9 de março de 2022

O aumento do orçamento de defesa da Alemanha não tornará ninguém mais seguro

O chanceler alemão Olaf Scholz acaba de anunciar um investimento de € 100 bilhões em defesa. A medida é amplamente divulgada como uma forte resposta à agressão russa, mas, na verdade, visa demonstrar a lealdade da Alemanha aos objetivos da política externa global dos EUA.

Wolfgang Streeck


Tradução por 
Loren Balhorn

O chanceler alemão Olaf Scholz observa com seus óculos durante o início de uma reunião do gabinete de segurança em 7 de março de 2022, em Berlim, Alemanha. (Clemens Bilan – Pool / Getty Images).

Na última semana, a imprensa alemã — que tem se mostrado ainda mais autocensurada do que o habitual ultimamente — estampou manchetes celebrando o anúncio do chanceler alemão Olaf Scholz sobre um suplemento único de € 100 bilhões para o chamado “orçamento de defesa” do país. O financiamento adicional, a ser distribuído ao longo de um número indeterminado de anos, supostamente representa uma mudança radical em relação às políticas de Angela Merkel, agora desacreditadas pelos acontecimentos na Ucrânia.

Na verdade, porém, o aumento do orçamento constitui uma continuação adequada ao seu estilo: uma concessão momentânea ao sentimento interno e internacional, ao simbolismo político, ao "envio de um sinal" com o objetivo de "dar o exemplo" — independentemente do que esse sinal realmente signifique, contanto que signifique algo mais tarde (e quem sabe quando isso acontecerá). Então, qual é o problema?

Compromisso de 2%

Em 2002, no contexto da admissão dos Estados Bálticos, bem como da Bulgária, Romênia e Eslováquia (na segunda das três ondas de expansão da OTAN para o leste), os países membros da OTAN prometeram aos Estados Unidos que gastariam 2% do seu PIB em armamentos. O tipo exato de armamento a ser adquirido não foi especificado. Na prática, isso envolvia principalmente armamentos de alta tecnologia com alcance operacional global — o tipo de armamento que é tão caro estrategicamente aos Estados Unidos.

Nos anos que se seguiram, no entanto, os países da OTAN mostraram-se menos entusiasmados em cumprir suas obrigações. Isso se aplicava principalmente à Alemanha, onde, devido à imensidão do país e de sua economia, o maior valor poderia ser extraído. A Alemanha gastou apenas 1,3% do seu PIB em armamentos, ou cerca de € 43,1 bilhões, em 2019. Em 2014, esse percentual era de apenas 1,1%, ou € 33,1 bilhões. O plano para 2021 era manter os gastos em 1,3%, com um total de € 46,9 bilhões; depois disso, de acordo com o plano financeiro de médio prazo elaborado por Scholz enquanto ministro das Finanças no último governo de Merkel, os gastos com defesa deveriam cair para 1,26% do PIB em 2023. A então ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, prometeu à OTAN 1,5% para 2025; antes disso, um percentual de 2% havia sido anunciado para 2024.

Agora, a “guinada”. Se a Alemanha tivesse gasto 2% do PIB em defesa em 2021, o valor teria chegado a € 72,2 bilhões — € 25,3 bilhões a mais. Os € 100 bilhões têm como objetivo facilitar um aumento rápido — de cerca de metade, em termos percentuais do PIB — juntamente com aumentos adicionais resultantes do crescimento econômico, caso ainda exista.

Além disso, para evitar uma recaída nos antigos hábitos perdulários do país, o governo criou uma espécie de cinto de castidade fiscal, segundo o qual os € 100 bilhões serão pagos integralmente este ano para um chamado “fundo especial”, financiado por novas dívidas. A medida será ancorada na Constituição para, por um lado (e de forma semelhante ao fundo especial dedicado ao combate às mudanças climáticas e suas consequências), contornar o “freio da dívida” da Constituição alemã, mas também para garantir que os governos futuros gastem o dinheiro em armamentos — e não em outra coisa, como, por exemplo, saúde.

Ao estilo de Merkel, os detalhes do plano permanecem envoltos na névoa da guerra. Afinal, de acordo com a proclamação oficial de Scholz, o fundo especial ajudará a Alemanha a "investir mais de 2% [ênfase minha] do nosso produto interno bruto em nossa defesa" nos próximos anos — um caso notável de excesso orçamentário, cujos mecanismos exatos de política fiscal só podemos conjecturar.

O que significa, de fato, “Defesa Nacional”?

Apesar de todo o entusiasmo atual pela compra de armamentos, a crise na Ucrânia pode, em algum momento, desencadear na Alemanha uma discussão não apenas sobre o tamanho do orçamento de defesa, mas também sobre o que deve ser comprado com esse dinheiro — ou seja, o que a defesa nacional poderia e deveria ser hoje. Mais do que qualquer outra coisa, isso significaria um debate sobre uma doutrina de defesa realista para substituir a abordagem globalista-transatlântica vigente atualmente e que fracassou na Ucrânia (a menos que a guerra tenha sido aceita como o preço a pagar para alcançar objetivos mais amplos).

Tal discussão seria análoga aos debates de longa data na França e no Reino Unido sobre uma doutrina de defesa que negligencia a vinculação do destino do país a uma potência hegemônica em declínio — um aspirante a governo mundial que se torna cada vez mais inescrupuloso e desesperado para afirmar seu monopólio global da força. Nesse contexto, as seguintes considerações podem ser úteis.

Primeiro, mesmo que a Alemanha tivesse gasto 2% em vez de 1,3% do seu PIB com as forças armadas nos últimos anos, isso não teria impedido — em condições normais — a invasão russa da Ucrânia. Se o objetivo fosse realmente evitá-la, seria necessário renegociar a decisão de admissão da Geórgia e da Ucrânia na OTAN — ou seja, a terceira onda de expansão para o leste — e fazê-lo de uma forma que fosse além de vagas garantias de que a implementação não estava na agenda naquele momento.

Em vez de uma adesão formal, porém, os Estados Unidos já haviam optado há muito tempo por estabelecer uma adesão informal, de facto, para a Ucrânia. No início da década de 2020, os EUA já estavam profundamente inseridos na economia e na sociedade ucranianas, tanto no seu aparato estatal quanto nas suas forças armadas. O vice-presidente Joe Biden era conhecido por ser o principal contato de Barack Obama para a Ucrânia, e não devemos esquecer como Victoria Nuland, responsável pela Ucrânia no Departamento de Estado na época, decidia quem deveria se tornar presidente da Ucrânia, agindo como uma espécie de vice-rei. (Ela própria foi designada para se tornar secretária de Estado de Hillary Clinton.)
Os militares ucranianos também lucraram com os bons conselhos dos americanos, oferecidos em prol do estabelecimento da chamada “interoperabilidade” com a OTAN — uma harmonização das estruturas de comando para permitir o desdobramento coordenado de operações de combate em todo o mundo. E é bem provável que nos lembremos do filho de Biden, Hunter, que, até o início das primárias presidenciais de 2019, passou cinco anos como “diretor não executivo” no conselho de uma empresa de energia ucraniana pertencente a um oligarca suspeito de lavagem de dinheiro, onde supostamente ganhava US$ 50.000 por mês sem nunca ter pisado em solo ucraniano. Pode-se presumir com segurança que ele não era mais do que a ponta de um grande iceberg americano.

Em segundo lugar, no que diz respeito ao aspecto militar (ou seja, o suposto objetivo do compromisso da Alemanha de gastar 2% do seu PIB em defesa), os Estados Unidos têm atualmente cerca de 90.000 soldados armados estacionados na Europa. Contudo, isso não impediu a Rússia de invadir a Ucrânia, nem os EUA cogitaram enviar ajuda militar ao país, apesar de todos os laços já existentes entre eles.

Quanto mais o sofrimento se prolonga na Ucrânia, mais parece que esta será a lição mais importante e talvez mais consequente a ser extraída dos eventos em curso: aqueles que se permitem ser representados pelos Estados Unidos em disputas de vida ou morte com um inimigo em potencial não devem esperar que os EUA os protejam se as coisas derem errado, seja por negligência ou como um risco estrategicamente aceito. De fato, os Estados Unidos deixaram claro desde o início que não interviriam militarmente se a guerra eclodisse. Tinham pelo menos dois bons motivos para isso: primeiro, porque se sabe que a Rússia se desfaz de armas nucleares e, segundo, porque os eleitores americanos não estão mais dispostos a financiar aventuras militares no exterior.

O lado americano adotou uma postura firme com os russos, com riscos possivelmente elevados — embora não para os próprios americanos.

Apesar disso, o lado americano adotou uma postura intransigente com os russos, correndo riscos consideravelmente altos — embora não para os próprios americanos. (Quem se envolve com uma potência nuclear não deve se surpreender se ela começar a se comportar como tal.) A longo prazo, isso pode e deve servir de lição para todos os países que cogitam delegar sua soberania a uma aliança “defensiva” dominada pelos EUA — o ex-presidente do Afeganistão, etnólogo com doutorado pela Universidade Columbia, poderia fornecer um depoimento especializado a esse respeito.
Vastos estoques

A França e o Reino Unido também possuem vastos estoques de equipamentos militares, mas, mesmo assim, observam o conflito à margem, e não porque a Alemanha tenha gasto apenas 1,3% em vez de 2% em armamentos. Além disso, o orçamento de defesa alemão há muito tempo é quase tão alto quanto o da Rússia, que estava estagnado há anos e parecia estar prestes a diminuir, assim como o da Alemanha.

Em 2019, os institutos de pesquisa relevantes relataram que os gastos com defesa da Rússia totalizaram US$ 65,1 bilhões, ou 3,8% do seu PIB. Quatro anos antes, essa participação era de 4,9%. Em 2019, o plano era reduzi-la ainda mais nos anos seguintes. Os gastos com defesa da Alemanha no mesmo ano foram de US$ 49,3 bilhões. Se a Alemanha, como exigido, tivesse atingido a meta de 2%, teria gasto US$ 76 bilhões — 17% a mais que a Rússia.

