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6 de julho de 2025

Pela ruptura das relações comerciais com Israel

Violência sem limite contra palestinos e agressão não provocada ao Irã ameaçaram segurança das nações e quebraram direito internacional

VÁRIOS AUTORES (nomes ao final do texto)

Folha de S.Paulo

Palestinos velam parentes mortos em ataque de Israel à Faixa de Gaza - Eyad Baba - 6.jul.25/AFP

Os ataques de Israel ao Irã, com a posterior entrada dos EUA no conflito, arrastaram o mundo para cenários imprevisíveis. A violência sem limites contra o povo palestino e a agressão não provocada ao Irã ameaçaram a segurança das nações, quebraram o direito internacional e a atuação eficiente das instituições multilaterais.

Estamos perigosamente nos aproximando da situação vigente no período anterior à Segunda Guerra Mundial. E o resultado desastroso é por todos conhecido.

O genocídio em Gaza, perpetrado deliberadamente por Israel para inviabilizar a existência do povo palestino em seu próprio território, a redução de toda uma população à condição sub-humana, a arrogância que impede agências da ONU de proteger refugiados, o assassinato de jornalistas, médicos e de funcionários de agências internacionais, a invasão do Líbano, os ataques à Síria, ao Iêmen e ao Irã, em todas essas ações coordenadas o governo israelense viola e tripudia sobre a lei internacional, alegando o direito de defesa.

No entanto, a ordem multilateral está fundamentada na lei internacional, e esta é muito clara ao enunciar as obrigações básicas dos terceiros Estados, entre as quais se incluem prevenir ou não contribuir para a manutenção do crime de agressão e sua expressão mais hedionda, o genocídio.

O não cumprimento dessas obrigações constitui omissão e cumplicidade e compromete a vigência e eficácia do sistema internacional baseado no princípio da universalidade dos direitos humanos fundamentais e da proteção destes sob a égide do direito internacional.

A aplicação de sanções como forma de isolar o Estado de Israel para pressioná-lo a parar o genocídio e os crimes de agressão contra seus vizinhos já é uma tendência mundial, que começa a ser seguida até por países europeus que jamais deixaram de ser aliados de Israel.

A Espanha aprovou um embargo militar a Israel e trabalha para efetivá-lo, o Reino Unido suspendeu as negociações de um tratado de livre comércio, a Irlanda prepara legislação para suspender toda atividade comercial com aquele país, a Turquia interrompeu a venda de petróleo e a Sérvia acaba de anunciar embargo à venda de armas ao Estado de Israel.

Até mesmo empresas, como a Maersk, gigante dinamarquesa do setor de cargas, rompeu relações com empresas operando em assentamentos israelenses.

O Brasil, pela voz de seu maior dirigente, reconhece o genocídio perpetrado por Israel contra o povo palestino e temos demonstrado nosso repúdio a esse crime em votações na Assembleia-Geral da ONU.

A matéria se encontra sob apreciação em quatro casos em andamento na Corte Internacional de Justiça. Também nos posicionamos através de lúcidas e incisivas declarações do presidente da República, em consonância com a maior parte do corpo acadêmico brasileiro e os maiores especialistas mundiais em estudos do genocídio.

Em face dos crimes de guerra cometidos por Israel, não cabe manter com ele vínculos comerciais ou militares, com a transferência de material bélico e a realização de feiras tecnológicas ou o fornecimento de petróleo.

O Brasil integra um Tratado de Livre Comércio entre o Mercosul e Israel que não cumpre sua própria cláusula de exclusão de produtos oriundos de assentamentos ilegais.

A suspensão das relações comerciais e militares assim se impõe, em defesa da lei internacional e dos princípios básicos da condição humana.

Como liderança regional, o Brasil deve dar o exemplo.

Marilena Chauí
Professora emérita da Universidade de São Paulo

Paulo Sérgio Pinheiro
Presidente da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a República Árabe Síria, em Genebra, desde 2011; ex-ministro da Secretaria de Estado de Direitos Humanos (2001-02, governo FHC)

Leda Paulani
Professora titular sênior da Faculdade de Economia da USP, foi secretária Municipal de Planejamento de São Paulo (2013-2015)

Carlos Augusto Calil
Professor titular da USP, foi secretário Municipal da Cultura de São Paulo (2005-12)

Arlene Clemesha
Professora de história árabe da USP, coordenadora do Centro de Estudos Palestinos, é tradutora de Edward Said e autora, entre outros livros, de "Marxismo e Judaísmo" e "Palestina 1948-2008"

Vladimir Safatle
Professor titular de filosofia da FFLCH-USP

Paulo Casella
Professor titular de direito internacional da USP

23 de dezembro de 2023

Tréplica: Autora refuta críticos à tese de limpeza étnica por Israel

Avritzer ignora pesquisas de Ilan Pappé e historiadores palestinos; Magnoli o usa para fabricar acusações caluniosas

Arlene Clemesha
Professora de história árabe da USP, tradutora de Edward Said e autora, entre outros livros, de "Marxismo e Judaísmo" e "Palestina 1948-2008"

Folha de S.Paulo

[RESUMO] Autora de artigo que sustenta que a expulsão de palestinos de suas terras em 1948 foi um objetivo deliberado de Israel afirma que Demétrio Magnoli emprega argumento sem originalidade, difundido há um século pela extrema direita sionista, que iguala qualquer crítica ao Estado confessional judeu a antissemitismo. O jornalista se baseia em réplica de Leonardo Avritzer que, segundo a pesquisadora, expõe alegações já contestadas pela historiografia recente e ignora que, mesmo se um plano de limpeza étnica não tivesse sido formulado, palestinos foram expropriados e massacrados por milícias israelenses da mesma forma.

