3 de janeiro de 2023

O mercado e o local de trabalho em um socialismo democrático

A empresa democrática está no centro de muitos modelos de socialismo de mercado. No entanto, a promoção da democracia dentro da empresa exige ajustes institucionais muito específicos fora dela, pois sua estrutura interna pode entrar em conflito com outros objetivos do socialismo de mercado, como uma taxa de crescimento desejável e a igualdade econômica entre os trabalhadores. Este artigo apresenta um modelo que busca conciliar a democracia no nível da empresa com o crescimento macroeconômico e uma política salarial solidária.

Vol 6 No 3 Fall 2022

Em uma sociedade socialista, os trabalhadores deveriam ter controle democrático sobre seus próprios locais de trabalho? Para muitos socialistas, a resposta é óbvia: claro, quase por definição. Mas entre os economistas que desenvolveram propostas sobre como um sistema socialista poderia funcionar, a resposta é muito mais controversa. Alguns dos modelos mais conhecidos não envolvem locais de trabalho democráticos.

A democracia no local de trabalho não é uma característica de uma visão importante publicada na Catalyst, a “economia do compartilhamento” de John Roemer, embora os trabalhadores compartilhem os lucros da empresa. Em sua proposta seminal anterior, A Future for Socialism (Um Futuro para o Socialismo), Roemer rejeitou explicitamente a gestão pelos trabalhadores, ao menos como parte do “primeiro passo” do socialismo, e possivelmente até mesmo como parte de uma visão ideal. Isso está em linha com o famoso modelo socialista neoclássico de Oskar Lange, que também inclui mercados de trabalho e relações de emprego convencionais.

A democracia no local de trabalho não é um módulo que pode ser encaixado em um modelo socialista sem afetar o restante do sistema. Ela está entrelaçada com questões de financiamento e mobilidade da mão de obra. Ela traz desafios relacionados ao risco, à distribuição de renda e à eficiência. A atividade em qualquer local de trabalho precisa ser coordenada dentro da divisão mais ampla do trabalho em toda a economia. A posição agnóstica de Roemer é compreensível:

Minha preferência pelas propostas gerenciais baseia-se no conservadorismo, ou seja, que é melhor mudar os elementos um de cada vez, se possível. A metáfora biológica é apropriada: um organismo com uma mutação tem mais chances de sobreviver do que um no qual ocorrem duas mutações simultaneamente. Acho mais importante mudar a natureza privada do financiamento das empresas do que a estrutura de gestão como primeiro passo.

Para muitos de nós, no entanto, a democracia no local de trabalho não deve ser abandonada com facilidade. Ela é central para outra proposta de “Socialismo para Realistas” publicada na Catalyst, de Sam Gindin. Gindin apresenta um modelo atraente, e o presente ensaio está amplamente alinhado com suas sugestões. Mas ele não responde ali aos problemas identificados pelos céticos da democracia no local de trabalho — sejam eles simpáticos ou não à ideia.

Esses problemas são reais. Sua raiz está no fato de que os padrões de vida modernos dependem de uma divisão do trabalho vasta e complexa, na qual o local de trabalho individual é um pequeno nó. Esses nós precisam ser coordenados para atender às necessidades sociais de forma eficiente, mas se cada local de trabalho deve participar desse processo, qual é o espaço para a tomada de decisões democráticas locais? Qualquer sistema precisa impor limites às escolhas feitas dentro do local de trabalho e estruturar essas escolhas com incentivos para alinhar os interesses locais às necessidades sociais mais amplas. Isso é mais fácil dizer do que fazer. Os críticos apontaram, com razão, falhas sérias em alguns dos modelos padrão, e isso convenceu muitos de que a gestão pelos trabalhadores é simplesmente inviável.

O objetivo deste ensaio é encarar esses problemas de frente e sugerir um conjunto de instituições que possa lidar com eles de maneira plausível — um modelo que, espera-se, seja atraente, atendendo às aspirações socialistas por igualdade, democracia, sustentabilidade, cuidado e liberdade pessoal. Os problemas não podem ser resolvidos apenas no nível do local de trabalho — eles são problemas sistêmicos e, portanto, exigem que todo o sistema seja construído em torno deles. Em particular, a democracia no local de trabalho tem implicações fundamentais para o financiamento, o mercado de trabalho e a relação entre o setor público e o setor de empresas democráticas produtoras de mercadorias. Este ensaio, portanto, dedica bastante espaço à arquitetura sistêmica mais ampla antes de se concentrar na empresa democrática propriamente dita.

O sistema proposto inclui um amplo setor de mercado composto por empresas produtoras de mercadorias, assim como nos modelos de Gindin e Roemer, além de outras propostas socialistas importantes das últimas décadas. Como argumentou Gindin, planejamento e mercados não são opostos: a rede de preços e incentivos que emerge da atividade de mercado e a organiza é uma fonte vital de informação e de ferramentas para os planejadores. Mas, ao aceitar um papel substancial para os mercados, os socialistas precisam resolver suas tensões com o igualitarismo e a democracia. As propostas de Roemer se concentram no lado igualitário e reservam a democracia ao Estado, e por isso têm um conjunto mais limitado de tensões a resolver.

A próxima seção discute a relação entrelaçada entre o setor privado produtor de mercadorias e o setor público não mercantilizado. Também explica as formas pelas quais um governo democrático pode se envolver com planejamento e formulação de políticas de forma eficaz no e por meio do setor de mercado. Além dos órgãos públicos e instrumentos de política já conhecidos do capitalismo, o Estado terá dois importantes pontos de intervenção: um sistema bancário público e uma junta trabalhista responsável por definir salários e condições de referência.

A eficiência às vezes é vista como um objetivo conservador, mas significa simplesmente evitar o desperdício de recursos — inclusive do tempo e do esforço das pessoas. Não implica necessariamente a busca pelo máximo de produção. Há muitas possibilidades de expandir a ação pública de novas maneiras, bem como de facilitar novos tipos de provisão comunitária. Mas minha atenção, no restante do ensaio, está nos problemas específicos de conciliar eficiência e democracia na produção socialista de mercadorias. A eficiência é fundamental também para maximizar o lazer e minimizar os impactos ambientais para um determinado nível de produção. O desperdício e a alocação incorreta de recursos desempenharam um papel importante nos problemas do socialismo estatal do século XX, e a sustentabilidade social de qualquer socialismo futuro depende de um grau razoável de eficiência.

Explico os principais problemas levantados por economistas em relação às empresas coletivas: os chamados problemas do horizonte e da propriedade comum, além de problemas correlatos de gestão de riscos, que podem impedir que empresas democráticas invistam e empreguem seus membros de forma eficiente para atender às necessidades sociais. Em resposta, proponho tratar o investimento como uma parceria entre bancos públicos e empresas democráticas, permitindo decisões de investimento sistemicamente racionais e uma distribuição apropriada de riscos e retornos.

Há mérito na cautela de Roemer ao apresentar um socialismo mínimo viável. Mas também há valor em propostas que avançam mais na direção da utopia, sem serem de fato utópicas ao ignorar problemas previsíveis. Ao enfrentar um conjunto ampliado de problemas, essas propostas aumentam a plausibilidade de uma alternativa socialista atraente e viável. Nunca poderemos saber, é claro, se antecipamos corretamente todos os problemas que um programa real enfrentaria — sempre haverá os “desconhecidos desconhecidos.” Mas, ao dar ao menos respostas possíveis aos “desconhecidos conhecidos”, tornamos uma alternativa socialista atraente mais crível. O objetivo de esboçar modelos, como enfatiza Gindin, não é escrever receitas para as cozinhas do futuro — nada os obrigará a usar nossas receitas se elas já não servirem ao paladar ou aos problemas da época. É convencer as pessoas no presente de que existem receitas viáveis que tornam o socialismo um objetivo que vale a pena perseguir.

A estrutura da economia

O sistema econômico proposto, como o capitalismo, é misto. “Privado” e “público” talvez não sejam os termos mais adequados aqui, já que estão ainda mais entrelaçados no socialismo do que já estão no capitalismo, mas são termos convenientes. A divisão é entre um setor “privado” produtor de mercadorias, no qual os custos são cobertos pelas vendas no mercado, e um setor “público” não mercantilizado, que opera com fundos alocados publicamente. O setor não mercantilizado inclui a burocracia governamental e agências públicas sob controle central, mas também pode incluir uma variedade de agências comunitárias com considerável autonomia — embora ainda financiadas pelo erário público.

Uma empresa no setor produtor de mercadorias é democrática de duas formas. Primeiro, como colocaram Sam Bowles e Herbert Gintis, “a estrutura de gestão e administração é escolhida pela força de trabalho da empresa por meio de um processo político democrático.” Segundo, cada trabalhador recebe uma parte da renda residual da empresa. Elas são empresas no sentido de que são entidades autônomas produtoras de mercadorias que devem cobrir seus custos com receitas e cumprir suas obrigações contratuais de pagamento.

Uma variedade de constituições empresariais é possível, mas o padrão para uma empresa de médio a grande porte envolveria uma democracia representativa, com diretores eleitos nomeando e supervisionando administradores responsáveis pela gestão cotidiana. Isso pode ser complementado por comitês e referendos conforme necessário, mas a administração de rotina é melhor conduzida por trabalhadores profissionais especializados com conhecimento em contabilidade, logística etc. A democracia cumpre sua função ao garantir que os administradores sejam, em última instância, responsáveis perante seus colegas, e que as condições de trabalho e as grandes questões estratégicas tenham aprovação ampla.

A viabilidade financeira impõe limites à empresa democrática, assim como à empresa capitalista. A necessidade de cobrir custos e cumprir obrigações de fluxo de caixa, enquanto compete com outras empresas, é o que vincula a empresa à divisão mais ampla do trabalho na economia. Isso garante que os recursos sociais sejam usados de forma razoavelmente eficiente para atender às necessidades e desejos das pessoas. Como as empresas capitalistas, as empresas democráticas obtêm receita com a venda de seus produtos e pagam pelos insumos usados na produção. Elas exigem investimento: alguns insumos precisam ser pagos muito antes da receita que cobrirá esses custos ser recebida. Esse investimento deve ser financiado de alguma forma. Como nas empresas capitalistas, suas receitas e custos futuros são incertos até certo ponto. A demanda de mercado e os preços mudam com o tempo. Elas precisam tomar decisões de investimento e produção diante da incerteza e, portanto, enfrentam riscos financeiros.

Mas, de forma fundamental, as empresas democráticas são muito diferentes das capitalistas. As empresas capitalistas são controladas, em última instância, por seus proprietários, que também são os beneficiários da renda residual — ou seja, têm direito ao que sobra dos ganhos depois de pagos os fornecedores, trabalhadores e credores. As empresas geridas por trabalhadores, por outro lado, são controladas por seus próprios trabalhadores, que também são os beneficiários da renda residual.

Pode parecer que essa seria uma mudança simples: a propriedade, e tudo o que vem com ela, é transferida de um grupo para outro. Mas há diferenças fundamentais entre esses grupos e sua relação com a empresa que dão origem a efeitos colaterais importantes. Essas diferenças trazem sérios problemas que qualquer sistema viável de empresa democrática precisa resolver. Antes de abordar esses problemas, explicarei por que um sistema socialista envolveria mercados e produção de mercadorias, e discutirei a configuração geral do modelo proposto, incluindo o papel do setor público não mercantilizado e os mecanismos por meio dos quais o planejamento estatal democrático e as políticas públicas atuarão dentro do setor mercantilizado.

Por que mercados?

A ideia de um "setor privado" socialista pode parecer um paradoxo, mas difere da empresa privada capitalista em três aspectos principais: (1) a renda e a riqueza pessoal são distribuídas de forma muito mais equitativa, (2) as participações financeiras nas empresas são indiretas, por meio de um sistema bancário público, e (3) as empresas são geridas democraticamente por seus trabalhadores. Parte da crítica tradicional socialista aos mercados vem da associação deles com as grandes desigualdades do capitalismo. Se a renda é distribuída de forma desigual, os mercados dão a algumas pessoas muito mais controle sobre os fins do que a outras. Se as rendas são razoavelmente iguais, essa crítica deixa de ser válida — “um dólar, um voto” torna-se mais democrático. Outra preocupação é que a lógica de mercado leve as empresas socialistas a simplesmente reproduzirem a alienação do capitalismo, com a competição forçando uma contenção de custos que resulte em autoexploração. Por isso, a democracia no local de trabalho é tão importante, para garantir que as pessoas possam expressar suas preferências sobre o ritmo e as condições de trabalho. Além disso, no sistema proposto, as empresas teriam que atender a padrões robustos de salários e condições definidos centralmente, canalizando a competição para longe do “caminho baixo” de uma corrida para o fundo com salários baixos, alta intensidade de trabalho ou ambos.

A disciplina externa não é algo imposto apenas pelos mercados. Em qualquer divisão do trabalho, deve haver limites para a autogestão de cada unidade individual, pois todas são interdependentes. Os trabalhadores produzem para os outros — seja diretamente, com bens e serviços de consumo, seja como insumos para outros processos produtivos. Uma economia planejada centralmente também enfrenta o problema subjacente da interdependência e precisaria de outra forma de conciliar as operações das incontáveis unidades produtivas entre si e com os desejos das pessoas enquanto consumidoras. Restrições precisariam ser colocadas sobre como qualquer local de trabalho pode se organizar — e com razão, já que os trabalhadores estão usando parte do patrimônio social em seu trabalho e farão reivindicações sobre a produção em outros lugares para seu próprio consumo. A proposta aqui apresentada oferece vários espaços para administrar essas restrições de forma aberta e democrática — tanto no nível das empresas quanto em níveis mais centrais — em vez de ignorá-las. As “restrições orçamentárias suaves” identificadas por János Kornai como uma fraqueza crítica das economias planejadas envolviam uma incapacidade de lidar de forma consistente com a reconciliação entre as preferências dos gerentes das unidades de trabalho e a divisão mais ampla do trabalho.

A precificação de mercado e a produção de mercadorias não são algo que os socialistas devem aceitar a contragosto por causa das falhas do planejamento. Em seu devido lugar, e num contexto de rendas igualitárias e democracia no trabalho, elas são, de fato, um bom veículo para o planejamento democrático.

Não é fácil pensar em uma forma melhor para as pessoas sinalizarem o que deve ser produzido do que os mercados de consumo reais. Temos uma renda monetária, enfrentamos um conjunto de preços oferecidos pelos vendedores e escolhemos como dividir nosso gasto entre todas as opções disponíveis. Se queremos escolher o que consumir, os trade-offs inerentes ao uso de recursos escassos devem nos ser apresentados de alguma forma — portanto, haverá alguma forma de preço relativo e orçamento. Não se trata apenas de o planejamento ser incômodo para captar nossas escolhas de outra maneira, mas do fato de que nem mesmo sabemos responder a perguntas como: quantos cafés estamos dispostos a abrir mão para ter mais gasolina no próximo ano? Isso ocorre porque nossa demanda por qualquer produto está ligada à nossa demanda por outros. A quantidade de café que as pessoas escolheriam consumir depende não apenas do seu próprio preço, mas também de muitos outros — como substitutos (chá, Red Bull), complementares (cigarros, bolo) e até itens aparentemente não relacionados (gasolina, aluguel), pois tudo precisa ser pago com o mesmo orçamento.

Por causa dessas conexões, bastam poucos produtos para tornar a escolha do consumidor um problema extremamente complexo para um planejador. E não é o tipo de problema que pode ser resolvido apenas com poder computacional. Isso porque a informação necessária para resolvê-lo é sobre o que os indivíduos escolheriam diante de várias configurações possíveis de trade-offs ou preços. E nem mesmo nós, consumidores, temos essas informações de forma clara para alimentar em um computador.

Vemos a dificuldade disso nos modelos teóricos de escolha do consumidor, que presumem que cada pessoa possui um conjunto completo de preferências — ou seja, um ranking de todas as combinações possíveis de produtos de consumo, do mais ao menos desejado. Com esses dados, poderíamos, em teoria, descobrir quais trade-offs cada um faria em qualquer configuração de preços e rendas: não só o impacto da mudança no preço do café sobre o consumo de café e energéticos, mas também sobre a demanda por jeans, por exemplo. Mas uma coisa é afirmar que cada pessoa faz escolhas, na prática, com base em sua situação de preços e renda. Outra, completamente diferente, é pensar que essa pessoa poderia explicitar e comunicar antecipadamente esse ranking a um planejador para todas as estruturas possíveis de preços futuras. Mesmo reduzindo drasticamente as possibilidades para combinações típicas do passado, ainda falaríamos de um número assombroso de cenários.

No mundo real, com nossas rendas monetárias e lojas reais, não precisamos pensar dessa forma. Os mercados de consumo reais usam apenas uma gama limitada de informações sobre preferências: o que as pessoas compram, a que preços e com que rendas. Não requerem centralização dessas informações — os preços dos inúmeros produtos são definidos pelos produtores com base em suas condições específicas de produção. O conjunto de preços que emerge apresenta uma gama completa de opções às pessoas, permitindo que decidam como alocar seus orçamentos. Na prática, compramos com alguma mistura de hábito, planejamento e impulso. Nem sempre ponderamos todos os trade-offs conscientemente. Mas como o ciclo de renda e gasto se repete, temos várias oportunidades para ajustar nossas escolhas, seja de forma deliberada ou intuitiva. Independentemente de nossas escolhas serem mais deliberadas, habituais ou impulsivas, elas são escolhas, e de algum modo refletem os trade-offs estabelecidos por preços e rendas. Por isso, mesmo os modelos de economias planejadas geralmente admitem mercados para bens e serviços de consumo.

Contudo, a complexidade se estende por toda a teia produtiva. O desafio original dos economistas austríacos ao planejamento socialista era que, sem preços, não haveria forma racional de escolher entre as inúmeras "receitas" para transformar os recursos de uma sociedade em bens e serviços de consumo. Como os recursos são limitados, produzir uma coisa sempre significa deixar de produzir outra. Ao rastrear as consequências das escolhas de consumo até os insumos necessários para produzi-las — e os insumos desses insumos — a complexidade cresce exponencialmente.

Para ilustrar, pensemos nas decisões que um planejador teria que tomar em algo aparentemente simples como o cimento — um bem intermediário básico. Produzi-lo requer insumos que poderiam ser usados para outras coisas, e há várias técnicas possíveis com diferentes combinações de insumos. Há escolhas de materiais — calcário ou giz, argila ou xisto — extraídos de pedreiras ou subprodutos de outros processos industriais. Há também opções quanto à fonte de energia, tipos e tamanhos de fornos, além de diferentes níveis de automação, exigindo tipos e quantidades distintas de trabalho. O transporte, essencial para algo tão volumoso, levanta questões: deve ser transportado por navio, caminhão ou tubulação? Onde localizar as fábricas em relação às pedreiras, fontes de energia e locais de uso? E ainda há a grande questão: quanto cimento produzir? Ele é usado em materiais de construção, estradas, tubulações — e para cada um desses usos há substitutos (como plástico, betume), cada qual com suas próprias cadeias produtivas. Substituir cimento por betume pode liberar recursos das pedreiras, mas aumenta o consumo de energia e petróleo, e o betume precisa de mais manutenção.

Para o planejador, decidir quanto e como produzir cimento exige também decidir sobre os usos alternativos de seus insumos, seus substitutos, os substitutos dos produtos de que o cimento é insumo, os usos alternativos de todos os insumos desses produtos, e assim por diante. Com mercados de consumo que captam preferências e conhecimento sobre técnicas produtivas, planejar o restante se torna, em teoria, mais viável. Mas o planejador acaba, na prática, reinventando a economia neoclássica, como fizeram Kantorovich, Lange e Leontief.

O problema que resta é obter informações precisas das unidades produtivas reais sobre suas possibilidades de produção e alinhar seus incentivos com as necessidades sociais. Diante desse desafio, o planejador pode querer incentivar que os locais de trabalho economizem e inovem, permitindo que fiquem com parte dos ganhos. Pode permitir que as unidades de trabalho tomem iniciativa ao encontrar formas mais baratas de produzir ou novos produtos a preços viáveis. Pode até permitir que se formem novas unidades para aproveitar essas oportunidades. Nesse ponto, o planejador teria reinventado uma espécie de produção de mercado — e perceberia que ela cumpre exatamente o que ele tentava realizar. A estrutura de preços, resultado da competição entre empresas por insumos e pela venda de produtos, alocaria os recursos, mais ou menos, conforme o valor atribuído pelas escolhas das pessoas com rendas razoavelmente iguais.

