1 de outubro de 2005

A visão de Marx de desenvolvimento humano sustentável

Uma versão anterior deste artigo foi apresentada na Conferência sobre a Obra de Karl Marx e os Desafios para o Século 21, Havana, Cuba, 6 de maio de 2003.

Paul Burkett



Tradução / Nos países capitalistas desenvolvidos, os debates sobre a economia do socialismo têm se concentrado principalmente nas questões de informação, incentivos e eficiência na alocação de recursos. Esse foco no “cálculo socialista” reflete o contexto principalmente acadêmico dessas discussões. Em contraste, para movimentos anticapitalistas e regimes pós-revolucionários na periferia capitalista, o socialismo como uma forma de desenvolvimento humano tem sido uma preocupação primordial. Um exemplo notável é o trabalho de Ernesto “Che” Guevara sobre “O Homem e o Socialismo em Cuba”, que refutou o argumento de que “o período de construção do socialismo... é caracterizado pela extinção do indivíduo em prol do estado”. Para Che, a revolução socialista é um processo em que “um grande número de pessoas está se desenvolvendo” e “as possibilidades materiais de desenvolvimento integral de cada um de seus membros tornam a tarefa cada vez mais frutífera1”.

Com o agravamento da pobreza e das crises ambientais pelo capitalismo global, o desenvolvimento humano sustentável vem à tona como a questão principal que deve ser engajada por todos os socialistas do século XXI tanto no centro quanto na periferia. É nessa conexão de desenvolvimento humano, argumentarei, que a visão de Marx do comunismo ou socialismo (dois termos que ele usou de forma intercambiável) pode ser mais útil2.

A sugestão de que o comunismo de Marx pode alimentar a luta por formas mais saudáveis, sustentáveis e libertadoras de desenvolvimento humano pode parecer paradoxal à luz de várias críticas ecológicas a Marx que se tornaram tão populares nas últimas décadas. A visão de Marx foi considerada ecologicamente insustentável e indesejável devido ao seu suposto tratamento das condições naturais como efetivamente ilimitadas, e sua suposta adoção, tanto prática quanto ética, do otimismo tecnológico e da dominação humana sobre a natureza.

O conhecido economista ecológico Herman Daly, por exemplo, argumenta que para Marx, “o crescimento econômico determinista materialista é crucial para fornecer a abundância material esmagadora que é a condição objetiva para o surgimento do novo homem socialista. Os limites ambientais para o crescimento seriam contraditórios à ‘necessidade histórica’...”. O problema, diz o teórico político ambiental Robyn Eckersley, é que “Marx endossou totalmente as realizações ‘civilizatórias’ e técnicas das forças de produção capitalistas e absorveu completamente a fé vitoriana no progresso científico e tecnológico como o meio pelo qual os humanos poderiam superar e conquistar a natureza.” Evidentemente, Marx “viu consistentemente a liberdade humana como inversamente relacionada à dependência da humanidade da natureza”. O culturalista ambiental Victor Ferkiss afirma que “Marx e Engels e seus seguidores modernos” compartilhavam uma “adoração virtual da tecnologia moderna”, o que explica por que “eles se juntaram aos liberais na recusa de criticar a constituição tecnológica básica da sociedade moderna”. Outro cientista político ambiental, K. J. Walker, afirma que a visão de Marx da produção comunista não reconhece nenhuma “escassez de recursos naturais” real ou potencial, sendo a “suposição implícita” “que os recursos naturais são efetivamente ilimitados”. O filósofo ambiental Val Routley descreve a visão de Marx do comunismo como um “paraíso automatizado” antiecológico de produção e consumo intensivos em energia e “ambientalmente prejudiciais”, que “parece derivar do pressuposto de dominação da natureza [de Marx]3.”

Um engajamento com essas visões é importante porque elas se tornaram influentes mesmo entre marxistas de mentalidade ecológica, muitos dos quais buscaram paradigmas não marxistas, especialmente o de Karl Polanyi, em busca da orientação ecológica supostamente ausente no marxismo. A subutilização dos elementos de desenvolvimento humano e ecológico da visão comunista de Marx também se reflete na decisão de alguns marxistas de apostar no “esverdeamento” do capitalismo como uma alternativa prática à luta pelo socialismo4.

Consequentemente, interpretarei os vários contornos de Marx da economia e da sociedade pós-capitalistas como uma visão de desenvolvimento humano sustentável. Visto que não há divergências importantes entre Marx e Engels nessa área, também me referirei aos escritos de Engels e às suas obras em coautoria, conforme apropriado. Depois de esboçar as dimensões de desenvolvimento humano na propriedade comunal e na produção associada (não mercantil) na visão de Marx, extraio o aspecto de sustentabilidade desses princípios respondendo às críticas ecológicas mais comuns da projeção de Marx. Concluo reconsiderando brevemente as conexões entre a visão de Marx do comunismo e sua análise do capitalismo, enfocando aquela forma importante de desenvolvimento humano: a luta de classes.

1. Os princípios básicos da organização do comunismo de Marx

Há uma sabedoria convencional de que Marx e Engels, evitando toda “especulação sobre… utopias socialistas”, pensaram muito pouco sobre o sistema que sucederia o capitalismo, e que todo o seu corpo de escritos sobre o assunto é representado pela “Crítica do Programa de Gotha, algumas páginas e não muito mais5”.

Na realidade, as relações econômicas e políticas pós-capitalistas são uma temática recorrente em todas as obras principais, e em muitas das menores, dos fundadores do marxismo e, apesar da natureza dispersa dessas discussões, pode-se facilmente extrair delas uma visão coerente com base em um conjunto claro de princípios de organização. A característica mais básica do comunismo na projeção de Marx é a superação da separação social entre produtores e as condições necessárias de produção no capitalismo. Esta nova união social implica uma “desmercantilização” completa da força de trabalho, junto com um novo conjunto de direitos de propriedade comunal. A produção comunista ou “associada” é planejada e realizada pelos próprios produtores e comunidades, sem os intermediários de classe do trabalho assalariado, do mercado e do Estado. Marx frequentemente motiva e ilustra essas características básicas em termos dos meios e fins primários da produção associada: o desenvolvimento humano livre.

A. A nova união e a propriedade comunal

Para Marx, o capitalismo envolve a “decomposição da união original existente entre o homem trabalhador e seus meios de trabalho”, enquanto o comunismo “restaurará a união original em uma nova forma histórica”. O comunismo é a “reversão histórica” ​​da “separação do trabalho e do trabalhador das condições de trabalho que o confrontam como forças independentes”. Sob o sistema salarial do capitalismo, “os meios de produção empregam os trabalhadores” sob o comunismo, “os trabalhadores, como sujeitos, empregam os meios de produção… a fim de produzir riqueza para si próprios”6.

Esta nova união entre produtores e as condições de produção, como Engels o expressa, “irá emancipar a força de trabalho humana de sua posição como uma mercadoria”. Naturalmente, tal emancipação, na qual os trabalhadores realizam a produção como “trabalhadores unidos” (veja abaixo), “só é possível onde os trabalhadores são os proprietários de seus meios de produção”. Essa propriedade do trabalhador não acarreta, entretanto, os direitos individuais de posse e alienabilidade característicos da propriedade capitalista. Em vez disso, a propriedade comunal dos trabalhadores codifica e impõe a nova união dos produtores coletivos e suas comunidades com as condições de produção. Consequentemente, Marx descreve o comunismo como “substituir a produção capitalista pela produção cooperativa, e a propriedade capitalista por uma forma superior do tipo arcaico de propriedade, ou seja, propriedade comunista7”.

Uma razão pela qual a propriedade comunista em condições de produção não pode ser propriedade privada individual é que esta última “exclui a cooperação, a divisão do trabalho dentro de cada processo separado de produção, o controle e a aplicação produtiva das forças da Natureza pela sociedade, e o livre desenvolvimento dos poderes produtivos sociais”. Em outras palavras, “o trabalhador individual só poderia ser restaurado como um indivíduo à propriedade nas condições de produção, divorciando-se da força produtiva do desenvolvimento do trabalho [alienado] em grande escala.” Conforme afirmado n’A Ideologia Alemã, “a apropriação pelos proletários” é tal que “uma massa de instrumentos de produção deve ser sujeita a cada indivíduo e a propriedade de todos. Uma relação universal moderna não pode ser controlada por indivíduos, a menos que seja controlada por todos... Com a apropriação de todas as forças produtivas pelos indivíduos unidos, a propriedade privada chega ao fim8”.

Além disso, dada a socialização anterior da produção do capitalismo, a propriedade “privada” dos meios de produção já é um tipo de propriedade social, embora seu caráter social seja explorador de classes. Do caráter do capital como “não um poder pessoal, [mas] social” segue-se que, quando “o capital é convertido em propriedade comum, na propriedade de todos os membros da sociedade, a propriedade pessoal não é assim transformada em propriedade social. É apenas o caráter social da propriedade que é alterado. Ele perde seu caráter de classe9”.

A visão de Marx, portanto, envolve uma “reconversão do capital em propriedade dos produtores, embora não mais como propriedade privada dos produtores individuais, mas sim como propriedade de produtores associados, como propriedade social total”. A propriedade comunista é coletiva na medida em que “as condições materiais de produção são propriedade cooperativa dos trabalhadores” como um todo, não de indivíduos particulares ou subgrupos de indivíduos. Como afirma Engels: “Os ‘trabalhadores’ continuam a ser os proprietários coletivos das casas, fábricas e instrumentos de trabalho e dificilmente permitirão a sua utilização… por indivíduos ou associações sem compensação pelos custos”. O planejamento coletivo e a administração da produção social requerem que não apenas os meios de produção, mas também a distribuição do produto total, estejam sujeitos ao controle social explícito. Com a produção associada, “é possível assegurar a cada pessoa ‘todos os rendimentos de seu trabalho’… somente se [esta frase] não signifique que cada trabalhador individual se torne o possuidor de ‘todos os rendimentos de seu trabalho’, mas que toda a sociedade, consistindo inteiramente de trabalhadores, torna-se possuidora do produto total de seu trabalho, produto esse que é parcialmente distribuído entre seus membros para consumo, parcialmente usado para substituir e aumentar seus meios de produção e parcialmente armazenado como um fundo de reserva para produção e consumo”. As duas últimas “deduções dos… rendimentos do trabalho são uma necessidade econômica”, elas representam “formas de trabalho excedente e produto excedente… que são comuns a todos os modos sociais de produção”. Outras deduções são necessárias para “custos gerais de administração”, para “a satisfação comum das necessidades, como escolas, serviços de saúde, etc.” e para “fundos que servirão para os que não podem trabalhar”. Só então “chegamos… àquela parte dos meios de consumo que é dividida entre os produtores individuais da sociedade cooperativa10”.

No entanto, a socialização explícita das condições e resultados da produção do comunismo não deve ser confundida com uma ausência completa de direitos de propriedade individuais. Embora a propriedade comunal “não restabeleça a propriedade privada para o produtor”, ainda assim “dá a ele propriedade individual com base nas aquisições da era capitalista: isto é, na cooperação e na posse comum da terra e dos meios de produção”. Marx postula que “a propriedade alienada do capitalista… só pode ser abolida pela conversão de sua propriedade em propriedade… do indivíduo social associado.” Ele até sugere que o comunismo “fará da propriedade individual uma verdade, transformando os meios de produção… agora principalmente os meios de escravizar e explorar o trabalho, em meros instrumentos de trabalho livre e associado11”.

Essas declarações são frequentemente interpretadas como meros floreios retóricos, mas se tornam mais explicáveis ​​quando vistas no contexto do imperativo primordial do comunismo: o livre desenvolvimento dos seres humanos individuais como indivíduos sociais. Marx e Engels descrevem “a comunidade de proletários revolucionários” como uma “associação de indivíduos… que coloca as condições de livre desenvolvimento e movimento dos indivíduos sob seu controle — condições que antes eram deixadas ao acaso e adquiriram uma existência independente em oposição aos indivíduos separados”. Em outras palavras, “a realização integral do indivíduo só deixará de ser concebida como um ideal… quando o impacto do mundo que estimula o real desenvolvimento das habilidades do indivíduo estiver sob o controle dos próprios indivíduos, como é o desejo dos comunistas”. Em sociedades de exploração de classes, “a liberdade pessoal existe apenas para os indivíduos que se desenvolveram sob as condições da classe dominante”, mas sob a “comunidade real” do comunismo, “os indivíduos obtêm sua liberdade em e por meio de sua associação”. Em vez de oportunidades para o desenvolvimento individual serem obtidas principalmente às custas dos outros, como nas sociedades de classes, a futura “comunidade” fornecerá “cada indivíduo [com] os meios para cultivar seus dons em todas as direções; portanto, a liberdade pessoal só se torna possível dentro da comunidade”12.

Em suma, a propriedade comunal é individual na medida em que afirma a reivindicação de cada pessoa, como membro da sociedade, de acesso às condições e resultados da produção como um canal para seu desenvolvimento como um indivíduo “a quem as diferentes funções sociais que desempenha são apenas muitos modos de dar livre alcance aos seus próprios poderes naturais e adquiridos”. Só assim o comunismo pode substituir “a velha sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classe”, por “uma associação, na qual o livre desenvolvimento de cada um é condição para o livre desenvolvimento de todos13”.

A maneira mais básica pela qual o comunismo de Marx promove o desenvolvimento humano individual é protegendo o direito do indivíduo a uma participação no produto total (líquido das deduções acima mencionadas) para seu consumo privado. O Manifesto é inequívoco neste ponto: “O comunismo não priva ninguém do poder de se apropriar dos produtos da sociedade; tudo o que ele faz é privá-lo do poder de subjugar o trabalho de outros por meio da tal apropriação”. Nesse sentido, observa Engels, “a propriedade social se estende à terra e aos demais meios de produção, e a propriedade privada aos produtos, ou seja, aos artigos de produção”. Uma descrição equivalente da “comunidade de indivíduos livres” é dada no volume 1 d’O Capital: “O produto total de nossa comunidade é um produto social. Uma parte serve como novo meio de produção e permanece social. Mas outra parte é consumida pelos membros da sociedade como meio de subsistência” 14.