*

Em resposta ao meu artigo "Historiadores veem expulsão de palestinos em 1948", Demétrio Magnoli volta a lançar acusações, mas procede pela via nada sofisticada da fabricação de amálgamas e deturpações.

A narrativa histórica exposta por mim acerca da Nakba palestina (parcial na visão de Leonardo Avritzer, que será retomada mais abaixo) seria equivalente aos Protocolos dos Sábios de Sião, nada menos que "Sábios de Sião, parte 2". Uma afirmação que situa no mesmo plano um debate histórico apoiado em documentos e um libelo baseado em falsificações propositais, destinado a justificar uma política estatal assassina e antissemita —a do regime czarista russo.

Soldados israelenses prendem os últimos combatentes na frente do Negev em novembro de 1948 - AFP

Certamente, nós não poríamos no mesmo plano os amálgamas, inclusive indecentes, praticados por um colunista em um jornal importante e os amálgamas de um chefe de Estado em uma tribuna oficial com consequências sobre a vida e a morte de milhões de pessoas. Não deixa de ser interessante, no entanto, verificar certa semelhança metodológica. Vejamos.

Em outubro de 2015, no 37º Congresso Sionista Mundial, realizado em Jerusalém, o premiê israelense Benjamin Netanyahu fez referência ao encontro ocorrido na Alemanha em novembro de 1941 entre Adolf Hitler e o mufti (líder religioso) palestino Hajj Amin al-Husayni.

Netanyahu sustentou que Hitler não queria exterminar os judeus, mas "apenas" expulsá-los da Europa. Segundo Netanyahu, o Holocausto teria sido sugerido ao führer pelo mufti para evitar o aumento da imigração de judeus da Europa e o estabelecimento de um Estado judeu na Palestina. A absolvição relativa e retroativa de Hitler e do nazismo pelo Holocausto veio do lugar mais inesperado.

A chancelaria alemã reagiu, declarando que a responsabilidade do Holocausto era da Alemanha (esposando a polêmica tese da culpabilidade coletiva do povo alemão). O líder da oposição israelense, por sua vez, qualificou as palavras de Netanyahu como "uma deformação histórica perigosa" que "minimiza o Holocausto, o nazismo e a participação de Hitler no terrível desastre do nosso povo". O representante da Autoridade Palestina lamentou que "o líder do governo israelense odeie tanto o seu vizinho a ponto de estar disposto a absolver o mais notório criminoso de guerra da história, Adolf Hitler, pelo assassinato de 6 milhões de judeus durante o Holocausto".

A historiadora Dina Porat, diretora do memorial Yad Vashem em Jerusalém, disse que as declarações de Netanyahu não eram historicamente exatas: "Dizer que o mufti foi o primeiro a mencionar a Hitler a ideia de matar ou queimar os judeus não é correto". "A ideia de livrar o mundo dos judeus era um tema central na ideologia de Hitler muito, muito tempo antes de ele conhecer o mufti."

Passando ao largo da questão acerca de quem exatamente (e quando) deu a ordem de execução do Holocausto, a culpabilização dos colonizados palestinos por esse fato revelou um regime político, o israelense, próximo a um estado de delírio.

Conheci Dina Porat no congresso sobre os 50 anos da Segunda Guerra Mundial celebrado na USP em 1995. O admirável trabalho sobre o Holocausto judeu e a guerra que ali apresentou se encontra no volume publicado na ocasião, "Segunda Guerra Mundial: um Balanço Histórico" (Xamã). O trabalho, digno de uma historiadora que honra sua qualificação, deveria ser lido por Magnoli.

Na época, eu realizava a pesquisa de mestrado que resultou no livro "Marxismo e Judaísmo" (Boitempo). Esse trabalho se baseou em boa parte na documentação obtida nos restos extraordinários dos arquivos da Amia (Associação Mutual Israelita-Argentina), que foram excepcionalmente abertos para nós por membros da gentilíssima comunidade judaica de Buenos Aires.

Os arquivos tinham sido muito afetados, semidestruídos (encontravam-se provisoriamente em um precário local da rua Ayacucho) pelo brutal atentado antissemita contra a Amia realizado em 1994 (com um saldo de 85 mortos e centenas de feridos, judeus e não judeus) e nunca esclarecido pelo governo ou pelo Judiciário argentinos.

