A declaração de Waring foi retomada por Henry Carey, o principal economista americano da época, que já havia enviado a Marx The Slave Trade, Domestic and Foreign, uma obra que em certo ponto caracteriza “o homem como um mero tomador de empréstimos da terra”.29 Carey citou extensivamente Waring sobre “o roubo da terra de seu estoque de capital” tanto em Letters to the President: On the Foreign and Domestic Policy of the Union (1858) quanto em Principles of Social Science (1858). Isso, por sua vez, influenciaria Liebig, que se baseou em Waring via Carey em seu Letters on Modern Agriculture (1859), que marcou o início de seu grande ataque à agricultura capitalista industrializada enquanto um “sistema de roubo”. A crítica de Liebig a esse respeito culminou na famosa introdução à edição de 1862 de Agricultural Chemistry, que inspirou a teoria da ruptura metabólica de Marx. Significativamente, no mesmo parágrafo em que Marx fez a distinção crucial entre terra como matéria terrestre e como capital terrestre no volume 3 de O capital, ele também se referiu às críticas clássicas à degradação do solo de James Anderson e Carey, apontando para a contradições ecológicas do capital.30
A declaração do Banco Mundial sugeria sutilmente que a substituibilidade era alta para todos os insumos de recursos naturais, exceto no caso de produção em limites mais altos, particularmente onde isso afetava os “sistemas globais de suporte à vida” (minimizando que esse era precisamente o problema em uma economia globalizada dentro de um ambiente planetário limitado), enquanto soluções tecnológicas para tais efeitos de escala, se não disponíveis no momento, eram vistas como potencialmente disponíveis no futuro. A relação da economia com os recursos naturais deve, portanto, deveria promover um “mix de ativos que suportam melhorias ao bem-estar humano”, que se esperava mudar ao longo do tempo, não colocando limites claros ao “crescimento indefinido”. A noção de capital natural crítico, ou seja, um forte argumento de sustentabilidade, foi então cuidadosamente descartada. Ignora-se completamente qualquer consideração das condições socioeconômicas específicas que governam a produção capitalista e das contradições que elas inerentemente representam para o metabolismo do Sistema Terra.
Em 1992, a Sociedade Internacional de Economia Ecológica realizou uma conferência em Estocolmo dedicada à plena operacionalização de “capital natural” como um conceito de economia ecológica. Em 2003, a Ecological Economics publicou uma introdução a uma edição especial que dizia: “O capital natural é um conceito-chave para a economia ecológica.”45 Essa mudança coincidia com uma disputa dentro da própria revista, na qual Robert Costanza, editor-chefe e principal proponente da noção econômica híbrida neoclássica/ecológica de capital natural, conseguiu remover do conselho editorial o seu principal ecologista de sistemas, Howard Odum, e vários outros cientistas naturais associados à revista. Em oposição ao conceito de capital natural com sua tentativa de valorização da natureza em termos capitalistas, Odum avançou uma forma de contabilizar os insumos de energia incorporados na economia natural usando a noção de emergia (escrito com m), diretamente relacionada à categoria de valor de uso da economia clássica. O objetivo era desafiar as tentativas de minimizar a oposição entre a economia capitalista e os sistemas naturais e fornecer uma teoria abrangente do imperialismo ecológico. Após a saída de Odum da revista, o conceito de emergia foi efetivamente banido da publicação.46
Essas mudanças na economia ecológica abriram o caminho para a medição dos fluxos de “renda natural” ou “bem-estar” para a economia humana a partir do estoque de capital natural na forma de bens e serviços ecossistêmicos (abreviados por conveniência simplesmente para serviços), fornecendo assim valores de mercado presumíveis pela contribuição da natureza para o crescimento econômico.47 O capital natural foi, de fato, redefinido em termos de mercado como o estoque de recursos naturais que fornece serviços ecossistêmicos à economia humana. Os serviços ecossistêmicos não se referiam aos processos ecossistêmicos como um todo, mas apenas àqueles serviços que poderiam ser vistos como subsidiando a economia humana e que, portanto, poderiam ser separados dessa forma do resto da natureza.48 O objetivo implícito era contabilizar e, eventualmente, até certo ponto, “internalizar” dádivas discerníveis para a economia de mercado capitalista com base nas preferências imputadas do consumidor. A natureza, onde tais benefícios para a economia capitalista estavam ausentes, permaneceu, com efeito, desprovida de valor econômico imputado e externa a essa concepção mais ampla de capital natural, como se pudesse ser fatiada e cortada em termos de ativos econômicos. A esse respeito, os serviços ecossistêmicos como categoria de renda natural desbancaram a categoria de capital natural em si.49
Costanza, que fez o seu melhor para expandir a noção de serviços ecossistêmicos, passou a liderar um estudo intitulado “The Value of the World’s Ecosystem Services and Natural Capital”, publicado na Nature em 1997, que forneceu estimativas de dezessete serviços ecossistêmicos em dezesseis biomas, baseando-se em um “método simples de transferência de benefício [ou transferência de valor]”. O estudo assumiu um valor constante em unidade de dólar por hectare em um determinado tipo de ecossistema, que foi então multiplicado pela área total de cada tipo para obter valores agregados.50 Os valores foram obtidos relacionando os benefícios à economia humana aos benefícios análogos fornecidos pelos serviços ecossistêmicos. Isso constituía, de fato, um sistema de “preços-sombra” baseado na melhor estimativa de um economista de qual preço uma função ou coisa obteria na economia capitalista de mercado, enraizando-se no que se supunha serem preferências individuais.51 Conduzir tal análise requer, assim como a expropriação capitalista como um todo, o que tem sido chamado de “a divisão da natureza”, isto é, sua simplificação em elementos presumivelmente mercantilizáveis.52 Processos naturais, heterogêneos e qualitativamente distintos são “desagregados em unidades de valor distintas e homogêneas, ” reduzindo entidades e processos amplamente incomensuráveis – a “complexa teia de relações” de Darwin — a termos monetários, permitindo que eles sejam agregados para representar serviços ecossistêmicos globais como um todo, enquanto valorizados/precificados em termos de relações mercadológicas capitalistas.53
O estudo Costanza de 1997 foi amplamente aclamado entre os ambientalistas, mesmo porque ofereceu o que parecia ser números concretos à noção de que a economia mundial dependia da ecologia mundial — agora ela mesma reduzida a dólares em termos de serviços ecossistêmicos. Nesse estudo, Costanza e seus coautores descreveram o valor anual dos serviços ecossistêmicos mundiais em 1995 como US$ 33 trilhões de dólares, pouco menos do que o dobro do PIB mundial de US$18 trilhões.54 A noção de avaliação do capital natural foi ainda mais avançada na Avaliação Econômica do Milênio, de 2005, que teve como principal mensagem os perigos da “desagregação dos ativos de capital natural” e a negligência dos serviços ambientais em todo o mundo. As Nações Unidas estavam para lançar um Sistema de Contabilidade Ambiental-Econômica, utilizando a abordagem de capital natural/serviços ecossistêmicos.55 Em 2014, em uma atualização intitulada “Changes in the Value of Global Ecosystem Values”, Costanza e seus colegas estimaram que os serviços ecossistêmicos do mundo em 2011 eram iguais a US$145 trilhões anuais (em dólares de 2007), comparados a um PIB mundial de aproximadamente US$ 73,6 trilhões.56