Tudo isso, é claro, levanta a questão de como a distribuição das reivindicações de consumo individual dos trabalhadores será determinada. N’O Capital, Marx prevê que “o modo dessa distribuição variará segundo a organização produtiva da comunidade e com o grau de desenvolvimento histórico alcançado pelos produtores”. Ele sugere (“apenas por uma questão de paralelo com a produção de mercadorias”) que uma possibilidade seria “a participação de cada produtor individual nos meios de subsistência” a ser “determinada por seu tempo de trabalho”. Na Crítica do Programa de Gotha, a concepção do tempo de trabalho como determinante dos direitos individuais de consumo é menos ambígua, pelo menos para “a primeira fase da sociedade comunista como é quando ela acaba de emergir após prolongadas dores de parto da sociedade capitalista”. Aqui, Marx francamente afirma que:

o produtor individual recebe de volta da sociedade — após as deduções terem sido feitas — exatamente o que ele lhe dá. O que ele lhe deu é a sua quantidade individual de trabalho… O tempo de trabalho individual do produtor individual é a parte da jornada social de trabalho com que ele contribuiu, é sua parte nele. Ele recebe um certificado da sociedade que forneceu tal e tal quantidade de trabalho (depois de deduzir seu trabalho para o fundo comum), e com este certificado ele tira do estoque social dos meios de consumo tanto quanto a mesma quantidade do custo do trabalho. A mesma quantidade de trabalho que ele deu à sociedade de uma forma, ele recebe de volta em outra.

O raciocínio básico por trás das reivindicações de consumo baseado no trabalho é que “a distribuição dos meios de consumo em qualquer momento é apenas uma consequência da distribuição das próprias condições de produção”15. Dado que as condições de produção são propriedade dos produtores, é lógico que a distribuição das reivindicações de consumo estará mais intimamente ligada ao tempo de trabalho do que sob o capitalismo, onde é o dinheiro que governa. Este padrão de tempo de trabalho levanta questões sociais e técnicas importantes que não podem ser tratadas aqui — especialmente se e como os diferenciais na intensidade do trabalho, condições de trabalho e habilidades seriam medidos e compensados16.

No entanto, o que Marx enfatiza é que, na medida em que o padrão de tempo de trabalho individual meramente codifica a ética da troca igual, independentemente das conotações para o desenvolvimento individual, ele ainda está infectado pelo “horizonte estreito do direito burguês”. Marx, portanto, sugere que “em uma fase superior da sociedade comunista”, as reivindicações de consumo individual baseadas no trabalho podem e devem “ser totalmente deixadas para trás e a sociedade escreva em suas bandeiras: de cada um de acordo com sua capacidade, a cada um de acordo com sua necessidade!” É nesta fase superior que o “modo de distribuição do comunismo… permite que todos os membros da sociedade desenvolvam, mantenham e exerçam suas capacidades em todas as direções possíveis”. Aqui, “o consumo individual do trabalhador” torna-se aquilo que “exige o pleno desenvolvimento da individualidade” 17.

Mesmo na fase inferior do comunismo, os meios de desenvolvimento individual assegurados pela propriedade comunal não se limitam às reivindicações de consumo privado dos indivíduos. O desenvolvimento humano também se beneficiará da expansão dos serviços sociais (educação, saúde, serviços públicos e pensões para idosos) que são financiados por deduções do produto total antes de sua distribuição entre os indivíduos. Portanto, “aquilo de que o produtor é privado na sua qualidade de indivíduo privado o beneficia direta ou indiretamente na sua qualidade de membro da sociedade.” Tal consumo social será, na opinião de Marx, “consideravelmente aumentado em comparação com a sociedade atual e aumenta na proporção que a nova sociedade se desenvolve”18.

Por exemplo, Marx prevê uma expansão das “escolas técnicas (teóricas e práticas) em combinação com o ensino fundamental”. Ele projeta que “quando a classe trabalhadora chegar ao poder, como inevitavelmente deve acontecer, a instrução técnica, tanto teórica quanto prática, terá seu devido lugar nas escolas da classe trabalhadora”. Marx até sugere que os membros mais jovens da sociedade comunista experimentarão “uma combinação precoce de trabalho produtivo com educação” — presumindo, é claro, “uma regulamentação estrita do tempo de trabalho de acordo com os diferentes grupos de idade e outras medidas de segurança para a proteção de crianças.” A ideia básica aqui é que “o fato de o grupo coletivo de trabalho ser composto por indivíduos de ambos os sexos e idades, deve necessariamente, em condições adequadas, tornar-se uma fonte de desenvolvimento humano”. Outra função relacionada da educação teórica e prática “na República do Trabalho” será “converter a ciência de um instrumento de governo de classe em uma força popular” e, assim, “converter os próprios homens de ciência, de bajuladores do preconceito de classe, parasitas do estado e aliados do capital, em agentes livres do pensamento”19.

Junto com a expansão do consumo social, a “redução da jornada de trabalho” do comunismo facilitará o desenvolvimento humano, dando aos indivíduos mais tempo livre para desfrutar das “vantagens materiais e intelectuais … do desenvolvimento social.” O tempo livre é “tempo … para o desenvolvimento livre, intelectual e social, do indivíduo.” Como tal, “o tempo livre, tempo disponível, é a própria riqueza, em parte para o desfrute do produto, em parte para a atividade livre que — ao contrário do trabalho — não é dominada pela pressão de um propósito externo que deve ser cumprido, e o cumprimento de que é considerada uma necessidade natural ou um dever social”. Assim, com o comunismo “a medida da riqueza … não é mais, de forma alguma, o tempo de trabalho, mas sim o tempo disponível”. No entanto, uma vez que o trabalho é sempre, junto com a natureza, uma “substância de riqueza” fundamental, o tempo de trabalho é uma “medida importante do custo de produção [da riqueza] … mesmo se o valor de troca for eliminado20”.

Naturalmente, a sociedade comunista atribuirá certas responsabilidades aos indivíduos. Mesmo que o tempo livre vá se expandir, os indivíduos ainda terão a responsabilidade de se envolver em trabalho produtivo (incluindo criação de filhos e outras atividades de cuidado), desde que sejam física e mentalmente capazes de fazê-lo. Sob o capitalismo e outras sociedades de classes, “uma classe específica” tem “o poder de transferir a carga natural de trabalho de seus próprios ombros para os de outra camada da sociedade”. Mas sob o comunismo, “com o trabalho emancipado, todo homem se torna um homem trabalhador, e o trabalho produtivo deixa de ser um atributo de classe”. O autodesenvolvimento individual também não é apenas um direito, mas uma responsabilidade sob o comunismo. Consequentemente, “os trabalhadores afirmam em sua propaganda comunista que a vocação, o chamado, a tarefa de cada pessoa é alcançar o desenvolvimento integral de suas habilidades, incluindo, por exemplo, a capacidade de pensar21.”

É importante reconhecer a conexão bidirecional entre o desenvolvimento humano e as forças produtivas, na visão de Marx. Essa conexão não é surpreendente, visto que Marx sempre tratou “o próprio ser humano” como “a principal força de produção”. E ele sempre viu “forças de produção e relações sociais” como “dois lados diferentes do desenvolvimento do indivíduo social.” Consequentemente, o comunismo pode representar uma união real de todos os produtores individuais com as condições de produção apenas se garantir o direito de cada indivíduo de participar ao máximo de sua capacidade na utilização cooperativa e no desenvolvimento dessas condições. O caráter altamente socializado da produção significa que “os indivíduos devem se apropriar da totalidade existente das forças produtivas, não apenas para alcançar a atividade própria, mas, também, apenas para salvaguardar sua própria existência.” Para ser um veículo eficaz de desenvolvimento humano, esta apropriação não deve reduzir os indivíduos a engrenagens minúsculas e intercambiáveis ​​em uma máquina de produção coletiva gigante operando fora de seu controle em uma busca alienada da “produção pela produção”. Em vez disso, deve aumentar “o desenvolvimento das forças produtivas humanas” capazes de compreender e controlar a produção social no nível humano em linha com “o desenvolvimento da riqueza da natureza humana como um fim em si mesma”. Embora a “apropriação comunista [tenha] um caráter universal correspondendo… às forças produtivas”, ela também promove “o desenvolvimento das capacidades individuais correspondentes aos instrumentos materiais de produção”. Porque esses instrumentos “foram desenvolvidos para uma totalidade e… só existem dentro de uma relação universal”, sua apropriação efetiva requer “o desenvolvimento de uma totalidade de capacidades nos próprios indivíduos.” Em suma, “o desenvolvimento genuíno e livre dos indivíduos” sob o comunismo é tanto possibilitado como contribui para “o caráter universal da atividade dos indivíduos com base nas forças produtivas existentes22.”

B. Produção planejada, não comercial

Na visão de Marx, um sistema administrado por produtores livremente associados e suas comunidades, socialmente unificado com as condições necessárias de produção, por definição exclui a troca de mercadorias e o dinheiro como formas primárias de reprodução social. Junto com a descomoditização da força de trabalho vem uma “produção socializada” explicitamente, na qual a “sociedade” — não os capitalistas e trabalhadores assalariados respondendo aos sinais do mercado — “distribui a força de trabalho e os meios de produção aos diferentes ramos de produção.” Como resultado, “o capital monetário” (incluindo o pagamento de salários) “é eliminado.” Durante a fase inferior do comunismo, “os produtores podem… receber vouchers de papel que lhes dão direito a retirar do fornecimento social de bens de consumo uma quantidade correspondente ao seu tempo de trabalho”, mas “esses vouchers não são dinheiro. Eles não circulam”. Em outras palavras, “a futura distribuição do necessário para a vida” não pode ser tratada “como uma espécie de salário mais elevado23”.

Para Marx, o domínio da produção social pelo mercado é específico de uma situação em que a produção é realizada em unidades de produção organizadas de forma independente com base na separação social dos produtores das condições necessárias de produção. Aqui, o trabalho despendido nas empresas mutuamente autônomas (capitais concorrentes, como Marx os chama) só pode ser validado como parte da divisão reprodutiva do trabalho da sociedade ex post, de acordo com os preços que seus produtos alcançam no mercado. Em suma, “as mercadorias são produtos diretos de tipos de trabalho individuais independentes e isolados” e não podem ser diretamente “comparadas entre si como produtos do trabalho social”, portanto, “por meio de sua alienação no curso da troca individual, eles devem provar que são trabalho social geral24”.

Em contraste, “tempo de trabalho comunitário ou tempo de trabalho de indivíduos diretamente associados… é imediatamente tempo de trabalho social”. E “onde o trabalho é comunitário, as relações dos homens em sua produção social não se manifestam como ‘valores ’ das ‘coisas ’”:

Numa sociedade cooperativa baseada na propriedade comum dos meios de produção, os produtores não trocam seus produtos; tão pouco o trabalho empregado nos produtos aparece aqui como o valor desses produtos, como uma qualidade material possuída por eles, visto que agora, em contraste com a sociedade capitalista, o trabalho individual não existe mais de forma indireta, mas diretamente como uma parte componente do trabalho total25.

O livro Grundrisse traça um contraste mais amplo entre o estabelecimento indireto ex post do trabalho como trabalho social sob o capitalismo, e a socialização direta ex ante do trabalho “com base na apropriação e controle comuns dos meios de produção”:

O caráter comunal da produção transformaria o produto em um produto comum e geral desde o início. A troca que ocorre originalmente na produção — que não seria uma troca de valores de troca, mas de atividades, determinadas pelas necessidades comunitárias e objetivos comunitários — incluiria desde o início a participação do indivíduo no mundo comunal dos produtos. Com base nos valores de troca, o trabalho é considerado geral apenas por meio da troca. Mas, com base nisso, ele seria posto como tal antes da troca; isto é, a troca de produtos não seria de forma alguma o meio pelo qual a participação do indivíduo na produção geral é mediada. É claro que a mediação deve ocorrer. No primeiro caso, que vem da produção independente dos indivíduos… as mediações acontecem pela troca de mercadorias, pelos valores de troca e pelo dinheiro… No segundo caso, o próprio pressuposto é mediado; ou seja, uma produção comunal, comunalidade, é pressuposta como a base da produção. O trabalho do indivíduo é posto desde o início como trabalho social… O produto não precisa primeiro ser transposto para uma forma particular a fim de atingir um caráter geral para o indivíduo. Em vez de uma divisão do trabalho, tal como é necessariamente criada com a troca de valores de troca, haveria uma organização do trabalho cuja consequência seria a participação do indivíduo no consumo comunal26.

O caráter imediatamente social do trabalho e dos produtos é, portanto, uma consequência lógica da nova união comunal entre os produtores e as condições necessárias de produção. Essa desalienação da produção nega a necessidade de os produtores se envolverem em trocas monetárias como meio de estabelecer uma alocação reprodutiva de seu trabalho:

A própria necessidade de primeiro transformar produtos ou atividades individuais em valor de troca, em dinheiro, para que obtenham e demonstrem seu poder social nesta forma objetiva, prova duas coisas: (1) que os indivíduos agora produzem apenas para a sociedade e na sociedade; (2) que a produção não é diretamente social, não é “fruto da associação”, que distribui trabalho internamente. Os indivíduos são incluídos na produção social; a produção social existe fora deles como seu destino; mas a produção social não está subsumida aos indivíduos, administrável por eles como sua riqueza comum27.

Que contornar as trocas de mercado e superar a alienação dos trabalhadores da produção são dois aspectos do mesmo fenômeno, explica por que, pelo menos em uma instância, Marx define o comunismo simplesmente como “dissolução do modo de produção e da forma de sociedade baseada no valor de troca. Posicionamento real do trabalho individual como social e vice-versa”. O “trabalho diretamente associado...” no comunismo, “é totalmente inconsistente com a produção de mercadorias28”.

Conforme observado anteriormente, os debates acadêmicos sobre a “economia do socialismo” tendem a se concentrar em questões técnicas de eficiência alocativa (“cálculo socialista”). Os próprios Marx e Engels frequentemente argumentaram que a economia pós-capitalista desfrutaria de planejamento e capacidades de alocação superiores em comparação com o capitalismo. N’O Capital, Marx descreve a produção “livremente associada” como “regulada conscientemente… de acordo com um plano estabelecido.” Com “os meios de produção em comum…, a força de trabalho de todos os diferentes indivíduos é conscientemente aplicada como a força de trabalho combinada da comunidade… de acordo com um plano social definido [que] mantém a proporção adequada entre os diferentes tipos de trabalho a ser feito e as várias necessidades da comunidade”. N’A Guerra Civil na França , Marx projeta que as “sociedades cooperativas unidas” irão “regular a produção nacional sob um plano comum, tomando-a assim sob seu próprio controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas que são a fatalidade da produção capitalista29”.