Mas voltemos desgraçadamente a Magnoli, que não se limita a explícitas acusações caluniosas. Isso não é o bastante: há também calúnias sub-reptícias. Depois de equiparar nosso trabalho de reconstituição histórica da Nakba com os Protocolos dos Sábios de Sião, nos acusa, com igual método, de não "condenar atos desse ou daquele governo de Israel, mas de condenar inapelavelmente o próprio Estado judeu". Essa "propaganda anti-Israel" nos poria na mesma trincheira dos autores dos Protocolos, a saber, a dos partidários do extermínio ou da submissão à segregação ou escravidão do povo judeu.

O argumento, além de profundamente ofensivo, carece da mais elementar originalidade. Ele se baseia nos amálgamas que seguem: oposição à partilha da Palestina = oposição a um Estado de Israel (qualquer um); oposição a um Estado confessional de Israel = defesa do extermínio do povo judeu.

A extrema direita sionista, que hoje se encontra no governo de Israel, defende o mesmo argumento há um século —combatido, também há um século, pelos melhores representantes do judaísmo, das mais variadas correntes políticas e ideológicas, desde Albert Einstein a, atualmente, Noam Chomsky e os signatários do manifesto Declaração de Jerusalém sobre o Antissemitismo.

Se a oposição a um Estado confessional —ou seja, a defesa do laicismo estatal, única base possível para uma democracia— fosse equivalente a uma intenção exterminadora, caberia concluir, por exemplo, que os republicanos espanhóis eram partidários do extermínio de todos os cristãos do seu país, em que pese a presença de numerosíssimos cristãos entre eles.

O mesmo caberia dizer dos defensores republicanos do ensino laico na França do século 19, estes vitoriosos, o que tem algo a ver com a universidade pública onde Magnoli, acreditamos, se formou, e onde Avritzer leciona. É necessário um pouco de respeito pelos ancestrais.

No que concerne à história, que evidentemente desconhece, Magnoli remete a Avritzer. Este colega discorda de meu artigo devido ao fato de que, a seu juízo, a origem da tragédia palestina seria mais complexa e estaria situada, pelo menos em grande parte, na oposição árabe à partilha da Palestina, que seria legítima e legal porque adotada pela ONU em 1947.

Uma ONU com menos de 30% de seus membros atuais, pois a maioria dos países do mundo ainda eram colônias, como era, de fato, a Palestina, sob a forma de um mandato britânico. A mesma ONU, em 1975 e com muitos mais membros, determinou "que o sionismo é uma forma de racismo e discriminação racial", supomos que com a oposição (atual, claro, e perfeitamente legítima) de Avritzer.

Com ONU ou sem ela, a liderança sionista não teria elaborado, para Avritzer, qualquer plano de expulsão dos palestinos. Para tal alegação, Avritzer apoia-se na obra de 1987 de Benny Morris, mas estranhamente omite por completo a pesquisa posterior de Ilan Pappé.

Tivesse lido "A Limpeza Étnica da Palestina", Avritzer saberia que Pappé se mostra perplexo diante da posição dos historiadores israelenses tradicionais e de Benny Morris, que estavam muito longe da realidade ao retratar o caso de Haifa como "um exemplo de boa vontade sionista genuína para com a população local" palestina (2007, p. 78), em que pese certa demonstração de simpatia pelos palestinos por parte do prefeito de Haifa. Não foi ele, contudo, quem determinou o curso dos eventos.

Outro autor israelense estranhamente ignorado por Avritzer é Avi Shlaim, para quem "as evidências apresentadas no corpo do livro [de Morris] sugerem um grau de responsabilidade israelense muito maior do que o atribuído por Morris em sua conclusão" (1995, p. 296). Ou seja, a crítica que se faz a Morris é que suas conclusões distavam da evidência histórica apresentada em sua própria pesquisa.

Mas Morris, hoje é sabido, não estava preocupado em atribuir responsabilidades pela limpeza étnica da Palestina. Pelo contrário: para ele, o fundador de Israel, Ben-Gurion, "cometeu um sério erro histórico em 1948". "Se ele já estava envolvido na expulsão, talvez devesse ter feito um trabalho completo. [...] Minha impressão é que este lugar seria mais calmo e sofreria menos se o assunto tivesse sido resolvido de uma vez por todas. Se Ben-Gurion tivesse realizado uma grande expulsão e limpado todo o país — toda a Terra de Israel, até o rio Jordão."

Ou seja, a fonte preferencial de Avritzer é a mesma que defende a limpeza étnica total da Palestina, a expulsão de todos os nativos, subalternos colonizados, cujas vidas nada valem. Tampouco valem os trabalhos de seus historiadores, menosprezados, como fez Avritzer ao referir-se à obra do grande historiador palestino Walid Khalidi como algo "obscuro".

Vemos crescer no campo da direita e da extrema direita sionista a tendência a se admitir com enorme facilidade que a Nakba foi intencional, mas que infelizmente ela foi incompleta em 1948. Vislumbram dessa forma a possibilidade de que novas levas de palestinos sejam expulsos, seja da Cisjordânia, de Jerusalém ou de Israel propriamente dita.