No entanto, embora as tentativas atuais de atribuir valores à natureza possam servir a funções pedagógicas úteis e ajudar a aprimorar o planejamento estratégico, elas estão sendo cada vez mais integradas às metas de acumulação de capital. Como a organização Friends of the Earth observou em The Financialization of Nature, “promover mercados ecossistêmicos envolve as mesmas metodologias e instituições de precificação e negociação que foram desenvolvidas para avaliação econômica”.57 Assim, durante as últimas três décadas, “a história da pesquisa de serviços ecossistêmicos” foi acompanhado por “uma história paralela da mercantilização da função do ecossistema”, operada através de universidades, governos e empresas, usando a mesma linguagem e métodos de contabilidade de serviços ecossistêmicos, mas estendendo ainda mais a análise para a criação de mercados reais de capital natural. Isso ocorre por meio de três etapas: (1) designar um processo ecológico como um serviço ecossistêmico para a economia humana, (2) atribuir a ele um único “valor de troca” e (3) estabelecer direitos de propriedade e gestão para vincular usuários e prestadores do serviço em trocas de mercado, permitindo o investimento financeiro e a acumulação.58
Para o IEG (agora em parceria com a Bolsa de Valores de Nova York, inicialmente um investidor minoritário), o significado do estudo de 2014 liderado por Costanza sobre os valores dos ecossistemas globais mostra que os serviços ecossistêmicos têm um valor muito superior ao do PIB mundial — um valor que, no contexto das preocupações ambientais, pode ser aberto à acumulação e exploração financeira através da mercantilização da função do ecossistema.59 “A economia da natureza é maior do que nossa economia industrial atual e podemos explorar esta reserva de riqueza” com base “nos bens naturais e no mecanismo para convertê-los em ativos financeiros”, transformando assim a economia em “uma mais equitativa, resiliente e sustentável”. Nesta perspectiva, “valor intrínseco” é usado como o termo guarda-chuva para valores econômicos potenciais do ambiente natural que “ainda não foram identificados ou quantificados”, apresentando vastas novas aberturas para investimento financeiro e riqueza conforme as fronteiras entre a economia capitalista e natureza não precificada são derrubadas.60
Acumulação de capital natural e a financeirização da natureza
A última década viu uma explosão de iniciativas em capital natural voltadas para a acumulação e financeirização da natureza como meio de lidar com as restrições ambientais. Em 2011, o UK Environment Bank, uma instituição privada dedicada à financeirização da natureza, recebeu £175.000 da Shell Foundation para ajudá-la no desenvolvimento de mercados para serviços ecossistêmicos.61 Desde 2012, o Comitê de Capital Natural do governo do Reino Unido e o Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais do Reino Unido tem promovido uma “regra agregada” de capital natural baseada na noção de perdas líquidas zero em capital natural em termos de valor econômico. Isso envolveu o desenvolvimento de mecanismos para tratar vários elementos da natureza como compatíveis não apenas entre si, mas também com os mercados de commodities. Foi introduzida uma metodologia para a gestão do capital natural na qual a destruição da biodiversidade ou do clima seria contrabalanceada por compensações que aumentam (ou protegem) os ativos naturais de mesmo valor em outros lugares. Isso exigiu a redução da natureza/capital natural a unidades monetárias que podem ser integradas às contas nacionais consolidadas, incorporando mudanças no capital natural do Reino Unido, avaliado em 2015 em £1,6 trilhões. Este processo foi facilitado internacionalmente pela formação de uma série de entidades dedicadas à contabilização do capital natural, incluindo o Fórum Mundial para o Capital Natural, a Declaração do Capital Natural e o Mecanismo de Financiamento do Capital Natural do Banco Europeu de Investimento e da Comissão Europeia.62
Embora os mercados de carbono estivessem por trás de grande parte disso, de importância quase igual foram as iniciativas associadas à biodiversidade e à conservação. Em setembro de 2016, o Congresso Mundial de Conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza apresentou sua “carta do capital natural” (Moção 63) como uma estrutura para tratar toda a biodiversidade como valores de capital natural. Isso foi precedido pelo Protocolo Global de Capital Natural de negócios corporativos multinacionais iniciado em julho de 2016 pela Natural Capital Coalition (agora renomeada Capitals Coalition).63 O documento The Economics of Ecosystems and Biodiversity, publicado em 2010 e 2011, iniciado sob os auspícios da Natural Capital Coalition, com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e da Comissão Europeia, se mostraria um forte promotor da valorização do capital natural.64
Uma iniciativa divisora de águas com relação à acumulação da natureza foi lançada pelo banco suíco de investimento global Credit Suisse, que em 2016 apresentou um relatório chamado Conservation Finance: Moving Beyond Donor Funding to an Investor-Driven Approach, seguido no mesmo ano pelo relatório em Levering Ecosystems: A Business-Focused Perspective on How Debt Supports Investment in Ecosystems Services. O esquema do Credit Suisse é ir além do capital investido em conservação pelos doadores para construir um “espaço financeiro de conservação”. A chave aqui é reorganizar o financiamento da conservação para criar em cada caso um “veículo financeiro” ou empresa definida, controlando o capital natural/serviços ecossistêmicos, o que geraria grandes retornos financeiros para os investidores. O objetivo é transformar os serviços ecossistêmicos em “um ativo valorizado pelo mercado de investimentos convencional”.65 Essa foi a base para a listagem das empresas de ativos naturais na Bolsa de Nova York, que utilizaram a mesma metodologia de criação de um “veículo financeiro” ou “empresa de ativos naturais”. como intermediária na conversão de um “ativo natural” em “capital financeiro” consagrada pelo lançamento de uma Oferta Pública Inicial da empresa de ativos naturais.66
Vários meios seriam desenvolvidos nesse sentido para os Pagamentos por Serviços Ecossistêmicos e comércio de capital natural, envolvendo empresas não financeiras, bancos, governos e ONGs. Os ativos de capital natural de propriedade do governo, muitas vezes expropriados de populações indígenas e agricultores de subsistência, podem ser vendidos na forma de dívida como trocas naturais ou alavancados por meio de capital financeiro internacional. Mais importante, no entanto, é o papel previsto pelo IEG em que os empresas de ativos naturais que gerenciam os serviços ecossistêmicos operariam essencialmente como empresas que adquiriram “direitos de mineração”, permitindo-lhes explorar os recursos e acumular ativos monetizados — neste caso, no entanto, em nome da natureza.67 Embora um determinado Estado normalmente continue a deter soberania sobre a terra, o veículo financeiro que gerencia e descarta os serviços ecossistêmicos lucra diretamente com os fluxos de renda associados a esses ativos “negociáveis”. De acordo com o relatório da Credit Suisse Conservation Finance, para que as empresas lucrem com o investimento em capital natural, será necessário combinar ativos naturais “heterogêneos”, “agregando-os em um único produto com um veículo de compartilhamento de risco e retorno sob medida”. Dessa forma, é possível “fornecer retornos à taxa de mercado e alavancar várias fontes de financiamento para reduzir riscos”, maximizando assim o valor para os investidores.68