No entanto, Marx e Engels não trataram a alocação planejada de recursos como o fator mais fundamental para distinguir o comunismo do capitalismo. Para eles, a característica mais básica do comunismo é sua desalienação das condições de produção vis-à-vis os produtores e o efeito capacitador que essa nova união teria sobre o desenvolvimento humano livre. Dito de outra forma, eles trataram o planejamento do comunismo e as capacidades de alocação como sintomas e instrumentos dos impulsos de desenvolvimento humano desencadeados pela nova comunalidade dos produtores e suas condições de existência. A descomoditização da produção pelo comunismo é, como discutido acima, o outro lado da desalienação das condições de produção. O planejamento da produção é apenas a forma alocativa dessa redução das capacidades humanas devido às suas condições materiais e sociais de existência. Como diz Marx, a troca de mercadorias é apenas “o vínculo natural para os indivíduos dentro de relações de produção limitadas específicas” e o “caráter alienado e independente” em que esse vínculo “existe vis-à-vis os indivíduos prova apenas que estes ainda estão engajados na criação das condições de sua vida social, e que ainda não começaram, com base nessas condições, a vivê-la”. Portanto, a razão do comunismo ser “uma sociedade organizada para um trabalho cooperativo em uma base planejada” não é para buscar a eficiência produtiva para si mesmo, mas sim “para garantir a todos os membros da sociedade os meios de existência e o pleno desenvolvimento de suas capacidades”. Essa dimensão do desenvolvimento humano também ajuda a explicar por que o “trabalho cooperativo… desenvolvido para dimensões nacionais” do comunismo não é, na projeção de Marx, governado por qualquer poder estatal centralizado; em vez disso, “o sistema começa com o autogoverno das comunidades”. Nesse sentido, o comunismo pode ser definido como “o povo agindo para si e por si mesmo” ou “a reabsorção do poder do Estado pela sociedade como suas próprias forças vivas, em vez de forças que a controlam e a subjugam30”.

2. Comunismo, Ecologia e Sustentabilidade de Marx

Muitos questionaram a praticidade econômica do comunismo como projetado por Marx. Poucos abordaram a dimensão do desenvolvimento humano da visão de Marx, sendo uma grande exceção aqueles críticos que argumentam que ela ancora o desenvolvimento humano livre na dominação tecnológica humana e no abuso da natureza, com os recursos naturais vistos como efetivamente ilimitados. É útil abordar essa dimensão ambiental em três níveis: (1) a responsabilidade do comunismo em administrar o uso das condições naturais; (2) a importância ecológica do tempo livre expandido; (3) o crescimento da riqueza e o uso do tempo de trabalho como medida do custo de produção.

A. Gerenciando os Comuns Comunalmente

Que a sociedade comunista possa ter um forte compromisso de proteger e melhorar as condições naturais pode parecer surpreendente, dada a sabedoria convencional de que Marx presumia que os “recursos naturais” eram “inesgotáveis” e, portanto, não via necessidade de “um socialismo que preservasse o meio ambiente, ecologicamente consciente, e com compartilhamento de emprego [employment-sharing]”. Marx evidentemente presumiu que “recursos escassos (petróleo, peixe, minério de ferro, meias, ou o que quer que seja)… não seriam escassos” sob o comunismo. A sabedoria convencional argumenta ainda que a “fé de Marx na capacidade de um modo de produção aprimorado para erradicar a escassez indefinidamente” significa que sua visão comunista não fornece “nenhuma base para reconhecer qualquer interesse na libertação da natureza” da “dominação humana” antiecológica. É dito que o otimismo tecnológico de Marx — sua “fé na dialética criativa” — descarta qualquer preocupação com a possibilidade de que “a tecnologia moderna interagindo com o ambiente físico da terra possa desequilibrar toda a base da civilização industrial moderna.”

Na realidade, Marx estava profundamente preocupado com a tendência do capitalismo de “minar as fontes originais de toda a riqueza: o solo e o trabalhador”. E ele enfatizou repetidamente o imperativo para a sociedade pós-capitalista de administrar seu uso das condições naturais de forma responsável. Isso ajuda a explicar sua insistência na extensão da propriedade comunal à terra e outras “fontes de vida”. Na verdade, Marx criticou fortemente o Programa de Gotha por não deixar “suficientemente claro que a terra está incluída nos instrumentos de trabalho” neste contexto. Na visão de Marx, a “Associação, aplicada à terra,… restabelece, agora de forma racional, não mais mediada pela servidão, soberania e o tolo misticismo da propriedade [privada], os laços íntimos do homem com a terra, já que a terra deixa de ser objeto de barganha”. Tal como acontece com outros meios de produção, esta “propriedade comum” da terra “não significa a restauração da antiga propriedade comum original, mas a instituição de uma forma de posse em comum muito mais elevada e desenvolvida32”.

Marx não vê essa propriedade comunal conferindo o direito de superexplorar a terra e outras condições naturais para atender às necessidades de produção e consumo dos produtores associados. Em vez disso, ele prevê um eclipse das noções capitalistas de propriedade da terra por um sistema comunitário de direitos e responsabilidades do usuário:

Do ponto de vista de uma forma econômica superior de sociedade, a propriedade privada do globo por indivíduos únicos parecerá tão absurda quanto a propriedade privada de um homem por outro. Mesmo uma sociedade inteira, uma nação, ou mesmo todas as sociedades existentes simultaneamente em conjunto, não são os donos do globo. Eles são apenas seus possuidores, seus usufrutuários e, como boni patres famílias, devem transmiti-lo às gerações seguintes em uma condição melhor23.

A projeção de Marx da propriedade fundiária comunal claramente não conota um direito dos “proprietários” (tanto os indivíduos quanto a sociedade como um todo) ao uso irrestrito com base na “posse”. Em vez disso, como toda propriedade comunal na nova união, confere o direito de utilizar responsavelmente a terra como uma condição de desenvolvimento humano livre e, na verdade, como uma fonte básica (junto com o trabalho) de “toda a gama de necessidades permanentes de vida exigidas pela cadeia de gerações sucessivas”. Como diz Marx, a associação trata “o solo como propriedade comunal eterna, condição inalienável para a existência e reprodução de uma cadeia de gerações sucessivas da raça humana34”.

Por que os críticos ecológicos perderam esse elemento crucial da visão de Marx? A resposta pode estar na influência contínua dos chamados modelos de “tragédia dos comuns”, que (erroneamente) identificam a propriedade comum com o “acesso aberto” descontrolado aos recursos naturais por usuários independentes. Na realidade, a dinâmica postulada por esses modelos tem mais em comum com a anarquia da competição capitalista do que com a visão de Marx dos direitos e responsabilidades comunais em relação ao uso das condições naturais. De fato, a capacidade dos sistemas tradicionais de propriedade comunal de utilizar de forma sustentável os recursos de uso comum tem sido objeto de um crescente corpo de pesquisas nos últimos anos. Esta pesquisa, sem dúvida, apoia o potencial de gestão ecológica por meio de uma “comunalização” das condições naturais na sociedade pós-capitalista35.

A ênfase de Marx na responsabilidade da sociedade futura para com a terra segue de sua projeção da unidade inerente da humanidade e da natureza sendo realizada tanto consciente quanto socialmente sob o comunismo. Para Marx e Engels, as pessoas e a natureza não são “duas ‘coisas’ separadas”, portanto, eles falam da humanidade tendo “uma natureza histórica e uma história natural”. Eles observam como a natureza extra-humana foi grandemente alterada pela produção e desenvolvimento humanos, de modo que “a natureza que precedeu a história humana… hoje não existe mais”, mas também reconhecem a importância contínua dos “instrumentos naturais de produção” por cujo uso “os indivíduos são subservientes à natureza”. O comunismo, longe de romper ou tentar superar a unidade necessária das pessoas e da natureza, torna esta unidade mais transparente e a coloca a serviço de um desenvolvimento sustentável das pessoas como seres naturais e sociais. Engels, portanto, visualiza a sociedade futura como uma na qual as pessoas “não apenas sentirão, mas também conhecerão sua unidade com a natureza”. Marx chega a definir o comunismo como “a unidade do ser do homem com a natureza36”.

Naturalmente, ainda será necessário para a sociedade comunista “lutar com a Natureza para satisfazer [seus] desejos, para manter e reproduzir a vida”. Marx, portanto, se refere “aos produtores associados regulando racionalmente seu intercâmbio com a natureza, colocando-a sob seu controle comum”. Tal regulação racional ou “real domínio consciente da Natureza” presume que os produtores “se tornaram donos de sua própria organização social37”. Mas não presume que a humanidade superou todos os limites naturais; nem presume que os produtores tenham alcançado o controle tecnológico completo sobre as forças naturais.

Por exemplo, Marx vê os produtores associados reservando uma parte do produto excedente como uma “reserva ou fundo de seguro para fornecer contra desventuras, distúrbios por meio de eventos naturais, etc.” especialmente na agricultura. As incertezas relacionadas com as condições naturais de produção (“destruição causada por fenômenos extraordinários da natureza, incêndio, inundação, etc.”) devem ser tratadas por meio de “uma superprodução relativa contínua”, ou seja, “produção em maior escala do que o necessário para a simples substituição e reprodução da riqueza existente”. Mais especificamente, “Deve haver, por um lado, uma certa quantidade de capital fixo produzido além do que é diretamente necessário; por outro lado, e particularmente, deve haver um suprimento de matérias-primas, etc., além das necessidades anuais diretas (isso se aplica especialmente aos meios de subsistência)”. Marx também prevê um “cálculo de probabilidades” para ajudar a garantir que a sociedade “esteja de posse dos meios de produção necessários para compensar a destruição extraordinária causada por acidentes e forças naturais38”.

Obviamente, “esse tipo de superprodução equivale ao controle da sociedade sobre os meios materiais de sua própria reprodução” apenas no sentido de uma regulação previdente dos intercâmbios produtivos entre a sociedade e as condições naturais incontroláveis. É nesse sentido prudencial que Marx prevê que os produtores associados “dirijam a produção desde o início, de modo que o suprimento anual de grãos dependa apenas minimamente das variações do clima; a esfera da produção — os aspectos de fornecimento e uso — é racionalmente regulada.” É simplesmente sensato que “os próprios produtores… gastem uma parte de seu trabalho, ou dos produtos de seu trabalho, para assegurar seus produtos, sua riqueza ou os elementos de sua riqueza, contra acidentes, etc.” “Dentro da sociedade capitalista”, ao contrário, as condições naturais incontroláveis ​​conferem um “elemento de anarquia” desnecessário à reprodução social39.

Contradizendo seus críticos ecológicos, Marx e Engels simplesmente não identificam o desenvolvimento humano livre com uma dominação humana unilateral ou controle da natureza. De acordo com Engels,

A liberdade não consiste no sonho da independência das leis naturais, mas no conhecimento dessas leis e na possibilidade que isso dá de fazê-las sistematicamente trabalharem para fins definidos. Isso é válido tanto em relação às leis da natureza externa quanto àquelas que governam a existência física e mental dos próprios homens — duas classes de leis que podemos separar uma da outra, no máximo, apenas em pensamento, mas não na realidade... Liberdade, portanto consiste no controle sobre nós mesmos e sobre a natureza externa que se baseia na necessidade natural.

Em suma, Marx e Engels imaginam uma “verdadeira liberdade humana” baseada em “uma existência em harmonia com as leis estabelecidas da natureza40”.

B. Tempo Livre Expandido e Desenvolvimento Humano Sustentável

Os críticos ecológicos de Marx frequentemente argumentam que sua visão de tempo livre expandido sob o comunismo é antiecológica porque incorpora uma ética de autorrealização humana por meio da superação de restrições naturais. Routley, por exemplo, sugere que Marx adota “a visão do trabalho de subsistência [bread labor] como necessariamente alienado e, portanto, como algo a ser reduzido a um mínimo absoluto por meio da automação. O resultado deve ser altamente intensivo em energia e, portanto, dado qualquer cenário de energia realista e previsível, prejudicial ao meio ambiente”. Para Marx, evidentemente, “é o fato de que o trabalho de subsistência vincula o homem à natureza que torna impossível que ele expresse o que é verdadeira e plenamente humano; assim, é apenas quando o homem supera a necessidade de gastar tempo com trabalho de subsistência que ele ou ela pode ser considerado como tendo dominado a natureza e se tornado totalmente humano”. Menos dramaticamente, Walker aponta para uma tensão entre a visão de Marx de expandir o tempo livre, que “claramente implica que deve haver recursos além daqueles necessários para um mínimo de sobrevivência”, e a suposta falha de Marx em “mencionar… limitações na disponibilidade natural recursos41”.

A discussão anterior já fez muito para dissipar as noções de que Marx e Engels não estavam preocupados com o manejo dos recursos naturais sob o comunismo e que previram uma separação progressiva do desenvolvimento humano da natureza como tal. No entanto, também deve ser apontado que os críticos ecológicos caracterizaram erroneamente a relação entre tempo livre e tempo de trabalho no comunismo. É verdade que, para Marx, o “desenvolvimento da energia humana que é um fim em si mesmo… está além da esfera real da produção material”, isto é, além do “trabalho que é determinado pela necessidade e por considerações mundanas”. Mas para Marx, este “verdadeiro reino da liberdade… pode florescer apenas com [o] reino da necessidade como sua base,” e a relação entre os dois reinos não é de forma alguma uma simples oposição, como alegado pelos críticos ecológicos. Como diz Marx, o “caráter bastante diferente… livre” do trabalho diretamente associado, onde “o tempo de trabalho é reduzido a uma duração normal e, além disso, o trabalho não é mais [do ponto de vista dos produtores como um todo] realizado para um outro alguém”, significa que “o próprio tempo de trabalho não pode permanecer na antítese abstrata do tempo livre em que aparece da perspectiva da economia burguesa”:

O tempo livre — que é tanto tempo ocioso quanto tempo para atividades superiores — naturalmente transformou seu possuidor em um sujeito diferente, e ele então entra no processo de produção direta como esse sujeito diferente. Esse processo é, então, ao mesmo tempo, disciplina, no que diz respeito ao ser humano em processo de devir; e, ao mesmo tempo, prática, ciência experimental, ciência materialmente criativa e objetivadora, no que diz respeito ao ser humano que se tornou, em cuja cabeça está o conhecimento acumulado da sociedade42.