Ou seja, trata-se de uma nova elaboração discursiva a favor da continuidade da limpeza étnica da Palestina. Nas palavras do notório escritor Elias Khoury, essa seria uma "nova história sionista israelense", para a qual "as atrocidades de 1948 são lidas em uma chave teológica que justifica a limpeza étnica como uma necessidade para evitar uma nova Shoah" (2012, p. 264).

Avritzer defende que o "êxodo" palestino teria começado apenas em abril de 1948. Essa também é uma falsa alegação recorrente em fontes da história oficial de Israel e já contestada por boa parte da chamada nova historiografia israelense. Em março-abril, os ataques das milícias sionistas tornaram-se de fato mais intensos, mas não começaram nessa data. Basta lembrar que, de dezembro de 1947 a março de 1948, foram expulsos 250 mil palestinos.

Bairros inteiros das porções árabes de Jerusalém, de Jaffa, além da já mencionada Haifa, foram esvaziados nos três primeiros meses de 1948. Foram vários episódios que levaram a população palestina a abandonar a cidade, até que, em abril de 1948, sobrassem apenas 4.000 dos 75 mil habitantes palestinos originais de Haifa. Ou seja, abril marca a intensificação e praticamente o encerramento da limpeza étnica de Haifa, não o seu início.

Ilan Pappé defende a existência de um plano para a limpeza étnica, mas, já que Avritzer estranhamente resolve ignorar por completo a obra de um dos principais historiadores israelenses e menosprezar os escritos de um dos mais importantes historiadores palestinos, Walid Khalidi, vamos supor, por um instante, que seja possível deixar de lado a historiografia para empreender um breve exercício de livre raciocínio.

Este nos diria que, para expulsar e expropriar um povo ou a maioria dele de sua terra, não é necessário plano nenhum. Bastam a intenção e os meios, e estes a liderança sionista tinha ou obteve, como demonstram inúmeros registros históricos.

Adel Manna, autor palestino, prefere se abster da discussão sobre se o Plano Dalet era um mero plano de guerra ou um plano de limpeza étnica, como defende Ilan Pappé. Manna diz que o que importa é que a imensa maioria dos palestinos de Haifa e da Galileia foram aterrorizados, massacrados, incitados pelas milícias sionistas a fugir antes mesmo de iniciada a primeira guerra árabe-israelense e impedidos de retornar. Suas casas, terras, pertences, todos os seus bens foram expropriados, como demonstra a volumosa obra de Michael Fischbach "Records of Dispossession".

Avritzer afirma, em apoio à sua tese, que "o êxodo palestino levou a fortes protestos dos partidos de esquerda em Israel, especialmente pelo Mapam, que tinha vínculos com a ex-União Soviética". O termo "êxodo" supõe (erroneamente) um exílio voluntário; Avritzer deveria levar em conta que Êxodo era o nome de um navio vindo de Marselha, em 1947, transportando 4.500 sobreviventes judeus de campos de concentração, que não eram em absoluto exilados voluntários.

O Êxodo foi interceptado e seus passageiros, autoritariamente devolvidos em Haifa por navios de guerra britânicos, impedindo-lhes o acesso ao território palestino. O argumento de Avritzer, na verdade, testemunha contra sua tese: por que o Mapam protestaria veementemente se não estivesse em curso uma operação de desterro palestino em massa?

O protesto do Mapam, por outro lado, não foi mera formalidade. As violências praticadas contra a população palestina foram de tal calibre que um dirigente do partido, Aharon Zisling, declarou em novembro de 1948 no Conselho de Ministros de Israel: "Agora alguns judeus se comportam como nazistas e todo meu ser se estremece".

A discussão sobre as causas da Nakba é, de fato, complexa e envolve também a conduta dos líderes e governos árabes no período, tema brilhantemente desenvolvido por Eugene Rogan e Avi Shlaim em "The War for Palestine". Envolve, notadamente, a conduta do Reino Unido e das grandes potências emergentes da Segunda Guerra Mundial, os EUA e a URSS.

Avritzer não aprofunda essa análise e tampouco pode-se exigir que o faça no espaço de um breve artigo. Ele, no entanto, ignora que o meu artigo constitui a reconstrução de um debate histórico e resolve criticar uma suposta falta de complexidade elencando episódios esparsos.

Não obstante, pode-se dizer que é direito de Arvitzer criticar a "ausência de complexidade" de meu artigo, o que significa afirmar que ele seria simples ou simplista. Mas não deveria Magnoli transformar "simplista" em "enviesado", pois o contrário de complexo não é enviesado. Esperamos que Avritzer, academicamente, desautorize sua instrumentalização por um enviesado e pouco dotado candidato a discípulo.

E, já que Magnoli afirma que meu "artigo [sobre 1948!] é sobre a guerra atual", teria sido bom se, nos seus artigos, o crítico e o caluniador apresentassem uma palavrinha acerca do que o site Palestina Hoy resumiu desta forma: "Um míssil de US$ 100 mil, lançado por um avião de US$ 20 milhões, viajando a um custo de US$ 6 mil por hora, para matar pessoas que vivem com menos de US$ 1 por dia na Faixa de Gaza. Não é guerra, é genocídio", opinião compartilhada por Luis Moreno Ocampo, ex-procurador-chefe do Tribunal Penal Internacional, e por Raz Segal, historiador israelense e professor de estudos sobre o Holocausto e genocídio da Universidade de Stockton, em Nova Jersey, que, em outubro de 2023, publicou um artigo na revista Jewish Currents afirmando que o ataque em curso configura "um caso clássico de genocídio".

