não começou quando Donald Trump desmantelou o time de preparação pandêmica da sua equipe de segurança nacional, ou ao deixar 700 posições do CDC não preenchidas [9]. Também não começou quando as autoridades federais não reagiram aos resultados de uma simulação de pandemia de 2017, mostrando que o país estava despreparado [10]. Nem quando, como declarado na manchete da Reuters, os Estados Unidos “cortaram o posto trabalho do especialista do CDC na China, meses antes do surto do vírus”, embora a falta de um contato prévio e direto de um especialista norte-americano na China certamente enfraquecesse a resposta dos EUA. Nem começou com a infeliz decisão de não usar os kits de teste já disponíveis, fornecidos pela Organização Mundial da Saúde. Juntos, os atrasos nas informações iniciais e a omissão nas testagens serão, sem dúvida, responsáveis por muitas, provavelmente milhares, de vidas perdidas [11].

Na verdade, as falhas foram programadas décadas atrás, quando os bens comuns compartilhados da saúde pública foram simultaneamente negligenciados e monetizados. [12]. Um país capturado por um regime de epidemiologia individualizada e just-in-time - uma contradição profunda - com leitos e equipamentos hospitalares insuficientes para operações normais, é por definição incapaz de reunir os recursos necessários para buscar um padrão China de supressão.

Seguindo o argumento da equipe de Taleb sobre estratégias-modelo em termos políticos mais explícitos, o ecologista Luis Fernando Chaves, outro co-autor deste artigo, faz referência aos biólogos dialéticos Richard Levins e Richard Lewontin para concordar que "deixar os números falarem" mascara todas as suposições escondidas de antemão [13]. Modelos como o estudo do Imperial College limitam explicitamente o escopo da análise a questões restritas enquadradas na ordem social dominante. Pela forma, eles falham em capturar as forças mais amplas do mercado que geram surtos e as decisões políticas subjacentes às intervenções.

Conscientemente ou não, as projeções resultantes colocam garantir a saúde de todos em segundo plano, incluindo as milhares de pessoas mais vulneráveis que seriam mortas caso um país alternasse entre o controle de doenças e a economia. A visão foucaultiana de um estado agindo sobre uma população em seus próprios interesses representa apenas uma atualização, ainda que mais benigna, do empurrão malthusiano para a imunidade de rebanho que o governo britânico e a Holanda propuseram - deixando o vírus propagar-se pela população sem impedimentos [14]. Há poucas evidências além da esperança ideológica de que a imunidade de rebanho garanta a interrupção do surto. O vírus pode prontamente evoluir por baixo do cobertor imunológico da população.

Intervenção
O que deveria ser feito? Primeiro, precisamos entender que, ao respondermos à emergência da maneira correta, ainda estaremos envolvidos tanto na necessidade quanto no perigo.

Precisamos nacionalizar hospitais, como a Espanha fez em resposta ao surto [15]. Precisamos de uma investida em ampliar o volume de testes e diminuir o tempo de espera, como fez o Senegal [16]. Precisamos socializar produtos farmacêuticos [17]. Precisamos impor proteções máximas para as equipes médicas, diminuindo a redução da equipe. Devemos garantir o direito de reparar ventiladores e outras máquinas médicas [18]. Precisamos começar a produzir coquetéis antivirais, como remdesivir e a velha cloroquina antimalárica (e quaisquer outros medicamentos que pareçam promissores), enquanto realizamos ensaios clínicos, testando se eles funcionam fora do laboratório [19]. Um sistema de planejamento deve ser implementado para (1) forçar as empresas a produzir os ventiladores e equipamentos de proteção individual necessários e exigidos pelos profissionais de saúde e (2) priorizar a alocação aos locais com as maiores necessidades.

Precisamos estabelecer uma brigada pandêmica de massas para fornecer a força de trabalho - da pesquisa ao atendimento - que se aproxime do nível da demanda que o vírus (e qualquer outro patógeno que está por vir) está colocando sobre nós. Combinar o número de casos com o número de leitos de tratamento intensivo, equipe e equipamento necessários para que a supressão possa preencher a lacuna atual dos números. Em outras palavras, não podemos aceitar a ideia de sobreviver apenas ao ataque aéreo do COVID-19 que está em curso, apenas para retornar mais tarde ao rastreamento de contatos e isolamento de casos para conduzir o surto abaixo do seu limite.

Precisamos contratar pessoas suficientes para identificar o COVID-19 de casa em casa agora e equipá-las com os equipamentos de proteção necessários, como máscaras adequadas. Ao longo do caminho, precisamos suspender uma sociedade organizada em torno da expropriação, desde a dos proprietários que exploram o mais oprimidos até as sanções à outros países, para que o povo possa sobreviver a doença e a cura.

Até que esse programa possa ser implementado, no entanto, a maior parte da população é largamente abandonada. Mesmo que a pressão contínua deva ser exercida sobre governos recalcitrantes, no espírito de uma tradição amplamente perdida na organização proletária que remonta a 150 anos, as pessoas comuns que são capazes devem se juntar a grupos emergenciais de ajuda mútua e brigadas comunitárias [20]. Os profissionais de saúde pública que os sindicatos podem pagar devem treinar esses grupos para impedir que atos de bondade espalhem o vírus.

A insistência em combater as origens estruturais do vírus através de planejamentos de emergência nos oferece uma chave para avançar cada passo adiante em proteger as pessoas antes dos lucros.

Um dos muitos perigos está na normalização da "besteira do cocô de morcego” atualmente em andamento, uma caracterização acidentalista, dada a síndrome que os pacientes sofrem - "merda de morcego" nos pulmões. Precisamos reter o choque que recebemos quando descobrimos que outro vírus da SARS emergiu de seus refúgios de vida selvagem e em questão de oito semanas se espalhou pela humanidade [21]. O vírus surgiu em um terminal de uma linha regional de suprimento de alimentos exóticos, desencadeando com sucesso uma cadeia de infecções de humano para humano na outra extremidade de Wuhan, na China [22]. A partir daí, o surto se espalhou localmente e pulou em aviões e trens, espalhando-se por todo o mundo através de uma rede estruturada por conexões de viagem e descendo uma hierarquia de cidades maiores para cidades menores [23].

Mais que descrever o mercado de alimentos silvestres típico do oriente, pouco esforço foi gasto nas questões mais óbvias. Como o setor de alimentos exóticos chegou a poder vender seus produtos ao lado de animais mais tradicionais, no maior mercado de Wuhan? Os animais não estavam sendo vendidos na traseira de um caminhão ou em um beco. Pense nas permissões e pagamentos (e desregulamentação) envolvidos [24]. Muito além da pesca, os alimentos silvestres em todo o mundo são um setor cada vez mais formalizado, cada vez mais capitalizado pelas mesmas fontes que apoiam a produção industrial [25]. Embora nem próximo a semelhante na magnitude da produção, a distinção é agora mais opaca.

A geografia econômica sobreposta se estende desde o mercado de Wuhan até o interior, onde alimentos exóticos e tradicionais são criados em operações que fazem fronteira com a natureza selvagem - em retração pela devastação [26]. Na medida em que a produção industrial invade a última floresta, as operações de alimentos silvestres precisam avançar mais fundo para aumentar suas iguarias ou invadir as últimas reservas. Como resultado, o mais exótico dos patógenos, neste caso o SARS-2 hospedado em morcegos, encontra seu caminho em um caminhão, seja em animais para alimentação ou no trabalho de cuidar deles, e se projeta de uma extremidade de um longo circuito periurbano para a outra, antes de atingir um estágio global [27].
Infiltração

A conexão exige elaboração, tanto para nos ajudar a planejar para o futuro diante desse surto quanto para entender como a humanidade se manobrou para dentro para tal armadilha.
Alguns patógenos emergem diretamente dos centros de produção. Bactérias de origem alimentar, como Salmonella e Campylobacter, vêm à mente. Mas muitos vírus como o COVID-19 se originam nas fronteiras da produção de capital. De fato, pelo menos 60% dos novos patógenos humanos emergem transbordando de animais selvagens para comunidades humanas locais (antes que os mais bem-sucedidos se espalhem pelo resto do mundo) [28].

Um número de pesquisadores no campo da eco-saúde, alguns deles financiados pela Colgate-Palmolive e Johnson & Johnson, empresas que dirigem o limite sangrento do desmatamento liderado pelo agronegócio, produziram um mapa global com base em surtos anteriores de 1940, sugerindo onde novos patógenos provavelmente surgiriam e começariam a se disseminar [29]. Quanto mais quente a cor no mapa, maior a probabilidade de um novo patógeno surgir lá. Mas, ao confundir essas geografias absolutas , o mapa da equipe - em vermelho forte na China, Índia, Indonésia e partes da América Latina e África - perdeu uma variável crítica. O foco nas zonas de surto ignora as relações compartilhadas pelos atores econômicos globais que moldam as epidemiologias [30]. O interesse do capital em apoiar o desenvolvimento - e a produção - induziu mudanças no uso da terra e no surgimento de doenças em partes subdesenvolvidas do mundo, e recompensa esforços que atribuem a responsabilidade por surtos epidêmicos às populações indígenas e suas práticas culturais "sujas" [31]. Preparar carne de animais selvagens e enterros em casa são duas práticas a que se atribui culpa pelo surgimento de novos patógenos. Traçar geografias relacionais, ao contrário, transforma repentinamente Nova York, Londres e Hong Kong, principais fontes de capital global, em três dos piores hotspots do mundo.