Na visão de Marx, o aumento do desenvolvimento humano livre por meio de reduções no tempo de trabalho ressoa positivamente com o desenvolvimento das capacidades humanas no reino da produção, que ainda aparece como um “metabolismo” da sociedade e da natureza. As ênfases de Marx na educação “teórica e prática” e na desalienação da ciência vis-à-vis os produtores são bastante relevantes neste contexto. Marx vê a difusão e o desenvolvimento do conhecimento científico pelo comunismo tomando a forma de novas combinações das ciências naturais e sociais, observando que

a ciência natural... se tornará a base da ciência humana, como já se tornou a base da vida humana real, embora de forma afastada. Uma base para a vida e outra base para a ciência são, a priori, uma mentira... A ciência natural, com o tempo, incorporará em si a ciência do homem, assim como a ciência do homem incorporará em si a ciência natural: haverá uma única ciência43.

Essa unidade intrínseca das ciências sociais e naturais é, naturalmente, um corolário lógico da unidade intrínseca da humanidade e da natureza. Consequentemente, Marx e Engels “conhecem apenas uma única ciência, a ciência da história. Pode-se olhar a história por dois lados e dividi-la em história da natureza e história dos homens. Os dois lados são, no entanto, inseparáveis; a história da natureza e a história dos homens dependem uma da outra enquanto os homens existirem44”.

Em suma, os fundadores do Marxismo não previram a redução do tempo de trabalho do comunismo em termos de uma separação progressiva do desenvolvimento humano da natureza. Eles também não viram o tempo livre expandido sendo preenchido por orgias de consumo pelo consumo. Em vez disso, a redução do tempo de trabalho é vista como uma condição necessária para o desenvolvimento intelectual de indivíduos sociais capazes de dominar as forças cientificamente desenvolvidas da natureza e do trabalho social de maneira ambientalmente e também humanamente racional. O “aumento do tempo livre” aparece aqui como “tempo de pleno desenvolvimento do indivíduo” capaz de “a apreensão de sua própria história como processo, e o reconhecimento da natureza (igualmente presente como poder prático sobre a natureza) como seu real corpo.” O desenvolvimento intelectual dos produtores durante o tempo livre e o tempo de trabalho é claramente central para o processo pelo qual o “caráter social [do trabalho comunista] é posto… no processo de produção não de uma forma meramente natural e espontânea, mas como uma atividade que regula todas as forças da natureza45”. Longe de ser antiecológico, nesse processo os produtores e suas comunidades passam a ter uma consciência mais teórica e prática da riqueza natural como condição eterna de produção, tempo livre e da própria vida humana.

Os críticos ecológicos também parecem ter perdido de vista o potencial de aumento do tempo livre como meio de reduzir a pressão da produção sobre o ambiente natural. Especificamente, o aumento da produtividade do trabalho social não precisa aumentar o rendimento de material e energia, na medida em que os produtores são compensados ​​por reduções no tempo de trabalho em vez de pelo maior consumo de materiais. No entanto, este aspecto do tempo livre como uma medida de riqueza é melhor localizado no contexto da transformação das necessidades humanas pelo comunismo.

C. Riqueza, necessidades humanas e custo da força de trabalho

Alguns argumentariam que, na medida em que Marx imagina o comunismo encorajando um senso compartilhado de responsabilidade para com a natureza, essa responsabilidade permanece ligada a uma concepção antiecológica da natureza como primariamente um instrumento ou material do trabalho humano. Alfred Schmidt, por exemplo, sugere que “quando Marx e Engels reclamam do roubo profano da natureza, eles não estão preocupados com a própria natureza, mas com considerações de utilidade econômica”. Routley afirma que, para Marx, “a natureza deve ser aparentemente respeitada na medida, e apenas na medida, que se torna obra do homem, seu artefato e autoexpressão, e é, portanto, um reflexo do homem e parte da identidade do homem46”.

Deve ficar claro a partir de nossa discussão anterior que qualquer dicotomia entre “utilidade econômica” e “a própria natureza” é completamente estranha ao materialismo de Marx. Um ponto relacionado é que a concepção de Marx de riqueza ou valor de uso abrange “a variedade multifacetada de necessidades humanas”, sejam essas necessidades físicas, culturais ou estéticas. Neste sentido amplo de desenvolvimento humano, “valor de uso… pode geralmente ser caracterizado como o meio de vida”. David Pepper conclui acertadamente que “Marx realmente via o papel da natureza como ‘instrumental’ para os humanos, mas para ele o valor instrumental… incluía a natureza como uma fonte de valor estético, científico e moral47”.

Por “obra do homem”, Marx não emprega uma concepção oposicionista de trabalho e natureza em que o primeiro apenas inclui a última. Ele insiste que a capacidade humana de trabalhar, ou força de trabalho, é em si “um objeto natural, uma coisa, embora uma coisa viva e consciente”, portanto, o trabalho é um processo no qual o trabalhador “se opõe à Natureza sendo uma de suas próprias forças” e “se apropria das produções da Natureza de uma forma adaptada aos seus próprios desejos”. Marx vê o trabalho como “um processo do qual o homem e a Natureza participam… a condição necessária para efetuar a troca de matéria entre o homem e a Natureza” na produção. Como uma “condição universal para a interação metabólica entre a natureza e o homem”, o trabalho é “uma condição natural da vida humana… independente de, igualmente comum a, todas as formas sociais particulares de vida humana”. O trabalho é, obviamente, apenas parte do “metabolismo universal da natureza” e, como um materialista, Marx insiste que “a terra… existe independentemente do homem”. Nesse sentido ontológico, “a prioridade da natureza externa permanece incontestável”, embora Marx insista na importância das relações sociais na estruturação do “metabolismo” produtivo entre a humanidade e a natureza48.

Mas o que dizer das notórias referências de Marx e Engels ao crescimento contínuo da produção de riqueza sob o comunismo? Não são imanentemente antiecológicos? Aqui deve ser enfatizado que essas projeções de crescimento são sempre feitas em estreita conexão com a visão de Marx de um desenvolvimento humano livre e completo, não com o crescimento da produção e do consumo materiais para seu próprio bem. Assim, sempre se referem ao crescimento da riqueza em um sentido geral, abrangendo a satisfação de necessidades outras que não aquelas que requerem o processamento industrial de recursos naturais (produção de matéria e energia). Ao discutir a “fase superior da sociedade comunista”, por exemplo, Marx torna a frase “a cada um de acordo com suas necessidades” critério condicional a uma situação em que “a subordinação escravizante de indivíduos sob divisão de trabalho e, com isso, também a antítese entre o trabalho mental e físico desapareceu; depois que o trabalho, de um mero meio de vida, tornou-se ele mesmo a necessidade primária da vida; depois que as forças produtivas também aumentaram com o desenvolvimento integral do indivíduo”. Da mesma forma, Engels se refere a “um crescimento praticamente ilimitado da produção”, mas então preenche sua concepção de “prático” em termos da prioridade “de garantir para cada membro da sociedade… uma existência que não é apenas totalmente suficiente a partir de um ponto de vista material… mas também lhes garante o desenvolvimento totalmente irrestrito de suas faculdades físicas e mentais49”. Esse desenvolvimento humano não precisa envolver um crescimento ilimitado do consumo material.

Para Marx, a “expansão progressiva do processo de reprodução” do comunismo abrange todo o “processo vivo da sociedade de produtores” e, como discutido anteriormente, ele especifica as “vantagens materiais e intelectuais” deste “desenvolvimento social” em termos de desenvolvimento humano holístico. Quando Marx e Engels concebem o comunismo como “uma organização de produção e intercâmbio que tornará possível a satisfação normal das necessidades… limitada apenas pelas próprias necessidades”, eles não significam uma saciedade completa de necessidades em expansão ilimitada de todos os tipos:

A organização comunista tem um efeito duplo sobre os desejos produzidos no indivíduo pelas relações atuais; alguns desses desejos — a saber, os desejos que existem sob todas as relações e apenas mudam sua forma e direção sob diferentes relações sociais — são meramente alterados pelo sistema social comunista, pois têm a oportunidade de se desenvolverem normalmente; mas outros — a saber, aqueles originários unicamente de uma sociedade particular, sob condições particulares de produção e intercâmbio — estão totalmente privados de suas condições de existência. O que será meramente mudado e o que será eliminado em uma sociedade comunista só pode ser determinado de maneira prática50.

Como Ernest Mandel aponta, esta abordagem de desenvolvimento social e humano para a satisfação de necessidades é bastante diferente da “noção absurda” de “abundância” irrestrita muitas vezes atribuída a Marx, isto é, “um regime de acesso ilimitado a um suprimento ilimitado de todos os bens e serviços.” Embora a satisfação das necessidades comunistas seja consistente com uma “definição de abundância [como] saturação da demanda”, isso deve ser localizado no contexto de uma hierarquia de “necessidades básicas, necessidades secundárias, que se tornam indispensáveis ​​com o crescimento da civilização, e luxo, necessidades não essenciais ou mesmo prejudiciais”. A visão do desenvolvimento humano de Marx prevê basicamente uma saciedade das necessidades básicas e uma extensão gradual dessa saciedade às necessidades secundárias à medida que elas se desenvolvem socialmente por meio do tempo livre expandido e do controle cooperativo da comunidade de trabalhadores sobre a produção — não uma saciedade completa de todas as necessidades concebíveis51.

Aqui, começa-se a ver todo o significado ecológico do tempo livre como medida da riqueza comunista. Especificamente, se as necessidades secundárias desenvolvidas e satisfeitas durante o tempo livre são menos intensivas em material e energia, seu peso crescente nas necessidades totais deve reduzir a pressão da produção em condições naturais limitadas. Isso é crucial na medida em que a visão de Marx faz com que os produtores usem sua segurança material recém-descoberta e tempo livre expandido para se envolver em uma variedade de formas intelectuais e estéticas de autodesenvolvimento52. Tal desenvolvimento de necessidades secundárias deve ser ampliado pelas maiores oportunidades que o controle verdadeiramente exercido pelo trabalhador e pelacomunidade oferece às pessoas para que se tornem participantes informados da vida econômica, política e cultural.

Claro, o trabalho (junto com a natureza) continua sendo uma fonte fundamental de riqueza sob o comunismo. Isso, junto com a prioridade da ampliação do tempo livre, significa que as quantidades de trabalho social despendidas na produção de diferentes bens e serviços ainda serão uma medida importante de seu custo. Como Marx explica no Grundrisse:

Com base na produção comunal, a determinação do tempo permanece, é claro, essencial. Quanto menos tempo a sociedade necessita para produzir trigo, gado etc., mais tempo ela ganha para outra produção, material ou mental. Assim como no caso de um indivíduo, a multiplicidade de seu desenvolvimento, seu gozo e sua atividade dependem da economia do tempo. Economia de tempo, a isso toda economia se reduz em última instância. Da mesma forma, a sociedade deve distribuir seu tempo de maneira proposital, a fim de alcançar uma produção adequada às suas necessidades globais; assim como o indivíduo deve distribuir seu tempo corretamente para adquirir conhecimentos em proporções adequadas ou para satisfazer as diversas demandas de sua atividade. Assim, a economia de tempo, junto com a distribuição planejada do tempo de trabalho entre os vários ramos de produção, continua sendo a primeira lei econômica na base na produção comunal. Lá se torna lei em um grau ainda mais alto.

Marx adiciona imediatamente, no entanto, que a economia de tempo do comunismo “é essencialmente diferente de uma medição dos valores de troca (trabalho ou produtos) pelo tempo de trabalho.” Em primeiro lugar, o uso do tempo de trabalho pelo comunismo como uma medida de custo “é realizado… pelo controle direto e consciente da sociedade sobre seu tempo de trabalho — o que só é possível com propriedade comum”, ao contrário da situação sob o capitalismo, onde a “regulação” do tempo de trabalho social só é realizada indiretamente, “pelo movimento dos preços das mercadorias”. Mais importante ainda, a economia de tempo de trabalho do comunismo serve ao valor de uso, especialmente a expansão do tempo livre, enquanto a economia de tempo do capitalismo é voltada para aumentar o tempo de mais-trabalho despendido pelos produtores53.

Além disso, Marx e Engels não projetam o tempo de trabalho como o único guia para as decisões de alocação de recursos no comunismo: eles apenas indicam que deve ser uma medida importante dos custos sociais de diferentes tipos de produção. Que “a produção… sob o controle real e predeterminante da sociedade... estabeleça uma relação entre o volume de trabalho social aplicado na produção de artigos definidos e o volume do desejo social a ser satisfeito por esses artigos” de forma alguma implica que os custos ambientais são deixados de fora da conta. Da mesma forma, não impede que a manutenção e a melhoria das condições naturais sejam incluídas nas “necessidades sociais a serem satisfeitas” pela produção e pelo consumo54.

Para fortes evidências de que Marx e Engels não viam o comunismo priorizando o custo mínimo do trabalho em relação às metas ecológicas, basta apontar a sua insistência na “abolição da antítese entre cidade e campo” como “uma necessidade direta de... produção e, além disso, da saúde pública”. Observando as concentrações urbanas ecologicamente perturbadoras das indústrias e população no capitalismo, a agricultura industrializada e a falha em reciclar resíduos humanos e de animais da pecuária, Marx e Engels apontaram desde o início a “abolição da contradição entre a cidade e o campo” como “uma das primeiras condições da vida comunal”. Como Engels disse mais tarde: “O atual envenenamento do ar, da água e da terra só pode ser eliminado pela fusão da cidade e do campo” sob “um único plano vasto”. Apesar de seu custo potencial para a sociedade em termos de aumento do tempo de trabalho, ele via essa fusão como “nem mais e nem menos utópica do que a abolição da antítese entre capitalista e trabalhadores assalariados”. Era até mesmo “uma demanda prática da produção industrial e agrícola”. Em sua magnum opus, Marx previu o comunismo forjando uma “síntese superior” do “antigo vínculo de união que mantinha unidas a agricultura e a manufatura em sua infância”. Essa nova união trabalharia para uma “restauração” das “condições naturalmente cultivadas para a manutenção de [a] circulação da matéria... sob uma forma apropriada para o pleno desenvolvimento da raça humana.” Consequentemente, Engels ridicularizou a projeção de Dühring “de que a união entre a agricultura e a indústria será realizada mesmo contra considerações econômicas, como se isso fosse algum sacrifício econômico!55” É óbvio que Marx e Engels aceitariam de bom grado aumentos no tempo de trabalho social em troca de uma produção ecologicamente mais sólida.