O equilíbrio de forças entre a Alemanha e a Rússia foi descrito com bastante precisão em um apelo público alarmante, em outubro de 2018, redigido pelo filósofo Jürgen Habermas juntamente com o democrata-cristão Friedrich Merz e outros políticos alemães, em prol de um “exército europeu da paz”. O apelo afirmava corretamente que “os membros europeus da OTAN gastam atualmente três vezes mais em defesa do que a Rússia”. Isso não impediu a Rússia de invadir a Ucrânia, mesmo que suas armas nucleares, semelhantes às da França, provavelmente custem tanto que pouco sobre para armas convencionais. Isso pode explicar por que o exército russo se mostrou incapaz de pôr fim à guerra na Ucrânia rapidamente. O que importa, aqui, é que o tamanho comparativamente pequeno das forças armadas russas não levou outras potências nucleares, como a França e o Reino Unido, a virem em auxílio da Ucrânia.

Não existe absolutamente nenhuma ligação entre o orçamento de defesa da Alemanha, inferior a 2%, a invasão russa da Ucrânia e a resposta do Ocidente.

Conclui-se, portanto, que não existe absolutamente nenhuma ligação entre o orçamento de defesa da Alemanha, inferior a 2%, a invasão russa da Ucrânia e a resposta do Ocidente, independentemente do quanto políticos e colunistas europeus afirmem o contrário. A recusa, na Alemanha, em sequer discutir essa inexistência de ligação é um legado decisivo da era Merkel, com suas vagas promessas a estados de espírito temporariamente exaltados, para quem fazer perguntas de acompanhamento não passava de uma perda de tempo, senão uma traição aos nossos valores.

Outra estratégia, também bastante característica de Merkel, para evitar discutir o orçamento de defesa de €100 bilhões consiste em não questionar em que prazo o aumento de 2% deveria ou poderia ser implementado. (O mesmo problema surgiu com os fundos de “reconstrução” pós-COVID, cujos resultados milagrosos prometidos não foram vistos dois anos após sua aprovação — nem poderiam ter sido, porque não existem. A Itália, por exemplo, só poderá gastar os €81,8 bilhões alocados pela União Europeia — um quinto a menos que o “fundo especial” das Forças Armadas alemãs — ao longo de vários anos e provavelmente nem mesmo dentro dos sete anos previstos. Será que a burocracia militar alemã, em cooperação com a indústria bélica internacional, será mais ágil?)

Mesmo que a Alemanha começasse a emitir projetos de aquisição hoje — publicamente, em toda a Europa, e assim por diante — supondo que soubesse exatamente o que queria adquirir, a adjudicação de contratos e a implementação dos itens comprados levam tempo. Antes de a ex-ministra da Defesa alemã, Ursula von der Leyen, se mudar para Bruxelas, ela foi alvo de intensas críticas pelas enormes somas que ela e seu secretário de Estado pagaram — em vão — a empresas de consultoria para impulsionar o sistema de aquisições do Exército Alemão. O programa de rearme alemão será, sem dúvida, uma mina de ouro para a indústria bélica nacional e internacional, prometendo lucros exorbitantes. As ações dessas empresas já estão subindo em consonância com isso, e seus lobistas provavelmente já começaram a fazer visitas em Berlim.

Já se espalhou a notícia de que o sistema de aquisições alemão está mais lento do que o normal — é claro que, em questões de vida ou morte, a diligência deve vir antes da velocidade. Levará quatro ou sete anos para que o dinheiro novo chegue na forma de novos tanques e munição melhor? E como será o mundo com o qual o novo exército alemão deverá lidar? Putin ainda estará por aí? Improvável. Para quais fantasmas e cenários de guerra um exército alemão, com um orçamento equivalente a 2% do PIB, estará preparado? Talvez a Rússia como vassala e protetora da China?

Aliança Regional?

Dito isso, talvez nem precisemos lidar com essas questões. Como ocorreu durante os dezesseis anos de Angela Merkel, a política de “defesa” alemã continua sendo elaborada pela OTAN, ou seja, pelos Estados Unidos. Cabe ressaltar que a OTAN não é uma aliança de defesa regional desde a década de 1990, mas sim uma força de intervenção global sob comando americano. Num futuro próximo, estará cada vez mais voltado para a defesa do poder global americano contra a afirmação do mesmo poder pela China, sendo projetado e equipado de acordo com essa finalidade.

É concebível, contudo, que o curso da guerra na Ucrânia e a nobre contenção das potências nucleares supostamente aliadas à Ucrânia possam suscitar dúvidas sobre se o destacamento e o armamento que a OTAN exige de seus membros, em nome da interoperabilidade com os Estados Unidos, são realmente necessários para uma defesa nacional eficaz na Europa — ou melhor, para evitar a necessidade de tal coisa. A julgar pelo comportamento dos países da OTAN, que nada fazem para salvar a Ucrânia de “Putin” (o que aconteceu com o “dever de proteger”?), provavelmente não.

Segundo Scholz, as compras a serem feitas com os € 100 bilhões, ou os 2%, também incluirão uma frota de aviões — americanos. Como sucessores dos aviões de combate Tornado, considerados “obsoletos”, estes são considerados cruciais para a continuidade do “compartilhamento nuclear” alemão — ou seja, o transporte e lançamento de bombas nucleares americanas por aeronaves de fabricação americana operadas pela Alemanha, com permissão ou instruções americanas, contra inimigos não especificados (Rússia? China?), mas em nenhum caso contra tropas prestes a invadir território alemão. Na lista de compras (ainda que apenas por uma questão de paridade), além do F-35 americano, que substituirá o Eurofighter, também consta o Sistema Aéreo de Combate Futuro (FCAS). Produzido pela Dassault Aviation e altamente cobiçado pelos franceses, essa combinação de caças-bombardeiros, drones e satélites pode ser usada em todo o mundo, em princípio a qualquer momento. Mas também para a defesa nacional na Europa?

Enquanto isso, até mesmo ex-comandantes do Exército Alemão e da OTAN questionam (embora em privado) se esse tipo de armamento seria adequado para se defender de um ataque como a atual invasão da Ucrânia pela Rússia. É claro que não. No que diz respeito a isso, podemos falar de sucata de alta tecnologia cara que, na melhor das hipóteses, seria adequada para um confronto final global, ao estilo de Guerra nas Estrelas, entre o bem e o mal, como imaginado pela indústria cultural americana e seus amigos no Pentágono.

Tomemos como exemplo o bombardeiro americano Northrop Grumman B-2, o maior e mais caro caça de todos os tempos, construído na década de 1980 para um "ataque de decapitação" contra o imaginário alto comando soviético viajando pela Sibéria de trem. Um avião furtivo capaz de voar da América para qualquer lugar e voltar, a única vez que foi usado foi no bombardeio de Belgrado, e mesmo assim apenas uma vez: decolou dos Estados Unidos, lançou bombas sobre Belgrado e pousou de volta nos EUA. Militarmente, era tão útil quanto um buraco na cabeça.

De qualquer forma, não se falou em um ataque de decapitação contra Putin até agora, especialmente porque ele provavelmente não anda de trem. Contudo, pelo menos desde a Guerra do Vietnã, sabemos que não há limites para a imaginação das forças armadas dos EUA.

Redefinindo a Defesa

Mesmo que, como a vasta maioria da geração pacifista alemã do pós-guerra, não tenhamos o desejo de refletir profundamente sobre a defesa militar, talvez devêssemos reconsiderar nossa posição à luz dos eventos na Ucrânia e da suposta “mudança de rumo” desencadeada por eles. Especialmente na esquerda, em princípio, poderia valer a pena pensar em formas de defesa nacional que sejam territoriais em vez de globais, ou seja, que dependam menos de comandos altamente treinados e sistemas de alta tecnologia implantados globalmente e mais da ação coletiva de cidadãos dispostos a arriscar a vida para defender seu país e seu “modo de vida” contra um inimigo invasor. Aliás, este é o único tipo de estratégia para a qual a reinstalação do serviço militar obrigatório, como foi brevemente discutida na Alemanha recentemente, pode fazer sentido: como o Comando do Exército Alemão deixou claro imediatamente, um exército de alta tecnologia e com grande capacidade de voo tem pouca utilidade para cidadãos armados e uniformizados, por mais corajosos que sejam.

Se analisarmos isso de forma mais sistemática, teríamos que retornar à distinção entre capacidades ofensivas e defensivas, que era mais proeminente quando a estratégia militar ainda era discutida na Alemanha, até meados da década de 1970. Militarmente, renunciar à capacidade ofensiva de um país deixaria claro que nenhum outro país teria nada a temer dele. Ao mesmo tempo, capacidades defensivas bem desenvolvidas ameaçariam qualquer atacante com perdas severas. Um símbolo dessa abordagem seria a substituição de tanques por lançadores de foguetes e outras armas que seriam fáceis de operar por milícias civis com um ano de treinamento, como núcleo de uma força de defesa territorial.

Militarmente, renunciar à capacidade ofensiva de um país deixaria claro que nenhum outro país teria nada a temer dele.

Talvez fosse sensato, para variar, levar a sério a abordagem suíça à defesa nacional, em contraste com a defesa por ataque americana, que se mostrou inútil na Ucrânia. (É claro que não se precisa de defesa territorial em uma ilha do tamanho de um continente). Equipamentos de alta tecnologia só entrariam em ação para defesa contra ciberataques, uma atividade militar nada heroica, realizada pelos melhores especialistas disponíveis, organizados em unidades de reserva de rápida mobilização e cujos equipamentos são continuamente atualizados.

Tal abordagem poria fim à postura apática de cidadãos politicamente imobilizados, que foram condicionados a acreditar que sua segurança e a de seu país dependem da compra constante dos incríveis produtos da Northrop Grumman, Dassault e similares. Seria mais condizente com uma sociedade ativa em uma democracia ativa do que a transferência da defesa nacional para a sede da OTAN ou mesmo para o Pentágono. Por fim, mas não menos importante, ter a própria pele em risco em caso de desastre promoveria a prudência estratégica. Poderíamos quase falar em substituir uma noção consumista de defesa por uma comunitária.

Isso também garantiria que as nações envolvidas em um conflito não pudessem ser subordinadas ou sacrificadas aos interesses inevitavelmente particulares de uma superpotência dominante do bloco: nesse aspecto, reforçaria a própria soberania nacional que, no caso da Ucrânia, a esquerda redescobriu recentemente como um bem valioso — defendida unicamente pelo heroísmo dos cidadãos locais, e não por seus amigos da OTAN aplaudindo à margem.

