Tariq Ali
Dada a oportunidade, os eleitores de Makerfield não hesitaram. Eles votaram para se livrar de Keir Starmer e, de quebra, deram um chute no traseiro de Nigel Farage. Com um comparecimento às urnas de pouco menos de 59% — alto para uma eleição suplementar inglesa —, o candidato do Partido Trabalhista (Labour), Andy Burnham, obteve 55% (quase 25.000 votos), em comparação com 35% do Reform (15.696 votos) e 7% (3.111 votos) do Restore, o partido apoiado pelos Tories (Conservadores) criado para estragar os planos do Reform. Burnham, um ex-parlamentar blairista, belicista da Guerra do Iraque e ex-secretário de Saúde do governo Brown — que deixou o gabinete paralelo de Corbyn para construir sua própria base política como prefeito de Greater Manchester —, foi ajudado a conquistar a cadeira de Makerfield pelo deputado em exercício, Josh Simons, ele próprio uma criatura da facção Labour Together, que primeiro mirou em Corbyn e depois promoveu Starmer. Esta facção pareceu — temporariamente — ter ido longe demais ao impor sua eminência parda, o bajulador de Epstein, Peter Mandelson, como embaixador da Grã-Bretanha na corte de Donald Trump. Mas um Burnham agradecido oferecerá a Simons e seus amigos acesso contínuo ao número 10 de Downing Street.
Não havia nada que recomendasse Starmer. Um fracasso político, ele foi colocado no cargo após a derrota de Corbyn em 2019, vindo de uma carreira jurídica — na Irlanda do Norte e no Serviço de Promotoria da Coroa (Crown Prosecution Service) — marcada pela subserviência aos que estavam no poder. Essa história sórdida foi contada em um ataque contundente e eficaz por Oliver Eagleton em The Starmer Project (2022) e, mais tarde, em detalhes minuciosos por Gabriel Pogrund e Patrick Maguire em Get In (2025) e por Paul Holden em The Fraud (2025). Nas eleições de julho de 2024, uma direita dividida — Conservadores (Tories): 24%; Reform: 14% — entregou a Starmer uma maioria com apenas 34% dos votos. Seus conselheiros, liderados por Morgan McSweeney, um protegido de Mandelson, orientaram o novo líder a bajular Farage em público e a competir com suas políticas. Isso foi feito por meio de uma oportunidade de foto na Câmara dos Comuns, quando o Primeiro-Ministro caminhou até Farage e apertou sua mão, tornando-se, assim, um estranho para muitos em seu próprio partido.
Seguiram-se expulsões da ala esquerda do Partido Trabalhista, ataques aos auxílios infantis e ao abono de combustível para pensionistas, além de uma retórica ao estilo Farage sobre imigrantes (“Ilha de Estranhos”), tudo isso embrulhado em orçamentos de austeridade. Em consonância com o governo conservador anterior, uma mulher não branca, Shabana Mahmood, foi nomeada secretária do Interior para forçar a aprovação de políticas profundamente reacionárias sobre raça e liberdades civis.
A imprensa liberal, entusiasmada com o expurgo da esquerda, apoiou Starmer com entusiasmo. E Starmer apoiou com entusiasmo o genocídio israelense desencadeado em Gaza. O primeiro-ministro trabalhista deu seu respaldo a medidas israelenses como o corte de água, eletricidade, alimentos e medicamentos para o povo palestino. Se Starmer se opunha aos ataques a mulheres e crianças, ele guardou isso para si mesmo. Os aparatos de Estado e o monitoramento da RAF (Força Aérea Real) foram empregados para ajudar ativamente no genocídio. A servilidade abjeta de Starmer ao ultraconservador Board of Deputies (Conselho de Deputados dos Judeus Britânicos) foi copiada fielmente pelos membros do gabinete Cooper, Lammy, Streeting e pelos mais de 100 parlamentares trabalhistas impostos aos partidos locais pela gangue de Mandelson.
Para se ter uma ideia do nível dos implantados por Mandelson: até mesmo os trabalhistas leais Robin Cook e Clare Short renunciaram ao gabinete de Blair quando este levou o país à guerra no Iraque contra a vontade da maioria de seus cidadãos, respaldado pelas mentiras intermináveis de seu diretor de comunicação, Alastair Campbell (e pelo latido de cães de guerra como Burnham). Nem um único parlamentar trabalhista renunciou ao governo de Starmer por causa da Palestina ou do uso de bases militares dos EUA no Reino Unido para atacar o Irã. Pelo contrário: os corbynistas expulsos — John McDonnell e cia. — se desonraram ao voltar rastejando para a bancada do Partido Trabalhista no Parlamento.
Starmer garantiu que não houvesse qualquer opção de escolha, em nenhum nível, entre os partidos de centro-extremo no parlamento — Trabalhistas, Conservadores (Tories) e Democratas Liberais (Lib Dems). Enquanto a economia britânica estagnava e a popularidade dos Trabalhistas despencava para os atuais 18%, os Verdes decolaram a partir de julho de 2025 para atingir 16% nesta primavera. Somados às esperanças passageiras em uma nova vertente corbynista, eles revelaram um eleitorado substancial à esquerda dos Trabalhistas. Após decifrarem os sinais dos grupos de discussão (focus groups), os homens de McSweeney guiaram Starmer a uma série de semi-recuos a partir do segundo semestre de 2025: abono de combustível, auxílios infantis e identidades digitais anti-imigrantes. Nada disso adiantou. Somadas à sua postura engessada e à sua incapacidade de se defender no Parlamento, suas idas e vindas só aumentaram o desprezo por Starmer no país como um todo. Ele vai cair. Há boatos de que Burnham pode lhe oferecer um cargo no gabinete. Posso recomendar o Ministério da Inverdade.
O novo rapaz do Norte se sairá melhor na economia e incomodará "os mercados"? Improvável. Ele fará alguma mudança nas políticas externa e de defesa do Reino Unido? Todos os indícios são negativos. Vale lembrar também que os partidos social-democratas estão afundando na maior parte da Europa Ocidental. O Partido Trabalhista (Labour) não está sozinho e os motivos são os mesmos: capitulação total aos mercados e às políticas dos EUA no Oriente Médio e em outros lugares. A vitória de Burnham em uma eleição suplementar no Norte da Inglaterra não deve ser interpretada de forma errada. A próxima mudança de liderança do Partido Trabalhista não pressagia nenhuma mudança real para o país ou para a sua posição no mundo.

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