Enquanto isso, as zonas de surto não são sequer organizadas sob políticas tradicionais. As trocas ecológicas desiguais - redirecionando os piores danos da agricultura industrial para o Sul Global - deixaram de apenas retirar os recursos das localidades através de um imperialismo liderado pelo Estado e passaram a novas complexidades em escala e produção[32]. O agronegócio está reconfigurando suas operações extrativistas em redes espacialmente descontínuas e em territórios de diferentes escalas [33]. Uma série de “repúblicas de soja” multinacionais, por exemplo, agora abrangem toda a Bolívia, Paraguai, Argentina e Brasil. A nova geografia é incorporada por mudanças na estrutura de gerenciamento empresarial, capitalização, subcontratação, substituições da cadeia de suprimentos, arrendamento e posses transnacionais de terras [34]. Ao ultrapassar as fronteiras nacionais, esses “países commodities”, incorporados de maneira flexível em ecologias e fronteiras políticas, estão produzindo novas epidemias ao longo do caminho [35].

Por exemplo, apesar de uma mudança geral na população de áreas rurais comoditizadas para favelas urbanas que continua hoje em todo o mundo, a divisão rural-urbana que impulsiona grande parte da discussão sobre o surgimento de doenças não leva em consideração a mão-de-obra rural e o rápido crescimento de cidades rurais em áreas periurbanas como desakotas (vilas da cidade) ou zwischenstadt (cidades intermediárias). Mike Davis e outros identificaram como essas paisagens recém-urbanizadas agem como mercados locais e centros regionais para a passagem de commodities agrícolas globais [36]. Algumas dessas regiões até ficaram “pós-agrícolas” [37]. Como resultado, a dinâmica das doenças florestais, as fontes primitivas dos patógenos, não é mais restrita apenas ao interior. As epidemiologias associadas a elas tornaram-se relacionais, sentidas no tempo e no espaço. Um SARS pode repentinamente se espalhar para os seres humanos na cidade grande, apenas a alguns dias depois de sair de sua caverna de morcegos.

Os ecossistemas de onde esses vírus “selvagens” vêm, controlados pelas complexidades da floresta tropical, estão sendo drasticamente consumidos pelo desmatamento promovido pelo capital e, no outro extremo do desenvolvimento periurbano, por déficits na rede pública de saúde e no saneamento ambiental [38]. Embora muitos patógenos silvestres estejam extinguindo junto a suas espécies hospedeiras ( como resultado do desmatamento), um subconjunto de infecções que antes se espalhavam relativamente rápido na floresta, mesmo que apenas por uma taxa irregular de encontros entre suas espécies hospedeiras típicas, agora está se propagando por populações humanas suscetíveis cuja vulnerabilidade à infecção é muitas vezes exacerbada nas cidades por programas de austeridade e regulamentação corrupta. Mesmo diante de vacinas eficazes, os surtos resultantes são caracterizados por maior extensão, duração e impulso. O que antes era um vazamento local agora é uma epidemia que atravessa as redes globais de viagens e comércio [39].

Por esse efeito de paralaxe - por simplesmente uma mudança no contexto ambiental - padrões antigos como Ebola, Zika, malária e febre amarela, evoluindo relativamente pouco, todos se transformaram rapidamente em ameaças regionais. De repente, eles passaram de transbordar para aldeões remotos de vez em quando para infectar milhares nas capitais. Em um outro aspecto ecológico, até os animais selvagens, rotineiramente reservatórios de doenças de longa data, estão sofrendo consequências. Suas populações estão fragmentadas pelo desmatamento, macacos nativos do Novo Mundo suscetíveis à febre amarela de tipo selvagem, aos quais foram expostos por pelo menos cem anos, estão perdendo a imunidade de rebanho e morrendo nas centenas de milhares [41].
Expansão

Se apenas por sua expansão global, a agricultura de commodities serve como propulsão e nexo através do qual patógenos de diversas origens migram dos reservatórios mais remotos para os centros populacionais mais internacionais [42]. É aqui e ao longo do caminho que novos patógenos se infiltram nas comunidades fechadas da agricultura. Quanto mais longas as cadeias de suprimentos associadas e maior a extensão do desmatamento adjunto, mais diversos (e exóticos) os patógenos zoonóticos que entram na cadeia alimentar. Entre os patógenos emergentes e reemergentes recentes de fazenda e de origem alimentar, originários de todo o domínio antropogênico, estão a peste suína africana, Campylobacter , Cryptosporidium , Cyclospora , Ebola Reston, E. coliO157:H7, febre aftosa, hepatite E, Listeria , vírus Nipah, febre Q, Salmonella, Vibrio, Yersinia e uma variedade de novas variantes da gripe, incluindo H1N1 (2009), H1N2v, H3N2v, H5N1, H5N2, H5Nx, H6N1, H7N1, H7N3, H7N7, H7N9 e H9N2 [43].

Por mais que não seja intencional, a totalidade da linha de produção capitalista é organizada em torno de práticas que aceleram a evolução da virulência patogênica e sua subsequente transmissão [44]. As monoculturas genéticas crescentes - animais de corte e plantas com genomas quase idênticos - removem os mecanismos corta-incêndio de imunidade que em populações mais diversas retardam a transmissão [45]. Patógenos agora podem evoluir rapidamente em torno dos padrões comuns de genótipos de imunidade dos hospedeiros. Enquanto isso, condições de aglomeração deprimem a resposta imune dos indivíduos[46]. Populações e densidades maiores de animais de fazenda facilitam uma maior transmissão e infecção recorrente [47]. O alto rendimento, parte de qualquer produção industrial, fornece um suprimento continuamente renovável de casos suscetíveis em celeiros, fazendas e em escala regional, removendo o limite da evolução da mortalidade por patógenos [48]. Alojar muitos animais juntos recompensa aquelas linhagens que podem se propagar melhor através deles. A redução da idade de abate - para seis semanas em galinhas - provavelmente seleciona patógenos capazes de sobreviver a sistemas imunológicos mais robustos [49]. O aumento da extensão geográfica do comércio e exportação de animais vivos aumentou a diversidade de segmentos genômicos que seus patógenos associados trocam, aumentando a taxa com que agentes de doenças exploram suas possibilidades evolutivas [50].

Mesmo a evolução dos patógenos avançando de todas essas formas, há, no entanto, pouca ou nenhuma intervenção, mesmo por demanda da própria indústria, exceto o necessário para resgatar as margens fiscais de um quarto da emergência repentina de um surto [51]. A tendência é de menos inspeções governamentais em fazendas e indústrias de processamento, legislação contra a vigilância governamental e exposição por ativistas e legislação contra a divulgação na mídia de informações específicas sobre surtos mortais. Apesar das recentes vitórias em processos contra a poluição por pesticidas e suínos, o comando privado da produção permanece inteiramente focado no lucro. Os danos causados pelos surtos resultantes são externalizados ao gado, lavouras, vida selvagem, trabalhadores, governos locais e nacionais, sistemas de saúde pública e sistemas agrários alternativos no exterior como uma questão de prioridade nacional. Nos Estados Unidos, o CDC relata que surtos de origem alimentar estão se expandindo em número de estados afetados e pessoas infectadas [52].

Ou seja, a alienação do capital está jogando a favor dos patógenos. Enquanto o interesse público é filtrado nos portões das fazendas e fábricas de alimentos, os patógenos pulam além da biossegurança que a indústria está disposta a pagar e devolver ao público. A produção cotidiana representa um lucrativo perigo moral se alimentando de nossa saúde pública.
Libertação

Há uma ironia reveladora em Nova York, uma das maiores cidades do mundo, protegendo-se contra o COVID-19 a um hemisfério das origens do vírus. Milhões de nova-iorquinos estão se escondendo em empreendimentos habitacionais recentemente supervisionados por uma Alicia Glen, que era até 2018 a vice-prefeita para habitação e desenvolvimento econômico em NY [53]. Glen é uma ex-executiva da Goldman Sachs que supervisionou a companhia de investimentos Urban Investment Group, que financia projetos de comunidades do tipo que as outras unidades da empresa ajudam a marcar[54].

Glen, é claro, não é pessoalmente responsável pelo surto, mas é mais um símbolo de uma conexão que bate mais perto de casa. Três anos antes da cidade contratá-la, após uma crise imobiliária e a Grande Recessão em parte criada por ela, seu ex-empregador, junto ao JPMorgan, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo & Co. e Morgan Stanley, assumiu 63% do financiamento federal emergencial de empréstimos [55]. O Goldman Sachs, livre de despesas gerais, passou a diversificar suas participações fora da crise. O Goldman Sachs adquiriu 60% das ações da Shuanghui Investment and Development, parte do gigante agronegócio chinês que comprou a Smithfield Foods, com sede nos EUA, o maior produtor de suínos do mundo [56]. Por US$300 milhões, também obteve a propriedade total de dez granjas de aves em Fujian e Hunan, uma província de Wuhan e bem dentro da bacia de alimentos silvestres da cidade [57]. Investiu até outros US$300 milhões ao lado do Deutsche Bank na criação de suínos nas mesmas províncias [58].