Em resumo: o fundo especial de € 100 bilhões está longe de ser uma “mudança radical”. Pelo contrário, dá continuidade à política da era Merkel de apaziguar simbolicamente o descontentamento, ao mesmo tempo que obscurece os problemas e se recusa a discuti-los. Admissões públicas de culpa, como a da ex-ministra da Defesa Annegret Kramp-Karrenbauer no Twitter ("Estou tão irritada conosco porque falhamos historicamente. Não preparamos nada depois da Geórgia, da Crimeia e de Donbass que realmente tivesse dissuadido Putin."), são apenas constrangedoras, desde que não sejam acompanhadas de uma reflexão séria sobre o objetivo e a finalidade de uma futura política de defesa alemã à luz da experiência atual na Ucrânia.

Uma tal política de defesa deve significar mais do que o mesmo, se quisermos que valha a pena o dinheiro e o sangue previsível que custará. Na sua forma actual, o fundo de 100 mil milhões de euros serve para pacificar um público que exige difusamente protecção e vingança para a Ucrânia, mas acima de tudo para assegurar aos “aliados” da Alemanha, isto é, os Estados Unidos, a sua lealdade inabalável, independentemente do que os acontecimentos recentes tenham revelado sobre as implicações dessa lealdade.

O fundo de 100 mil milhões de euros e o orçamento de 2% estão a ser criados numa altura em que os Estados Unidos começaram a reunir as suas forças auxiliares para o que consideram ser um confronto iminente com a China. A guerra na Ucrânia serve como uma escala importante. Os 2 por cento alemães, agora finalmente no caminho certo, se ainda não estiverem finalizados, ajudam a multilateralizar os custos dessa batalha final – essa e apenas essa é a sua função. Uma verdadeira reviravolta na política de defesa alemã teria de começar por levar a sério o conflito emergente entre a defesa nacional na Europa, por um lado, e o fortalecimento do “Ocidente” no Extremo Oriente, por outro. Nada disso ainda está em evidência.

Republicado de Makroskop.

Colaboradores

Wolfgang Streeck foi professor de sociologia e relações industriais na Universidade de Wisconsin-Madison. Seu livro mais recente é Encontros Críticos: Capitalismo, Democracia, Ideias.

Loren Balhorn é editor-chefe da edição em língua alemã da Jacobin.

8 de março de 2022

O Dia Internacional das Mulheres é nosso

Os capitalistas continuam tentando cooptar o Dia Internacional da Mulher, um produto centenário do movimento revolucionário da classe trabalhadora. Mas o dia pertence à tradição antiguerra socialista.

Liza Featherstone

Jacobin

Trabalhadoras de Petrogrado no Dia da Mulher em 1917. (Universal History Archive / Universal Images Group via Getty Images)

Tradução / Os orgulhosos apoiadores deste ano da marcha do Dia Internacional da Mulher (IWD, na sigla em inglês) nos Estados Unidos incluem empresas bélicas como a Lockheed Martin, fabricante de aeronaves americana, e a Northrop Grumman, uma multinacional americana no ramo da defesa. Mas enquanto esses aproveitadores da morte ajudam a alimentar a guerra na Ucrânia, devastando as cidades daquele país, matando crianças e ameaçando a segurança e o bem-estar de milhões de pessoas em todo o mundo, nós preferimos reviver a história da data como um dia de protesto radical contra a guerra.

Após vários anos de protestos trabalhistas militantes e reivindicações por sufrágio — assim como “revoltas de donas de casa” contra os altos preços — por mulheres na Rússia, Estados Unidos, Áustria, Alemanha e França, a feminista socialista alemã Clara Zetkin, em 1910, propôs o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora para honrar — e construir — as lutas das mulheres pela justiça no local de trabalho e pela igualdade política.

Vários anos depois, o dia foi marcado por protestos trabalhistas, que na cidade de Nova York foram muito intensificados pelo incêndio do Triangle Shirtwaist, um incêndio em uma fábrica de roupas de Manhattan que matou 146 trabalhadores, em sua maioria mulheres e meninas.Na Rússia, estes protestos também foram alimentados por reivindicações para acabar com o regime czarista. A líder bolchevique Alexandra Kollontai refletiu mais tarde que a IWD serviu como “um excelente método de agitação entre as menos políticas de nossas irmãs proletárias” porque o enquadramento era tão convidativo (“Este é o nosso dia”, ela imagina mulheres trabalhadoras dizendo para si mesmas enquanto se apressavam para os comícios e reuniões).

Ela também observou que a IWD fortaleceu a solidariedade internacional. Este aspecto da IWD tornou-se particularmente marcante quando, em 1914, quando as classes dirigentes de todo o mundo começara a se mobilizar para a Primeira Guerra Mundial, Zetkin, com a revolucionária Rosa Luxemburgo, usou o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora como um ponto focal para o protesto contra a guerra.

Depois que muitos partidos socialistas se desintegraram devido às divisões sobre a guerra, em março de 1915, feministas socialistas da Rússia, Polônia, Suíça, Britian, Itália, Holanda, Alemanha e França se reuniram para uma conferência em Berna, na Suiça; dessa reunião saiu um manifesto que tratava das “mulheres do povo trabalhador”.Enquanto as versões anteriores do manifesto abordavam a divisão sobre a guerra no movimento socialista, a versão final, escrita principalmente por Clara Zetkin, enfatizava a mensagem antiguerra contra a exploração da guerra (ela até dá um grito aos Lockheed Martins e Northrop Grummans de seu tempo) e o capitalismo. Ela argumentou que o socialismo era o único caminho para a paz: “Quem se beneficia com a guerra? Apenas uma pequena minoria em cada nação... Os operários não têm nada a ganhar com esta guerra e ficam perdendo tudo o que lhes é próximo e querido... Proclamem em seus milhões o que seus filhos ainda não podem afirmar. ... Abaixo com a guerra! Avante com o Socialismo”!

As feministas socialistas continuaram a organizar protestos anti-guerra no Dia Internacional da Mulher durante toda a Primeira Guerra Mundial. Mais significativamente, em 8 de março de 1917, as mulheres encheram as ruas de Petrogrado, depois a capital da Rússia, exigindo “pão e paz”. Elas protestaram contra a morte de mais de dois milhões de soldados russos na guerra e contra a escassez de alimentos que devastou a população. Os manifestantes também exigiram a remoção do czar. Os trabalhadores saíram de seus empregos para se juntarem a eles. A Kollontai, escrevendo alguns anos depois, descreveu-o desta forma: “Neste momento decisivo, os protestos das mulheres trabalhadoras representavam uma ameaça tal que até mesmo as forças de segurança czaristas não ousaram tomar as medidas habituais contra os rebeldes, mas olharam em confusão para os mares tempestuosos da raiva do povo”.

Esses protestos são vistos agora como o início da Revolução Russa, e pouco depois o governo czarista se dissolveu. “Neste dia”, escreveu Kollontai, “as mulheres russas levantaram a tocha da revolução proletária e incendiaram o mundo”. 

Desde então, as feministas socialistas continuaram a manter viva a IWD como parte de uma tradição antiguerra, anti-capitalista.Em 1937, as mulheres espanholas protestaram contra as forças de guerra fascistas de Francisco Franco contra a IWD e, do mesmo modo, as mulheres italianas usaram o dia para manifestações contra a insistência de Benito Mussolini em enviar seus filhos para morrer por sua causa fascista em 1943. Devido ao anticomunismo da Guerra Fria, o Dia Internacional da Mulher recuou nos Estados Unidos em meados do século XX. Mas em 1970, em todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos, mulheres socialistas e esquerdistas organizaram protestos contra a Guerra do Vietnã na IWD.

Em 2003, dezenas de milhares foram às ruas europeias – em Stuttgart, Cork, Pisa e muitas outras cidades — na IWD para protestar contra o início da Guerra do Iraque. Nos Estados Unidos, Medea Benjamin e outros lançaram o Code Pink, um grupo anti-guerra de esquerda, liderado por mulheres, que continua forte (notável dada a falta de vozes anti-guerra e anti-imperialistas dos EUA nas últimas décadas). O grupo organizou uma longa vigília de quatro meses contra a guerra que começou em novembro de 2002, culminando na IWD 2003 com cerca de dez mil pessoas protestando na Casa Branca. Já em 2022, o Code Pink e outros realizaram protestos mundiais em 6 de março, um pouco antes da IWD, para protestar contra a agressão de Vladimir Putin contra a Ucrânia e exigir o fim da guerra na Ucrânia e nenhuma expansão da OTAN.

Talvez devido à história inicial do Dia Internacional da Mulher, os russos estão mais uma vez protestando contra um regime de belicismo tirânico, sem consideração pelo povo trabalhador. O Guardian relata protestos em 53 cidades russas, com mais de 4.300 pessoas presas.

Só os protestos provavelmente não vão parar a guerra na Ucrânia. Mas o Dia Internacional da Mulher apresenta uma oportunidade anual para honrar a tradição socialista antiguerra, e nos convida a encontrar novas formas de trazê-la de volta. O que Kollontai escreveu em 1920 ainda é verdade mais de cem anos depois: “Este dia continuou sendo o dia da militância da mulher trabalhadora”. Ele pertence a nós, não às multinacionais.

Colaborador

Liza Featherstone é colunista da Jacobin, jornalista freelancer e autora de "Selling Women Short: The Landmark Battle for Workers’ Rights at Wal-Mart".

O feminismo revolucionário de Thomas Sankara

Thomas Sankara, o líder revolucionário de Burkina Faso, é bem conhecido por se opor ao neocolonialismo do Norte Global. Mas no mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, também devemos lembrar do seu compromisso radical com a libertação das mulheres.

Adele Walton

Thomas Sankara, fotografado em 1º de fevereiro de 1985. (William F. Campbell / Getty Images)

Em 8 de março de 1987, Thomas Sankara, o líder revolucionário de Burkina Faso, falou para uma manifestação de milhares de mulheres na capital Ouagadougou para marcar o Dia Internacional da Mulher. Clamando pela transformação coletiva da sociedade, Sankara colocou a luta pela igualdade de gênero no centro de seu projeto socialista na ex-colônia francesa.

Ao marcarmos a 113ª celebração do Dia Internacional da Mulher, as palavras revolucionárias de Sankara são um lembrete ousado dos fundamentos socialistas do dia.

