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13 de fevereiro de 2025

Jean-Marie Le Pen deu a volta por cima

Jean-Marie Le Pen, que morreu no mês passado, tentou forjar uma aliança entre neofascistas, apologistas do colonialismo francês e comunidades negligenciadas da classe trabalhadora. Hoje, essa coalizão ameaça as fundações da Quinta República.

Emile Chabal

Jean-Marie Le Pen se prepara para fazer um discurso em 25 de janeiro de 2015, em Paris, França. (Alain Jocard / AFP via Getty Images)

Todo francês tem pelo menos uma história sobre Jean-Marie Le Pen. Eu tenho duas, ambas muito anteriores ao meu interesse acadêmico pela França.

A primeira remonta a quando eu tinha cerca de seis ou sete anos, passando os verões com minhas tias, tios e primos em uma casa grande em Haute-Provence no final dos anos 1980. Durante uma das minhas estadias, minha prima mais próxima, que era apenas um ano mais nova que eu, me informou que "Le Pen" era um gros mot — um palavrão. Dada a maneira como todos usavam "Le Pen" como uma forma vaga de insulto, isso me pareceu plausível, e devo ter acreditado nela por alguns dias. Eventualmente, ela me informou que "Le Pen" não era, de fato, um palavrão, mas o nome de um político. Isso levou a muitas piadas às minhas custas e talvez também um pouco de simpatia pela minha ingenuidade infantil.

Minha segunda história se refere àquele dia fatídico — 21 de abril de 2002 — quando Le Pen chegou ao segundo turno da eleição presidencial. Acontece que esta foi a primeira eleição em que tive direito a votar, mas não pude fazê-lo porque estava viajando para o exterior (os franceses não permitem votação por correspondência). Soube de seu sucesso chocante enquanto tomava um café da manhã gorduroso em um café de beira de estrada na Nova Zelândia, a mais de 18.000 quilômetros de Paris. Quando saí do café com raiva, jurei que nunca mais me absteria de uma eleição.

Olhando para trás, o impressionante sobre minhas duas histórias sobre Le Pen é o quão universais elas são. Suspeito que haja muitos franceses que pensam em Le Pen como um gros mot — e definitivamente não sou o único francês a ter memórias vívidas de 21 de abril de 2002. As estimativas eleitorais sofisticadas feitas pelos pesquisadores significam que os resultados de quase todas as eleições francesas são conhecidos no exato segundo em que as urnas fecham às 20h. Naquele dia fatídico em 2002, houve — literalmente — uma enorme inspiração quando dezenas de milhões de pessoas viram o rosto de Le Pen aparecer nos gráficos de TV pré-preparados indicando os vencedores do primeiro turno.

É importante lembrar, porém, que o choque genuíno que a maioria dos franceses sentiu com o sucesso de Le Pen não foi porque ele era uma quantidade desconhecida. Pelo contrário, a maioria das pessoas politicamente alfabetizadas na França em 2002 sabia precisamente quem ele era. Pense desta forma: para qualquer francês nascido após a Segunda Guerra Mundial, Le Pen tem sido uma figura fixa em toda a sua vida política. Não é de se admirar que sua morte em 7 de janeiro de 2025, aos noventa e seis anos, tenha sido (outro) choque. Para alguns de nós — inclusive eu — a política francesa é quase impensável sem sua presença iminente.

A longevidade absoluta de Le Pen sem dúvida explica a cascata de obituários, homenagens, mensagens de ódio e tuítes de raiva que apareceram no mês desde sua morte. Isso nos lembrou de sua personalidade política feia. Ele era um homem que se deleitava com a controvérsia e não hesitava em dizer o indizível. Ele era grosseiro, racista, misógino, antissemita, corrupto, venal e violento. A imagem dele usando um tapa-olho — o que ele fez de 1965, quando machucou o olho esquerdo, até o início dos anos 1980 — capturou algo de sua qualidade de fora da lei. O tapa-olho o fazia parecer um cruzamento entre um lutador de rua e um pirata, o que, em retrospecto, é um conjunto de associações inteiramente apropriado.

Mas Le Pen era mais do que apenas uma personalidade desagradável. Ele era uma janela para os recessos mais sombrios da política francesa. Sua existência — somos tentados a dizer sua persistência — era um lembrete de que o acordo constitucional que deu origem à Quinta República em 1958 foi construído sobre as ruínas do extremismo político. Enquanto o fundador da Quinta República, o celebrado herói da resistência Charles de Gaulle, queria que sua constituição fosse forte e segura, os observadores mais astutos sabiam que ela era frágil. Ela domou os extremos políticos, mas Le Pen serviu como um lembrete perpétuo de suas limitações. Enquanto ele estava vivo, a extrema direita tinha um lugar garantido no cenário político.

De fato, Le Pen representava quase todas as tradições da extrema direita francesa. Monarquistas, fundamentalistas católicos, neofascistas ou apologistas coloniais têm sido figuras recorrentes ao longo da história francesa moderna, mas ele — e, mais tarde, sua família — conseguiu combinar todos esses extremos. Seu triunfo em 2002 foi um sinal de que ele havia trazido a grande tradição contrarrevolucionária da França para o século XXI, reconciliando-a com normas democráticas, capitalismo globalizado e um mundo pós-colonial.

Uma criatura de ressentimentos

Le Pen atingiu a maioridade em uma época em que a extrema direita francesa havia sido definitivamente derrotada. Em 1945, o fascismo e seus aliados foram esmagados na Europa, e seus acólitos foram dispersos. Isso não significa, é claro, que a extrema direita havia desaparecido. Havia muitas pessoas — cidadãos comuns e políticos — que apressadamente retocaram seus passados ​​fascistas, nazistas ou colaboracionistas com a chegada de novos regimes políticos, mas as simpatias pela extrema direita permaneceram vivas abaixo da superfície.

Uma das poucas formas aceitáveis ​​de retórica de extrema direita na Europa do pós-guerra era o anticomunismo virulento — e, não surpreendentemente, foi aí que a vida política de Le Pen começou. Enquanto estudava direito em Paris no final da década de 1940, ele e seus amigos abraçaram entusiasticamente a política de rua anticomunista e bruta da época, na qual tanto os "policiais" quanto os "vermelhos" eram alvos fáceis. Essa visão de mundo nunca o abandonou: é um fato frequentemente esquecido que o partido de Le Pen — a Frente Nacional (FN) — era apaixonadamente anticomunista nas décadas de 1970 e 1980. Isso explica em parte por que a FN alcançou algum grau de sucesso eleitoral quando socialistas e comunistas estavam realmente no poder no início dos anos 1980.

Foi também o anticomunismo que impulsionou o jovem Le Pen para os braços do político populista Pierre Poujade no início dos anos 1950. Quando Le Pen concorreu à eleição pela primeira vez em 1956, foi sob a bandeira do poujadisme. Durante a campanha eleitoral, ele empunhou o machado retórico, atacando seus oponentes com insultos e ameaças. Em um comício eleitoral, ele disse ao seu público que "é necessário e normal que um certo número de pessoas pague pelo massacre e ruína deste país com suas vidas". Ele ainda ganhou uma cadeira no parlamento.