Ainda assim, não é necessário aceitar a noção, repetida ad nauseam pelos críticos ecológicos de Marx, de uma oposição inerente entre reduções de custos do trabalho e respeito ao meio ambiente. O comunismo de Marx dispensaria o desperdício de recursos naturais e também de trabalho associado ao “sistema anárquico de competição” e “grande número de empregos… em si supérfluos” do capitalismo. Muitos valores de uso antiecológicos poderiam ser eliminados ou largamente reduzidos sob um sistema planejado de alocação de trabalho e uso da terra, entre eles publicidade, processamento e acondicionamento excessivos de alimentos e outros bens, obsolescência planejada de produtos e automóveis. Todos esses valores de uso destrutivos são “indispensáveis” para o capitalismo; mas do ponto de vista da sustentabilidade ambiental representam “o mais ultrajante desperdício da força de trabalho e dos meios sociais de produção56”.

Notas

1. Oskar Lange and Fred M. Taylor, On the Economic Theory of Socialism (New York: McGraw-Hill, 1964); “Socialism: Alternative Views and Models,” simpósio em Science & Society 56, no. 4 (Spring 1992); “Building Socialism Theoretically: Alternatives to Capitalism and the Invisible Hand,” simpósio em Science & Society 66, no. 1 (Spring 2002); Ernesto Che Guevara, “Man and Socialism in Cuba,” em Man and Socialism in Cuba: The Great Debate, ed. Bertram Silverman (New York: Atheneum, 1973), 337, 350.
2. Para mais discussões da visão de Marx sobre o comunismo, ver Paresh Chattopadhyay, “Socialism: Utopian and Feasible,” Monthly Review 37, no. 10 (March 1986); Bertell Ollman, “Marx’s Vision of Communism,” in Social and Sexual Revolution: Essays on Marx and Reich (Boston: South End Press, 1979).
3. Herman E. Daly, Steady-State Economics, 2nd ed. (London: Earthscan, 1992), 196; Robyn Eckersley, Environmentalism and Political Theory (Albany: State University of New York Press, 1992), 80; Victor Ferkiss, Nature, Technology, and Society (New York: New York University Press, 1993), 110; K. J. Walker, “Ecological Limits and Marxian Thought,” Politics 14, no. 1 (May 1979), 35–6; Val Routley, “On Karl Marx as an Environmental Hero,” Environmental Ethics 3, no. 3 (Fall 1981), 242. Para referências adicionais às críticas ecológicas ao comunismo de Marx, ver John Bellamy Foster, “Marx and the Environment,” Monthly Review 47, no. 3 (July–August 1995), 108–9; Paul Burkett, Marx and Nature: A Red and Green Perspective (New York: St. Martin’s Press, 1999), 147–8, 223.
4. Karl Polanyi, The Great Transformation (New York: Farrar & Rinehart, 1944); Thomas E. Weisskopf, “Marxian Crisis Theory and the Contradictions of Late Twentieth-Century Capitalism,” Rethinking Marxism 4, no. 4 (Winter 1991); Blair Sandler, “Grow or Die: Marxist Theories of Capitalism and the Environment,” Rethinking Marxism 7, no. 2 (Summer 1994); Andriana Vlachou, “Nature and Value Theory,” Science & Society 66, no. 2 (Summer 2002).
5. Paul Auerbach and Peter Skott, “Capitalist Trends and Socialist Priorities,” Science & Society 57, no. 2 (Summer 1993), 195.
6. Karl Marx, Value, Price and Profit (New York: International Publishers, 1976), 39; Theories of Surplus Value, part 3 (Moscow: Progress Publishers, 1971), 271–2; Theories of Surplus Value, part 2 (Moscow: Progress Publishers, 1968), 580 (emphasis in original).
7. Frederick Engels, Anti-Dühring (New York: International Publishers, 1939), 221 (emphasis in original); Marx, Theories of Surplus Value, part 3, 525; “Drafts of the Letter to Vera Zasulich, March 8, 1881,” in Collected Works, Karl Marx and Frederick Engels, vol. 24 (New York: International Publishers, 1989), 362 (emphasis in original).
8. Marx, Capital, vol. I (New York: International Publishers, 1967), 762; “Economic Manuscript of 1861–63, Conclusion,” in Collected Works, Karl Marx and Frederick Engels, vol. 34 (New York: International Publishers, 1994), 109 (emphasis in original); Karl Marx and Frederick Engels, The German Ideology (Moscow: Progress Publishers, 1976), 97.
9. Karl Marx and Frederick Engels, “Manifesto of the Communist Party,’ in Selected Works (London: Lawrence & Wishart, 1968), 47. See also Marx, Capital, 3:437–40; “Economic Manuscript of 1861–63, Conclusion,” 108.
10. Marx, Capital, 3:437, 876; Critique of the Gotha Programme (New York: International Publishers, 1966), 7–8, 11; Frederick Engels, The Housing Question (Moscow: Progress Publishers, 1979), 28, 94. See also Marx, Theories of Surplus Value, part 1 (Moscow: Progress Publishers, 1963), 107; Capital, 1:530 and 2:819, 847.
11. Marx, Capital, 1:763; “Economic Manuscript of 1861–63, Conclusion,” 109 (emphases in original); “The Civil War in France,” in On the Paris Commune, by Karl Marx and Frederick Engels (Moscow: Progress Publishers, 1985), 75.
12. Marx and Engels, The German Ideology, 86–9, 309.
13. Marx, Capital, 1:488; Marx and Engels, “Manifesto of the Communist Party,” 53.
14. Marx and Engels, “Manifesto of the Communist Party,” 49; Engels, Anti-Dühring, 144; Marx, Capital, 1:78.
15. Marx, Capital, 1:78; Critique of the Gotha Programme, 8, 10.
16. Engels, Anti-Dühring, 220–2.
17. Marx, Critique of the Gotha Programme, 10; Engels, Anti-Dühring, 221 (ênfase no original); Marx, Capital, 3:876. See also Marx and Engels, The German Ideology, 566.
18. Marx, Critique of the Gotha Programme, 7–8.
19. Marx, Critique of the Gotha Programme, 20, 22; Capital, 1:488, 490; “The Civil War in France,” 162.
20. Marx, Capital, 1:530 and 2:819–20; Theories of Surplus Value, part 3, 257 (ênfase no original); Grundrisse (New York: Vintage, 1973), 708.
21. Marx, Capital, 1:530; “The Civil War in France,” 75; Marx and Engels, The German Ideology, 309.
22. Marx, Grundrisse, 190, 706; Theories of Surplus Value, part 2, 117–8 (ênfase no original); Marx and Engels, The German Ideology, 96, 465.
23. Marx, Capital, 2:358; Engels, Anti-Dühring, 221.
24. Marx, A Contribution to the Critique of Political Economy (New York: International Publishers, 1970), 84–5.
25. Marx, A Contribution to the Critique of Political Economy, 85 (ênfase no original); Theories of Surplus Value, part 3, 129; Critique of the Gotha Programme, 8 (eênfase no original).
26. Marx, Grundrisse, 159, 171–2 (ênfase no original).
27. Marx, Grundrisse, 158 (ênfase no original).
28. Marx, Grundrisse, 264; Capital, 1:94. Ver também Engels, Anti-Dühring, 337–8.
29. Marx, Capital, 1:78–80; “The Civil War in France,” 76.
30. Marx, Grundrisse, 162; Engels, Anti-Dühring, 167; Marx, “Inaugural Address of the International Working Men’s Association,” em The First International and After, ed. David Fernbach (New York: Random House, 1974), 80; “Notes on Bakunin’s Book Statehood and Anarchy,” em Collected Works, Karl Marx and Frederick Engels, 24:519; “The Civil War in France,” 130, 153.
31. Alec Nove, “Socialism,” em The New Palgrave: Problems of the Planned Economy, ed. John Eatwell, Murray Milgate e Peter Newman (New York: Norton, 1990), 230, 237; Alec Nove, The Economics of Feasible Socialism (London: Allen & Unwin, 1983), 15–6; Geoffrey Carpenter, “Redefining Scarcity: Marxism and Ecology Reconciled,” Democracy & Nature 3, no. 3 (1997), 140; Andrew McLaughlin, “Ecology, Capitalism, and Socialism,” Socialism and Democracy, no. 10 (Spring–Summer 1990), 95; Lewis S. Feuer, “Introduction,” em Karl Marx and Frederick Engels: Basic Writings on Politics and Philosophy, ed. Lewis Feuer (Garden City, N.Y.: Anchor Books, 1989), xii.
32. Marx, Capital, 1:507; Critique of the Gotha Programme, 5–6; Economic and Philosophical Manuscripts of 1844 (New York: International Publishers, 1964), 103; Engels, Anti-Dühring, 151.
33. Marx, Capital, 3:776.
34. Marx, Capital, 617, 812 (ênfase adicionada).
35. H. Scott Gordon, “The Economic Theory of a Common Property Resource: The Fishery,” Journal of Political Economy 62, no. 2 (Abril 1954); Garrett Hardin, “The Tragedy of the Commons,” Science 162 (Dezembro 1968); S. V. Ciriacy-Wantrup e Richard C. Bishop, “‘Common Property’ as a Concept in Natural Resource Policy,” Natural Resources Journal 15, no. 4 (Outubro 1975); James A. Swaney, “Common Property, Reciprocity, and Community,” Journal of Economic Issues 24, no. 2 (Junho 1990); Elinor Ostrom, Governing the Commons (Cambridge: Cambridge University Press, 1990); Peter Usher, “Aboriginal Property Systems in Land and Resources,” em Green On Red: Evolving Ecological Socialism, ed. Jesse Vorst, Ross Dobson e Ron Fletcher (Winnipeg: Fernwood Publishing, 1993); Burkett, Marx and Nature, 246–8; Robert Biel, The New Imperialism (London: Zed Books, 2000), 15–8, 98–101.
36. Marx e Engels, The German Ideology, 45–6, 71; Frederick Engels, Dialectics of Nature (Moscow: Progress Publishers, 1964), 183; Marx, Economic and Philosophical Manuscripts of 1844, 137.
37. Marx, Capital, 3:820; Engels, Anti-Dühring, 309.
38. Marx, Critique of the Gotha Programme, 7; Capital, 2:177, 469.
39. Marx, Capital, 2:469; “Notes on Wagner,” in Texts on Method, ed. Terrell Carver (Oxford, UK: Blackwell, 1975), 188; Theories of Surplus Value, part 3, 357–8.
40. Engels, Anti-Dühring, pp. 125–6.
41. Routley, “On Karl Marx as an Environmental Hero,” 242; Walker, “Ecological Limits and Marxian Thought,” 242–3.
42. Marx, Capital, 3:820; Theories of Surplus Value, parte 3, 257; Grundrisse, 712.
43. Marx, Economic and Philosophical Manuscripts of 1844, 143 (ênfase no original).
44. Marx e Engels, The German Ideology, 34. Ver também Ollman, “Marx’s Vision of Communism,” 76.
45. Marx, Grundrisse, 542, 612 (ênfase no original).
46. Alfred Schmidt, The Concept of Nature in Marx (London: New Left Books, 1971), 155; Routley, “On Karl Marx as an Environmental Hero,” 243 (ênfase no original).
47. Marx, Grundrisse, 527; “Economic Manuscript of 1861–63, Third Chapter,” em Collected Works, Karl Marx e Frederick Engels, vol. 30 (New York: International Publishers, 1988), 40 (ênfase no original); David Pepper, Eco-Socialism (London: Routledge, 1993), 64.
48. Marx, Capital, 1:177, 183–4, 202 (ênfase adicionada); “Economic Manuscript of 1861–63, Third Chapter,” 63; Marx and Engels, The German Ideology, 46. Para detalhes sobre a concepção dialética de Marx do trabalho humano e da natureza, ver Burkett, capítulos 2–4 em Marx and Nature; John Bellamy Foster, Marx’s Ecology: Materialism and Nature (New York: Monthly Review Press, 2000); John Bellamy Foster ePaul Burkett, “The Dialectic of Organic/Inorganic Relations: Marx and the Hegelian Philosophy of Nature,” Organization & Environment 13, no. 4 (Dezembro 2000).
49. Marx, Critique of the Gotha Programme, 10; Engels, Anti-Dühring, 309.
50. Capital, 3:250, 819 (ênfase no original); Marx and Engels, The German Ideology, 273.
51. Ernest Mandel, Power and Money: A Marxist Theory of Bureaucracy (London: Verso, 1992), 205–7 (emphasis in original); Howard J. Sherman, “The Economics of Pure Communism,” Review of Radical Political Economics 2, no. 4 (Inverno 1970).
52. Marx, Grundrisse, 287; Marx and Engels, The German Ideology, 53.
53. Marx, Grundrisse, 172–3, 708; Marx to Engels, Janeiro 8, 1868, in Selected Correspondence, Karl Marx and Frederick Engels (Moscow: Progress Publishers, 1975), 187; Marx, Capital, 1:71 and 3:264.
54. Marx, Capital, 3:187.
55. Engels, Anti-Dühring, 323–4 (ênfase no original); The Housing Question, 92; Marx e Engels, The German Ideology, 72; Marx, Capital, 1:505–6.
56. Marx, Capital, 1:530. Para maiores discussões sobre planejamento socialista, tecnologia e eficiência ecológica, ver Victor Wallis, “Socialism, Ecology, and Democracy: Toward A Strategy of Conversion,” Monthly Review 44, no. 2 (Junho 1992); “Technology, Ecology, and Socialist Renewal,” Capitalism, Nature, Socialism 12, no. 1 (Março 2004).

Sobre o autor

Paul Burkett ensina economia na Indiana State University, Terre Haute. Com Martin Hart-Landsberg, ele foi co-autor de China and Socialism: Market Reforms and Class Struggle (Monthly Review Press, 2005).

1 de agosto de 2005

Contra os direitos humanos

Álibi para intervenções militares, sacralização para a tirania do mercado, base ideológica para o fundamentalismo do politicamente correto: pode a “ficção simbólica” dos direitos universais serem recuperada com vistas a uma politização progressiva das relações sócio-econômicas vigentes?