“A revolução e a libertação das mulheres andam juntas”

Sankara chegou ao poder em 1983 durante um período de imensa agitação. Uma revolução estava se desenrolando em todo o continente africano, à medida que país após país se livrava dos grilhões do colonialismo. Mas, apesar das aspirações libertadoras dos movimentos anticoloniais, as mulheres muitas vezes permaneceram deixadas de lado.

Sankara via a emancipação das mulheres não apenas como uma necessidade ética, mas também intrínseca ao sucesso da revolução de Burkina Faso. “[As mulheres] foram excluídas da alegre procissão”, disse ele à multidão em seu discurso de 8 de março de 1987:

E, no entanto, a autenticidade e o futuro de nossa revolução dependem das mulheres. Nada definitivo ou duradouro pode ser realizado em nosso país enquanto uma parte crucial de nós mesmos for mantida nessa condição de subjugação — uma condição imposta… por vários sistemas de exploração.

Ele pediu aos camaradas do sexo masculino que tratassem a libertação das mulheres com a mesma urgência que outros assuntos, insistindo que o patriarcado mantinha homens e mulheres presos em um sistema de opressão, violência e dominação: “A revolução e a libertação das mulheres andam juntas. Não falamos da emancipação das mulheres como um ato de caridade ou por uma onda de compaixão humana. É uma necessidade básica para que a revolução triunfe.”

O discurso do Dia Internacional da Mulher de Sankara abordou não apenas as preocupações das mulheres de Burkina Faso, mas também a opressão sistemática das mulheres em todo o mundo. “A desigualdade só pode ser eliminada com o estabelecimento de uma nova sociedade”, declarou ele, “onde homens e mulheres desfrutarão de direitos iguais, resultantes de uma reviravolta nos meios de produção e em todas as relações sociais. Assim, a situação das mulheres só vai melhorar com a eliminação do sistema que as explora”.

Em uma questão muitas vezes marcada por retórica vazia e gestos ocos, a posição de Sankara sobre a igualdade de gênero foi enérgica e intransigente. Ele denunciou o patriarcado como um “sistema de exploração imposto pelos homens” reforçado pela socialização em normas sexistas: “Essa desigualdade foi produzida por nossas próprias mentes e inteligência para desenvolver uma forma concreta de dominação e exploração”. Ele pediu uma transformação radical dos corações e mentes dos homens em todo o mundo em solidariedade às mulheres.

Uma das muitas esferas sociais que precisam de transformação, argumentou Sankara, é o lar. Ele criticou a distribuição de gênero do trabalho doméstico e o papel da família tradicional na reprodução da desigualdade de gênero.

“Apareceu a família patriarcal, fundada na propriedade única e pessoal do pai, que se tornara chefe da família. Dentro desta família, a mulher era oprimida”. Ele continuou: “Ela não é paga por seus deveres domésticos. Referida como ‘dona de casa’, [significando que ela] não tem emprego… [as mulheres estão] gastando centenas de milhares de horas para um nível terrível de produção”.

Sankara preencheu a lacuna entre as esferas pública e privada, revelando as formas como a desigualdade de gênero se revelou em ambas – e como a sociedade burkinabé pode erradicá-la.

"Tornar as mulheres iguais aos homens"

Sankara pôs em prática suas palavras estridentes.

Em 1984, ele proclamou o dia 22 de setembro como “o Dia de Solidariedade com as Donas de Casa”, estimulando homens a participarem das tarefas domésticas, prepararem refeições e cuidarem de seus filhos. Em entrevista ao historiador camaronês Mongo Beti, Sankara explicou: “Estamos lutando pela igualdade entre homens e mulheres, não por uma igualdade mecânica e matemática, mas tornando as mulheres iguais aos homens perante a lei e especialmente perante o trabalho assalariado”. Ele pediu um reconhecimento coletivo do “trabalho das mulheres” como trabalho, ecoando as demandas da feminista Campanha Internacional de Salários para Trabalho Doméstico [International Wages for Housework Campaign], que ganhou destaque no Norte Global na década anterior.

Ainda mais impressionantes foram as políticas de saúde, educação e desenvolvimento familiar de Sankara, que trouxeram grandes avanços em direção à igualdade de gênero no país da África Ocidental. Em seu primeiro ano no poder, Sankara estabeleceu o Ministério do Desenvolvimento Familiar e a União Feminina de Burkina para “dar às mulheres de nosso país uma estrutura e ferramentas sólidas para travar uma luta bem-sucedida”. Ele restringiu a poligamia e os dotes e proibiu o casamento forçado e a mutilação genital feminina. Ele concedeu novos direitos às mulheres, incluindo a introdução de herança para viúvas e órfãs.

Uma das primeiras iniciativas de Sankara foi garantir que o Ministério da Educação tornasse o acesso das mulheres à educação uma realidade. “As meninas provaram que são iguais aos meninos na escola, senão simplesmente melhores”, disse ele:

Mas acima de tudo têm direito à educação para aprender e saber – para serem livres. Nas futuras campanhas de alfabetização, a taxa de participação das mulheres deve ser elevada para corresponder ao seu peso numérico na população.

Ao destacar o analfabetismo como um impedimento à liberdade das mulheres, Sankara falou aos pais de meninas em todo o país de uma forma que muitos líderes masculinos não conseguiram fazer.

O governo de Sankara procurou liberar o imenso potencial das mulheres burkinabés na promoção do desenvolvimento nacional. “As mulheres de Burkina estão presentes em todos os lugares em que o país está sendo construído. Eles fazem parte dos projetos – o Sourou [projeto de irrigação do vale], o reflorestamento, as pontes de vacinação, as operações de cidade limpa.”

Durante sua presidência, ele nomeou mulheres para cargos no governo e alterou a constituição, tornando obrigatório que os presidentes tenham pelo menos cinco ministras em todos os momentos. Para Sankara, “conceber um projeto de desenvolvimento sem a participação de mulheres é como usar quatro dedos quando se tem dez”. A representação política das mulheres não foi uma estratégia simbólica, mas sim um passo fundamental para a emancipação das mulheres de Burkina Faso.

"Você não pode matar ideias"

Em sua essência, o programa socialista de Sankara era sobre a libertação da exploração, seja a servidão por dívida imposta ao Sul Global ou a dominação das mulheres pelos homens.

Sankara não tinha paralelo entre os líderes africanos pós-coloniais em seu compromisso com a emancipação das mulheres. Ele reconheceu as mulheres em toda a sua humanidade e como agentes de mudança transformadora.

Uma semana antes de seu assassinato em um golpe apoiado pela França em outubro de 1987, Sankara declarou: “Embora revolucionários como indivíduos possam ser assassinados, você não pode matar ideias”. Suas palavras ressoam hoje enquanto continuamos a luta por uma transformação radical da sociedade, que nos eleve e capacite a todos.

Colaborador

Adele Walton é escritora e estudante de Desenvolvimento Internacional. Seu trabalho é publicado no blog Verso, na Huck Magazine e no The Independent.

O legado econômico do governo Lula

Suposição de que ex-presidente "quebrou o país" é fake news com refinamento acadêmico

Eduardo Fagnani



Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é culpado pela crise econômica, afirma o colunista da Folha Marcos Mendes ("Em defesa do governo Dilma", 25/1). O malabarismo para provar o argumento equipara-se ao aplicado para justificar o desastroso teto de gastos, do qual aquele crítico é mentor.

O artigo reprisa a narrativa de que o PT teria "quebrado o país", ladainha tantas vezes utilizada para justificar o golpe parlamentar. A novidade é que, nessa versão, Lula teria sido o autor da façanha.

A ideia viciosa que se repetiu naquela crítica foi categoricamente desmentida pelo então Ministério da Fazenda do governo Michel Temer (MDB), em 2016: "A situação do Brasil é de solidez e segurança, porque os fundamentos são robustos. O país tem expressivo volume de reservas internacionais (...). As condições de financiamento da dívida pública brasileira permanecem sólidas (...). A dívida pública federal é composta majoritariamente de títulos denominados em reais".

Quebrado estava o país em 2002, pelas políticas neoliberais adotadas a partir de 1990. Um dos legados de Lula foi reduzir drasticamente a vulnerabilidade externa. Entre 2002 e 2010 a dívida externa bruta caiu de 42% para 12% do PIB; as reservas cambiais aumentaram mais de 17 vezes (de US$ 16,3 para US$ 286,6 bilhões); a dívida externa líquida foi reduzida, de 37% para -2,4% do PIB —e, assim, o Brasil passou a ser credor em moedas estrangeiras, fato inédito na história econômica nacional.

A melhoria dos fundamentos entre 2002 e 2010 também é atestada pela queda da dívida pública (de 60,4% para 39,2% do PIB); da taxa de juros básicos da economia (de 24,9% para 10,7% ao ano); da taxa de inflação (de 12,5% para 5,9% ao ano); das despesas com juros, como proporção da arrecadação tributária federal (de 38,3% para 22,4%); das despesas com pessoal e encargos (de 4,8% para 4,3% do PIB); e no índice EMBI, que reflete a percepção de risco dos investidores externos (de 1.465 para 189 pontos).

O colunista diz que Lula teria sido beneficiado pelo "boom de commodities", mas omite os impactos da crise financeira internacional de 2008-09, considerada a "maior crise do capitalismo desde 1929". As medidas anticíclicas adotadas —tratadas nas ladainhas como se tivessem sido "estragos populistas"— foram escolhas acertadas que fizeram o Brasil sair rapidamente da crise (o PIB cresceu 7,5% em 2010). Não há menção ao fato de que o ciclo de commodities começou no governo anterior, mas, mesmo assim, por três vezes, o Brasil teve de recorrer ao FMI e ao aumento da carga tributária (de 27,2% para 32% do PIB).

No governo Lula foi feita a consolidação fiscal de longo prazo apoiada no crescimento —não na redução do Estado, como queriam os "economistas do mercado", com o conhecido plano rudimentar, excludente e recessivo. A economia cresceu, em média, 3,5% (primeiro mandato) e 4,7% (segundo mandato). A relação dívida/PIB caiu significativamente, e foi possível praticamente zerar o peso dos títulos indexados ao câmbio no total da dívida (em 2001, esses títulos chegaram a representar 29,5% da dívida brasileira) e reduzir quase pela metade a proporção de títulos indexados à Selic, fortalecendo o governo central frente às pressões especulativas. Houve expressiva geração de superávits primários no governo Lula (média anual de 3,4% do PIB). O Brasil passou de 13ª para 6ª entre as maiores economias do mundo e ganhou "grau de investimento" das agências de classificação de risco.