A combinação de retórica antidemocrática e apocalíptica foi o estoque da extrema direita francesa por mais de um século, mas Le Pen — crucialmente — misturou-a com ressentimento na forma de nostalgia colonial. Alguns anos antes, ele se ofereceu para lutar na Indochina. Embora tenha chegado tarde demais para participar da derrota esmagadora em Dien Bien Phu na primavera de 1954, que levou à retirada francesa, sua experiência deixou uma profunda impressão nele. A humilhação da França nas selvas distantes do Sudeste Asiático deu um novo significado às suas ambições políticas.

Não há melhor indicação da profundidade de seu apego ao colonialismo francês do que sua decisão de se afastar como membro do parlamento por seis meses para se juntar ao seu antigo regimento de paraquedistas na Argélia no auge da primeira fase da contrainsurgência em 1957 — o período que ficou famoso pelo filme Batalha de Argel. Desta vez, ele lutou — e lutou sujo, como tantos outros recrutas e conscritos franceses. Mas, como na Indochina, o resultado final não foi aquele pelo qual ele lutou. Novamente, os franceses foram colocados sob controle, e a Argélia conquistou sua independência em 1962.

Esta segunda derrota teve um impacto ainda mais profundo do que a primeira. Mais do que qualquer outra coisa, um profundo anseio pela Argélia Francesa definiu a perspectiva de Le Pen a partir do início dos anos 1960. A essa altura, ele estava firmemente entrincheirado na ala "nacionalista" da extrema direita francesa, cercado por ex-militares amargurados, veteranos de campanhas coloniais fracassadas, antissemitas irredutíveis, neofascistas e racistas raivosos. Às vezes, esse grupo se sobrepunha a organizações compostas por católicos reacionários e monarquistas, mas ele sempre se interessou mais por aqueles que reconheciam a urgência do catastrófico fim colonial da França. Ao mesmo tempo que De Gaulle estava, para usar as palavras do historiador Todd Shepard, “inventando” uma nova história para a França após a perda da Argélia, Le Pen estava agarrada ao passado colonial, confiante de que ele poderia ser invocado novamente a qualquer momento.

O futuro imediato, no entanto, não era promissor. Durante as duas primeiras décadas da Quinta República, parecia que a história gaullista da França como uma potência europeia independente e moderna havia triunfado. Nem mesmo a unificação bem-sucedida de Le Pen de várias vertentes de extrema direita na forma da FN em 1972 conseguiu mudar a maré. Tanto o consenso político gaullista quanto a arquitetura da Quinta República — cujo sistema eleitoral foi cuidadosamente projetado para suprimir partidos e personalidades extremistas — consignaram Le Pen às margens. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, ele mal conseguiu obter mais de 5% dos votos em qualquer uma das eleições parlamentares ou presidenciais para as quais concorreu e, em 1981, ele nem conseguiu obter as quinhentas assinaturas necessárias para se candidatar à presidência.

Mas Le Pen estava certo: havia grupos de eleitores que poderiam ser mobilizados pela causa da extrema direita. Eles se enquadravam em duas categorias: aqueles para quem a Quinta República sempre foi ilegítima e aqueles para quem as promessas da Quinta República acabaram sendo vazias.

O exemplo emblemático da primeira categoria foram os pieds-noirs, o nome dado à população de colonos europeus da Argélia. Quase um milhão deles fugiram para a França metropolitana depois de 1962, abandonando propriedades, memórias e meios de subsistência do outro lado do Mediterrâneo. Le Pen entendeu a situação deles. Ele compartilhava sua nostalgia pelo império, seu ódio por de Gaulle — que, eles alegavam, havia vendido a Argélia para um bando de terroristas — e sua aversão visceral a todos os "árabes".

À medida que a imigração pós-colonial se tornou mais visível nas décadas de 1970 e 1980, os pieds-noirs se tornaram uma base de apoio à FN no sul e sudeste da França. Eles absorveram a linguagem racista de Le Pen e sua crítica à imigração. Eles encontraram nele uma voz para suas queixas, reais ou imaginárias. Se não pudessem recuperar a Argélia, o mínimo que poderiam fazer era tirar os argelinos da França — e somente Le Pen poderia prometer isso com convicção.

A segunda categoria de eleitores da FN foi retirada de áreas que experimentaram a força total da desindustrialização. A Quinta República foi construída com a promessa de expansão industrial. Os planejadores que dominaram o estado na década de 1960 viam um futuro brilhante de pleno emprego e crescimento industrial, liderados por grandes corporações seminacionalizadas. Essa visão entrou em colapso nas décadas de 1970 e 1980, quando o desemprego disparou e se recusou teimosamente a diminuir, tornando-se uma das características mais marcantes da economia francesa. Os efeitos sociais do desemprego destruíram comunidades em desindustrialização no norte e leste da França. Algumas dessas áreas foram bastiões da esquerda socialista ou comunista, mas a experiência do governo de esquerda na década de 1980 convenceu muitos que viviam nessas áreas de que elas haviam sido abandonadas por seus representantes. Em vez disso, eles começaram a considerar Le Pen como uma alternativa viável.

Apesar dos sucessos notáveis, o crescimento da FN em áreas da classe trabalhadora foi limitado durante a década de 1980 porque a forte tendência anticomunista do partido ainda o predispunha a uma plataforma econômica de livre mercado. Mas, com o fim da Guerra Fria, Le Pen e seus soldados rasos estavam livres para abraçar uma retórica protecionista, que continuou a dominar as mensagens do partido até os dias atuais. Quando Le Pen alcançou seu famoso avanço em 2002, a transformação estava completa: a FN estava bem a caminho de se tornar o partido da classe trabalhadora mais autêntico da França.

O ressurgimento da direita

Uma das coisas mais notáveis ​​sobre Le Pen em seus últimos anos foi a maneira como ele consolidou seu legado. Ele foi, é claro, notoriamente marginalizado do partido que fundou por sua filha Marine e, eventualmente, expulso completamente em 2015. Mas o nome Le Pen se infiltrou em todos os cantos da extrema direita. No final de sua vida, ele pôde assistir com alguma satisfação enquanto Marine chegou duas vezes — e perdeu — o segundo turno da eleição presidencial em 2017 e 2022, e seu partido ganhou mais e mais assentos no parlamento (surpreendentes 124 nas eleições legislativas de 2024). Ele também pôde se consolar com o fato de que sua neta Marion-Maréchal havia associado com sucesso a família Le Pen ao novo movimento reacionário de extrema direita de Éric Zemmour, Reconquête.