O comércio de carbono, que agora está sendo totalmente globalizado por meio do Artigo 6 da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021, foi projetado para promover um mercado mundial de compensações, permitindo que uma empresa evite reduções reais de emissões de carbono financiando (e frequentemente capitalizando) uma compensação, geralmente no Sul Global, envolvendo sequestro de carbono. Os US$100 bilhões que os países capitalistas desenvolvidos prometeram direcionar ao Sul Global para o financiamento climático são vistos como sujeitos à alavancagem da dívida pelo capital financeiro multinacional monopolista. Isso está por trás da iniciativa de finanças globais Glasgow Financial Alliance for Net Zero de 2021, que declarou desde o início que o financiamento de mitigação de carbono para países em desenvolvimento dependerá da abertura total de suas economias ao capital global. O Credit Suisse vê as “pegadas ecológicas” como cada vez “mais perto de serem reconhecidas como ativos e passivos pelas empresas, permitindo que a dívida financie investimentos de capital natural e a criação de novos mercados lucrativos com ‘resultados financeiros líquidos positivos’” no Sul Global.69 Em geral, a acumulação e financeirização da natureza envolve a criação de títulos de serviços ambientais de vários tipos, primeiramente dentro dos comuns enquanto herança dos povos do mundo, para que após esses títulos possam ser negociados e alavancados.
No caso do capital natural valorizado, os direitos de monopólio sobre os serviços ambientais podem ser estabelecidos com a cooperação dos governos, por meio da criação de empresas de ativos naturais, que passarão a ser livres para acumular com base na “gestão” desse serviço, incluindo a comercialização de todos os tipos de compensações. Como indicou a Bolsa de Valores de Nova York, “empresas de ativos naturais“ “detêm os direitos [econômicos] aos serviços ecossistêmicos produzidos em um determinado pedaço de terra”.70 A lógica, no que diz respeito ao capital e às finanças, não está muito distante de como as próprias indústrias extrativas se desenvolveram, mas, neste caso, trata-se, supostamente, de sustentar os ativos naturais mantendo perdas líquidas zeradas. Em analogia ao conceito de madeira em pé da silvicultura, esses ativos são agora descritos como capitais naturais em pé.71 O lucro com a extração de serviços ambientais é confundido com a noção de silvicultura sustentável, comercializando o serviço enquanto mantém o ativo geral. Esbarra, no entanto, nas mesmas contradições.72
Governos, organizações intergovernamentais, instituições financeiras, corporações não-financeiras e organizações não-governamentais, ao introduzirem a noção de capital natural em seus vários relatórios, muitas vezes começam referindo-se a ele em termos gerais de valor de uso material como consistindo no estoque de recursos da natureza — uma visão de capital natural que remonta ao século XIX. No entanto, as letras miúdas logo deixam claro que o capital natural é hoje visto principalmente em termos de valor de troca, não de valor de uso. Um desses mercados é o mercado global de carbono, que deverá atingir US$180 bilhões até o final desta década. De acordo com a Bloomberg, em janeiro de 2022, apenas “uma pequena fração” dessas compensações de carbono, realmente removem carbono do ar, enquanto identificou-se que 90% das empresas que empregam compensações de carbono estavam inflando suas reivindicações sobre a economia de carbono. Em consonância com isso, o termo carbono neutro está sendo usado agora como uma ferramenta de marketing sem base na contabilização de carbono líquido zero, da mesma forma que o termo natural, sem designação clara, é adotado no lugar de orgânico para a comercialização que visa enganar o consumidor incauto.73 Nesse contexto, o mercado de Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) tornou-se o principal veículo para compensações voluntárias de carbono. Tais projetos, no entanto, têm sido associados à desapropriação de terras indígenas e à remoção de povos indígenas.74 É significativo, nesse sentido, que o Fundo Terra Bella do Terra Global Capital, que é um fundo de investimento privado especializado em ativos ambientais, seja especificamente direcionado a “mercados voluntários onde os regulamentos são incertos ou inexistentes” em economias emergentes e em desenvolvimento, focando na compra de “instrumentos derivativos subvalorizados em ativos ambientais”.75
De acordo com Kanyinke Sena, diretor do Comitê de Coordenação dos Povos Indígenas da África, os povos indígenas constituem menos de 5% da população mundial, mas protegem 80% da biodiversidade mundial.76 O campesinato mundial também desempenha um papel vital no ecossistema, empregando práticas tradicionais. Ironicamente, em nome da ecologia e de combater a destruição capitalista da terra como um lar seguro para a humanidade e inúmeras outras espécies, estamos vendo uma enorme expansão do domínio do que Marx chamou de capital da terra. Isso está ocorrendo por meio da expropriação das populações indígenas e camponesas, juntamente com a expropriação total do patrimônio natural humano, inclusive das gerações futuras. Isso constitui a grande tragédia da mercantilização dos bens comuns, uma nova Grande Expropriação, apontando para a destruição da terra, envolvendo vastas apropriações de terras (e oceanos), particularmente no Sul Global.77
O famoso Paradoxo de Lauderdale, a destruição da riqueza pública (principalmente os comuns) para gerar riquezas privadas, introduzida pelo Conde de Lauderdale no início do século XIX, tem aplicação direta em nosso tempo. A expropriação e degradação do bem comum ecológico está gerando as condições de escassez cruciais para a criação de valor de troca, monopólios de propriedade privada e rendas de monopólio. Não é surpreendente, portanto, que o capital multinacional esteja jogando nos dois times desse jogo de destruição e acumulação da natureza. De acordo com a Portfolio Earth, os cinquenta maiores bancos do mundo forneceram US$2,6 trilhões em 2019 para empresas ligadas ao desmatamento e à destruição da biodiversidade, especialmente no Sudeste Asiático e na Amazônia. Os três principais infratores são Bank of America, Citigroup e JPMorgan Chase.78 O Financial Times publicou um relatório em outubro de 2021 indicando que bancos globais e gestores de ativos ofereceram US$119 bilhões desde 2016 para empresas de agronegócio envolvidas em desmatamento.79 Mais de 70% das emissões globais de carbono podem ser atribuídas a apenas uma centena de corporações (excluídas as emissões militares).80 As mesmas empresas capitalistas a destruir o Sistema Terra como um lar para a humanidade estão agora apoiando a financeirização dos serviços capital/ecossistema natural no mundo, com o objetivo de lucrar com as tentativas de proteger a Terra de sua própria destruição contínua. Nessa concepção, os lucros podem ser obtidos por todos os lados, contribuindo para uma criativa destruição da natureza como parte da acumulação de capital e investindo lucrativamente de modo a garantir uma perda líquida zero no total de ativos humanos e naturais. Seria um eufemismo se referir a isso como um esquema de auto-preservação em nível planetário elevado ao nível do sistema econômico capitalista como um todo.81
Contra a acumulação da natureza
O conceito de capital natural, incluindo a terra como estoque de capital, foi introduzido na economia política e nas discussões ambientais do século XIX, principalmente através das tradições socialistas e radicais, como forma de enfatizar que a riqueza real consistia em valores de uso natural-material em oposição aos valores de troca mercantilizados da economia capitalista. Aquelas figuras da economia política clássica, que inicialmente focaram na conservação e na propriedade humana comum dos valores de uso material como constituindo a riqueza real, se opuseram aos monopólios de terra e ao confisco, mercantilização e destruição da natureza no interesse da acumulação de capital. Tais argumentos em relação ao capital natural já podiam ser vistos nos escritos de Considerant, Jones, Marx, Waring, Carey e Liebig, entre outros.
