Mostrando postagens com marcador Paul Burkett. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paul Burkett. Mostrar todas as postagens

1 de maio de 2017

Um ponto de inflexão eco-revolucionário? Aquecimento global, os dois negacionismos climáticos e o proletariado ambiental

O artigo explora a urgência de uma ruptura transformadora frente à crise climática, argumentando que não apenas a negação ideológica das alterações climáticas, mas também a negação estrutural arraigada no funcionamento do capitalismo — que impede uma resposta efetiva — estão levando o planeta a um ponto de inflexão ecológico revolucionário. Burkett introduz o conceito de “proletariado ambiental” como a força social coletiva emergente — composta por trabalhadores, povos indígenas, populações periféricas — que se vêem diretamente afetados pelos efeitos da devastação ambiental e que, no entanto, têm potencial para liderar uma nova fase de luta social cujo objetivo vai além da simples mitigação, propondo uma reestruturação radical das relações entre produção, natureza e sociedade.

Paul Burkett


Monthly Review Vol. 69 (2017–2018), No. 01 (May 2017)

Tradução / No verão de 2016, a aceleração da mudança climática fez outra vez manchetes. Em julho, a Associação Meteorológica Mundial anunciava que os seis primeiros meses de 2016 haviam quebrado todos os recordes globais de temperatura, sendo junho o décimo-quarto mês numa série de recordes de calor tanto em terra quanto nos oceanos e o 378.º mês consecutivo de temperaturas mais elevadas que a média histórica. O aquecimento tem sido especialmente rápido nas regiões árticas, onde, por efeito do derretimento, grandes quantidades de metano e dióxido de carbono vêm sendo liberadas. Em 21 de julho de 2016, a temperatura em lugares como Kuwait e Iraque atingiu 129º F, a mais alta jamais registrada no hemisfério oriental. Os efeitos disruptivos do aquecimento bipolar ficaram evidentes com o cruzamento sem precedentes do equador pela corrente oceânica do hemisfério norte, onde esta se fundiu com aquela do hemisfério sul, ameaçando ainda mais a integridade das estações com impactos imprevisíveis nos extremos climáticos e em todo o sistema.[1] Enquanto isso, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente descrevia o Acordo de Paris de dezembro de 2015 como “ultrapassado antes mesmo de entrar em vigor”, com os climatologistas projetando um aquecimento global de pelo menos 3,4º C (mais que dobrando o limite de 1,5º C supostamente estabelecido no acordo) mesmo se os objetivos de emissões prometidos pelas nações signatárias forem de alguma forma alcançados, apesar da falta de mecanismos vinculantes. “O mundo ainda estará emitindo 54-56 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalentes por ano por volta de 2030 na atual perspectiva, bem acima das 42 gigatoneladas, limite necessário para deter o aquecimento em 2 graus Celsius,” segundo o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.[2]

É difícil não observar a ironia histórica da situação. Duas décadas antes, diziam-nos que o capitalismo neoliberal assinalava o “fim da história.” Agora, tudo indica que os ideólogos do sistema podem ter tido razão, mas não do jeito que imaginavam. O Sistema de capitalismo neoliberal baseado em combustíveis fósseis está de fato levando ao fim da história, mas apenas no sentido do fim de qualquer avanço histórico da humanidade enquanto espécie produtiva, cultural ou política devido à crescente barbárie das condições ambientais e socioeconômicas criadas pelo sistema. Não há agora alternativa ao fim da história tal como a conhecemos. O desenvolvimento sustentável da sociedade humana, em coevolução com a natureza, inclusive com as outras espécies, depende agora de uma ruptura histórica definitiva com o capitalismo (trabalho assalariado, mercado competitivo, produção para o lucro) como modo de produção dominante. Esta é a principal lição de três livros recentemente publicados: Facing the Anthropocene, de Ian Angus; Fossil Capital, de Andreas Malm e This Changes Everything, de Naomi Klein. Para resolver a crise climática – a qual é apenas parte de uma mais ampla crise ambiental criada pelo capitalismo – a produção competitiva, guiada pelo lucro sob o desigual controle de classes, deve ser substituída por um sistema no qual o povo trabalhador e suas comunidades coletivamente e democraticamente regulem a produção e outras interação com seu meio ambiente material e social. O desenvolvimento sustentável de pessoas coevoluindo cooperativamente de maneira saudável com outras espécies deve substituir a competição e a exploração motivadas pelo lucro e a competição como força motriz mor na produção e no inteiro sistema de abastecimento material. Negar que a crise climática está conectada com o capitalismo, e que precisamos de um novo sistema para lidar com ela, é simplesmente tão enganador e tão perigoso quanto negar a existência de um aquecimento global induzido pelos seres humanos. Ambas as formas de negacionismo devem ser superadas tanto na teoria quanto na prática.

Levei necessariamente para casa esta lição no último outono com o crescimento da monumental luta dos Sioux de Standing Rock, seus aliados indígenas e seus simpatizantes contra o oleoduto Dakota Access. Alinhados com o “capitalismo de sempre”, a mídia e o presidente Obama só deram respostas visíveis a esta luta (e isso muito timidamente) quando os manifestantes foram fisicamente atacados pela polícia e pelas forças de segurança das corporações, sendo isso transmitido ao vivo pela guerrilha informativa em Internet, ao que se seguiu a chegada de militares veteranos e milhares de outras pessoas (inclusive algumas figuras de peso do mundo politico e do entretenimento) para apoiar os protetores da água. Enquanto a mídia corporativa e Obama descreviam o conflito como sendo apenas uma questão hídrica e fundiária local, muitos indígenas e seus aliados viam-no como uma luta pela proteção de toda a Terra contra um sistema econômico cujo imperativo de extração de combustíveis fósseis para o lucro não reconhece a integridade do território e de seus habitantes como uma teia de forças vivas físicas, culturais, e espirituais.[3] Outra razão pela qual todos devemos ler os livros supracitados é que, tomados em seu conjunto, eles fornecem uma poderosa análise do significado político de lutas aparentemente locais sobre direitos fundiários, como Standing Rock- desmentindo assim o pensamento sobre o fim da História. Eles mostram que conflitos sobre oleodutos e outras instalações relativas a combustíveis fósseis podem ser vistos como a vanguarda de uma intensificação da luta de classes global entre os setores dominantes do capital e o que John Bellamy Foster e outros denominaram como “proletariado ambiental”.[4]

Embora os três livros se sobreponham em sua coberta da história e da economia política da crise climática, eles têm a vantagem de apresentar análises complementares distintas. Angus analisa o aquecimento global através de uma interpretação ecológica marxista do Antropoceno, definido pelos cientistas naturais como uma nova época da história biosférica na qual os humanos desempenham um papel primordial na alteração dos processos geológicos globais, incluindo o clima.

Já o livro de Malm detalha as íntimas conexões entre a queima de combustíveis fósseis (a principal fonte de mudança climática induzida pelos humanos) e o desenvolvimento do capitalismo industrial – uma convergência que ele nomeia “capital fóssil.” Sua análise histórica estabelece que o uso de combustíveis fósseis na economia não se deve a considerações gerais de escassez ou eficiência técnica, mas antes a exigências da exploração de mão-de-obra, e à preferência do sistema pela competição privada sobre a cooperação social no campo do uso de energia.

Finalmente, Naomi Klein enfoca o papel das políticas neoliberais como um facilitador do capitalismo baseado em combustíveis fósseis e como uma barreira contra as soluções à crise climática socialmente progressistas e sustentáveis. Ela argumenta que a crise pode ser transformada em oportunidade positiva na medida em que se possa esclarecer a radical oposição entre capitalismo e valores ecológicos, mas isso apenas à condição de podermos combater o uso oportunista do capitalismo neoliberal de desastres climáticos para implementar retrógrados “remendos” tecnicistas de livre mercado, nisso incluindo a chamada “engenharia climática”. Klein descreve como os proletários ambientais (ou, como ela os nomeia, os “bloqueadores”) estão forjando combinações inovadoras de indígenas, comunheiros, feministas e formas científicas de pensar, na medida em que resistem às incursões de projetos de extração e transporte de combustíveis fósseis em terras comunais e começam a construção de uma alternativa sustentável ao capital fóssil.

Para o objetivo a que ora me proponho, no entanto, convém começar pela síntese da ciência climática e pela história moderna do capitalismo feitas por Angus.

Uma crise material e histórica

Angus não vê a mudança climática como uma questão isolada. Para ele, não se trata de um problema ambiental separado, que possa ser tratado isoladamente. Ao invés disso, ele o situa numa vasta tendência de atividades humanas (especialmente a produção e o consumo, mas também as operações militares) de provocar efeitos ambientais de grande monta. Com base no trabalho de cientistas do Sistema-Terra, ele argumenta que, no fim dos anos 40, o mundo entrou numa nova época geológica, o Antropoceno, na qual impactos ambientais causados pelo homem se tornaram a principal força motriz das mudanças no sistema-Terra como um todo, e que estes impactos planetários estão agora colocando em perigo as condições necessárias a um saudável e estável desenvolvimento da civilização humana. Nem precisa falar das ameaças que pairam sobre as espécies não humanas. Na era do Antropoceno, a capacidade de produção e consumo humanos (e as atividades militares) está atingindo pontos de inflexão além dos quais haverá impactos amplos e parcialmente imprevisíveis para toda uma variedade global de subsistemas geológicos.

Além do sistema climático, estes pontos de inflexão abrangem questões como: (1) declínio da integridade da biosfera – redução da diversidade da vida, funcionalmente e geneticamente falando. (2) a capacidade dos sistemas ecológicos para absorver e se adaptar à introdução de novas entidades (novas substâncias químicas e biológicas) consistentes com estados do sistema favoráveis à vida humana e a outras formas de vida; (3) depleção da camada de ozônio, ou seja, redução da concentração de ozônio na estratosfera, a qual aumenta a exposição da vida terrestre a cânceres causados pela radiação ultravioleta. (4) acidificação dos oceanos, a qual destrói as cadeias alimentares oceânicas e suas afins, começando por corais, plâncton e conquícolas; (5) fluxos biogeoquímicos, especialmente dos ciclos do nitrogênio e do fósforo, que têm sido sobrecarregados por escoamentos de fertilizantes em reservas de água doce e nos oceanos, mais uma vez destruindo sistemas ecológicos. (6) transformação do sistema-solo, ou seja, a expansão da agricultura e de outras atividades sobre pradarias, savanas e áreas florestais; (7) uso de água doce, a absorção da água doce pela agricultura e pela indústria está rapidamente atingindo um limite global, e muitas áreas já alcançaram seus limites regionais; (8) Poluição atmosférica, ou “carga atmosférica de aerosóis”, a qual está relacionada a 7,2 milhões de mortes por ano.[5]

O íntimo entrelaçamento entre estes fenômenos deveria ser algo óbvio. Por exemplo, o desflorestamento piora o aquecimento global, o qual em seguida leva ao derretimento acelerado e à exposição de zonas de turfa em todo o mundo, o que posteriormente acelera as emissões de gases de efeito estufa, e assim por diante. (Enquanto eu escrevia este artigo, o New York Times reportava que “no outono de 2015, os incêndios em zonas de turfa da Indonésia lançaram mais carbono por dia que toda a União Europeia.”)[6] A poluição das águas por escoamento de fertilizantes e a acidificação dos mares afetam a integridade do sistema oceânico. Tais interligações aumentam a probabilidade de que estes pontos de inflexão do sistema ambiental se cruzem, levando a mudanças abruptas e irreversíveis altamente imprevisíveis, e o que é ainda mais importante: tornar-se-á difícil para a humanidade dar respostas que posam manter o planeta como “uma zona do espaço operacionalmente segura para a humanidade.”[7]

O relato de Angus sobre a emergência do conceito de Antropoceno dentro da comunidade científica e os dados que ele organizou para apoiar sua explanação deveriam por um ponto final a qualquer persistente dúvida sobre a realidade multidimensional da crise ambiental planetária. Não obstante, Angus vê claramente a dinâmica climática não apenas como a mais ameaçadora, mas também como a força primária que guia a crise climática do Antropoceno como um todo. Para entender isso, pode-se primeiro reconhecer que, para Angus, o Antropoceno não pode ser adequadamente compreendido apenas pela ciência natural. A produção energética e material da atividade humana e seus efeitos ecológicos não devem ser considerados separadamente das relações sociais específicas que historicamente estruturam esta atividade. Isto significaria render-se àqueles que tratam a crise como um resultado direto da natureza humana ou de uma ética ecologicamente incorreta ou de valores não historicamente considerados – um beco sem saída analítica e politicamente falando. A crise é, em suma, tanto histórica quanto material e deve ser analisada como tal, usando as ferramentas do materialismo histórico. Assim, Angus vê “o projeto Antropoceno como uma oportunidade para unificar a análise marxista ecológica e o as últimas pesquisas científicas numa única síntese.”[8]

Por conseguinte, Angus explica o desenrolar do Antropoceno não como um repentino ataque de mania global de crescimento econômico, mas como o produto histórico de um sistema total de produção e consumo capitalistas, de atividades militares. Esse sistema só se consolidou globalmente, com sua base central nos Estados Unidos, nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, e ele depende crucialmente da extração, da queima e do processamento industrial de combustíveis fósseis. Como diz Angus: “Os combustíveis fósseis não são uma camada que posa ser descascada do capitalismo, deixando o sistema intacto. Eles estão embutidos em cada aspecto do sistema.”[9] É neste sentido histórico que Angus vê as raízes do Antropoceno no crescimento do “capitalismo fóssil” em escala global, liderado pelos Estados Unidos. Esta afirmação é, em parte, baseada na análise histórica de Malm de uma íntima afinidade entre as relações capitalistas e o uso de combustíveis fósseis (ver a próxima parte do artigo). Angus também se baseia na reconstrução de John Bellamy Foster da análise de "fratura metabólica" de Marx sobre a crise ambiental, especialmente as tensões entre o ritmo e o padrão espacial dos fluxos matéria-energia como estruturados pela produção capitalista e os fluxos necessários a uma reprodução saudável e sustentável dos sistemas ecológicos. O imperativo de constante crescimento do capital, para acelerar a acumulação de mais valia (um imperativo reforçado pela competição), também vai muito longe para explicar a invasão sem precedentes da produção humana nos limites da biosfera- uma intrusão crucialmente possibilitada pelo processamento e pela queima de combustíveis fósseis.[10]

Como já referido acima, no entanto, Angus dá a estas questões gerais uma muito concreta significação em sua análise do “complexo petrolífero-automobilístico”, cujos desenvolvimentos tiveram por centro inicial os Estados Unidos. Este complexo implicou muito mais que carros e gasolina. Através de várias articulações tecnológicas e de oferta e procura, a “automobilização” (nisso incluindo o desenvolvimento industrial e a suburbanização residencial) e o uso intensivo de combustíveis fósseis foram peças chave em todo o sistema de acumulação do pós Segunda Grande Guerra, englobando setores econômicos importantes como a química industrial, siderurgia, plásticos, transporte de mercadorias, transporte aéreo, construção, agroindústria (pesticidas, fertilizantes, alimentação animal, maquinaria agrícola, etc.), sendo o inteiro complexo dependente, sobretudo, de termoelétricas. Angus nos mostra claramente o papel preponderante dos combustíveis fósseis no desenvolvimento da aglomeração industrial capitalista, que finalmente pressionariam toda uma variedade de sistemas da biosfera, inclusive o sistema climático.[11]

O desenvolvimento, o crescimento e finalmente a mundialização deste complexo fóssil recebeu poderosos estímulos de uma prévia concentração de capital industrial no seio de gigantescas corporações, e da ascensão do complexo militar-industrial. Angus demonstra como a combinação de imperativos militares estratégicos durante a guerra fria (e aquela que a antecedeu), com um concentrado controle corporativo-burocrático, reforçou o movimento de produção numa trajetória ecologicamente insustentável. O complexo militar fornece um mercado já pronto para produtos do complexo capital-fóssil (armas, veículos e várias mercadorias necessárias para o sustento do pessoal militar) e abundante financiamento governamental para novos desenvolvimentos de produtos (como, por exemplo, plásticos, embalagem a vácuo e tecnologia informática inicialmente desenvolvida desta forma). Na medida em que o próprio complexo militar se torna crescentemente industrializado – um processo altamente acelerado durante as duas grandes guerras e em curso desde então – ele se torna um grande consumidor de combustíveis fósseis, e uma importantíssima fonte de emissões de carbono, precipitações radioativas e outras formas de poluição que lhe são próprias. Obviamente, ao mesmo tempo em que mantém outros países presos à órbita capitalista, uma diretiva principal do complexo militar tem sido garantir para as empresas capitalistas e para o próprio complexo militar o acesso permanente ao petróleo e a outras fontes estratégicas em todo o mundo – uma diretiva cumprida através de várias intervenções armadas pelos Estados Unidos e governos capitalistas aliados em diversas partes do mundo.[12]