A melhoria dos indicadores sociais, embora não seja valorizada pelos "economistas do mercado", é outro legado. Houve queda do desemprego, geração de empregos formais, valorização do salário mínimo, redução da pobreza e da desigualdade de rendado trabalho e elevação da renda domiciliar, que gerou mercado interno com mais de 140 milhões de pessoas, o que fomentou o crescimento do consumo e das vendas no varejo.

Temer e Jair Bolsonaro (PL) radicalizaram a agenda neoliberal e mergulharam o país em grave crise. Já fracassaram todas as alardeadas "certezas" de que o impeachment geraria algum "choque de confiança", que, milagrosamente, recuperasse a economia. O Brasil só não quebrou porque está sobrevivendo à custa dos mais de US$ 360 bilhões de reservas —80% das quais acumuladas no governo Lula.

Em suma, a suposição de que Lula teria "quebrado o país" é fake news com brilho superficial de refinamento acadêmico. A narrativa, alheia aos fatos, é tentativa demagógica de reescrever a história a partir de fantasias ideológicas sem suporte na realidade, que, teimosamente insiste em desmascará-las.

Sobre o autor

Professor colaborador do Instituto de Economia da Unicamp e membro do Núcleo de Economia da Fundação Perseu Abramo

Para ajudar a Ucrânia, cancele sua dívida externa

A dívida pública da Ucrânia aumentou ao longo dos anos de guerra, com autoridades europeias e o FMI oferecendo empréstimos em troca de “reformas” pró-negócios. Os ucranianos estão pedindo o cancelamento da dívida, para ajudar na futura recuperação do país. 

Uma entrevista com
Alexander Kravchuk

Jacobin

Milhares de moradores de Irpin, na Ucrânia, precisam abandonar suas casas e evacuar à medida que os militares russos se aproximam. (Jan Husar / SOPA Images / LightRocket via Getty Images)

Tradução / Nos últimos dias, inúmeros governos anunciaram apoio financeiro e militar para a Ucrânia, uma vez que ela enfrenta uma devastadora invasão russa e um êxodo de refugiados que já conta com mais de 1,5 milhões de pessoas.

Tal dependência de ajuda externa não é uma novidade. Desde os anos 90, a economia da Ucrânia vem ficando atrás de outros países do antigo bloco oriental, e – sob os efeitos da crise global, da pandemia e da guerra em curso desde 2014 – tem recorrido repetidamente a empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Comissão Europeia. Entretanto, este empréstimo estava longe de ser apenas altruísmo. O serviço da dívida tornou-se uma parcela crescente dos gastos públicos, e os empréstimos também vieram na condição de políticas específicas destinadas a promover um “melhor ambiente de negócios” e a reduzir o estado de bem-estar social.

Como observa Elliot Dolan-Evans, no OpenDemocracy, mesmo o anúncio da Comissão Europeia de apoio de 1,2 bilhões de euros para a Ucrânia em 21 de fevereiro, pouco antes da invasão, referia-se a “medidas de política estrutural” não especificadas em troca de empréstimos. Agora, os ativistas ucranianos estão pedindo o cancelamento das dívidas externas da Ucrânia. Não ter que servir a essas dívidas não serão suficiente para salvar a Ucrânia. Mas é importante assegurar que, quando tiverem reconquistado sua independência, os ucranianos não estejam ainda mais dependentes de credores ou oligarcas nacionais sobre os quais não têm controle.

Alexander Kravchuk é economista e editor da Commons: Journal of Social Critique, que escreveu anteriormente sobre as condições do FMI em empréstimos à Ucrânia. David Broder, de Jacobin, perguntou-lhe sobre a situação econômica do país e porque o cancelamento da dívida externa é importante para que os ucranianos consigam moldar seu futuro.

David Broder

Alguns meios de comunicação ocidentais falam que os ucranianos são pessoas de “classe média como nós”, às vezes em contraposição às vítimas da guerra em outras partes do mundo. Você pode nos dar uma ideia de como eram os padrões de vida das pessoas comuns, mesmo antes do mês passado?

Alexander Kravchuk

O que eles dizem não é verdade. A Ucrânia era a parte norte do Sul Global e o país mais pobre da Europa, lutando por este lugar com a Moldávia.

Abaixo, forneço alguns dados comparativos sobre nosso desenvolvimento econômico:


Assim, em termos de renda nacional per capita, a Ucrânia fica muito atrás da União Europeia (UE) e ainda mais dos Estados Unidos. Os últimos dados indicam a pobreza de nosso povo, com salários médios abaixo de quinhentos euros por mês:


Após o início da guerra no Leste, a crise econômica de 2014 e a perda dos mercados, a renda das famílias ainda mal se recuperaram nos últimos anos. E mesmo esse nível ainda era muito baixo. As razões para isso foram:

– Extração de riqueza para empresas offshore, muitas vezes formadas nas antigas indústrias soviéticas após a privatização.

– Um foco na exportação de matérias-primas (grãos, metal, indústria química).

– Uma política errada de dívida. Os empréstimos do FMI foram emitidos em condições que exigiam que até mesmo os resquícios do Estado social fossem reduzidos. Os pagamentos para servirem simplesmente a dívida pública se tornaram uma das maiores partes das despesas orçamentárias do Estado (totalizando 8,5% do total em 2021).

– Falta de apoio aos produtos de alta tecnologia ucranianos, em particular devido aos acordos comerciais injustos com parceiros estrangeiros (incluindo acordos com a UE).

A guerra que começou em 2014 bloqueou o fluxo de investimentos e só piorou a situação. Desde então, também temos sido restringidos em termos de participação política. Os protestos socioeconômicos foram marginalizados e ficaram “fora de lugar” durante a guerra.

Como resultado, em vez de lutar por um futuro melhor na Ucrânia, os ucranianos foram em massa para o exterior. Assim, de acordo com a ONU, em 2020 a Ucrânia ocupava o oitavo lugar no mundo em termos de migração de mão-de-obra. Milhões de ucranianos já partiram nos últimos anos para países membros da UE oriental (por exemplo, Polônia, República Tcheca).

Lá, eles substituíram a força de trabalho que deixou esses países em busca de uma vida melhor na Alemanha, Grã-Bretanha e outros países centrais. Com esta guerra, a UE prevê a chegada de até mais 5 milhões de pessoas da Ucrânia – uma força de trabalho mais qualificada para se integrar à sociedade europeia.

David Broder

Durante os últimos 8 anos, o FMI e o Banco Mundial emprestaram quantias maiores à Ucrânia. Havia “compromissos”? Se Volodymyr Zelensky procurar novos empréstimos estrangeiros, que impacto tem a demanda por alívio da dívida na sociedade ucraniana?

Alexander Kravchuk

O FMI e outras instituições financeiras foram os motores das chamadas “reformas de mercado” na Ucrânia. Escrevemos sobre isso em nosso projeto Alternative Mechanisms for the Socio-Economic Development of Ukraine.

Em 2015, escrevi um artigo para esse panfleto a respeito da origem da dependência da dívida e seu impacto negativo sobre a Ucrânia.

A última “vitória” neste campo foram as mudanças no mercado de energia. Na Ucrânia, os preços do gás aumentaram dez vezes sob pressão do FMI desde 2014.

Em novembro de 2021, o governo ucraniano acordou com o FMI, a desregulamentação final e a venda do gás produzido na Ucrânia, a preços de câmbio elevados. Ele poderia aumentar as tarifas três ou cinco vezes durante a guerra.

Aqui você pode ver uma rápida tradução em inglês do meu último infográfico:


Conseguimos promover a ideia de rever a política da dívida na sociedade ucraniana. A proposta foi retomada por diferentes atores, inclusive por forças nacionalistas. No entanto, a pressão externa era muito forte e o novo governo de Zelensky era muito fraco para ousar rompê-la. Afinal, neste caso, era necessária uma política econômica forte e a restauração da plena soberania.

David Broder

Em sua petição, você escreve que: “O endividamento caótico e a condição anti-social da dívida foi resultado da oligarquização total: não dispostos a lutar contra os ricos, os governantes do Estado continuaram a se endividar profundamente.” Você pode explicar isto – e se o alto endividamento força o Estado a confiar nos interesses oligárquicos-privados para projetos de infraestrutura?

Alexander Kravchuk

Esta ligação entre o peso da dívida e a dependência de interesses privados é bastante indireta, mas mesmo assim importante. O argumento de que a Ucrânia tem um Estado excessivo e inchado se desenvolveu por muito tempo. Entretanto, a parcela da renda nacional distribuída através da tributação e do orçamento na Ucrânia é muito menor do que em países europeus desenvolvidos.

Portanto, em condições onde a maioria das empresas estatais são privatizadas, a Ucrânia não tem recursos e capacidades para desenvolver projetos de infraestrutura. O capital privado na Ucrânia se concentra tanto nas indústrias de commodities quanto no setor financeiro. Esta tendência será ainda mais perceptível após a guerra, pois o capital privado ficará assustado com a instabilidade na região.

David Broder

Muitos países ocidentais já estão prometendo e entregando ajuda humanitária à Ucrânia. Qual é a importância específica do cancelamento da dívida externa, primeiramente no combate à guerra, e em permitir que os ucranianos moldem seu próprio futuro?

Alexander Kravchuk

Mais cedo ou mais tarde a guerra acabará, e a Ucrânia não só ficará com uma infraestrutura destruída por bombas, mas também com uma grande dívida pública.

A opção de reestruturação da dívida que ocorreu na última vez não é adequada para a economia ucraniana e é mais atraente para os próprios credores. Em 2015, alguns dos pagamentos aos credores comerciais foram adiados por três anos e 20% do principal foi cancelado. Mas qual foi o preço disso? A Ucrânia foi obrigada a pagar aos credores 15% de seu aumento do PIB acima de 3%, e 40% de cada 1% de seu aumento do PIB acima de 4%. Nós mal podíamos pagar nossa dívida, mesmo antes da guerra. Os termos do empréstimo deveriam ser revistos de forma mais transparente.

David Broder

Que mecanismos você imagina que permitiriam que esta demanda fosse atendida? O que você acha do precedente do cancelamento da dívida da Alemanha Ocidental em 1953?

Alexander Kravchuk

Eu não posso sugerir imediatamente um mecanismo de revisão da dívida – em particular, porque estou escrevendo isto sob o som do bombardeio.