O resultado não é uma coordenação perfeita. A operação dos mercados exige certa folga. Como consumidores, experimentamos uma situação em que os vendedores estabelecem preços e nos convidam a comprar o quanto quisermos a esses preços relativamente estáveis. Os preços não flutuam constantemente para equilibrar oferta e demanda a todo momento. Esse ambiente de “comprar à vontade” depende de intermediários que mantêm estoques para lidar com incertezas. Varejistas e atacadistas mantêm estoques; quedas de demanda os deixam com excesso; picos os esgotam. Produtores também mantêm estoques. Serviços não podem ser estocados, então exigem pessoal extra de plantão ou gestão de demanda via agendamento. Com o tempo, erros persistentes nas previsões podem ser corrigidos ajustando-se preços ou oferta. No curto prazo, há desperdício — produtos que não serão vendidos pelo preço esperado (acabando em liquidações ou no lixo), ou demanda não atendida. O mercado é especulativo por natureza. Os preços que pagamos incluem compensações por armazenagem, transporte, conveniência e risco. Também embutem lucros para empresas com posições de mercado vantajosas. Mas é duvidoso que o planejamento pudesse eliminar esses custos — eles apenas se manifestariam de outras formas: filas, mercado secundário de bens alocados, etc.

Naturalmente, formuladores de políticas socialistas não idolatrariam “o mercado livre”. A defesa pragmática da produção mercantil é perfeitamente compatível com o planejamento democrático. Planejadores não precisam decidir quantas escovas de dente ou cortes de cabelo fornecer. Livres da necessidade de gerir tudo, podem se concentrar em objetivos específicos como limitar emissões de carbono, incentivar investimentos em regiões mais pobres, construir moradias públicas ou redistribuir renda. A rede de preços e fluxos privados de renda facilita esse planejamento, ao permitir uma contabilidade significativa.

Escopo do setor público

É amplamente reconhecido, mesmo por não socialistas, que os mercados não são bons — e às vezes são francamente ruins — para lidar com alguns aspectos muito importantes da produção. Os mercados transmitem sinais sobre desejos e custos apenas entre as partes envolvidas em uma transação. A mercadoria ideal, seja um bem ou um serviço, é um pacote discreto de benefícios aproveitados exclusivamente pelo proprietário ou locatário, cujos custos de produção são arcados unicamente pelo produtor. Nesse caso, uma compra voluntária sinaliza que alguém considera os benefícios suficientemente valiosos para compensar o produtor por esses custos, e produtores em busca de lucro disputam recursos de acordo com essa lógica. Quando os produtos se encaixam nesse modelo de bens privados, a produção como mercadoria pode alocar recursos de forma racional.

Mas nem todos os benefícios da produção fluem para o comprador, e nem todos os custos são suportados pelo produtor. Existem externalidades positivas e negativas, chamadas assim por serem externas às partes da transação. Em alguns casos, essas externalidades rompem completamente o pacote da mercadoria, pois é difícil excluir pessoas, tenham elas pago ou não pelo produto. Segurança pública e meios de comunicação por radiodifusão são exemplos clássicos de bens não exclusivos. Há custos para produzi-los, mas é difícil impedir que qualquer pessoa usufrua deles. Em outros casos, há um produto discreto do qual os não compradores podem ser excluídos, mas que gera efeitos colaterais que beneficiam ou prejudicam terceiros. Educação e jornalismo são exemplos de externalidades positivas: pode-se excluir indivíduos de aulas e jornais caso não paguem por eles, mas todos se beneficiam de uma população educada e bem informada. Emissões de carbono e outras formas de poluição são exemplos de externalidades negativas: impõem custos às pessoas, independentemente de serem ou não consumidoras dos produtos. A produção de mercadorias fornece menos bens públicos do que o necessário e produz em excesso os “males públicos”, porque preços e transações não transmitem os sinais e incentivos corretos aos produtores voltados ao lucro.

Estados capitalistas já lidam com essas questões por meio de: (1) regulação da produção de mercadorias, (2) organização direta da produção pública não mercantilizada, (3) compra direta de mercadorias e subsídios à produção mercantil, e (4) mercantilização artificial de certos produtos. Os gastos públicos geralmente equivalem a um terço ou metade do produto interno bruto nos países capitalistas. A parcela de empregos no setor público varia, mas geralmente corresponde a um décimo a um quarto do total.

Os gastos públicos em uma sociedade socialista provavelmente estarão no limite superior dessa faixa ou além dela. Há coisas produzidas como mercadorias na sociedade capitalista que poderiam ser fornecidas de forma mais eficiente pelo setor público. Bens não rivais são aqueles que podem ser usados por uma parte sem reduzir a quantidade disponível para outros. Muitos produtos intelectuais e criativos se enquadram nessa categoria, de pesquisas farmacêuticas a músicas gravadas. O problema de tratá-los como bens gratuitos é que têm custos substanciais de produção inicial, mesmo que o custo marginal de fornecê-los a usuários adicionais seja insignificante. A solução tradicional capitalista tem sido mercantilizar esses produtos por meio da propriedade intelectual, tornando-os bens artificialmente excludentes, para que os custos iniciais possam ser recuperados com vendas. Isso suprime as vastas externalidades positivas que o uso livre poderia gerar. Uma sociedade socialista poderia colher esses ganhos financiando publicamente a pesquisa, o desenvolvimento e a criação artística, permitindo depois o uso livre dos produtos.

Há também diversos bens e serviços que poderiam ser considerados privados e, portanto, produzidos como mercadorias, mas que muitos países capitalistas organizam parcial ou totalmente pelo setor público. Saúde e educação são os principais exemplos. Ambos são serviços caros dos quais é possível excluir os não pagadores, mas as consequências da exclusão são problemáticas. Mesmo com maior igualdade de renda, é difícil ver a mercantilização como adequada. A necessidade de cuidados médicos é imprevisível e, quando surge, os custos costumam ser altos em relação à renda. O seguro privado tem sido, na prática, um rival da provisão pública para esse problema, mas os conflitos de interesse e problemas de informação tornam os modelos públicos mais eficientes e eficazes. Quanto à educação, quem toma as decisões (os pais ou o adolescente) não é quem arca com as consequências (a criança ou o adulto maduro), e há boas razões de coesão social e igualdade para se ter um sistema público de educação abrangente.

Embora os gastos públicos em uma sociedade socialista provavelmente sejam pelo menos tão altos quanto os de um regime abrangente de bem-estar social democrático, a proporção de empregos no setor público é uma questão mais aberta. Se as empresas forem controladas pelos trabalhadores, e as agências públicas envolverem um modelo de emprego mais tradicional, a preferência socialista pela provisão pública direta em vez da terceirização nem sempre será óbvia. A coleta de lixo deve ser gerida diretamente pelo Estado ou conduzida democraticamente por coletivos de trabalhadores que prestam serviços comprados pelo Estado? A resposta é diferente para creches, clínicas médicas e escolas? Questões de qualidade e padronização podem ser resolvidas por contratos rigorosos e bem especificados, combinados com monitoramento cuidadoso — mas então, os próprios monitores devem ser firmas democráticas contratadas de forma independente? Quem contrata os contratantes? Para funções públicas centrais, a organização burocrática e uma ética de serviço público são mais adequadas que o comércio — mas onde termina esse núcleo é difícil de determinar com antecedência, e essa acaba sendo uma questão para a política democrática. Diferentes sociedades poderão responder de maneiras bastante distintas.

Onde quer que essa linha seja traçada, a democracia no local de trabalho deve se limitar ao setor privado? Parece injusto excluir os trabalhadores do setor público e, se a democracia no local de trabalho for atraente, isso pode tornar o serviço público menos desejável. Mas as empresas do setor privado precisam vender suas mercadorias a clientes dispostos. Esse requisito estrutura suas decisões democráticas de maneira a evitar o desperdício de recursos sociais, e o direito ao lucro residual dá aos trabalhadores incentivos à eficiência e inovação. (Por esse motivo, a provisão pública direta é preferível sempre que não há espaço para concorrência entre empresas.) Restrições e incentivos de mercado, por definição, não se aplicam ao setor público não mercantilizado, e, portanto, são necessárias outras formas de alinhar as preferências dos trabalhadores com as necessidades sociais identificadas e financiadas pelo governo. Ainda assim, parece possível permitir decisões democráticas nos locais de trabalho do setor público sobre processos laborais, além de negociações entre a força de trabalho e aqueles que controlam os recursos públicos em níveis superiores da burocracia.

Essa questão se estende ao campo semiprivado, onde o governo é o único ou principal cliente de uma empresa, ou quando autoriza um coletivo a prestar um serviço público. Tais locais de trabalho dependem de um único comprador monopsonista, o que dá ao governo considerável controle, mesmo que a firma seja legalmente independente. A linha entre o público e o privado volta a ser nebulosa. É difícil dizer onde terminam as diretrizes burocráticas e começam os contratos com coletivos democráticos. Há, portanto, argumentos para processos formais de negociação entre a burocracia e os coletivos, assim como ocorre com os locais de trabalho formalmente dentro do Estado. Isso dá aos trabalhadores voz real sobre suas condições de trabalho, ao mesmo tempo em que permite o controle público adequado sobre os padrões dos serviços prestados.

No fim das contas, a mistura de locais de trabalho públicos e privados permite que padrões desenvolvidos em um setor influenciem o outro. Salários e condições mínimas determinadas centralmente — conforme discutido mais adiante — se aplicam a ambos. E os trabalhadores podem "votar com os pés": se um setor for mais atraente que o outro, buscarão migrar, exercendo certa pressão no mercado de trabalho. A estabilidade do setor público pode compensar o atrativo dos lucros do setor privado.

Em suma, os limites entre o setor público e o privado serão nebulosos e, além desses princípios gerais, não podem ser definidos de antemão — será uma questão de debate democrático. Haverá uma zona cinzenta sempre que o governo for o principal cliente de firmas “privadas” dependentes. Tanto nessa zona quanto no setor público propriamente dito, devem existir mecanismos que garantam aos trabalhadores participação genuína nos processos e condições de trabalho.

No restante deste artigo, focarei principalmente nos problemas específicos do setor “privado”, especialmente nas tensões entre democracia no local de trabalho e produção de mercadorias.

Gestão do setor de mercado

Problemas macroeconômicos e falhas de mercado são parte inerente da produção de mercadorias. Um sistema socialista com um papel substancial para os mercados deve esperar enfrentá-los. Os formuladores de políticas terão à sua disposição todas as opções que os Estados capitalistas já utilizam para regulação — podendo proibir, limitar ou orientar certas atividades das empresas. O sistema também recorrerá à política macroeconômica para gerir a demanda efetiva, idealmente empregando tanto trabalho quanto as pessoas desejarem oferecer, sem gerar pressões inflacionárias. Seria ingênuo esperar um regime de políticas perfeito: sabemos, com base em décadas de experiência, que os problemas de política frequentemente se apresentam como dilemas, com múltiplos objetivos puxando os instrumentos em direções diferentes. Os formuladores de políticas enfrentam futuros incertos com ferramentas sujeitas a atrasos na implementação e nos efeitos.

Além da macroeconomia, um planejamento democrático mais ambicioso ainda terá que lidar com diferenças reais de interesse entre grupos, bem como com o risco de captura política e paralisia decisória.

Ainda assim, o sistema proposto aqui apresenta alguns pontos adicionais de alavancagem pelos quais a política poderá influenciar o setor de mercadorias.

Sistema bancário público

O financiamento para a produção de commodities será responsabilidade de um conjunto de bancos públicos. O investimento em ativos de capital produtivo envolve uma parceria entre a empresa democrática que os utiliza e uma instituição pública que os financia. As empresas democráticas não acumulam riqueza — elas são administradoras de capital, não proprietárias. As razões para isso e o funcionamento da parceria são explorados abaixo.

Todo o financiamento é canalizado por esses bancos: indivíduos não possuem reivindicações diretas sobre as empresas, mas podem manter suas economias nos bancos na forma de depósitos e fundos mútuos. O tesouro do estado também detém a riqueza pública no sistema bancário e é o proprietário do capital próprio dos bancos. As reivindicações finais sobre o capital usado pelas empresas são, portanto, parcialmente públicas e parcialmente dos indivíduos, mas todas são mediadas pelos bancos.

Os bancos são utilitários públicos, com sua gestão nomeada pelo estado, mas operam como instituições semi-autônomas. O mandato básico para a maioria é gerenciar seu balanço patrimonial e financiar projetos para gerar o máximo de retorno possível para um dado nível de risco em seu balanço. O nível aceitável de risco é determinado pelo tesouro como proprietário final, bem como pelos requisitos regulatórios de liquidez e capital. Existem vários bancos para permitir diferenças de estratégia e julgamento. As empresas podem obter uma segunda opinião se forem rejeitadas por um banco. O desempenho de cada banco pode ser comparado com os outros e as estratégias ajustadas.

A autonomia e o mandato básico restrito mantêm a maioria dos bancos a uma distância do controle da política, a fim de evitar a tentação de afrouxar as restrições orçamentárias, o que tem prejudicado alguns modelos socialistas. Mas há um papel para um ou mais bancos públicos de desenvolvimento, que seriam mais diretamente controlados pelos formuladores de políticas e encarregados de financiar projetos de desenvolvimento, verdes e outras políticas industriais que poderiam não encontrar financiamento de outra forma. Um banco central também terá controle sobre a taxa de juros básica por meio de operações de mercado aberto e os termos de refinanciamento que oferece aos bancos. Ele poderia usar taxas e condições de refinanciamento preferenciais para determinados tipos de ativos como outro tipo de política industrial.

Os bancos não estão limitados apenas a fazer parcerias com empresas democráticas já existentes. Eles são incentivados a desempenhar um papel ativo na formação de novas. Este é um papel empreendedor essencial no sistema. As empresas democráticas têm menos impulso para expansão do que as capitalistas: a necessidade de compartilhar todos os lucros com novos membros significa que os membros atuais não têm incentivo para expandir uma vez que os retornos crescentes de escala tenham sido esgotados. Os bancos, com sua vasta quantidade de dados econômicos, estão bem posicionados para identificar nichos onde novos coletivos possam prosperar e desempenhar um papel ativo em reunir pessoas em busca de trabalho.

Distribuição de Riqueza e Renda

As pessoas recebem renda monetária dentro do sistema a partir de três fontes principais: do trabalho, como retornos financeiros sobre os fundos no banco, e de transferências governamentais. A política terá vários mecanismos para combater as desigualdades originadas pelas forças do mercado no setor de commodities e atender às necessidades de bem-estar.

A distribuição de riqueza é simplificada pelo direcionamento de todas as finanças para a produção de commodities através dos bancos públicos. Toda a renda de capital proveniente da produção de commodities flui inicialmente para os bancos e, em seguida, é distribuída entre os detentores de depósitos e fundos. As obrigações bancárias serão mantidas parcialmente pelo tesouro público e parcialmente como riqueza privada por indivíduos (com as empresas também mantendo depósitos de trabalho).

Diferente de uma sociedade capitalista típica, o Estado recebe uma considerável renda de capital das obrigações bancárias em posse do tesouro, que pode ser distribuída de várias maneiras, conforme

  • determinado pela política, para financiar a atividade e os gastos do setor público, como substituto dos impostos;
  • como um dividendo social distribuído de forma igualitária aos cidadãos; e
  • como transferências direcionadas para fins de bem-estar.

Cada pessoa receberia sua parte da riqueza privada ao atingir uma certa idade, e isso poderia ser mantido razoavelmente distribuído de forma equilibrada, não permitindo heranças ou grandes presentes. As desigualdades se desenvolveriam a partir das diferenças de renda e poupança, mas seriam relativamente modestas, e, ao falecer, a riqueza individual retornaria ao erário público para ser redistribuída aos vivos. Existem poucas oportunidades para ganhos privados de capital ou sorteios inesperados, eliminando uma grande fonte de desigualdade de riqueza.

Existirão outras formas de riqueza pública e privada fora do sistema bancário: bens duráveis de consumo, habitação, e os meios de produção imobiliária e pública de propriedade direta de agências públicas. A habitação geralmente representa cerca de metade do valor do estoque de capital de um país capitalista desenvolvido. Existem várias maneiras de um país socialista escolher organizar a construção, o financiamento e a alocação de habitação — e suas implicações para a riqueza pública e privada — mas isso está além do escopo deste ensaio.

Impostos e transferências podem ser usados para combater desigualdades indesejáveis na renda do trabalho, e os retornos da riqueza pública oferecem ao Estado mais opções para redistribuição. A capacidade de ajustar o momento dos pagamentos de qualquer dividendo social da riqueza pública potencialmente faz dele um instrumento macroeconômico flexível — embora as transferências para fins de bem-estar não devam estar reféns das condições macroeconômicas.

Renda do Trabalho

Os membros-trabalhadores recebem duas formas de renda de suas empresas. Eles ganham um salário regular, conhecido com antecedência, e um dividendo ocasional, que é sua parte do lucro da empresa. Como os membros-trabalhadores são os credores residuais da empresa — ou seja, têm direito ao que sobra da renda da empresa depois que todos os outros foram pagos — pode parecer redundante dividir seu direito entre salário e dividendo. No entanto, um salário fixo tem várias vantagens.

Ele permite diferenças salariais entre os membros. Algumas diferenças são justificáveis até mesmo por motivos igualitários: elas compensam as pessoas por realizar tarefas mais difíceis, exigentes ou de outro modo desagradáveis, por se esforçarem mais e por desenvolverem habilidades que estão em demanda. O salário é específico para um tipo particular de trabalho, e potencialmente para um indivíduo. Cada salário deve pelo menos atender a um padrão para esse tipo de trabalho, que é determinado centralmente, conforme descrito abaixo. Porém, a empresa tem a discrição de pagar margens acima do padrão — essa é uma decisão coletiva. A empresa pode decidir pagar mais para todos os membros que realizam um determinado tipo de trabalho, ou utilizar esquemas individuais de promoção ou bônus para motivar o esforço. Esses pagamentos são deduzidos dos dividendos pagos igualmente a todos os membros, de modo que os membros provavelmente concordarão com eles apenas se esperarem que tragam retorno — ou seja, que pelo menos se igualem aos ganhos de produtividade que motivam.

Há, sem dúvida, uma tensão entre os objetivos igualitários e de eficiência aqui. As empresas tentarão atrair membros com habilidades e talentos escassos, e os salários para essas qualidades serão elevados em toda a economia. Se isso levar a prêmios salariais que incentivam o desenvolvimento de habilidades em falta, isso é positivo e autolimitante, pois a oferta de pessoas com essas habilidades se ajusta para atender às necessidades ao longo do tempo. Mas talentos — atributos pessoais menos responsivos ao treinamento — são uma história diferente, e os talentosos terão rendas persistentes do mercado, ou seja, compensações acima do que seria necessário para induzi-los a suportar as dificuldades do próprio trabalho. O sistema deve encarar a realidade das diferenças persistentes de talento e usar ferramentas extra-mercado para limitar as diferenças de renda, como impostos progressivos sobre a renda e transferências.

Outra razão para os salários fixos é que eles fornecem um ponto de referência vital para a definição de preços e contabilidade. O trabalho costuma ser o maior componente dos custos de produção de uma empresa capitalista, e, portanto, os salários são a base do sistema de preços. Sem salários fixos, a empresa democrática perde essa orientação para a precificação e a contabilidade de custos. Torna-se mais difícil fazer planos de produção racionais sem alguma ideia sobre o valor de uma hora de trabalho e mais difícil negociar a contratação de novos membros sem um sinal da renda básica que eles podem esperar.

Portanto, nesse sistema, a empresa democrática trata os salários previamente comprometidos como um custo contábil, embora eles formem parte da renda dos membros. O lucro residual após o cumprimento dos salários e outros custos é então dividido igualmente entre os membros da empresa — seja com base no número de pessoas ou de acordo com as horas trabalhadas. Uma empresa que não consegue cumprir seus compromissos salariais é considerada devedora de seus próprios membros e potencialmente insolvente. Esses custos salariais podem então ser usados como pontos de referência em outras partes do sistema — por exemplo, ao firmar um contrato com um banco para assegurar um nível mínimo de renda.

Estabelecimento de salários e o Conselho Nacional do Trabalho

Os salários e as condições estabelecidas pelas empresas devem ser, no mínimo, tão altos quanto os benchmarks definidos por um conselho nacional do trabalho. Os benchmarks seriam especificados para categorias de trabalho particulares, com margens para habilidades e experiência, e potencialmente permitindo diferenças regionais. Os benchmarks funcionam como um mínimo, com as empresas livres para estabelecer salários mais altos, mas o conselho procuraria manter os benchmarks razoavelmente próximos das normas do mercado — eles são destinados a ser verdadeiros pontos de referência, e não redes de segurança.

Existem três principais razões para esse framework. Primeira, ele combate um possível efeito colateral da democracia no local de trabalho — um mercado de trabalho que é relativamente lento para responder a mudanças nas condições. A segurança de meios de subsistência é uma das grandes vantagens do sistema — os trabalhadores precisam temer muito menos o desemprego arbitrário. As empresas democráticas podem reduzir seu tamanho, mas isso aconteceria de forma mais relutante e com negociação de pacotes de rescisão aceitáveis. Mas, como isso torna o trabalho um custo mais fixo para as empresas democráticas, elas serão mais cautelosas ao expandir suas operações em primeiro lugar. Além disso, os membros incumbentes devem compartilhar os lucros do negócio como um todo com os novos membros. Se os membros têm algum motivo para esperar lucros persistentes em suas operações, eles têm um interesse material em expandir o emprego apenas enquanto os membros adicionais agregam mais valor do que os incumbentes perdem com a redução da participação.