Este último deve ter sido particularmente satisfatório para ele porque foi precisamente o eleitorado rico, burguês, católico e conservador de Zemmour que o iludiu durante sua própria carreira política. Há rumores de que ele adotou o nome Jean-Marie durante sua primeira campanha eleitoral em 1956 — seu primeiro nome de nascimento era simplesmente Jean — porque o fazia soar mais "católico". Não está claro se essa foi uma estratégia de reformulação bem-sucedida, já que esse eleitorado raramente votava nele. Mas, como em tantas outras coisas, ele riu por último quando sua neta se tornou o rosto jovem da Reconquête mais de sessenta anos depois. Para Le Pen, a política sempre foi um jogo longo.

E o que dizer da Quinta República? Hoje, ela está em frangalhos, suas instituições esticadas até o ponto de ruptura pelo deslocamento do sistema político que começou com o choque de 2002. Os temas que fizeram de Le Pen um nome conhecido — ansiedade pós-colonial, a negligência dos franceses trabalhadores e o "declínio" da França — são todos parte da retórica política cotidiana, e houve um ressurgimento geral da retórica de extrema direita em programas de entrevistas na TV e nas mídias sociais. Aqueles que argumentam que as ideias e a linguagem de Le Pen foram normalizadas certamente estão certos.

No entanto, as lições da vida de Le Pen vão além da retórica. Sua longa carreira política é um lembrete da vitalidade e da força da extrema direita francesa. Durante grande parte do período pós-guerra, a política europeia foi baseada em uma extrema direita fraca. O antifascismo era a linguagem política dominante do Ocidente democrático e do Oriente comunista. A Quinta República também operou de acordo com essas regras. Ao resolver a questão argelina e estabilizar um sistema político fragmentado, marcou o triunfo de uma marca peculiar de antifascismo gaullista de direita.

Mas um consenso antifascista começou a definhar na década de 1980 e desmoronou completamente após o colapso da União Soviética em 1991. Tornou-se aparente que a extrema direita não havia desaparecido. Ela estava simplesmente em suspenso, sufocada por tabus políticos e reduzida a pouco mais do que uma gros mot. Para aqueles como Le Pen, que esperaram décadas para receber seu lugar de direito na mesa política, este era o momento de atacar.

Ele entendeu que precisava atingir o sistema político da França onde doía — e fez isso recorrendo à profundidade da tradição de extrema direita do país para mobilizar novos eleitores. Para aqueles da esquerda francesa, que assistiram impotentes enquanto eram superados por seu partido e suas ideias, foi uma lição amarga. Afinal, toda a carreira política de Le Pen é um lembrete de que ressentimento e raiva são emoções políticas tão poderosas quanto solidariedade e esperança.

Colaborador

Emile Chabal é professor de história contemporânea na Universidade de Edimburgo. Ele trabalha com história política e intelectual europeia do século XX, com interesse especial na França.

27 de abril de 2021

Desvendando os muitos Eric Hobsbawms

O trabalho de Eric Hobsbawm abrangeu tudo, do jazz à história do banditismo, em milhares de textos que ele escreveu em várias línguas. Um novo projeto reuniu seus escritos em um banco de dados pesquisável - oferecendo aos leitores uma mina de ouro do trabalho do maior historiador marxista da Grã-Bretanha.

Emile Chabal e Anne Perez

Jacobin

O historiador e sociólogo marxista britânico Eric Hobsbawm em Carpi, Itália, 2006. (Leonardo Cendamo / Getty Images)

Até recentemente, qualquer pessoa com interesse acadêmico em Eric Hobsbawm, mais cedo ou mais tarde, seria instruída a entrar em contato com Keith McClelland. O motivo era simples: ele tinha as chaves (virtuais) de um documento extraordinário - um arquivo PDF que continha detalhes de quase tudo que Hobsbawm escreveu. Tinha mais de 130 páginas e incluía detalhes de várias edições, traduções e uma gama estonteante de referências cruzadas. Foi - e ainda é - uma visualização sem precedentes da produtividade e do sucesso comercial de Hobsbawm.

A história por trás desse documento notável remonta ao início dos anos 1980. Na época, alguns alunos e colegas de Hobsbawm prepararam um volume editado para comemorar sua aposentadoria no Birkbeck College, em Londres. Quando os dois editores - Raphael Samuel e Gareth Stedman Jones - começaram a montar o livro, eles perceberam que uma maneira de marcar a contribuição de Hobsbawm era contratar alguém para preparar uma bibliografia abrangente de seus escritos. Eles convidaram Keith, então historiador do trabalho e participante frequente do seminário de História Social de Hobsbawm no Instituto de Pesquisa Histórica de Londres, para realizar o trabalho.

Mesmo no início dos anos 1980, essa era uma tarefa enorme. Hobsbawm publicou vários livros - de autoria única ou editado - e esteve envolvido em uma miríade de projetos editoriais, desde o jornal histórico Past & Present à série multiautor e multivolume Storia del marxismo (História do marxismo), instigada pela Editora italiana Einaudi. Acima de tudo, ele publicou um número surpreendente de ensaios, artigos e resenhas em uma série de publicações internacionais.

Vale lembrar que não havia Internet para ajudar a rastrear referências esotéricas. Keith não pôde recorrer ao Project Muse ou ao Google Books. Em vez disso, ele teve que confiar nas fichas da Biblioteca Britânica em Londres e na própria memória imperfeita de Hobsbawm. Ele passou longas horas na residência de Hobsbawm em Nassington Road, no norte de Londres, perseguindo datas de publicação, identificando referências cruzadas esquecidas e classificando traduções inesperadas.

O resultado final foi uma bibliografia de trinta páginas, publicada em 1982 como o capítulo final do volume editado Culture, Ideology and Politics: Essays for Eric Hobsbawm. Foi um marco no mundo dos estudos sobre Hobsbawm. Pela primeira vez, foi possível rastrear ideias em diferentes textos, formatos e, em alguns casos, idiomas. A decisão de Keith, tomada em colaboração com os editores, de agrupar os escritos por tema revelou tendências e grupos que de outra forma teriam permanecido ocultos.

O problema era que ainda havia muito mais Hobsbawm para vir depois de 1982. Ele nem tinha publicado a terceira parte de sua tetralogia “Ages” - Age of Empire saiu em 1987 - muito menos as centenas de artigos, palestras, livros capítulos, artigos de opinião e entrevistas que acompanharam a publicação de Age of Extremes em 1994 e suas memórias, Interesting Times, em 2003.

Essa produção incessante significava que Keith estava continuamente no processo de agregar a sua bibliografia. A revisão mais substancial veio em 2010, quando ele foi convidado por Eric e Marlene Hobsbawm para fazer um balanço de tudo o que tinha aparecido desde 1982. A bibliografia cresceu rapidamente à medida que ele catalogava centenas de novos textos, muitos dos quais estavam associados ao novo status de Hobsbawm como um intelectual público. Keith adicionou categorias inteiras à bibliografia - como “globalização” - ausentes na edição de 1982.