Com tal sistema industrial-militar nutrido a combustíveis fósseis, não fica difícil ver por que a “idade do ouro” dos Estados Unidos e da Europa, de um crescimento econômico relativamente rápido no período 1943-1973, e a subsequente expansão da indústria capitalista monopolística transnacional para novos centros periféricos de rápida acumulação, especialmente China e lesta da Ásia, resultou no que os cientistas do sistema-Terra chamam de “Grande Aceleração” de impactos humanos no ambiente planetário.[13] O Antropoceno e a crise climática em particular são crises do capitalismo realmente existente. Isto é um fato histórico e científico. A União Soviética e os chamados países socialistas contribuíram para estas crises (e suas contribuições foram, no conjunto, certamente inferiores àquelas do capitalismo), mas isso aconteceu, sobretudo, na medida em que adotaram os sistemas industriais capitalistas baseados em combustíveis fósseis, reproduzindo assim a mesma fratura metabólica entre produção e leis da sustentabilidade ecológica.[14]

Como a mudança climática se conectou ao capitalismo

Malm vê a instalação de um motores a vapor a base de carvão pelas manufatureiras têxteis britânicas como um ponto chave crucial no desenvolvimento da economia de capital fóssil, ou seja, aquela em que os combustíveis fósseis “são utilizados através de todo o espectro da produção de mercadorias em geral”, tornando-se assim, “a alavanca geral da produção de mais-valia.”[15] Sua análise enfoca o nível do solo dos locais de trabalho industriais e da luta de classes por salários e controle da produção, estabelecendo adicionalmente as profundas raízes do Antropoceno. O fato de que o próprio Malm seja cético em relação ao Antropoceno não deve nos deter. Sua preocupação é que alguns teóricos do Antropoceno ignoraram ou minimizaram as origens capitalistas da economia fóssil e ao invés disso atacaram a natureza humana ou algum “pecado original”, como o uso inicial do carvão ou do petróleo ou até mesmo a descoberta do fogo. Malm parece ter escrito seu livro antes de Angus mostrar que é possível reconfigurar o Antropoceno em termos marxistas enfocando o papel chave das relações capitalistas. De fato, o amplo tratamento que Angus dá ao complexo fóssil incorpora perfeitamente os principais pontos da análise de Malm sobre o capital fóssil. O que resta desta controvérsia amplamente semântica parece implicar principalmente o método de datação da transição. Começou o Antropoceno quando a produção humana de fato passou a ter impactos significativos sobre o meio ambiente? Esta abordagem, adotada por Angus e por outros, dataria o Antropoceno a partir do final dos anos 1940, quando o complexo fóssil se consolidou e começou sua longa expansão do pós-guerra.[16] Uma convenção alternativa, consistente com o espírito da análise de Malm, dataria a transição num período bem anterior, na Revolução Industrial do século XIX, quando as bases da economia fóssil foram lançadas com a adoção do carvão nos mais importantes setores manufatureiros e em todos os setores do transporte. Dado o caráter historicamente cumulativo das emissões de carbono da economia fóssil e outros impactos ambientais, pode-se aceitar como viáveis ambas as abordagens.

O que importa não é o método formal de datação das transições, mas antes o enfoque consistente no caráter capitalista de todo o processo histórico. Uma distinção chave que permite a Malm manter este foco é aquela entre economia fóssil e economia protofóssil. O uso o carvão para aquecer edificações e para o aquecimento da produção manufatureira é bem anterior à Revolução industrial. É preciso distinguir tal uso pré-industrial da economia fóssil moderna na qual “o crescimento autossustentado” está “baseado no crescimento do consumo de combustíveis fósseis... gerando um crescimento sustentável das emissões de dióxido de carbono."[17] Por conseguinte, Malm descreve a economia protofóssil como “aquela na qual (1) uma indústria do carvão se desenvolveu, com minas no subsolo e uma comércio regular; (2) o carvão se tornou a maior fonte de aquecimento na esfera doméstica; (3) o carvão penetra na indústria como fornecedor de aquecimento; (4)o consumo doméstico é predominante ; e (5) impressionantes taxas de crescimento no consumo de carvão são atingidas durante as fases de substituição, sem nenhum crescimento econômico autossustentável sendo baseado em combustíveis fósseis.”[18]

Essa distinção entre economia fóssil e economia protofóssil permite facilmente a Malm desconsiderar argumentos malthusianos segundo os quais a transição para a economia fóssil deveu-se ao crescimento populacional e consequente escassez de madeira e outros combustíveis. Os malthusianos, obviamente, confundem o aumento transitório da demanda de carvão sob a economia protofóssil com a muito mais explosiva economia fóssil, um processo autossustentado do uso de carvão na indústria. Como demonstra Malm, a principal fonte da crescente demanda por carvão depois de 1830 foram os motores industrial a vapor, e não as funções associadas à economia protofóssil. Para dizer simplesmente, a crucial significação da Revolução Industrial foi que ela “dissociou a queima de carvão do crescimento populacional.” A “espiral” da aceleração da combustão fóssil foi “iniciada no momento em que os grilhões da fertilidade foram rompidos – ou seja, quando a população deixou de determinar o padrão do consumo de carvão.” [19] Acrescente-se a isso que a Inglaterra sofreu de uma escassez de madeira durante os séculos XVI, XVII e durante o começo do século XVIII, que não se deveu principalmente ao crescimento da população como tal, mas antes à crescente demanda de carvão vegetal para o derretimento do ferro. A substituição do carvão por carvão vegetal (através de novo processo de cozimento para derretimento do ferro) implicou assim um efeito transicional dentro da economia protofóssil, que teve pouca ou nenhuma significação para a futura economia fóssil e para a mudança climática.[20]

A distinção entre fóssil e protofóssil é útil à análise de Malm para enfocar a transição histórica entre estas duas modalidades econômicas. A questão chave se torna então: como o crescimento econômico autossustentável se tornou a principal força motriz da queima de carvão durante a Revolução Industrial? Em um nível, a questão responde a si mesma. Só há um único sistema econômico a gerar crescimento autossustentável e combustão fóssil ao ponto de causar a mudança climática: o capitalismo. Isso porque o capitalismo é o único sistema guiado pela competição para obtenção de crescentes valores monetários pela extração de mais valia dos trabalhadores na produção através de todos os meios necessários, inclusive através de combustíveis fósseis. Naturalmente, o diabo reside nos detalhes. Exatamente como e porque a queima de fósseis foi adotada e depois generalizada no processo de industrialização capitalista? Aqui, Malm nos dá a segunda parte de sua explicação. A primeira parte baseia-se na análise madura de Marx sobre os sistemas fabris e o maquinário industrial da indústria têxtil britânica. No volume 1 do Capital, Marx ressaltou que um prerrequisito para que os capitalistas mecanizassem e aplicassem totalmente fontes de poder externas à produção era a remoção do controle sobre o processo de trabalho dos trabalhadores no chão de fábrica. Isso pressupunha que os trabalhadores estivessem alienados do controle sobre as ferramentas e o maquinário empregados na produção – e tão alienação é uma característica determinante das relações de classe capitalistas. Mas esta alienação aconteceu em duas etapas, as quais Marx chamou submissão real e submissão formal do trabalho sob o capital. a submissão formal, o capitalista estabelece o controle sobre os meios de produção, mas não ainda os transforma de maneira a garantir a reprodução da relação capitalista. Aqui, os trabalhadores mantêm algum controle sobre os processos laborais, porque suas habilidades, desde então sua força motriz – seu próprio poder animado – ainda limita o ritmo da produção. Na submissão real, por contraste, os capitalistas mecanizam a produção para liberá-la dos impedimentos residuais colocados pelo trabalho habilidoso, deixando que o processo seja cada vez mais guiado por poderosas fontes externas. Em suma, a submissão real, que Marx vê nos sistemas fabris mecanizados e integrados, completa a tríplice alienação dos trabalhadores dos meios de produção, do processo laboral e das fontes de energia usadas na produção.[21]

A primeira parte da análise de Malm detalha a transição da submissão formal à submissão real na indústria têxtil britânica. Ele descreve como a longa explosão do setor algodoeiro terminou com severas crises de superprodução, começando em 1825 e terminando em 1848. Quedas de preços e lucros e a ameaça de bancarrota fizeram com que capitalistas individuais buscassem a redução dos salários e a aceleração das cadências, levando a ondas de sindicalização, greves e intensificação da luta de classes no ponto da produção. Em resposta, os capitalistas buscaram soluções mecânicas para seus “problemas laborais”: a máquina de fiar à energia hidráulica, o tear de algodão e as máquinas de escovar (com teares mecânicos) no setor lanífero. Na medida em que “a mecanização se espalhou por outros setores além do algodoeiro, a demanda pelo trabalho dos fabricantes de máquinas naturalmente cresceu,” após o que os sindicatos destes mestres artesãos “fizeram com que subissem salários e preços.” As pressões por submissão real se espalharam ao setor de maquinário, onde novas “máquinas-ferramenta” foram criadas e instaladas – “Cujo princípio básico era um instrumento autônomo para cortar ou moldar um objeto, com o poder de um motor primário não-humano e a precisão dentro do próprio instrumento.”[22] Enquanto isso, a mecanização da fiação, tecelagem e de outras operações facilitou a aplicação conjunta de um único "motor central" em fábricas combinadas que "integraram toda a cadeia produtiva em um complexo expandido".[23]

Uma questão-chave colocada aos capitalistas era o que seria o "principal motor" da produção mecanizada. Os principais competidores para este papel eram água, rodas e motores a vapor movidos a carvão. Até aquele momento, a energia hidráulica havia sido predominante na indústria britânica. Por que o carvão assumiu seu lugar? A resposta está na segunda parte da análise de Malm. Contrariamente à narrativa Ricardo-malthusiana, a vitória do carvão sobre o “fluxo hidráulico” tem pouco a ver com qualquer absoluta ou relativa escassez da energia hidráulica. Durante a transição para a energia a vapor “não havia escassez de água no horizonte, nem mesmo nos principais centros de produção algodoeira.” De fato, o que havia era “uma abundância generalizada de bacias hidrográficas inexploradas” em todo o crucial período de transição. Além do mais, não havia “sinal de nenhuma queda substancial nos preços do carvão nas décadas de transição e nenhuma revolução tecnológica na atividade mineira do carvão.” O custo da unidade de energia hidráulica era evidentemente menos que aquele da energia a carvão até os anos 1870. Em suma, “A transição para o carvão na indústria algodoeira britânica ocorreu apesar de uma persistente vantagem dos preços da energia hidráulica.[24]

Como mostra Malm, a principal razão da vitória do carvão é que ele era mais compatível com a exploração do trabalho assalariado. A portabilidade do carvão permitiu que os capitalistas deslocassem a produção para cidades maiores, com abundantes fontes de força de trabalho e suprimentos criadas por prévias migrações das áreas rurais despovoadas pela capitalização da agricultura. O movimento em larga escala da indústria para as cidades resultou em aglomerações econômicas (proximidade dos mercados, fornecedores, serviços de negócios, etc.) que vieram a beneficiar os capitalistas. Em suma, “concentrações de população treinadas para hábitos diligentes – como mercados, oficinas de trabalho e outras características atrativas da cidade – fizeram com que os capitalistas se voltassem para a energia a vapor.”[25] Comparado à roda hidráulica, o uso dos motores a vapor facilitaram uma exploração dos trabalhadores mais contínua e intensa, permitindo uma maior continuidade e regularidade espacial no funcionamento das máquinas. Aparentemente, a tendência à explosão dos motores a vapor (especialmente quando funcionam acima dos níveis seguros de pressão para acelerar a maquinaria e o processo de trabalho) foi mais do que compensado pela mais-valia adicional obtida pelos capitalistas ao evitar as irregularidades sazonais e locacionais da força hídrica. Esta comparação torna-se ainda mais importante com a instalação das próprias máquinas de produção, na medida em que a competição determinou que tais investimentos em capital fixo podiam ser rápida e regularmente amortizados. Assim, o uso do carvão criou um incentivo adicional para que os capitalistas aumentassem e intensificassem a jornada de trabalho.[26] De fato, Malm mostra que a vitória do carvão sobre a força hidráulica foi finalmente selada pelas crescentes lutas sobre as jornadas laborais, que levaram à Lei das Fábricas de 1833 e à Lei das 10 horas de 1847. Tais restrições legais ao tempo de trabalho tornaram mais complicado para os capitalistas que ainda usavam a energia hidráulica competir com os que usavam o carvão, compensando tempos de inatividade sazonal e outros com a extensão da jornada de trabalho quando do escoamento das águas. “Na medida em que a disponibilidade da força de trabalho foi temporalmente reduzida, as manufatureiras algodoeiras passaram para uma força motriz capaz de maximizar o trabalho no tempo restante.”[27]

O motor a vapor por queima de carvão ajudou assim o capital britânico a resolver a crise industrial e a luta de classes da maneira mais proveitosa para ele. A quebra da resistência dos trabalhadores ao vapor (veja a próxima secção) inaugurou a época da economia fóssil. No entanto, houve uma dimensão adicional da transição, segundo Malm. Comparada ao carvão e aos motores a vapor, as instalações hídricas tinham o caráter de bem público, o que contradizia a regulação da produção pela competição entre as empresas capitalistas individuais, ou seja, o sistema de mercado e o direito de propriedade privada. Malm descreve como, na Grã-Bretanha, redes de reservatórios autônomos foram concebidas para equilibrar a quantidade de energia disponível tanto horária como sazonalmente. Mas a implementação destes projetos apresentou problemas de precificação, coordenação e cooperação entre capitalistas individuais. Diferenças residuais na quantidade e regularidade de energia disponíveis em diferentes locais na grade significavam que "as taxas a serem pagas poderiam muito bem desviar do benefício exato colhido pela empresa". A "incongruência básica entre as exigências de fábricas individuais e os suprimentos de uma estrutura de grande escala" gerou "grandes colisões de interesses" entre os capitalistas individuais. Os planos tenderam a se tornar disfuncionais frente a falta de vontade dos capitalistas concorrentes para se engajarem em um comportamento cooperativo para o bem do coletivo, mesmo que esse coletivo fosse capitalista. As máquinas a vapor a carvão, que poderiam ser financiadas com recursos privados e monopolizadas (e localizadas com maior discrição) não sofriam desses "problemas de coordenação e distribuição de recursos". Comparado ao poder da água, o carvão em si era muito mais "fragmentado, passível de concentração e acumulação, [e] divisível".[28]

Mais uma vez, as deficiências do "fluxo de energia" dos cursos de água não tinham nada a ver com escassez, ineficiência ou custos relativos. O verdadeiro defeito da água era que ele "não parava diante das cercas da propriedade privada, ...não respeitava nenhum ato ou título, não se curvava a nenhuma transação monetária"; mas "continuava em seu curso, sem ser detido pelas concepções de propriedade privada, porque estava sempre em movimento".[29] Com os projetos de energia de rios, "o consumo de energia tornou-se uma questão de controle público e de tomada de decisões". Eles "representavam uma forma de movimentação coletiva, as res communes de água impondo sua lógica aos fabricantes cautelosos", que queriam ser "totalmente seu próprio patrão ". Em suma," o planejamento, a coordenação e o financiamento coletivo necessários para a expansão do poder hídrico "ameaçaram politizar o uso de energia de forma a limitar o monopólio da classe capitalista sobre as decisões de produção.[30] Nada disso significa que os capitalistas nunca cederão a infraestrutura necessária ao governo ou às associações cooperativas, especialmente quando não há alternativa lucrativa mais consistente com o controle capitalista. Mas o carvão era apenas uma alternativa para a indústria britânica - uma que deu aos capitalistas uma arma poderosa na luta de classes. É assim que os combustíveis fósseis tornaram-se "requisitos materiais para a criação de valor" sob o capitalismo, inaugurando a era do capital fóssil ou "valor autoexpansivo, passando pela metamorfose dos combustíveis fósseis em CO2".[31] Historicamente falando, denegar esta conexão é uma forma de negacionismo climático tanto quanto o é a denegação da própria mudança climática antropogênica.