Portanto, o mercado de trabalho tende a ser lento para se adaptar, com fluxos entre empregos menores do que sob o capitalismo, e salários de mercado e emprego mudando lentamente ao longo do tempo. (Não devemos, no entanto, exagerar na fluidez dos mercados de trabalho capitalistas — os salários sempre foram tanto sobre normas, luta industrial e instituições quanto sobre oferta e demanda.) A gestão ativa de benchmarks salariais centrais pode substituir, até certo ponto, o ajuste do mercado, com a política considerando os sinais do mercado ao definir os benchmarks. Por exemplo, quando muitas empresas estão pagando taxas acima do benchmark para uma categoria de trabalho específica, isso pode ser tomado como um sinal de que o benchmark deve ser elevado, acelerando a transmissão da mudança salarial em toda a economia. Mas a comissão também poderia levar em conta uma ampla gama de dados econômicos, tornando-se um centro alternativo de expertise econômica pública ao lado dos bancos.

A segunda razão para benchmarks salariais centrais é evitar que as empresas democráticas fiquem presas em uma espiral de exploração própria de baixos custos. A competição por custos pode seguir um caminho elevado, envolvendo a busca por técnicas e tecnologias mais eficientes, ou um caminho baixo de contenção salarial, intensificação do trabalho, ou ambos. Mesmo os membros de uma empresa democrática podem ser tentados a aceitar rendas mais baixas como uma alternativa à reestruturação em torno de novas tecnologias. Isso pode retardar o crescimento da produtividade do trabalho, o que poderia liberar o tempo das pessoas para o lazer. O aumento constante dos benchmarks salariais — seguindo qualquer movimento geral em direção a salários mais altos — bloqueia o caminho baixo, incentivando as empresas mais atrasadas a se atualizarem com novas técnicas e tecnologias, com o apoio financeiro de seu banco.

A terceira razão para os benchmarks salariais é que eles podem ser uma ferramenta de política e planejamento. Embora as tendências do mercado devam ser levadas em consideração nas decisões do conselho de trabalho, elas não precisam ser determinantes. Objetivos igualitários e de desenvolvimento podem ser levados em conta. Os benchmarks podem ser usados, por exemplo, para manter a equidade salarial de gênero — que é prejudicada nos mercados de trabalho se as mulheres têm mais probabilidade de ter períodos de afastamento do trabalho para cuidar de filhos e na longa sombra das penalidades salariais históricas para empregos tradicionalmente femininos. Para fins de desenvolvimento, os benchmarks poderiam variar entre áreas geográficas, permitindo salários mais baixos em regiões de menor custo ou aumentando a diferentes ritmos para reduzir as disparidades regionais ao longo do tempo.

Os benchmarks salariais também podem ser uma ferramenta macroeconômica complementar. Nos primeiros anos da política macroeconômica, economistas como Jan Tinbergen argumentaram que a influência sobre os salários seria crítica para tornar o pleno emprego compatível com a estabilidade de preços. No entanto, na maioria dos países capitalistas, a política tinha pouca alavancagem no processo de definição de salários e, portanto, dependia da folga do mercado de trabalho para manter os salários sob controle — o desemprego como um dispositivo disciplinador. Existem precedentes para a determinação centralizada de salários em países capitalistas — por exemplo, na Austrália e na Escandinávia pós-guerra — com bons históricos ao longo de longos períodos de alto crescimento da produtividade e estabilidade macroeconômica.

Há um problema com essas diferentes motivações para estabelecer benchmarks salariais: elas podem entrar em conflito umas com as outras, com os objetivos puxando em direções diferentes. Essa foi certamente a experiência da negociação centralizada em países capitalistas. Mas isso é a democracia. A tomada de decisões no conselho de trabalho poderia ser organizada de várias maneiras diferentes, mas deveria permitir várias influências: expertise econômica, representação dos trabalhadores e o governo nacional democraticamente eleito.

Problemas da empresa democrática

Agora é hora de abordar as diferenças entre uma empresa capitalista e uma empresa democrática, gerida pelos trabalhadores, e os problemas que surgem com essas diferenças. Como Gregory Dow coloca, há uma "assimetria fundamental" entre o capital e o trabalho, no sentido de que "a propriedade de ativos produtivos não humanos pode ser transferida de uma pessoa ou grupo para outro, enquanto isso não é verdade para as doações de tempo, habilidade e experiência." Tanto as empresas capitalistas quanto as empresas geridas pelos trabalhadores envolvem pessoas trabalhando com ativos produtivos. Mas há duas diferenças especialmente importantes. As empresas capitalistas contratam mão de obra, pagando um salário ou vencimento por tempo contratado. Elas podem aumentar ou diminuir o número de empregados à vontade, embora isso seja frequentemente limitado por contratos de longo prazo. O salário é um custo do ponto de vista dos proprietários — deduzido da receita junto com outros custos para deixar os lucros residuais. Os membros-trabalhadores das empresas democráticas fornecem seu próprio trabalho, e o coletivo não pode admitir ou demitir trabalhadores sem mudar a composição da empresa. A compensação de um membro inclui sua parte nos lucros residuais — e qualquer mudança no tamanho da empresa altera o número de pessoas entre as quais os lucros são divididos.

A propriedade de uma empresa capitalista pode ser dividida em ações negociáveis, e os acionistas não precisam ter envolvimento direto com a empresa. Já os direitos de controle e de renda em uma empresa gerida pelos trabalhadores estão ligados ao envolvimento ativo na empresa, pela definição de gestão do trabalho. Eles não podem ser negociados com não-participantes.

Essas diferenças têm grandes consequências para o comportamento econômico, que têm sido tratadas como problemas na literatura econômica sobre empresas geridas pelos trabalhadores. Qualquer plano viável para uma economia baseada em empresas democráticas deve lidar com esses problemas.

Respostas perversas aos sinais de mercado?

O primeiro problema é uma suposta resposta perversa das empresas democráticas aos sinais do mercado, pelo menos no curto prazo. Tradicionalmente, uma empresa capitalista deve escolher seu nível de produção para maximizar o lucro total. Ela só precisa pagar um salário para obter a produção de um trabalhador adicional — não há questionamento sobre compartilhar lucros com ele. A empresa democrática, por outro lado, está comprometida em compartilhar o residual entre seus trabalhadores. Portanto, presume-se que ela tenha como objetivo maximizar a renda por trabalhador. Trazer mais trabalhadores para a empresa adiciona tanto ao numerador quanto ao denominador dessa equação.

Modelos neoclássicos seminalistas desse comportamento concluíram que, se tais empresas fossem colocadas em um ambiente de “competição perfeita” como em um livro didático, as empresas geridas por trabalhadores reagiriam da forma “errada” a mudanças na demanda e nos custos fixos no curto prazo. Elas responderiam a uma redução no preço do produto produzindo mais e a um aumento no preço produzindo menos. Custos fixos mais altos resultariam em maior produção.

Esse resultado teve grande influência na literatura econômica sobre empresas geridas por trabalhadores até hoje, apesar de sua dependência de suposições irreais — que os autores originais enfatizaram com cuidado. Assume-se que as empresas democráticas possam ajustar facilmente a mão de obra, incorporando ou expulsando membros, mas não ajustando as horas de trabalho dos membros. Assume-se também um produto marginal decrescente do trabalho, ou seja, que cada trabalhador adicional produz um pouco menos de output. E isso só se aplica no cenário hipotético do curto prazo, no qual as empresas podem ajustar o número de trabalhadores, mas não o equipamento de capital utilizado. No equilíbrio de longo prazo, com as empresas podendo ajustar todos os insumos, o modelo padrão prevê comportamento idêntico para empresas capitalistas e geridas por trabalhadores.

Essas não são condições realistas. Na sua análise pioneira, o economista tcheco-americano Jaroslav Vanek argumentou que as empresas democráticas dificilmente ajustariam rapidamente seu quadro de membros no curto prazo, especialmente não demitindo seus próprios membros. Elas seriam mais propensas a reagir a mudanças modestas na demanda ajustando as horas de trabalho dos membros já presentes na empresa, o que alteraria a produção e a renda, mas não o número de trabalhadores entre os quais o residual seria dividido. Isso tornava os “resultados perversos” do modelo padrão menos relevantes. Pesquisas empíricas sobre cooperativas encontraram que elas não tendem a se comportar no (capitalista) mundo real como os primeiros modelos neoclássicos sugerem que fariam em um mundo idealizado.

No entanto, não é irrazoável acreditar que as empresas democráticas seriam menos responsivas às condições do mercado do que as empresas capitalistas, ao ajustar sua força de trabalho para qualquer direção. Perus não são esperados a votar para o Dia de Ação de Graças, então seria mais difícil demitir membros involuntariamente. Por causa disso, as empresas seriam mais relutantes em trazer novos membros se a longevidade das condições favoráveis fosse incerta.

As empresas capitalistas também enfrentam custos de rescisão ao demitir trabalhadores com contratos de longo prazo — e nada impede que as empresas democráticas ofereçam pagamentos de rescisão para suavizar as separações — então a diferença não é absoluta. Mas as empresas capitalistas geralmente têm uma reserva de trabalhadores com contratos inseguros que podem ser ajustados à vontade, uma opção não disponível para a empresa democrática. A segurança no emprego é “uma característica, não um defeito”, mas devemos reconhecer que, para a empresa democrática, o insumo de trabalho provavelmente será menos flexível, exceto na medida em que as horas possam ser variáveis para os membros existentes. O trabalho é mais um fator fixo, especialmente no curto prazo. Ao longo de períodos mais longos, a queda por aposentadoria e demissões voluntárias facilita o ajuste para baixo. O mercado de trabalho menos flexível é uma das razões para os benchmarks centralizados da comissão nacional de trabalho, conforme descrito acima: eles fornecem uma maneira alternativa de transmitir mudanças nos salários e nas condições em toda a economia.

Problemas mais difíceis surgem com a estrutura financeira das empresas democráticas e o interesse de seus membros nelas. Quando o proprietário parcial de uma empresa capitalista quer sair, ele pode vender sua participação e, assim, recuperar o valor de mercado de sua participação no controle e na renda futura da empresa. Para a maioria das grandes empresas em uma economia capitalista moderna, há um mercado de ações ativo, com liquidez suficiente para que os acionistas possam vender rapidamente quando desejarem. A avaliação de mercado do patrimônio de uma empresa reflete as expectativas dos participantes sobre as perspectivas de ganhos futuros, tornando-se um ponto de referência importante nas decisões de investimento.

Mas a participação de um membro em uma empresa democrática — sua parte no controle e nos lucros — está ligada à sua participação contínua como trabalhador. No modelo padrão, eles não têm participação negociável para vender quando saem. (Algumas propostas envolvem um mercado de membros, que discutirei abaixo.) Isso significa que os trabalhadores individuais têm um horizonte de interesse pessoal dentro da empresa — sua data esperada de saída. Essa saída pode ocorrer devido à aposentadoria, mudança para outro lugar, mudança de carreira ou até mesmo uma demissão. A data de saída pode, claro, ser muito incerta: talvez no próximo ano, em cinco anos ou em vinte.

Isso muda a lógica das decisões de investimento. Uma empresa que investe com lucros retidos está usando fundos que poderiam, de outra forma, ter sido distribuídos como renda pessoal aos seus proprietários ou membros. Se for economicamente sensato, o investimento deve ser esperado para aumentar os lucros futuros da empresa. Os acionistas de uma empresa capitalista podem esperar colher os frutos do investimento, seja desfrutando de dividendos mais altos mais tarde ou vendendo suas ações no intervalo a um preço mais alto, refletindo os dividendos esperados mais altos. Eles favorecem um projeto de investimento desde que os retornos esperados sejam pelo menos tão bons quanto poderiam obter pessoalmente colocando seus fundos em outro lugar com um perfil de risco equivalente.

Membros de uma empresa democrática, por outro lado, não recebem sua parte da riqueza da empresa quando saem. Eles terão direito a uma renda extra gerada pelo investimento somente enquanto o investimento der certo, e se ainda estiverem na empresa no futuro quando isso ocorrer. Mas os fundos para o investimento vêm diretamente do dividendo de lucro que eles receberiam como renda pessoal agora. As decisões sobre o uso dos lucros da empresa tornam-se, portanto, um dilema entre a renda certa agora e a renda possível mais tarde, com a possibilidade de ganhos futuros mais altos compensada pela chance de o membro individual não estar presente para recebê-los.

Isso pode levar a divisões entre os membros: entre os jovens e os que estão perto da aposentadoria, ou entre os cujas habilidades ou preferências os vinculam à empresa e os que têm oportunidades em outro lugar. Aqueles que esperam estar na empresa por um longo período serão mais dispostos a investir, porque estão mais confiantes de que irão desfrutar dos frutos do investimento no futuro, enquanto os outros estarão sacrificando a renda atual por uma recompensa muito incerta. Em geral, os pagamentos de curto prazo são menos arriscados, e o investimento de longo prazo será mais difícil de apoiar. Uma economia composta por tais empresas tende a abrir mão de muitos investimentos que de outra forma fariam sentido econômico. Isso ficou conhecido como o problema do horizonte.

O outro lado disso é o problema da propriedade comum, relacionado a ingressar, em vez de sair, de uma empresa democrática. O patrimônio líquido de uma empresa democrática é essencialmente uma forma de riqueza coletiva mantida por seus membros. Quando os membros decidem investir com lucros retidos, eles estão economizando coletivamente, pois, de outra forma, os ganhos seriam distribuídos a eles como renda pessoal, que poderiam decidir salvar ou gastar individualmente. Mas quando a empresa expande, os novos membros imediatamente adquirem sua parte dessa riqueza coletiva, com direito igual aos lucros residuais, e assim aos retornos sobre a riqueza acumulada coletivamente a partir da renda pessoal sacrificada pelos membros incumbentes. Isso pode tornar os incumbentes mais relutantes em aceitar novos membros do que seriam de outra forma, ou pode reforçar a relutância em investir com lucros retidos em primeiro lugar, levando a um emprego e investimento subótimos.

Finalmente, a ausência de um mercado de ações priva a economia de uma instituição para alocar recursos e gerenciar risco. Os mercados financeiros capitalistas, ao menos em teoria, fornecem informações e incentivos para alocar capital de maneira eficiente em toda a economia — ou seja, para onde traz os maiores retornos para um dado nível de risco. O mesmo é verdade para um socialismo de mercado no estilo de Roemer com uma distribuição equitativa das reivindicações financeiras. A parcelização do patrimônio em ações negociáveis permite que os detentores de riqueza (ou seus gestores de fundos) diversifiquem suas carteiras. Apenas ao manter uma gama diversificada de instrumentos financeiros, o indivíduo pode reduzir o risco a que está exposto para um dado retorno, porque os riscos idiossincráticos de empresas particulares se cancelam entre si — um ano ruim para algumas empresas é um bom ano para outras. Algum risco permanece, porque as empresas compartilham algumas exposições às flutuações do mercado. Mas os indivíduos podem construir carteiras com a mistura certa de ativos mais seguros e mais arriscados para escolher seu próprio ponto preferido na curva risco-retorno.

O trabalhador em uma empresa cooperativa, por outro lado, tem uma quantidade substancial de riqueza atrelada a uma única empresa — e é a mesma empresa da qual depende para seu emprego. Eles têm muitos ovos nessa única cesta e não podem diversificar sua exposição à empresa. Quanto mais as empresas democráticas precisarem depender de financiamento interno — as economias coletivas de seus próprios trabalhadores — mais o sistema carece de mecanismos para alocar racionalmente o financiamento pela economia para onde é mais útil.

A solução do mercado de membros?

Uma solução para os problemas do horizonte e da propriedade comum é tornar a participação de um trabalhador-membro no controle e nos lucros residuais da empresa um instrumento financeiro negociável — em outras palavras, mais parecido com uma ação capitalista. Possuir esses direitos de membresia ainda seria vinculado ao trabalho dentro da empresa — caso contrário, a empresa não seria mais controlada democraticamente por seus trabalhadores. Mas quando um trabalhador deixa a empresa por qualquer motivo, ele venderia seu direito de membresia para um novo trabalhador ou de volta para a própria empresa. Se o valor desses direitos estiver alinhado com o valor presente da participação do trabalhador-membro nos lucros futuros da empresa, o membro que sair não perderia sua participação nos ativos coletivos construídos pela empresa durante seu tempo de serviço.

As participações dos membros existentes não seriam diluídas quando a empresa se expandisse — os novos membros trazem sua própria parte do patrimônio para a empresa ao comprar uma membresia recém-criada. (Se a empresa escolher expandir sua força de trabalho mais rápido do que seu estoque de capital, alguns dos fundos trazidos pelos novos membros poderiam até ser distribuídos como renda pessoal para os membros incumbentes.) Quando a empresa reinvestir com lucros retidos, isso aumentaria o valor das participações dos membros, para que eles possam manter sua parte pessoal das economias coletivas vendendo quando saírem.

O mercado de membros é destacado na obra de Gregory Dow, The Labor-Managed Firm, o trabalho mais recente e completo sobre a economia das empresas democráticas. Para Dow, a ideia é mais forte como resposta no terreno abstrato dos modelos econômicos de onde os problemas tradicionais foram originados. Críticos presumiam que as empresas geridas por trabalhadores estavam presas a “restrições realistas” específicas, enquanto as empresas capitalistas eram livres para desfrutar de todos os benefícios dos mercados competitivos de capital e trabalho. No entanto, em condições idealizadas de livro didático com um conjunto completo de mercados perfeitamente competitivos, nada impede que as empresas coletivas operem com base em membresias negociáveis.

O problema — como Dow deixa claro — é que o mundo real não é aquele com um conjunto completo de mercados competitivos. E um mercado de membros provavelmente seria particularmente imperfeito, devido às assimetrias inerentes entre a propriedade de ativos (alienável) e o trabalho (inalienável), disponível apenas como um fluxo de atividade proveniente de um ser humano. A empresa democrática deve buscar trabalho e fundos da mesma pessoa, que deve desejar trabalhar e investir na mesma empresa — e deve ter a riqueza para investir no primeiro lugar ou estar disposta a fazer algum tipo de empréstimo de trabalho. O acionista capitalista é um proprietário ausente — ele simplesmente possui uma reivindicação e não precisa fazer mais nada além de deixar os dividendos rolarem. O trabalhador-membro deve realmente trabalhar. A decisão de comprar uma membresia também é uma decisão de aceitar um emprego. E enquanto os gerentes de uma empresa capitalista geralmente podem ser indiferentes sobre quem possui suas ações — à parte das aquisições hostis — quando uma empresa democrática recebe um novo membro, os membros existentes recebem um novo colega. Eles se importam com a pessoa tanto como trabalhador quanto como fonte de fundos.

Assim, os membros individuais não poderiam vender para qualquer comprador a seu critério. O membro que sai não tem interesse material na adequação da pessoa que o substitui — apenas em quanto ela está disposta a pagar pelo emprego. Em vez disso, o membro que sai precisaria vender sua participação de volta para a empresa, que venderia novas participações para os trabalhadores que chegam. Receber novos membros combinaria a busca por emprego com a venda de patrimônio. As entrevistas de emprego combinariam perguntas sobre experiência e educação com questões sobre quanto o candidato está disposto a pagar pelo cargo. Talvez isso não seja tão diferente de negociar salário, mas significa que o valor de uma membresia não refletiria simplesmente o valor presente de uma participação nos lucros esperados da empresa. Também refletiria a negociação sobre o valor do emprego — o quanto o candidato espera que a empresa invista nela ou seus membros o suficiente para gerar lucros futuros suficientes para justificar o preço de compra.

Por outro lado, o membro prospectivo não teria a mesma informação que os membros atuais sobre a verdadeira situação e as perspectivas da empresa, o que poderia deixá-lo cauteloso e relutante em pagar o valor total da adesão a uma empresa bem-sucedida. O mercado de adesões, portanto, poderia ser bem diferente do mercado de ações profundo e líquido de uma economia capitalista. As adesões seriam raramente negociadas, e os preços nos quais as transações acontecessem seriam específicos para trabalhadores individuais, dado o conjunto de transações de trabalho e capital.

Os direitos de adesão negociáveis, assim, criam tantos problemas quanto resolvem para a empresa democrática. A proposta aqui segue uma abordagem alternativa — evitando, tanto quanto possível, qualquer acumulação de riqueza coletiva pelos trabalhadores-membros em sua própria empresa. O financiamento para investimento vem inteiramente de um banco público. Isso mitiga o problema do horizonte, porque os membros não fazem mais uma escolha entre gastar os lucros da empresa em investimentos e recebê-los como renda pessoal. Mitiga o problema da propriedade comum, porque os membros não sacrificam de fato a renda para construir riqueza coletivamente dentro da empresa, o que poderiam resentir ao compartilhar com os recém-chegados.