As geografias relacionais exploradas acima circularam todo o caminho de volta. Atualmente, existe uma pandemia que afeta os distritos eleitorais de Glen, apartamento por apartamento, em Nova York, o maior epicentro do COVID-19 dos EUA. Mas também precisamos reconhecer que o circulo de causas do surto se estendeu em parte a partir de Nova York, por menor que seja o investimento do Goldman Sachs em um sistema do tamanho da agricultura chinesa.

Apontar o dedo nacionalista e racista do "vírus da China" de Trump e do espectro liberal, obscurece as direções globais interligadas entre o estado e o capital [59]. “Irmãos inimigos”, como descreveu Karl Marx [60]. As mortes e o dano infligido aos trabalhadores no campo de batalha, na economia e agora em seus sofás lutando para recuperar o fôlego, manifestam tanto a competição entre as elites, que manobram por recursos naturais finitos, quanto os meios compartilhados de dividir e conquistar a massa da humanidade presa nas engrenagens dessas maquinações.

De fato, uma pandemia que surge do modo de produção capitalista e que se espera que o Estado administre, de um lado, mas por outro pode oferecer uma oportunidade da qual os gerentes e beneficiários do sistema possam prosperar. Em meados de fevereiro, cinco senadores dos EUA e vinte membros da Câmara despejaram milhões de dólares em ações mantidas pessoalmente em indústrias que provavelmente serão danificadas pela pandemia que se aproxima [61]. Os políticos basearam suas trocas internas em informações não públicas, mesmo que alguns dos representantes continuassem a repetir publicamente fraseologias governamentais de que a pandemia não representava tal ameaça.

Além de tais balbúrdias repugnantes, o estado de corrupção é sistêmico, um marcador do fim do ciclo de acumulação dos EUA quando o capital começa a sumir.

Há algo comparativamente anacrônico nos esforços para manter a máquina girando, mesmo se organizados na ideia de elevar as finanças acima da realidade das ecologias primárias (e epidemiologias relacionadas) nas quais se baseia. Para o próprio Goldman Sachs, a pandemia, como as crises anteriores, oferece "espaço para crescer":

Compartilhamos o otimismo de vários especialistas em vacinas e pesquisadores de empresas de biotecnologia com base no bom progresso que foi feito em várias terapias e vacinas até o momento. Acreditamos que o medo diminuirá na primeira evidência significativa de tal progresso [...] Tentar negociar para uma possível meta negativa, quando a meta de final de ano for substancialmente mais alta, é apropriado para os comerciantes diários, seguidores do momento e alguns gerentes de fundos hedge, mas não para investidores de longo prazo. De igual importância, não há garantia de que o mercado atinja os níveis mais baixos que possa ser utilizada como justificativa para a venda hoje. Por outro lado, estamos mais confiantes de que o mercado acabará atingindo a meta mais alta, dada a resiliência e a preeminência da economia norte-americana.
E, finalmente, pensamos que os níveis atuais oferecem uma oportunidade de aumentar lentamente os níveis de risco de um portfólio. Para aqueles que estão sentados com excesso de caixa e têm poder de permanência com a alocação estratégica correta de ativos, este é o momento de começar a aumentar gradualmente as ações da S&P" [62].

Chocadas com a carnificina em curso, pessoas de todo o mundo tiram conclusões diferentes [63]. Esses circuitos de capital e produção, que os patógenos marcam como etiquetas radioativas, um após o outro, são considerados inconcebíveis.

Como caracterizar tais sistemas além do episódico e circunstancial, como fizemos acima? Nosso grupo está no meio de derivar um modelo que supera os esforços da medicina colonial moderna encontrada na eco-saúde e na One Health, que continua a culpar os pequenos agricultores indígenas e locais pelo desmatamento que leva ao surgimento de doenças mortais [64].

Nossa teoria geral do surgimento neoliberal de doenças , incluindo, sim, na China, combina:

  • circuitos globais de capital;
  • implantação do referido capital, destruindo a complexidade ambiental regional que mantém o crescimento da população de patógenos virulentos sob controle;
  • os aumentos resultantes nas taxas e na amplitude taxonômica dos eventos de transbordamento;
  • os crescentes circuitos periurbanos de mercadorias que transportam esses patógenos recém-derramados sobre o animal e o trabalhador, do mais profundo interior às cidades regionais;
  • as crescentes redes globais de transporte (e comércio de gado) que enviam os patógenos dessas cidades para o resto do mundo em tempo recorde;
  • as maneiras como essas redes reduzem o atrito de transmissão, selecionando para a evolução de patógenos de maior mortalidade nos animais e nas pessoas;
  • e, entre outras imposições, a escassez de reprodução local no gado industrial, removendo a seleção natural como um serviço de ecossistemas que fornece proteção contra doenças em tempo real (e quase gratuita).

A premissa operacional subjacente é que a causa do COVID-19 e de outros patógenos não se encontra apenas no objeto de qualquer agente infeccioso ou em seu curso clínico, mas também no campo das relações ecossistêmicas que o capital e outras causas estruturais impediram para sua própria vantagem [65]. A grande variedade de patógenos, representando diferentes taxonomias, hospedeiros de origem, modos de transmissão, cursos clínicos e resultados epidemiológicos, todos os indicadores que direcionam nossos olhos arregalados para os nossos motores de busca a cada surto, marcam diferentes partes e caminhos ao longo dos mesmos tipos de circuitos de uso da terra e acumulação de valor.

Um programa geral de intervenção é executado em paralelo muito além de um vírus em particular.

Para evitar os piores resultados daqui em diante, a desalienação oferece a próxima grande transição humana: abandonar as ideologias dos colonos, reintroduzir a humanidade nos ciclos de regeneração da Terra e redescobrir nosso senso de individuação em multidões além do estado do capital [66]. No entanto, o economismo, a crença de que todas as causas são apenas econômicas, não será suficiente. O capitalismo global é uma hidra de muitas cabeças, apropriando-se, internalizando e ordenando múltiplas camadas de relação social [67]. O capitalismo opera em terrenos complexos e interligados de raça, classe e gênero no curso da atualização dos regimes regionais de valor.

Correndo o risco de aceitar os preceitos do que a historiadora Donna Haraway rejeitou como história da salvação - "podemos desarmar a bomba a tempo?" - a desalienação deve desmantelar essas múltiplas hierarquias de opressão e as formas específicas de localidade em que interagem com a acumulação [68]. Ao longo do caminho, devemos sair das reapropriações expansivas do capital através de materialismos produtivos, sociais e simbólicos [69]. Ou seja, para fora do que se resume em um totalitarismo. O capitalismo mercantiliza tudo - a exploração de Marte aqui, o sono ali, lagoas de lítio, reparo de ventiladores, até a própria sustentabilidade, e assim por diante, essas muitas permutações são encontradas muito além da fábrica e da fazenda. Todas as maneiras pelas quais quase todo mundo está sujeito ao mercado, que durante um tempo como esse é cada vez mais antropomorfizado pelos políticos, não poderiam ser mais claras [70].

Em suma, uma intervenção bem-sucedida, que impeça de matar um bilhão de pessoas qualquer um dos muitos patógenos que estão na fila do circuito agroeconômico, deve entrar na arena de um confronto global com o capital e seus representantes locais, por mais que qualquer soldado individual da burguesia, Glen entre eles, tente mitigar os danos. Como nosso grupo descreve em alguns de nossos trabalhos mais recentes, o agronegócio está em guerra com a saúde pública [71]. E a saúde pública está perdendo.

No entanto, se a maioria da humanidade vencer tamanho conflito de gerações, podemos voltar a um metabolismo planetário que, embora expresso de maneira diferente de um lugar para outro, reconecte nossas ecologias e nossas economias [72]. Tais ideais são mais do que questões utópicas. Ao fazer isso, convergimos para soluções imediatas. Protegemos a complexidade da floresta que evita que patógenos mortais alinham os hospedeiros em linha para dentro de uma rede mundial de viagens [73].

Reintroduzimos a diversidade de animais e culturas, e reintegramos animais e culturas agrícolas em escalas que impedem que os patógenos aumentem em termos de virulência e extensão geográfica [74]. Permitimos que nossos animais se reproduzam no local, reiniciando a seleção natural que permite que a evolução imunológica rastreie patógenos em tempo real. Em termos gerais, paramos de tratar a natureza e a comunidade, tão cheias de tudo que precisamos para sobreviver, como apenas mais um concorrente a ser expulso pelo mercado.

A saída é nada menos do que dar luz a um mundo (ou talvez mais no sentido de retornar à Terra). Também ajudará a resolver - de mangas arregaçadas - muitos dos nossos problemas mais prementes. Nenhum de nós presos em nossas salas de estar de Nova York a Pequim, ou, pior ainda, lamentando nossos mortos, quer passar por um surto assim novamente. Sim, as doenças infecciosas, que na maior parte da história humana foram nossa maior fonte de mortalidade prematura, continuarão sendo uma ameaça. Mas, dado o bestiário de patógenos atualmente em circulação, com piores transbordamentos quase anuais, provavelmente estaremos enfrentando outra pandemia mortal em um tempo muito mais curto do que a pausa de cem anos desde 1918. Podemos ajustar os fundamentos dos modos pelos quais nos apropriamos da natureza e chegar ao que seria uma trégua com essas infecções?