Slavoj Žižek

New Left Review

NLR 34 • JULY/AUG 2005

Tradução / As invocações contemporâneas aos diretos humanos, em nossas sociedades liberal-capitalistas, geralmente repousam sobre três suposições. A primeira, que tais invocações funcionam em oposição a fundamentalismos que naturalizariam ou essencializam traços contingentes historicamente condicionados. A segunda, que os dois direitos mais fundamentais são a liberdade de escolha e o direito de dedicar a própria vida à busca do prazer (ao invés de sacrificá-la por alguma causa ideológica maior). A terceira, que a invocação aos direitos humanos pode formar as bases para uma defesa contra o “excesso de poder”.

Comecemos com o fundamentalismo. Aqui, o mal (para parafrasear Hegel) reside frequentemente no olhar que o percebe. Tomemos os Bálcãs durante a década de 1990, lugar de generalizadas violações aos direitos humanos. Em que ponto os Bálcãs – uma região geográfica do sudeste europeu – se “balcanizaram”, com tudo o que esse termo designa para o imaginário ideológico europeu de hoje? A resposta é: no período de meados do século XIX, momento em que os Bálcãs foram completamente expostos aos efeitos da modernização europeia. A diferença [gap] entre as primeiras percepções da Europa ocidental e a imagem “moderna” é impressionante. Já no século XVI, o naturalista francês Peirre Belon podia assinalar que “os turcos não forçam ninguém a viver como turco”. Pouco surpreende, então, que tantos judeus encontraram asilo e liberdade religiosa na Turquia e em outros países muçulmanos, depois que Fernando e Isabel os expulsaram da Espanha em 1492 – com o resultado de que, num supremo toque de ironia, viajantes ocidentais foram incomodados pela presença pública de judeus nas grandes cidades turcas. Eis aqui, dentre uma longa série de exemplos, um relato de N. Bisani, um italiano que visitou Istambul em 1788:

Um estrangeiro, que tenha contemplado a intolerância de Londres e Paris, deve ter ficado muito surpreso ao ver aqui uma igreja entre uma mesquita e uma sinagoga, e um dervixe ao lado de um frade capuchinho. Eu não sei como este governo pode admitir em seu seio religiões tão opostas à sua própria. Deve ser por uma degenerescência do maometanismo que este feliz contraste pode ser produzido. O que é ainda mais surpreendente é encontrar este espírito de tolerância prevalecendo geralmente entre as pessoas; porque aqui você vê turcos, judeus, católicos, armênios, gregos e protestantes conversando juntos sobre assuntos de negócios ou de lazer, com tanta harmonia e boa vontade como se eles fossem do mesmo país e religião (apud JEZERNIK, 2004, p. 233).

A mesma característica que o Ocidente hoje celebra como um sinal de sua superioridade cultural – o espírito e a prática da tolerância multicultural – é repudiado, então, como um efeito da degenerescência islâmica. O estranho destino dos monges trapistas do Etoile Marie é igualmente revelador. Expulsos da França pelo regime napoleônico, eles se instalaram na Alemanha, mas também foram expulsos em 1868. Como nenhum outro Estado cristão os acolheria, eles pediram permissão ao Sultão para comprar terras perto de Banja Luka, na parte sérvia da atual Bósnia, onde eles viveram felizes para sempre – até que se viram pegos nos conflitos dos Bálcãs entre cristãos.

Onde, então, se originaram os traços fundamentalistas – intolerância religiosa, violência étnica, fixação em trauma histórico – que o Ocidente agora associa com “os Bálcãs”? Claramente, no próprio Ocidente. Em um claro exemplo da “determinação reflexiva” de Hegel, o que os europeus ocidentais observam e deploram nos Bálcãs é o que eles mesmos introduziram ali, o que eles combatem é o seu próprio legado histórico descontrolado. Não esqueçamos que os dois grandes crimes étnicos imputados aos turcos no século XX – o genocídio de armênios e a perseguição dos curdos – não foram cometidos por forças políticas muçulmanas tradicionalistas, mas pelos modernizadores militares que buscaram separar a Turquia de seu lastro no mundo antigo e transformá-la em um Estado-nação europeu. O velho sarcasmo de Mladen Dolar, baseado em uma leitura detalhada das referências de Freud à região, que dizia que o inconsciente europeu é estruturado como os Bálcãs, é, assim, literalmente correto: sob o disfarce de alteridade do “balcânico”, a Europa toma conhecimento do “estrangeiro que há em si mesma”, de seu eu reprimido.

Mas, deveríamos examinar os modos pelos quais a essencialização fundamentalista dos traços contingentes é, ela mesma, uma característica da democracia liberal-capitalista. Está na moda queixar-se de que a vida privada está sob ameaça ou mesmo desaparecendo em face da habilidade dos meios de comunicação de expor em público os detalhes pessoais mais íntimos. Correto, com a condição de que coloquemos as coisas ao contrário: o que está efetivamente desaparecendo aqui é a vida pública em si, a esfera pública propriamente dita, na qual se opera como um agente simbólico que não pode ser reduzido a um indivíduo privado, a um feixe de atributos, desejos, traumas e idiossincrasias pessoais. O lugar-comum “sociedade de risco” – de acordo com o qual o indivíduo contemporâneo experimenta a si mesmo como algo completamente “desnaturalizado”, mesmo em relação às suas características mais naturais, desde identidade étnica à preferência sexual, como sendo escolhidas, historicamente contingentes, aprendidas – é, então, profundamente enganador. O que testemunhamos hoje é o processo oposto: uma re-naturalização sem precedentes. Todas as grandes “questões públicas” são agora traduzidas em atitudes para uma regulação de idiossincrasias “naturais” ou “pessoais”.

Isto explica por que, em um plano mais geral, conflitos etno-religiosos pseudo-naturalizados são a forma de luta que mais se ajusta ao capitalismo global. Na era da “pós-política”, quando a política propriamente dita é progressivamente substituída por uma administração social de especialistas, as únicas fontes de conflito restantes são as tensões culturais (religiosas) ou naturais (étnicas). E a “avaliação” é precisamente a regulação da promoção social que se encaixa com esta re-naturalização. Talvez tenha chegado o momento de reafirmar, como uma verdade da avaliação, a lógica perversa à qual Marx se refere ironicamente em sua discrição do fetichismo da mercadoria, ao citar o conselho de Dogberry a Seacol, no final do capítulo I de O Capital: “Ser um homem bem apessoado é um dom das circunstâncias, mas saber ler e escrever vem da natureza”. Ser um especialista em computadores ou um administrador de sucesso é, nos dias de hoje, um dom da natureza, mas ter lábios e olhos belos é uma questão de cultura.

A ausência da liberdade de escolha
Quanto à liberdade de escolha: escrevi alhures sobre a pseudo-escolha oferecida aos adolescentes das comunidades Amish, que, depois da mais rigorosa educação, são convidados, aos dezessete anos, a mergulhar em todos os excessos da cultura capitalista contemporânea – um turbilhão de carros rápidos, sexo selvagem, drogas, bebidas e assim por diante. Depois de dois anos, lhes é permitido escolher se querem voltar ao modo amish. Como foram criados quase que totalmente ignorantes em relação à sociedade estadunidense, os jovens estão muito despreparados para lidar com tal permissividade, a qual, na maioria dos casos, gera uma reação de ansiedade insuportável. A grande maioria decide por retornar à reclusão de suas comunidades. Este é um perfeito exemplo das dificuldades que invariavelmente acompanham a “liberdade de escolha”: ainda que aos jovens amish lhes seja dada formalmente uma livre escolha, as condições nas quais eles têm que fazê-la tornam a escolha não livre.

O problema da pseudo-escolha também demonstra os limites das atitudes liberais padrão em relação às mulheres muçulmanas que usam o véu: é aceitável se for sua própria escolha e não algo imposto por seus maridos ou família. Entretanto, no momento em que a mulher usa o véu como resultado de uma escolha pessoal, o significado muda completamente: não é mais um sinal de pertencimento à comunidade muçulmana, mas uma expressão de uma individualidade idiossincrática. Em outras palavras, uma escolha é sempre uma meta-escolha, uma decisão da modalidade da escolha em si: é somente a mulher que escolhe não usar o véu quem, efetivamente, faz uma escolha. Por esta razão, em nossas democracias liberais seculares, as pessoas que mantém uma fidelidade religiosa substancial estão em posições subordinadas: sua fé é “tolerada” por ser sua própria escolha pessoal, mas no momento em que a apresentam publicamente como o que a fé é para elas – uma questão de pertencimento substancial – são acusadas de “fundamentalismo”. Obviamente, o “tema da livre escolha”, no sentido “tolerante”, multicultural, pode apenas emergir como resultado de um processo extremamente violento de desenraizamento do mundo e da vida particular de cada um.

A força essencial da noção ideológica de “livre escolha” na democracia capitalista foi bem ilustrada pelo destino do ultra-modesto programa de reforma da saúde da administração de Clinton. O lobby médico (duas vezes mais forte que o infame lobby da Defesa) obteve sucesso em impor ao público a ideia de que a assistência universal de saúde ameaçaria, de alguma maneira, a liberdade de escolher naquele campo. Contra esta convicção, toda enumeração de “dados puros” provou-se inútil. Aqui estamos no verdadeiro centro nervoso da ideologia liberal: a liberdade de escolha, fundamentada na noção de sujeito “psicológico”, dotada de propensões que ele ou ela esforçam-se para concretizar. E isto se mantém especialmente nos dias de hoje, na era da “sociedade do risco”, na qual a ideologia dominante se esforça para nos vender as mesmas inseguranças causadas pelo desmantelamento do Welfare State como se fossem oportunidades para novas liberdades. Se a flexibilização do trabalho significa que você tem que mudar de emprego todos os anos, por que não ver isto como uma liberação dos constrangimentos de uma carreira permanente, uma chance de se reinventar e de desenvolver o potencial oculto de sua personalidade? Se existe uma redução de seu seguro de saúde padrão e de seu plano de aposentadoria, o que significa que você tem que optar por uma cobertura extra? Por que não perceber isto como uma oportunidade adicional para escolher entre um melhor estilo de vida agora ou a seguridade em longo prazo? Se este apuro lhe causa ansiedade, os ideólogos da “segunda modernidade” irão diagnosticar que você deseja “escapar da liberdade”, de que está apegado imaturamente a velhas formas estáveis. Melhor ainda, quando isto está inscrito na ideologia do sujeito enquanto indivíduo “psicológico”, prenhe de habilidades individuais, a pessoa tenderá automaticamente a interpretar todas essas mudanças como resultado de sua personalidade, e não como resultado de ter sido sacudida pelas forças do mercado.

A política da jouissance
E o que dizer do direito básico à busca do prazer? A política de hoje preocupa-se cada vez mais com as formas de solicitar ou controlar a jouissance4. A oposição entre o Ocidente liberal-tolerante e o Islã-fundamentalista se condensa mais frequentemente como a oposição entre, por um lado, o direito da mulher à livre sexualidade, incluindo a liberdade de se mostrar ou de se expor e provocar ou incomodar os homens; e, por outro lado, tentativas masculinas desesperadas em suprimir ou controlar esta ameaça. (Os talibãs proibiam as mulheres de usar saltos com pontas metálicas, pois os sons das batidas, vindas debaixo das burcas que a tudo tapam, poderiam causar um apelo erótico irresistível).

Ambos os lados, por certo, mistificam ideológica e moralmente suas posições. Para o Ocidente, o direito das mulheres a se expor de forma provocativa ao desejo masculino é legitimado como seu direito de desfrutar de seus corpos como bem entendem. Para o Islã, o controle sobre a sexualidade feminina é legitimado pela defesa da dignidade da mulher em oposição à sua redução a objetos de exploração masculina. Assim, quando o Estado francês proíbe garotas muçulmanas de usar o véu na escola, pode-se alegar que a elas se permite, então, dispor de seus corpos tal como desejam. Mas, também, pode-se dizer que o verdadeiro ponto traumático para os críticos do “fundamentalismo” muçulmano foi o fato de que há mulheres que não participaram do jogo de deixar seus corpos disponíveis para sedução sexual, ou para a circulação e trocas sociais envolvidas nisso. De um jeito ou de outro, todas as demais questões – o casamento entre homossexuais e a possibilidade de adoção, do aborto, do divórcio – se referem a este fato. O que os dois pólos compartilham é uma abordagem disciplinar estrita, dirigida de diferentes maneiras: os “fundamentalistas” regulam a auto-exibição feminina para prevenir provocações sexuais; os liberais feministas politicamente corretos impõem uma regulação não menos severa do comportamento, com o objetivo de conter formas de assédio.

As atitudes liberais para o outro são caracterizadas tanto pelo respeito à alteridade, a abertura a ela, quanto pelo medo obsessivo do assédio. Em suma, o outro é acolhido na medida em que sua presença não é intrusiva, na medida em que não seja, na verdade, o outro. A tolerância, portanto, coincide com o seu oposto. Meu dever de ser tolerante para com os outros significa, na verdade que não devo chegar muito próximo a ele ou ela, não me introduzir em seu espaço – em suma, que devo respeitar sua intolerância em relação ao meu excesso de proximidade. Isto está emergindo cada vez mais como direito humano central da sociedade capitalista avançada: o direito a não ser assediado, isto é, a se manter a uma distância segura dos outros. O mesmo vale para a emergente lógica do militarismo humanitário ou pacifista. A guerra é aceitável na medida em que procura trazer a paz, ou a democracia, ou as condições para distribuir a ajuda humanitária. E o mesmo não é válido para a democracia e para os próprios direitos humanos? Está tudo bem com os direitos humanos se eles são “repensados” para incluir a tortura e um Estado de emergência permanente. Está tudo bem com a democracia se ela está livre de seus excessos populistas e limitada àqueles suficientemente maduros para praticá-la.