Quando Schumacher reviveu o conceito de capital natural em Small is Beautiful de 1973, ele estava operando, como bem sabia, dentro dessa mesma tradição básica, vendo o capital natural como constitutivo dos valores de uso ou recursos naturais, os quais não podiam ser quantificados, representando um estoque de riqueza real que estava sendo liquefeito pela produção capitalista. Como ele então escreveu: “Medir o imensurável é absurdo e constitui [da parte do economista] apenas um método elaborado para passar de noções preconcebidas a conclusões preconcebidas: tudo o que se tem que fazer para obter os resultados desejados é imputar valores a custos e benefícios imensuráveis” da natureza. O único resultado real de tal esforço foi perpetuar o mito de que “tudo tem um preço, ou, em outras palavras, de que o dinheiro é o mais alto de todos os valores”.82
Como observamos, Marx e Engels, em A ideologia alemã, inicialmente usaram o conceito de capital natural para se referir à “forma natural” da mercadoria ligada ao valor de uso e sua forma física concreta. Em seu desenvolvimento inicial, saindo da Idade Média, argumentaram, o capital estava vinculado ao espaço físico, no sentido de terra/espaço, envolvendo insumos materiais definidos, e nesse sentido poderia ser considerado como uma forma de “capital natural”. Isso foi contrastado com o desenvolvimento subsequente do “capital móvel”, baseado no valor de troca e na circulação de direitos financeiros sobre a riqueza. No entanto, o próprio termo capital natural foi abandonado por Marx quando ele escreveu Miséria da filosofia apenas um ano depois, dada sua crítica à naturalização do capitalismo. Em seu lugar, ele introduziu uma distinção mais ecológica entre a terra ou território como entidade material-natural — matéria terrestre — e a categoria de capital da terra, esta última representando a natureza (por exemplo, o solo ou uma cachoeira) transformada em capital.83 A acumulação de capital da terra, embora indispensável à acumulação de capital, levou, na visão de Marx, à ruptura do metabolismo universal da natureza em favor do metabolismo social alienado do capitalismo, desenvolvendo assim uma “ruptura irreparável” no metabolismo da natureza e da sociedade (a ruptura metabólica).84
Aqui, a análise de Marx foi muito influenciada pelo trabalho de Waring, Carey e Liebig, que escreveram sobre o roubo do estoque de capital da Terra, uma noção que Marx tornaria central à sua noção de ruptura metabólica. Nos próprios termos de Marx, o que estava sendo “roubado” através da acumulação do “capital da terra” era o metabolismo material e a base reprodutiva da terra como matéria (natureza material) em si. O capitalismo deveria ser concebido como uma forma de destruição criativa na qual a destrutividade do sistema superaria seu lado criativo. Como ele observou, “o capital… é, na prática, movido tanto pela visão vindoura degradação e despovoamento final da raça humana, quanto pela provável queda da terra ao sol.”85 Uma relação racional e sustentável com a terra seria impossível sob o regime do capital, que via a terra como mera dádiva à acumulação de capital ou transformada em capital da terra. Em ambos os casos, o sistema ecológico foi roubado. Não há nada de eterno neste terre-capital, existindo com base na capitalização da natureza; apenas a terre-matière, constituindo o reino da existência natural-material, o metabolismo universal da natureza, é eterno.