Notas:

1. Max Roser, Hannah Ritchie, e Esteban Ortiz-Ospina, “Coronavirus Disease (COVID-19)—Statistics and Research,” Our World in Data, acedido em 22 de março, 2020.

2. Brian M. Rosenthal, Joseph Goldstein, e Michael Rothfeld, “Coronavirus in N.Y.: ‘Deluge’ of Cases Begins Hitting Hospitals(link is external),” New York Times, 20 de março, 2020.

3. Hannah Rappleye, Andrew W. Lehren, Laura Stricklet, e Sarah Fitzpatrick, “’The System (link is external)Is Doomed’: Doctors, Nurses, Sound off in NBC News Coronavirus Survey,” NBC News, 20 de março, 2020.

4. Eliza Relman, “The Federal Government Outbid States on Critical Coronavirus Supplies After Trump Told Governors to Get Their Own Medical Equipment,” Business Insider, 20 de março de 2020; David Oliver, “Trump Announces U.S.-Mexico Border Closure to Stem Spread of Coronavirus,” USA Today, 19 de março, 2020.

5. Neil M. Ferguson et al. on behalf of the Imperial College COVID-19 Response Team, “Impact of Non-Pharmaceutical Interventions (NPIs) to Reduce COVID-19 Mortality and Healthcare Demand,” 16 de março, 2020.

6. Nassim Nicholas Taleb, The Black Swan (New York: Random House, 2007); Chen Shen, Nassim Nicholas Taleb, e Yaneer Bar-Yam, “Review of Ferguson et al. ‘Impact of Non-Pharmaceutical Interventions,’” New England Complex Systems Institute, 17 de março, 2020.

7. NewTmrw, Twitter post, 21 de março, 2020.

8. Rodrick Wallace, “Pandemic Firefighting vs. Pandemic Fire Prevention” (manuscrito inédito, 20 de março, 2020).

9. Jonathan Allen, “Trump’s Not Worried About Coronavirus: But His Scientists Are,” NBC News, 26 de fevereiro, 2020; Deb Riechmann, “Trump Disbanded NSC Pandemic Unit That Experts Had Praised,” AP News, 14 de março, 2020.

10. David E. Sanger, Eric Lipton, Eileen Sullivan, e Michael Crowley, “Before Virus Outbreak, a Cascade of Warnings Went Unheeded,” New York Times, 19 de março, 2020.

11. Marisa Taylor, “Exclusive: U.S. Axed CDC Expert Job in China Months Before Virus Outbreak,” Reuters, 22 de março, 2020.

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15. Adam Payne, “Spain Has Nationalized All of Its Private Hospitals as the Country Goes into Coronavirus Lockdown,” Business Insider, 16 março, 2020.

16. Jeva Lange, “Senegal Is Reportedly Turning Coronavirus Tests Around ‘within 4 Hours’ While Americans Might Wait a Week,” Yahoo News, 12 março, 2020.

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35. Rodrick Wallace et al., Clear-Cutting Disease Control: Capital-Led Deforestation, Public Health Austerity, e Vector-Borne Infection (Basel: Springer, 2018).

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40. Wallace e Wallace, Neoliberal Ebola.

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51. Wallace, Big Farms Make Big Flu, 192–201.

52. “Safer Food Saves Lives,” Centers for Disease Control and Prevention, November 3, 2015; Lena H. Sun, “Big and Deadly: Major Foodborne Outbreaks Spike Sharply,” Washington Post, November 3, 2015; Mike Stobbe, “CDC: More Food Poisoning Outbreaks Cross State Lines,” KSL, November 3, 2015.

53 Sally Goldenberg, “Alicia Glen, Who Oversaw de Blasio’s Affordable Housing Plan and Embattled NYCHA, to Depart City Hall,” Politico, December 19, 2018.

54 Gary A. Dymski, “Racial Exclusion and the Political Economy of the Subprime Crisis,” Historical Materialism 17 (2009): 149–79; Harold C. Barnett, “The Securitization of Mortgage Fraud,” Sociology of Crime, Law and Deviance 16 (2011): 65–84.

55 Bob Ivry, Bradley Keoun, e Phil Kuntz, “Secret Fed Loans Gave Banks $13 Billion Undisclosed to Congress,” Bloomberg, November 21, 2011.

56 Michael J. de la Merced e David Barboza, “Needing Pork, China Is to Buy a U.S. Supplier,” New York Times, May 29, 2013.

57 “Goldman Sachs Pays US$300m for Poultry Farms,” South China Morning Post, August 4, 2008.

58 “Goldman Sachs Invests in Chinese Pig Farming,” Pig Site, August 5, 2008.

59 Katie Rogers, Lara Jakes, Ana Swanson, “Trump Defends Using ‘Chinese Virus’ Label, Ignoring Growing Criticism,” New York Times, March 18, 2020.

60 Karl Marx, Capital: A Critique of Political Economy, vol. 3 (New York: Penguin, 1993), 362.

61 Eric Lipton, Nicholas Fandos, Sharon LaFraniere, e Julian E. Barnes, “Stock Sales by Senator Richard Burr Ignite Political Uproar,” New York Times, March 20, 2020.

62 Sharmin Mossavar-Rahmani et al., “ISG Insight: From Room to Grow(link is external) to Room to Fall,” Goldman Sachs’ Investment Strategy Group.

63 “Corona Crisis: Resistance in a Time of Pandemic,” Marx21, March 21, 2020; International Assembly of the Peoples and Tricontinental Institute for Social Research, “In Light of the Global Pandemic, Focus Attention on the People(link is external),” Tricontinental, March 21, 2020.

64 Wallace et al., “The Dawn of Structural One Health.”

65 Wallace et al., “Did Neoliberalizing West African Forests Produce a New Niche for Ebola?”; Wallace et al., Clear-Cutting Disease Control.

66 Ernest Mandel, “Progressive Disalienation Through the Building of Socialist Society, or the Inevitable Alienation in Industrial Society?,” in The Marxist Theory of Alienation (New York: Pathfinder, 1970); Paolo Virno, A Grammar of the Multitude (Los Angeles: Semiotext(e), 2004); Del Weston, The Political Economy of Global Warming: The Terminal Crisis (London: Routledge, 2014); McKenzie Wark, General Intellects: Twenty-One Thinkers for the Twenty-First Century (New York: Verso, 2017); John Bellamy Foster, “Marx, Value, and Nature,” Monthly Review 70, no. 3 (July–August 2018): 122–36); Silvia Federici, Re-enchanting the World: Feminism and the Politics of the Commons (Oakland: PM, 2018).

67 Butch Lee e Red Rover, Night-Vision: Illuminating War and Class on the Neo-Colonial Terrain (New York: Vagabond, 1993); Silvia Federici, Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation(New York: Autonomedia, 2004); Anna Tsing, “Supply Chains and the Human Condition,” Rethinking Marxism 21, no. 2 (2009): 148–76; Glen Sean Coulthard, Red Skin, White Masks: Rejecting the Colonial Politics of Recognition (Minneapolis: University of Minnesota Press, 2014); Leandro Vergara-Camus, Land and Freedom: The MST, the Zapatistas and Peasant Alternatives to Neoliberalism (London: Zed, 2014); Jackie Wang, Carceral Capitalism (Los Angeles: Semiotext(e), 2018).

68 Donna Haraway, “A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist-Feminism in the Late Twentieth Century,” in Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature (New York: Routledge, 1991); Keeanga-Yamahtta Taylor, ed., How We Get Free: Black Feminism and the Combahee River Collective (Chicago: Haymarket, 2017).

69 Joseph Fracchia, “Organisms and Objectifications: A Historical-Materialist Inquiry into the ‘Human and the Animal,’” Monthly Review 68, no. 10 (março 2017): 1–17; Omar Felipe Giraldo, Political Ecology of Agriculture: Agroecology and Post-Development (Basel: Springer, 2019).

70 Franco Berardi, The Soul at Work: From Alienation to Autonomy (Los Angeles: Semiotext(e), 2009); Maurizio Lazzarato, Signs and Machines: Capitalism and the Production of Subjectivity (Los Angeles: Semiotext(e), 2014); Wark, General Intellects.

71 Rodrick Wallace, Alex Liebman, Luke Bergmann, e Robert G. Wallace, “Agribusiness vs. Public Health: Disease Control in Resource-Asymmetric Conflict,” proposto para publicação, 2020, disponível em https://hal.archives-ouvertes.fr.

72 Robert G. Wallace, Kenichi Okamoto, e Alex Liebman, “Earth, the Alien Planet,” in Between Catastrophe and Revolution: Essays in Honor of Mike Davis, ed. Daniel Bertrand Monk and Michael Sorkin (New York: UR, a publicar).