É verdade que os membros ainda podem se beneficiar dos retornos específicos da empresa sobre intangíveis, como posição de mercado e boa vontade dos clientes. Estes não são ativos que possam ser investidos de maneira simples, como equipamentos de capital, portanto, a empresa não deve um banco por eles. Eles vêm de uma combinação de sorte e boas decisões, e os membros podem sentir que conquistaram esses retornos até certo ponto, deixando algum resquício do problema da propriedade comum. Não apresentam o dilema tão claro entre renda certa hoje e renda extra incerta no futuro. Mas ainda podem existir alguns elementos do problema do horizonte: membros que não esperam um futuro de longo prazo com a empresa podem estar mais inclinados a prejudicar a boa vontade dos clientes em troca de ganhos de curto prazo, com preços mais altos ou qualidade inferior.

Portanto, embora a solução de financiamento externo descrita abaixo reduza muito esses problemas, pode ainda haver a necessidade de mecanismos que compensem os membros incumbentes por perdas decorrentes da expansão da adesão ou ao deixarem a empresa. Mas existem alternativas ao mercado de adesões que evitam suas desvantagens. Por exemplo, poderia haver um intervalo de tempo entre a adesão à empresa e o recebimento de uma parte integral da renda residual, e depois um período após a saída em que o ex-membro continuaria a receber um dividendo. De forma mais simples, o problema do horizonte pelo menos pode ser tratado por meio de um pagamento de rescisão capitalizando a parte do membro que sai sobre os lucros futuros esperados.

Quanto aos problemas de gestão de risco dentro da empresa e na economia como um todo, o financiamento externo levanta um novo conjunto de questões, sobre o qual falarei na próxima seção.
Finanças e a empresa democrática

Os problemas do horizonte e da propriedade comum surgem quando os membros trabalhadores de uma empresa acumulam riqueza coletiva na sua empresa, a qual os indivíduos perdem o direito quando saem, e que os membros atuais devem compartilhar com os recém-chegados quando chegam. Se a solução do mercado de membros não for viável, esses problemas precisam ser resolvidos de outra forma.

A outra opção é minimizar o patrimônio coletivo dos trabalhadores na empresa. Essa foi a solução de Jaroslav Vanek — as empresas democráticas devem ser financiadas externamente. A decisão de investimento da empresa, então, não é confundida com as preferências individuais dos membros sobre poupança e consumo, nem pelo risco que os membros assumem quando concentram sua riqueza no seu próprio local de trabalho. Todo o lucro é distribuído aos membros como renda pessoal, deixando os indivíduos decidirem quanto poupar e quanto consumir. Em vez de colocar todos os ovos na mesma cesta, os indivíduos economizam financeiramente através dos bancos públicos, diversificando sua exposição.

No entanto, exigir que as empresas dependam de financiamento externo gera seus próprios problemas sérios, já que as empresas democráticas não podem emitir ações para aqueles que não trabalham nelas. O empréstimo envolve promessas de pagar valores definidos em datas definidas, mas os ganhos são sempre incertos. O patrimônio não vem com compromissos de pagamento absolutos; seus proprietários têm direito apenas aos lucros residuais, e assim o patrimônio funciona como uma almofada de risco para as empresas capitalistas. Uma razão de endividamento sobre patrimônio de cerca de 50 a 60 por cento é típica, embora as empresas variem amplamente em sua alavancagem — não apenas por causa das diferentes decisões sobre risco, mas também porque diferentes modelos de negócios enfrentam diferentes níveis de volatilidade nos ganhos.

Trabalhadores de uma empresa democrática que depende amplamente de financiamento por dívida veriam seus rendimentos — e a própria sobrevivência de sua empresa — altamente expostos a quedas nos ganhos. Um argumento para a relação de emprego tradicional é que o salário dá aos trabalhadores mais segurança de renda do que eles teriam como detentores de direitos residuais. O salário dá ao trabalhador de uma empresa capitalista uma renda previsível enquanto ele permanecer empregado — embora o tempo de emprego possa ser incerto. Uma participação no residual de uma cooperativa significa que a renda dos trabalhadores pode oscilar para cima e para baixo de forma imprevisível. Não é difícil imaginar que muitos trabalhadores prefiram a certeza de uma renda fixa, mesmo que a renda residual mais arriscada fosse, em média, maior.

Assim, parece que um modelo econômico baseado em empresas democráticas está preso em um dilema. Ou as empresas financiam principalmente seus investimentos com lucros retidos, enfrentando os problemas de horizonte e de propriedade comum, ou dependem de empréstimos, tornando-se frágeis e deixando seus membros expostos à alta volatilidade da renda.

Felizmente, não estamos presos aos instrumentos financeiros e instituições que evoluíram para atender às necessidades das empresas e financiadores sob um conjunto capitalista de direitos de propriedade. Uma economia socialista pode ter um grande setor de produção de mercadorias e ainda assim envolver formas financeiras mais adequadas à distribuição igualitária e à tomada de decisões democráticas. Isso significa encontrar uma maneira de alocar recursos sociais racionalmente, agrupar riscos e compartilhar retornos, enquanto aproveita o conhecimento local e a iniciativa dos trabalhadores, dando-lhes decisões significativas a serem tomadas, ao mesmo tempo em que alinha seus interesses com as necessidades sociais. Esta seção apresenta uma estrutura para reconciliar esses aspectos usando o sistema bancário público.

Investimento como parceria entre banco público e empresa democrática

No modelo proposto, o investimento em ativos de capital produtivo envolve uma parceria entre a empresa democrática que os utiliza e um banco público que os financia. Isso está em conformidade com o princípio socialista de propriedade social da riqueza e permite um uso eficiente dos recursos para atender às necessidades e desejos das pessoas.

As empresas democráticas são guardiãs da riqueza social, não proprietárias. Os ativos de capital que elas utilizam na produção precisam ser eles mesmos produzidos, com recursos que poderiam ter sido usados para outros fins. Não seria justo que esses ativos fossem tratados como a riqueza coletiva dos membros da empresa que os utilizam. Alguns tipos de produção são mais intensivos em capital do que outros, então trabalhadores de usinas de energia, por exemplo, seriam muito mais ricos do que trabalhadores de creches. E trabalhadores do setor privado teriam uma riqueza coletiva não usufruída por aqueles no setor público ou por aqueles que não estão empregados formalmente. É justo que as empresas paguem pelo uso dos ativos, de uma forma ou de outra — e, como isso formará parte do custo de produção, será refletido nos preços de saída cobrados aos clientes.

Além disso, a alocação racional de recursos exige que os serviços dos ativos produtivos sejam adequadamente precificados. Isso significa que não só o custo de produção dos próprios ativos deve ser recuperado durante sua vida útil — o componente de depreciação — mas também que devem haver encargos para cobrir juros e risco. As empresas individuais estão bem posicionadas para entender as possibilidades técnicas de produção e as situações presentes e futuras do mercado — essa é uma das vantagens da produção de commodities sobre o planejamento central. Mas elas não têm a perspectiva mais ampla necessária para dizer se os recursos são melhor usados para expandir sua própria capacidade ou para algo diferente. Um sistema financeiro socialmente racional seleciona projetos de investimento para fazer o melhor uso dos recursos limitados, o que significa precificar adequadamente o capital e o risco.

Qual é a justificativa para o juros em um cenário socialista? O investimento no sentido econômico significa adicionar ao estoque de ativos reais produtivos. Os recursos dedicados à produção de um determinado ativo de capital poderiam ter sido usados para outro tipo de ativo de capital, ou para a produção de bens e serviços para consumo imediato, ou para algum uso não relacionado a commodities, como lazer. Não é que exista um pool limitado de fundos — o sistema financeiro é flexível no que diz respeito a fundos — mas sim que há um fluxo limitado de trabalho e outros recursos produtivos.

Investir significa usar recursos agora para aumentar a renda no futuro. A taxa de juros estabelece um padrão para quanto de renda futura extra um projeto de investimento deve prometer para justificar o uso de recursos hoje. No sistema proposto, a taxa de juros básica é definida pela política do banco central, guiada por considerações macroeconômicas. O espaço para investimento é, em última instância, determinado pela política fiscal e pelas decisões das famílias sobre quanto gastar e quanto economizar de sua renda líquida. Tipos específicos de investimento podem enfrentar taxas mais altas ou mais baixas dependendo da política de desenvolvimento, ambiental e de outras políticas industriais.

O investimento é inerentemente arriscado porque as condições econômicas futuras são desconhecidas. Mas o que exatamente está em risco? Em um nível social, o risco é simplesmente o desperdício: que recursos sejam dedicados à produção de algo, e depois se descubra que esses recursos poderiam ter sido melhor usados para outra coisa. Ou poderiam ter produzido ativos de capital mais adequados às condições futuras que se apresentaram, ou poderiam ter sido usados para satisfazer mais necessidades de consumo ou públicas no momento, ao invés de aumentar a produção futura, ou as pessoas poderiam ter aproveitado mais tempo de lazer ao invés de produzir. É importante que um sistema financeiro socialista seja projetado para minimizar esse tipo de desperdício, mas como o futuro é inerentemente imprevisível, é impossível eliminá-lo. Retardar o investimento porque não podemos ter certeza dos resultados seria, em si, um desperdício. Idealmente, o sistema coloca um preço no risco para que ele seja considerado quando as decisões forem tomadas, mas permite e até incentiva que riscos sejam assumidos.

Ao reunir riscos e diversificar exposições, um sistema financeiro na verdade diminui a quantidade de risco à qual qualquer pessoa está exposta. Esse é um princípio de seguro e da teoria moderna de portfólio. Um sistema financeiro socialista aproveita totalmente esse fato. Mas é aqui que entram os arranjos financeiros inovadores, para compensar o financiamento de capital próprio que não está disponível em uma economia baseada em empresas democráticas. O sistema bancário deve socializar os riscos negativos da produção de commodities, mas também deve cobrar das empresas de maneira apropriada.

Sob o capitalismo, o financiamento por capital próprio torna possível que os acionistas gerenciem o risco construindo um portfólio diversificado. Ao considerar o investimento em novos ativos de capital, os gerentes de uma empresa podem assumir que seus proprietários possuem as ações da empresa junto com as de muitas outras empresas. Se investirem em uma nova planta para fabricar painéis solares, por exemplo, e acontecer de uma nova tecnologia inesperada tornar os processos dessa planta relativamente ineficientes, isso será uma má notícia para os lucros da empresa. Mas para seus acionistas, a má sorte provavelmente será equilibrada por boa sorte em outro lugar no portfólio: talvez eles também possuam ações da empresa que está pioneirando na nova tecnologia, ou de uma empresa que está indo bem em um campo totalmente não relacionado. Os acionistas com um portfólio diversificado não se preocupam com os riscos idiossincráticos de uma empresa, ou seja, aqueles riscos que não estão correlacionados com as flutuações do mercado como um todo. Esses riscos, sendo não correlacionados, tendem a se cancelar mutuamente ao longo do portfólio.

No entanto, eles se preocupam com a extensão em que os retornos de uma empresa se movem com a economia como um todo — quão exposta ela está ao ciclo de negócios. Isso não pode ser diversificado, mas algumas empresas e alguns projetos de investimento são mais expostos do que outros. Por exemplo, restaurantes podem ser altamente expostos às flutuações da demanda do consumidor, enquanto produtos alimentícios essenciais são "à prova de recessão". A sensibilidade de um ativo às flutuações do mercado é medida como seu beta. Os acionistas individuais são livres para escolher seu próprio nível de exposição ao escolher a combinação de ações em seu portfólio e combiná-las com valores do governo praticamente sem risco. Eles só estarão dispostos a manter ativos de alto beta se esperarem que esses ativos tragam retornos maiores, em média.

Isso dá a uma empresa capitalista uma métrica para avaliar seus projetos de investimento potenciais. Os princípios padrão das finanças corporativas afirmam que uma empresa deve investir em um projeto se sua taxa de retorno esperada for alta o suficiente para compensar sua sensibilidade aos riscos de mercado. A avaliação depende de estimativas tanto dos retornos esperados sobre o investimento ao longo do tempo quanto do perfil de risco. Nenhum desses é algo simples de estimar. A experiência média passada em projetos semelhantes pode ser usada para estimar o perfil das possibilidades futuras — mas, claro, as situações nunca se repetem exatamente, a economia evolui, e não há garantia de que o passado seja um bom guia para o futuro. Nem sempre é fácil escolher comparações apropriadas contra as quais o projeto deve ser julgado: a empresa inteira, um conjunto de empresas semelhantes, ou um conjunto de empresas especializadas no tipo de projeto em consideração. A métrica, então, não pode ser usada mecanicamente, mas fornece uma estrutura para reunir dados e julgamento para decidir se um investimento é um bom uso dos recursos — se isso for julgado em termos de maximizar o retorno para um nível escolhido de risco.

Isso pode ser adaptado para o planejamento de investimentos socialista? Idealmente, os arranjos financeiros são configurados para aproveitar a capacidade dos bancos de reduzir o risco por meio da diversificação. Eles permitirão que as empresas democráticas invistam em projetos com um nível de risco socialmente desejável, enquanto evitam o risco moral e mantêm os incentivos para que as empresas busquem eficiência. No sistema proposto aqui, as empresas terão geralmente uma parceria de longo prazo com um banco público, que fornece não apenas financiamento, mas também aconselhamento. Os bancos podem até ter desempenhado um papel ativo na criação da empresa. Mas é possível que as empresas troquem de banco, obtendo um melhor negócio ou uma segunda opinião sobre um projeto não favorecido pelo parceiro atual.

Um projeto de investimento potencial — seja uma nova empresa ou a expansão de uma empresa existente — pode ser analisado de uma forma familiar. Começa com uma previsão de fluxo de caixa: o custo dos investimentos iniciais, o custo de manutenção posterior e a receita líquida (após outros custos) do uso dos ativos durante sua vida útil. A previsão inclui uma estimativa central dos fluxos de caixa líquidos esperados em cada período, bem como análises de cenários considerando riscos positivos e negativos. Os arranjos financeiros específicos fazem uma grande diferença em saber se os membros da empresa aprovarão o investimento. Se os empréstimos de taxa fixa forem o único financiamento disponível, a renda dos membros está totalmente exposta aos riscos. Mesmo que a renda esperada seja mais do que suficiente para cobrir os pagamentos de juros, os riscos negativos — por exemplo, devido à demanda aquém do esperado ou aumento de custos — podem ser substanciais. Sem um colchão de capital próprio, os membros trabalhadores poderiam facilmente ver suas rendas pessoais drasticamente reduzidas em tempos difíceis, para que a coletividade possa cumprir suas obrigações e a empresa não fique vulnerável à insolvência. Como a empresa individual não pode diversificar os riscos idiossincráticos, os membros enfrentam toda a gama de coisas que podem dar errado, desde uma mudança nos gostos dos consumidores até um choque no preço da energia.

No entanto, se os bancos puderem oferecer financiamento de taxa variável, a situação se transforma. Existem várias maneiras possíveis de estruturar isso, com soluções diferentes adequadas a diferentes tipos de negócios. Por exemplo, esses elementos podem ser usados sozinhos ou em combinação:

  • Parte ou todo o pagamento ao banco varia com a receita da empresa (receita líquida de custos).
  • O banco garante um certo nível mínimo de renda para a empresa, segurando a renda dos membros contra o risco negativo após certo ponto.
  • O banco possui os ativos usados pela empresa, cobrando um aluguel cuja taxa varia de acordo com os benchmarks da indústria e as condições econômicas. O banco assume os riscos (positivos e negativos) da propriedade do ativo, enquanto a empresa converte um custo fixo em um variável.

Em cada caso, o banco assume alguns dos riscos, mas recebe um pagamento médio maior em retorno. Isso transforma o perfil de risco de um investimento sob a perspectiva dos membros da empresa: os fluxos de caixa para o financiador são feitos para se correlacionar com as entradas de receita incertas e outros fluxos de custos. A proteção contra o risco vem ao custo de uma menor renda esperada, mas há muito espaço para uma troca benéfica. Os membros trabalhadores da empresa serão mais avessos ao risco com sua renda laboral — seu ganha-pão — do que as pessoas e o erário com sua renda proveniente da riqueza. Além disso, porque os bancos têm um portfólio diversificado, o risco idiossincrático não tem custo para eles — eles precisam apenas cobrar de acordo com a força da relação entre os retornos sobre o instrumento negociado com a empresa e os altos e baixos de todo o mercado.

O preço do risco no sistema, em última instância, depende das configurações políticas e potencialmente das preferências dos depositantes bancários. Existem requisitos regulatórios de capital e liquidez nas folhas de balanço dos bancos. O tesouro público, como proprietário final e credor residual dos bancos, pode estabelecer limites aceitáveis para a volatilidade dos retornos bancários e disciplinar a gestão que não os atenda. Mas se os depositantes bancários privados estiverem dispostos a assumir mais risco com parte de sua riqueza, pode-se permitir que os bancos transfiram parte da volatilidade para eles. Eles fariam isso oferecendo alternativas aos depósitos, produtos com retornos mais altos e variáveis, sem o principal garantido dos depósitos. Essencialmente, seriam fundos mútuos, com os fundos dos clientes agrupados e atrelados a grupos diversificados de investimentos em empresas específicas. Os detentores desses fundos desfrutariam de retornos médios mais altos, mas também assumiriam o risco de retornos mais baixos.

Prever os retornos esperados de um projeto de investimento e avaliar seu perfil de risco depende do acesso a uma ampla gama de dados sobre tendências de mercado e produção. Também exige julgamento especializado para tirar conclusões informadas sobre o futuro a partir da experiência histórica. Os bancos estarão bem posicionados para coletar uma ampla gama de informações de suas empresas parceiras, e pode haver requisitos mais amplos para a divulgação pública de dados contábeis e de produção. Como utilitários públicos, os bancos terão a autoridade para ajudar as empresas democráticas com seu planejamento e tomada de decisões. Empresas pequenas, em particular, não terão seus próprios especialistas financeiros e dependerão de um banco para aconselhamento.

Essas parcerias financeiras permitem que o risco seja agrupado em nível social, ao mesmo tempo que deixam os incentivos para as empresas democráticas valorizarem a eficiência e busquem melhores formas de fazer as coisas. As avaliações de risco e retornos esperados dos bancos são baseadas em benchmarks da indústria e da economia como um todo. Como os membros permanecem os credores residuais do lucro, eles têm algo a ganhar quando sua empresa supera esses benchmarks. O fato de os membros de uma empresa poderem ser segurados contra as consequências imediatas das perdas na renda não os isenta indefinidamente. Quando chegar a hora de refinanciar, essas experiências serão revisadas e levadas em conta nos arranjos futuros: elas podem ser avaliadas como períodos temporários de má sorte, como um sinal de que as previsões originais estavam equivocadas, ou como uma indicação de que mudanças econômicas tornaram inviável a continuidade do projeto.

Eficiência democrática

A proposta apresentada aqui baseia-se em décadas de debates sobre democracia no local de trabalho e socialismo de mercado. Como um esboço, ela aborda, mas não aprofunda, muitos problemas que ainda precisam ser discutidos. A intenção é reunir novamente essas vertentes do pensamento socialista e iniciar uma conversa mais ampla sobre suas possibilidades e dificuldades.

Uma das maiores influências aqui é o trabalho de Jaroslav Vanek, que propôs uma economia de mercado igualitária com produção realizada por empresas democráticas. Seu monumental livro de 1970, The General Theory of Labor-Managed Market Economies, cristalizou o conceito de empresas democráticas na literatura econômica da década de 1970. Sua abordagem foi modelar empresas geridas por trabalhadores utilizando as ferramentas econômicas familiares da economia neoclássica.

A estratégia de Vanek foi semelhante à de Oskar Lange no debate sobre o cálculo socialista décadas antes: usar a teoria neoclássica padrão para defender um sistema socialista. E, assim como Hayek respondeu a Lange argumentando que os pressupostos neoclássicos ignoravam características importantes da realidade capitalista, também os críticos de Vanek fizeram o mesmo. Para esses autores dos anos 1970, a fraqueza fatal da empresa democrática estava na estrutura de incentivos que ela estabelecia, levando ao chamado “problema do horizonte” e aos problemas de propriedade comum já discutidos anteriormente. Constatou-se, afinal, que os direitos de propriedade, os instrumentos financeiros e as hierarquias gerenciais do capitalismo estavam bem adaptados para coordenar a complexa divisão moderna do trabalho. A nova economia dos direitos de propriedade, custos de transação, problemas de agência, incentivos, informação e finanças nasceu, em parte, do confronto com a ideia de empresa democrática.