Mas estou convencido de que podemos utilizar, por exemplo, o trabalho do Comitê para a Abolição da Dívida Ilegítima, como aconteceu no Equador em 2008, quando 70% da dívida soberana foi declarada ilegal e os fundos liberados foram utilizados para o desenvolvimento econômico e o bem-estar do país.

Hoje, é difícil pensar em como poderia ser uma vida pacífica na Ucrânia. Mas é preciso trabalhar na construção de uma sociedade independente e socialmente justa. Por esta razão, o jugo da dívida deve ir para a lata do lixo da história – junto com o exército de invasores russos.

Sobre o entrevistado

Alexander Kravchuk é editor do Commons: Journal of Social Critique na Ucrânia.

Sobre o entrevistador

David Broder é historiador do comunismo francês e italiano. Ele está atualmente escrevendo um livro sobre a crise da democracia italiana no período pós-Guerra Fria.

7 de março de 2022

Conversamos com socialistas russos que estão protestando contra a guerra de Vladimir Putin

Na sexta-feira, o parlamento da Rússia aprovou uma lei que ameaça penas de 15 anos de prisão para críticos da guerra na Ucrânia – mas no domingo, milhares ainda foram às ruas em protestos. Conversamos com socialistas russos sobre por que eles estão se recusando a ceder.

David Broder

Policiais russos detêm uma mulher durante uma manifestação não autorizada contra a invasão militar na Ucrânia em 6 de março de 2022 em Moscou. (Konstantin Zavrazhin / Getty Images)

Tradução / Na quarta-feira da semana passada, a ativista aposentada Yelena Osipova, filha de um Leningrado sitiado pela Alemanha nazista, foi arrastada pela polícia ao participar de protestos contra a guerra. A dela foi a mais emblemática das mais de treze mil prisões (segundo o balanço da OVD-Info ) de russos que denunciaram corajosamente a guerra de Vladimir Putin contra a Ucrânia.

A repressão dos comícios iniciais após a invasão de 24 de fevereiro resultou em milhares de pessoas condenadas a penas de prisão de alguns dias. Mas as medidas de sexta-feira que levaram a Rússia à beira da lei marcial estabeleceram um preço muito mais alto para se manifestar. A repressão à mídia liberal como Dozhd e Novaya Gazeta , bem como a veículos estrangeiros, agora está associada a sentenças de prisão de até quinze anos por “notícias falsas” críticas ao esforço de guerra.

Apesar dos anúncios, domingo viu novas manifestações – com mais de quatro mil prisões só ontem. Ações também estão planejadas para o Dia Internacional da Mulher em 8 de março – em 1917, famosa ocasião de protestos antiguerra das mulheres de Petrogrado. Antes dos comícios deste fim de semana, perguntei aos socialistas russos sobre a composição dos protestos, as atitudes populares em relação à guerra e as perspectivas de disseminação da dissidência apesar da dura repressão.

Enraizando a dissidência

Desde o início da guerra, V. – um socialista envolvido em protestos em Moscou – me diz que o clima nos protestos era “tenso”. A maior manifestação na capital foi em 24 de fevereiro, dia da invasão, enquanto nos dias seguintes “a polícia prendeu todos nas ruas que pareciam ‘suspeitos’ para que a multidão não tivesse a chance de se reunir”. Ela observa o efeito de ondas anteriores de repressão no enfraquecimento de gerações anteriores de oposicionistas, como aqueles envolvidos em marchas exigindo a libertação do dissidente preso Alexei Navalny. Isso teve o efeito de que os russos mais jovens estão desempenhando um papel maior no movimento de hoje:

A principal diferença é o quão jovem é a multidão. Quase todo mundo tem menos de trinta e cinco anos, principalmente jovens adultos e até menores (que também estão sendo presos e brutalizados pela polícia). Quase não há tipos de intelectualidade mais velhos, que representaram uma parte significativa dos protestos da oposição nos anos anteriores. Há muitas mulheres, mais do que o habitual, eu diria.

O governo Putin lançou uma grande repressão às redes ativistas e seus meios de comunicação. Então, quão consciente está a população em geral de que os protestos de rua estão ocorrendo? V. me diz que em Moscou:

Quase todo mundo sabe – é impossível não notar o aumento do policiamento pesado, prisões brutais e congestionamento ocasional de estações se você visitar o centro da cidade. Mas fiquei com a impressão de que as pessoas “comuns” veem os protestos como inúteis para trazer qualquer coisa, exceto espancamento pesado pela polícia e prisão rápida com a perspectiva de passar uma noite (ou dez, ou quinze, ou, diabos, talvez até quinze anos ) de prisão.

Ela caracteriza a reação popular inicial à invasão em termos de surpresa e incompreensão:

Nos primeiros dias, pessoas de fora da comunidade ativista mal discutiram a guerra. A mídia oficial russa também não falava nada sobre isso. Algumas pessoas ficaram chocadas (como eu), algumas não entenderam o que estava acontecendo ou não se importaram (ainda). Parecia que até a mídia oficial foi pega de surpresa pela decisão de Putin, e não esperava por isso.

A punição severa daqueles que protestam certamente visa reforçar a resignação passiva entre a população em geral. Mas parece que a mídia pró-Putin também está agora fazendo um esforço mais coerente para mobilizar uma “opinião pública” inventada. V. me diz:

A mídia recebeu suas instruções e começou a bater os tambores da guerra (embora chamem isso de uma “operação especial” para “desnazificar a Ucrânia” dos banderitas culpados pelo “genocídio” no Donbas, e uma medida contra a expansão da OTAN (tivemos sem escolha, etc.). Algumas pessoas aceitaram essa linha. Quando eu estava no mercado, presenciei um pai dizendo à filha (que tinha cerca de oito anos): “Sabe quando alguém fica te insultando, em algum momento você simplesmente “Talvez seja assim que algumas pessoas lêem. Mas agora, quase não há nada que as pessoas possam falar, exceto sobre a guerra. No trabalho, no metrô – todo mundo está ansioso e grudado em seus telefones.

Inesperado

Esse elemento surpresa também foi mencionado por M., membro do Movimento Socialista Russo em Yekaterinburg, a quarta maior cidade do país. Ela me disse:

No primeiro dia, quando Putin tinha acabado de declarar guerra, meu namorado de Donbas estava dormindo docemente ao meu lado, fiquei com muito medo de acordá-lo com as palavras: “A guerra começou”. Então senti que não podia deixar de sair agora. Outras pessoas da cidade sentiram o mesmo: “Está na hora”, e saímos sem um único centro de coordenação, era um impulso comum. Tudo começou com piquetes únicos sob a estátua de Lenin, e então as pessoas simplesmente não saíram de lá e permaneceram de pé, preenchendo gradualmente a praça completamente. A polícia simplesmente não sabia o que fazer conosco, eles não esperavam isso. E nós tivemos a vantagem – até que eles receberam um único pedido.

Nesta cidade dos Urais, no primeiro dia da guerra, a polícia imaginou que Anatoly Svechnikov – executivo local do Memorial, uma ONG recentemente fechada que investiga a repressão estatal e os abusos dos direitos humanos – deveria estar por trás do protesto.

O policial se aproximou dele e, aparentemente pensando que Anatoly estava no comando aqui e poderia dar ordens, tentou argumentar: “Bem, você pode pedir aos manifestantes que se comportem com calma”. Mas o problema é que não temos mais figuras principais – todos os oposicionistas fortes são perseguidos pelo Estado.

M. concorda com V. que os manifestantes são principalmente jovens:

A praça estava cheia de gente muito jovem, nunca vi tanta gente na casa dos vinte em um protesto. Gritamos “não à guerra” e “Putin renuncie” até que uma multidão de policiais de capacete nos dividiu em pequenos grupos. Seguimos então em procissão pela cidade. Onde quer que aparecêssemos, mais cedo ou mais tarde chegavam carros de polícia e logo a procissão silenciosa começou a gritar agressivamente: “Não à guerra” ou “Vergonha” em sua direção e sair imediatamente. E os policiais ficaram onde estavam porque não podiam continuar nos seguindo sem ordens.

Naquele dia, a procissão foi finalmente interrompida quando uma multidão de policiais com capacetes e uniformes completos nos conduziu por uma enorme escadaria escorregadia. Corremos de duzentos a trezentos metros em linha reta, e eles estavam atrás de nós com uma velocidade incrível. Nós nos dispersamos e não nos reunimos novamente.

Mas a repressão já surtiu efeito nos números dos protestos:

Em 1º de março, o advogado Aleksey Bushmakov disse que os manifestantes lotaram completamente todos os centros de detenção especial da cidade e alguns dos detidos tiveram que ser levados para a cidade vizinha de Sysert. A cada dia menos gente saía, havia cada vez mais policiais na rua...

M. insiste que essa repressão não é o fim do movimento antiguerra. No entanto, a necessidade de os protestos mudarem constantemente, em vez de depender das redes ativistas existentes, também tornou necessário contar com formas horizontais de organização que podem operar sem uma única liderança. Isso também aumentou a dependência da distribuição de mensagens antiguerra simples por meio de aplicativos de mensagens, simplesmente para romper o véu da despolitização:

A Resistência Feminista Anti-Guerra fez uma coisa brilhante. Se a parte não-oposicionista da sociedade e eu estamos em bolhas diferentes, precisamos diminuir essa distância. Eles escreveram uma lista de discussão para WhatsApp, com uma ligação: “Se você não enviar esta carta para 7 amigos, felicidade e uma vida tranquila não brilharão para você nos próximos anos !!!!” Então, nesse estilo, em que nossos parentes mais velhos costumam espalhar teorias da conspiração uns para os outros na velocidade da luz, espalhamos uma carta com a verdade sobre a guerra. Alguns dizem que já receberam a carta de seus próprios parentes, o que significa que está funcionando.

O Partido Comunista

Esse foco em ações pop-up descentralizadas também é um subproduto natural da falta de partidos de oposição reais e do papel subordinado do Partido Comunista (KPRF) dentro da estrutura de poder dominante. Sua liderança geralmente segue a linha de Putin; o KPRF apresentou a moção parlamentar para o reconhecimento das autodenominadas Repúblicas Populares de Luhansk e Donetsk, que forneceu o pretexto inicial para enviar tanques através da fronteira. Na sexta-feira passada, quarenta dos seus cinquenta e sete deputados votaram a favor da “lei dos quinze anos” que impõe longas penas de prisão para “notícias falsas”; nenhum votou contra, embora oito se abstivessem apesar de estarem presentes no parlamento .