O “capital natural”, insiste Daly, deve ser visto em termos de valor de uso, “baseado nas relações de estoques e fluxos físicos, não preços e avaliação monetária”.86 No entanto, a noção de capital natural deve ser vista como perigosa em sua totalidade em uma sociedade capitalista. Em vez de incorporar uma distinção, como na análise de Marx, entre a matéria da terra e o capital da terra, ela é facilmente incorporada a uma noção abrangente e a-histórica de capital, que é tratado como homogêneo e deve ser medido em termos de um único critério de valor de troca. A este respeito, é fundamental lembrar que o capitalismo é um sistema de acumulação orientado para a expansão exponencial, conduzindo assim ao esgotamento dos recursos naturais. Representa exatamente o oposto da conservação. Portanto, não pode aceitar limites ou fronteiras materiais, que são vistos simplesmente como barreiras a serem superadas.87 Diante das restrições ambientais, a abordagem econômica dominante é, portanto, incorporar os serviços ecossistêmicos à economia, colocando nela valores de capital e integrando-a seletivamente. com a própria acumulação de capital — um processo facilitado pelo fato de que o capital torna a natureza mais escassa e mais comercializável ao destruí-la. Valorizar a natureza simplesmente por seus serviços ecossistêmicos para uma economia capitalista é inevitavelmente destrutivo da própria natureza, com o conceito de serviços ecossistêmicos convidando à divisão extrema da natureza em termos capitalistas, pois tem como base inicial o “corte” da natureza em pedaços distintos a ser valorizado.88
No contexto da financeirização geral da economia mundial, de grandes quantidades de “dinheiro livre” excedente, do crescimento de bolhas financeiras e da promoção da servidão por dívida no Sul Global, a financeirização da natureza provavelmente intensificará a volatilidade do mercado. a própria economia capitalista.89 No entanto, é a bolha ambiental gerada pela financeirização da natureza que é mais perigosa.90
No que equivale a uma vitória das noções de sustentabilidade fraca, muitas vezes se argumenta que a destruição contínua da natureza exigida pela acumulação de capital pode ser compensada pela valorização da natureza e sua internalização à lógica do próprio capital, de modo que não haja perda de capital natural em termos de valor econômico e o aumento exponencial da acumulação de capital em um ambiente limitado possa prosseguir. Novos ecossistemas financeirizados podem ajudar a sustentar todo o sistema. Se a própria natureza é capital, diz o argumento, simplesmente não há problema. A destruição de uma espécie ou de todo um ecossistema pode ser compensada pelo capital natural que fornece serviços ecossistêmicos para a economia em outros lugares. Nas palavras de Solow, representando a visão neoclássica de sustentabilidade,
A história nos conta um fato importante, a saber, que bens e serviços podem ser substituídos uns pelos outros. Se você não come uma espécie de peixe, pode comer outra espécie de peixe. Os recursos são, para usar uma palavra favorita dos economistas, fungíveis em certo sentido. Eles podem tomar o lugar um do outro. Isso é extremamente importante porque sugere que não devemos ao futuro nada em particular. Não há nenhum objeto específico que o objetivo da sustentabilidade, a obrigação da sustentabilidade, nos exija que deixemos intocado… A sustentabilidade não exige que nenhuma espécie particular de peixe ou qualquer área de floresta seja preservada.91
Como a maioria dos economistas capitalistas, Solow não reconhece que cada espécie e cada ecossistema é único, e que a extinção é irreversível, afetando toda a complexa evolução do Sistema Terrestre. Para o Credit Suisse, o financiamento da conservação é transformar a natureza em fluxo de caixa e produtos “fungíveis” precisamente no sentido de Solow.92 Espécies e ecossistemas podem ser tratados como comensuráveis e substituíveis em termos de valor econômico da economia capitalista, mas na realidade são incomensuráveis e insubstituíveis. Sua morte individual representa consequências ecológicas reais. Pensar de outra forma é cair no que o geógrafo marxista David Harvey chamou de “loucura da razão econômica”, na qual não há limites — quantitativos ou qualitativos — para a valorização e financeirização do capital, concebido como valor em movimento, absorvendo toda a realidade, incluindo a própria natureza.93
Como o economista ecológico John Gowdy declarou, o conceito de capital natural como é agora empregado “contém dois conceitos contraditórios: ‘natural’ indicando um mundo governado por leis biofísicas e ‘capital’ indicando um mundo governado pelas leis do capitalismo de mercado”. As tentativas de superar essa contradição subsumindo a natureza material dentro do capital esbarram na contradição que Marx expressou entre a terra como material natural e a terra como capital. Para Marx, a produção humana e a natureza extra-humana deveriam ser vistas como complementares e coevolutivas, exigindo que os sistemas naturais fossem mantidos em termos de seus fluxos materiais e complexa teia de relações, preservando o metabolismo da humanidade e da natureza para toda a cadeia das gerações humanas e pelo bem da vida na própria terra, de acordo com o princípio de agir como bons chefes de família.95 Na visão marxista clássica, como enfatizado por Ernst Bloch em O Princípio da Esperança, natureza e humanidade são “ coprodutivas”, no sentido de que “as criações adormecidas no ventre da natureza” são a base material de toda produtividade humana.96
O que isso significa é que outros princípios ecológicos mais amplos, aplicáveis aos sistemas natural e humano, precisam substituir as atuais tentativas de resolver a crise planetária que partem do capitalismo simplesmente absorvendo a própria terra dentro da lógica do sistema, estendendo o fetiche da mercadoria ao domínio da própria natureza.97 A ecologia gerou novas bases para a promoção do desenvolvimento humano sustentável e a superação do imperialismo econômico e ecológico.98 No marxismo, há uma longa, embora contestada, tradição da dialética da natureza, que se mantém fortemente opsota às abordagens reducionistas da natureza e de sua evolução, expondo os perigos de todas as tentativas de mercantilizar o mundo natural e insistindo que os seres humanos “pertencem à natureza e existem em seu meio, e… possuem a vantagem sob todas as outras criaturas de serem capazes de aprender suas leis e aplicá-las corretamente.”99
Tal perspectiva crítica, dialética e materialista exige o abandono tanto da naturalização do capital quanto da capitalização da natureza, bem como o reconhecimento do caráter social incontornável do capital, associado a um determinado sistema histórico: o capitalismo. Somente uma revolução ecológica e social que permitisse à humanidade como um todo, aos produtores associados, regular o metabolismo social humano com a terra de forma racional e sustentável, de acordo com um amplo entendimento científico e com o objetivo de promover desenvolvimento humano, pode oferecer uma saída para a atual crise planetária.100
Notas
1.The term original expropriation here is used in place of what is often mistakenly referred to as Karl Marx’s notion of primitive accumulation. Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), 871. Marx carefully distanced himself from this concept of classical-liberal political economy by referring to “so-called primitive accumulation,” since, as he insisted, this was not the case of the accumulation of capital, but rather “expropriation” of property. Moreover, the primitive in primitive accumulation was itself a mistranslation of what Marx, following classical political economy, referred to as original or primary. Capitalism prior to the British Industrial Revolution required such original expropriation to monopolize the means of production, amass start-up capital, and generate a proletarianized labor force. Yet, expropriation of land/nature and thus of the means of production of the workers, as Marx himself indicated, does not stop there, and is continually replicated in the history of capitalism, colonialism, and imperialism, now taking on new dimensions in the twenty-first century. For a more detailed discussion, see John Bellamy Foster, Brett Clark, and Hannah Holleman, “Capitalism and Robbery,” Monthly Review 71, no. 7 (December 2019): 1–23. On the expropriation of the English commons, see John Bellamy Foster, Brett Clark, and Hannah Holleman, “Marx and the Commons,” Social Research 88, no. 1 (2021): 1–30; Ian Angus, “Against Enclosure: The Commoners Fight Back,” Climate and Capitalism, January 15, 2022.
↩ Karl Polanyi, The Great Transformation (Boston: Beacon, 1944), 178.
↩ William Makepeace Thackeray, The Newcomes (London: Penguin, 1996), 488.
↩ “The Solution,” Intrinsic Exchange Group, accessed January 13, 2022.