73 Wallace et al., Clear-Cutting Disease Control.

74 Wallace et al., “Industrial Agricultural Environments.”

Rob Wallace é um epidemiologista evolucionista que foi consultor dos Centros para o Controlo e Prevenção de Doenças da Organização da Alimentação e Agricultura. Alex Liebman é um estudante de doutoramento em Geografia Humana na Universidade de Rutgers, com um mestrado em agronomia da Universidade de Minnesota. Luis Fernando Chaves é um ecologista de doenças e foi um investigador sénior do Instituto para a Investigação e Ensino de Nutrição e Saúde da Costa Rica, em Tres Rios. Rodrick Wallace é um investigador da Divisão de Epidemiologia do Instituto Psiquiátrico da Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

Eles apreciam comentários perspicazes de Kenichi Okamoto.

1 de dezembro de 2016

As ecologias do Ebola

Rob Wallace e Rodrick Wallace




Tradução / As epidemias constituem, na mesma medida, marcos da civilização moderna e ameaças contra ela. Tudo que consegue evoluir e se expandir depende da matriz de barreiras e oportunidades que determinada sociedade dá aos patógenos que a circundam. Durante grande parte de sua história, por exemplo, o vibrião colério [Vibrio cholerae] alimentou-se do plâncton que existia no delta do Rio Ganges. Somente depois que muitas camadas da população adotaram um modo de vida urbano e sedentário e, posteriormente, integraram-se cada vez mais graças ao comércio e aos sistemas de transporte do século XIX, é que as bactérias do cólera viraram um específico e exclusivo ecótipo humano. Os vírus que causam a imunodeficiência (AIDS) em primatas surgiram em macacos, na forma de HIV, quando a expropriação colonial converteu o consumo de animais exóticos para a subsistência e o comércio sexual nas cidades em mercadorias de escala industrial. O gado domesticado tem se tornado uma fonte tremenda de difteria, gripe, sarampo, caxumba, pragas, coqueluche, tuberculose, rotavírus A, doença do sono e leishmaniose para os seres humanos. As mudanças ecológicas provocadas no entorno, pela intervenção humana, têm facilitado a transmissão de malária das aves e de dengue e febre amarela dos primatas selvagens. Os novos agentes patógenos adaptaram-se às melhorias da tecnologia médica e da saúde pública, enquanto as inovações nos métodos agrícolas e industriais têm acelerado as mudanças demográficas e as novas formas de habitar, concentrando potenciais populações hospedeiras e, desse modo, promovendo novas rodadas de transmissão.

As políticas destinadas a redesenhar a economia local em benefício das multinacionais impactam drasticamente o ambiente e os ecossistemas, e, portanto, influenciam do mesmo modo no destino das doenças infecciosas. Como testemunha a história epidemiológica, o contexto é muito mais que um simples cenário de colisão entre agentes patogênicos e a imunidade. Os impactos agroeconômicos regionais do neoliberalismo mundial podem ser percebidos em todos os níveis da ordem biocultural, inclusive nas proporções do vírus e da molécula. A investigação de tais conexões pode se tornar uma questão decisiva para o século XXI. Não deixa de crescer a bibliografia sobre saúde pública e animal que sugere que os padrões atuais de exploração agroeconômica aumentam o risco de uma nova pandemia, seja provocada pelos vírus RNA, como o ebola ou a síndrome respiratória aguda grave (SARS), ou por qualquer outro patógeno. Ecossistemas nos quais os vírus “silvestres” eram controlados pelas alternâncias da estocasticidade ambiental (variações ao acaso nas condições ambientais, como catástrofes, etc.) estão sendo radicalmente reestruturados pelo desmatamento e pelas plantações de monocultivo. As transmissões de patógenos que antes desapareciam com relativa rapidez, hoje descobrem cadeias de vulnerabilidade, gerando surtos de maior extensão, duração e impulso. Existe a possibilidade de que algum desses surtos chegue a igualar a escala da pandemia de gripe de 1918, de alcance global e com altas taxas de mortalidade e de invalidez.

O agronegócio capitalista transforma cada vez mais o Planeta Terra em Planeta Fazenda. 40% da superfície terrestre destina-se à agricultura, e espera-se que muitos milhões de hectares passem a ser de produção daqui ao ano de 2050. O gado, que representa 72% da biomassa animal, está, ao mesmo tempo, muito concentrado e amplamente disperso pela superfície do planeta. A pecuária usa um terço da água doce disponível e um terço das colheitas do mundo para sua alimentação. Com sua expansão global, a agricultura mercantilizada atua como a ponte através da qual os agentes patogênicos de diversas origens migram, inclusive das reservas selvagens mais isoladas até os centros populacionais mais globalizados. Quanto mais longas as cadeias de suprimento associadas, e quanto maior for o rastro do desmatamento, mais variados — e exóticos — serão os patógenos zoonóticos a entrar na cadeia alimentar. Entre os patógenos emergentes, encontram-se os Campylobacter industriais, o vírus Nipah, a febre Q, a hepatite E, a Salmonella enteritidis, a febre aftosa e diversas novas variantes da gripe. (1) As deseconomias de escala da agricultura intensiva vão muito além das consequências epidemiológicas acidentais que decorrem do transporte e da distribuição globalizados. Os ciclos de produção deste modelo debilitam a resistência dos ecossistemas às doenças e aceleram a difusão e a evolução dos agentes patogênicos, devido ao aumento dos monocultivos genéticos, à alta densidade populacional e à expansão das exportações. Neste ensaio, descrevemos o surgimento de um ebola urbanizado na África Ocidental, no fim de 2013, como exemplo fundamental de tal transição.

As origens

O surto do Zaire ebolavírus (zebov) na África Ocidental, o maior e mais extenso já registrado, começou nas aldeias selváticas de quatro distritos ao sudeste de Guiné, em dezembro de 2013. A epidemia se estendeu posteriormente para Guiné, Libéria e Serra Leoa — incluindo as capitais Conakry e Monróvia — antes de penetrar na Nigéria e no Senegal. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a epidemia como emergência de saúde pública de importância internacional. No final de 2015, já se registravam 28 mil casos de infecção e 11 mil mortes. Muitos dos milhares de doentes que sobreviveram à infecção, sofrem sequelas prolongadas, como doenças oculares, perda de audição, artralgia, anorexia, dificuldade para dormir e transtorno de estresse pós traumático (3). Os primeiros casos documentados do surto na África Ocidental, parecem ser os de duas crianças de uma aldeia, um menino de dois anos e sua irmã, de três, ao norte de Guéckédou, uma cidade guineana de 200 mil habitantes. Um grupo de pesquisadores sugere que a transmissão inicial do zebov teria tido início quando crianças da aldeia guineana de Meliandou capturaram e brincaram com morcegos de uma espécie insetívora (Mops condylurus), que já havia sido identificada antes como portadora do ebola (4).

Porém, focar somente no “paciente número zero” inicial pode ser um erro: é provável que o ebola já levasse anos circulando pela região (5). Diversos estudos acharam anticorpos contra várias espécies do ebola, especialmente da cepa zairense, em pacientes da Serra Leoa, muitos anos antes — enquanto as análises filogenéticas do próprio genoma do vírus remontam o limite inferior da entrada do zebov na África Ocidental para uma década atrás (6). Nosso próprio grupo de pesquisa propõe que essa estirpe tenha surgido quando a produção de dendê — pelo qual os morcegos frugívoros portadores do ebola se sentem atraídos — passou por um processo de consolidação, cerco e proletarização na Guiné selvática (7). A mudança na produção agroflorestal restringiu a produção artesanal e possivelmente expandiu o campo de interação humano-morcego pelo qual o vírus atravessa.

Independentemente da fonte específica, as mudanças no contexto agroeconômico parecem ser um dos principais fatores causais. Daniel Bausch e Lara Schwarz sugerem que o vírus tenha se propagado inicialmente na Guiné devido a uma combinação de impactos econômicos e políticos nacionais, sobre a comunidade silvestre do primeiro epicentro (8). A pobreza fomenta a invasão da selva, os infectados procuram tratamento em instalações médicas inadequadas, ampliando o contágio, e os países pobres passam a se ver afetados por uma série de falhas logísticas, que vão desde o surgimento da epidemia em si, até as bases de uma sociedade em funcionamento, incluindo a incapacidade de proporcionar alimentos suficientes. Pesquisas anteriores demonstram que a espécie de morcegos Mops — espécie proposta por outra equipe de investigação como a fonte da cepa que produziu o surto — também era atraída por outras produções de cultivo comercial na África Ocidental, como cana de açúcar, algodão e macadâmia (9). O capital investido na região parece insignificante em comparação com o cenário econômico mundial, mas as novas epizootias (doença que apenas ocasionalmente se encontra em uma comunidade animal, mas que se dissemina com grande rapidez e apresenta grande número de casos) podem surgir inclusive de pequenas mudanças na forma em que se utiliza o solo.