As razões para essas abstenções permanecem obscuras – e, de qualquer forma, dificilmente inspiram sinais de rebelião. No entanto, como a única coisa que se aproxima de um partido de massa, o KPRF, em alguma medida limitada, reflete – e canaliza – as pressões na sociedade em geral. Seu papel como um dos poucos repositórios tolerados de dissidência também explica em parte sua alta votação nas eleições de setembro, nas quais foram atribuídos 19% nos resultados oficiais. Essa também é uma força curiosamente composta: o controle central às vezes fraco sobre as organizações locais permitiu que até mesmo social-democratas e trotskistas se apresentassem como candidatos do KPRF, e partes de sua base estão envolvidas em qualquer coisa, desde greves a protestos anti-vaxx. V. me diz que isso se reflete em diferentes posições em relação à guerra:

Minha fonte no KPRF diz que os membros estão divididos em 75% a favor da guerra contra 25% contra. Quanto à base social, após os últimos dois anos em que as pessoas que não estão satisfeitas com o regime votaram cada vez mais no KPRF (principalmente por razões pragmáticas), acho que seria seguro dizer que há um grande número de pessoas que são contra a guerra.

O KPRF está constantemente sob pressão do Kremlin para defender a linha oficial. Mas outro membro do Movimento Socialista Russo, O., me diz que algumas figuras do KPRF denunciaram abertamente a guerra, incluindo Mikhail Matveev, Oleg Smolin e Vyacheslav Markhaev – três parlamentares do KPRF que anteriormente apoiaram a moção inicial para reconhecer a Repúblicas separatistas de Donbas:

O Kremlin colocou o Partido Comunista em uma situação muito difícil – ou, para ser mais exato, muito simples –: ou resistir ao governo de Putin ou desaparecer da vida política para sempre. ... Matveev, Smolin e um dos mais brilhantes jovens líderes do Partido Comunista, Yevgeny Stupin, se opuseram abertamente à guerra. Stupin, junto com o Movimento Socialista Russo, organizou uma reunião da Esquerda Russa, onde uma resolução antiguerra foi adotada e uma coalizão antiguerra de esquerdistas independentes e democráticos russos foi organizada.

Alguns legisladores de nível local, em alguns casos figuras não partidárias eleitas nas listas do KPRF, adotaram posições semelhantes, assim como o comitê da organização juvenil do KPRF em Moscou. Ao justificar o voto inicial em reconhecimento às repúblicas de Donbas, denunciou a “guerra fratricida”, impulsionada pelas “ambições geopolíticas doentias de Vladimir Putin” e fornecendo apenas uma “fonte de renda para as elites dominantes”. Por outro lado, o líder da KPRF, Gennady Zyuganov, submeteu-se humildemente à guerra do governo Putin para “descomunizar” a Ucrânia. O. aponta os prováveis ​​efeitos sombrios desse alinhamento, e não apenas para o próprio KPRF:

Muitos esquerdistas na Rússia nunca deixaram de dizer que a morte do Partido Comunista permitirá que o movimento de esquerda “real” floresça. Devemos admitir definitivamente que este não é o caso. Se o KPRF renunciasse covardemente às suas posições hoje, poderia enterrar o movimento esquerdista e o legado esquerdista como um todo sob seus próprios escombros. Não para sempre, é claro, mas por um tempo. Portanto, os membros do KPRF devem tentar por todos os meios mudar a situação no partido, iniciar discussões internas, convencer os camaradas de que a situação é crítica: liberdade ou morte.

Algumas declarações de dissidentes da KPRF notaram que tal postura antiguerra estava de fato na origem dos partidos comunistas da Europa. Até agora, não há notícias específicas de que os dissidentes dentro do KPRF e seu grupo parlamentar tenham sido expulsos de suas fileiras. Dito isso, a ameaça iminente da lei marcial (apesar das negações atuais) e a pressão do Kremlin para erradicar todas as expressões de dissidência parecem provavelmente forçar a situação a um ponto crítico.

Por enquanto, seria precipitado prever que os russos comuns desempenharão um papel decisivo no fim desta guerra. Evidências anedóticas de soldados surpreendidos pela dura resistência ucraniana, ou de oficiais bielorrussos alertando que suas tropas se revoltariam se fossem chamadas para o combate, são provavelmente a principal razão para esperar que a pressão vinda de baixo possa dificultar a continuação da guerra. O que se pode dizer é que aqueles que pedem o fim do derramamento de sangue oferecem à sociedade russa uma saída da escuridão – um pequeno farol de luz, brilhando em direção a uma Rússia diferente desta.

Sobre o autor

David Broder is Jacobin's Europe editor and a historian of French and Italian communism.

O problema da Rússia

Marco D'Eramo



Por uma vez mais, nos encontramos compartilhando os desejos mal escondidos do Pentágono, da Casa Branca e de todo o establishment ocidental: se apenas um bom grupo de boiardos pudesse se unir em uma trama à moda antiga para derrubar Putin e pôr fim a uma guerra cujos objetivos permanecem difícil de compreender. Por boiardos quero dizer os altos escalões das forças armadas ou oligarcas bilionários e seus contatos nos serviços de inteligência e segurança; toda uma classe de potentados que parecem cada vez mais desconfortáveis ​​com o aventureirismo de seu líder. No entanto, mesmo que Putin caísse e sua aventura na Ucrânia fosse interrompida, um enorme dilema persistiria: o problema da Rússia. Isso é algo que o Ocidente não enfrenta desde o colapso da União Soviética. Simplificando, que lugar a Rússia deveria ocupar em uma ordem mundial mais ou menos estável? Dadas as vicissitudes do passado, os pequenos e médios estados vizinhos da Rússia – da Lituânia à Polônia e outros ex-satélites soviéticos – podem esperar que ela desapareça do mapa geopolítico. Mas isso não é possível.

Uma solução alternativa foi apresentada por Zbigniew Brzezinski quando ele sugeriu transformar a Rússia em um buquê variado de territórios, mesmo defendendo o desmembramento da Sibéria: "Uma Rússia frouxamente confederada –- composta por uma Rússia européia, uma república siberiana e uma república do Extremo Oriente - acharia mais fácil cultivar relações econômicas mais estreitas com seus vizinhos." Esta solução era no mínimo problemática devido à presença da China. Basta uma olhada no mapa: a China, um país superpovoado de 1,4 bilhão de habitantes, com terras cultiváveis ​​em alto nível de desertificação, faz fronteira com a Sibéria ao norte, uma extensão interminável de 13 milhões de quilômetros quadrados, que abriga uma população de apenas 35 milhões, possuindo imensas reservas minerais e terras que poderiam se tornar férteis com o degelo do permafrost. A pressão demográfica por si só sugere o movimento futuro das massas humanas. Para a superpotência emergente, uma Sibéria enfraquecida e isolada não seria mais do que um bocado irresistível a ser devorado - um resultado que os Estados Unidos achariam difícil de digerir.

De qualquer forma, mesmo que amputada, uma Rússia européia continuaria sendo o maior estado deste lado dos Urais. Em suma, nosso problema insuperável sobrevive: a Rússia é simplesmente grande demais para se tornar mais um vassalo americano, mas fraca demais para ser uma potência mundial. Não esqueçamos que o PIB da Rússia (US$ 1,49 trilhão) é inferior ao da Itália (US$ 1,89 trilhão) e apenas um pouco maior que o da Espanha (US$ 1,28). Em comparação, o PIB da Alemanha é de US$ 3,8 trilhões, o do Japão é US$ 5,1 trilhões, o da China é US$ 14,7 trilhões e o dos EUA é US$ 20,9 trilhões. Como Joseph Brodsky escreveu em 1976, “juntamente com todos os complexos de uma nação superior, a Rússia tem o grande complexo de inferioridade de um pequeno país”.

Enquanto os Estados Unidos não conseguiram reconhecer o problema da Rússia em 1991, quando saiu vitorioso da Guerra Fria, um dilema semelhante com o Japão foi engenhosamente resolvido depois de 1945, quando o inimigo foi integrado à nova ordem mundial. Claro, o Japão foi lavished com duas bombas atômicas para inculcar uma lição indelével - enquanto, apesar de tudo, isso não era possível com a URSS. Na década de 1990, os EUA vitoriosos nunca encontraram um lugar para a Rússia pós-soviética. Agora todos culpam o passado. Em retrospecto, alguns estão dispostos a admitir que a expansão da OTAN (e da UE) para o leste foi excessivamente precipitada; até mesmo um liberal da Guerra Fria como Thomas Friedman escreveu que os Estados Unidos e a OTAN dificilmente são “espectadores inocentes” na crise da Ucrânia.

Observar isso pode parecer um exercício fútil de rememoração histórica. Mas é útil, nesses casos, repensar nossa relação com o passado. Os massacres, feridas e cicatrizes da Partição poderiam ter sido aliviados (e a ascensão de Narendra Modi interrompida) se a estrutura empregada pelos britânicos para dividir a Índia com base na religião tivesse sido questionada criticamente? (Vale lembrar que a primeira partição ocorreu não em 1947, mas 42 anos antes, em 1905, dividindo a maioria muçulmana de Bengala Oriental do oeste hindu). Da mesma forma, dado o estado de instabilidade e guerra endêmica que já dura um século no Oriente Médio, também podemos precisar reexaminar as fronteiras arbitrariamente traçadas e abstraídas das realidades da geografia humana por um funcionário britânico e francês – Mark Sykes e François-Georges Picot - em sua partilha do moribundo Império Otomano em 1916.

Que recordar o passado não é uma tarefa ociosa é demonstrado, a contrario, pelo fato de que, ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos permaneceram cautelosos com uma segunda Versalhes, na qual os vencedores da Primeira Guerra Mundial impuseram reparações tão opressivas sobre a Alemanha que a paz resultou em uma inflação descontrolada e um nacionalismo revanchista que encontraria sua expressão no nazismo. Depois de 1945, os EUA nunca pediram à Alemanha nem um centavo, mas financiaram sua reconstrução. Tampouco seria negligente lembrar, diante das ruínas das Torres Gêmeas em setembro de 2001, que foram os EUA que inicialmente patrocinaram e apoiaram Osama bin Laden.