Transição e contradições energéticas

Desde suas origens na Revolução Industrial do século XIX, o capital fóssil tornou-se um complexo monstruoso, gerando múltiplas crises biosféricas, inclusive a mudança climática. Para evitar um aquecimento catastrófico da atmosfera, será necessário “desfossilizar” a economia global nas próximas décadas. O crescimento do uso de combustíveis fósseis deve parar agora, seguido por reduções absolutas das emissões de carbono para níveis quase nulos. Nada menos que isso é aceitável se queremos um planeta habitável para a maioria da humanidade e outras espécies. Tal transição mostrou-se, fisicamente falando, bastante exequível. A tecnologia necessária para uma substituição total de combustíveis fósseis com energia renovável em todos os sistemas produtivos, de transporte e residenciais nos países desenvolvidos já existe e poderia ser instalada dentro de um par de décadas.[32] Economicamente, os investimentos em conversão de energia parecem fazer sentido, especialmente com a economia global sofrendo de uma estagnação mais profunda, uma crise de emprego e uma superabundância de atividade financeira especulativa.[33]

Infelizmente, sob o capitalismo maduro, as coisas não são feitas de acordo com as necessidades humanas, a sustentabilidade ambiental ou o senso comum. Tanto economicamente quanto politicamente, este sistema é dominado pelo monopólio do capital financeiro (MCF) e seus funcionários do Estado. Dois fatos básicos devem ser observados aqui. Primeiro, a ideologia e o programa político do MCF são ambos constituídos pelo neoliberalismo (desregulamentação, privatização e políticas antissindicais - em suma, o fundamentalismo de mercado - combinado com o militarismo e o imperialismo). Em segundo lugar, o MCF está inextricavelmente ligado ao complexo de capital fóssil. Segue-se a partir desses dois fatos que, neste momento da história, “desfossilizar” a economia significa derrubar o poder do MCF e avançar rumo a uma economia controlada pela comunidade operária, o socialismo.[34]

Como Klein, Malm e Angus observam, a rápida conversão de energia que o planeta necessita implica investimentos governamentais maciços e a reatribuição planejada de recursos local, nacional e globalmente. Fora das circunstâncias especiais da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, um crescimento tão grande e rápido do investimento público e do planejamento tem sido um anátema para o capitalismo. É certamente em contradição direta com o neoliberalismo, especialmente se o investimento público é financiado, como parece necessário, taxando os lucros do capital fóssil e dos bancos do MCF.[35] Significará também uma desvalorização severa do estoque gigantesco de capital fixo que reside em instalações de combustíveis fósseis em todo o mundo. Dada a escassez sistêmica do capitalismo maduro de oportunidades de investimento produtivo e lucrativo, esse capital fóssil é um ativo chave do MCF. O mesmo pode ser dito dos muitos novos projetos de combustíveis fósseis que estão sendo construídos ou planejados em todo o mundo.[36] Como Klein amplamente documenta, o capital fóssil e seus financiadores do MCF não demonstraram nenhum sinal de concordar, de bom grado, em "perder trilhões de dólares de ganhos futuros deixando a vasta maioria de reservas comprovadas de petróleo no solo".[37] Em suma, se o capital fóssil e os grandes bancos se tornarem instrumentos em vez de barreiras à conversão de energia renovável, eles provavelmente terão de ser nacionalizados e sujeitos ao controle público. Essa estratégia combinaria muito bem com a necessidade de municipalizar e descentralizar as instalações de energia (ver abaixo), mas isso não está exatamente em voga entre os gerentes do estado neoliberal e seus patronos do MFC. Isso provavelmente exigiria o que Bernie Sanders chamou de revolução política.

Malm e Klein detalham a falta de interesse do MCF em desenvolver energia solar e eólica, mesmo como uma e substituição final para os combustíveis fósseis. O crescimento contínuo da procura global de energia em geral e, em especial, dos combustíveis fósseis, garante que estes continuem rentáveis ​​mesmo com a expansão das energias renováveis. É por isso que a transição energética requer uma supressão ativa de combustíveis fósseis, não apenas adicionando renováveis ​​como "outra fatia para uma torta de energia sempre crescente".[38] Uma vez que as instalações renováveis ​​são construídas, elas oferecem menos oportunidades para a objetivação contínua do trabalho excedente dos trabalhadores em valores de uso de materiais do que as instalações fósseis com seus fluxos contínuos de carvão, petróleo e gás natural. O sol e o vento não são facilmente monopolizáveis e, portanto, não são portadores eficientes de valor. As estruturas solares e eólicas parecem mais propícias ao controle descentralizado por comunidades individuais e famílias que priorizam o valor de uso em detrimento do valor de troca. Na verdade, mega projetos em solar e vento são fisicamente possíveis e foram realizados. Mas sua rentabilidade, em comparação com os investimentos fósseis, é muito menor, mais incerta e exige horizontes de decisão mais longos - todos repugnantes para o MCF, com a sua inextinguível sede de lucros máximos em curto prazo. Cada vez mais, os potenciais parceiros corporativos em megaprojetos renováveis ​​estão exigindo um financiamento governamental maciço que poucos governos neoliberais são capazes ou dispostos a pagar. Como resultado, as empresas de utilidade pública, as cooperativas e os particulares parecem ter assumido a liderança nas instalações de fontes renováveis, mesmo quando o MCF e seus funcionários neoliberais pressionam por uma maior privatização dos serviços públicos. Entretanto, os avanços nas tecnologias descentralizadas de energias renováveis ​​e a consequente redução dos preços das energias renováveis ​​fizeram com que o MCF, e as empresas de capital fóssil e privadas, em particular, se interessassem ainda menos pelo desenvolvimento destas energias ​​devido às reduções associadas às margens de lucro.[39]

Outro fator que faz da “desfossilização” uma proposição relativamente não lucrativa é a capacidade do MCF de lucrar com o próprio aquecimento global. Como Klein demonstra, o capital corporativo não só é capaz de obter contratos lucrativos para a reconstrução da infraestrutura à medida que os oceanos se elevam e as tempestades tropicais se multiplicam e pioram, mas também se posiciona para impor a desregulamentação neoliberal, destruição dos sindicatos, as privatizações e medidas policiais de segurança na sequência de tais choques climáticos, aumentando ainda mais as oportunidades de lucro.[40] Temperaturas crescentes significam mercados em expansão para condicionadores de ar e outros bens e serviços de melhora. As catástrofes climáticas ajudam a alimentar uma tendência crescente para o "sobrevivencialismo" de alta qualidade, ou seja, "preparar-se para um fim de civilização... entre executivos de tecnologia, gestores de fundos de cobertura e outros em sua coorte econômica" em lugares como Silicon Valley e New York City. Essas estratégias de abastecimento - até novas cidades flutuantes, colônias no espaço exterior ou deslocalização para outros planetas - oferecem grandes lucros potenciais a desenvolvedores aventureiros.[41] Além disso, existe um esquema de gerenciamento de clima corporativo definitivo, a geoengenharia, que, bem como os gastos de defesa, poderia ser uma bênção para os lucros (se os governos puderem ser trazidos a bordo), mantendo todas as operações de planejamento necessárias sob controle centralizado burocrático-corporativo para minimizar interferência com outras atividades do MCF. Que a geoengenharia provavelmente mataria centenas de milhões, por exemplo, ao interromper as Monções Asiáticas, é de pouca preocupação para suas fileiras crescentes de superricos patrocinadores do MCF, incluindo Bill Gates, à procura de alternativas à desfossilização.[42]

Começa-se a ver a complementaridade básica do MCF, do neoliberalismo e das duas formas de negação climática. Pode-se também entender por que os contratados de defesa do Pentágono e do MCF estão concoctando planos para a supressão militar mundial e o controle das vítimas das mudanças climáticas. A visão de elite, como Angus acha apropriadamente, é um "apartheid ambiental" (isolando áreas afluentes da agitação popular) através de "militarismo ambiental" e, quando necessário, absoluta "exclusão e extermínio".[43] Voltamos agora para a fonte humana desses medos da classe dominante.

A emergência do proletariado ambiental

Como uma classe em si mesma, isto é, na relação social objetiva com suas condições de existência, o proletariado sempre foi ambiental. Esta classe se origina na separação forçada dos produtores diretos da terra e de outras condições de produção, e na sua conversão em trabalhadores assalariados que devem se submeter à exploração pelo capital para ter acesso aos meios materiais necessários para sua sobrevivência e desenvolvimento como seres humanos. Desde o início, o proletariado é alienado da natureza e do próprio trabalho, já que os intercâmbios produtivos entre pessoas e a natureza se convertem em meios de lucro competitivo. A luta do proletariado por uma vida decente sempre foi uma luta em e contra condições insalubres tanto dentro como fora do local de trabalho, em casa e no trabalho - uma luta por uma conexão mais saudável com a natureza como condição do desenvolvimento humano.[44] A crise climática abre novas luzes sobre as diferentes fases desta luta e suas lições para hoje.

A destruição de máquinas pelos trabalhadores como uma tática de luta tem sido frequentemente tratada com condescendência por historiadores econômicos. À luz do desenvolvimento do capital fóssil e do aquecimento global, no entanto, pode ser vista como uma batalha inicial na luta para “desfossilizar” a produção e criar um sistema de energia mais sustentável. De acordo com Malm, a sabotagem de máquinas a vapor era uma tática fundamental na explosão da agitação dos trabalhadores na indústria britânica que levou à greve geral de 1842 (um episódio chave no movimento cartista). Os esforços dos trabalhadores para "puxar o plugue" do capital fóssil foram muitas vezes coordenados com paradas de trabalho por mineiros de carvão que interrompiam o fluxo de combustível para as fábricas. Como Malm descreve, "a greve geral de 1842 inventou uma fórmula para uma nova era: a classe trabalhadora poderia impor sua vontade ao capital fechando as torneiras da economia fóssil... motores ociosos e minas inativas eram selos do poder proletário".[45] Essa "negociação coletiva por tumultos contra a economia fóssil" foi impulsionada em grande parte pelo ódio que os trabalhadores sentiam pelas condições insalubres que a mineração e a queima de carvão criaram em seus locais de trabalho e em seus bairros. Evidentemente, havia "bastante demonologia em vapor nas mentes dos trabalhadores britânicos na década de 1840", pois "os trabalhadores vieram associar o aumento do vapor ao aumento das temperaturas" e à "atmosfera empobrecida" nos moinhos. Em casa, os trabalhadores "foram prejudicados por... fumaça, chuva ácida, névoa sulfurosa [que] literalmente mataram flora e fauna, a vista de árvores e pássaros e até mesmo o próprio sol." As condições nas minas de carvão e arredores eram muitas vezes piores. Em suma, os trabalhadores industriais britânicos não estavam apenas lutando por salários mais altos. Esta foi também uma revolta contra a "deterioração palpável do ambiente imediato" causada pela "concentração de trabalhadores assalariados em certos lugares onde o carvão foi queimado ou extraído". Nesta rebelião, havia uma percepção clara, porém um tanto menos tangível... da alienação do meio ambiente, na medida em que "a natureza tornou-se decadente e a qualidade de vida dos trabalhadores recuou". Neste sentido, era um movimento "protoambientalista".[46]

O neoliberalismo e as crises biosféricas, incluindo as mudanças climáticas, estão agora criando uma convergência similar de lutas econômicas e ambientais em todo o mundo. Como John Bellamy Foster observa, com "forças objetivas... eliminando progressivamente as distinções anteriores entre a exploração do local de trabalho e a degradação ambiental", surgiram "alianças mais amplas de grupos oprimidos em torno de condições materiais degradadas".

Este "alargamento das lutas da classe trabalhadora nas lutas ambientais" facilita "a forja de diversas alianças comunitárias... de movimentos de gênero, raça, classe, indígenas e ambientais". Estamos vendo, em suma, o surgimento de um proletariado ambiental globalizado como uma classe consciente para si, ou seja, como uma formação trabalhador-comunidade com "uma nova sociabilidade ecológica, abraçando uma visão da produção humana em seu sentido mais fundamental como o metabolismo da natureza e da sociedade".[47]

Aqui, Klein observa que as múltiplas crises socioeconômicas e ambientais geradas pelo capitalismo neoliberal alimentado por fósseis aprimoram cada vez mais certas questões-chave sobre os valores que irão conformar e moldar as instituições econômicas e política sem todo o mundo.[48] A natureza deve ser vista principalmente como uma fonte de valores de uso que podem ser extraídos de forma lucrativa para produção e consumo ou, em vez disso, como parceiro coevolutivo necessário em um processo de desenvolvimento humano sustentável - como valor de vida e não como um valor puramente econômico? Da mesma forma, a reestruturação e a renovação dos suprimentos de energia devem ser orientadas para a manutenção de negócios como de costume ou, em vez disso, tratadas como um projeto que melhora o controle democrático do trabalhador-comunidade sobre a produção e todo o sistema de abastecimento de materiais?[49] É correto tratar a ciência e a educação como meios para que as empresas permaneçam produtivas e "se deem bem", ou deveriam ciência e educação ser convertidas em ferramentas de convívio para a criação de seres humanos e instituições que abraçam valores básicos da vida, como a empatia, sustentabilidade, educação e autogestão nos níveis individual, do local de trabalho e comunitário?[50] Pois até mesmo os sindicatos às vezes ainda veem um conflito entre empregos e sustentabilidade ambiental, como no endosso da AFL-CIO ao oleoduto Dakota Access (apesar da oposição de vários sindicatos individuais), quando ficou claro há algum tempo que muito mais empregos podem ser criados com investimentos em energia renovável e conservação de energia do que com novas instalações de capital fóssil?[51] Qual é o valor de um emprego em fratura hidráulica ou oleoduto se este acelera a destruição do planeta para nossos filhos, netos e outras espécies?

Atualmente, os líderes da luta contra o capital fóssil são povos indígenas que se opõem a novas instalações de mineração e gasodutos invadindo suas terras. Como Klein e Angus mostram, no entanto, essas lutas defensivas têm um grande potencial para desencadear uma ampla coalescência de interesses antineoliberais e contra o MCF em um movimento socialista baseado na maioria.[52] Os valores ecológicos e comunitários trazidos à mesa por indígenas protetores da terra e da água (e seus aliados verdes) estão começando a fazer um contato produtivo com novas variedades de feminismo e com os valores da democracia econômica e do poder municipal, cooperativo e sindical defendidos por proletários mais "tradicionais". As sinergias políticas transversais estão sendo reforçadas pelos esforços das comunidades indígenas para defender e revigorar seus sistemas de propriedade comunal usando modernas tecnologias descentralizadas de energia e agricultura.[53] (O tão maligno modelo de superestrutura-base ainda funciona aqui). Enquanto isso, nos centros urbanos, os defensores do poder municipal e do transporte público, as cooperativas, os mercados agrícolas de circuito curto, os jardineiros urbanos e outros grupos de trabalhadores e comunidades estão construindo novos circuitos sustentáveis de abastecimento - muitas vezes com base em valores de vida indígenas. Mesmo as batalhas contra a privatização escolar e as reduções orçamentárias, e por alternativas de saúde comunitária podem ser vistas como parte desta coalizão pró-ecológica em pleno desenvolvimento. A solidariedade entre as pessoas e destas com a terra (com todos os seus habitantes) e a busca de modos sustentáveis ​​de bem- viver (colocando valor de uso antes do valor de troca) parecem ser as colas ideológicas que mantêm a coalizão ecoproletária emergente.
Este novo crescimento do movimento popular e sua reconstrução da base produtiva do planeta já começaram a se aproximar de "pontos de inflexão" ecorrevolucionários em algumas partes do mundo - e já não era sem tempo! A deterioração das condições ambientais e a despossessão dos trabalhadores e das comunidades pelo capitalismo neoliberal estão provocando soluções neofascistas (Trump, Le Pen e outros). O lema "socialismo ou a barbárie" tem hoje ao mesmo tempo um significado tradicional e um novo significado na era da crise planetária.