Shalom e as-salamu alaikum (em qualquer ordem, pois não altera o resultado).

OBRAS CITADAS

Nakba and Survival: the Story of Palestinians Who Remained in Haifa and Galilee (University of California Press, 2022), de Adel Manna

The debate about 1948 (International Journal of Middle East Studies, 1995), de Avi Shlaim

The War for Palestine: Rewriting the History of 1948 (Cambridge University Press, 2007), de Eugene Rogan e Avi Shlaim

The Ethnic Cleansing of Palestine (Oneworld, 2007), de Ilan Pappé

Rethinking the Nakba (Critical Inquiry, 2012), de Elias Khoury

Records of Dispossession: Palestine Refugee Property and the Arab-Israeli Conflict (American University in Cairo Press/Columbia University Press, 2004), de Michael Fischbach

25 de novembro de 2023

Historiadores veem expulsão de palestinos em 1948

Versão sobre êxodo voluntário é questionada por historiografia que aponta "limpeza étnica" intencional

Arlene Clemesha
Professora de história árabe da USP, tradutora de Edward Said e autora, entre outros livros, de "Marxismo e Judaísmo" e "Palestina 1948-2008"


[RESUMO] O mito do êxodo voluntário de palestinos depois da fundação de Israel, em 1948, foi descartado pela historiografia na década de 1980, mas as motivações da Nakba, que levou à expulsão de 750 mil palestinos de suas terras, foram elucidadas apenas nos anos 2000. Ilan Pappé e outros historiadores reuniram evidências de que a ação de milícias sionistas foi planejada e que a chamada "limpeza étnica"! da Palestina não é decorrência circunstancial da guerra.

*

O termo árabe "al nakba", traduzido como "a catástrofe", traz a conotação de uma miséria profunda e se refere à expulsão de 750 mil palestinos do território onde foi criado o Estado de Israel em maio de 1948.

Mais recentemente, os estudos da área começaram a empregar o termo "Nakba contínua" para enfatizar que o processo de expulsão, que teve seu auge naquele 1948, continua até hoje. Em 1967, outros 350 mil palestinos foram deslocados.

Fora dos períodos de guerra, o deslocamento forçado ocorre por outros meios, seja através de leis e dispositivos discriminatórios, seja através da invasão e do roubo de casas palestinas por colonos radicais —evento recorrente em Jerusalém oriental.

Menina palestina em 1935 - Matson Photograph Collection/Library of Congress via Palestine Photo Project

O primeiro a chamar atenção para o caráter contínuo da Nakba não foi um historiador, mas Elias Khoury, escritor libanês e ex-combatente da liberdade ("fida'i" em árabe). Ferido ao redor dos 20 anos, trocou o rifle pela caneta e passou a coletar fragmentos de histórias palestinas e a tecer narrativas que registram o longo e ininterrupto sofrimento desse povo, bem como sua resiliência.

A concomitância e a intrínseca relação entre o ápice da Nakba e a criação do Estado de Israel gerou enormes disputas historiográficas. A versão dos chamados velhos historiadores israelenses foi retratada pela imagem de um Davi israelense contra um Golias árabe.

O jovem Estado de Israel, nascido das cinzas do Holocausto europeu, teria enfrentado uma terrível força árabe, cujo desejo seria eliminar o país e lançar os judeus ao mar.

A guerra de 1948, segundo tal narrativa, seria uma guerra de defesa. Os palestinos teriam fugido a mando de seus líderes para dar lugar à entrada dos exércitos árabes.

Um dos primeiros historiadores palestinos, Aref al-Aref, era na ocasião o comissário-assistente do distrito de Ramallah e foi encarregado de receber o negociador da ONU, o conde sueco Folke Bernadotte, em julho de 1948, pouco após a queda e o massacre de Lydd e Ramla.

Sessenta mil habitantes dessas duas cidades tinham sido forçados a uma marcha de morte em que centenas deles pereceriam desidratados e exauridos antes de chegar a Ramallah. O conde Bernadotte foi informado pelos oficiais israelenses de que os palestinos fugiram a mando de seus líderes.

Aref al-Aref conta que ele prontamente levou o conde Bernadotte para encontrar alguns desses líderes, para ouvir seus relatos, nas cavernas onde tinham se refugiado. Foram encontros como esse que certamente fizeram com que Bernadotte reportasse à ONU que "nenhum acordo será justo e completo se não for garantido o reconhecimento do direito de os refugiados árabes voltarem para suas casas, de onde foram desalojados".

O conde Bernadotte foi assassinado poucos meses depois pelo grupo extremista Lehi, comandado na época por Yitzhak Shamir, que passaria de terrorista procurado pelas autoridades inglesas a primeiro-ministro de Israel em 1983.