Aqui, porém, o que precisamos não é necessariamente um exame do passado, mas uma análise do fracasso que persiste diante de nossos olhos. Essa falha consiste na incapacidade de construir uma entidade russa que possa ter um lugar – uma função, uma voz – na ordem global pós-Guerra Fria,
e a incapacidade da principal potência capitalista de garantir a transição estável da Rússia de uma economia estatista para uma economia estruturada de mercado. Um punhado de comentaristas ingênuos viu no gangsterismo russo da década de 1990 uma reprise da era do “barão ladrão” americano do final do século XIX. Mas, no caso anterior, os magnatas reinvestiram seus lucros nos Estados Unidos, financiando suas universidades e bibliotecas, enquanto tudo o que os oligarcas russos fizeram foi exportar seu capital e ativos para o exterior enquanto empobreciam sua pátria. Ao criar uma sociedade de gângsteres, os EUA estavam pedindo implicitamente que a Rússia fosse governada por um policial ou um espião. Com Putin, eles conseguiram os dois.

A responsabilidade, no entanto, não é apenas dos EUA: a Europa também não foi uma espectadora inocente. Os Estados Unidos podem ter falhado em reconfigurar seu império para acomodar a Rússia, mas só lutaram com esse problema nos últimos trinta anos. A Europa tem hesitado em relação à Rússia há três séculos. Por vezes foi convidada para os fóruns das grandes potências europeias - o Congresso de Viena em 1815, por exemplo - mas por outro lado viu-se relegada para a Ásia (especialmente pelas considerações do seu chamado "despotismo oriental", o título de famosa obra de Karl Wittfogel). Como observam Alexei Miller e Fyodor Lukyanov, “por mais de três séculos a Rússia foi representada no discurso europeu de duas maneiras”. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a propaganda anticomunista italiana conjurou incessantemente os cossacos dando água aos seus cavalos nas fontes da Praça de São Pedro (note que os cossacos sempre foram identificados com a Ucrânia, desde Pugachev e Taras Bulba de Gogol). Hoje a imagem de “bárbaros no portão” é tão atual como sempre. No entanto, o segundo papel comumente atribuído à Rússia é mais interessante. Para Miller e Lukyanov, é

a de um “eterno aprendiz”. Na Europa medieval, o aprendiz dependia inteiramente do mestre artesão, responsável por sua instrução. Alguns eram autorizados a criar e apresentar sua própria obra-prima para toda a guilda julgar seus méritos e se tornar um membro da guilda em caso de aprovação. No caso da Rússia, o discurso europeu invariavelmente insistia que “o aprendiz ainda não é bom o suficiente”. O papel de eterno aprendiz era (e ainda é) uma armadilha, onde a Europa invariavelmente se posiciona como instrutora e muda constantemente os critérios de avaliação, perpetuando assim o papel de aprendiz da Rússia.

Essa atitude - a de um professor reprovando constantemente a Rússia em seus exames - é evidente nas dúvidas alemãs sobre se sua Ostpolitik é uma normalização de laços ou, inversamente, o primeiro passo para um novo Drang nach Osten. Talvez a Europa também devesse ter descoberto há muito tempo a relação entre a União e o seu incômodo vizinho.

Claro, a Rússia também é um problema para os russos, que é alimentado pela própria Rússia. Basta comparar as reações russas e chinesas à supremacia americana. Durante trinta anos, a China exerceu contenção política (desde 1980, quando Deng Xiaoping lançou seu programa de reformas, até a ascensão de Xi Jinping em 2012) ao se concentrar em expandir sua economia, desenvolvendo novas capacidades industriais e tecnológicas. Só então começou a levantar a cabeça. Essa estratégia também lhe permitiu fazer incursões no campo do soft power (construindo infraestrutura para o Terceiro Mundo, por exemplo, e estabelecendo laços comerciais extremamente robustos com a África e a América Latina). Os gastos militares foram, portanto, sancionados por um aumento do PIB, e o investimento pôde se concentrar em tecnologia de ponta. A Rússia, por outro lado, concentrou todos os seus recursos no setor de defesa e permaneceu exportadora de matérias-primas em quase todos os outros. O PIB per capita da China e da Rússia é praticamente o mesmo, cerca de US$ 10.000 por ano, mas a diferença tecnológica e de infraestrutura entre os dois é abissal.

Do ponto de vista da eficiência, não há competição entre o capitalismo estatal chinês e russo. As causas disso talvez sejam mais bem explicadas pela longue durée: as virtudes da tradição confucionista na primeira, em oposição à busca intencional de quadros incompetentes na segunda (sob Brezhnev, os funcionários eram valorizados por seus defeitos: sua passividade, falta de iniciativa, vontade de agir como "homens do sim, senhor"). Outro fator foi a enorme fuga de cérebros após o colapso da URSS, que desencadeou talvez o maior êxodo de cientistas da história, reminiscente da Alemanha durante a década de 1930. O resultado, até agora, foi o surgimento de um grupo dominante que nunca constituiu uma classe dominante.

Por trás de cada uma dessas causas está outro problema não resolvido, o do excepcionalismo russo. Normalmente, quando o excepcionalismo é invocado, é em referência aos Estados Unidos, o “farol da esperança”, uma “cidade sobre uma colina” com um “destino manifesto”. De fato, todo Estado que luta pela hegemonia se considera excepcional. (Teremos que voltar a esse afeto. No que diz respeito ao indivíduo, dado que a vida de cada um é única, e dado que quando a própria vida termina todas as outras terminam com ela, é natural que cada um de nós viva a sua a vida como exceção; é igualmente óbvio que esse excepcionalismo se estende, por exemplo, à própria cidade: não consigo pensar em uma cidade no mundo, por mais feia ou podre, cujos cidadãos não se sintam privilegiados por terem nascido nela, ou glorificam liricamente a poética da aglomeração urbana em que vivem. O sentimento então cresce para abranger toda uma região ou país de nascimento. Cada pátria é "o país mais bonito do mundo". No final, os cidadãos se tornam vítimas da mitologia de sua cidade, como membros de um estado tornam-se vítimas de seu mito nacional.)

O fato é que os franceses, ingleses e alemães são, a seu modo, portadores sadios do excepcionalismo nacional (aqui me refiro a portadores sadios no mesmo sentido que portadores sadios do HIV). Mesmo os chineses, que começam a dominar a arena mundial, construíram uma narrativa única de excepcionalismo (que analisei anteriormente nestas páginas). O excepcionalismo russo também tem uma história própria. Com boa - ou mais frequentemente má - razão, cada nação monopolizou uma qualidade específica do espírito humano: os Estados Unidos se apropriaram dos sonhos (“o sonho americano”); os britânicos, humor; França, refinamento (l’esprit de finesse); Alemanha, ordem (“disciplina alemã”); Itália, criatividade; Espanha, orgulho...

Mas apenas os russos se empenharam em reivindicar a totalidade desse espírito; a “alma russa” (Russkaia dusha), quer dizer. Dostoiévski era seu porta-estandarte (“a alma russa encarna a ideia de unidade pan-humanista, vsechelovecheskogo uedineniia, de amor fraterno”). Em seu discurso de Pushkin (1880), ele perde completamente:

Tornar-se um verdadeiro russo, tornar-se totalmente russo (e você deve se lembrar disso), significa apenas tornar-se o irmão de todos os homens, tornar-se, se você quiser, um homem universal. (...) Acredito que nós - não nós, é claro, mas nossos futuros filhos - todos, sem exceção, entenderemos que ser um verdadeiro russo significa, de fato, aspirar finalmente a reconciliar as contradições da Europa, a encontrar uma solução para o anseio europeu em nossa alma russa pan-humana e unificadora, para incluir em nossa alma pelo amor fraterno todos os nossos irmãos. Enfim, pode ser que a Rússia pronuncie a palavra final da grande harmonia geral, da comunhão fraterna final de todas as nações de acordo com a lei do evangelho de Cristo!

Diga isso aos ucranianos atualmente sob bombardeio russo.

A verdade é que nenhum dos grandes escritores russos do século XIX escapou ao toque de clarim da alma russa. Mesmo o eurófilo Turgenev (que passou a maior parte de sua vida no exterior) fez o personagem mais simpático em seu romance Rudin (1857) exclamar: "A Rússia pode prescindir de cada um de nós, mas nenhum de nós pode prescindir dela. Infortúnio para aqueles que pensam o contrário, e novamente infortúnio para aqueles que vivem fora da Rússia... fora do temperamento nacional não há arte, não há verdade, não há vida... nada!"

A ironia de Russkaia dusha reside no fato de que o conceito de “um povo” como um indivíduo, com sua própria personalidade, é um alemão importado de Herder, e a ideia de uma alma coletiva e universal é retirada literalmente de Schelling. A unidade russa é expressa em um conceito alemão! A inovação russa foi acrescentar um adjetivo que até então não havia sido imposto a nenhuma outra nação - a Santa Rússia (comparável apenas ao povo escolhido de Israel). A alma russa posteriormente tornou-se uma moda européia, difundida pelo amor por Dostoiévski, pelo menos até a década de 1930, quando DH Lawrence olhou com desgosto para "these self-divided gamin-religious Russians who are so absorbedly concerned with their own dirty linen and their own piebald souls we have had a little more than enough". Hoje, a "Santa Mãe Rússia" ressurgiu.

O caráter reacionário dessas concepções não pode ser suficientemente enfatizado. Um dos efeitos de longo prazo mais sinistros desta guerra é que ela legitima - através da destruição magnânima oferecida pela santa alma russa - o recrudescimento do nacionalismo na Europa, como se a história deste continente precisasse de mais nacionalismos.

Pensar que o primeiro grande escritor a evocar a dusha Russkaia foi Gogol, um ucraniano. Ao contrário do que pensava Herder, uma comunidade etnolinguística não implica de forma alguma pertencer a um único estado, ou a um único povo. Os suíços de língua alemã não querem nada menos do que se tornar alemães, como a grande maioria dos austríacos. O melhor exemplo disso é a América Latina de língua espanhola, onde nações que compartilham uma língua e uma cultura comum frequentemente travam guerras umas com as outras. O melhor romance ucraniano pós-soviético que li, A Morte e o Pinguim (2001), foi escrito em russo por Andrei Kurkov, que por acaso é um forte defensor da independência ucraniana.

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