Notas:

1. Lisa Schlein, “WMO: Global Warming Happening Faster than Predicted,” Voice of America, July 21, 2016; Jason Samenow, “Two Middle East Locations Hit 129 Degrees,”Washington Post, July 22, 2016; David Edwards, “’Unprecedented’: Scientists Declare Global Climate Emergency After Jet Stream Crosses Equator,” Alternet, June 30, 2016.
2. Jessica Shankleman, “Climate Headed for Catastrophic Change Despite Paris Accord,” Bloomberg News, November 3, 2016; see also Megan Darby, “Scientists: Window for Avoiding 1.5C Global Warming ‘Closed,’” Climate Home, June 29, 2016, http://climatechangenews.org; Nika Knight, “Despite Paris Climate Pledge, Planet on Track to Surpass 3 Degree Temperature Rise,” Common Dreams, November 3, 2016, http://commondreams.org.
3. See various reports on the Standing Rock struggle from the following organizations and websites: Stand with Standing Rock, http://standwithstandingrock.net; Digital Smoke Signals, http://digitalsmokesignals.com; Indigenous Rising,http://indigenousrising.org; and Last Real Indians, http://lastrealindians.com. Kevin Gilbert’s on-site reports and eyewitness footage, posted on Facebook, were very important in getting the word out on the violence perpetrated by security forces against the water protectors.
4. John Bellamy Foster, Brett Clark, and Richard York,The Ecological Rift (New York: Monthly Review Press, 2010), 47, 398, 440.
5. Ian Angus,Facing the Anthropocene (New York: Monthly Review Press, 2016), 71–77.
6. Henry Fountain, “Scientists Map Vast Peat Swamps, a Storehouse of Carbon, in Central Africa,”New York Times, January 12, 2017.
7. Angus,Facing the Anthropocene, 73.
8. Angus,Facing the Anthropocene, 23.
9. Angus,Facing the Anthropocene, 173.
10. For Angus’s endorsement of Andreas Malm, see Angus,Facing the Anthropocene, 128–29, 135, 166, 171. On the metabolic rift approach see, 113–25; John Bellamy Foster,Marx’s Ecology (New York: Monthly Review Press, 2000). An excellent application of metabolic rift theory to the oceanic fishing and aquaculture industries is Stefano B. Longo, Rebecca Clausen, and Brett Clark,The Tragedy of the Commodity (New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 2015). On the general ecological contradictions of capitalism and its value forms (money, prices, rents), see Paul Burkett,Marx and Nature (Chicago: Haymarket, 2014).
11. Angus,Facing the Anthropocene, 130-34, 153-60. On automobilization and suburbanization, see two articles by Paul M. Sweezy, “Cars and Cities,”Monthly Review 24, no. 11 (April 1973): 1–18, and “Capitalism and the Environment,”Monthly Review 41, no. 2 (June 1989): 1–10.
12. Angus,Facing the Anthropocene, 130–31, 134–35, 137–49, 160–63.
13. Angus,Facing the Anthropocene, 42–46. Angus also explains how Europe’s adoption of the fossil-economy model (albeit in a less extreme form than the United States) was encouraged through the tying of Marshall Plan aid to purchases of oil and other goods from U.S. companies (see 145-8). It should be added that Europe’s incorporation into this accumulation regime also involved covert and overt interventions by the United States in European elections and the use of Mafia enforcers to suppress communists in France and other countries, not to mention the ongoing direct U.S. military presence in Europe. For the emergence of China as the leading source of carbon emissions, see Andreas Malm,Fossil Capital (London: Verso, 2016), chapter 14.
14. Angus,Facing the Anthropocene, 208–11; John Bellamy Foster,The Vulnerable Planet (New York: Monthly Review Press, 1999), 96–101. This is not to say that the adoption of anti-ecological forms of production in the Soviet Union, especially during and after Stalin assumed leadership, was not contested by environmental thinkers and activists in the USSR itself. On this point, see Natalia Mirovitskaya and Marvin S. Soroos, “Socialism and the Tragedy of the Commons,”Journal of Environment and Development 4, no. 1 (1995): 77–110; John Bellamy Foster and Paul Burkett,Marx and the Earth (Chicago: Haymarket, 2017), 225–28.
15. Malm,Fossil Capital, 288 (italics in original).
16. See John Bellamy Foster’s foreword to Angus,Facing the Anthropocene, which argues that “the Anthropocene is probably best seen as arising in the late 1940s and early 1950s,” after which there was “a major spike, marking a Great Acceleration in human impacts on the environment” (9).
17. Malm,Fossil Capital, 11.
18. Malm,Fossil Capital, 52; emphasis added.
19. Malm,Fossil Capital, 256. “By 1870, three times more coal was burnt in general manufacturing, iron, and steel than in the hearths and homes of Britain, the fires decoupled from population growth and linked to self-sustaining economic growth” (Malm,Fossil Capital, 250).
20. For details see Foster and Burkett,Marx and the Earth, 19–21.
21. Karl Marx,Capital, volume 1 (New York: Vintage, 1976), 496–97, 645, 1019–25. For the classic update of Marx’s analysis of real subsumption, see Harry Braverman,Labor and Monopoly Capital (New York: Monthly Review Press, 1974). On the natural science background of Marx’s analysis, and the implications for ecological economics, see Foster and Burkett,Marx and the Earth, 151–56.
22. Malm,Fossil Capital, 197. For the mechanization of spinning, weaving, and wool combing, see 64–75, 196–97.
23. Malm,Fossil Capital, 75.
24. Malm,Fossil Capital, 83, 91.
25. Malm,Fossil Capital, 162.
26. Malm,Fossil Capital, 167-8, 246–47.
27. Malm,Fossil Capital, 175-7, 180–92 (quotation from 192).
28. Malm,Fossil Capital, 110, 118–19. On patterns of accumulation and monopolization in the British coal industry, see Paul M. Sweezy,Monopoly and Competition in the English Coal Trade (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1938); a useful discussion of Sweezy’s analysis is Michael A. Lebowitz, “Paul M. Sweezy,”Monthly Review 56, no. 5 (October 2004): 44–45.
29. Malm,Fossil Capital, 117.
30. Malm,Fossil Capital, 105, 118.
31. Malm,Fossil Capital, 289–90.
32. See the studies cited by Angus,Facing the Anthropocene, 172; Malm,Fossil Capital, 368; Naomi Klein,This Changes Everything (New York: Simon and Schuster, 2014), 101–02. The quicker the energy transition in the core capitalist countries, the more time that could be available for a full conversion to renewables in lower income nations.
33. Robert Pollin,Greening the Global Economy (Cambridge, MA: MIT Press, 2015).
34. On monopoly-finance capital and neoliberalism, see John Bellamy Foster and Fred Magdoff,The Great Financial Crisis (New York: Monthly Review Press, 2009); John Bellamy Foster and Robert W. McChesney,The Endless Crisis (New York: Monthly Review Press, 2012).
35. Klein,This Changes Everything, 401, 452; see also Malm,Fossil Capital, 385, on “wartime mobilization as a model for rapid abatement of climate change.”
36. For discussion of this worsening fossil capital overhang problem, see Angus,Facing the Anthropocene, 170–73; Malm,Fossil Capital, 358–61. In China the issue is a growing excess capacity of state-capitalist coal-fired power plants. Greenpeace has reported that “China is on track to add an average of one new coal-fired plant a week until 2020.” Edward Wong, “China Pledged to Curb Coal Plants. Greenpeace Says It’s Still Adding Them,”New York Times, July 14, 2016. Despite a subsequent central government announcement that more than a hundred of the new projects would be cancelled, the “glut of coal power plants” was still “acting as a dead weight on the country’s ongoing energy transition.” See Michael Forsythe, “China Cancels 103 Coal Plants, Mindful of Smog and Wasted Capacity,”New York Times, January 19, 2017.
37. Klein,This Changes Everything, 452.
38. Malm,Fossil Capital, 382. Here Malm draws on the analysis of Richard York, “Do Alternative Energy Sources Displace Fossil Fuels?”Nature Climate Change 2 (2012): 441–43.
39. Klein,This Changes Everything, 97, 130–33; Malm,Fossil Capital, 367–82.
40. This applies the argument made in Naomi Klein,The Shock Doctrine (New York: Penguin, 2008).
41. Klein,This Changes Everything, 46–52; Angus,Facing the Anthropocene, 184–88. Mike Ives, “As Climate Change Accelerates, Floating Cities Look Like Less of a Pipe Dream,”New York Times, January 27, 2017; Evan Osnos, “Doomsday Prep for the Super-Rich,”New Yorker, January 30, 2017. Sobre a capacidade do capital de lucrar com crises ambientais, e a necessidade de distinguir crises de acumulação de crises ambientais em geral, veja Burkett,Marx and Nature, 107–32; Marxism and Ecological Economics (Chicago: Haymarket, 2009), 220–300.
42. Klein,This Changes Everything, 256–90; Malm,Fossil Capital, 386–88.
43. Angus,Facing the Anthropocene, 176–84.
44. Burkett,Marx and Nature, 57–68, 203–22; Frederick Engels,The Condition of the Working Class in England (Moscow: Progress Publishers, 1973); Marx,Capital, volume 1, part 8.
45. Malm,Fossil Capital, 234.
46. Malm,Fossil Capital, 236, 242, 244–48.
47. John Bellamy Foster, “The Epochal Crisis,”Monthly Review 65, no. 5 (October 2013): 10–11.
48. Klein,This Changes Everything;The Shock Doctrine.
49. Barry Commoner,The Poverty of Power (New York: Knopf, 1976).
50. See Ivan Illich,Deschooling Society (New York: Harper and Row, 1972);Tools for Conviviality (New York: Harper and Row, 1973).
51. Klein,This Changes Everything, 126–27; Pollin,Greening the Global Economy; andBack to Full Employment (Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2012), 102–09. On the conflicts within the union movement over climate change and fossil capital, see Paul Hampton,Workers and Trade Unions for Climate Solidarity (London: Routledge, 2011).
52. Klein,This Changes Everything, part 3; Angus,Facing the Anthropocene, 192–223.
53. On the wider ecological potential of indigenous efforts to defend and renew their communal production systems, see David Barkin,Wealth, Poverty, and Sustainable Development (Mexico City: Centro de Ecologia y Desarrollo, 1998); “Commentary on ‘Marxism and Ecology,’” Great Transition Initiative, October 2015, http://greattransition.org; David Barkin and Blanca Lemus, “Overcoming Rural Poverty from the Bottom Up,” in Julio Boltvinik and Susan Archer Mann, eds.,Peasant Poverty and Persistence in the Twenty-First Century (London: Zed, 2016), 345–65.

Paul Burkett é professor de economia na Universidade Estadual de Indiana, Terre Haute, e coautor, com John Bellamy Foster, de Marx and the Earth (Haymarket, 2017).

1 de outubro de 2005

A visão de Marx de desenvolvimento humano sustentável

Uma versão anterior deste artigo foi apresentada na Conferência sobre a Obra de Karl Marx e os Desafios para o Século 21, Havana, Cuba, 6 de maio de 2003.

Paul Burkett



Tradução / Nos países capitalistas desenvolvidos, os debates sobre a economia do socialismo têm se concentrado principalmente nas questões de informação, incentivos e eficiência na alocação de recursos. Esse foco no “cálculo socialista” reflete o contexto principalmente acadêmico dessas discussões. Em contraste, para movimentos anticapitalistas e regimes pós-revolucionários na periferia capitalista, o socialismo como uma forma de desenvolvimento humano tem sido uma preocupação primordial. Um exemplo notável é o trabalho de Ernesto “Che” Guevara sobre “O Homem e o Socialismo em Cuba”, que refutou o argumento de que “o período de construção do socialismo... é caracterizado pela extinção do indivíduo em prol do estado”. Para Che, a revolução socialista é um processo em que “um grande número de pessoas está se desenvolvendo” e “as possibilidades materiais de desenvolvimento integral de cada um de seus membros tornam a tarefa cada vez mais frutífera1”.

Com o agravamento da pobreza e das crises ambientais pelo capitalismo global, o desenvolvimento humano sustentável vem à tona como a questão principal que deve ser engajada por todos os socialistas do século XXI tanto no centro quanto na periferia. É nessa conexão de desenvolvimento humano, argumentarei, que a visão de Marx do comunismo ou socialismo (dois termos que ele usou de forma intercambiável) pode ser mais útil2.

A sugestão de que o comunismo de Marx pode alimentar a luta por formas mais saudáveis, sustentáveis e libertadoras de desenvolvimento humano pode parecer paradoxal à luz de várias críticas ecológicas a Marx que se tornaram tão populares nas últimas décadas. A visão de Marx foi considerada ecologicamente insustentável e indesejável devido ao seu suposto tratamento das condições naturais como efetivamente ilimitadas, e sua suposta adoção, tanto prática quanto ética, do otimismo tecnológico e da dominação humana sobre a natureza.

O conhecido economista ecológico Herman Daly, por exemplo, argumenta que para Marx, “o crescimento econômico determinista materialista é crucial para fornecer a abundância material esmagadora que é a condição objetiva para o surgimento do novo homem socialista. Os limites ambientais para o crescimento seriam contraditórios à ‘necessidade histórica’...”. O problema, diz o teórico político ambiental Robyn Eckersley, é que “Marx endossou totalmente as realizações ‘civilizatórias’ e técnicas das forças de produção capitalistas e absorveu completamente a fé vitoriana no progresso científico e tecnológico como o meio pelo qual os humanos poderiam superar e conquistar a natureza.” Evidentemente, Marx “viu consistentemente a liberdade humana como inversamente relacionada à dependência da humanidade da natureza”. O culturalista ambiental Victor Ferkiss afirma que “Marx e Engels e seus seguidores modernos” compartilhavam uma “adoração virtual da tecnologia moderna”, o que explica por que “eles se juntaram aos liberais na recusa de criticar a constituição tecnológica básica da sociedade moderna”. Outro cientista político ambiental, K. J. Walker, afirma que a visão de Marx da produção comunista não reconhece nenhuma “escassez de recursos naturais” real ou potencial, sendo a “suposição implícita” “que os recursos naturais são efetivamente ilimitados”. O filósofo ambiental Val Routley descreve a visão de Marx do comunismo como um “paraíso automatizado” antiecológico de produção e consumo intensivos em energia e “ambientalmente prejudiciais”, que “parece derivar do pressuposto de dominação da natureza [de Marx]3.”

Um engajamento com essas visões é importante porque elas se tornaram influentes mesmo entre marxistas de mentalidade ecológica, muitos dos quais buscaram paradigmas não marxistas, especialmente o de Karl Polanyi, em busca da orientação ecológica supostamente ausente no marxismo. A subutilização dos elementos de desenvolvimento humano e ecológico da visão comunista de Marx também se reflete na decisão de alguns marxistas de apostar no “esverdeamento” do capitalismo como uma alternativa prática à luta pelo socialismo4.

Consequentemente, interpretarei os vários contornos de Marx da economia e da sociedade pós-capitalistas como uma visão de desenvolvimento humano sustentável. Visto que não há divergências importantes entre Marx e Engels nessa área, também me referirei aos escritos de Engels e às suas obras em coautoria, conforme apropriado. Depois de esboçar as dimensões de desenvolvimento humano na propriedade comunal e na produção associada (não mercantil) na visão de Marx, extraio o aspecto de sustentabilidade desses princípios respondendo às críticas ecológicas mais comuns da projeção de Marx. Concluo reconsiderando brevemente as conexões entre a visão de Marx do comunismo e sua análise do capitalismo, enfocando aquela forma importante de desenvolvimento humano: a luta de classes.

1. Os princípios básicos da organização do comunismo de Marx

Há uma sabedoria convencional de que Marx e Engels, evitando toda “especulação sobre… utopias socialistas”, pensaram muito pouco sobre o sistema que sucederia o capitalismo, e que todo o seu corpo de escritos sobre o assunto é representado pela “Crítica do Programa de Gotha, algumas páginas e não muito mais5”.

Na realidade, as relações econômicas e políticas pós-capitalistas são uma temática recorrente em todas as obras principais, e em muitas das menores, dos fundadores do marxismo e, apesar da natureza dispersa dessas discussões, pode-se facilmente extrair delas uma visão coerente com base em um conjunto claro de princípios de organização. A característica mais básica do comunismo na projeção de Marx é a superação da separação social entre produtores e as condições necessárias de produção no capitalismo. Esta nova união social implica uma “desmercantilização” completa da força de trabalho, junto com um novo conjunto de direitos de propriedade comunal. A produção comunista ou “associada” é planejada e realizada pelos próprios produtores e comunidades, sem os intermediários de classe do trabalho assalariado, do mercado e do Estado. Marx frequentemente motiva e ilustra essas características básicas em termos dos meios e fins primários da produção associada: o desenvolvimento humano livre.