↩ Charles Darwin, On the Origin of Species (London: John Murray, 1859), 73. The term ecosystem services is usually credited to Paul Ehrlich and Ann Ehrlich, Extinction: The Causes and Consequences of the Disappearance of Species (New York: Random House, 1981).
↩ The State of Natural Capital: Restoring Our Natural Assets (London: Natural Capital Committee, 2014).
↩ See Erik Gomez-Baggethun, Rudolf de Groot, Pedro L. Lomas, and Carlos Montes, “The History of Ecosystem Services in Economic Theory and Practice: From Early Notions to Markets and Payment Schemes,” Ecological Economics 69 (2010): 1213. They write, in what purports to be a definitive analysis: “Schumacher [in Small Is Beautiful] was probably the first author that used the concept of natural capital.”
↩ The names here are listed in chronological order in accordance with when they are known to have used the term natural capital or the notion of the earth’s capital stock. A good preliminary treatment of the origins of the term is provided in Antoine Missemer, “Natural Capital as an Economic Concept, History, and Contemporary Issues,” Ecological Economics 143 (2018): 90–96. However, Missemer misses the roles of Marx, Engels, Waring, Carey, and Liebig in this respect. He also privileges the neoclassical concept of natural capital focusing on exchange value, seeing earlier references to natural capital to be of little significance simply because they did not conform to present usage. Thus, despite referring to numerous thinkers who used the term in the nineteenth century, Missemer claims, by sleight of hand, that “the natural capital concept was indeed coined in the 1900s,” thereby privileging the neoclassical conception of natural capital as the only valid concept. Missemer, “Natural Capital,” 93–94. Besides the names mentioned above, a number of other thinkers used the notion of natural capital prior to the 1860s. Jean-Baptiste Say’s use of the term, where it stood for natural human capital, is highlighted in Pierre-Joseph Proudhon, What Is Property? (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), 109.
↩ The early reference to “natural capital” by Considerant and others was not simply a metaphor, related to commodity capital, but reflected in part the classical recognition that the concept of capital itself had arisen out of a consideration of natural use values and only took on the primary meaning of capital as accumulated exchange value with the rise of capitalism. The word capital thus arose from capita, meaning heads, referring to heads of cattle, the entire herd of which was regarded as a stock. All of this was in physical or use-value terms. Herman Daly, “The Use and Abuse of the ‘Natural Capital’ Concept,” Center for the Advancement of the Steady State Economy, November 13, 2014.
↩ Rondel Van Davidson, “Victor Considerant: Fourierist Legislator, and Humanitarian” (PhD dissertation, Texas Tech University, December 1970), 68–69; John Cunliffe and Guido Erreygers, “The Enigmatic Legacy of Charles Fourier,” History of Political Economy 33, no. 3 (2001): 467; Missemer, “Natural Capital,” 91–92.
↩ Ebenezer Jones, The Land Monopoly, the Suffering and Demoralization Caused by It, and the Justice and Expediency of Its Abolition (London: Charles Fox, 1849), 6, 18–21, 27.
↩ Jones, The Land Monopoly, 10.
↩ Jones, The Land Monopoly, 19. The complexity of Jones’s analysis, which focused on natural capital as the proceeds of nature, defies Missemer’s claim that the notion of natural capital was used by Jones simply as a “synonym for land,” particularly as land, in classical political economy, was a category that stood for all of nature. Missmer, “Natural Capital,” 91.
↩ Hal Draper, The Marx-Engels Chronicle (New York: Schocken, 1985), 12.
↩ Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, vol. 5 (New York: International Publishers, 1975), 66–73.
↩ On Marx’s critique of the naturalization of capital and the treatment of nature divorced from labor as a source of value, see Karl Marx, Capital, vol. 3 (London: Penguin, 1981), 953–57. All subsequent references to Capital, vol. 3, except as indicated in endnote 22 are to this edition.
↩ Karl Marx, “The Value-Form,” Capital & Class 4 (1978): 134; Karl Marx, “The Commodity,” chap. 1 in Capital, vol. 1, libcom.org; Karl Marx, Texts on Method (Oxford: Blackwell, 1975), 198, 200, 207.
↩ John Bellamy Foster, Brett Clark, and Richard York, The Ecological Rift (New York: Monthly Review Press, 2010), 53–64; Marx and Engels, Collected Works, vol. 37, 732–33.
↩ McCulloch, quoted in Marx and Engels, Collected Works, vol. 29, 224.
↩ Marx, Capital, vol. 3, 954.
↩ Marx, Capital, vol. 3, 756.
↩ Karl Marx, The Poverty of Philosophy (New York: International Publishers, 1963), 164. Terre-matière and terre-capital have been inserted here in square brackets to better convey Marx’s meaning, as indicated in Marx, Capital, vol. 3, 756.
↩ Marx, Capital, vol. 3, 755–56. In this sentence, Marx uses the term valorise to refer to the landlord’s realization in exchange-value terms of monopoly rents. It should be noted that the concept of valorization (Verwetung) is used in two senses in Marx, to refer to: (1) the whole capitalist process of surplus value production, and (2) (more often) the realization of surplus value at the end of the circulation process. Traditionally, Verwetung was translated as realization, which corresponds to the latter, more limited meaning. However, the 1976 Penguin edition of Capital introduced the word valorization (which did not at that time exist in the English language) to capture the broader meaning. Here, we are using it in today’s more commonplace sense (looser than Marx’s second meaning) of conferring value or prices on goods and services. This should not be taken as indicating that land in itself is a source of commodity value, which is a product of socially necessary labor and production. Rather, the exchange value is received by the owner of the land in the form of rent. Valorization is thus used here simply in the sense of conferring titles and exchange value to land and resources, which generate rents, and are connected to financial markets. Ultimately, this is dependent on the labor and production system. Ernest Mandel, introduction to Capital, vol. 1, 36; translator’s note in Marx, Capital, vol. 1 , 252.
↩ Karl Marx, Das Kapital (Hamburg: Verlag von Otto Meissner, 1894) (Verwandlung von Surplusprofit in Gundrente), 158. Translation slightly altered from Marx, Capital, vol. 3, 756–57, changing raw material to mere matter. The correction is in conformity with the 1894 German edition, which literally translates blosser materie as mere matter rather than raw material, and with the French translation, which, in line with the distinction first developed in The Poverty of Philosophy, refers to “la terre-matière une terre-capital.” Marx, chap. 37 in Capital, French translation available at marxists.org. In Marx and Engel’s Collected Works, vol. 3, 613–614, the entire phrase is unaccountably missing. The Ernest Untermann translation incorporates the phrase but translates the terms as material land and land capital. See Karl Marx, Capital, vol. 3 (Chicago: Charles H. Kerr, 1909), 725–26. This then misses the full significance between the earth/land as mere matter and the formation of earth-capital. As his references to James Anderson and Henry Carey make clear in the same passage, Marx was concerned here with the ecological issue of the circulation of matter, particularly soil nutrients.