Uma segunda onda de pensamento sobre locais de trabalho democráticos surgiu nos anos 1990, como parte de um surto de reflexão sobre alternativas após o colapso do Bloco do Leste — também o contexto no qual surgiu o modelo original de socialismo de mercado de John Roemer. Sam Bowles e Herbert Gintis (entre outros) colocaram a chamada “economia pós-walrasiana”, antes usada contra Vanek, a serviço da democracia no local de trabalho. Eles argumentaram que a relação de emprego capitalista é uma “troca contestada”, pois o que os empregadores querem de seus trabalhadores não pode ser completamente especificado em contratos executáveis. O que eles querem é esforço, mas o que pagam é tempo. Obter esforço dos trabalhadores depende de uma combinação de monitoramento e lealdade, punições e recompensas — todos elementos com custos. Com os arranjos institucionais corretos, empresas democráticas poderiam superar as capitalistas em eficiência ao mobilizar mais lealdade com menos necessidade de vigilância custosa. Eles combinaram esse argumento de eficiência com um argumento normativo pela responsabilidade democrática no trabalho, formando uma poderosa defesa da gestão pelos trabalhadores.

Com os arranjos institucionais corretos, empresas democráticas poderiam superar as capitalistas em eficiência ao mobilizar mais lealdade com menos necessidade de vigilância custosa.

Mas, dentro dessa nova onda, o socialismo de mercado e a democracia no local de trabalho acabaram se dissociando. Por um lado, como vimos, John Roemer era no máximo agnóstico quanto à compatibilidade da gestão pelos trabalhadores com seu modelo, a visão mais conhecida de socialismo de mercado. Por outro lado, a literatura sobre gestão democrática passou a se concentrar cada vez mais em cooperativas dentro do capitalismo, em vez de como parte de um sistema socialista mais amplo. Essa tendência é exemplificada por The Labor-Managed Firm, de Dow, que revisa brilhantemente décadas de literatura teórica e empírica sobre locais de trabalho democráticos. O interesse de Dow pelo tema começou ao ler Vanek nos anos 1970, mas o contexto político já era muito diferente. A questão central do livro de Dow é: por que as empresas geridas por trabalhadores são tão raras no capitalismo, apesar das evidências de que são ao menos tão eficientes quanto as demais? Parte da resposta envolve as dificuldades que as cooperativas enfrentam para obter financiamento. Por isso, Dow sugere que elas se sairiam melhor se se autofinanciassem principalmente com lucros retidos — conclusão oposta à de Vanek. Como as perspectivas para uma transição sistêmica mais ampla parecem hoje remotas, as propostas modestas de Dow compreensivelmente se concentram em políticas que favoreçam coletivos dentro de um ambiente capitalista.

Este ensaio tem a vantagem de operar com um horizonte mais longo e abstrato. A intenção é delinear uma visão plausível de uma economia socialista sem considerar, neste momento, os problemas de como chegar até ela a partir da situação atual. Isso não significa negar que existam muitos desses problemas. Mas, se um deles for o ceticismo generalizado de que um sistema plausível possa ser construído, então esboços como este cumprem um papel.

Republicado de Catalyst: A Journal of Theory and Strategy.

Contribuidores
Mike Beggs é editor da Jacobin e professor de economia política na Universidade de Sydney.

Os quatro anos de AMLO no poder foram um sucesso

O presidente Andrés Manuel López Obrador subiu ao poder com a promessa de uma redistribuição maciça. Até agora, ele nacionalizou os estoques de lítio e aumentou o salário mínimo em 20%. Mas, para garantir essas reformas, ele precisará transformar as estruturas de poder do Estado mexicano e da mídia.

Kurt Hackbarth


Andrés Manuel López Obrador, presidente do México, com o punho levantado, cumprimenta os participantes durante um comício na Cidade do México, México, em 27 de novembro de 2022. (Jeoffrey Guillemard / Bloomberg via Getty Images)

Tradução / No domingo, 27 de Novembro, cerca de 1,2 milhões de pessoas inundaram a Cidade do México para celebrar o quarto aniversário da tomada de posse do Presidente Andrés Manuel López Obrador, ou AMLO.

Ao longo da avenida Paseo de la Reforma na capital, uma marcha festiva avançou em ondas que pareciam intermináveis. Grupos de tambores combinavam ritmos complicados com movimentos sincronizados. Brigadas de caminhantes de pernilongos abriram suas capas e exibiram seus trajes.

Grupos musicais, como a Banda Filarmônica Santa Rosa da região Mixe de Oaxaca, regalaram o público com melodias de todo o país. Havia dança tradicional e espontânea, chamadas e cantos, grupos universitários e sindicais, e contingentes organizados por estado. Na frente, o presidente marchou sem segurança, empurrando entre o empurrar e puxar da multidão.

No final do percurso, após um dia de marcha, somado a passeios de ônibus noturnos para muitos, o festival derramou-se nos bares e restaurantes do centro histórico como uma politizada Oktoberfest. Suado e queimado de sol, por sua vez, o presidente AMLO fez um discurso de hora e meia descrevendo as realizações de sua administração em termos de programas sociais, soberania energética, infra-estrutura, política de saúde, e muito mais.

Sempre pronto a cunhar uma nova frase, ele concluiu batizando a filosofia que sustenta seu movimento como “humanismo mexicano”. Notadamente ausentes do evento maciço e espalhado estavam as expressões de ódio, racismo e classismo que haviam caracterizado uma marcha menor de oposição duas semanas antes.

Em uma rápida virada de reciclagem linguística, os apoiadores do presidente tomaram os mais notáveis insultos nivelados a eles da reunião anterior — naco (pegajoso, humilde), indio (índio) e pata rajada (literalmente “pé rachado”, uma referência às solas abertas dos camponeses sem sapatos) — e se apropriaram deles como seus próprios em sinal e slogan.

A muito tímida “polarização” representada pela imprensa conservadora havia recuado para suas trincheiras nas mídias sociais, não podendo ser encontrada aqui entre essa multidão alegre e pacífica, que incluía muitos imigrantes que haviam arriscado voltar do exterior apenas para atender.

Analisando 2022

Há, de fato, um grande motivo para comemorar. A Quarta Transformação está completando seu quarto ano com alguns números sólidos: o crescimento econômico está ultrapassando as previsões; o investimento estrangeiro direto está em alta enquanto os pagamentos da dívida externa estão em baixa; o peso estava entre as moedas mais valorizadas em relação ao dólar em 2022, confundindo os especuladores que apostaram repetidamente contra ele durante o verão; e o desemprego está diminuindo, apesar do aumento das taxas de juros.

Na frente política, o presidente continua popular e seu partido, MORENA, está em uma posição forte nas primeiras eleições presidenciais de 2024.

Até mesmo o Economist, facilmente a voz mais histericamente anti-AMLO da imprensa anglófona, foi forçado a conceder a força do México entre os países da OCDE em uma comparação de indicadores econômicos para o ano.

Na frente política, as vitórias proeminentes de 2022 incluíram um aumento de 20% no salário mínimo — dando continuidade a uma série de saltos anuais que deverão dobrar o salário em termos reais até o final do mandato de seis anos da AMLO — e o dobro dos dias de férias pagas obrigatórias, passando de seis para doze, até um máximo de trinta e dois dias, dependendo dos anos consecutivos de emprego.

Em abril, o México nacionalizou suas lojas de lítio, que estão entre as maiores no mundo. Isto fez parte de um segundo golpe na política energética que viu a Lei da Indústria Elétrica da AMLO, que aumenta o controle público sobre a rede nacional, ser julgada constitucional pela Suprema Corte. Ainda no mesmo mês, AMLO ganhou com facilidade a primeira eleição de recall da nação, cumprindo uma promessa de campanha de se submeter a uma metade de sua presidência.

Não é surpreendente que as maiores manchetes internacionais tenham se concentrado em assuntos externos.

Em maio, AMLO advertiu que se recusaria a participar da Cúpula das Américas em Los Angeles, Califórnia, a menos que todos os países latino-americanos estivessem representados; a confusão resultante por membros do Departamento de Estado dos Estados Unidos se espalhou por várias semanas, até que o presidente mexicano cumpriu com sua promessa de não participar (ao mesmo tempo, no entanto, ele continua pressionando por uma integração continental da América Latina com os Estados Unidos e o Canadá, o que poderia trancar a região em uma camisa de força da qual não haveria escapatória).

Em um discurso no Dia da Independência em setembro, ele tomou uma posição independente sobre a guerra na Ucrânia, criticando a ineficácia das Nações Unidas e o sofrimento produzido tanto pelas sanções quanto pelos carregamentos de armas. Não se pode evitar a suspeita, concluiu ele, “de que a guerra está sendo alimentada pelos interesses da indústria de armas”.

E em dezembro, a AMLO se manteve firme contra o golpe do Congresso contra Pedro Castillo no Peru, recusando-se a reconhecer o regime de facto de Dina Boluarte enquanto os Estados Unidos e a Europa se apressavam em fazê-lo.

Em 12 de dezembro, o México assinou um comunicado com quatro países —Argentina, Bolívia e Colômbia — criticando o assédio ao qual Castillo foi submetido desde o início de seu mandato presidencial e apelando para que o voto popular que o elegeu fosse respeitado.

Em 20 de dezembro, o regime Boluarte expulsou o embaixador mexicano, Pablo Monroy. No dia seguinte, a esposa e os filhos de Castillo chegaram ao México, o último de uma longa tradição de refugiados políticos a receber asilo no México.

#SiguesTuAMLO
Horas depois que Castillo foi preso, um hashtag Twitter bem financiada apareceu no México: #SiguesTuAMLO (Você é o próximo, AMLO, em tradução livre). Inspirado tanto pelos acontecimentos no Peru quanto pela sentença de prisão proferida contra a vice-presidente argentina Cristina Kirchner no dia anterior, a direita latino-americana golpista aproveitou o momento, fomentando um efeito dominó artificial nas mídias sociais.

AMLO não corre o risco de ser afastado do cargo e zombou abertamente da hashtag em uma coletiva de imprensa na manhã do dia seguinte. Mas quando golpes institucionais se tornaram a arma de escolha das elites de todo o continente — Brasil, Paraguai e Bolívia, alguns dos exemplos de maior destaque na última década — a pergunta deve ser feita: que medidas estão sendo tomadas para evitar tal tomada de poder no México?

Pois apesar das reformas positivas, a estrutura de poder essencial no México permanece muito semelhante ao que era em 2018. Apesar de não receber o orçamento público de administrações anteriores para manter o conluio estatal, a oligarquia da imprensa corporativa permanece controlando o rádio, televisão e mídia impressa, batendo constantemente contra qualquer político ou figura pública que desvie um centímetro da ortodoxia.

Um pequeno grupo de bancos multinacionais mexicanos controla os depósitos, empréstimos e fundos de pensão do país, apesar dos avanços tecnológicos elaborados pelo banco estatal. A Igreja Católica, embora menos influente do que em anos passados, continua a ser um poder importante nos bastidores. A Academia e os círculos culturais oficiais são dominados por conservadores disfarçados de progressistas “mais santos do que você”.

As grandes empresas continuam a controlar os principais recursos naturais sob a forma de concessões de mineração e direitos sobre a água. A grande maioria dos malfeitores de administrações anteriores permanece impune.

E as forças armadas, por sua vez, nunca foram tão fortes: inundadas de aumentos orçamentários e de uma lista crescente de shows paralelos, os militares em breve acrescentarão à sua lista uma nova companhia aérea comercial e a administração do novo parque nacional no sítio arqueológico Uxmal.

Às vezes, parece não haver nenhum novo projeto público em nenhum lugar do país em que o secretário da defesa não tenha uma mão, garantidamente. E enquanto AMLO insiste que isso é para garantir que estes projetos não sejam privatizados no futuro, o binômio extremamente redutor de “privatização-ou-militar” começa a se desgastar — especialmente em cima da emenda constitucional aprovada este ano para permitir que as forças armadas continuem a desempenhar funções de policiamento por mais quatro anos, até 2028.

Essa política é provavelmente necessária diante do estado lamentável do policiamento e da potente capacidade ofensiva dos cartéis, continua a ser uma pílula amarga de engolir.

É claro que quatro anos não é suficiente para desfazer quarenta… ou quatrocentos. É inegável que esses poucos anos de luta e triunfo político propiciaram uma invejável politização entre o público — uma grande proeza em si. Mas parece haver uma ilusória confiança dos seguidores do “humanismo mexicano” de que o exercício das liberdades liberais e um pouco de redistribuição serão suficientes para dissolver estruturas de poder profundamente enraizadas.

Tão grande foi esse otimismo que uma das principais formas de AMLO em 2021 foi a remoção da imunidade parlamentar para o presidente. Projetada para responsabilizar o chefe executivo por corrupção e crimes cometidos no cargo, a medida também abre a porta para sua destituição em qualquer tipo de acusação falsa.

Em resumo, vale a pena perguntar que tipo de pacote AMLO deixará para uma futura administração MORENA, se seu partido continuar a ganhar, como indica atualmente, em 2024. O presidente é um político astuto e um comunicador dotado; mas seu sucessor pode muito bem não ser. E os chacais em constante ronda pelo Palácio Nacional não serão simplesmente persuadidos a ir embora. Por toda sua popularidade, a Quarta Transformação não tem o luxo de dizer “isso não pode acontecer aqui”.

Colaborador

Kurt Hackbarth é escritor, dramaturgo, jornalista freelancer e cofundador do projeto de mídia independente “MexElects”. Atualmente, ele é coautor de um livro sobre as eleições mexicanas de 2018.

Se repetirmos a fórmula da 1ª onda rosa, fracasso será estrondoso, diz Petro

Presidente da Colômbia afirma que progressistas da geração anterior não tinham clareza sobre crise climática e, por isso, cometeram erros

Sylvia Colombo

Folha de S.Paulo

Prestes a completar cinco meses como presidente da Colômbia, o primeiro líder de esquerda do país tem muitas expectativas em relação ao início da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil. "Temos de nos transformar num farol para o progressismo mundial. Todos estão nos olhando", diz Gustavo Petro.

Ele, porém, alerta: "Se repetirmos a fórmula da primeira onda rosa, o fracasso será estrondoso. É preciso construir uma agenda nova", afirma ele, em referência à geração de líderes de esquerda que governou na América Latina no final dos anos 1990 e no início dos 2000 e à tática de investir na "alta do preço de matérias-primas, entre as quais as fósseis, e basear nisso a redistribuição de riqueza para os pobres".

O presidente Lula, à dir., recebe o líder da Colômbia, Gustavo Petro, em encontro bilateral no gabinete do Palácio do Itamaraty, em Brasília - Pedro Ladeira - 2.jan.23/Folhapress

"O sucesso do Sudeste Asiático tem a ver com industrializar, agregar valor e investir em conhecimento. Nada disso foi feito aqui [América Latina], nem pela esquerda nem pela direita."

A agenda de discussão com o petista inclui a Amazônia, posições comuns da região em relação à crise climática e o convite para que o Brasil participe, como observador e garantidor, de um plano para que a Colômbia atinja a paz com grupos armados. Em Brasília para a posse de Lula, realizada no domingo (1º), Petro fez perguntas sobre a Amazônia, demonstra interesse no processo político brasileiro e se lembra de acompanhar a trajetória do presidente brasileiro desde a fundação do Partido dos Trabalhadores.

O cessar-fogo com cinco organizações armadas [ELN, Segunda Marquetalía, Estado Maior Central, Clã do Golfo e Autodefesas de Serra Nevada], por seis meses, é um grande avanço para a política de "paz total" pretendida por seu governo. Qual é o plano de trabalho para esse período? O cessar-fogo bilateral é uma atitude audaz e muito difícil de manter e vigiar, porque basta um ato de sabotagem isolado e tudo cai por terra. Mas estamos criando mesas de diálogo para começar a trabalhar. Já convidei, como países garantidores desse processo, Chile, Noruega, México e Cuba e vamos convidar o Brasil. A participação do Brasil será essencial, há coisas que devemos aprender juntos sobre como lidar com esses grupos.

Em seu encontro recente com o líder da Venezuela, Nicolás Maduro, o senhor disse: "Espero que o Brasil de fato queira formular políticas para a Amazônia". E, em mais de uma vez, mencionou que "o Brasil precisa entrar" nessa estratégia. O senhor teme que as propostas brasileiras não sejam tão ousadas para deter o desmatamento? O que ocorre é que o Brasil é determinante para que a Amazônia se salve ou não. Por mais esforço que façamos, se o Brasil não avançar, nenhum de nós se salva. Aqui [no Brasil] está a maior parte da floresta e aqui está mais desmatado. Podemos e devemos avançar juntos contra as máfias transnacionais que atuam lá, mas o Brasil é vital. Perdemos tempo nos últimos anos ao não ouvir do Brasil propostas nas últimas COPs, houve um isolamento do país nesse sentido e foi um retrocesso.

O que o senhor pensa quando ouve falar de uma nova onda de progressismo latino-americano? Da parte da Colômbia, vemos o potencial de que a região seja uma referência do progressismo no mundo. Talvez os movimentos latino-americanos recém-eleitos não tenham se dado conta, mas o mundo hoje nos olha. Temos responsabilidade. Antes éramos nós que olhávamos a Europa, ou mesmo a China. Hoje olham para [o presidente do Chile, Gabriel] Boric, para mim, para Lula, para [o líder do México] Andrés Manuel López Obrador. Se fracassarmos, fracassa o progressismo mundial. É por isso que me parece necessário construir um discurso que seja nosso para o século 21 e para a humanidade.

E quando esse progressismo é comparado com a chamada "onda rosa" dos anos 1990/2000? Esse primeiro progressismo cometeu erros. Lula, [o ex-presidente da Venezuela, Hugo] Chávez, [o ex-líder da Bolívia] Evo [Morales], [o ex-presidente do Equador, Rafael] Correa e [o ex-presidente da Argentina, Néstor] Kirchner não tinham clareza em relação à mudança climática. O foco era fazer crescer o preço das matérias-primas, entre as quais as fósseis, e basear nisso a redistribuição de riqueza para os pobres. Funcionou em partes, mas não tinha como ser duradouro. Porque no fundo o chamado "socialismo do século 21" tinha muitos componentes do socialismo do século 20: o estatismo, a vigilância e a influência de Cuba têm responsabilidade nisso. O sucesso do Sudeste Asiático tem a ver com industrializar, agregar valor e investir em conhecimento. Nada disso foi feito aqui, nem pela esquerda nem pela direita.

É um alerta para o atual progressismo? Sim, estamos falando de um segundo progressismo, inclusive com atores repetidos do primeiro. Se repetirmos a fórmula do primeiro, o fracasso será estrondoso. É preciso construir uma agenda nova, com a Amazônia como foco central, com reformas agrárias baseadas em conhecimento e na descarbonização. Aí teremos um discurso progressista que pode ser universal, que pode ser a saída da América Latina de seu atraso e que nos transforme em farol mundial do progressismo.

O senhor fala em farol mundial do progressismo, mas as forças da direita também estão fortes na América Latina, o bolsonarismo é uma delas. Como vê esse cenário? Como uma ameaça terrível. As extremas direitas são construídas a partir do medo. Na época do nazismo, era o medo da Revolução Russa. Os de agora são três: o medo da mulher, em sociedades patriarcais milenares, como estamos vendo no caso do Irã e em diferentes medidas em outras sociedades. O medo da imigração, que gera xenofobia. E o terceiro é a crise climática, à qual a extrema direita responde com negacionismo, mas que no fundo vê como uma alteração de seu modo de viver, de suas comodidades. Esses três medos alimentam a extrema direita.

A imigração tende a crescer e a se tornar um problema terrível, não só porque é movida por guerras ou situações econômicas, mas também pela mudança climática. Neste sentido, a América Latina precisa ter políticas comuns. No [Estreito de] Darién [perigosa rota de imigração para os Estados Unidos], são populações de vários países da região, mas também asiáticos. Há desaparecidos, condições terríveis, e os EUA não têm como lidar com isso sem uma posição latino-americana comum.

Há cada vez mais temas transnacionais na região, como o narcotráfico. Por isso deveríamos nos esforçar para fortalecer a Convenção Interamericana de Direitos Humanos. O tema da Venezuela passa por aí. Como estabelecer um diálogo com um país que está fora dela e cujas sanções não permitem nada mais que o isolamento? A crise do Peru também poderia ter atuação desse organismo. Há muitos exemplos de como atuou no passado. Eu mesmo não perdi meus direitos políticos devido à atuação do órgão [Petro foi afastado pela Justiça por uma suposta irregularidade na coleta de lixo de Bogotá, cidade da qual foi prefeito, mas retornou ao cargo]. Na Argentina, durante a ditadura, suas denúncias foram essenciais.

O narcotráfico é um sistema cada vez mais internacional, e políticas isoladas de nada servem. Estamos diante de uma situação mil vezes pior que a da época de Pablo Escobar, em que perseguíamos as cabeças do tráfico e achávamos que estava resolvido —e nunca esteve. Não é por esse lado, não é pela repressão. É preciso descriminalizar o pequeno produtor, substituir cultivos e tratar essas redes de modo internacional. A política de repressão e de guerra às drogas já não funciona.