A. A nova união e a propriedade comunal

Para Marx, o capitalismo envolve a “decomposição da união original existente entre o homem trabalhador e seus meios de trabalho”, enquanto o comunismo “restaurará a união original em uma nova forma histórica”. O comunismo é a “reversão histórica” ​​da “separação do trabalho e do trabalhador das condições de trabalho que o confrontam como forças independentes”. Sob o sistema salarial do capitalismo, “os meios de produção empregam os trabalhadores” sob o comunismo, “os trabalhadores, como sujeitos, empregam os meios de produção… a fim de produzir riqueza para si próprios”6.

Esta nova união entre produtores e as condições de produção, como Engels o expressa, “irá emancipar a força de trabalho humana de sua posição como uma mercadoria”. Naturalmente, tal emancipação, na qual os trabalhadores realizam a produção como “trabalhadores unidos” (veja abaixo), “só é possível onde os trabalhadores são os proprietários de seus meios de produção”. Essa propriedade do trabalhador não acarreta, entretanto, os direitos individuais de posse e alienabilidade característicos da propriedade capitalista. Em vez disso, a propriedade comunal dos trabalhadores codifica e impõe a nova união dos produtores coletivos e suas comunidades com as condições de produção. Consequentemente, Marx descreve o comunismo como “substituir a produção capitalista pela produção cooperativa, e a propriedade capitalista por uma forma superior do tipo arcaico de propriedade, ou seja, propriedade comunista7”.

Uma razão pela qual a propriedade comunista em condições de produção não pode ser propriedade privada individual é que esta última “exclui a cooperação, a divisão do trabalho dentro de cada processo separado de produção, o controle e a aplicação produtiva das forças da Natureza pela sociedade, e o livre desenvolvimento dos poderes produtivos sociais”. Em outras palavras, “o trabalhador individual só poderia ser restaurado como um indivíduo à propriedade nas condições de produção, divorciando-se da força produtiva do desenvolvimento do trabalho [alienado] em grande escala.” Conforme afirmado n’A Ideologia Alemã, “a apropriação pelos proletários” é tal que “uma massa de instrumentos de produção deve ser sujeita a cada indivíduo e a propriedade de todos. Uma relação universal moderna não pode ser controlada por indivíduos, a menos que seja controlada por todos... Com a apropriação de todas as forças produtivas pelos indivíduos unidos, a propriedade privada chega ao fim8”.

Além disso, dada a socialização anterior da produção do capitalismo, a propriedade “privada” dos meios de produção já é um tipo de propriedade social, embora seu caráter social seja explorador de classes. Do caráter do capital como “não um poder pessoal, [mas] social” segue-se que, quando “o capital é convertido em propriedade comum, na propriedade de todos os membros da sociedade, a propriedade pessoal não é assim transformada em propriedade social. É apenas o caráter social da propriedade que é alterado. Ele perde seu caráter de classe9”.

A visão de Marx, portanto, envolve uma “reconversão do capital em propriedade dos produtores, embora não mais como propriedade privada dos produtores individuais, mas sim como propriedade de produtores associados, como propriedade social total”. A propriedade comunista é coletiva na medida em que “as condições materiais de produção são propriedade cooperativa dos trabalhadores” como um todo, não de indivíduos particulares ou subgrupos de indivíduos. Como afirma Engels: “Os ‘trabalhadores’ continuam a ser os proprietários coletivos das casas, fábricas e instrumentos de trabalho e dificilmente permitirão a sua utilização… por indivíduos ou associações sem compensação pelos custos”. O planejamento coletivo e a administração da produção social requerem que não apenas os meios de produção, mas também a distribuição do produto total, estejam sujeitos ao controle social explícito. Com a produção associada, “é possível assegurar a cada pessoa ‘todos os rendimentos de seu trabalho’… somente se [esta frase] não signifique que cada trabalhador individual se torne o possuidor de ‘todos os rendimentos de seu trabalho’, mas que toda a sociedade, consistindo inteiramente de trabalhadores, torna-se possuidora do produto total de seu trabalho, produto esse que é parcialmente distribuído entre seus membros para consumo, parcialmente usado para substituir e aumentar seus meios de produção e parcialmente armazenado como um fundo de reserva para produção e consumo”. As duas últimas “deduções dos… rendimentos do trabalho são uma necessidade econômica”, elas representam “formas de trabalho excedente e produto excedente… que são comuns a todos os modos sociais de produção”. Outras deduções são necessárias para “custos gerais de administração”, para “a satisfação comum das necessidades, como escolas, serviços de saúde, etc.” e para “fundos que servirão para os que não podem trabalhar”. Só então “chegamos… àquela parte dos meios de consumo que é dividida entre os produtores individuais da sociedade cooperativa10”.

No entanto, a socialização explícita das condições e resultados da produção do comunismo não deve ser confundida com uma ausência completa de direitos de propriedade individuais. Embora a propriedade comunal “não restabeleça a propriedade privada para o produtor”, ainda assim “dá a ele propriedade individual com base nas aquisições da era capitalista: isto é, na cooperação e na posse comum da terra e dos meios de produção”. Marx postula que “a propriedade alienada do capitalista… só pode ser abolida pela conversão de sua propriedade em propriedade… do indivíduo social associado.” Ele até sugere que o comunismo “fará da propriedade individual uma verdade, transformando os meios de produção… agora principalmente os meios de escravizar e explorar o trabalho, em meros instrumentos de trabalho livre e associado11”.

Essas declarações são frequentemente interpretadas como meros floreios retóricos, mas se tornam mais explicáveis ​​quando vistas no contexto do imperativo primordial do comunismo: o livre desenvolvimento dos seres humanos individuais como indivíduos sociais. Marx e Engels descrevem “a comunidade de proletários revolucionários” como uma “associação de indivíduos… que coloca as condições de livre desenvolvimento e movimento dos indivíduos sob seu controle — condições que antes eram deixadas ao acaso e adquiriram uma existência independente em oposição aos indivíduos separados”. Em outras palavras, “a realização integral do indivíduo só deixará de ser concebida como um ideal… quando o impacto do mundo que estimula o real desenvolvimento das habilidades do indivíduo estiver sob o controle dos próprios indivíduos, como é o desejo dos comunistas”. Em sociedades de exploração de classes, “a liberdade pessoal existe apenas para os indivíduos que se desenvolveram sob as condições da classe dominante”, mas sob a “comunidade real” do comunismo, “os indivíduos obtêm sua liberdade em e por meio de sua associação”. Em vez de oportunidades para o desenvolvimento individual serem obtidas principalmente às custas dos outros, como nas sociedades de classes, a futura “comunidade” fornecerá “cada indivíduo [com] os meios para cultivar seus dons em todas as direções; portanto, a liberdade pessoal só se torna possível dentro da comunidade”12.

Em suma, a propriedade comunal é individual na medida em que afirma a reivindicação de cada pessoa, como membro da sociedade, de acesso às condições e resultados da produção como um canal para seu desenvolvimento como um indivíduo “a quem as diferentes funções sociais que desempenha são apenas muitos modos de dar livre alcance aos seus próprios poderes naturais e adquiridos”. Só assim o comunismo pode substituir “a velha sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classe”, por “uma associação, na qual o livre desenvolvimento de cada um é condição para o livre desenvolvimento de todos13”.

A maneira mais básica pela qual o comunismo de Marx promove o desenvolvimento humano individual é protegendo o direito do indivíduo a uma participação no produto total (líquido das deduções acima mencionadas) para seu consumo privado. O Manifesto é inequívoco neste ponto: “O comunismo não priva ninguém do poder de se apropriar dos produtos da sociedade; tudo o que ele faz é privá-lo do poder de subjugar o trabalho de outros por meio da tal apropriação”. Nesse sentido, observa Engels, “a propriedade social se estende à terra e aos demais meios de produção, e a propriedade privada aos produtos, ou seja, aos artigos de produção”. Uma descrição equivalente da “comunidade de indivíduos livres” é dada no volume 1 d’O Capital: “O produto total de nossa comunidade é um produto social. Uma parte serve como novo meio de produção e permanece social. Mas outra parte é consumida pelos membros da sociedade como meio de subsistência” 14.

Tudo isso, é claro, levanta a questão de como a distribuição das reivindicações de consumo individual dos trabalhadores será determinada. N’O Capital, Marx prevê que “o modo dessa distribuição variará segundo a organização produtiva da comunidade e com o grau de desenvolvimento histórico alcançado pelos produtores”. Ele sugere (“apenas por uma questão de paralelo com a produção de mercadorias”) que uma possibilidade seria “a participação de cada produtor individual nos meios de subsistência” a ser “determinada por seu tempo de trabalho”. Na Crítica do Programa de Gotha, a concepção do tempo de trabalho como determinante dos direitos individuais de consumo é menos ambígua, pelo menos para “a primeira fase da sociedade comunista como é quando ela acaba de emergir após prolongadas dores de parto da sociedade capitalista”. Aqui, Marx francamente afirma que:

o produtor individual recebe de volta da sociedade — após as deduções terem sido feitas — exatamente o que ele lhe dá. O que ele lhe deu é a sua quantidade individual de trabalho… O tempo de trabalho individual do produtor individual é a parte da jornada social de trabalho com que ele contribuiu, é sua parte nele. Ele recebe um certificado da sociedade que forneceu tal e tal quantidade de trabalho (depois de deduzir seu trabalho para o fundo comum), e com este certificado ele tira do estoque social dos meios de consumo tanto quanto a mesma quantidade do custo do trabalho. A mesma quantidade de trabalho que ele deu à sociedade de uma forma, ele recebe de volta em outra.

O raciocínio básico por trás das reivindicações de consumo baseado no trabalho é que “a distribuição dos meios de consumo em qualquer momento é apenas uma consequência da distribuição das próprias condições de produção”15. Dado que as condições de produção são propriedade dos produtores, é lógico que a distribuição das reivindicações de consumo estará mais intimamente ligada ao tempo de trabalho do que sob o capitalismo, onde é o dinheiro que governa. Este padrão de tempo de trabalho levanta questões sociais e técnicas importantes que não podem ser tratadas aqui — especialmente se e como os diferenciais na intensidade do trabalho, condições de trabalho e habilidades seriam medidos e compensados16.

No entanto, o que Marx enfatiza é que, na medida em que o padrão de tempo de trabalho individual meramente codifica a ética da troca igual, independentemente das conotações para o desenvolvimento individual, ele ainda está infectado pelo “horizonte estreito do direito burguês”. Marx, portanto, sugere que “em uma fase superior da sociedade comunista”, as reivindicações de consumo individual baseadas no trabalho podem e devem “ser totalmente deixadas para trás e a sociedade escreva em suas bandeiras: de cada um de acordo com sua capacidade, a cada um de acordo com sua necessidade!” É nesta fase superior que o “modo de distribuição do comunismo… permite que todos os membros da sociedade desenvolvam, mantenham e exerçam suas capacidades em todas as direções possíveis”. Aqui, “o consumo individual do trabalhador” torna-se aquilo que “exige o pleno desenvolvimento da individualidade” 17.

Mesmo na fase inferior do comunismo, os meios de desenvolvimento individual assegurados pela propriedade comunal não se limitam às reivindicações de consumo privado dos indivíduos. O desenvolvimento humano também se beneficiará da expansão dos serviços sociais (educação, saúde, serviços públicos e pensões para idosos) que são financiados por deduções do produto total antes de sua distribuição entre os indivíduos. Portanto, “aquilo de que o produtor é privado na sua qualidade de indivíduo privado o beneficia direta ou indiretamente na sua qualidade de membro da sociedade.” Tal consumo social será, na opinião de Marx, “consideravelmente aumentado em comparação com a sociedade atual e aumenta na proporção que a nova sociedade se desenvolve”18.

Por exemplo, Marx prevê uma expansão das “escolas técnicas (teóricas e práticas) em combinação com o ensino fundamental”. Ele projeta que “quando a classe trabalhadora chegar ao poder, como inevitavelmente deve acontecer, a instrução técnica, tanto teórica quanto prática, terá seu devido lugar nas escolas da classe trabalhadora”. Marx até sugere que os membros mais jovens da sociedade comunista experimentarão “uma combinação precoce de trabalho produtivo com educação” — presumindo, é claro, “uma regulamentação estrita do tempo de trabalho de acordo com os diferentes grupos de idade e outras medidas de segurança para a proteção de crianças.” A ideia básica aqui é que “o fato de o grupo coletivo de trabalho ser composto por indivíduos de ambos os sexos e idades, deve necessariamente, em condições adequadas, tornar-se uma fonte de desenvolvimento humano”. Outra função relacionada da educação teórica e prática “na República do Trabalho” será “converter a ciência de um instrumento de governo de classe em uma força popular” e, assim, “converter os próprios homens de ciência, de bajuladores do preconceito de classe, parasitas do estado e aliados do capital, em agentes livres do pensamento”19.

Junto com a expansão do consumo social, a “redução da jornada de trabalho” do comunismo facilitará o desenvolvimento humano, dando aos indivíduos mais tempo livre para desfrutar das “vantagens materiais e intelectuais … do desenvolvimento social.” O tempo livre é “tempo … para o desenvolvimento livre, intelectual e social, do indivíduo.” Como tal, “o tempo livre, tempo disponível, é a própria riqueza, em parte para o desfrute do produto, em parte para a atividade livre que — ao contrário do trabalho — não é dominada pela pressão de um propósito externo que deve ser cumprido, e o cumprimento de que é considerada uma necessidade natural ou um dever social”. Assim, com o comunismo “a medida da riqueza … não é mais, de forma alguma, o tempo de trabalho, mas sim o tempo disponível”. No entanto, uma vez que o trabalho é sempre, junto com a natureza, uma “substância de riqueza” fundamental, o tempo de trabalho é uma “medida importante do custo de produção [da riqueza] … mesmo se o valor de troca for eliminado20”.

Naturalmente, a sociedade comunista atribuirá certas responsabilidades aos indivíduos. Mesmo que o tempo livre vá se expandir, os indivíduos ainda terão a responsabilidade de se envolver em trabalho produtivo (incluindo criação de filhos e outras atividades de cuidado), desde que sejam física e mentalmente capazes de fazê-lo. Sob o capitalismo e outras sociedades de classes, “uma classe específica” tem “o poder de transferir a carga natural de trabalho de seus próprios ombros para os de outra camada da sociedade”. Mas sob o comunismo, “com o trabalho emancipado, todo homem se torna um homem trabalhador, e o trabalho produtivo deixa de ser um atributo de classe”. O autodesenvolvimento individual também não é apenas um direito, mas uma responsabilidade sob o comunismo. Consequentemente, “os trabalhadores afirmam em sua propaganda comunista que a vocação, o chamado, a tarefa de cada pessoa é alcançar o desenvolvimento integral de suas habilidades, incluindo, por exemplo, a capacidade de pensar21.”

É importante reconhecer a conexão bidirecional entre o desenvolvimento humano e as forças produtivas, na visão de Marx. Essa conexão não é surpreendente, visto que Marx sempre tratou “o próprio ser humano” como “a principal força de produção”. E ele sempre viu “forças de produção e relações sociais” como “dois lados diferentes do desenvolvimento do indivíduo social.” Consequentemente, o comunismo pode representar uma união real de todos os produtores individuais com as condições de produção apenas se garantir o direito de cada indivíduo de participar ao máximo de sua capacidade na utilização cooperativa e no desenvolvimento dessas condições. O caráter altamente socializado da produção significa que “os indivíduos devem se apropriar da totalidade existente das forças produtivas, não apenas para alcançar a atividade própria, mas, também, apenas para salvaguardar sua própria existência.” Para ser um veículo eficaz de desenvolvimento humano, esta apropriação não deve reduzir os indivíduos a engrenagens minúsculas e intercambiáveis ​​em uma máquina de produção coletiva gigante operando fora de seu controle em uma busca alienada da “produção pela produção”. Em vez disso, deve aumentar “o desenvolvimento das forças produtivas humanas” capazes de compreender e controlar a produção social no nível humano em linha com “o desenvolvimento da riqueza da natureza humana como um fim em si mesma”. Embora a “apropriação comunista [tenha] um caráter universal correspondendo… às forças produtivas”, ela também promove “o desenvolvimento das capacidades individuais correspondentes aos instrumentos materiais de produção”. Porque esses instrumentos “foram desenvolvidos para uma totalidade e… só existem dentro de uma relação universal”, sua apropriação efetiva requer “o desenvolvimento de uma totalidade de capacidades nos próprios indivíduos.” Em suma, “o desenvolvimento genuíno e livre dos indivíduos” sob o comunismo é tanto possibilitado como contribui para “o caráter universal da atividade dos indivíduos com base nas forças produtivas existentes22.”