As transformações na Guiné selvagem em que se originou o vírus têm relação com as políticas de “ajuste estrutural” do governo de Alpha Condé, que abriu a produção de alimento aos circuitos mundiais do capital e, ao mesmo tempo, reduziu os já precários serviços de saúde pública. A região selvagem cobre quase um quarto do território de Guiné e faz fronteira com Libéria e Costa do Marfim, ao sudeste do país. As florestas naturais e semi-silvestres de diferentes tipos de dendê — dura, pisifera e tenera — são utilizados há muitos anos na Guiné para obter azeite. Os agricultores silvestres cultivam a espécie há centenas de anos, de uma forma ou de outra. Durante o transcurso do século XX, os períodos de descanso da terra foram reduzidos de vinte anos, na década de 30, para dez, na década de 1970 — e ainda mais no novo milênio, acrescentando o efeito de ter aumentado a densidade dos bosques. Nos terrenos agroflorestais cultivam-se também outras espécies, desde café e cacau, até arroz, milho, amendoim e mandioca. A rotatividade dos cultivos cumpre objetivos sociais maiores do que a sucessão funcional, e acaba influenciando a segurança alimentar, a posse da terra, a disponibilidade da mão de obra e as flutuações de preços da região. Mas a floresta está mudando. Com 2 milhões de hectares de sítios naturais e de cultivo tradicional, Guiné começou recentemente a fomentar a mercantilização do dendê para compensar as baratas importações da Ásia. Os planos traçados pelo governo em 2007, ao fim do longo reinado de Lansana Conté como presidente, incluíam a expansão da produção familiar e industrial para 15 mil hectares e 84 mil toneladas de azeite de dendê em 2015. Mais da metade delas deveria ser produzida nas plantações da Guiné selvática.

A Sociedade Guineana da Palma de Óleo (Société Guinéenne de Palmier à Huile et d’Hévéa – SOGUIPAH), fundada em 1987, começou como uma espécie de cooperativa paraestatal antes de virar uma empresa pública para todos os efeitos. Hoje, ela lidera os esforços regionais pelo desenvolvimento de plantações intensivas de palma híbrida para exportação. A empresa comercializou a produção de palma na prefeitura de Yomou, ao sul da área onde se produziu o surto, negociando requisições de terras, organizando cadeias de suprimentos, criando uma franquia de modo de produção e expropriando terrenos agrícolas, com o apoio das forças de segurança contra a oposição local. Em 2011, sob o novo governo de Alpha Condé, os camponeses que cultivavam arroz, café e borracha foram expulsos de suas chácaras e obrigados a se refugiar numa igreja em Nzarakora, capital da província (10). A Farm Land of Guinea, uma empresa de capital britânico cuja sede social fica em Nevada, obteve a concessão por 99 anos, de dois terrenos de quase 9 mil hectares, em conjunto com as aldeias de N’Dema e Konindou, no município de Dabola — que se tornaria o segundo epicentro do ebola — e de 98 mil hectares junto à aldeia de Saraya, no município de Koursoussa. Nos terrenos recém adquiridos, a ideia era cultivar milho e soja. O ministério de Agricultura encomendou à empresa a medição e o mapeamento de outro milhão e meio de hectares para a exploração de terceiros.

Remodelando os ecossistemas

Estes acordos internacionais são os mais recentes de uma série de esforços “pós”-coloniais para aumentar a produção agrícola na Guiné. A área pode ser caracterizada como um mosaico de povoados pequenos e isolados, habitados por diversos grupos étnicos que possuem escassa influência política e quase não recebem investimento social (11). Suas economia e ecologia têm sido também submetidas a tensões devido à chegada de refugiados de guerras civis que ocorrem nos países vizinhos, como Serra Leoa. A selva está submetida ao duplo processo de aceleração da decadência da infraestrutura pública e de iniciativas do setor privado que desapropriam os pequenos proprietários e eliminam os terrenos de colheita tradicionais em favor da mineração, da extração de madeira e dos grandes produtores agrícolas. O apoio internacional acelerou a transição. Uma fábrica de óleo de palma financiada pelo Banco Europeu de Investimentos permitiu à SOGUIPAH quadruplicar a capacidade de sua fábrica anterior e deu um fim à extração artesanal que, ainda em 2010, fornecia pleno emprego aos povos locais. O aumento decorrente da produção sazonal faz com que a fábrica fique sobrecarregada em plena temporada e funcione abaixo de sua capacidade quando o período acaba. Isso vem produzindo conflitos entre a empresa e seus produtores e colhedores, agora parcialmente proletarizados. Os trabalhadores temporários independentes, que insistem em elaborar seu próprio óleo durante a temporada de chuva, agora correm o risco de ser presos.

A nova geografia econômica é um clássico caso do cerco de terras, que elimina a tradição do uso comum dos terrenos florestais com a expectativa de que os colhedores informais que trabalham os terrenos em descanso fora de suas chácaras familiares tenham de pedir permissão ao proprietário antes de fazer a colheita nas palmeiras de dendê. Alguns desses pequenos proprietários que mantiveram sua independência, conseguiram se adaptar ao novo ambiente. Agricultores entrevistados próximos à aldeia de Nienh, ao sul de onde teve início o primeiro surto do ebola, preferem plantar palmas híbridas em monocultivos com sistema de queimada (prática destinada à limpeza do terreno para o cultivo de plantações ou formação de pastos com uso do fogo de forma controlada) para aumentar a produção de óleo e a renda — e para adquirir o controle privado do recurso e da terra que o sustenta (12).

Uma agricultura semelhante caracteriza o epicentro de Kailahun, na Libéria. Porém, o vizinho meridional de Guiné apresenta uma trajetória diferente na sua consolidação agrícola, que remonta aos primeiros investimentos da Firestone Rubber Company, em 1925, e a uma política pós-bélica de portas abertas à privatização de terras e de setores como o da borracha, da madeira, do minério de ferro e dos diamantes (13). Recentemente, em conjunto com uma tradição nacional mais antiga do trabalho assalariado, as empresas internacionais madeireiras, de mineração e agroindustriais — que englobam as produtoras de óleo de palma como a Sime Darby (Malásia), a Equatorian Palm Oil (Inglaterra) e a Golden Veroleum (Indonésia) — tem se visto envolvidas nas expropriações em grande escala que já atingem um terço do território do país, com concessões planejadas que aumentariam esse total a quase 45% (14). Os planos de desenvolvimento aspiram à regionalização desse modelo (15). O “ponto de acesso” do surto do ebola compreende, em sua totalidade, uma parte da grande região da savana de Guiné, que o Banco Mundial definiu como “uma das maiores reservas agrícolas subutilizadas do mundo” (16).

Estas mudanças agroeconômicas, com toda a sua complexidade, parecem ter um impacto significativo na epizoologia selvagem. A pesquisa detectou uma variedade do morcego da fruta, atraído pelas plantações de palma de dendê (17). Os morcegos migram para os dendezeiros em busca de alimento e abrigo para enfrentar o calor, enquanto as largas trilhas das plantações facilitam o movimento entre os espaços para pousar e os espaços para se alimentar. A colheita nos dendezeiros da região acontece no ano todo, mas o maior impulso ocorre no começo na estação seca, momento no qual os múltiplos surtos do ebola começaram, na região subsaariana (18). É provável que os morcegos da fruta apresentem o mesmo tipo de biogeografia que vemos nas aves aquáticas migratórias, que se alimentam dos grãos remanescentes centenas de quilômetros ao norte de seu destruído hábitat natural (19). Atribui-se a transmissão do ebola na República Democrática do Congo à caça em grande escala durante a migração anual rumo ao alto curso do rio Lulua — caça esta que inclui morcegos cabeça de martelo (Hypsignathus monstrosus) e morcegos frugívoros de Franquet (Epomops franqueti), duas das três espécies que provavelmente funcionam como reservatórios do ebola (20). Os morcegos ocuparam a área do surto por várias semanas, pendurando-se nas frutas e nas palmas.

A caça de animais selvagens para a alimentação não tem motivo para ser uma explicação direta para qualquer surgimento de doenças, porém, o desmatamento — inclusive o causado pelo plantio de palmas de dendê — tem modificado o comportamento alimentar dos morcegos da fruta, que agora direcionam sua atenção aos cultivos hortícolas e, assim, expandem as áreas de contato entre morcegos, humanos e gado (21). À medida em que a selva desaparece, inúmeras espécies de morcegos recorrem à comida e ao refúgio que lhes resta. A caça de animais selvagens para alimentação é um dos meios pelos quais pode ocorrer o contágio, mas só a produção agrícola é um mecanismo eficiente. Em Bangladesh, os morcegos da fruta transmitiram o vírus do Nipah aos humanos urinando nos frutos das palmas que eram cultivadas pelos aldeões (22). Mais de um terço dos entrevistados em Gana já foram mordidos ou arranhados por morcegos, ou já foram expostos à urina deles (23). Num artigo de pesquisa, as estruturas em que os morcegos se penduram foram identificadas como elementos que levam à transmissão indireta de vírus por gotas ou pulverização, e adverte que a exposição contínua “pode levar a uma alta probabilidade de infecção” (24). Inclusive a transmissão mediante caça pode ser relacionada com a agricultura, mas por efeitos secundários. Um pouco antes do surgimento do ebola numa dessas aldeias, havia acontecido uma grande caça de morcegos transmissores do vírus ao longo do rio Lulua, no Congo, entre as palmeiras de uma enorme plantação abandonada que os morcegos vinham visitando havia mais de meio século (25).