O mito do êxodo voluntário dos palestinos perdurou por três décadas, não obstante os relatos de Folke Bernadotte, Aref al-Aref e do historiador Walid Khalidi, que, na década de 1950, foi o primeiro a comprovar a sua falsidade com pesquisas em arquivo.

Como se alegava que as altas lideranças árabes haviam emitido ordens pelo rádio para que os palestinos fugissem, Walid Khalidi revirou o acervo das gravações radiofônicas árabes de 1948, mantido no Museu Britânico, em Londres, onde não encontrou nenhum registro nesse sentido.

O personagem Adam, do mais recente romance de Elias Khoury publicado no Brasil, "Meu Nome é Adam"(editora Tabla), pergunta, muito pelo contrário: por que não fugiram?

Cerca de 15 mil palestinos morreram na Nakba de 1948, e foram registrados mais de 30 massacres como o de Deir Yassin, ocorrido em 9 de abril daquele ano, e o de Tantura, caso investigado por Teddy Katz, aluno do historiador israelense Ilan Pappé na Universidade de Haifa, que, depois de defender sua dissertação de mestrado em 1998, foi pressionado pela direção da faculdade a alterar suas conclusões.

Na década de 1980, surgiu uma onda de publicações acadêmicas dos chamados novos historiadores israelenses, que, mais de duas décadas após os historiadores palestinos a quem ninguém deu ouvidos, também refutaram a velha narrativa sionista do êxodo voluntário. Fizeram-no principalmente a partir de arquivos nacionais e militares israelenses abertos 30 anos após 1948.

Um novo entendimento foi produzido pela pesquisa do historiador israelense Benny Morris, ao redor de 1987, comprovando que os aproximadamente 750 mil palestinos que se tornaram refugiados em 1948 tinham sido, de fato, expulsos.

Caía por terra, definitivamente, a versão do êxodo voluntário. A discussão, no entanto, passou a girar em torno dos motivos da expulsão. Morris, após titubear, chegaria à conclusão de que a expulsão foi a consequência inelutável da guerra de 1948, motivo pelo qual foi duramente criticado pelo cientista político judeu norte-americano Norman Finkelstein, que chamou a tese de Benny Morris de "o meio termo feliz", já que reconhecia a expulsão, mas negava a motivação.

Vários autores, palestinos e israelenses, como Nur Masalha e Avi Shlaim, fizeram então importantes contribuições ao debate historiográfico e ao processo de desconstrução da mitologia sionista. Contudo, o próximo grande avanço historiográfico viria como resultado da publicação, em 2006, do principal livro de Ilan Pappé, "A Limpeza Étnica da Palestina".

Nele, o autor demonstrou como, na década de 1940, o Fundo Nacional Judaico financiou um projeto secreto de mapeamento do território da Palestina, ainda sob o mandato britânico.

O levantamento incluiu os nomes e a localização dos vilarejos, a qualidade das terras de cada aldeia, sua produção agrícola, o número de pomares, o número de árvores em cada pomar e até de frutos em cada árvore, as fontes de água, carros e carroças, a população masculina adulta, os nomes de todo suspeito de ser um combatente do movimento de resistência do campo, nomes das lideranças e descrição do interior das casas dos "mukhtars" (líderes/prefeitos), indicando que os espiões judeus eram recebidos com a típica hospitalidade árabe no interior das casas.

Os arquivos dos vilarejos, construídos de maneira completamente clandestina ao longo da década de 1940, registraram dados extremamente detalhados e cada vez mais relativos às capacidades militares e de resistência dos residentes árabes.

Segundo Ilan Pappé, essa informação foi usada, primeiro, para entender quais terras seriam as mais cobiçadas para a formação do Estado judeu quando chegasse o momento; segundo, que tipo de força de resistência poderia ser encontrado em cada região e em cada aldeia. Os "arquivos dos vilarejos" teriam fornecido a base de dados para a elaboração do Plano D (Dalet), o plano de guerra do Exército israelense em 1948 ou, na visão de Pappé, o plano para a limpeza étnica da Palestina.

O termo pode ser entendido como uma política deliberada de remoção de populações civis de seus territórios, por meio da violência e do terror, para viabilizar a ocupação por seus perpetradores. Assim, difere da ideia de genocídio, ação intencional de extermínio de grupos étnico-raciais, nacionais ou religiosos.

Os ataques aos vilarejos seriam conduzidos inicialmente pelas milícias sionistas Haganá, Irgun e Lehi, mais conhecidos como bando Stern, e teriam início assim que aprovada a partilha da Palestina em votação da Assembleia Geral da ONU, em 29 de novembro de 1947.

A ação da Haganá em Wadi Rushmiyya, bairro árabe de Haifa, em dezembro de 1947, foi considerada o marco inicial da limpeza étnica da Palestina. A Haganá aterrorizou os 75 mil habitantes árabes da cidade, incitou-os a fugir e explodiu suas casas para que não tivessem para onde retornar.

Segundo Ilan Pappé, a primeira fase da limpeza étnica foi realizada de dezembro de 1947 a março de 1948, período marcado por ataques ainda esporádicos das milícias sionistas e episódios de resistência, emboscadas e contraofensivas palestinas. Em março, foi finalizado o referido Plano Dalet, alterando e acirrando as características do conflito.