Hobsbawm morreu em 2012, mas mesmo isso não foi suficiente para conter a maré. Várias coleções de seus ensaios foram publicadas postumamente, e entrevistas, palestras e aparições na TV continuaram a surgir online. Além disso, a decisão de depositar os papéis de Hobsbawm no arquivo do Modern Records Center da Universidade de Warwick abriu um rico ângulo adicional para uma bibliografia. Em breve seria possível comparar os escritos publicados e não publicados de Hobsbawm, bem como seus diários privados, correspondência dispersa e dezenas de cadernos de pesquisa.

Crossing the Digital Frontier

The Eric Hobsbawm Bibliography — which began in 2019 as part of a UK Arts and Humanities Research Council project on Hobsbawm’s intellectual biography — was initially conceived as an attempt to bring order to this increasingly chaotic bibliographical landscape.

The aim was simple: We wanted to convert the most recent version of Keith’s bibliography into an open-access database, to which we would add the complete catalogue of Hobsbawm’s archive. This would then form the basis of a multilingual website that would allow anyone to search the bibliography according to a range of criteria. To preserve the spirit of Keith’s original bibliography, we also wanted to create curated lists of publications grouped under certain thematic headings, such as “Capitalism: origins, development, results,” “Jazz,” and “Labour history.” These would provide ready-made reading lists for those looking for Hobsbawm’s thoughts on a particular subject.

Given that much of the hard work had already been done by Keith over the past thirty years, we expected it to be a straightforward task to convert his bibliography into a flexible digital format. Nothing could have been further from the truth.

For a start, we faced endless technical challenges. Our coding wizard, Richard Hadden, struggled heroically to convert obsolete or proprietary formats into an easily accessible XML database. Nevertheless, formatting went missing, numbering systems broke halfway through sequences, and inconsistencies in presentation that passed without notice in the paper version of the bibliography were ruthlessly exposed by the exigencies of programming.

We also found ourselves asking difficult conceptual questions about how our database should be organized and presented. Which should take priority in search results: the form of a publication (book, article, review, etc.) or the date of publication? Should monographs always appear higher in search results than other kinds of publication, thereby suggesting that they are the most valuable form of intellectual output? What is the proper relationship between an original text and its translations? Should the Spanish version of the website display Spanish-language translations above the English originals? In the case of texts that underwent substantial revisions, which should be the “master” version: the original or the latest edition?

Most historians, librarians, and archivists are used to making these snap judgements as a matter of course — and the answers are usually complex and context-specific. But building a database and search engine is unforgiving; programming languages work according to rational, hierarchical rules. It is possible to build in fuzzy logic or clever algorithms, but some hard decisions have to be made.

Incorporating unpublished material led to further issues. Our intention was to connect Hobsbawm’s papers to his published output, whether through curated lists or as links within a particular entry. In this way, someone interested in the reception and response to one of Hobsbawm’s books could start with the book itself and then move on to associated correspondence, reviews, or contractual details.

But what is the status of an unpublished manuscript draft? Should it appear alongside the published book? And what counts as “associated” material? Early conference papers? Research notebooks? These questions have been the subject of intense debate by intellectual historians and scholars of political thought. We had to choose one of two answers: “yes, this belongs” or “no, let’s leave it out.”

The finished product, then, turned out to be rather different than what had come before. We retained the architecture of the 1982 bibliography, but our discussions and additions transformed a static reference document into a vast and flexible database, which included outbound links to journal repositories like JSTOR and the WorldCat international library catalogue. When it went live in late 2020, the Eric Hobsbawm Bibliography became the most comprehensive and complex record of Hobsbawm’s writings currently available.

Hobsbawm and the Written Word

When we began the process of building the new bibliography, we imagined that it would serve as a useful tool for further research on Hobsbawm and his generation of Marxist intellectuals. By making his back catalogue accessible to anyone with an internet connection, we wanted to help our colleagues, our students, and anyone interested in Hobsbawm. It was conceived as an exercise in professional service.

Yet the process of compiling and revising the bibliography simultaneously revealed vital aspects of Hobsbawm’s intellectual biography, most of which have not been probed in any depth.

The first and surely the most striking aspect of the bibliography is its size. The database contains more than three thousand entries. Almost all of these refer either to individual texts authored by Hobsbawm or archival boxes that contain drafts, notes, and correspondence (the latter is very fragmentary). Most reviewers and commentators have remarked on Hobsbawm’s productivity, but this bibliography lays bare its sheer scale. It would be no exaggeration to say that he was obsessed with the written word.

From his earliest teenage writings to his political interventions in his nineties, everything was mediated through text. He wrote quickly, fluently, and often in one take. Regardless of the subject matter — and there were many of them — the words poured onto the page. At no point in his career does he seem to have suffered from serious writer’s block. Rather, he continued to write even through some of his most difficult personal circumstances.

He kept a diary for several years as an orphaned teenager in London; he maintained a handsome portfolio of book reviews and jazz criticism as his first marriage collapsed in the early 1950s; he processed the trauma of the Communist schism of 1956 by researching and writing Primitive Rebels; and he tried to understand the terminal decline and collapse of Communism in the late 1980s and ’90s by writing endless numbers of books, articles, and essays. For Hobsbawm, writing was more than a by-product of an intellectual life; it was an intensely personal act of communication.

At the same time, his bibliography shows just how well he mastered an essential academic skill: the art of repetition. He was an expert in repackaging his ideas. Student lectures became book chapters; newspaper op-eds became long essays; and key arguments found their way into a myriad of different formats. Hobsbawm was a strikingly original thinker. The range of concepts for which he became known — including the “dual revolution,” “primitive rebellion,” “invented traditions,” and “the short twentieth-century” — indicate a restless mind. But his productivity was also the result of a willingness to recycle his greatest hits.

This tendency was reinforced by his international success. One of the most difficult parts of the bibliography was identifying translations, some of which were unauthorized. Transliteration of titles was often unstandardized, and therefore search engines did not always successfully detect their publication details. Separating bogus from legitimate references was a painstaking task, but it means that the database now contains the most reliable record of Hobsbawm’s international reach. We tracked hundreds of publications that were translated into at least one other language. Especially impressive were the number of translations of some of his most famous books: we identified twenty-four translations of The Age of Revolution (1962) and The Age of Capital (1987); twenty-seven translations of Nations and Nationalism Since 1780: Programme, Myth, Reality (1990); and no less than thirty-one translations of The Age of Extremes (1994).

The circulation of texts in other languages multiplied the impact of his writings. In most cases, Hobsbawm had little or no input into a translation — and we know from his correspondence that he sometimes complained about the quality of the text in languages he could understand. But the truth was that each translation expanded his potential market. Without coming up with new ideas, he could reach new audiences. The written word was his passport to global fame.