B. Produção planejada, não comercial

Na visão de Marx, um sistema administrado por produtores livremente associados e suas comunidades, socialmente unificado com as condições necessárias de produção, por definição exclui a troca de mercadorias e o dinheiro como formas primárias de reprodução social. Junto com a descomoditização da força de trabalho vem uma “produção socializada” explicitamente, na qual a “sociedade” — não os capitalistas e trabalhadores assalariados respondendo aos sinais do mercado — “distribui a força de trabalho e os meios de produção aos diferentes ramos de produção.” Como resultado, “o capital monetário” (incluindo o pagamento de salários) “é eliminado.” Durante a fase inferior do comunismo, “os produtores podem… receber vouchers de papel que lhes dão direito a retirar do fornecimento social de bens de consumo uma quantidade correspondente ao seu tempo de trabalho”, mas “esses vouchers não são dinheiro. Eles não circulam”. Em outras palavras, “a futura distribuição do necessário para a vida” não pode ser tratada “como uma espécie de salário mais elevado23”.

Para Marx, o domínio da produção social pelo mercado é específico de uma situação em que a produção é realizada em unidades de produção organizadas de forma independente com base na separação social dos produtores das condições necessárias de produção. Aqui, o trabalho despendido nas empresas mutuamente autônomas (capitais concorrentes, como Marx os chama) só pode ser validado como parte da divisão reprodutiva do trabalho da sociedade ex post, de acordo com os preços que seus produtos alcançam no mercado. Em suma, “as mercadorias são produtos diretos de tipos de trabalho individuais independentes e isolados” e não podem ser diretamente “comparadas entre si como produtos do trabalho social”, portanto, “por meio de sua alienação no curso da troca individual, eles devem provar que são trabalho social geral24”.

Em contraste, “tempo de trabalho comunitário ou tempo de trabalho de indivíduos diretamente associados… é imediatamente tempo de trabalho social”. E “onde o trabalho é comunitário, as relações dos homens em sua produção social não se manifestam como ‘valores ’ das ‘coisas ’”:

Numa sociedade cooperativa baseada na propriedade comum dos meios de produção, os produtores não trocam seus produtos; tão pouco o trabalho empregado nos produtos aparece aqui como o valor desses produtos, como uma qualidade material possuída por eles, visto que agora, em contraste com a sociedade capitalista, o trabalho individual não existe mais de forma indireta, mas diretamente como uma parte componente do trabalho total25.

O livro Grundrisse traça um contraste mais amplo entre o estabelecimento indireto ex post do trabalho como trabalho social sob o capitalismo, e a socialização direta ex ante do trabalho “com base na apropriação e controle comuns dos meios de produção”:

O caráter comunal da produção transformaria o produto em um produto comum e geral desde o início. A troca que ocorre originalmente na produção — que não seria uma troca de valores de troca, mas de atividades, determinadas pelas necessidades comunitárias e objetivos comunitários — incluiria desde o início a participação do indivíduo no mundo comunal dos produtos. Com base nos valores de troca, o trabalho é considerado geral apenas por meio da troca. Mas, com base nisso, ele seria posto como tal antes da troca; isto é, a troca de produtos não seria de forma alguma o meio pelo qual a participação do indivíduo na produção geral é mediada. É claro que a mediação deve ocorrer. No primeiro caso, que vem da produção independente dos indivíduos… as mediações acontecem pela troca de mercadorias, pelos valores de troca e pelo dinheiro… No segundo caso, o próprio pressuposto é mediado; ou seja, uma produção comunal, comunalidade, é pressuposta como a base da produção. O trabalho do indivíduo é posto desde o início como trabalho social… O produto não precisa primeiro ser transposto para uma forma particular a fim de atingir um caráter geral para o indivíduo. Em vez de uma divisão do trabalho, tal como é necessariamente criada com a troca de valores de troca, haveria uma organização do trabalho cuja consequência seria a participação do indivíduo no consumo comunal26.

O caráter imediatamente social do trabalho e dos produtos é, portanto, uma consequência lógica da nova união comunal entre os produtores e as condições necessárias de produção. Essa desalienação da produção nega a necessidade de os produtores se envolverem em trocas monetárias como meio de estabelecer uma alocação reprodutiva de seu trabalho:

A própria necessidade de primeiro transformar produtos ou atividades individuais em valor de troca, em dinheiro, para que obtenham e demonstrem seu poder social nesta forma objetiva, prova duas coisas: (1) que os indivíduos agora produzem apenas para a sociedade e na sociedade; (2) que a produção não é diretamente social, não é “fruto da associação”, que distribui trabalho internamente. Os indivíduos são incluídos na produção social; a produção social existe fora deles como seu destino; mas a produção social não está subsumida aos indivíduos, administrável por eles como sua riqueza comum27.

Que contornar as trocas de mercado e superar a alienação dos trabalhadores da produção são dois aspectos do mesmo fenômeno, explica por que, pelo menos em uma instância, Marx define o comunismo simplesmente como “dissolução do modo de produção e da forma de sociedade baseada no valor de troca. Posicionamento real do trabalho individual como social e vice-versa”. O “trabalho diretamente associado...” no comunismo, “é totalmente inconsistente com a produção de mercadorias28”.

Conforme observado anteriormente, os debates acadêmicos sobre a “economia do socialismo” tendem a se concentrar em questões técnicas de eficiência alocativa (“cálculo socialista”). Os próprios Marx e Engels frequentemente argumentaram que a economia pós-capitalista desfrutaria de planejamento e capacidades de alocação superiores em comparação com o capitalismo. N’O Capital, Marx descreve a produção “livremente associada” como “regulada conscientemente… de acordo com um plano estabelecido.” Com “os meios de produção em comum…, a força de trabalho de todos os diferentes indivíduos é conscientemente aplicada como a força de trabalho combinada da comunidade… de acordo com um plano social definido [que] mantém a proporção adequada entre os diferentes tipos de trabalho a ser feito e as várias necessidades da comunidade”. N’A Guerra Civil na França , Marx projeta que as “sociedades cooperativas unidas” irão “regular a produção nacional sob um plano comum, tomando-a assim sob seu próprio controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas que são a fatalidade da produção capitalista29”.

No entanto, Marx e Engels não trataram a alocação planejada de recursos como o fator mais fundamental para distinguir o comunismo do capitalismo. Para eles, a característica mais básica do comunismo é sua desalienação das condições de produção vis-à-vis os produtores e o efeito capacitador que essa nova união teria sobre o desenvolvimento humano livre. Dito de outra forma, eles trataram o planejamento do comunismo e as capacidades de alocação como sintomas e instrumentos dos impulsos de desenvolvimento humano desencadeados pela nova comunalidade dos produtores e suas condições de existência. A descomoditização da produção pelo comunismo é, como discutido acima, o outro lado da desalienação das condições de produção. O planejamento da produção é apenas a forma alocativa dessa redução das capacidades humanas devido às suas condições materiais e sociais de existência. Como diz Marx, a troca de mercadorias é apenas “o vínculo natural para os indivíduos dentro de relações de produção limitadas específicas” e o “caráter alienado e independente” em que esse vínculo “existe vis-à-vis os indivíduos prova apenas que estes ainda estão engajados na criação das condições de sua vida social, e que ainda não começaram, com base nessas condições, a vivê-la”. Portanto, a razão do comunismo ser “uma sociedade organizada para um trabalho cooperativo em uma base planejada” não é para buscar a eficiência produtiva para si mesmo, mas sim “para garantir a todos os membros da sociedade os meios de existência e o pleno desenvolvimento de suas capacidades”. Essa dimensão do desenvolvimento humano também ajuda a explicar por que o “trabalho cooperativo… desenvolvido para dimensões nacionais” do comunismo não é, na projeção de Marx, governado por qualquer poder estatal centralizado; em vez disso, “o sistema começa com o autogoverno das comunidades”. Nesse sentido, o comunismo pode ser definido como “o povo agindo para si e por si mesmo” ou “a reabsorção do poder do Estado pela sociedade como suas próprias forças vivas, em vez de forças que a controlam e a subjugam30”.

2. Comunismo, Ecologia e Sustentabilidade de Marx

Muitos questionaram a praticidade econômica do comunismo como projetado por Marx. Poucos abordaram a dimensão do desenvolvimento humano da visão de Marx, sendo uma grande exceção aqueles críticos que argumentam que ela ancora o desenvolvimento humano livre na dominação tecnológica humana e no abuso da natureza, com os recursos naturais vistos como efetivamente ilimitados. É útil abordar essa dimensão ambiental em três níveis: (1) a responsabilidade do comunismo em administrar o uso das condições naturais; (2) a importância ecológica do tempo livre expandido; (3) o crescimento da riqueza e o uso do tempo de trabalho como medida do custo de produção.

A. Gerenciando os Comuns Comunalmente

Que a sociedade comunista possa ter um forte compromisso de proteger e melhorar as condições naturais pode parecer surpreendente, dada a sabedoria convencional de que Marx presumia que os “recursos naturais” eram “inesgotáveis” e, portanto, não via necessidade de “um socialismo que preservasse o meio ambiente, ecologicamente consciente, e com compartilhamento de emprego [employment-sharing]”. Marx evidentemente presumiu que “recursos escassos (petróleo, peixe, minério de ferro, meias, ou o que quer que seja)… não seriam escassos” sob o comunismo. A sabedoria convencional argumenta ainda que a “fé de Marx na capacidade de um modo de produção aprimorado para erradicar a escassez indefinidamente” significa que sua visão comunista não fornece “nenhuma base para reconhecer qualquer interesse na libertação da natureza” da “dominação humana” antiecológica. É dito que o otimismo tecnológico de Marx — sua “fé na dialética criativa” — descarta qualquer preocupação com a possibilidade de que “a tecnologia moderna interagindo com o ambiente físico da terra possa desequilibrar toda a base da civilização industrial moderna.”

Na realidade, Marx estava profundamente preocupado com a tendência do capitalismo de “minar as fontes originais de toda a riqueza: o solo e o trabalhador”. E ele enfatizou repetidamente o imperativo para a sociedade pós-capitalista de administrar seu uso das condições naturais de forma responsável. Isso ajuda a explicar sua insistência na extensão da propriedade comunal à terra e outras “fontes de vida”. Na verdade, Marx criticou fortemente o Programa de Gotha por não deixar “suficientemente claro que a terra está incluída nos instrumentos de trabalho” neste contexto. Na visão de Marx, a “Associação, aplicada à terra,… restabelece, agora de forma racional, não mais mediada pela servidão, soberania e o tolo misticismo da propriedade [privada], os laços íntimos do homem com a terra, já que a terra deixa de ser objeto de barganha”. Tal como acontece com outros meios de produção, esta “propriedade comum” da terra “não significa a restauração da antiga propriedade comum original, mas a instituição de uma forma de posse em comum muito mais elevada e desenvolvida32”.

Marx não vê essa propriedade comunal conferindo o direito de superexplorar a terra e outras condições naturais para atender às necessidades de produção e consumo dos produtores associados. Em vez disso, ele prevê um eclipse das noções capitalistas de propriedade da terra por um sistema comunitário de direitos e responsabilidades do usuário:

Do ponto de vista de uma forma econômica superior de sociedade, a propriedade privada do globo por indivíduos únicos parecerá tão absurda quanto a propriedade privada de um homem por outro. Mesmo uma sociedade inteira, uma nação, ou mesmo todas as sociedades existentes simultaneamente em conjunto, não são os donos do globo. Eles são apenas seus possuidores, seus usufrutuários e, como boni patres famílias, devem transmiti-lo às gerações seguintes em uma condição melhor23.

A projeção de Marx da propriedade fundiária comunal claramente não conota um direito dos “proprietários” (tanto os indivíduos quanto a sociedade como um todo) ao uso irrestrito com base na “posse”. Em vez disso, como toda propriedade comunal na nova união, confere o direito de utilizar responsavelmente a terra como uma condição de desenvolvimento humano livre e, na verdade, como uma fonte básica (junto com o trabalho) de “toda a gama de necessidades permanentes de vida exigidas pela cadeia de gerações sucessivas”. Como diz Marx, a associação trata “o solo como propriedade comunal eterna, condição inalienável para a existência e reprodução de uma cadeia de gerações sucessivas da raça humana34”.

Por que os críticos ecológicos perderam esse elemento crucial da visão de Marx? A resposta pode estar na influência contínua dos chamados modelos de “tragédia dos comuns”, que (erroneamente) identificam a propriedade comum com o “acesso aberto” descontrolado aos recursos naturais por usuários independentes. Na realidade, a dinâmica postulada por esses modelos tem mais em comum com a anarquia da competição capitalista do que com a visão de Marx dos direitos e responsabilidades comunais em relação ao uso das condições naturais. De fato, a capacidade dos sistemas tradicionais de propriedade comunal de utilizar de forma sustentável os recursos de uso comum tem sido objeto de um crescente corpo de pesquisas nos últimos anos. Esta pesquisa, sem dúvida, apoia o potencial de gestão ecológica por meio de uma “comunalização” das condições naturais na sociedade pós-capitalista35.

A ênfase de Marx na responsabilidade da sociedade futura para com a terra segue de sua projeção da unidade inerente da humanidade e da natureza sendo realizada tanto consciente quanto socialmente sob o comunismo. Para Marx e Engels, as pessoas e a natureza não são “duas ‘coisas’ separadas”, portanto, eles falam da humanidade tendo “uma natureza histórica e uma história natural”. Eles observam como a natureza extra-humana foi grandemente alterada pela produção e desenvolvimento humanos, de modo que “a natureza que precedeu a história humana… hoje não existe mais”, mas também reconhecem a importância contínua dos “instrumentos naturais de produção” por cujo uso “os indivíduos são subservientes à natureza”. O comunismo, longe de romper ou tentar superar a unidade necessária das pessoas e da natureza, torna esta unidade mais transparente e a coloca a serviço de um desenvolvimento sustentável das pessoas como seres naturais e sociais. Engels, portanto, visualiza a sociedade futura como uma na qual as pessoas “não apenas sentirão, mas também conhecerão sua unidade com a natureza”. Marx chega a definir o comunismo como “a unidade do ser do homem com a natureza36”.

Naturalmente, ainda será necessário para a sociedade comunista “lutar com a Natureza para satisfazer [seus] desejos, para manter e reproduzir a vida”. Marx, portanto, se refere “aos produtores associados regulando racionalmente seu intercâmbio com a natureza, colocando-a sob seu controle comum”. Tal regulação racional ou “real domínio consciente da Natureza” presume que os produtores “se tornaram donos de sua própria organização social37”. Mas não presume que a humanidade superou todos os limites naturais; nem presume que os produtores tenham alcançado o controle tecnológico completo sobre as forças naturais.

Por exemplo, Marx vê os produtores associados reservando uma parte do produto excedente como uma “reserva ou fundo de seguro para fornecer contra desventuras, distúrbios por meio de eventos naturais, etc.” especialmente na agricultura. As incertezas relacionadas com as condições naturais de produção (“destruição causada por fenômenos extraordinários da natureza, incêndio, inundação, etc.”) devem ser tratadas por meio de “uma superprodução relativa contínua”, ou seja, “produção em maior escala do que o necessário para a simples substituição e reprodução da riqueza existente”. Mais especificamente, “Deve haver, por um lado, uma certa quantidade de capital fixo produzido além do que é diretamente necessário; por outro lado, e particularmente, deve haver um suprimento de matérias-primas, etc., além das necessidades anuais diretas (isso se aplica especialmente aos meios de subsistência)”. Marx também prevê um “cálculo de probabilidades” para ajudar a garantir que a sociedade “esteja de posse dos meios de produção necessários para compensar a destruição extraordinária causada por acidentes e forças naturais38”.