RAIO-X | GUSTAVO PETRO, 62

Primeiro presidente de esquerda da história da Colômbia, foi senador e prefeito de Bogotá. Nascido em Ciénaga de Oro, Petro está na política desde que estudava economia em Zipaquirá. Aos 17, ingressou na guerrilha M-19. Devido à atuação no grupo, foi preso por conspiração e porte ilegal de armas em 1985. Depois, rejeitou a luta armada e se elegeu para o Congresso.

2 de janeiro de 2023

Perspectivas e propostas para o sindicalismo

Reforma trabalhista não deve ser revogada, mas defendemos várias revisões

Miguel Torres
Presidente da Força Sindical e do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes

Folha de S.Paulo

O ano de 2023 inicia-se com novo governo e nova esperança, abrindo a perspectiva de novo modelo de país. São múltiplas as tarefas do movimento sindical para este novo caminho que aponta o Brasil.

Primeiramente, destaco que o movimento sindical irá desempenhar mais uma vez um papel histórico, oferecendo ao debate propostas e ideias para que o país volte a crescer de forma justa e igualitária.

Debate esse que deve estar nas bases sindicais, na sociedade e em todas as esferas de poder. Propostas aprovadas pela Conclat (Conferência Nacional da Classe Trabalhadora) em maio do ano passado.

É importante ressaltar que, ao lutar e conquistar direitos sociais e trabalhistas, o sindicalismo desempenha um papel central na construção e no fortalecimento da democracia, no desenvolvimento econômico e de políticas públicas.


Devemos intensificar a luta para superar a crise em que se encontra o Brasil e que se manifesta em todos os aspectos: econômico, social, ambiental e até mesmo internacional.

Nossos esforços irão se concentrar na recriação do Ministério do Trabalho (MT) e, também, da Previdência. Infelizmente, o governo anterior diminuiu o papel do MT e o transformou em um sistema inoperante e frágil.

O MT foi criado em 1930 e sempre cumpriu um papel importante. Sua função é discutir questões como as políticas necessárias para a evolução das relações de trabalho, fiscalização, formação para os trabalhadores e garantia de segurança e saúde. Esse ministério é importante para criar políticas de geração de trabalho e renda para enfrentar o desemprego e a informalidade.

Assim, as negociações coletivas e formas de financiamento sindical também devem ser prioridades e precisam ser fortalecidas. Para isso, devemos promover e incentivar essas negociações coletivas, como promoção de solução ágil dos conflitos, garantindo os direitos, ampliando a representatividade e a organização em todos os seus níveis.

Não queremos revogar a reforma trabalhista, mas defendemos a revisão de diversos pontos que são perversos para os trabalhadores —ou que geram dúvidas e muita judicialização, acarretando uma série de problemas. Vamos propor a normatização dos direitos para os trabalhadores de aplicativos, por exemplo.

As reformas trabalhistas dos governos Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL) tiveram como principal objetivo precarizar direitos e desestruturar as organizações sindicais.

O papel das entidades sindicais na negociação coletiva será de extrema importância. O sindicato é um instrumento da sociedade para fortalecer a democracia.

1 de janeiro de 2023

A OTAN e a longa guerra contra o Terceiro Mundo

O equilíbrio global da mudança de poder. A resistência ao impulso da OTAN para uma Nova Guerra Fria está crescendo, particularmente entre os países do Terceiro Mundo que têm historicamente suportado o peso dos projetos imperiais do Ocidente. É papel dos socialistas que vivem no núcleo imperial, escreve Paweł Wargan, apoiar os povos do Terceiro Mundo à medida que se levantam na nova era.

Paweł Wargan


Monthly Review Vol. 74, No. 08 (January 2023)

As pessoas me dizem: Coma e beba!
Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d'água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo[1]

- Bertolt Brecht

Os dois eixos da contrarrevolução

Tradução / Pela primeira vez na longa história do capitalismo, e de forma decisiva, o centro de gravidade da economia global está se deslocando para o leste. A balança comercial agora favorece a China, e as nações do Terceiro Mundo estão se preparando para o fim da era de hegemonia dos Estados Unidos, um período de desequilíbrios forçados que acelerou o subdesenvolvimento das sociedades pós-coloniais no sistema capitalista mundial. Os movimentos tectônicos desencadeados por este processo estremecem todo o globo. O assim chamado “mundo ocidental”, formado ao longo de séculos pelo poder de comando do capital, é impotente frente às catástrofes da fome, da pobreza e das mudanças climáticas. Impedidas de mobilizar seu poder econômico em benefício da sociedade - um processo que desafiaria a primazia da propriedade privada -, as antigas potências coloniais estão desviando recursos para a proteção da riqueza privada. O fascismo reergue sua cabeça, e as nações que procuram seguir o caminho do desenvolvimento soberano estão se tornando os novos alvos. Desse modo, o impulso contrarrevolucionário da velha Guerra Fria chega a um novo século, mais uma vez repleto de promessas e terror em igual medida.

No século XX, a contrarrevolução colonial se desdobraria ao longo de dois eixos geográficos. Um deles foi a guerra das nações ocidentais contra a propagação dos processos emancipatórios desencadeados no leste. Em 1917, homens e mulheres de mãos calejadas e testas suadas tomaram de assalto o poder na Rússia. Eles alcançariam aquilo que até então nenhum povo fora capaz de alcançar. Eles construíram um Estado industrializado não só capaz de defender sua soberania tão duramente conquistada, mas também de projetá-la em direção àqueles que viviam sobre o jugo do colonialismo. O toque de clarim [da Revolução] de Outubro seria ouvido em todo o mundo. Para Ho Chi Minh, ela resplandeceu como um “sol brilhante (…) sobre os cinco continentes.” Trouxe, nas palavras de Mao Zedong, “enormes possibilidades de emancipação para os povos do mundo, abrindo caminhos realistas nessa direção.” Anos mais tarde, Fidel Castro diria que “sem a existência da União Soviética, a revolução socialista em Cuba teria sido impossível”. Os descalços, os analfabetos, os famintos e aqueles cujas costas foram retesadas pelo arado, aprenderam que também poderiam se levantar contra as humilhações do colonialismo e vencer.

Em 1919, Leon Trótski escreveu o Manifesto da Internacional Comunista aos Proletários do Mundo Inteiro, que seria aprovado por 51 delegados no último dia do Primeiro Congresso da Internacional Comunista. O Manifesto enxergava a Primeira Guerra Mundial como uma disputa para manter as rédeas do mundo colonial sobre a humanidade:

As populações coloniais foram arrastadas para a guerra europeia numa escala sem precedentes. Indianos, negros, árabes e malgaxes lutaram em territórios da Europa – pelo quê? Pelo direito de permanecerem escravos da Grã-Bretanha e da França. Nunca antes a infâmia do domínio capitalista nas colônias foi delineada tão claramente; nunca antes o problema da escravidão colonial foi posto de forma tão drástica como hoje.

Se essa guerra foi uma expressão da competição imperialista pela divisão dos despojos do colonialismo, então o principal dever do internacionalismo era atacar o imperialismo. Essa foi a mensagem que o revolucionário indiano M. N. Roy levou ao Segundo Congresso da Internacional Comunista. "O capitalismo europeu extrai a maior parte de sua força não tanto dos países industriais da Europa, mas de suas possessões coloniais", como escreveu em suas Teses Suplementares sobre a Questão Nacional e Colonial.[2] Uma vez que os super lucros das classes dominantes imperialistas eram abastecidos pela sistemática pilhagem das colônias, a libertação dos povos colonizados também levaria ao fim do imperialismo - um desafio que os trabalhadores dos Estados capitalistas, alimentados e vestidos pela pilhagem imperial, não aceitariam. "A classe trabalhadora europeia só conseguirá derrubar a ordem capitalista quando a fonte de seus lucros tiver sido, finalmente, interrompida", escreveu Roy. Informada por estas intervenções, a Internacional Comunista se atribuiu a tarefa de organizar as massas camponesas e proletárias nas colônias. Dos nacionalistas anti-imperialistas aos pan-islâmicos, estes grupos representaram a vanguarda da luta anticolonial revolucionária. A União Soviética estenderia “uma mão amiga a essas massas", disse V. I. Lênin - a Revolução de Outubro estava a todo vapor.[3]

A instauração de um Estado hostil ao capitalismo e à dominação colonial era inadmissível para as potências imperialistas. Nas primeiras três décadas de sua existência, a União Soviética girou nas mãos de invasores. Nos últimos anos da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha imperial deu passagem às potências da Entente, entre elas o Reino Unido e os Estados Unidos, que deram suporte ao Exército Branco czarista em sua guerra para preservar o domínio da burguesia na Rússia. Depois, veio a Alemanha de Adolf Hitler. Se o movimento nazista pegou a Europa desprevenida, suas raízes podres eram de fácil percepção para os povos colonizados do mundo. Em 1900, W. E. B. Du Bois alertava que a exploração do mundo colonizado seria fatal para os “altos ideais de justiça, liberdade e cultura” da Europa. Cinquenta anos depois, esse alerta seria ecoado, furiosa e solenemente, por Aimé Césaire. “Antes de serem suas vítimas”, escreveu, os europeus foram cúmplices dos nazistas: "eles toleraram esse nazismo até que o mesmo lhes fosse infligido (...) o absolveram, fecharam os olhos para ele, legitimaram-no porque, até então, era posto em prática somente contra povos não europeus."

É impossível desvencilhar a missão de Hitler do longo projeto colonialista europeu, ou da expressão particular que ela encontrou no colonialismo de povoamento estadunidense. Hitler admirava abertamente a forma como os Estados Unidos haviam “atirado em milhões de redskins[2] até reduzi-los a algumas centenas de milhares, mantendo agora os poucos remanescentes cercados e sob observação.” A guerra de extermínio empreendida pelo regime nazista buscou nada menos que a colonização da Europa Oriental e a escravização de seu povo, a fim de conquistar o “Leste Selvagem” do mesmo modo que os colonos estadunidenses conquistaram o “Oeste Selvagem”. Dessa maneira, o nazismo deu continuidade à tradição colonial contra a esperança emancipatória despertada em outubro de 1917 – razão pela qual o filósofo italiano Domenico Losurdo se referiu ao nazismo como sendo a primeira contrarrevolução colonial. Em 1935, Hitler disse que a Alemanha se firmaria como “o baluarte do Ocidente contra o bolchevismo”.

Precisamente porque o fascismo prometia preservar a estrutura de propriedade do capital, o Ocidente se manteve condescendente e sem escrúpulo frente a ele, antes, durante e após a guerra. No Reino Unido, que desde o início financiou a ascensão de Benito Mussolini, Winston Churchill expressou abertamente sua simpatia pelo fascismo como uma ferramenta contra a ameaça comunista. Nos Estados Unidos, Harry S. Truman mal tentou esconder o cínico oportunismo que ainda hoje caracteriza o establishment estadunidense. “Se percerbemos que a Alemanha está vencendo, devemos ajudar a Rússia. Se a Rússia estiver vencendo, devemos ajudar a Alemanha, e, desta forma, deixá-los matar tantos quanto possível”, disse o futuro presidente na véspera da Operação Barbarossa, que cobraria 27 milhões de vidas soviéticas. Mais tarde, o New York Times iria enaltecer esta “atitude” como uma preparação para a “firme política” de Truman quando presidente. Essa firmeza implicaria o primeiro e único uso de armas nucleares na história – “um martelo” contra os soviéticos, como Truman certa vez se referiu à bomba. As cinzas de Hiroshima e Nagasaki tingiriam a Guerra Fria durantes as décadas seguintes, intoxicando seus arquitetos com a promessa de onipotência. Em 1952, Truman considerou dar um ultimato à União Soviética e à China: ou se adequavam ou todas as unidades de produção industrial, de Stalingrado à Xangai, seriam incineradas. Do outro lado do Atlântico, Churchill também desfrutou do brilho atômico. Alan Brooke, chefe do Estado-Maior Imperial britânico, registrou em seus diários que Churchill “se via capaz de eliminar todos os centros industriais russos”. Com o advento da bomba atômica, a supremacia branca adquiriu um poder supremo.[5]

A ameaça de aniquilação fez com que a União Soviética acelerasse seu próprio programa nuclear, comprometendo muito de seu projeto político. A URSS conseguiria alcançar a paridade militar com os Estados Unidos, mas as restrições impostas pela corrida armamentista limitaram seu desenvolvimento social. Pesados encargos econômicos e políticos acumulavam-se sobre o jovem Estado. Encargos estes que seriam assimilados e amplificados pela “Doutrina de Contenção” de George Kennan – um abrangente conjunto de políticas concebido para isolar a União Soviética e limitar a “propagação do comunismo” em todo o mundo. Frente a uma nova série de contradições que não poderiam ser resolvidas militarmente, por receio de mútua destruição, a política estadunidense procurou “aumentar imensamente a pressão” sobre a governança soviética, a fim de “promover tendências que, mais cedo ou mais tarde, devem encontrar sua saída na desintegração ou no gradual enfraquecimento do poder soviético”.

No fim da década de 1980, acelerado pelas contradições de seu processo socialista, as pressões materiais, políticas e ideológicas sobre a governança soviética tornaram-se insuportáveis. Talvez movido por uma fé ingênua na détente com o Ocidente, a administração Mikhail Gorbachev introduziu reformas através de um processo que deixou de lado o Partido Comunista da União Soviética e pavimentou o caminho para a oposição se consolidar em torno da figura de Boris Yelstin, que desmantelou a URSS. O povo soviético pagaria um preço altíssimo – um preço que foi particularmente mais alto na Rússia.

Na década de 1990, a Rússia experimentou uma profunda queda nos padrões de vida, na medida em que os bens públicos foram capturados por uma burguesia que rapidamente buscou as graças do capital financeiro ocidental. O PIB do país caiu 40%. Seus insumos industriais diminuíram 50% e os salários reais despencaram à metade do que eram em 1987. O número de pobres aumentou de 2,2 milhões, entre 1987 e 1988, para 74,2 milhões entre 1993 e 1995 – de 2% para 50% da população em pouco mais de cinco anos. A expectativa de vida regrediu cinco anos para os homens e três anos para as mulheres, e milhões de pessoas morreram sob o regime de privatizações e terapia de choque entre 1989 e 2002.

Naquele tempo, de colapso e depravação, meio milhão de mulheres russas foram vítimas de tráfico humano para a escravidão sexual. À medida que os instrumentos ocidentais de colonização começaram a penetrar por cada rachadura, brecha e poro, histórias similares foram surgindo em toda a União, que se desintegrava. É revelador que essa tenha sido a única vez que a Rússia foi considerada amiga pelo Ocidente.

A ofensiva contra a União Soviética foi um dos eixos na guerra contra a emancipação humana. O outro ficaria mais evidente após a Segunda Guerra Mundial, à medida que os Estados Unidos emergissem como potência hegemônica. Não consumada no campo de batalha europeu, a Guerra Fria entre as nações do Oriente e do Ocidente converteu-se em uma histórica e violenta investida do Norte contra o Sul. Da Coreia à Indonésia, do Afeganistão ao Congo, da Guatemala ao Brasil, dezenas de milhões de vidas foram sacrificadas numa batalha entre as forças populares e as metamorfoses de um imperialismo que não tolera ser contrariado em sua compulsão extrativista.

Se os Estados Unidos e seus aliados não podiam derrotar a União Soviética em um enfrentamento militar direto, colocariam a violência extrema a serviço de uma grande estratégia, que desde 1952 já buscava estabelecer “nada menos que a preponderância de poder”. Como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm, a violência desencadeada neste período – tanto a violência real, quanto sua ameaça potencial – poderia “razoavelmente ser considerada uma Terceira Guerra Mundial, embora de tipo bem peculiar”; com o advento da bomba atômica, as zonas frias desta guerra mundial têm ameaçado, de tempos em tempos, incinerar da existência toda a humanidade. Assim, em meio a estes dois eixos da Guerra Fria, encontramos uma batalha histórica entre forças rivais de emancipação e de submissão.

A luta nunca terminou. O que houve foi o adiamento do projeto de emancipação humana, sua promessa de dignidade foi colocada em espera. De Angola à Cuba, nações que dependiam dos laços de solidariedade com a URSS foram devastadas pelo seu colapso. Se o poder soviético agia como uma forma de freio sobre a beligerância dos Estados Unidos, a unipolaridade inaugurou uma era de impunidade. Os Estados Unidos encontraram liberdade quase total para influenciar ou derrubar os governos que se opusessen a ele; cerca de 80% das intervenções militares dos EUA após 1946 ocorreram depois da queda da URSS. Do Afeganistão à Líbia, estas terríveis guerras serviram tanto para fortalecer o projeto militarista dos Estados Unidos quanto para sinalizar que dissidências não seriam toleradas fora de suas fronteiras. Agindo assim, ajudaram a manter um desequilíbrio cruel no sistema capitalista global, condenando os Estados do Terceiro Mundo a uma posição de permanente subdesenvolvimento para proteger a ganância insaciável e predatória dos monopólios ocidentais.

Essa foi a relevância da visão de Lênin sobre o imperialismo e sua aplicação no projeto da Terceira Internacional. Em um estágio avançado, escreveu Lenin, o capitalismo exportará não apenas mercadorias, mas também o próprio capital – não apenas carros e produtos têxteis, mas também fábricas e usinas de fundição, indo além das fronteiras nacionais em busca de trabalhadores para explorar e de recursos para saquear. Este processo disciplina os trabalhadores nos países de capitalismo avançado, que são amordaçados pela ameaça do desemprego pairando sobre eles e apaziguados pelo bem-estar [social] que a pilhagem imperialista torna possível.

Os países de capitalismo avançado se desenvolvem explorando seu próprio povo e os povos e recursos de territórios distantes. Essa relação essencialmente parasitária assegura, na condição do interesse nacional, a lucratividade e a contínua expansão dos monopólios ocidentais, valendo-se, em último caso, da força bruta. Na cadeia de exploração global, os Estados do Terceiro Mundo não podem esperar alcançar um nível de desenvolvimento significativo. Por sua vez, o subdesenvolvimento econômico impede a transformação social. Um povo que não pode comer ou ir à escola, que não pode tratar seus doentes ou viver em paz, não pode promover liberdade nem criatividade.

Este subdesenvolvimento se reflete no caráter de seus Estados, assim como na capacidade de estabelecer relações com os outros e se defender contra ameaças. Dessa forma, o poder totalizador do imperialismo distorce os processos sociais e econômicos, tanto no bloco imperialista quanto nos Estados que buscam seguir caminhos de desenvolvimento soberano. É por isso que a batalha entre o imperialismo e a descolonização deve ser entendida como a principal contradição – uma batalha capaz de determinar o futuro da humanidade.

Onde nós encontramos esse imperialismo hoje? Nós o encontramos entre os dois bilhões de pessoas que lutam para comer. Nós o encontramos na fragilidade, no conflito ou na violência que dois terços da humanidade enfrentarão na próxima década. Nós o encontramos nos tantos meios de subsistência que são frequentemente arruinados pela elevação das marés ou em campos assolados pela seca e pelas areias dos desertos que avançam lentamente, assim como entre o bilhão de pessoas que não possuem um único par de sapatos.

Nós o encontramos na árdua marcha de dezenas de milhões de camponeses de subsistência, que a cada ano são forçados a deixar suas terras em função da miséria e da violência – uma permanente fuga do capitalismo, incomparável mesmo aos mais fantasiosos números de “dissidentes” e “fugitivos” do comunismo. Nós o encontramos no ouro e no cobalto, nos diamantes e no estanho, nos fosfatos e no petróleo, no zinco e no manganês, no urânio e na terra, com cujas expropriações se vê o crescimento da sede das corporações e instituições financeiras ocidentais, em proporções cada vez mais impressionantes. O desenvolvimento do mundo ocidental, assegurado por sua contrarrevolução global, é a imagem espelhada da miséria do Terceiro Mundo.

A OTAN e a contrarrevolução

Assim como o projeto fascista, a OTAN foi forjada no anticomunismo. As cinzas da Segunda Guerra ainda não haviam assentado na Europa, e os Estados Unidos já estavam ocupados, reabilitando ditadores fascistas, de Francisco Franco na Espanha a Antônio de Oliveira Salazar em Portugal. (Este último, tornou-se membro fundador da Aliança do Atlântico Norte.) Os Estados Unidos e a Europa ocidental absorveram milhares de fascistas em instituições de poder, através de anistias que violavam pactos dos Aliados sobre o retorno de criminosos de guerra. Isso incluiu figuras como Adolf Heusinger, oficial nazista sênior e adjunto de Hitler. Adolf Heusinger foi procurado pela União Soviética em função dos crimes de guerra, mas o Ocidente tinha outros planos. Em 1957, Adolf Heusinger tornou-se chefe das Forças Armadas da Alemanha Ocidental, atuando mais tarde como presidente do Comitê Militar da OTAN. As operações sigilosas “stay-behind”[4] cultivaram uma nova geração de militantes em toda a Europa, com a finalidade de obstruir projetos políticos de esquerda – desde pelo menos 1948, a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) direcionou milhões de dólares em financiamentos anuais para grupos de direita apenas na Itália, e deixou claro que estava “disposta a intervir militarmente” se o Partido Comunista tomasse o poder no país. Centenas de pessoas foram massacradas em ataques realizados por esses grupos, muitos dos quais foram associados à esquerda – parte de uma “estratégia de tensão” que aterrorizava as pessoas para que elas abandonassem sua lealdade aos movimentos socialistas e comunistas em ascensão. O mandato da OTAN derivou explicitamente da “ameaça representada pela União Soviética”, e a crescente popularidade do comunismo fora da URSS também entrou em seu raio de ação. Desta forma, a OTAN restringiu as escolhas democráticas e debilitou a segurança dentro dos Estados-membros, decidindo as contradições políticas em favor da ordem capitalista e de seus representantes de direita.