This virtuous circle could work the other way, too. In some cases, he trialed ideas and arguments in non-English publications before introducing them to his English-language audience. This was especially true of his writings and interventions in Italy. In the 1950s and ’60s, he explored the relevance of Antonio Gramsci in Italian before incorporating some of these ideas into his English-language work in subsequent decades. Later, in the early 1970s, he used the left-wing Italian press to develop key ideas about the future of the labor movement that he then applied to the British Labour Party after the election of Margaret Thatcher in 1979.

Another consequence of this dense web of translated texts was a time lag in the reception of Hobsbawm’s ideas. This is clearly visible in the bibliography. Translations often appeared years — sometimes decades — after the original English text. One of the best examples of this is the translation of Hobsbawm’s classic articles on the “transition debate” and his essays on labor history, most of which were originally published in English in the 1950s and ’60s. These only appeared in Spanish and Portuguese in the 1970s. The time lag pulled Hobsbawm back to questions and themes on which he had written almost nothing for many years. The staggered temporalities of translation meant that he could cash in on his fame without actually producing new work.

It goes without saying that Hobsbawm’s commercial savvy is amply documented in his bibliography. For a career academic, he navigated the business of publishing with remarkable assurance. As a young scholar, he did a good deal of journalistic writing, for which he almost always received some kind of fee. Whether in the form of book reviews for the Times Literary Supplement or articles on jazz for the New Statesman, he was clearly focused on making a living from his craft.

He went one step further in 1959, when he signed a contract with David Higham, one of Britain’s most formidable literary agents. This guaranteed ever more lucrative book deals and allowed him to keep close control on the sale of foreign rights. It helped that his generalist historical writing hit the market at a time in the 1960s and ’70s when demand for cheap paperbacks was soaring. He quickly became one of the lucky few academics who was able to make money from something that was also central to his intellectual identity.

Beyond Hobsbawm himself, the bibliography speaks to the shape of both the historical profession and left-wing intellectual life in postwar Europe. One of the most obvious points is that these were overwhelmingly male spaces. There are vanishingly few women listed in the bibliography. They do not appear much as coeditors, collaborators, or even subjects of research. Even the interviews listed in the database are invariably with men or by men.

Some women, such as academic and fellow Communist Margot Heinemann, clearly had an important influence on Hobsbawm, but their absence in the database raises questions about their absence in his writings. The days and weeks of childcare that enabled Hobsbawm to travel to international conferences with two young children at home in the 1960s was also a precondition for his voluminous published output.

When some of his female students took him to task for neglecting women’s history in the late 1970s, they were not simply fighting a historiographical battle. They were also pushing back against an intellectual world overwhelmingly led by men who relied on the hidden labor of their wives, assistants, and secretaries.

The hundreds of cross-references in the bibliography also reflect the importance of intellectual and political contacts. Hobsbawm’s professional universe was made up of a dense web of overlapping international networks that steadily expanded over time. At each stage of his career, the things he published were a result of personal connections with magazine editors, old Cambridge alumni, foreign academics, and political activists.

When he was an apprentice historian in the late 1940s and early ’50s, his publications reflected his limited reach, which only stretched as far as British labor historians and economic historians, and a handful of French historians connected to the Annales school. By the 1970s, he was publishing a lot of material in places he had visited in previous years: He was a regular contributor to left-wing Italian newspapers and journals, and he was being translated into Spanish and Portuguese for dissemination across Latin America.

Like most intellectuals, his professional networks were unevenly distributed. By the time he died, his books and articles were easily accessible in the Americas, Western Europe, and South Asia. But the paucity of translations into Eastern European or Asian languages, let alone any major African language, indicate those regions where his ideas did not reach a wide audience. It is surely no coincidence that these were also the regions that received the least coverage in his work. Hobsbawm’s bibliography stands as a stark reminder that the subjects scholars choose to write about are, in most cases, determined by who they know and where they have been.

A Goldmine

The Eric Hobsbawm Bibliography was intended as a tool for understanding the published corpus of one of the world’s best-known Marxist historians. However, the digitization and compilation process also revealed the ways that intellectual capital was built and sustained in the second half of the twentieth century.

It was not Hobsbawm’s intrinsic genius that made him a superstar; it was his combination of strategic networking, commercial intelligence, and facility with the written word. Focusing on the physical infrastructure of Hobsbawm’s writings is a reminder to scholars of intellectual life that the form in which ideas are packaged is almost as important as the content. And this is surely just as true in the age of Twitter as it was during the golden age of the mass-market Penguin paperback.

Sobre os autores

Emile Chabal is a reader in history at the University of Edinburgh. He works on twentieth-century European political and intellectual history, with a special interest in France.

Anne Perez is a historian based in Mobile, Alabama. She was a postdoctoral research associate for the Eric Hobsbawm Bibliography project.

12 de junho de 2019

Hobsbawm nas margens

A historiografia do marxismo frequentemente imaginam um corpo de pensamento essencialmente europeu se espalhando pelo mundo. No entanto, como mostra o trabalho de Eric Hobsbawm, os avanços revolucionários na "periferia" podem remodelar profundamente o próprio pensamento dos marxistas ocidentais.

Emile Chabal


Janeiro de 1976: O historiador britânico Eric Hobsbawm. (Foto de Wesley / Keystone / Getty Images)

Tradução / Não é por acidente que a história do pensamento marxista é dominada por um pequeno grupo de pensadores europeus. Ocasionalmente, há espaço para um Frantz Fanon ou um C.L. R. James, cujas origens estão fora da Europa. Em ocasiões muito raras, há uma discussão séria de teóricos marxistas que operaram inteiramente fora da Europa, como o peruano José Carlos Mariátegui ou a escola indiana de “estudos subalternos”. Mas a realidade é que os pensadores europeus predominam. Ainda hoje, a história do marxismo é normalmente contada em termos da difusão de ideias de um centro ocidental para uma periferia não-ocidental.

Tais desequilíbrios são quase inevitáveis, dados o prestígio e a influência desproporcionais do pensamento europeu ao longo do século vinte. Entretanto, eles também levantam questões específicas para a história do marxismo. Afinal, o pensamento e a prática marxistas tiraram grande parte de sua vitalidade de desenvolvimentos fora da Europa. Governos de inspiração marxista em países como Cuba, Vietnã e China representam sem dúvida a contribuição do marxismo para a política do século vinte, que foi pelo menos tão importante quanto as várias tentativas pós-1917 de fazer o comunismo funcionar na Europa.

Isso coloca o problema de como a história do marxismo pode ser reescrita para levar em conta seu alcance global. Uma maneira é simplesmente abrir mais espaço para ideias e personalidades não-ocidentais. Outra é virar a geografia do marxismo ocidental de cabeça para baixo. Isso significa reconhecer que, embora o pensamento marxista europeu canônico viajasse para os cantos mais distantes do globo, havia também uma jornada de retorno, pois as ideias articuladas na periferia reformulavam as do centro.