Pegos no ciclo vicioso do imperativo da jouissance, a tentação é optar pelo que aparece como seu oposto “natural”, a renúncia violenta da jouissance. Este é, talvez, o motivo subjacente de todos os assim chamados fundamentalismos – o empenho em conter (aquilo que eles percebem como) o excessivo “narcisismo hedonista” da cultura laica contemporânea com um chamado a reintroduzir o espírito do sacrifício. Uma perspectiva psicanalítica nos permite ver, imediatamente, por que tal empenho vai mal. O próprio gesto de rejeitar o prazer – “Basta de auto-indulgência decadente! Renuncie e se purifique!” – produz por si um prazer-excedente. Não exalam todos os universos “totalitários”, que demandam de seus seguidores um violento (auto)sacrifício à causa, o mau cheiro da fascinação por uma jouissance obscena letal? De modo inverso, uma vida orientada pela busca do prazer acarretará a severa disciplina de uma “vida saudável” – corrida, dietas e relaxamento mental – para ser desfrutada ao máximo. A ordem do superego para se divertir é entrelaçada de forma imanente com a lógica do sacrifício. Ambas formam um ciclo vicioso, em que cada extremo apoia o outro. A escolha nunca é simplesmente entre fazer seu dever ou se esforçar para ter prazer e satisfação. A escolha elementar é sempre redobrada por uma adicional, qual seja, entre elevar o esforço pelo prazer a um dever supremo, e cumprir o dever não pelo dever em si, mas pelas gratificações que provoca. No primeiro caso, os prazeres são o meu dever, e o esforço “patológico” pelo prazer está localizado no espaço formal do dever. No segundo caso, o dever é o meu prazer, e cumprir meu dever se situa no espaço formal das satisfações “patológicas”.

Defesa contra o poder?
Mas se os direitos humanos, enquanto oposição ao fundamentalismo e busca pela felicidade, levam-nos a contradições inacessíveis, não são eles, afinal de contas, uma defesa contra o excesso de poder? Em suas análises sobre 1848, Marx formulou a estranha lógica de que o poder se dá “em excesso” por conta de sua própria natureza. Em O 18 de brumário de Luis Bonaparte e em As lutas de classe na França, ele “complicou” de uma forma devidamente dialética a lógica da representação social (agentes políticos representando classes e forças econômicas). Ao fazê-lo, ele foi muito além da noção usual dessas “complicações”, segundo a qual a representação política nunca reflete diretamente a estrutura social – um único agente político pode representar diferentes grupos sociais, por exemplo; ou uma classe pode renunciar a sua representação direta e deixar a outro o trabalho de assegurar as condições político-jurídicas de seu governo, assim como o fez a classe capitalista inglesa ao deixar à aristocracia o exercício do poder político. A análise de Marx aponta para aquilo que Lacan, mais de um século depois, articularia como a “lógica do significante”. A propósito do Partido da Ordem, formado após a derrota da insurreição de junho, Marx escreveu que somente a vitória eleitoral em 10 de dezembro de Luís Bonaparte permitiu a tal partido “remover” de seu círculo social os republicanos burgueses

e revelou-se o segredo de sua existência, a coalizão de orleanistas e legitimistas em um partido. A classe burguesa dividiu-se em duas grandes frações que, alternadamente – os grandes proprietários de terra durante a monarquia restaurada e a aristocracia das finanças e os burgueses industriais durante a Monarquia de julho – mantiveram um monopólio de poder. Bourbon era o título monárquico para a influência predominante dos interesses de uma fração. Órleans era o título monárquico para a influência predominante dos interesses de outra fração – o domínio sem nome da república foi o único no qual ambas as frações puderam manter, com igual poder, o interesse de classe comum sem abandonar sua rivalidade mútua (MARX e ENGELS, 1969, p. 83).

Esta, então, é a primeira complicação. Quando lidamos com dois ou mais grupos socio-econômicos, seus interesses em comum podem apenas ser representados sob o disfarce da negação de suas premissas compartilhadas: o denominador comum das duas frações monárquicas não é a monarquia, mas sim o republicanismo. (Assim como hoje em que o único agente político que representa de forma consistente os interesses do capital propriamente dito, na sua universalidade, acima de frações particulares, é a “sócio-liberal” Terceira Via). Por conseguinte, nO 18 de brumário de Luis Bonaparte, Marx disseca a composição da Sociedade de 10 de Dezembro, o exército privado de criminosos de Luís Napoleão:

Lado a lado com roués decadentes, de duvidosos meios de subsistência e de origem duvidosa, juntamente com rebentos arruinados e aventureiros da burguesia, havia vagabundos, soldados desligados do exército, presidiários libertos, escravos desertores de galés, vigaristas, charlatões, Lazzaroni, batedores de carteira, trapaceiros, jogadores, maquereaus, donos de bordéis, carregadores, literatos, tocadores de realejo, trapeiros, amoladores de facas, soldadores ambulantes, mendigos; em suma, toda essa massa indefinida e desagregada, jogada de lá para cá, a qual os franceses chamam La bohème; com estes elementos afins, Bonaparte formou o núcleo da Sociedade 10 de Dezembro (…) Este Bonaparte, que se constitui em chefe do lumpem-proletariado, que só então redescobre, em forma de massa, os interesses que pessoalmente persegue, que reconhece nesta escória, neste refugo e rebotalho de todas as classes, a única classe sobre a qual ele pode apoiar-se incondicionalmente, é o verdadeiro Bonaparte, o Bonarparte sans phrases (MARX e ENGELS, 1975, p. 149).

A lógica do Partido da Ordem é aqui trazida à sua conclusão radical. Da mesma forma que o único denominador comum de todas as frações monárquicas é o republicanismo, o único denominador comum de todas as classes é o excremento em excesso, o refugo, o resíduo de todas as classes. Isto é, na medida em que o líder se considere a si mesmo como estando acima dos interesses de classe, sua base de classe imediata pode ser apenas o resíduo de excrementos de todas as classes, os rejeitados sem classe de cada classe. E, como Marx desenvolveu em outra passagem, é este apoio do “abjeto social” que permite a Bonaparte trocar de posição segundo sua necessidade, representando, por sua vez, cada classe contra as demais.

Enquanto autoridade executiva que se fez independente, Bonaparte considera que sua tarefa é salvaguardar a “ordem burguesa”. Mas a força desta ordem burguesa repousa sobre a classe média. Ele se apresenta, portanto, como representante da classe média e emite decretos neste sentido. Todavia, ele somente é alguém porque quebrou o poder desta classe média, e segue quebrando-o diariamente. Ele se apresenta, portanto, como adversário do poder político e literário da classe média (MARX e ENGELS, 1975, p. 194).

Mas, há mais. Para que este sistema funcione – isto é, para que o líder se levante sobre as classes e não atue como representante direto de uma classe qualquer – ele também tem que atuar como representante de uma classe particular: da classe que, precisamente, não está suficientemente constituída para atuar como um agente unido que demanda representação ativa. Esta classe de pessoas que não podem representar a si mesmas e, assim, pode somente ser representadas é, por certo, a classe dos pequenos camponeses, que

formam um vasta massa, cujos membros vivem em condições similares, mas sem estabelecer múltiplas relações entre si. O seu modo de produção os isola uns aos outros ao invés de reuni-los em um intercâmbio mútuo. (...) Eles são, consequentemente, incapazes de fazer valer seus interesses de classe em seu próprio nome, seja através de um parlamento, seja por meio de uma convenção. Eles não podem representar-se, precisam ser representados. Seu representante deve, ao mesmo tempo, aparecer como seu senhor, como uma autoridade sobre eles, como um poder governamental ilimitado que os protege contra as outras classes e que do alto os envia chuva e sol. A influência política dos pequenos camponeses, portanto, encontra sua expressão final com o poder executivo que subordina a sociedade a si mesmo (MARX e ENGELS, 1975, p. 187-188).

Estas três características juntas formam a estrutura paradoxal da representação populista bonapartista: manter-se por cima de todas as classes, trocando entre elas, implica uma dependência direta sobre o abjeto/resíduo de todas as classes, aliado à referência última à classe daqueles que não são capazes de agir como um agente coletivo que demanda representação política. Este paradoxo baseia-se no excesso constitutivo da representação sobre os representados. De acordo com a lei, o poder do Estado apenas representa o interesse de seus súditos; está a serviço deles, é responsável por eles e está, ele mesmo, sujeito a seu controle. Entretanto, de acordo com o superego subjacente, a mensagem pública de responsabilidade é complementada pela mensagem obscena do exercício incondicional de poder: “As leis não me constrangem realmente, eu posso fazer a você o que eu quiser, eu posso tratá-lo como culpado se assim o decido, eu posso destruí-lo por um capricho”. Este excesso obsceno é um componente necessário da noção de soberania. A assimetria, aqui, é estrutural: a lei pode apenas sustentar sua autoridade se os súditos escutarem nelas o eco da obscena e incondicional auto-afirmação do poder.

Este excesso de poder nos leva ao argumento fundamental contra as “grandes” intervenções políticas, as quais têm por objetivo uma transformação global: as experiências aterrorizantes do século XX, uma série de catástrofes que precipitou violentos desastres em uma escala sem precedente. Há três principais teorizações sobre estas catástrofes. Em primeiro lugar, a visão simbolizada pelo nome de Habermas: o Esclarecimento é, em si, um processo emancipatório positivo sem potencial totalitário inerente; as catástrofes que ocorreram apenas indicam que permanece um projeto inacabado, e nossa tarefa deve ser completar este projeto. Em segundo lugar, a visão associada com a Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer e, hoje, com Agamben. A propensão “totalitária” do Esclarecimento é inerente e definitiva, o “mundo administrado” é sua verdadeira consequência, e os campos de concentração e os genocídios são um tipo de ponto final teleológico negativo de toda a história do Ocidente. Em terceiro lugar, a visão desenvolvida nos trabalhos de Etienne Balibar, entre outros: a modernidade inaugura um campo de novas liberdades, mas, ao mesmo tempo, de novos perigos, e não há garantia teleológica suprema do resultado. A contenda segue aberta e sem estar decidida.

O ponto de partida do texto de Balibar sobre a violência é a insuficiência da noção hegeliana-marxista padrão de “converter” a violência em um instrumento da Razão histórica, uma força que gera uma nova formação social (BALIBAR, 2002). A brutalidade “irracional” da violência é, portanto, aufgehoben, “negada” no sentido hegeliano estrito, reduzida a uma “mancha” particular que contribui para a harmonia geral do progresso histórico. O século XX nos enfrentou com catástrofes – algumas dirigidas contra as forças políticas marxistas, outras geradas pelo próprio engajamento marxista – que não podem ser “racionalizadas” desta maneira. Sua instrumentalização que as converte em ferramentas da Astúcia da Razão não é apenas eticamente inaceitável, mas também teoricamente equivocada, ideológica no sentido mais forte do termo. Em sua cuidadosa leitura de Marx, Balibar, todavia, distingue uma oscilação entre esta “teoria da conversão” teleológica da violência, e a noção muito mais interessante da história como um processo em aberto de lutas antagônicas, cujo resultado final “positivo” não está garantido por qualquer necessidade histórica que o englobe.

Balibar argumenta que, por razões estruturais necessárias, o marxismo é incapaz de pensar no excesso de violência que não pode ser integrado na narrativa do Progresso histórico. De forma mais específica, o marxismo é incapaz de gerar uma teoria adequada do fascismo e do stalinismo e seus resultados “extremos”, o holocausto [Shoah] e o gulag. Nossa tarefa é, portanto, dupla: implantar uma teoria da violência histórica como algo que não pode ser instrumentalizado por nenhum agente político, o que ameaça tragar o próprio agente em um ciclo vicioso de auto-destruição; e também propor a questão de como converter o processo revolucionário em si em uma força civilizadora. Como um contra-exemplo, tomemos o processo que levou ao Massacre do Dia de São Bartolomeu. O objetivo de Catarina de Médici era limitado e preciso: foi uma conspiração maquiavélica sua para assinar o almirante de Coligny – um poderoso protestante partidário da guerra contra a Espanha na Holanda – e deixar a culpa cair sobre a excessivamente poderosa família católica dos Guisa. Catarina buscava, assim, traçar a queda das duas casas-reais que representavam um ameaça à unidade do Estado francês. No entanto, a tentativa de colocar seus inimigos uns contra os outros degenerou em um frenesi incontrolável de sangue. Em seu cruel pragmatismo, Catarina foi cega às paixões com as quais os homens se agarram às suas crenças.

Os insights de Hanna Arendt são cruciais aqui, ao enfatizar a distinção entre o poder político e o mero exercício da violência. As organizações dirigidas por uma autoridade apolítica direta – Exército, Igreja, escola – representam exemplos de violência (Gewalt), e não de poder político no sentido estrito do termo (ARENDT, 1970). Neste ponto, entretanto, temos que recordar a distinção entre a lei pública simbólica e os seus complementos obscenos. A noção deste duplo complemento obsceno de poder implica que não há poder sem violência. O espaço político nunca é “puro”, mas sempre implica algum tipo de confiança na violência pré-política. Por certo, a relação entre poder político e violência pré-política é de implicação mútua. A violência não é apenas o complemento necessário do poder, mas o próprio poder já está sempre na raiz de toda relação aparentemente “apolítica” de violência. A violência aceita e a relação direta de subordinação no interior do Exército, da Igreja, da família e de outras formas sociais “apolíticas” são, em si mesmas, a reificação de certa luta ético-política. A tarefa das análises críticas é perceber o processo político oculto que sustenta todos essas relações “a” ou “pré” políticas. Na sociedade humana, a política é o princípio estrutural que a tudo engloba, assim, qualquer neutralização de algum conteúdo parcial indicando-o como “apolítico” é um gesto político par excellence.

A pureza humanitária
Dentro deste contexto podemos situar a proeminente questão dos direitos humanos: os direitos daqueles que estão morrendo de fome ou expostos a uma violência assassina. Rony Brauman, que coordenou a ajuda à Saravejo, demonstrou como a própria apresentação da crise como “humanitária”, a própria reformulação de um conflito político-militar em termos humanitários, foi sustentada por uma escolha eminentemente política – basicamente, para tomar partido pelo lado sérvio do conflito. A celebração da “intervenção humanitária” na Iugoslávia tomou o lugar de um discurso político, segundo argumenta Brauman, desqualificando, assim, de antemão, todo debate contrário (BRAUMAN, 2004, p. 398-199 e 416).