As obscuras atribuições da OTAN não pararam por aí. Se Trótski viu na Primeira Guerra Mundial uma jogada cínica para que o mundo colonizado se comprometesse com o projeto de sua própria submissão, Walter Rodney percebeu as mesmas forças em ação na violenta empreitada da OTAN sobre o continente africano: “Virtualmente, a África setentrional foi transformada em uma área de operações da OTAN, com bases apontando para a União Soviética (…) As evidências indicam, sempre de novo, a cínica utilização da África como contraforte econômico e militar do capitalismo, forçando o continente a contribuir efetivamente para sua própria exploração”.

Ao lado de projetos como o da União Europeia, a OTAN transformou a ordem imperialista. Se a primeira metade do século XX parecia destinada a infindáveis conflitos interimperiais sobre os despojos do colonialismo, a partir da década de 1950 um novo e coletivo imperialismo estava em formação. Acordos de comércio globais e infraestruturas de crédito projetadas pelas antigas potências coloniais fariam com que os despojos da extração imperial fossem, cada vez mais, compartilhados entre elas. Elas também reuniram seus instrumentos de violência. Em 1965, o revolucionário guineense Amílcar Cabral descreveu como a brutalidade conjunta do Ocidente penetrou na África através da OTAN, apoiando o regime de Salazar na guerra contra as colônias de Portugal em Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde:

A OTAN é os Estados Unidos. Temos capturado em nosso país muitas armas estadunidenses. A OTAN é a República Federal da Alemanha. Temos recolhido muitos rifles Mauser com os soldados portugueses. A OTAN, ao menos por ora, é a França. Há helicópteros Alouette em nosso país. A OTAN, em certa medida, também é o governo daquele heroico povo que ofereceu tantos exemplos de amor à liberdade: o povo italiano. Sim, apreendemos dos portugueses metralhadoras e granadas de fabricação italiana.

Armas de guerra, que hoje refletem a completa diversidade do “mundo livre”, infestam todas as linhas de frentes do imperialismo, da Ucrânia e do Marrocos a Israel e Taiwan. Essa violência encontraria sua principal força no nó central do imperialismo, os Estados Unidos, que há muito tempo almejava a hegemonia total – uma aspiração que a ruína da União Soviética tornou irresistível. Em 7 de março de 1992, o New York Times publicou um documento vazado contendo os planos de hegemonia estadunidense na era pós-soviética. “Nosso primeiro objetivo”, dizia a Diretriz de Planejamento de Defesa, “é prevenir o reaparecimento de nosso rival, seja no território da ex-União Soviética ou em qualquer outro lugar”.

O documento, que ficou conhecido como Doutrina Wolfowitz por ser de coautoria do Subsecretário de Defesa dos EUA para Políticas, asseverou a supremacia dos Estados Unidos no sistema mundial. Ele requisitava a “liderança necessária para estabelecer e proteger uma nova ordem” que impediria “concorrentes potenciais” de buscarem maior protagonismo mundial. Em decorrência do vazamento, a Doutrina Wolfowitz foi revisada por Dick Cheney e Colin Powell, tornando-se a doutrina de George W. Bush e deixando um rastro de morte e sofrimento em todo o Oriente Médio.

Naquele tempo, os contornos da estratégia imperialista dos EUA foram articuladas com mais força por Zbigniew Brzezinski, um dos principais arquitetos da política externa dos Estados Unidos no século XX. Em 1997, ele publicou The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives [“O Grande Tabuleiro de Xadrez: Primazia Estadunidense e Seus Imperativos Geoestratégicos”]. A queda da União Soviética, escreveu Zbigniew Brzezinski, testemunhou o despontar dos Estados Unidos “não apenas como o árbitro central nas relações de poder na Eurásia, mas também como a potência mais poderosa no mundo (…) a única, e de fato a primeira, potência verdadeiramente global”.

A partir de 1991, a estratégia dos EUA buscaria consolidar esta posição impedindo o processo histórico de integração na Eurásia. Para Zbigniew Brzezinski, a Ucrânia era uma “importante casa no tabuleiro de xadrez eurasiano” – fundamental para conter a Rússia em seu “inveterado anseio por uma posição especial na Eurásia”. Os Estados Unidos, escreveu Zbigniew Brzezinski, não apenas iriam perseguir seus objetivos geoestratégicos na ex-União Soviética, mas também representar “seu próprio e crescente interesse econômico (…) obtendo acesso ilimitado à essa área, até então fechada”.

Em parte, o plano seria realizado através da OTAN. A expansão da aliança coincidia com a insidiosa propagação do neoliberalismo, ajudando a garantir o domínio do capital financeiro dos EUA e sustentar o predatório complexo industrial-militar no qual se apoiam grande parte de sua economia e sociedade.¹ O vínculo umbilical entre a adesão à OTAN e o neoliberalismo foi claramente manifestado pelas lideranças atlanticistas[5] na marcha da aliança para o leste. Em 25 de março de 1997, numa conferência da Associação Euro-Atlântica realizada na Universidade de Varsóvia, o então senador Joe Biden especificiou as condições de adesão da Polônia à OTAN. “Todos os Estados-membros da OTAN são economias de livre mercado com protagonismo do setor privado”, disse ele. E acrescentou:

O plano de privatizações em massa representa o passo mais importante para que o povo polonês possa participar diretamente do futuro econômico de seu país. Este não é o momento de parar. Acredito que grandes empresas estatais também devam ser transferidas para as mãos de proprietários privados, a fim de serem operadas segundo interesses econômicos, e não políticos (…) Empresas bancárias, o setor de energia, a companhia aérea e a produção de cobre estatais, assim como o monopólio das telecomunicações terão que ser privatizados.

Para aderir à aliança imperialista, os Estados são chamados a entregar precisamente a base material de sua soberania – um processo que vemos se replicar, com exatidão, ao longo de todo seu violento percurso. Por exemplo, em uma recente proposta de reconstrução pós-guerra da Ucrânia, a Corporação RAND estabelece aquilo que poderia ser descrito, de forma bem apropriada, como uma agenda neocolonial. Da “criação de um mercado eficiente de terras privadas” à “aceleração da privatização (…) em 3.300 empresas estatais”, suas propostas se somam ao vasto conjunto de políticas de liberalização implementadas com ingerência estrangeira sob a fachada da guerra, incluindo legislações que subtraem à maioria dos trabalhadores ucranianos os direitos de negociação coletiva. Dessa forma, a missão expansionista da OTAN é inseparável do cancerígeno avanço do modelo neoliberal de globalização, que recrudesce nos Estados-membros da OTAN como uma condição de permanente exploração. É requerido dos Estados que integram a aliança o redirecionamento de uma parte substancial de seus excedentes sociais, destinados à habitação, emprego e infraestrutura pública, para os insaciáveis monopólios militares – o maior deles sediado nos Estados Unidos. Nesse processo, fortalecem sua classe dominante doméstica que, assim como na Suécia e na Finlândia, é a primeira incentivadora de uma adesão à OTAN, na expectativa de ser sua principal beneficiária. Esses fatores interditam gradativamente as alternativas políticas anticapitalista e antimilitarista: não pode haver socialismo dentro da OTAN”.

Para além do estrago econômico, aderir à OTAN traz consigo a marca moral da violência do Ocidente coletivo.[6] Quando minha terra natal, a Polônia, adquiriu seu assento júnior na mesa imperialista, tornou-se vassala e colaboracionista, seguindo o modelo da França de Vichy.[7] Éramos uma nação que, sob o socialismo, contribuíra levando nossa experiência em reconstrução pós-guerra para o Terceiro Mundo. Nossos arquitetos, urbanistas e construtores ajudaram a conceber e concretizar projetos habitacionais em grande escala e hospitais no Iraque. Décadas depois, enviamos tropas para sitiar as cidades que havíamos ajudado a construir. Na base de inteligência de Stare Kiejkuty, no nordeste da Polônia, abrigamos uma prisão clandestina estadunidense onde os detentos eram brutalmente torturados – uma clara violação de nossa constituição nacional.

A Budimex, empresa que uma vez elaborou um plano de desenvolvimento para Bagdá, concluiu agora a construção de um muro na fronteira da Polônia com a Bielorrússia – uma proteção contra os refugiados do Oriente Médio, que, nas palavras da classe dominante polaca, infectam a nossa nação com “parasitas e protozoários”. Se o fascismo é um instrumento de blindagem do capitalismo contra a democracia, a OTAN é sua incubadora.

Rússia e o Terceiro Mundo

Em 1987, Mikhail Gorbachev apresentou a ideia de uma “Casa Comum Europeia”: uma doutrina de contenção para substituir uma doutrina de dissuasão,[8] como expressou mais tarde, a qual tornaria impossível um conflito armado na Europa. Apenas três anos depois, a promessa de uma nova ordem de segurança, fundamentada nas propostas de Mikhail Gorbachev, começou a ganhar forma. E durante algum tempo pode ter parecido algo possível. A Carta de Paris para uma Nova Europa, adotada em novembro de 1990 pelos países da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (CSCE), continha as sementes de uma estrutura de segurança compartilhada, fundamentada nos princípios de “respeito e cooperação” estabelecidos na Carta das Nações Unidas. Este novo modelo de segurança mútua incluiria os países da ex-União Soviética, entre eles a Rússia.

Publicamente, os membros da OTAN apoiaram este processo e reafirmaram o compromisso que James Baker havia assumido com Mikhail Gorbachev em 1990, garantindo que a OTAN “não se expandiria um centímetro” a leste. Recentemente, a Der Spiegel desenterrou registros britânicos de 1991, nos quais autoridades dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França e da Alemanha eram inequívocas: “Não poderíamos (…) oferecer adesão à OTAN para a Polônia e os outros.”. Privadamente, no entanto, o governo dos Estados Unidos estava ocupado tramando sua era de hegemonia. “Nós prevalecemos, eles não”, disse George H. W. Bush a Helmut Kohl, em Fevereiro de 1990, no mesmo mês em que os Estados Unidos deram sinal verde para o processo da CSCE. “Não podemos deixar que os soviéticos arranquem a vitória das garras da derrota”.

Nenhuma organização iria “substituir a OTAN como fiadora da segurança e estabilidade do Ocidente”, disse Bush ao presidente francês François Mitterrand em abril daquele ano, claramente se referindo às propostas que tomavam forma na Europa. As sucessivas ondas de expansão da OTAN corroeram gradualmente a ideia de que uma arquitetura de segurança comum – fora da esfera de dominação dos Estados Unidos – pudesse emergir no continente europeu.

Ainda assim, em 2006, o ministro da Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, falou sobre a participação em uma “OTAN transformada”, fundamentada nas propostas de desmilitarização e cooperação igualitária, conforme os termos da Carta de Paris, de 1990. Mas a OTAN se expandiu em direção às fronteiras da Rússia – não com ela, mas contra ela. Essa política expansionista tinha como objetivo minar os processos de integração regional que, então, vinham se fortalecendo. Após a crise financeira de 2007-2008, a Rússia e a China aceleraram drasticamente a construção de novas infraestruturas de cooperação regional.

Em paralelo, a China efetuou reformas de grande impacto para aumentar sua independência em relação aos mercados estadunidenses, criando programas de desenvolvimento e instituições financeiras que poderiam operar fora da esfera de influência dos Estados Unidos. Em 2009, a Rússia e a China, juntamente com o Brasil, a Índia e a África do Sul, colocaram em movimento o projeto BRICS. Quatro anos depois, a Iniciativa Cinturão e Rota [9] era lançada. Estes processos coincidiram com um aumento das vendas de energia russa para a China e para a Europa, e com a participação de muitos Estados europeus na Iniciativa Cinturão e Rota.

A implacável persistência das políticas de austeridade na União Europeia fez com que seus Estados-membros se voltassem para a China, à medida que portos e pontes ruíam após anos de subinvestimento. Estes acontecimentos marcaram a primeira vez em séculos que o comércio na Eurásia ocorria fora de um contexto de hostilidades, com base em princípios de colaboração ao invés de dominação.

Isso ameaçava os fundamentos da pretensa ordem internacional baseada em regras, o conjunto informal de normas que sustentam o domínio político e econômico dos Estados Unidos. Desde a era soviética, os estrategistas estadunidenses têm reconhecido a particularidade da ameaça que o comércio de energia entre a Rússia e a Europa representaria para os interesses de seu país – um alerta que foi repetido por cada administração dos Estados Unidos, de Bush a Biden. Assim, o imperativo manifesto era interromper esse processo. Os contornos desta estratégia se tornaram mais evidentes à medida que a marcha do Ocidente sobre a periferia do leste europeu continuou.

Relatórios como o Extending Russia: Competing from Advantageous Ground [Estendendo a Rússia: Competindo em Posição de Vantagem], publicado em 2019 pela Corporação RAND, definiram os imperativos estratégicos identificados por Brzezinski mais de duas décadas antes. Desde interromper as exportações de gás da Rússia para a Europa e enviar armas para a Ucrânia, até promover a mudança de regime na Bielorrússia e agravar as tensões no sul do Cáucaso, o relatório estabelecia uma série de medidas destinadas a rasgar a Rússia pelas costuras. Se a Rússia não se dobrasse voluntariamente aos interesses do Ocidente, ela seria coagida a fazê-lo, mesmo que a Eurásia inteira tivesse que pagar o preço.

A neocolonização da Ucrânia – um objetivo que autorizou gastos de 5 bilhões de dólares dos EUA antes de 2014 – representou, como Brzezinski havia previsto, uma jogada crucial no tabuleiro de xadrez eurasiático.

A inegável ameaça que estas políticas representavam à segurança russa estava clara para as lideranças dos Estados Unidos já em 2008. “Especialistas nos dizem que a Rússia está particularmente preocupada que as fortes divergências na Ucrânia sobre a entrada do país na OTAN, com grande parte da comunidade étnica russa sendo contrária à adesão, possam levar a uma separação mais profunda, envolvendo violência ou, na pior das hipóteses, uma guerra civil”, escreveu William Burns, diretor da CIA, ao embaixador dos EUA em Moscou. “Nesse caso, a Rússia teria que decidir se iria ou não intervir; uma decisão que a Rússia não quer ter de enfrentar.”

A Rússia viria a perceber que restavam apenas dois caminhos: aceitar a posição periférica que lhe fora imposta na década de 1990, ou aprofundar a integração com outros Estados da Eurásia. Estas possibilidades bifurcadas refletiam duas tendências internas da classe dominante russa. Uma delas esperava maior aproximação com o capital financeiro ocidental, seguindo o modelo dos anos de 1990, com o qual a riqueza de poucos aumentara em proporções extraordinárias. Esta tendência encontrou apoio de personalidades como Alexei Navalny, cujo colaborador, Leonid Volkov, delineou uma estratégia política que deixaria de fora a esquerda em um projeto de mudança de regime que buscava restabelecer a classe compradora pró-Ocidente com o apoio da classe média profissional emergente nas metrópoles russas.

A outra possibilidade representava uma tendência ao capitalismo de Estado, que buscava uma maior centralização do poder econômico e poderia, eventualmente, resultar em uma governança econômica mais socializada. Por muito tempo, o governo de Vladimir Putin navegou entre estas duas tendências, um precário vai e vem entre a agressividade do neoliberalismo e a busca da soberania econômica. Contudo, à medida que as contradições desencadeadas pela beligerância ocidental se intensificavam, a trajetória de desenvolvimento russo começou a gradativamente se firmar na direção desta última tendência – o que hoje fica evidente na forma espetacular com que as sanções do Ocidente têm se voltado contra ele próprio.[10] Agora, a Rússia exalta regularmente a China socialista como um modelo a ser emulado.

Indícios deste direcionamento puderam ser vistos em 2007. Naquele ano, Putin discursou na Conferência de Segurança de Munique. A erosão do direito internacional, a projeção do poder dos EUA e o “incontido hiperuso da força” estariam, segundo ele, criando uma situação de profunda insegurança em todo o mundo. Putin relacionou estes aspectos com a dinâmica de desigualdade global e a questão da pobreza, destacando um dos principais mecanismos do imperialismo: “os países desenvolvidos mantém seus subsídios agrícolas e, simultaneamente, limitam o acesso de alguns países a produtos de alta tecnologia”, uma política que assegura o grave subdesenvolvimento no Terceiro Mundo. Para Putin, a política de projeção unilateral de poder militar, materializada não apenas na OTAN, mas também em outras estruturas de poder militar estadunidense ao redor do mundo, serviu para expandir uma política de subordinação.

Se a agressão do Ocidente levou a Rússia a priorizar seu desenvolvimento soberano, esse processo histórico também a levou ao alinhamento com o projeto mais amplo do Terceiro Mundo. Qual seria a ameaça de um “retorno aos anos de 1990” na Rússia senão o risco de que as condições de sua soberania econômica fossem destruídas, produzindo as formas de indignidade experimentadas pela maioria das nações do mundo? Algo que, por sua vez, fortaleceria a unipolaridade liderada pelos EUA, enfraquecendo as condições para uma efetiva multilateralidade no sistema mundial.

A resposta da Rússia tem sido acelerar a integração eurasiática – buscando uma relação mais vigorosa com a China, Índia e seus vizinhos regionais – ao mesmo tempo em que expande as alianças com o Irã, Cuba, Venezuela e outros Estados sufocados pelo joelho do imperialismo estadunidense. Da América do Sul à Ásia, muitas nações têm respondido da mesma forma. Se, historicamente, a identidade e estatalidade russas oscilaram entre tendências ocidentais e orientais – com sua águia nacional olhando de forma ambígua para ambas as direções[11] – a Rússia viria a situar seu passado e seu futuro firmemente no Terceiro Mundo. “O Ocidente está disposto a cruzar todos os limites para preservar o sistema neocolonial que lhe permite viver à custa do mundo”, disse Putin, em 2022. Ele está preparado “para saqueá-lo, graças ao domínio do dólar e da tecnologia; para cobrar da humanidade um verdadeiro tributo; para extrair sua principal fonte de imerecida prosperidade, o pagamento devido ao hegemon[12]”.

Os imperativos materiais comuns entre a Rússia e o Terceiro Mundo explicam o isolamento das potências ocidentais em sua guerra condenatória e cerco econômico à Rússia. Embora os líderes ocidentais proclamassem o surgimento de uma unidade mundial para condenar a invasão – “a União Europeia e o mundo apoiam o povo ucraniano”, disse Olof Skoog, representante da União Europeia nas Nações Unidas – os números na Assembleia Geral da ONU retratam, cada vez mais, um cenário diferente. Em março de 2022, na sessão de emergência para votação de uma resolução sobre a Rússia e a “Agressão contra a Ucrânia”, 141 nações foram a favor da resolução, 35 se abstiveram e 5 votaram contra. Os 40 países que não votaram ou votaram contra a resolução – incluindo a China e a Índia – constituem coletivamente a maioria da população mundial. Metade destes Estados são do continente africano.

Se as nações do mundo ficaram divididas quanto ao gesto de condenação, elas permanecem unidas na recusa em participar da guerra econômica contra a Rússia. Neste ponto, os países do velho mundo ocidental se encontram completamente isolados. Das 141 potências que condenaram as ações da Rússia na Ucrânia, somente as 37 nações do velho bloco imperialista e seus apoiadores implantaram sanções contra ela: Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Coreia do Sul, Suíça, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Taiwan, Singapura e os 27 Estados da União Europeia. Sanções não são um “mecanismo gerador de paz e harmonia”, disse Santiago Cafiero, ministro das Relações Exteriores da Argentina. “Não iremos realizar qualquer tipo de represália econômica porque queremos ter boas relações com todos os governos”, disse Andrés Manuel López Obrador, presidente do México. Em novembro, 87 Estados se abstiveram ou votaram contra uma resolução que cobrava da Rússia reparações à Ucrânia. O Terceiro Mundo não quer se envolver nas intrigas do eixo do Atlântico Norte.