↩ Marx, Capital, vol. 3, 637–40; Andreas Malm, Fossil Capital (London: Verso, 2016), 309–14.
↩ Marx, Capital, vol. 3, 910–11.
↩ Karl Marx, Capital, vol. 2 (London: Penguin, 1978), 435; Marx, Capital, vol. 3, 213–14; Marx and Engels, Collected Works, vol. 30, 63; Paul Burkett, Marx and Nature (Chicago: Haymarket, 2014), 141–47; Gómez-Baggethun, Groot, Lomas, and Montes, “The History of Ecosystem Services in Economic Theory and Practice,” 1211.
↩ George E. Waring Jr., “The Agricultural Features of the Census of the United States for 1850,” Bulletin of the American Geological Association 2 (1857): 189–202.
↩ C. Carey, The Slave Trade, Domestic and Foreign (Philadelphia: A. Hart, 1853), 199; Karl Marx and Frederick Engels, Selected Correspondence (Moscow: Progress Publishers, 1955), 78.
↩ Marx, Capital, vol. 3, 756–57; John Bellamy Foster, Marx’s Ecology (New York: Monthly Review Press, 2000), 144–54.
↩ Karl Marx, Critique of the Gotha Programme (New York: International Publishers, 1938), 1. In Capital, Marx wrote of “the dull and tedious dispute over the part played by nature in the formation of exchange-value. Since exchange-value is a definite social manner of expressing the labour bestowed on a thing, it can have no more natural content [separate from labor] than has, for example, the rate of exchange.” This did not, however, prevent Marx from constantly insisting that all real wealth, as opposed to value, stems from nature. Marx, Capital, vol. 1, 134, 176.
↩ See John Bellamy Foster and Brett Clark, The Robbery of Nature (New York: Monthly Review Press, 2020), 12–34.
↩ James Maitland, Earl of Lauderdale, An Inquiry into the Nature and Origin of Public Wealth and into the Means and Causes of Its Increase (Edinburgh: Archibald Constable and Co., 1819), 37–59; Foster, Clark, and York, The Ecological Rift, 54–58.
↩ Irving Fisher, The Nature of Capital and Income (New York: Macmillan, 1919), 76; Paul Burkett, Marxism and Ecological Economics (Chicago: Haymarket, 2006), 112; Alejandro Nadal, “The Natural Capital Metaphor and Economic Theory,” Real-World Economics Review 74 (2016): 64–84.
↩ Joshua Farley, “Natural Capital,” in Berkshire Encyclopedia of Sustainability, vol. 5 (Great Barrington, MA: Berkshire, 2012), 264–67; Burkett, Marxism and Ecological Economics, 95–101.
↩ Robert M. Solow, “The Economics of Resources or the Resources of Economics,” American Economic Review 64, no. 2 (1974): 146–49.
↩ Schumacher, Small Is Beautiful, 15–16.
↩ Burkett, Marxism and Ecological Economics, 95–101, 108–9.
↩ Nicholas Georgescu-Roegen, The Entropy Law and the Economic Process (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1971).
↩ Herman Daly, “Toward Some Operational Principles of Sustainable Development,” Ecological Economics 2 (1990): 1–6.
↩ Burkett, Marxism and Ecological Economics, 95–101, 108–9.
↩ Burkett, Marxism and Ecological Economics, 113.
↩ The basic elements of Nicholas Georgescu-Roegen’s thermodynamic critique of neoclassical economics were accepted from the start by Marxian economists, and viewed as consistent with the classical Marxian tradition, though lacking a social critique. See Paul M. Sweezy, “Ecology and Revolution: A Letter to Nicholas Georgescu-Roegen, July 31, 1974,” Monthly Review 68, no. 9 (February 2017): 55–57; Elmar Altvater, The Future of the Market (London: Verso, 1993); John Bellamy Foster and Paul Burkett, Marx and the Earth (Chicago: Haymarket, 2016), 137–64.
↩ World Bank, World Development Report 2003: Sustainable Development in a Dynamic World (Washington DC/New York: World Bank/Oxford University Press, 2003), 14–15; Burkett, Marxism and Ecological Economics, 100.
↩ See Burkett, Marxism and Ecological Economics, 101–2.
↩ See John Bellamy Foster and Hannah Holleman, “The Theory of Unequal Ecological Exchange: A Marx-Odum Dialectic,” Journal of Peasant Studies 41, no. 1–2 (2014): 223–28.
↩ Robert Costanza and Herman E. Daly, “Natural Capital and Sustainable Development,” Conservation Biology 6, no. 1 (1992): 38.
↩ Gómez-Baggethun, Groot, Lomas, and Montes, “The History of Ecosystem Services in Economic Theory and Practice,” 1213.
↩ Costanza and his coauthors argue: “It is not very meaningful to ask the total value of natural capital to human welfare, nor to ask the value of massive, particular forms of natural capital. It is trivial to ask what is the value of the atmosphere to humankind, or what is the value of rocks and soil infrastructure as support systems. Their value is infinite in total. However, it is meaningful to ask how changes in the quantity and quality of various types of natural capital and ecosystems services may have an impact on human welfare.” In practice, then, the analysis is shifted almost entirely to ecosystem services, rather than natural capital. Robert Costanza et al., “The Value of the World’s Ecosystem Services and Natural Capital,” Nature 387 (1997): 255.
↩ Robert Costanza et al., “Changes in the Global Value of Ecosystem Services,” Global Environmental Change 26 (2014): 154; Costanza et al., “The Value of the World’s Ecosystem Services and Natural Capital.”
↩ Herman Daly, “Integrating Ecology and Economics,” Center for the Advancement of the Steady State Economy, June 5, 2014.
↩ Commodifying ecosystem services—whether in the form of parts of the contemporary economy based directly on the exploitation of natural resources, or through imputing value to ecosystem services—requires “an extreme division (simplification) of nature” antithetical to ecological systems. John Bellamy Foster, Ecology Against Capitalism (New York: Monthly Review Press, 2002), 33.
↩ Enrique Leff, “Marxism and the Environmental Question,” in The Greening of Marxism, ed. Ted Benton (New York: Guilford, 1996), 146.
↩ Costanza et al., “The Value of the World’s Ecosystem Services and Natural Capital.”
↩ “Methodology: Ecosystem Accounting,” UN System of Environmental and Economic Accounting, accessed January 17, 2022.
↩ Costanza et al., “Changes in the Global Value of Ecosystem Services.”
↩ Jutta Kill, The Financialization of Nature (Amsterdam: Friends of the Earth International, 2015), 3.