Esse plano foi elaborado com base nos dados reunidos nos arquivos dos vilarejos e traçava as regiões que o movimento sionista deveria tentar conquistar para além das fronteiras designadas pela ONU.

Determinava também os métodos a serem empregados: segundo Pappé, cercar e bombardear vilarejos e núcleos populacionais, atear fogo a casas, propriedades e bens, expulsar os moradores, demolir suas casas e, finalmente, plantar minas nos destroços para impedir o retorno dos moradores expulsos. Cada unidade paramilitar recebeu uma relação específica de vilarejos e bairros que seriam seu alvo.

O Plano Dalet era a quarta e última versão de planos anteriores que tinham descrito apenas vagamente como a liderança sionista pretendia lidar com a presença de tantos palestinos na terra que o movimento nacional judeu reivindicava. Nas palavras de Pappé, "o quarto e último traçado dizia clara e inconfundivelmente: os palestinos têm de sair".

Para Walid Khalidi, o objetivo do plano foi tanto quebrar a resistência palestina quanto criar um fato consumado que nem a ONU, os Estados Unidos ou os países árabes conseguiriam reverter. Isso explica, segundo Khalidi, a velocidade e a virulência dos ataques aos centros populacionais árabes.

À medida que o plano militar era executado, dezenas de milhares de palestinos seriam forçados a marchar, levando apenas as roupas do corpo, formando rios de refugiados que inundaram os países árabes fronteiriços na esperança de, em breve, retornar.

Uma das principais e mais carismáticas lideranças da resistência palestina, Abd al-Qadir al-Husseini foi morto na batalha de Al-Qastal em abril de 1948. O segundo líder, Hassan Salameh, que conduziu a resistência camponesa "al-jihad al-muqaddas", caiu na batalha de Ras Al-Ayn, em junho de 1948. A derrota palestina foi selada independentemente do posterior ingresso dos países árabes na guerra.

Os países árabes votaram contra a resolução 181 da ONU, que determinou a partilha da Palestina. Jamais concordaram com a instauração do mandato britânico [administração civil britânica que operou de 1920 a 1948] e, assim como os próprios palestinos, não aceitavam que uma porção dos territórios árabes fosse entregue para o movimento sionista.

Assim que declarada a fundação do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, ingressaram na guerra. O objetivo era, alegadamente, impedir a criação do Estado sionista. Na prática, boa parte das tropas enviadas eram irregulares, com voluntários mal-armados e maltreinados, que tinham por objetivo acudir ao apelo dos irmãos palestinos.

A exceção era a Jordânia, com pretensões de anexar as terras férteis da margem ocidental do rio Jordão. A monarquia hachemita tinha o maior Exército árabe da época e, na avaliação de Walid Khalidi, não fosse por ela e pela participação do Egito, os palestinos teriam perdido todas as suas terras em 1948.

Israel foi criado em 78% do território da Palestina histórica, não nos 52% designados pela ONU. Nessa porção majoritária do território da Palestina histórica, permaneceram apenas cerca de 150 mil palestinos. A Faixa de Gaza recebeu 200 mil refugiados, cujos descendentes representam 70% da população atual. Outros 550 mil palestinos fugiram principalmente para a Cisjordânia, a Jordânia, a Síria e o Líbano.

Salman Abu Sitta, expulso de Beer Sheva aos dez anos, refugiou-se com a família em Gaza e depois foi para Londres, onde se doutorou em engenharia civil.

Ele mapeou os 530 vilarejos palestinos esvaziados, destruídos e eliminados pelas invasões das milícias sionistas e das Forças de Defesa de Israel, de finais de 1947 até os armistícios de 1949, e demonstrou que é falso o argumento de que não há espaço para o retorno dos refugiados palestinos às suas terras e cidades de origem.

Dado que os historiadores palestinos foram largamente ignorados, foi a partir da pesquisa apresentada por Ilan Pappé em "A Limpeza Étnica da Palestina" que se formou uma nova compreensão acerca da Nakba.

Não seria mais o caso de dizer que a expulsão dos palestinos existiu, mas em decorrência da guerra, nem que ela foi um objetivo sistematicamente perseguido apenas durante a guerra, mas que a guerra foi iniciada no dia seguinte à aprovação da partilha da Palestina pela ONU para realizar um plano que previa a desocupação para a criação de um estado étnico e majoritariamente judeu.

Desnecessário dizer que a tese de Ilan Pappé desagradou profundamente o establishment sionista. O historiador trocou a Universidade de Haifa pela de Exeter, no Reino Unido, mas não deixou de fazer enorme sucesso entre os israelenses que lutam pela conquista dos direitos palestinos e acreditam que devem encontrar formas menos segregacionistas e mais compartilhadas de viverem juntos, do rio ao mar.

Como dizia Edward Said, nenhum povo quer ter que olhar para trás e reconhecer os horrores da sua própria história. Ao mesmo tempo, dizia ele, somente o reconhecimento dos sofrimentos mútuos —dos judeus no Holocausto e dos palestinos na Nakba— poderá gerar a reparação e os elos necessários para uma vida em comum. Enquanto a Nakba continua e se agrava, o reconhecimento da catástrofe apenas começa.