Obviamente, “esse tipo de superprodução equivale ao controle da sociedade sobre os meios materiais de sua própria reprodução” apenas no sentido de uma regulação previdente dos intercâmbios produtivos entre a sociedade e as condições naturais incontroláveis. É nesse sentido prudencial que Marx prevê que os produtores associados “dirijam a produção desde o início, de modo que o suprimento anual de grãos dependa apenas minimamente das variações do clima; a esfera da produção — os aspectos de fornecimento e uso — é racionalmente regulada.” É simplesmente sensato que “os próprios produtores… gastem uma parte de seu trabalho, ou dos produtos de seu trabalho, para assegurar seus produtos, sua riqueza ou os elementos de sua riqueza, contra acidentes, etc.” “Dentro da sociedade capitalista”, ao contrário, as condições naturais incontroláveis ​​conferem um “elemento de anarquia” desnecessário à reprodução social39.

Contradizendo seus críticos ecológicos, Marx e Engels simplesmente não identificam o desenvolvimento humano livre com uma dominação humana unilateral ou controle da natureza. De acordo com Engels,

A liberdade não consiste no sonho da independência das leis naturais, mas no conhecimento dessas leis e na possibilidade que isso dá de fazê-las sistematicamente trabalharem para fins definidos. Isso é válido tanto em relação às leis da natureza externa quanto àquelas que governam a existência física e mental dos próprios homens — duas classes de leis que podemos separar uma da outra, no máximo, apenas em pensamento, mas não na realidade... Liberdade, portanto consiste no controle sobre nós mesmos e sobre a natureza externa que se baseia na necessidade natural.

Em suma, Marx e Engels imaginam uma “verdadeira liberdade humana” baseada em “uma existência em harmonia com as leis estabelecidas da natureza40”.

B. Tempo Livre Expandido e Desenvolvimento Humano Sustentável

Os críticos ecológicos de Marx frequentemente argumentam que sua visão de tempo livre expandido sob o comunismo é antiecológica porque incorpora uma ética de autorrealização humana por meio da superação de restrições naturais. Routley, por exemplo, sugere que Marx adota “a visão do trabalho de subsistência [bread labor] como necessariamente alienado e, portanto, como algo a ser reduzido a um mínimo absoluto por meio da automação. O resultado deve ser altamente intensivo em energia e, portanto, dado qualquer cenário de energia realista e previsível, prejudicial ao meio ambiente”. Para Marx, evidentemente, “é o fato de que o trabalho de subsistência vincula o homem à natureza que torna impossível que ele expresse o que é verdadeira e plenamente humano; assim, é apenas quando o homem supera a necessidade de gastar tempo com trabalho de subsistência que ele ou ela pode ser considerado como tendo dominado a natureza e se tornado totalmente humano”. Menos dramaticamente, Walker aponta para uma tensão entre a visão de Marx de expandir o tempo livre, que “claramente implica que deve haver recursos além daqueles necessários para um mínimo de sobrevivência”, e a suposta falha de Marx em “mencionar… limitações na disponibilidade natural recursos41”.

A discussão anterior já fez muito para dissipar as noções de que Marx e Engels não estavam preocupados com o manejo dos recursos naturais sob o comunismo e que previram uma separação progressiva do desenvolvimento humano da natureza como tal. No entanto, também deve ser apontado que os críticos ecológicos caracterizaram erroneamente a relação entre tempo livre e tempo de trabalho no comunismo. É verdade que, para Marx, o “desenvolvimento da energia humana que é um fim em si mesmo… está além da esfera real da produção material”, isto é, além do “trabalho que é determinado pela necessidade e por considerações mundanas”. Mas para Marx, este “verdadeiro reino da liberdade… pode florescer apenas com [o] reino da necessidade como sua base,” e a relação entre os dois reinos não é de forma alguma uma simples oposição, como alegado pelos críticos ecológicos. Como diz Marx, o “caráter bastante diferente… livre” do trabalho diretamente associado, onde “o tempo de trabalho é reduzido a uma duração normal e, além disso, o trabalho não é mais [do ponto de vista dos produtores como um todo] realizado para um outro alguém”, significa que “o próprio tempo de trabalho não pode permanecer na antítese abstrata do tempo livre em que aparece da perspectiva da economia burguesa”:

O tempo livre — que é tanto tempo ocioso quanto tempo para atividades superiores — naturalmente transformou seu possuidor em um sujeito diferente, e ele então entra no processo de produção direta como esse sujeito diferente. Esse processo é, então, ao mesmo tempo, disciplina, no que diz respeito ao ser humano em processo de devir; e, ao mesmo tempo, prática, ciência experimental, ciência materialmente criativa e objetivadora, no que diz respeito ao ser humano que se tornou, em cuja cabeça está o conhecimento acumulado da sociedade42.

Na visão de Marx, o aumento do desenvolvimento humano livre por meio de reduções no tempo de trabalho ressoa positivamente com o desenvolvimento das capacidades humanas no reino da produção, que ainda aparece como um “metabolismo” da sociedade e da natureza. As ênfases de Marx na educação “teórica e prática” e na desalienação da ciência vis-à-vis os produtores são bastante relevantes neste contexto. Marx vê a difusão e o desenvolvimento do conhecimento científico pelo comunismo tomando a forma de novas combinações das ciências naturais e sociais, observando que

a ciência natural... se tornará a base da ciência humana, como já se tornou a base da vida humana real, embora de forma afastada. Uma base para a vida e outra base para a ciência são, a priori, uma mentira... A ciência natural, com o tempo, incorporará em si a ciência do homem, assim como a ciência do homem incorporará em si a ciência natural: haverá uma única ciência43.

Essa unidade intrínseca das ciências sociais e naturais é, naturalmente, um corolário lógico da unidade intrínseca da humanidade e da natureza. Consequentemente, Marx e Engels “conhecem apenas uma única ciência, a ciência da história. Pode-se olhar a história por dois lados e dividi-la em história da natureza e história dos homens. Os dois lados são, no entanto, inseparáveis; a história da natureza e a história dos homens dependem uma da outra enquanto os homens existirem44”.

Em suma, os fundadores do Marxismo não previram a redução do tempo de trabalho do comunismo em termos de uma separação progressiva do desenvolvimento humano da natureza. Eles também não viram o tempo livre expandido sendo preenchido por orgias de consumo pelo consumo. Em vez disso, a redução do tempo de trabalho é vista como uma condição necessária para o desenvolvimento intelectual de indivíduos sociais capazes de dominar as forças cientificamente desenvolvidas da natureza e do trabalho social de maneira ambientalmente e também humanamente racional. O “aumento do tempo livre” aparece aqui como “tempo de pleno desenvolvimento do indivíduo” capaz de “a apreensão de sua própria história como processo, e o reconhecimento da natureza (igualmente presente como poder prático sobre a natureza) como seu real corpo.” O desenvolvimento intelectual dos produtores durante o tempo livre e o tempo de trabalho é claramente central para o processo pelo qual o “caráter social [do trabalho comunista] é posto… no processo de produção não de uma forma meramente natural e espontânea, mas como uma atividade que regula todas as forças da natureza45”. Longe de ser antiecológico, nesse processo os produtores e suas comunidades passam a ter uma consciência mais teórica e prática da riqueza natural como condição eterna de produção, tempo livre e da própria vida humana.

Os críticos ecológicos também parecem ter perdido de vista o potencial de aumento do tempo livre como meio de reduzir a pressão da produção sobre o ambiente natural. Especificamente, o aumento da produtividade do trabalho social não precisa aumentar o rendimento de material e energia, na medida em que os produtores são compensados ​​por reduções no tempo de trabalho em vez de pelo maior consumo de materiais. No entanto, este aspecto do tempo livre como uma medida de riqueza é melhor localizado no contexto da transformação das necessidades humanas pelo comunismo.

C. Riqueza, necessidades humanas e custo da força de trabalho

Alguns argumentariam que, na medida em que Marx imagina o comunismo encorajando um senso compartilhado de responsabilidade para com a natureza, essa responsabilidade permanece ligada a uma concepção antiecológica da natureza como primariamente um instrumento ou material do trabalho humano. Alfred Schmidt, por exemplo, sugere que “quando Marx e Engels reclamam do roubo profano da natureza, eles não estão preocupados com a própria natureza, mas com considerações de utilidade econômica”. Routley afirma que, para Marx, “a natureza deve ser aparentemente respeitada na medida, e apenas na medida, que se torna obra do homem, seu artefato e autoexpressão, e é, portanto, um reflexo do homem e parte da identidade do homem46”.

Deve ficar claro a partir de nossa discussão anterior que qualquer dicotomia entre “utilidade econômica” e “a própria natureza” é completamente estranha ao materialismo de Marx. Um ponto relacionado é que a concepção de Marx de riqueza ou valor de uso abrange “a variedade multifacetada de necessidades humanas”, sejam essas necessidades físicas, culturais ou estéticas. Neste sentido amplo de desenvolvimento humano, “valor de uso… pode geralmente ser caracterizado como o meio de vida”. David Pepper conclui acertadamente que “Marx realmente via o papel da natureza como ‘instrumental’ para os humanos, mas para ele o valor instrumental… incluía a natureza como uma fonte de valor estético, científico e moral47”.

Por “obra do homem”, Marx não emprega uma concepção oposicionista de trabalho e natureza em que o primeiro apenas inclui a última. Ele insiste que a capacidade humana de trabalhar, ou força de trabalho, é em si “um objeto natural, uma coisa, embora uma coisa viva e consciente”, portanto, o trabalho é um processo no qual o trabalhador “se opõe à Natureza sendo uma de suas próprias forças” e “se apropria das produções da Natureza de uma forma adaptada aos seus próprios desejos”. Marx vê o trabalho como “um processo do qual o homem e a Natureza participam… a condição necessária para efetuar a troca de matéria entre o homem e a Natureza” na produção. Como uma “condição universal para a interação metabólica entre a natureza e o homem”, o trabalho é “uma condição natural da vida humana… independente de, igualmente comum a, todas as formas sociais particulares de vida humana”. O trabalho é, obviamente, apenas parte do “metabolismo universal da natureza” e, como um materialista, Marx insiste que “a terra… existe independentemente do homem”. Nesse sentido ontológico, “a prioridade da natureza externa permanece incontestável”, embora Marx insista na importância das relações sociais na estruturação do “metabolismo” produtivo entre a humanidade e a natureza48.

Mas o que dizer das notórias referências de Marx e Engels ao crescimento contínuo da produção de riqueza sob o comunismo? Não são imanentemente antiecológicos? Aqui deve ser enfatizado que essas projeções de crescimento são sempre feitas em estreita conexão com a visão de Marx de um desenvolvimento humano livre e completo, não com o crescimento da produção e do consumo materiais para seu próprio bem. Assim, sempre se referem ao crescimento da riqueza em um sentido geral, abrangendo a satisfação de necessidades outras que não aquelas que requerem o processamento industrial de recursos naturais (produção de matéria e energia). Ao discutir a “fase superior da sociedade comunista”, por exemplo, Marx torna a frase “a cada um de acordo com suas necessidades” critério condicional a uma situação em que “a subordinação escravizante de indivíduos sob divisão de trabalho e, com isso, também a antítese entre o trabalho mental e físico desapareceu; depois que o trabalho, de um mero meio de vida, tornou-se ele mesmo a necessidade primária da vida; depois que as forças produtivas também aumentaram com o desenvolvimento integral do indivíduo”. Da mesma forma, Engels se refere a “um crescimento praticamente ilimitado da produção”, mas então preenche sua concepção de “prático” em termos da prioridade “de garantir para cada membro da sociedade… uma existência que não é apenas totalmente suficiente a partir de um ponto de vista material… mas também lhes garante o desenvolvimento totalmente irrestrito de suas faculdades físicas e mentais49”. Esse desenvolvimento humano não precisa envolver um crescimento ilimitado do consumo material.

Para Marx, a “expansão progressiva do processo de reprodução” do comunismo abrange todo o “processo vivo da sociedade de produtores” e, como discutido anteriormente, ele especifica as “vantagens materiais e intelectuais” deste “desenvolvimento social” em termos de desenvolvimento humano holístico. Quando Marx e Engels concebem o comunismo como “uma organização de produção e intercâmbio que tornará possível a satisfação normal das necessidades… limitada apenas pelas próprias necessidades”, eles não significam uma saciedade completa de necessidades em expansão ilimitada de todos os tipos:

A organização comunista tem um efeito duplo sobre os desejos produzidos no indivíduo pelas relações atuais; alguns desses desejos — a saber, os desejos que existem sob todas as relações e apenas mudam sua forma e direção sob diferentes relações sociais — são meramente alterados pelo sistema social comunista, pois têm a oportunidade de se desenvolverem normalmente; mas outros — a saber, aqueles originários unicamente de uma sociedade particular, sob condições particulares de produção e intercâmbio — estão totalmente privados de suas condições de existência. O que será meramente mudado e o que será eliminado em uma sociedade comunista só pode ser determinado de maneira prática50.

Como Ernest Mandel aponta, esta abordagem de desenvolvimento social e humano para a satisfação de necessidades é bastante diferente da “noção absurda” de “abundância” irrestrita muitas vezes atribuída a Marx, isto é, “um regime de acesso ilimitado a um suprimento ilimitado de todos os bens e serviços.” Embora a satisfação das necessidades comunistas seja consistente com uma “definição de abundância [como] saturação da demanda”, isso deve ser localizado no contexto de uma hierarquia de “necessidades básicas, necessidades secundárias, que se tornam indispensáveis ​​com o crescimento da civilização, e luxo, necessidades não essenciais ou mesmo prejudiciais”. A visão do desenvolvimento humano de Marx prevê basicamente uma saciedade das necessidades básicas e uma extensão gradual dessa saciedade às necessidades secundárias à medida que elas se desenvolvem socialmente por meio do tempo livre expandido e do controle cooperativo da comunidade de trabalhadores sobre a produção — não uma saciedade completa de todas as necessidades concebíveis51.

Aqui, começa-se a ver todo o significado ecológico do tempo livre como medida da riqueza comunista. Especificamente, se as necessidades secundárias desenvolvidas e satisfeitas durante o tempo livre são menos intensivas em material e energia, seu peso crescente nas necessidades totais deve reduzir a pressão da produção em condições naturais limitadas. Isso é crucial na medida em que a visão de Marx faz com que os produtores usem sua segurança material recém-descoberta e tempo livre expandido para se envolver em uma variedade de formas intelectuais e estéticas de autodesenvolvimento52. Tal desenvolvimento de necessidades secundárias deve ser ampliado pelas maiores oportunidades que o controle verdadeiramente exercido pelo trabalhador e pelacomunidade oferece às pessoas para que se tornem participantes informados da vida econômica, política e cultural.

Claro, o trabalho (junto com a natureza) continua sendo uma fonte fundamental de riqueza sob o comunismo. Isso, junto com a prioridade da ampliação do tempo livre, significa que as quantidades de trabalho social despendidas na produção de diferentes bens e serviços ainda serão uma medida importante de seu custo. Como Marx explica no Grundrisse:

Com base na produção comunal, a determinação do tempo permanece, é claro, essencial. Quanto menos tempo a sociedade necessita para produzir trigo, gado etc., mais tempo ela ganha para outra produção, material ou mental. Assim como no caso de um indivíduo, a multiplicidade de seu desenvolvimento, seu gozo e sua atividade dependem da economia do tempo. Economia de tempo, a isso toda economia se reduz em última instância. Da mesma forma, a sociedade deve distribuir seu tempo de maneira proposital, a fim de alcançar uma produção adequada às suas necessidades globais; assim como o indivíduo deve distribuir seu tempo corretamente para adquirir conhecimentos em proporções adequadas ou para satisfazer as diversas demandas de sua atividade. Assim, a economia de tempo, junto com a distribuição planejada do tempo de trabalho entre os vários ramos de produção, continua sendo a primeira lei econômica na base na produção comunal. Lá se torna lei em um grau ainda mais alto.

Marx adiciona imediatamente, no entanto, que a economia de tempo do comunismo “é essencialmente diferente de uma medição dos valores de troca (trabalho ou produtos) pelo tempo de trabalho.” Em primeiro lugar, o uso do tempo de trabalho pelo comunismo como uma medida de custo “é realizado… pelo controle direto e consciente da sociedade sobre seu tempo de trabalho — o que só é possível com propriedade comum”, ao contrário da situação sob o capitalismo, onde a “regulação” do tempo de trabalho social só é realizada indiretamente, “pelo movimento dos preços das mercadorias”. Mais importante ainda, a economia de tempo de trabalho do comunismo serve ao valor de uso, especialmente a expansão do tempo livre, enquanto a economia de tempo do capitalismo é voltada para aumentar o tempo de mais-trabalho despendido pelos produtores53.