Dos muitos intelectuais marxistas do século XX que se beneficiaram dessa troca de ideias nos dois sentidos, um dos mais interessantes é o historiador Eric Hobsbawm. Ao contrário de muitos intelectuais europeus, ele procurou ativamente – e encontrou – uma audiência global. Seus livros e artigos de enorme sucesso provocaram debates em lugares tão diversos quanto Delhi, Cidade do México e Palo Alto, e ele podia se orgulhar de ter um longo relacionamento com partidos como o Partito Comunista Italiano (PCI). Perto do fim de sua vida, ele seria elevado ao status de ícone cultural inclusive no Brasil.

Mas esse sucesso global impressionante é apenas parte da história. As interações de Hobsbawm com o resto do mundo nunca assumiram tão somente a forma de contratos para escrever livros, dar palestras como keynote speaker e ter artigos seminais discutidos por estudantes entusiasmados. Pelo contrário, suas experiências vividas na “periferia” moldaram profundamente suas estruturas teóricas e históricas. A partir de meados da década de 1950, deram origem aos seus insights mais originais e penetrantes sobre três debates no coração do pensamento marxista: a definição do ator revolucionário, a noção de revolução propriamente dita e a estratégia preferida para os partidos de esquerda democráticos.

Encontrando um ator revolucionário na periferia da Europa

Hobsbawm sempre teve interesse no mundo extra-europeu, pelo menos desde a sua chegada à Grã-Bretanha em 1934. Como um jovem comunista, o imperialismo estava na vanguarda de seu pensamento. Durante seu envolvimento com os congressos globais de estudantes em Paris em 1937 e 1939, ele se aproximou de jovens revolucionários de todo o mundo colonial e conseguiu financiamento do King’s College, em Cambridge, para fazer um trabalho de campo sobre o problema agrário no norte da África francês no verão de 1938. Ele passou meses lá, conversando com oficiais coloniais e jovens comunistas, e observando o funcionamento interno do colonialismo francês.

Se não fosse pelo início da Segunda Guerra Mundial, Hobsbawm poderia ter escrito seu doutorado sobre aquela região. Mas a guerra e seu primeiro casamento restringiram seus horizontes, e ele foi ficando cada vez mais absorvido pelo mundo intelectual e político do comunismo britânico. Desde o final da guerra até 1956, este se tornou seu ponto de referência dominante. Embora ainda permanecesse interessado no imperialismo e na descolonização, seu principal lar intelectual nesse período – o Grupo de Historiadores do Partido Comunista – negligenciou amplamente o tópico, e poucos historiadores marxistas britânicos de sua geração se envolveram com desenvolvimentos intelectuais em outras partes da Europa, quanto mais em outros lugares.

As múltiplas crises de 1956 despedaçaram o mundo hermeticamente fechado do comunismo britânico. Por ter se recusado a deixar o Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB), Hobsbawm ficou preso do lado de dentro, enredado entre ex-camaradas que não conseguiam entender sua decisão de ficar e uma hierarquia do partido que desconfiava dele. Em parte como uma maneira de escapar do ambiente político sufocante da época, ele renovou seu antigo interesse em processos históricos, sociais e políticos que estavam ocorrendo longe dos centros da vida intelectual europeia. Ele não retornou ao norte da África francês – que naquela época se encontrava em meio a uma violenta guerra anticolonial – mas voltou sua atenção para o sul da Itália e da Espanha. Essas regiões, muitas vezes negligenciadas pelos pensadores marxistas, forneceram a matéria-prima do primeiro livro original de Hobsbawm, o conjunto de ensaios que passaram a ser conhecidos como Primitive Rebels [Rebeldes Primitivos] (1959).

Primitive Rebels foi uma combinação de duas vertentes distintas no pensamento inicial de Hobsbawm. Primeiro, um interesse pelas experiências vividas por pessoas comuns, que já era visível em seus artigos sobre a classe trabalhadora inglesa; segundo, uma preocupação em identificar os atores revolucionários mais promissores da história europeia moderna. Embora todo o impulso argumentativo dos ensaios representasse uma visão leninista ortodoxa de que os “rebeldes primitivos” que comandavam revoltas rurais eram pré-políticos, incapazes de organização sustentada e necessitando da orientação de um partido de vanguarda, o foco da análise de Hobsbawm não foi lá muito ortodoxo.

Até a década de 1950, tanto marxistas quanto não-marxistas consideravam as rebeliões rurais do século dezenove e início do século vinte como pouco mais do que uma raiva incipiente e mal direcionada. Hobsbawm, entretanto, fez um esforço sustentado para explicar as queixas econômicas e sociais dos rebeldes rurais, e escreveu com sensibilidade sobre suas façanhas. Ele reconheceu que as rebeliões primitivas não eram políticas no sentido marxista, mas acreditava firmemente no valor de estudá-las como formas de protesto que poderiam fornecer a matéria-prima para políticas revolucionárias subsequentes.

É impossível entender esse interesse inesperado na vida interior dos rebeldes rurais esquecidos sem apreciar o crescente envolvimento de Hobsbawm com a Espanha e a Itália nesse período. No início dos anos 1950, ele visitou a Espanha pela primeira vez e começou a fazer viagens regulares à Itália, onde foi apresentado a uma geração de intelectuais entusiasmados do PCI e trabalhadores do partido. Ele usou essas conexões para viajar para partes do sul da Itália e do sul da Espanha, na época lar de algumas das populações mais pobres da Europa Ocidental. Durante o tempo que passou lá, ele se esforçou para conversar com os habitantes locais sobre suas memórias e suas condições de vida, usando seu parco conhecimento de italiano e espanhol. Ele anotou essas conversas e, ao retornar à Grã-Bretanha, buscou trabalhos acadêmicos que sustentassem as ideias dispersas que ele havia adquirido em suas viagens.

Seu trabalho não tinha nada de sistemático. Pelos padrões de hoje, seu trabalho de campo não era rigoroso nem extenso. Na melhor das hipóteses, era o que se esperava que um jornalista estrangeiro fizesse enquanto pesquisava uma matéria – e, de fato, ele frequentemente escrevia sobre suas viagens em publicações como a New Statesman. Mesmo assim, suas viagens começaram a influenciar suas inclinações teóricas. Ele ainda acreditava na primazia da base econômica e sustentava que a rebelião primitiva era primitiva de fato. No entanto, seus encontros reforçaram seu senso da importância vital das tradições, práticas, histórias e experiências locais. E a maneira como ele escreveu sobre seus temas estabeleceu caminhos alternativos para a revolução, abrindo a porta para novos atores revolucionários.