Os limites da vacinação

Os primeiros resultados indicam que os pesquisadores desenvolveram uma vacina eficaz contra o ebola makona, uma variação do zaire ebolavírus que ocasionou o surto regional na África Ocidental (26). Um teste realizado em quase 8 mil pessoas concluiu que todos os contatos, e os contatos dos contatos, vacinados imediatamente após a confirmação de um novo caso, não foram infectados. Porém, entre os vacinados 21 dias depois de um caso registrado, houve 16 contágios. São boas notícias, mesmo com a vacina se mostrando menos eficaz em testes clínicos posteriores. As vacinas são uma intervenção sanitária fundamental quando não ficam limitadas por falhas de mercado — falhas que são uma barreira tão eficiente à disponibilidade das tecnologias sanitárias quanto qualquer tipo de campanha antivacina. Diversas fusões e aquisições fizeram com que somente quatro companhias farmacêuticas (GlaxoSmithKline, Sanofi-Pasteur, Merck y Pfizer) possam produzir vacinas para doenças diferentes da gripe — e elas acabam fabricando para mercados desenvolvidos, principalmente. Com pouca concorrência, muitas dessas vacinas têm um preço excessivo e não estão realmente ao alcance dos países mais pobres. O teste da vacina contra o ebola na África Ocidental foi financiado por um esforço não-comercial conjunto entre a Organização Mundial da Saúde, Wellcome Trust, Médicos sem Fronteiras e os governos norueguês e canadense.

Contudo, há um risco. A vacinação baseia-se num modelo molecular da etiologia de uma doença. Para muitos, o descobrimento de uma vacina eficaz significa que esse método é suficiente. Um entusiástico editorial da Nature, por exemplo, afirmava o seu valor:

A extensão da vacina a mais pessoas irá proporcionar dados para confirmar sua eficácia. Mas ao vacinar familiares, amigos, trabalhadores do setor sanitário e outros que possam vir a ter contato com pacientes infectados, os surtos do Ebola poderiam ficar paralisados em seu estágio inicial, com a mesma estratégia que foi utilizada para erradicar a varíola na década de 1970. Isso significa que esta vacina pode, a princípio, distribuir-se imediatamente para ajudar a pôr um fim na epidemia de Ebola na África Ocidental. Como o próprio nome do ensaio já transmite muito claramente em francês “Ebola, ça suffit!” (Ebola, já basta!), é hora de finalizar a tarefa (27).

Porém, talvez não seja tão simples assim. Muitos agentes patógenos não tratáveis por meio de vacina — como o HIV, a malária e a tuberculose — são muito diferentes da varíola e de outras doenças que respondem a esse modelo de intervenção reducionista. Num mundo em que os vírus e as bactérias evoluem em resposta às múltiplas faces das infra estruturas capitalistas — agrícolas, farmacêuticas e políticas, entre outras — talvez nossas dificuldades epistemológicas e epidemiológicas estejam, de fato, relacionadas. Os patógenos sócio-ecologicamente mais complexos podem evoluir a estágios populacionais que poucos pesquisadores conseguem caracterizar (28). As exigências econômicas às quais é submetida a pesquisa científica multiplicam as dificuldades. Os modelos de biologia e a doutrina econômica sob a qual se produz, frequentemente, estão estreitamente relacionados, inclusive em suas formalidades matemáticas (29). Muitos agentes patógenos encontram uma solução à intervenção num nível da organização biocultural com adaptações em outro (30). Como resultado, a evolução dos patógenos não colabora nem com as expectativas de mercado, nem com as hipóteses científicas.

O ebola é um exemplo arquetípico dessa disjunção entre método e fenômeno médico. O vírus zebov, que provocou o surto na África Ocidental, parece ter sido um fenótipo muito comum, se é que podemos dizer isso sobre um patógeno tão perigoso, com taxas específicas de mortalidade, período de incubação e intervalo serial (31). O vírus era transmitido há anos entre animais e humanos da região e, no início, a variante do surto de makona não tinha nenhuma anomalia molecular, com as taxas de substituição de nucleotídeos características dos surtos do ebola em toda a África. Com o tempo, o makona iria se diversificar e adaptar (32). Estes resultados exigem uma explicação para a transformação ecotípica do ebola, de assassino selvagem intermitente, que atacava uma ou outra aldeia, para uma infecção proto-pandêmica, que matou milhares de pessoas na região.

Embora o vírus não tenha mudado muito, essencialmente, a África Ocidental, tem, sim. As transformações no uso da terra na região, realizadas por razões econômicas, parecem ter alterado as matrizes agroeconômicas através das quais a estocasticidade ambiental atuava como freio inerente à força patogênica em toda a população. A expansão da agricultura mercantilizada pode excluir muitos agentes patogênicos por meio do desmatamento e do monocultivo. Todavia, ao eliminar o atrito agroecológico que as diversas geografias funcionais impõem, tal produção poderá também liberar muitos mais, especialmente aqueles que circulam entre os hospedeiros que se adaptam à nova agricultura, como é o caso das aves, dos primatas e dos morcegos. Os sistemas que diminuem o impacto da estocasticidade ambiental sobre o crescimento da população de patógenos têm de suportar custos explosivos quando surgem novas e bem sucedidas variações: calcula-se que as perdas econômicas diretas, causadas pelos casos de ebola na Guiné, Libéria e Serra Leoa, no final de 2014, variam entre os 82 e os 356 milhões de dólares (33).

A estocasticidade ambiental em determinadas áreas pode representar outro valioso serviço ao ecossistema que as agroempresas vem eliminando pelos benefícios no curto prazo, um pedaço de selva de cada vez. Efetivamente, quase todos os surtos de ebola até hoje têm relação com alguma mudança no uso da terra, motivada pelo capital. Por exemplo, a extração de madeira, a mineração e a agricultura, incluindo o primeiro surto registrado, que ocorreu em 1976 em Nzara, Sudão, onde uma fábrica financiada por capital britânico fiava e tecia algodão local (34). No fim da guerra civil do Sudão, em 1972, a área voltou a ter população rapidamente, e boa parte da selva local de Nzara foi eliminada para dar espaço à agricultura de subsistência. Com isso, o algodão voltou a ser predominantemente cultivado na região (35). Na própria fábrica onde foram infectados vários trabalhadores, foram descobertas centenas de morcegos suspensos.

Evidentemente, tais surtos têm uma origem social além das mudanças nas ecologias locais, provocadas pelas ações de certas empresas.Alguns distritos continuam sendo os principais entre os circuitos locais de produção e intercâmbio; outros, produzem exportações agrícolas tradicionais. Mas as selvas e os campos da África Ocidental estão, globalmente, muito mais integrados pelo investimento e acumulação de capital — em grande medida, estrangeiros — que comportam, seja direta ou indiretamente (36). Se os circuitos de capital globalizam os ambientes e, por extensão, os patógenos associados a eles, as origens de uma doença talvez não estejam somente dentro das fronteiras do país em que apareceu o patógeno. (37) A paisagem mais ampla inclui fundos soberanos, empresas públicas, governos, empresas de capital de risco, bancos, fundos de pensão e fundações universitárias que financiaram o desenvolvimento e o desmatamento que conduziram à aparição da emergência. 

As repercussões não são de natureza meramente técnica. A geografia das doenças, que raramente se limitam às fronteiras de um “ponto de acesso”, é relacional. Este novo ponto de vista faz referência às campanhas de saúde pública. A resposta atual ao ebola parece estar baseada, majoritariamente, em operações de segregação de emergência e em amplas intervenções estruturais (38). As respostas de emergência são fundamentais, é claro, mas tal logística pode ser também um meio indireto (embora na maior parte dos casos seja acidental) para evitar abordar os contextos mais amplos que ocasionam a eclosão de doenças.

Notas:
1. Assim, por exemplo, o aumento explosivo da produção de aves domésticas em explorações comerciais da província de Guangdong, o uso extensivo de vacinas em aves domésticas de produção industrial e os laços fortalecidos com o comércio internacional após a reintegração de Hong Kong à China, facilitaram o surto do vírus da gripe aviária H5N1 no sul da China, a partir de 2013. (Robert Wallace et al., “A Statistical Phylogeography of Influenza A h5n1”, Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, vol. 104, núm. 11, marzo de 2007).

2. Estes temas são tratados de maneira mais completa por Robert Wallace e Rodrick Wallace (eds.), Neoliberal Ebola: Modeling Disease Emergence from Finance to Forest and Farm, Suiza, 2016.

3. Danielle Clark et al., “Longterm sequelae after Ebola virus disease in Bundibugyo, Uganda: A retrospective cohort study”, The Lancet Infectious Diseases, vol. 15, núm 8, 2015; Al Quereshi et al., “Study of Ebola Virus Disease Survivors in Guinea”, Clinical Infectious Diseases, 2015; Sara Reardon, “Ebola’s mental-health wounds linger in Africa”, Nature, vol. 519, 2015.

4. Almudena Mari Sáez et al., “Investigating the zoonotic origin of the West African Ebola epidemic”, embo Molecular Medicine, vol. 7, núm. 1, 2015.