Isolado e ignorado, o Ocidente recorre mais uma vez à coercão, manipulando e pressionando as nações mais pobres do mundo para que se juntem ao coro da condenação moral e à guerra econômica contra a Rússia. Nos casos mais ultrajantes, as pressões envolvem pena de retaliação. Os Estados Unidos têm ameaçado impor sanções à Índia, à China e a outros Estados caso continuem a fazer negócios com a Rússia, muito embora os EUA estivessem buscando reabilitar momentaneamente Nicolás Maduro, da Venezuela, em uma manobra para atenuar os efeitos do aumento no custo do petróleo. O que é isso se não uma tentativa de chantagear as nações do mundo para que apoiem seus opressores mais uma vez?

Nesta nova guerra fria, assim como nas guerras coloniais do século passado, as aspirações de tantos na construção de uma existência digna atravessam as divisões ideológicas. Hoje, os laços entre os países do Terceiro Mundo estão se fortalecendo contra a ameaça imperialista. A China de Xi Jinping e a Índia de Narendra Modi, mundos distantes em seus projetos políticos e convicções, estão rejeitando a “mentalidade de Guerra Fria”. Assim também fazem os países da América do Sul. Quando os Estados Unidos convocaram a Cúpula das Américas – excluindo Cuba, Venezuela e Nicarágua – os presidentes do México e da Bolívia boicotaram o evento. Outros manifestaram sua indignação com a exclusão. A “integração de toda a América”, disse López Obrador, é o único caminho para enfrentar o “perigo geopolítico que o declínio econômico dos Estados Unidos representa para o mundo.”

A obstinada resistência ao canto da sereia da Nova Guerra Fria ressalta a urgência da multipolaridade – um antídoto contra a imposição de desequilíbrios no capitalismo mundial, algo que caracteriza muito dos últimos 500 anos, e que a unipolaridade tem assegurado. Se a humanidade quiser ter a chance de solucionar a crise civilizatória de nosso tempo – da pandemia à pobreza, da guerra à catástrofe climática – é imperativo construir uma política externa fundamentada no desenvolvimento soberano e na cooperação contra o impulso de subordinação imperialista.

À medida que ganha forma, essa cooperação se transforma em uma intensa rejeição das tecnologias disruptivas de conquista, adotadas durante séculos por potências colonialistas e imperialistas. Ela contraria a lógica da ordem mundial neoliberal, restringindo seu campo de ação e enfraquecendo sua capacidade de influência sobre as economias das nações mais pobres. Em outras palavras, é um passo rumo à articulação de um projeto político alternativo, fora da esfera de acumulação do capitalismo monopolista. Por esta razão, a multipolaridade é a ameaça mais profunda que o Ocidente coletivo jamais enfrentou. “O cenário mais perigoso,” escreveu Brzezinski em The Grand Chessboard, é uma “coalizão anti-hegemônica unida não por uma ideologia, e sim por reclamações complementares.”[13]

Brzezinski, claro, pensava a partir de uma perspectiva geopolítica, e não econômico-política. Mas as reclamações complementares que estão surgindo são, essencialmente, materiais. Dizem respeito a questões básicas de dignidade – de sobrevivência. É por isso que, do pan-africanismo à integração eurasiática, os projetos de cooperação se tornam os primeiros alvos de retaliação imperialista.

Três teses para a esquerda

Em 1960, o revolucionário ganês Kwame Nkrumah discursou nas Nações Unidas. “A grande corrente da história flui”, disse ele, “e à medida que flui carrega para as margens da realidade os mais relutantes fatos da vida e das relações entre os seres humanos”. O que significa, para os internacionalistas, lidar com os mais relutantes fatos da vida? Que tipo de relações, envolvendo povos e nações, pode encontrar respostas para as grandes crises do nosso tempo?

Estas questões me fazem voltar recorrentemente aos debates da Terceira Internacional. Não há dúvida de que as condições de hoje são outras. As velhas potências coloniais, que já não se encontram presas a guerras eternas contra seus pares, operam agora através de um imperialismo coletivo. Elas dispõem de novas estratégias para drenar os recursos de povos e nações, [enquanto] as armas nucleares e a crise ecológica ameaçam nossas sociedades com o espectro cada vez mais denso da destruição total.

Contudo, e obstinadamente, um entendimento permanece: o capitalismo não pode ser superado até que as artérias da acumulação imperialista sejam cortadas a nível global. Como Roy argumentou há mais de um século, e a história tem abundantemente demonstrado, o capitalismo continuará sua marcha destrutiva enquanto as potências ocidentais puderem se alimentar do trabalho e da riqueza do Terceiro Mundo. Uma trajetória hoje assegurada por exércitos poderosos e preparados para esmagar povos e destruir nações.

E o que isso significa para aqueles de nós que vivem e se organizam no centro do imperialismo? Gostaria de apresentar, resumidamente, três teses que decorrem da análise precedente:

  1. A revolução já está em movimento. Desde as primeiras lutas anticoloniais, a revolução contra o imperialismo (isto é, o capitalismo em sua dimensão internacional) tem avançado por um caminho sinuoso junto ao projeto do Terceiro Mundo. Pela capacidade que possuem de deter os fluxos de extração imperial que produziu o nosso mundo, os povos do Terceiro Mundo são os propulsores de uma transformação progressiva para a humanidade.
  2. Os principais protagonistas da revolução não estão no Ocidente. A revolução europeia foi brutalmente esmagada por uma classe dominante poderosa apoiada pela pilhagem imperial. Destituída de poder estatal nos Estados imperialistas, a esquerda não tem condições de ditar os termos dos processos tectônicos que estão em curso, e não deveria tentar direcioná-los através de caminhos que forneçam suporte ideológico para nossas classes dominantes. Muito terreno tem sido cedido aos imperialistas na busca por pequenos ganhos eleitorais ou em estratégias parlamentares. Nenhum poder pode ser construído direcionando nossa limitada capacidade política contra os inimigos oficiais de nossas classes dominantes.
  3. No Ocidente, a esquerda anti-imperialista atua no interior do monstro. A fraqueza da esquerda no Ocidente reflete a força de suas classes dominantes. No momento em que a burguesia ocidental enfrenta um desafio histórico à sua hegemonia, a tarefa não é a de reafirmar seu poder através de reformas medíocres que socorram o capitalismo contra suas calamitosas contradições, mas sim lutar pela sua derrota final. É um inimigo que compartilhamos com a maioria da população mundial e com o planeta em que habitamos.

Nossa tarefa mais importante é, então, recuperar o anti-imperialismo socialista como uma categoria de pensamento e ação – trabalhando a favor das condições e tendências da mudança revolucionária, e não contra elas. Isto exige nada menos que a retomada da ousadia política que perdemos com o assim chamado “fim da história”, quando as posições do socialismo global recuaram e a ideologia imperialista se autoproclamou tão inevitável quanto o oxigênio. A história não foi a lugar algum. Ela nos solicita hoje que sejamos claros em nossa crítica ao imperialismo, implacáveis ao atacá-lo, e audaciosos na concepção de uma alternativa ao capitalismo que seja capaz de responder aos clamores das classes trabalhadoras em nossas sociedades – clamores que estão sendo, mais uma vez, correspondidos pelo canto da sereia da extrema direita.

As apostas não poderiam ser mais altas. A ascensão do Terceiro Mundo e o desmantelamento do domínio multissecular das potências colonizadoras conseguirão ao menos abrir a possibilidade de um projeto político diferente em escala global? Ou as forças do imperialismo coletivo continuarão a nos empurrar ladeira abaixo, rumo à guerra e ao colapso ambiental? A resposta depende de nosso firme e determinado compromisso com um destes caminhos, que estão em oposição dialética um ao outro. Depende de nós que a sangrenta história do legado do Ocidente seja estudada, e que aprendamos com as forças que têm resistido a ele. Esse conhecimento, incorporado em nossas lutas, contém a chave para recriarmos nosso mundo.

Isso nos permite construir e marchar juntos, em sintonia com as vigorosas e corajosas lutas do Terceiro Mundo contra a gradual perda de controle das classes dominantes do Ocidente coletivo. Não poderemos responder os clamores da humanidade se arrancamos aos famintos aquilo que comemos.

Notas

[1] Utilizamos a já difundida tradução de Paulo César de Souza para o poema de Bertolt Brecht, em Poemas 1913-1956. São Paulo: Editora 34, 2000.

[2] Redskins: “peles vermelhas”, considerado ofensa racial contra nativo americanos.

[3] Operação Barbarossa: originalmente chamada de operação Fritz, foi o codinome usado pela Alemanha Nazista, durante a Segunda Guerra Mundia, para a invasão da União Soviética em 22 de junho de 1941. O fracasso das tropas alemãs em derrotar as forças soviéticas na campanha assinalou uma virada crucial na guerra. A operação alemã contou com quase 150 divisões contendo algo de 3 milhões de homens, 19 divisões de veículos blindados Panzer, somando um total de 3 mil tanques, 7 mil peças de artilharia e 2.500 aviões. Essa foi a maior e mais poderosa força de invasão na história humana. A força dos alemães ainda foi incrementada por mais de 30 divisões de tropas filandesas e romenas. (cf. Encyclopaedia Brittanica, Operation Barbarossa | History, Summary, Combatants, Casualties, & Facts | Britannica ). O objetivo da operação era “a conquista da União Soviética. Essa conquista visava a promover a destruição do bolchevismo e iniciar a escravização dos eslavos para que o trabalho deles sustentassem a economia alemã” (cf. Mundo Educação). A Batalha de Stalingrado, a maior batalha durante a Segunda Guerra Mundial, com o custo de dois milhões de soldados, foi uma das batalhas travadas na operação Barbarossa.

[4] Operações stay-behind: Surgidas no âmbito da Segunda Guerra Mundial, as operações “stay-behind era uma rede clandestinas vinculada à Otan e estabelecidas em 16 países da Europa Ocidental durante os anos da Guerra Fria. A função das operações era combater qualquer indício de “ameaça comunista”, contando com exércitos secretos de guerrilha que geralmente se valiam da violência dos extremistas de direita para alcançar seus objetivos. “Coordenadas pela Otan, pela Agência Central de Inteligência (CIA) e o Serviço Secreto de Inteligência Britânico (SIS), essas redes foram financiadas, armadas e treinadas em atividades secretas de resistência, incluindo assassinato, provocação política e desinformação; prontas para serem ativadas em caso de invasão pelas forças do Pacto de Varsóvia. Nisso, a rede italiana Operação Gladio se tornou uma das mais famosas” (fontes The Guardian, Docdroid, Associated Press, The New York Times, cf. https://www.megacurioso.com.br/artes-cultura/120887-operacao-gladio-as-redes-espias-que-queriam-inibir -o-comunismo.)

[5] Atlantistas: Derivado da OTAN, o atlantismo surge como “uma proposta que tem como base a cooperação entre os Estados Unidos, o Canadá e a Europa Ocidental. Nascida no contexto da defesa da Europa Ocidental de uma possível expansão comunista, posteriormente adquiriu um sentido mais amplo, como uma verdadeira doutrina política de viés liberal” (cf. Laura Polon, Mestre em Geografia e Graduada em Geografia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná)

[6] Ocidente coletivo: concepção que surge no discurso político oficial russo e ganha força na mídia russa após o presidente Putin usá-lo para se referir aos EUA e a União Europeia. Tal concepção “reúne todas as principais ideias correntes sobre os países do Ocidente ou do Oeste amplamente disseminadas no discurso político russo após o período da Criméia”. A noção de Ocidente nessa concepção não é propriamente geográfica. O Ocidente coletivo inclui países como o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e Nova Zelândia. Para uma análise detalhada do uso político da concepção de Ocidente coletivo na esfera midiática russa, https://socialscienceresearch.org/index.php/GJHSS/article/view/3947/1-The-Collective-West_html

[7] França de Vichy: o regime de Vichy, liderado pelo liderado pelo marechal Philippe Pétain, diz respeito ao governo francês estabelecido após a queda da França para os alemães em 1940. Com o norte do país controlado diretamente pelos alemães, o regime de Vichy se estabeleceu na parte não ocupada da França, implementando políticas autoritárias, censura, perseguições políticas e colaborando com a entrega de judeus franceses aos nazistas

[8] Doutrina de dissuasão é uma estratégia política por meio da qual a exibição de força militar e do poder de destruição de seus arsenais, visa desencorajar que países adversários realizem algum ataque por medo de retaliação

[9] Belt and Road (B&R), ou One Belt, One Road (OBOR), ou Cinturão e Rota, também conhecida como A Nova Rota da Seda, foi lançada oficialmente em 2013. A iniciativa consiste em uma série de investimentos predominantemente nas áreas de transporte e infraestrutura, tanto terrestres (Cinturão), ligando Europa, Oriente Médio, Asia e África, como marítimos (Rota), passando pelo Oceano Pacífico e Oceano Índico para chegar ao mar Mediterrâneo

[10] Efeito bumerangue, no original, viés cognitivo em que se realiza ação contrária àquela esperada por uma mensagem que aparece de forma persuasiva

[11] Escudo nacional da Federação da Rússia, representado por um “pássaro cujas cabeças estão apontadas simultaneamente ao Oriente e ao Ocidente, é o brasão oficial da Rússia há séculos, com apenas um intervalo durante a época soviética. O emblema, no entanto, é muito mais antigo do que o país, com raízes que datam de civilizações antigas”, cf. Russia Beyond, em br.rbth.com/historia/79990-simbolo-nacional-russia-aguia-duas-cabecas

[12] Hegemon, a palavra tem origem na Grécia Antiga e se referia ao líder de uma cidade-estado ou a uma aliança de cidades-estados. “O hegemon era responsável por tomar decisões políticas e militares em nome de seu grupo e exercia um poder dominante sobre os demais membros da aliança. A ideia de hegemonia foi posteriormente desenvolvida por Gramsci, que a aplicou ao contexto da sociedade moderna”, cf. resumos.soescola.com/glossario/hegemonico-o-que-e-significado/

[13] Brzezinski, na íntegra do trecho citado, diz que "potencialmente, o cenário mais perigoso seria o de uma grande coalizão entre a China, a Rússia e talvez o Irã, uma coalizão ‘anti-hegemônica’ unida não pela ideologia, mas por insatisfações [grievances] complementares".

Paweł Wargan é organizador e pesquisador baseado em Berlim e coordenador do secretariado da Internacional Progressista.

Brasil embranqueceu no pensamento, afirma Nei Lopes, aos 80 anos

Segundo intelectual, governo Bolsonaro evidenciou que racismo continua vivo e forte na sociedade

Leonardo Lichote

Folha de S.Paulo

Nei Lopes olha para seus 80 anos com a consciência de que, homem negro vindo do subúrbio do Rio de Janeiro, não nasceu "com a possibilidade de chegar até aqui".

Ao se rebelar contra o racismo, como diz ter feito ao longo da vida, o artista fez muito mais do que se manter vivo —ele se afirmou num lugar único no cenário cultural brasileiro, como intelectual que circula com a mesma desenvoltura nos terreiros de samba e em pesquisas acadêmicas de referência, como o "Novo Dicionário Banto do Brasil".

Nei Lopes em 2018 - laudio Belli /Valor / Agência O Globo

Em 2022 se comemoraram também os 50 anos desde o primeiro registro de sua "Figa de Guiné", parceria com Reginaldo Bessa, gravada num compacto por Alcione em 1972, abrindo caminho para sucessos como "Senhora Liberdade", "Goiabada Cascão" e "Gostoso Veneno".

Entre projetos já lançados e por lançar estão um EP com cinco músicas inéditas, um álbum de Fabiana Cozza, uma biografia, a série de TV "Nei Lopes: No Fundo do Rio", o enredo da Renascer de Jacarepaguá no Carnaval de 2023, além de "Academia de Letras", volume que reúne todas as suas composições, o livro "Oitentáculos" e o romance "A Última Volta do Rio".

Nesta entrevista, ele comenta sua voracidade por produzir numa idade em que muitos apenas descansam. E deixa evidente que muito do que seus 80 anos abrigam se refere a bem mais do que suas oito décadas de existência. Vem de seus pais e do continente africano que antecedeu a eles. E se projeta para o futuro nos jovens negros que ele vê aos montes hoje na faculdade onde se formou, cercado de brancos. Uma linhagem de goiabada cascão, coisa fina, como diz o samba.

Que tipo de reflexão bate quando se completa 80 anos? O que me ocorre é a exiguidade do tempo futuro. Como sempre tive muitos projetos, tenho vontade de fazer tudo logo. Tenho pensado também que não nasci com a possibilidade de chegar até aqui, principalmente por causa da idade que meus pais morreram. Eles desenvolveram sua vida familiar com dificuldade.

Fui filho caçula numa prole de 13 filhos. Dou o crédito da minha caminhada aos esforços de meus irmãos, pai e mãe.

Você fala da consciência da exiguidade do tempo. Como você lida com isso? A minha espiritualidade me dá certa tranquilidade. Eu sei mais ou menos o caminho, então o que fica marcado é o sentido de organizar. Estou buscando parcerias nos trabalhos.

Você representa de maneira muito destacada a figura do intelectual que transita com a mesma intimidade na academia e na rua. O que permitiu isso? Meu pai nasceu em 1888, minha mãe em 1900. Muito próximo da Abolição. Desde muito cedo, essa vivência deles na pobreza e na dificuldade colocava na minha cabeça que eu tinha que suplantar os problemas através do estudo.

Isso me levou a uma curiosidade com relação à questão da desigualdade. Percebi que raramente acontecia algo positivo na vida dos meus iguais. Pensei ‘vou caminhar por aí’, mas houve um detalhe —os círculos onde entrei depois, do samba e da religiosidade, não eram bem vistos pela família.

Por quê? Se você nasceu próximo do escravismo, você não quer que o seu filho se mova na direção das matrizes africanas. Se você desejava uma vida melhor, você tinha que negar sua etnicidade. A sociedade queria que afrodescendentes fossem assimilados, ou seja, se integrassem ao pensamento da classe dominante.

Me rebelei internamente contra isso. Me formei, fui ser advogado e vivi o racismo. Não acreditaram que eu pudesse ser um compositor da Acadêmicos do Salgueiro. Foi um dos motivos que me fizeram mudar a caminhada.

Fui trabalhar com minha criação. Consegui assim conjugar as várias linhas de atuação. Inclusive direito, sem ser advogado. Participo de uma associação de direito autoral desde a década de 1980.

Como você vê a questão racial no Brasil hoje? A república que começa logo depois do fim do escravismo desenvolveu uma estratégia para branquear a sociedade brasileira. Havia políticas públicas, como a migração maciça de gente da Europa, da Ásia.

O embranquecimento era um objetivo declarado do Estado. Isso acabou não acontecendo do ponto de vista biológico, mas a sociedade brasileira se embranqueceu no pensamento. Cada vez mais passou a se achar que o preto não servia. Nesse governo que se encerrou, ficou evidente que esse pensamento segue vivo.

Mas há uma revisão da história hoje. Na minha época, a faculdade de direito da hoje da UFRJ tinha, além de mim, dois ou três não brancos numa turma de 40 alunos. Quando fui lá agora, notei diferença.

Hoje juristas trabalham numa reformulação do ensino do direito a partir das relações interétnicas. Há teses propondo reformulação jurídica da criminalidade. A adoção de cotas foi bem importante.

Como você vê o entendimento da identidade negra no Brasil? Tem muita gente pegando os Estados Unidos como regra, quando por exemplo o americano adota "black" e a gente começa a usar "preto". Não é assim. Na definição do IBGE, a qualificação de negro envolve os mais pigmentados e os menos. Se você chamar todo mundo de preto você confunde e reduz a força.

Eu uso sempre negro porque é uma definição política. Negros compõem o segmento afrodescendente, que é a melhor classificação. Em Cuba, afro-cubano é uma classificação que ninguém discute.

Lélia Gonzalez criou uma distinção importante —nós somos amefricanos. Isso pode parecer fútil, modinha, mas para encarar uma situação tão complexa como essa do racismo brasileiro, temos que estabelecer uma definição que seja cientificamente útil. E algo que a gente realmente sinta. Quando digo que sou afrodescendente, estou dizendo tudo.

Em todas as Américas a tábua de classificação étnica sempre foi muito diversificada e utilizada com conotações falsamente carinhosas. Mas não é científico.

Candeia cantou em "Sou Mais o Samba" que "eu não sou africano/ nem norte-americano/ ao som da viola e pandeiro/ sou mais o samba brasileiro". De certa forma, negava a identidade africana em favor de uma identidade brasileira. Como você avalia essa percepção? Nunca pensei desse jeito. Sempre tive admiração pelas culturas africanas espalhadas em outros ambientes. Gosto muito da música americana, afro-cubana, mas naquele momento havia aquela coisa de "sou brasilero". Isso acabou. A gente tem que ser panafricanista. Evidenciar essa condição ancestral.

Livros, discos, série de TV, outros projetos em andamento. Pensa em descanso? É uma overdose de trabalho, mas tenho pena tremenda dos velhos que se aposentam e ficam sem o que fazer. Outro dia um deles me perguntou "já se aposentou?". Eu não disse, mas pensei "não, intelectual não se aposenta".

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...