Além disso, Marx e Engels não projetam o tempo de trabalho como o único guia para as decisões de alocação de recursos no comunismo: eles apenas indicam que deve ser uma medida importante dos custos sociais de diferentes tipos de produção. Que “a produção… sob o controle real e predeterminante da sociedade... estabeleça uma relação entre o volume de trabalho social aplicado na produção de artigos definidos e o volume do desejo social a ser satisfeito por esses artigos” de forma alguma implica que os custos ambientais são deixados de fora da conta. Da mesma forma, não impede que a manutenção e a melhoria das condições naturais sejam incluídas nas “necessidades sociais a serem satisfeitas” pela produção e pelo consumo54.

Para fortes evidências de que Marx e Engels não viam o comunismo priorizando o custo mínimo do trabalho em relação às metas ecológicas, basta apontar a sua insistência na “abolição da antítese entre cidade e campo” como “uma necessidade direta de... produção e, além disso, da saúde pública”. Observando as concentrações urbanas ecologicamente perturbadoras das indústrias e população no capitalismo, a agricultura industrializada e a falha em reciclar resíduos humanos e de animais da pecuária, Marx e Engels apontaram desde o início a “abolição da contradição entre a cidade e o campo” como “uma das primeiras condições da vida comunal”. Como Engels disse mais tarde: “O atual envenenamento do ar, da água e da terra só pode ser eliminado pela fusão da cidade e do campo” sob “um único plano vasto”. Apesar de seu custo potencial para a sociedade em termos de aumento do tempo de trabalho, ele via essa fusão como “nem mais e nem menos utópica do que a abolição da antítese entre capitalista e trabalhadores assalariados”. Era até mesmo “uma demanda prática da produção industrial e agrícola”. Em sua magnum opus, Marx previu o comunismo forjando uma “síntese superior” do “antigo vínculo de união que mantinha unidas a agricultura e a manufatura em sua infância”. Essa nova união trabalharia para uma “restauração” das “condições naturalmente cultivadas para a manutenção de [a] circulação da matéria... sob uma forma apropriada para o pleno desenvolvimento da raça humana.” Consequentemente, Engels ridicularizou a projeção de Dühring “de que a união entre a agricultura e a indústria será realizada mesmo contra considerações econômicas, como se isso fosse algum sacrifício econômico!55” É óbvio que Marx e Engels aceitariam de bom grado aumentos no tempo de trabalho social em troca de uma produção ecologicamente mais sólida.

Ainda assim, não é necessário aceitar a noção, repetida ad nauseam pelos críticos ecológicos de Marx, de uma oposição inerente entre reduções de custos do trabalho e respeito ao meio ambiente. O comunismo de Marx dispensaria o desperdício de recursos naturais e também de trabalho associado ao “sistema anárquico de competição” e “grande número de empregos… em si supérfluos” do capitalismo. Muitos valores de uso antiecológicos poderiam ser eliminados ou largamente reduzidos sob um sistema planejado de alocação de trabalho e uso da terra, entre eles publicidade, processamento e acondicionamento excessivos de alimentos e outros bens, obsolescência planejada de produtos e automóveis. Todos esses valores de uso destrutivos são “indispensáveis” para o capitalismo; mas do ponto de vista da sustentabilidade ambiental representam “o mais ultrajante desperdício da força de trabalho e dos meios sociais de produção56”.

Notas

1. Oskar Lange and Fred M. Taylor, On the Economic Theory of Socialism (New York: McGraw-Hill, 1964); “Socialism: Alternative Views and Models,” simpósio em Science & Society 56, no. 4 (Spring 1992); “Building Socialism Theoretically: Alternatives to Capitalism and the Invisible Hand,” simpósio em Science & Society 66, no. 1 (Spring 2002); Ernesto Che Guevara, “Man and Socialism in Cuba,” em Man and Socialism in Cuba: The Great Debate, ed. Bertram Silverman (New York: Atheneum, 1973), 337, 350.
2. Para mais discussões da visão de Marx sobre o comunismo, ver Paresh Chattopadhyay, “Socialism: Utopian and Feasible,” Monthly Review 37, no. 10 (March 1986); Bertell Ollman, “Marx’s Vision of Communism,” in Social and Sexual Revolution: Essays on Marx and Reich (Boston: South End Press, 1979).
3. Herman E. Daly, Steady-State Economics, 2nd ed. (London: Earthscan, 1992), 196; Robyn Eckersley, Environmentalism and Political Theory (Albany: State University of New York Press, 1992), 80; Victor Ferkiss, Nature, Technology, and Society (New York: New York University Press, 1993), 110; K. J. Walker, “Ecological Limits and Marxian Thought,” Politics 14, no. 1 (May 1979), 35–6; Val Routley, “On Karl Marx as an Environmental Hero,” Environmental Ethics 3, no. 3 (Fall 1981), 242. Para referências adicionais às críticas ecológicas ao comunismo de Marx, ver John Bellamy Foster, “Marx and the Environment,” Monthly Review 47, no. 3 (July–August 1995), 108–9; Paul Burkett, Marx and Nature: A Red and Green Perspective (New York: St. Martin’s Press, 1999), 147–8, 223.
4. Karl Polanyi, The Great Transformation (New York: Farrar & Rinehart, 1944); Thomas E. Weisskopf, “Marxian Crisis Theory and the Contradictions of Late Twentieth-Century Capitalism,” Rethinking Marxism 4, no. 4 (Winter 1991); Blair Sandler, “Grow or Die: Marxist Theories of Capitalism and the Environment,” Rethinking Marxism 7, no. 2 (Summer 1994); Andriana Vlachou, “Nature and Value Theory,” Science & Society 66, no. 2 (Summer 2002).
5. Paul Auerbach and Peter Skott, “Capitalist Trends and Socialist Priorities,” Science & Society 57, no. 2 (Summer 1993), 195.
6. Karl Marx, Value, Price and Profit (New York: International Publishers, 1976), 39; Theories of Surplus Value, part 3 (Moscow: Progress Publishers, 1971), 271–2; Theories of Surplus Value, part 2 (Moscow: Progress Publishers, 1968), 580 (emphasis in original).
7. Frederick Engels, Anti-Dühring (New York: International Publishers, 1939), 221 (emphasis in original); Marx, Theories of Surplus Value, part 3, 525; “Drafts of the Letter to Vera Zasulich, March 8, 1881,” in Collected Works, Karl Marx and Frederick Engels, vol. 24 (New York: International Publishers, 1989), 362 (emphasis in original).
8. Marx, Capital, vol. I (New York: International Publishers, 1967), 762; “Economic Manuscript of 1861–63, Conclusion,” in Collected Works, Karl Marx and Frederick Engels, vol. 34 (New York: International Publishers, 1994), 109 (emphasis in original); Karl Marx and Frederick Engels, The German Ideology (Moscow: Progress Publishers, 1976), 97.
9. Karl Marx and Frederick Engels, “Manifesto of the Communist Party,’ in Selected Works (London: Lawrence & Wishart, 1968), 47. See also Marx, Capital, 3:437–40; “Economic Manuscript of 1861–63, Conclusion,” 108.
10. Marx, Capital, 3:437, 876; Critique of the Gotha Programme (New York: International Publishers, 1966), 7–8, 11; Frederick Engels, The Housing Question (Moscow: Progress Publishers, 1979), 28, 94. See also Marx, Theories of Surplus Value, part 1 (Moscow: Progress Publishers, 1963), 107; Capital, 1:530 and 2:819, 847.
11. Marx, Capital, 1:763; “Economic Manuscript of 1861–63, Conclusion,” 109 (emphases in original); “The Civil War in France,” in On the Paris Commune, by Karl Marx and Frederick Engels (Moscow: Progress Publishers, 1985), 75.
12. Marx and Engels, The German Ideology, 86–9, 309.
13. Marx, Capital, 1:488; Marx and Engels, “Manifesto of the Communist Party,” 53.
14. Marx and Engels, “Manifesto of the Communist Party,” 49; Engels, Anti-Dühring, 144; Marx, Capital, 1:78.
15. Marx, Capital, 1:78; Critique of the Gotha Programme, 8, 10.
16. Engels, Anti-Dühring, 220–2.
17. Marx, Critique of the Gotha Programme, 10; Engels, Anti-Dühring, 221 (ênfase no original); Marx, Capital, 3:876. See also Marx and Engels, The German Ideology, 566.
18. Marx, Critique of the Gotha Programme, 7–8.
19. Marx, Critique of the Gotha Programme, 20, 22; Capital, 1:488, 490; “The Civil War in France,” 162.
20. Marx, Capital, 1:530 and 2:819–20; Theories of Surplus Value, part 3, 257 (ênfase no original); Grundrisse (New York: Vintage, 1973), 708.
21. Marx, Capital, 1:530; “The Civil War in France,” 75; Marx and Engels, The German Ideology, 309.
22. Marx, Grundrisse, 190, 706; Theories of Surplus Value, part 2, 117–8 (ênfase no original); Marx and Engels, The German Ideology, 96, 465.
23. Marx, Capital, 2:358; Engels, Anti-Dühring, 221.
24. Marx, A Contribution to the Critique of Political Economy (New York: International Publishers, 1970), 84–5.
25. Marx, A Contribution to the Critique of Political Economy, 85 (ênfase no original); Theories of Surplus Value, part 3, 129; Critique of the Gotha Programme, 8 (eênfase no original).
26. Marx, Grundrisse, 159, 171–2 (ênfase no original).
27. Marx, Grundrisse, 158 (ênfase no original).
28. Marx, Grundrisse, 264; Capital, 1:94. Ver também Engels, Anti-Dühring, 337–8.
29. Marx, Capital, 1:78–80; “The Civil War in France,” 76.
30. Marx, Grundrisse, 162; Engels, Anti-Dühring, 167; Marx, “Inaugural Address of the International Working Men’s Association,” em The First International and After, ed. David Fernbach (New York: Random House, 1974), 80; “Notes on Bakunin’s Book Statehood and Anarchy,” em Collected Works, Karl Marx and Frederick Engels, 24:519; “The Civil War in France,” 130, 153.
31. Alec Nove, “Socialism,” em The New Palgrave: Problems of the Planned Economy, ed. John Eatwell, Murray Milgate e Peter Newman (New York: Norton, 1990), 230, 237; Alec Nove, The Economics of Feasible Socialism (London: Allen & Unwin, 1983), 15–6; Geoffrey Carpenter, “Redefining Scarcity: Marxism and Ecology Reconciled,” Democracy & Nature 3, no. 3 (1997), 140; Andrew McLaughlin, “Ecology, Capitalism, and Socialism,” Socialism and Democracy, no. 10 (Spring–Summer 1990), 95; Lewis S. Feuer, “Introduction,” em Karl Marx and Frederick Engels: Basic Writings on Politics and Philosophy, ed. Lewis Feuer (Garden City, N.Y.: Anchor Books, 1989), xii.
32. Marx, Capital, 1:507; Critique of the Gotha Programme, 5–6; Economic and Philosophical Manuscripts of 1844 (New York: International Publishers, 1964), 103; Engels, Anti-Dühring, 151.
33. Marx, Capital, 3:776.
34. Marx, Capital, 617, 812 (ênfase adicionada).
35. H. Scott Gordon, “The Economic Theory of a Common Property Resource: The Fishery,” Journal of Political Economy 62, no. 2 (Abril 1954); Garrett Hardin, “The Tragedy of the Commons,” Science 162 (Dezembro 1968); S. V. Ciriacy-Wantrup e Richard C. Bishop, “‘Common Property’ as a Concept in Natural Resource Policy,” Natural Resources Journal 15, no. 4 (Outubro 1975); James A. Swaney, “Common Property, Reciprocity, and Community,” Journal of Economic Issues 24, no. 2 (Junho 1990); Elinor Ostrom, Governing the Commons (Cambridge: Cambridge University Press, 1990); Peter Usher, “Aboriginal Property Systems in Land and Resources,” em Green On Red: Evolving Ecological Socialism, ed. Jesse Vorst, Ross Dobson e Ron Fletcher (Winnipeg: Fernwood Publishing, 1993); Burkett, Marx and Nature, 246–8; Robert Biel, The New Imperialism (London: Zed Books, 2000), 15–8, 98–101.
36. Marx e Engels, The German Ideology, 45–6, 71; Frederick Engels, Dialectics of Nature (Moscow: Progress Publishers, 1964), 183; Marx, Economic and Philosophical Manuscripts of 1844, 137.
37. Marx, Capital, 3:820; Engels, Anti-Dühring, 309.
38. Marx, Critique of the Gotha Programme, 7; Capital, 2:177, 469.
39. Marx, Capital, 2:469; “Notes on Wagner,” in Texts on Method, ed. Terrell Carver (Oxford, UK: Blackwell, 1975), 188; Theories of Surplus Value, part 3, 357–8.
40. Engels, Anti-Dühring, pp. 125–6.
41. Routley, “On Karl Marx as an Environmental Hero,” 242; Walker, “Ecological Limits and Marxian Thought,” 242–3.
42. Marx, Capital, 3:820; Theories of Surplus Value, parte 3, 257; Grundrisse, 712.
43. Marx, Economic and Philosophical Manuscripts of 1844, 143 (ênfase no original).
44. Marx e Engels, The German Ideology, 34. Ver também Ollman, “Marx’s Vision of Communism,” 76.
45. Marx, Grundrisse, 542, 612 (ênfase no original).
46. Alfred Schmidt, The Concept of Nature in Marx (London: New Left Books, 1971), 155; Routley, “On Karl Marx as an Environmental Hero,” 243 (ênfase no original).
47. Marx, Grundrisse, 527; “Economic Manuscript of 1861–63, Third Chapter,” em Collected Works, Karl Marx e Frederick Engels, vol. 30 (New York: International Publishers, 1988), 40 (ênfase no original); David Pepper, Eco-Socialism (London: Routledge, 1993), 64.
48. Marx, Capital, 1:177, 183–4, 202 (ênfase adicionada); “Economic Manuscript of 1861–63, Third Chapter,” 63; Marx and Engels, The German Ideology, 46. Para detalhes sobre a concepção dialética de Marx do trabalho humano e da natureza, ver Burkett, capítulos 2–4 em Marx and Nature; John Bellamy Foster, Marx’s Ecology: Materialism and Nature (New York: Monthly Review Press, 2000); John Bellamy Foster ePaul Burkett, “The Dialectic of Organic/Inorganic Relations: Marx and the Hegelian Philosophy of Nature,” Organization & Environment 13, no. 4 (Dezembro 2000).
49. Marx, Critique of the Gotha Programme, 10; Engels, Anti-Dühring, 309.
50. Capital, 3:250, 819 (ênfase no original); Marx and Engels, The German Ideology, 273.
51. Ernest Mandel, Power and Money: A Marxist Theory of Bureaucracy (London: Verso, 1992), 205–7 (emphasis in original); Howard J. Sherman, “The Economics of Pure Communism,” Review of Radical Political Economics 2, no. 4 (Inverno 1970).
52. Marx, Grundrisse, 287; Marx and Engels, The German Ideology, 53.
53. Marx, Grundrisse, 172–3, 708; Marx to Engels, Janeiro 8, 1868, in Selected Correspondence, Karl Marx and Frederick Engels (Moscow: Progress Publishers, 1975), 187; Marx, Capital, 1:71 and 3:264.
54. Marx, Capital, 3:187.
55. Engels, Anti-Dühring, 323–4 (ênfase no original); The Housing Question, 92; Marx e Engels, The German Ideology, 72; Marx, Capital, 1:505–6.
56. Marx, Capital, 1:530. Para maiores discussões sobre planejamento socialista, tecnologia e eficiência ecológica, ver Victor Wallis, “Socialism, Ecology, and Democracy: Toward A Strategy of Conversion,” Monthly Review 44, no. 2 (Junho 1992); “Technology, Ecology, and Socialist Renewal,” Capitalism, Nature, Socialism 12, no. 1 (Março 2004).

Sobre o autor

Paul Burkett ensina economia na Indiana State University, Terre Haute. Com Martin Hart-Landsberg, ele foi co-autor de China and Socialism: Market Reforms and Class Struggle (Monthly Review Press, 2005).

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...