5. Barry Hewlett y Richard Amola, “Cultural Contexts of Ebola in Northern Uganda”, Emerging Infectious Diseases, vol. 9, núm. 10, 2003.

6. Randal Schoepp et al., “Undiagnosed acute viral febrile illnesses, Sierra Leone”, Emerging Infectious Diseases, vol. 20, núm. 7, 2014; Gytis Dudas y Andrew Rambaut, “Phylogenetic analysis of Guinea 2014 ebov ebolavirus outbreak”, plos Currents Outbreaks; Stephan Gire et al., “Genomic surveillance elucidates Ebola virus origin and transmission during the 2014 outbreak”, Science, vol. 345, núm. 6202, 2014.

7. Robert Wallace et al., “Did Ebola emerge in West Africa by a policy-driven change in agro-ecology?”, Environment and Planning A, vol. 46, núm. 11, 2015.

8. Daniel Bausch y Lara Schwarz, “Outbreak of Ebola virus disease in Guinea: Where ecology meets economy”, plos Neglected Tropical Diseases, vol. 8, núm. 7, 2014.

9. Christina Noer et al., “Molossid bats in an African agro-ecosystem select sugar cane fields as foraging hábitat”, African Zoology, vol. 47, núm. 1, 2002; Derek Taylor, “Filoviruses are ancient and integrated into mammalian genomes”, bmc Evolutionary Biology, vol. 10, núm. 193, 2010; Christin Stechert et al., “Insecticide residues in bats along a land use-gradient dominated by cotton cultivation in northern Benin, West Africa”, Environmental Science and Pollution Research International, vol. 21, núm. 14, 2014.

10. Durante o surto, uma equipe médica que foi enviada pela SOGUIPAH para educar os moradores locais sobre o ebola e para distribuir cloro, foi recebida com pedras e feita refém (brevemente) em Bigmanou, Yomou, na fronteira com a Libéria; a confiança e o sumiço dela são variáveis eminentemente epidemiológicas: Kovana Saouromou, “Guinée Forestière: De nouvelles réticences à la little contre Ebola à Yomou”, disponível na internet.

11. D. Bausch y L. Schwarz, “Outbreak of Ebola virus disease in Guinea”, cit.

12. Cècile Madelaine et al., “Semi-wild palm groves reveal agricultural change in the forest region of Guinea”, Agroforestry Systems, vol. 73, 2008.

13. Lisa Fouladbash, Agroforestry and shifting cultivation in Liberia: Livelihood impacts, carbon trade-offs, and socio-political obstacles, tesis doctoral, Natural Resources and Environment, Universidad de Michigan.

14. Ruth Evans y Geoffrey Griffiths, Palm Oil, land rights and ecosystem services in Gbarpolu Country, Liberia, Research Note 3, Walker Institute for Climate System Research, Universidad de Reading, junio de 2013; James Murombedzi, “National and transnational land grabs in Africa: Implications for local resource governance”, en Grenville Branes y Brian Child (eds.), Adaptive cross-scalar governance of natural resources, Nueva York, 2012.

15. Bertram Zagema, Land and Power: The Growing Scandal Surrounding the New Wave of Investments in Land, Oxfam Briefing Paper 151, 2011.

16. Michael Morris et al., Awakening Africa’s sleeping giant: Prospects for comercial agriculture in the Guinea Savannah zone and beyond, Washington dc, 2009.

17. Nur Juliani Shafie, “Diversity pattern of bats at two contrasting habitat types along Kerian River, Perak, Malaysia”, Tropical Life Sciences Research, vol. 22, núm. 2, 2011.

18. Ricardo Carrere, Oil Palm in Africa: Past, Present and Future Scenarios, Montevideo, 2010; D. Bausch y L. Schwarz, “Outbreak of Ebola virus disease in Guinea”, cit.

19. Fred Cooke et al., The Snow Geese of La Perouse Bay: Natural Selection in the Wild, Oxford, 1995.

20. Eric Leroy et al., “Human Ebola outbreak resulting from direct exposure to fruit bats in Luebo, Democratic Republic of Congo, 2007”, Vector-Borne and Zoonotic Diseases, vol. 9, núm. 6, 2009.

21. Hume field, “Bats and emerging zoonoses: Henipaviruses and sars”, Zoonoses and Public Health 56, 2004.

22. Stephan Luby et al., “Transmission of human infection with Nipah Virus”, Clinical Infectious Diseases, vol. 49, núm. 11.

23. Priscila Anti et al., “Human-bat interactions in rural West Africa”, Emerging Infectious Diseases, vol. 21, núm. 8, 2015.

24. Raina Plowright et al., “Ecological dynamics of emerging bat virus spill-over”, Proceedings of the Biological Sciences 282, 2015.

25. E. Leroy et al., “Human Ebola outbreak resulting from direct exposure to fruit bats”, cit.

26. Ana Maria Henao-Restrepo et al., “Efficacy and effectiveness of an rvsv-vectored vaccine expressing Ebola Surface glycoprotein: Interim results from the Guinea ring vaccination cluster-randomized trial”, Lancet, vol. 386, núm. 9996, 2015.

27. “Trial and Triumph”, Nature, 5 de agosto de 2015.

28. Marius Gilbert y Dirk Pfeiffer, “Risk factor modelling of the spatio-temporal patterns of highly pathogenic avian influenza (hpaiv) h5ni: A review”, Spatial and Spatio-Temporal Epidemiology, vol. 3, núm. 3, 2012; Robert Wallace et al., “The dawn of Structural One Health: A new science tracking disease emergence along circuits of capital”, Social Science and Medicine, vol. 129, 2015.

29. Richard Levins, “Strategies of abstraction”, Biology and Philosophy, vol. 21, núm. 5, 2006; Dimitrios Schizas, “Systems ecology reloaded: A Critical assessment focusing on the relations between science and ideology”, en Georgios Stamou (ed.), Populations, Biocommunities, Ecosystems: A review of controversies in ecological thinking, Sharjah, 2012.

30. Robert Wallace, “Projecting the impact of haart on the evolution of hiv’s life history”, Ecological Modelling, vol. 176, núm. 3-4, 2004.

31. WHO Ebola Response Team, “Ebola virus disease in West Africa: The first 9 months of the epidemic and forward projections”, New England Journal of Medicine, vol. 371, núm. 16, 2014.

32. Thomas Hoenen et al., “Mutation rate and genotype variation of Ebola virus from Mali case sequences”, Science, vol. 348, núm. 6230, 2015; Étienne Simon-Loriere et al., “Distinct lineages of Ebola virus in Guinea during the 2014 West African epidemic”, Nature, vol. 524, núm. 7563, 2015; Miles Carroll et al., “Temporal and spatial analysis of the 2014-2015 Ebola virus outbreak in West Africa”, Nature, vol. 524, núm. 7563, 2015; Se-Ran Jun et al., “Ebolavirus comparative genomics”, fems Microbiology Reviews, 2015.

33. Sarah Bartsch, “The cost of an Ebola case”, Pathogens and global health, vol. 109, núm. 1, 2015.

34. WHO/International Study Team, “Ebola haemorrhagic fever in Sudan, 1976”, Bulletin of the World Health Organization, vol. 6, 1978.

35. David Roden, “Regional inequality and rebellion in the Sudan”, Geographical Review, vol. 64, núm. 4, 1974; Donald Smith et al., “The Nzara outbreak of viral haemorrhagic fever”, en Stephan Pattyn (ed.), Ebola VirusHaemorrhagic Fever: Proceedings of an International Colloquium on Ebola Virus Infection and Other Hemorrhagic Fevers held in Antwerp, Belgium, 6-8 December, 1977, Ámsterdam, 1978.

36. Luke Bergmann y Mollie Holmberg, “Land in motion”, Annals of the American Association of Geographers, vol. 106, 2016.

37. Com relação a isto, a epidemia de Zika, em 2016, foi específica, mas não atípica. O vírus recebe o nome da floresta de Uganda onde foi detectada pela primeira vez, em 1947 — inicialmente, isolada no mosquito Aedes africanus, e, mais tarde, em seus parentes Aedes aegypti y Aedes albopictus. Se propagou pelo Cinturão Equatorial até o Sudeste Asiático, e depois até a Polinésia Francesa, antes de chegar pelas cidades costeiras do norte do Brasil, em 2015. Nessa ocasião, as redes mundiais de viagens aéreas e de transporte de mercadorias, combinadas com uma série de fatores socioeconômicos, como uma rápida urbanização, saneamento escasso, água parada e tentativas intermitentes de eliminação dos mosquitos, possivelmente contribuíram para a transformação ecotípica de uma variedade do mosquito que os especialistas documentaram como um recém-chegado à região. As mudanças no uso da terra em áreas rurais — boa parte da vegetação nativa da Bahia foi transformada para a produção de soja, algodão e milho, em regime de monocultivo, além dos mais de 60 mil hectares de lavouras com irrigação por pivôs — talvez sejam fatores que contribuíram à sua difusão.

38. Michael Osterholm et al., “Public health in the age of Ebola in West Africa”, jama Internal Medicine, vol. 175, núm. 1, 2015.

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