↩ Gómez-Baggethun et al., “The History of Ecosystem Services,” 1214.
↩ Nature itself is not strictly a commodity, since it is not produced by human labor. However, it is turned into an economic asset and provides a stream of exchange value that is valorized or realized by the landlord through rent, constituting one of the forms in which total surplus value is divided. In this way, it becomes part of the general commodity exchange process.
↩ “An Inclusive Economy,” Intrinsic Exchange Group, accessed January 26, 2022.
↩ Sian Sullivan, Financialisation, Biodiversity Conservation and Equity (Penang, Malaysia: Third World Network, 2012), 17.
↩ Sian Sullivan, “Noting Some Effects of Fabricating ‘Nature’ as ‘Natural Capital,’” Ecological Citizen 1, no. 1 (2017): 65–67.
↩ Sian Sullivan, “Nature Is Being Renamed ‘Natural Capital’—But Is It Really the Planet That Will Profit?,” Conversation, September 13, 2016; Natural Capital Coalition, Natural Capital Protocol (The Hague: Natural Capital Protocol, 2016).
↩ “Natural Capital Accounting: In a Nutshell,” Economics of Ecosystems and Biodiversity, accessed January 19, 2022.
↩ Sullivan, “Nature Is Being Renamed Natural Capital,” 69–71; Tanja Havemann et al., Levering Ecosystems (Zürich: Credit Suisse, 2016), 3, 24.
↩ Chart on “Creating Natural Asset Companies,” in “The Solution,” Intrinsic Exchange Group.
↩ “The Solution,” Intrinsic Exchange Group.
↩ Fabian Huwyler, Jürg Käppeli, and John Tobin, Conservation Finance: From Niche to Mainstream (Zürich/New York: Credit Suisse/McKinsey Center for Business and Environment, 2016), 16, 22.
↩ Sullivan, “Noting Some Effects of Fabricating ‘Nature’ as ‘Natural Capital,’” 69–70; Havemann et al., Levering Ecosystems, 3.
↩ Whitney Webb, “New Asset-Class Launch Advances Wall Street’s Nature Takeover,” River Cities’ Reader, December 6, 2021.
↩ Sullivan, “Nature Is Being Renamed ‘Natural Capital.’”
↩ On the contradictions of capitalist forestry, see Foster, Ecology Against Capitalism, 104–36.
↩ “Crazy Carbon Offsets Market Prompts Calls for Regulation,” Bloomberg, January 6, 2022.
↩ Martin Crook, “Conservation as a Genocide: REDD versus Indigenous Rights in Kenya,” Climate and Capitalism, March 15, 2018.
↩ Sullivan, Financialisation, Biodiversity Conservation and Equity, 17.
↩ Kanyinke Sena, “Recognizing Indigenous Peoples’ Land Interests Is Critical for People and Nature,” World Wildlife Fund, October 22, 2020.
↩ Stefano B. Longo, Rebecca Clausen, and Brett Clark, The Tragedy of the Commodity: Oceans, Fisheries and Aquaculture (New Brunswick: Rutgers University Press, 2015).
↩ Declan Foraise, “Banks Bankrolling Extinction to Tune of $2.6 Trillion,” Ecosystem Marketplace, October 29, 2020.
↩ “Global Finance Industry Sinks $119bn into Companies Linked to Deforestation,” Financial Times, October 20, 2021.
↩ “Just 100 Companies Responsible for 71% of Global Emissions, Study Says,” Guardian, July 10, 2017.
↩ On the potential negative role of nature derivatives in this respect, see Sullivan, Financialisation, Biodiversity Conservation and Equity, 21–23.
↩ Schumacher, Small Is Beautiful, 46.
↩ Marx, The Poverty of Philosophy, 164; Marx, Capital, vol. 3, 756–57.
↩ John Bellamy Foster, The Ecological Revolution (New York: Monthly Review Press, 2009), 161–200.
↩ Marx, Capital, vol. 1, 381.
↩ Daly, “The Use and Abuse of the ‘Natural Capital’ Concept.”
↩ Foster, Clark, and York, The Ecological Rift, 284–87.
↩ Sullivan, Financialisation, Biodiversity Conservation and Equity, 18.
↩ On monopoly-finance capital and the current financial crisis tendencies, see John Bellamy Foster, R. Jamil Jonna, and Brett Clark, “The Contagion of Capital,” Monthly Review 72, no. 8 (January 2021): 1–19.
↩ Herman Daly, “Capital, Debt, and Alchemy,” Center for the Advancement of the Steady State Economy, April 8, 2012.
↩ Robert Solow, “Sustainability: An Economist’s Perspective,” in Economics of the Environment, ed. Robert Dorfman and Nancy S. Dorfman (New York: Norton, 1993), 181.
↩ Huwyler, Käppeli, and Tobin, Conservation Finance, 17.
↩ David Harvey, Marx, Capital, and the Madness of Economic Reason (Oxford: Oxford University Press, 2018), 92.
↩ John M. Gowdy, “The Social Context of Natural Capital,” International Journal of Social Economics 21, no. 8 (1994): 43.
↩ Marx, Capital, vol. 3, 911. On the human economy and nature as complementary, see Herman Daly, “The Return of the Lauderdale Paradox,” Ecological Economics 25 (1988): 23.
↩ Ernst Bloch, The Principle of Hope, vol. 2 (Cambridge, MA: Massachusetts Institute of Technology Press, 1995), 686, 695.
↩ Nicolás Kosoy and Esteve Cobera, “Payments for Ecosystem Services as Commodity Fetishism,” Ecological Economics 69 (2010): 1228–36.
↩ In any rational path of sustainable human development, ecosystems need to be comprehended in their full complexity in terms of natural science, particularly in its more dialectical forms, as in Richard Levins and Richard Lewontin, The Dialectical Biologist (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1985). Such a rational path requires moving away from the capitalist commodity market and toward social control. For a comprehensive approach based in natural science and political-economic critique, see Fred Magdoff and Chris Williams, Creating an Ecological Society (New York: Monthly Review Press, 2017). Material flow analysis and comprehensive energy approaches offer superior alternatives to the natural capital/ecosystem analysis in understanding the changing human relation to nature. Howard Odum’s analysis, in particular, provides the basis of a deep critique of ecological imperialism. See Friedrich Hinterberg, Fred Luks, and Friedrich Schmidt-Bleek, “Material Flows vs. ‘Natural Capital’: What Makes an Economy Sustainable?,” Ecological Economics 23 (1997): 1–14; Howard Odum, Environment, Power, and Society (New York: Columbia University Press, 2007), 276–78, 303–5.
↩ Marx and Engels, Collected Works, vol. 25, 461.
100. Marx, Capital, vol. 3, 959.