OBRAS PARA COMPREENDER A NAKBA, EXPULSÃO DE PALESTINOS DEPOIS DA CRIAÇÃO DE ISRAEL

"Why Did the Palestinians Leave?" (1959; ed. Middle East Forum), de Walid Khalidi

"The Birth of the Palestinian Refugee Problem, 1947-1949" (1988; ed. Cambridge University Press), de Benny Morris

"Imagem e Realidade do Conflito Israel-Palestina" (2005; ed. Record), de Norman Finkelstein

"A Limpeza Étnica da Palestina" (2006; ed. Sundermann), de Ilan Pappé

"Mapping My Return: a Palestinian Memoir" (2016; ed. The American University in Cairo Press), de Salman Abu Sitta

"Expulsão dos Palestinos: o Conceito de "Transferência" no Pensamento Político Sionista 1882-1948" (2021; ed. Sundermann/Memo), de Nur Masalha

"Meu Nome É Adam" (2022; ed. Tabla), de Elias Khoury.

23 de outubro de 2023

Ter coragem para evitar o pior

Somente a devolução dos territórios palestinos trará compromisso com a paz

VÁRIOS AUTORES (nomes ao final do texto)

Folha de S.Paulo

Enquanto assistimos horrorizados à intolerável perda de milhares de vidas e ao enorme sofrimento do povo palestino, vemos com grande preocupação o assédio e a tentativa de silenciamento das opiniões divergentes que fazem parte do debate público. Associar a defesa da causa palestina —o direito inalienável deste povo de viver em seu próprio território, respeitando todas as resoluções da ONU— ao antissemitismo e apoio ao terrorismo é operação sumamente desonesta e afronta aos direitos humanos.

Não é aceitável, sob nenhum argumento, a existência de um povo apátrida, vivendo segregado e em condições de um apartheid. Menos aceitável é a ausência de indignação internacional e de pressão institucional contra o governo israelense para que respeite a norma internacional, cumprindo as exigências da ONU sem subterfúgios.

Destroços de prédios após bombardeio de Israel na Faixa de Gaza - Ibraheem Abu Mustafa - 17.out.23/Reuters - IBRAHEEM ABU MUSTAFA/REUTERS

Qualquer análise honesta de como chegamos a esse ponto de violência extremada deve começar lembrando que os palestinos que optaram por uma saída diplomática para o conflito com Israel foram traídos. A narrativa que não parta das razões do fracasso histórico dos acordos de Oslo e da total inação da comunidade internacional é falsa e enviesada. A falta de respeito a acordos internacionais de paz sempre produziu as piores consequências.

A tolerância da comunidade internacional com o desrespeito por Israel dos compromissos assumidos permitiu que ali se consolidasse um regime de apartheid contra os palestinos com o intuito de manter a dominação de um único grupo étnico e nacional. Não obstante 20% da população de Israel ser formada por palestinos, em 2018 foi aprovada a Lei Básica do Estado-Nação, afirmando que "o direito ao exercício da autodeterminação nacional no Estado de Israel é exclusivo ao povo judeu". Consolidava-se, assim, um sistema de segregação e desigualdade institucionalizada por leis e políticas em toda a Palestina histórica.

Neste momento, é incontornável enfrentar corajosamente o problema que afeta o mundo inteiro: a paz no Oriente Médio depende do fim da ocupação ilegal dos territórios palestinos e do apartheid. A circulação de discursos sobre a "enorme complexidade" da situação é falaciosa e tem como objetivo ocultar a continuidade da limpeza étnica do povo palestino.

A única resposta à tal dissimulação da realidade é a exigência de que finalmente os direitos inalienáveis do povo palestino sejam respeitados por Israel com a devolução dos territórios da Cisjordânia, de Jerusalém Oriental, da Faixa de Gaza e das colinas de Golã.

O sistema de segregação e discriminação contra o povo palestino, na sua própria terra, precisa dar lugar a um regime de respeito universal a todos que ali vivem. Somente o compromisso com a paz real, com soluções duradouras ancoradas no direito internacional e com o respeito à liberdade de expressão, pode produzir a consciência mundial capaz de eliminar as supremas injustiças a que os palestinos continuam submetidos.

Caso contrário, como disse José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura: "Um dia se fará a história do sofrimento do povo palestino e ela será um monumento à indignidade e covardia dos povos".

Arlene Clemesha
Professora de história árabe (USP)

Marilena Chaui
Professora emérita de filosofia (FFLCH-USP)

Leda Paulani
Professora titular da Faculdade de Economia e Administração da USP

Carlos Augusto Calil
Professor da Escola de Comunicação e Artes da USP

Paulo Sérgio Pinheiro
Professor de ciência política (FFLCH-USP) e ex-ministro de Direitos Humanos (governo FHC)

Vladimir Safatle
Professor de filosofia (FFLCH-USP)

* Os autores escrevem em nome de um grupo maior de docentes da Universidade de São Paulo

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