A partir deste insight particular podemos problematizar, em um nível geral, a política supostamente despolitizada dos direitos humanos e vê-la como uma ideologia do intervencionismo militar, que serve a fins político-econômicos específicos. Como sugerido por Wendy Brown a respeito de Michel Ignatieff, tal humanitarismo

se apresenta como espécie de uma anti-política, uma defesa pura dos inocentes e dos impotentes contra o poder, uma defesa pura do indivíduo contra as máquinas imensas e potencialmente cruéis ou despóticas da cultura, do Estado, da guerra, do conflito étnico, do tribalismo, do patriarcado, e outras mobilizações ou exemplos do poder coletivo contra os indivíduos (BROWN, 2004, p. 453).

Entretanto, a questão é: entre aqueles que intervêm em nome dos direitos humanos, que tipo de politização colocam em movimento contra os poderes a que eles se opõem? Eles são partidários de uma formulação diferente de justiça ou se opõem a projetos de justiça coletivos? Por exemplo, está claro que a derrubada de Saddam, liderada pelos Estados Unidos, legitimada em termos de pôr fim ao sofrimento do povo iraquiano, não foi apenas motivada por interesses político-econômicos pragmáticos, mas também contou com uma ideia determinada acerca das condições econômicas e políticas sob as quais era para ser entregue a “liberdade” ao povo iraquiano: capitalismo liberal-democrático, inserção na economia de mercado mundial, etc. A política meramente humanitária e anti-política de apenas prevenir o sofrimento equivale, por tanto, a uma proibição implícita de elaborar um verdadeiro projeto coletivo de transformação sócio-político.

Em um plano ainda mais geral, poderíamos problematizar a oposição entre os direitos humanos universais (pré-políticos), possuídos por qualquer ser humano “enquanto tal”, e os direitos políticos específicos de um cidadão ou membro de uma comunidade política particular. Neste sentido, Balibar (2004, p. 320-321) argumenta pela “reversão da relação teórica e histórica entre “homem” e “cidadão” que prossegue “explicando como o homem é formado pela cidadania e não a cidadania pelo homem”. Balibar faz alusão aqui ao insight de Arendt sobre a condição de refugiados:

A concepção dos direitos humanos baseada na suposta existência de um ser humano como tal rompeu-se no exato momento em que aqueles que declaravam acreditar nesta concepção foram, pela primeira vez, confrontados com pessoas que tinham perdido, de fato, todas as demais qualidades e relações específicas, exceto a de seguir sendo humanas (ARENDT, 1958, p. 297).

Esta direção, por certo, conduz diretamente à noção de homo sacer de Agamben enquanto um ser humano reduzido à “vida nua”. Em uma dialética propriamente hegeliana do universal e do particular, o ser humano – em um único movimento – deixa de ser reconhecido ou tratado como humano precisamente quando fica desprovido de uma identidade particular sócio-política que responde por esta cidadania determinada. Paradoxalmente, fico privado dos direitos humanos no momento preciso em que sou reduzido a um ser humano “em geral”, e venho a ser, portanto, o portador ideal daqueles “direitos humanos universais”, os quais pertencem a mim independentemente de minha profissão, sexo, cidadania, religião, identidade étnica etc.

O que acontece, então, com os direitos humanos quando estes são os direitos do homo sacer, daqueles excluídos da comunidade política; isto é, quando estes não são úteis, porque são os direitos daqueles que, precisamente, não têm direitos e são tratados como não humanos? Jacques Rancière propõe uma notável inversão dialética: “Quando eles não são úteis, se faz o mesmo que pessoas caridosas fazem com suas roupas velhas. Elas são dadas aos pobres. Aqueles direitos que parecem inúteis em seu lugar são mandados para o exterior, junto a remédios e roupas, a pessoas desprovidas de remédios, roupas e direitos”. Todavia, eles não se tornam vazios, porque “nomes políticos e lugares políticos nunca se tornam meramente vazios”. Ao invés disso, o vazio é preenchido por alguém ou algo distinto.

Se aquele que sofre uma repressão desumana é incapaz de decretar os direitos humanos que são seu último recurso, então alguém tem que herdar seus direitos para decretá-los em outro lugar. Isto é o que chamo de “direito de interferência humanitária” – um direito que algumas nações adotam para suposto benefício de populações vitimizadas, e, muito frequentemente, contra a recomendação das próprias organizações humanitárias. O “direito à interferência humanitária” poderia ser descrito como uma espécie de “devolução ao remetente”: os direitos não usados, que foram enviados aos carentes em direitos, são devolvidos aos remetentes (RANCIÈRE, 2004, p. 307-309).

Assim, para colocar na forma leninista: hoje, o que os “direitos humanos de vítimas sofredoras do Terceiro Mundo” efetivamente significam, no discurso dominante, é o direito das próprias potências do Ocidente de intervir política, econômica, cultural e militarmente em países do Terceiro Mundo de sua escolha, em nome da defesa dos direitos humanos. A referência à formula de Lacan da comunicação (na qual o remetente recebe sua própria mensagem de volta do receptor-destinatário em sua forma invertida, isto é, verdadeira) vem bem ao caso aqui. No discurso dominante do intervencionismo humanitário, o Ocidente desenvolvido está, efetivamente, recebendo de volta, do Terceiro Mundo vitimizado, sua própria mensagem em sua forma verdadeira.

No momento, então, em que os direitos humanos são despolitizados, o discurso relacionado a eles precisa mudar: a oposição pré-política entre o Bem e o Mal deve ser mais uma vez mobilizada. Portanto, o atual “novo reino da ética”, claramente invocado, por exemplo, no trabalho de Ignatieff, conta com um ato violento de despolitização, privando o outro vitimizado de qualquer subjetivação política. E, como assinalado por Rancière, o humanitarismo liberal à la Ignatieff vai ao encontro, inesperadamente, da posição “radical” de Foucault ou Agambem com relação a esta despolitização: a noção desses autores de “biopolítica”, como a culminação do pensamento ocidental, acaba caindo em um tipo de “armadilha ontológica”, na qual campos de concentração aparecem como destinos ontológicos: “cada um de nós poderia estar na situação de refugiado em um campo. Qualquer diferença entre a democracia e o totalitarismo se esvai e qualquer prática política prova estar já enredada na armadilha biopolítica” (RANCIÈRE, 2004, p. 301).

Chegamos, portanto, a uma posição “anti-essencialista” padrão, uma espécie de versão política da noção de Foucault de que o sexo é gerado pela multiplicidade de práticas de sexualidade. O “homem”, o portador dos direitos humanos, é gerado por um conjunto de práticas políticas que materializam a cidadania; os “direitos humanos” são, enquanto tais, uma falsa universalidade ideológica, que mascara e legitima a política concreta do imperialismo, das intervenções militares e do neocolonialismo ocidentais. Isto é, entretanto, suficiente?

O retorno da universalidade
A interpretação sintomática marxista pode demonstrar, de forma convincente, o conteúdo que fornece à noção de direitos humanos o seu específico giro ideológico burguês: os direitos humanos universais são, com efeito, o direito dos homens brancos proprietários a trocar livremente no mercado, explorar trabalhadores e mulheres, e exercer dominação política. Esta identificação do conteúdo particular que hegemoniza a forma universal é, contudo, somente a metade da história. Sua outra metade crucial consiste em fazer uma questão suplementar ainda mais difícil: aquela sobre a emergência da própria forma de universalidade. Como – em que condições históricas específicas – a universalidade abstrata se tornou um “fato da vida (social)”? Em que condições os indivíduos se experimentam a si mesmos enquanto sujeitos de direitos humanos universais? Aqui reside o ponto central da análise de Marx do “fetichismo da mercadoria”: em uma sociedade na qual predomina a troca de mercadoria, os indivíduos, em sua vida diária, fazem referência a si mesmos e aos objetos que encontram como personificações contingentes de noções universais abstratas. O que eu sou, em relação às minhas experiências sociais e culturais concretas, é vivenciado como contingente, pois o que me define fundamentalmente é a capacidade universal “abstrata” de pensar ou de trabalhar. Do mesmo modo, qualquer objeto que possa satisfazer meu desejo é vivenciado como contingente, pois o meu desejo é concebido como uma capacidade formal “abstrata”, indiferente à multiplicidade de objetos particulares que podem, mas sem nunca conseguir completamente, satisfazê-lo.

Ou tomemos o exemplo da “profissão”: a noção moderna de profissão significa que me experimento como um indivíduo que não “nasceu” diretamente no seu papel social. No que me transformarei depende da interação entre circunstâncias sociais contingentes e minha livre escolha. Neste sentido, o indivíduo de hoje tem uma profissão – como eletricista, garçom ou conferencista –, enquanto não faz sentido alegar que o servo medieval era camponês por profissão. Nas condições sociais específicas da troca de mercadorias e da economia de mercado global, a “abstração” torna-se uma característica direta da vida social atual, a forma em que indivíduos concretos se comportam e se relacionam com seus destinos e com seu ambiente social. A este respeito, Marx compartilha a ideia de Hegel, segundo a qual a universalidade surge “por si mesma” somente quando os indivíduos não mais identificam completamente o âmago de seu ser com a sua situação particular; somente na medida em que se experimentam como “deslocados” para sempre dela. A existência concreta da universalidade é, desta maneira, o indivíduo sem um lugar adequado no edifício social. Portanto, o modo de aparição da universalidade, sua entrada na existência real, é um ato extremamente violento de romper o equilíbrio orgânico anterior.

Não é suficiente assinalar a gasta noção marxista sobre a diferença entre a aparência ideológica da forma jurídica universal e os interesses particulares que efetivamente o sustentam. Neste ponto, o contra-argumento (apresentado, entre outros, por Lefort e Rancière), segundo o qual a forma nunca é “mera” forma, mas envolve uma dinâmica própria, que deixa traços na materialidade da vida social, é totalmente válido. Foi a “liberdade formal” burguesa que colocou em movimento as demandas políticas e práticas bem “substanciais” do feminismo e do sindicalismo. A ênfase básica de Rancière reside na ambiguidade radical da noção marxista da “diferença” [gap] entre a democracia formal – os Direitos do Homem, as liberdades políticas – e a realidade econômica de exploração e dominação. Esta diferença pode ser lida na forma “sintomática” padrão: a democracia formal é uma expressão necessária, porém ilusória de uma realidade social concreta de exploração e de dominação de classe. Contudo, também pode ser lida em um sentido mais subversivo de uma tensão na qual a “aparência” da égaliberté não é uma “mera aparência”, mas contém uma eficácia própria, o que a permite pôr em movimento a rearticulação das relações socioeconômicas reais por meio de sua progressiva “politização”. Por que às mulheres também não deveria ser permito o voto? Por que as condições de trabalho não deveriam ser também uma questão de interesse público?

Poderíamos aplicar neste momento o velho termo de Lévi-Strauss de “eficácia simbólica”: a aparência da “égaliberté” é uma ficção simbólica que, como tal, possui eficácia real própria; a tentativa particularmente cética de reduzi-la a uma mera ilusão, que oculta uma realidade diferente, deve ser repelida. Não é suficiente apenas firmar uma articulação autêntica de uma experiência do mundo e da vida que depois é reapropriada por aqueles que estão no poder para servir aos seus interesses particulares ou para fazer de seus súditos dóceis peças na engrenagem social. Muito mais interessante é o processo oposto, no qual algo, que era originalmente um edifício ideológico imposto por colonizadores, é tomado subitamente em seu conjunto pelos súditos como uma maneira de articular suas queixas “autênticas”. Um caso clássico seria o da Virgem de Guadalupe, no México recém-colonizado: com a sua aparição a um humilde índio, o cristianismo – que até então servia como uma ideologia imposta pelos colonizadores espanhóis – foi apropriado pela população indígena como um meio para simbolizar sua terrível condição.

Rancière propôs uma solução muito elegante à antinomia entre os direitos humanos, pertencentes ao “homem como tal”, e a politização dos cidadãos. Embora os direitos humanos não possam ser postulados como um Além a-histórico e “essecialista” em relação à esfera contingente das lutas políticas, como “direitos naturais do homem” universais dissociados da história, eles também não deveriam ser descartados como um fetiche reificado, produto do processo histórico concreto de politização dos cidadãos. A diferença entre a universalidade dos direitos humanos e os direitos políticos dos cidadãos não é, portanto, uma diferença entre a universalidade do homem e a especificidade da esfera política. Mais propriamente, esta diferença “separa toda a sociedade de si mesma” (RANCIÈRE, 2004, p. 305). Longe de serem pré-políticos, os “direitos humanos universais” designam o espaço preciso da politização propriamente dita, eles equivalem ao direito de universalidade como tal – o direito de um agente político em declarar sua não-coincidência radical consigo mesmo (na sua identidade particular), para postular a si mesmo como o “supra-numerário”, aquele sem lugar adequado no edifício social; e, portanto, como um agente da universalidade do social em si. Por conseguinte, o paradoxo é muito preciso e simétrico em relação ao paradoxo dos direitos humanos universais como os direitos daqueles reduzidos à inumanidade. No exato momento em que tentamos conceber os direitos políticos dos cidadãos sem fazer referência aos direitos humanos universais “meta-políticos”, perdemos a própria política; isto é, reduzimos a política a um jogo “pós-político” de negociação de interesses particulares.

Referências
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ARENDT, Hannah. On Violence. New York, 1970. [Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009].

_______. The Origins of Totalitarianism. New York, 1958. [As origens do totalitarismo. São Paulo: Cia. das Letras, 1989].

BALIBAR, Etienne. ‘Gewalt’: entry for Historisch-Kritisches Wörterbuch des Marxismus, vol. 5, Hamburg: Wolfgang Fritz Haug, 2002.

______. Is a Philosophy of Human Civic Rights Possible? South Atlantic Quarterly, Durham, v. 103, n. 2-3, 2004.

BRAUMAN, Rony. From Philanthropy to Humanitarianism. South Atlantic Quarterly, Durham, v. 103, n. 2-3, 2004.

BROWN, Wendy. Human Rights as the Politics of Fatalism, South Atlantic Quarterly, Durham, v. 103, n. 2-3, 2004.

JEZERNIK, Bozidar. Wild Europe: The Balkans in the Gaze of Western Travellers. London, 2004.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Selected Works, vol. I. Moscow, 1969.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Selected Works, vol. XI. Moscow, 1975. [publicações em português citadas: Karl Marx, Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978 e A revolução antes da revolução, vol. II. São Paulo: Expressão Popular, 2008].

RANCIÈRE, Jacques. Who is the Subject of the Rights of Man? South Atlantic Quarterly, Durham, v. 103, n. 2-3, 2004.

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