Assim, as experiências de Hobsbawm na periferia desempenharam um papel central em sua reinterpretação da teoria marxista em Primitive Rebels, bem como em sua continuação, Bandidos, publicada originalmente em 1969. Após a amarga desilusão de 1956, as histórias esquecidas da Europa periférica ofereceram a possibilidade de renovação, sem perturbar uma hierarquia do CPGB que não tinha nenhum interesse nas canções folclóricas dos camponeses da Sardenha ou dos agricultores andaluzes. Seus encontros casuais nas praças das aldeias não foram apenas um produto da curiosidade de Hobsbawm. Ele os usou para refletir sobre a prática revolucionária sem se desviar para as discussões mais carregadas entre os historiadores marxistas ocidentais da época, como os debates em torno da transição da Inglaterra do feudalismo para o capitalismo ou a dinâmica de classes da Revolução Francesa.

Repensando a revolução a partir da América Latina

Hobsbawm encontrou a América Latina em etapas. Ele fez visitas rápidas a Cuba em 1960 e em 1961, como parte da onda de intelectuais europeus que queriam ver pessoalmente a revolução de Fidel. Mas seu primeiro envolvimento profundo com a região ocorreu em uma viagem de campo de três meses à América do Sul, financiada pela Fundação Rockefeller, no final de 1962. Sua viagem seguiu um padrão semelhante ao de suas viagens anteriores à Espanha e Itália. Em vez de passar muito tempo num lugar só, ele pulava de cidade em cidade, passando algumas semanas em cada. Ao longo de 1962, viajou para Recife e Rio de Janeiro, Buenos Aires, Santiago, Lima, Bogotá, La Paz e Caracas. Em cada cidade, ele organizava um encontro e conversava com acadêmicos e ativistas de esquerda. Quando tinha sorte, era apresentado a trabalhadores e sindicalistas, ou era levado a áreas mais rurais para conhecer camponeses, indígenas ou qualquer outra pessoa que quisesse conversar com um curioso historiador britânico.

Hobsbawm continuou a visitar a América Latina nos anos seguintes. Isso incluiu sua viagem ao Congresso Cultural em Havana, em 1968, e visitas frequentes ao Brasil nos anos 1970. Uma bolsa de estudos de longa duração na Universidad Nacional Autónoma de México, no início de 1971, foi seguida por um breve período de pesquisa no Peru naquele verão. Na década de 1980, ele havia parado de tentar fazer qualquer pesquisa na região, mas sua fama crescente significava que ele não precisava mais de uma desculpa para viajar até lá. Até sua morte em 2012, ele fazia visitas frequentes e cada vez mais bem-sucedidas a vários países da América Latina, geralmente de modo a coincidir com a publicação de algum de seus livros.

Dada a escassez de pesquisas de arquivo e de campo que Hobsbawm fez na América Latina, ele tomou cuidado para não afirmar que era um especialista na região. Mas, num momento em que o interesse pela região estava crescendo e não havia muita coisa escrita em inglês sobre a América Latina, ele foi rapidamente rotulado como especialista. Ele era contratado para escrever artigos sobre a situação política em vários países da América Latina – tarefa para a qual ele estava mais do que preparado devido a seus talentos jornalísticos – enquanto as associações britânicas de estudantes universitários o convidavam a explicar a dinâmica da Revolução Cubana ou das rebeliões camponesas.

Esse processo de se tornar um especialista regional, quase por acidente, ampliou a posição da América Latina nas constantes reformulações de Hobsbawm da teoria marxista. Em seu pedido de bolsa à Fundação Rockefeller, em 1962, ele argumentou que queria visitar a América Latina para estudar movimentos sociais primitivos, como uma continuação direta de seu trabalho anterior sobre rebelião primitiva. Mas, na década de 1970, seus horizontes haviam se expandido para envolver uma série de debates sobre a história e a política latino-americanas. Isso o incentivou a repensar a ideia de revolução num momento em que as perspectivas revolucionárias na Europa pareciam ter se retraído.

O envolvimento crítico de Hobsbawm com o histórico revolucionário latino-americano era visível em seus dois artigos acadêmicos mais substanciais sobre a região. O primeiro, publicado em 1969, se concentrou na rebelião camponesa na região de La Convención, no Peru, liderada pelo revolucionário dissidente Hugo Blanco; o segundo, publicado em 1974, era um estudo mais amplo sobre ocupações de terras camponesas na serra central do Peru, com base em milhares de documentos recuperados por um grupo de jovens pesquisadores de haciendas que estavam sendo transformadas em fazendas cooperativas. Como muitos críticos apontaram, ambos os artigos se apegavam às estruturas marxistas ortodoxas da ação revolucionária camponesa como pertencente a uma fase pré-política do desenvolvimento. Mas, como no caso de seus escritos sobre a Itália e a Espanha, o domínio que Hobsbawm tinha dos detalhes contextuais e sua óbvia simpatia por muitas das figuras-chave desmentiram essa interpretação mais rígida. Em meio à cuidadosa análise dos preços dos alimentos e dos padrões de concessão da terra, ele viu o potencial de uma transformação social revolucionária nas ações dos camponeses latino-americanos.

As experiências de Hobsbawm na América Latina também confirmaram sua visão do que a revolução não deveria ser. Seu encontro com movimentos radicais de esquerda (e seus seguidores na Europa) cimentou sua hostilidade de longa data em relação a estratégias baseadas em anarquistas e guerrilheiros. Ele criticou consistentemente as tentativas cubanas de incitar a revolução em diferentes partes do continente depois de 1959, e desdenhou a ideia de uma revolução espontânea do campesinato. Pelo contrário, ele chegou a acreditar que sociedades latino-americanas altamente estratificadas e desiguais só alcançariam a revolução através do Estado. Foi isso que o levou a apoiar a ditadura militar “progressista” do Peru, liderada por Juan Velasco Alvarado de 1968 a 1975. Num artigo importante publicado pela New York Review of Books em 1971, Hobsbawm argumentou que o Peru sob Velasco estava passando por uma “revolução peculiar”. Foi, em suas palavras, uma “transformação da estrutura econômica, social e institucional” do país, mas que não envolvia “nenhuma mobilização em massa de forças populares”.

Esse apoio aberto a um regime militar foi um choque para os interlocutores peruanos de Hobsbawm, muitos dos quais acreditavam que uma ditadura militar só poderia significar um desastre para a esquerda. Mas isso tipificava sua tentativa de lidar com o problema da revolução à luz de suas viagens. Hobsbawm reconhecia que as perspectivas de revolução eram boas na América Latina na década de 1960, mas também sabia que os partidos comunistas organizados eram fracos, e o fantasma do autoritarismo de direita estava sempre presente. O regime de Velasco, comprometido com uma extensa reforma agrária, a nacionalização da extração de recursos e uma certa redistribuição de riqueza, oferecia um meio-termo adequado. Era antidemocrático, mas prometia abordar as queixas legítimas de um campesinato rural empobrecido e semifeudal sem esbarrar no beco sem saída idealista da política guerrilheira guevarista.

Essa visão híbrida da revolução casou os reflexos comunistas ortodoxos de Hobsbawm com um reconhecimento da situação desesperadora das massas. É improvável que ele tivesse criado tal estrutura se não tivesse sido exposto à escala de desigualdade socioeconômica que existia na América Latina na década de 1960, algo que frequentemente mencionava em suas anotações de campo e nos artigos jornalísticos que escreveu após seu retorno. Os lugares que ele visitou, as pessoas que conheceu em trens e ônibus e as entrevistas que conduziu com acadêmicos e intelectuais de esquerda o forçaram a reavaliar as condições sob as quais a revolução poderia acontecer e a forma que ela poderia assumir. Ao contrário de muitos marxistas europeus mais jovens, ele nunca foi seduzido pela promessa da revolução global. Mas ele se livrou de algumas de suas suposições mais rígidas sobre como seria uma revolução social de sucesso.

O socialismo democrático nos anos 1980

No final da década de 1970, Hobsbawm provocou uma grande controvérsia na esquerda britânica com sua palestra “A Marcha Adiante do Trabalho Parou”, que mais tarde foi publicada como um artigo na revista do CPGB, Marxism Today, que havia sido revitalizada. O argumento dele era simples: o desenvolvimento do movimento trabalhista britânico, que fora tão crucial para o surgimento do Partido Trabalhista no início do século XX, havia estagnado em algum momento nas décadas de 1950 e 1960. Desde então, a classe trabalhadora tornou-se mais fragmentada e suas expressões sindicais mais fracas.

Essa intervenção provocou uma tempestade de críticas, especialmente daqueles que viam o aumento da atividade sindical no final da década de 1970 como um indicador de força. Mas o advento do governo conservador de Margaret Thatcher, em 1979, deu força renovada ao argumento de Hobsbawm. Seu neoliberalismo forte, as sucessivas derrotas eleitorais do Partido Trabalhista e o esmagamento da greve dos mineiros sugeriram que o movimento trabalhista britânico havia pisado no freio. Como alguém que foi creditado por “prever” o triunfo do Thatcherismo, Hobsbawm se viu cada vez mais envolvido em debates sobre as futuras estratégias da esquerda.

Para Hobsbawm, a resposta para a crise da esquerda britânica na década de 1980 foi a mesma que ele sempre deu, a saber, que diferentes tendências deveriam unir forças em uma frente unida para derrotar Thatcher. Essa posição estratégica foi um produto de sua política estudantil no final da década de 1930. Até o final da vida, Hobsbawm permaneceu francamente nostálgico com relação a estratégia de frente popular de sua juventude, quando os comunistas tentaram construir amplas alianças contra o fascismo. Ele acreditava seriamente que a esquerda não poderia vencer num contexto democrático europeu sem deixar de lado suas diferenças e lutar juntos para derrotar a direita. Ele estava tão comprometido com essa estratégia que, ao longo dos anos 1980, comparou Thatcher a Hitler repetidamente. Ele sempre acrescentava advertências à sua comparação, mas era um argumento surpreendentemente histórico para alguém que havia passado pela ascensão de Hitler ao poder e era historiador profissional da Europa moderna.

Por tudo que Hobsbawm enfatizou o valor de uma estratégia de frente popular entre as guerras, os exemplos contemporâneos de unidade de esquerda em que ele se baseava foram frequentemente retirados da periferia europeia e global. Em seus esforços para convencer o movimento trabalhista britânico a deixar de lado seus debates insulares e buscar mais inspiração no exterior, ele apontou não apenas para a esquerda unida na França (que chegou à presidência o cargo em 1981), mas também para exemplos da Espanha e da Itália. De modo crucial, no final da década de 1980, esses pontos de referência foram complementados pelo do Partido dos Trabalhadores do Brasil.

Com a atrofia da esquerda europeia na década de 1990 – especialmente na França e na Itália – Hobsbawm passou a considerar que a esquerda brasileira era o exemplo preeminente de uma estratégia bem-sucedida de frente unida. Ele ficou feliz em admitir sua admiração aberta pelo PT e reconheceu a composição social excepcionalmente ampla do partido, que refletia a ampla base social que a PCI da Itália havia alcançado nos auge das décadas de 1960 a 1970. Ele também comentou repetidamente o fato de o PT ser, na época, o único partido de esquerda de sucesso no mundo liderado por um trabalhador industrial de verdade, o carismático Luiz Inácio Lula da Silva. Ele até confessou que carregava consigo um chaveiro do PT nos últimos anos, um reconhecimento íntimo de sua ligação emocional com o partido.

Além do PT, Hobsbawm demonstrou um grande interesse pelo destino do movimento comunista na Índia. Na década de 1990, a Índia tinha um dos maiores movimentos comunistas do mundo, com décadas de experiência no governo democrático nos grandes estados de Bengala Ocidental e Kerala. Apesar da fragmentação do movimento comunista da Índia e do surgimento de uma violenta rebelião de inspiração maoísta no sul e leste do país na década de 1960, para Hobsbawm, o comunismo indiano era outro exemplo de estratégia de esquerda unida de base ampla e popular que podia se orgulhar de realizações concretas nas urnas.

Se por um lado o reflexo de frente popular de Hobsbawm era firmemente europeu em seus pontos de referência, por outro lado os exemplos que ele citou não vieram principalmente dos centros tradicionais do pensamento marxista. Em vez disso, eles vieram das experiências que ele discutira ou testemunhara além das margens da Europa. Na década de 1980, mesmo quando ancorava suas intervenções nos debates que ocorriam na esquerda britânica, ele também se baseava nas práticas marxistas em países tão distantes como Brasil e Índia. Nessa década, como na década de 1950, as experiências de Hobsbawm na periferia formaram suas intervenções estratégicas e moldaram sua imaginação política.

Abertura para o futuro

Enfatizar o papel da periferia ao longo da carreira de Hobsbawm não significa ignorar as muitas outras influências em seu trabalho. Simplesmente ajuda a pintar uma imagem mais completa de sua trajetória intelectual e a dar uma melhor noção da circulação de ideias marxistas na segunda metade do século XX. Ao dar o devido peso a encontros fugazes com camponeses da Calábria, trabalhadores mexicanos, agricultores peruanos, bandidos argentinos e comunistas indianos, podemos ver as interações de Hobsbawm com a periferia como mais do que uma série de encontros exóticos. Em vez disso, eles se tornam uma parte central de sua visão do que era a esquerda e do que ela poderia vir a ser.

Assim como seu próprio trabalho influenciou milhares de marxistas em lugares inesperados, também seu envolvimento com diferentes partes do mundo moldou profundamente seu próprio marxismo. Para Hobsbawm, a periferia nunca foi periférica. Era um laboratório empolgante para a elaboração de ideias marxistas – um laboratório que oferecia um futuro potencialmente mais dinâmico e aberto para a visão comunista com a qual ele permaneceria para sempre comprometido.

Sobre o autor

Emile Chabal é um historiador na Universidade de Edimburgo. Ele trabalha na história política e intelectual européia do século XX, com um interesse especial na França.

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