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20 de julho de 2026

Uma visão iraniana do novo Oriente Médio

Encerrar a guerra e sustentar a paz exige uma nova abordagem para a segurança regional

Mohammad Javad Zarif

Foreign Affairs

Uma réplica de míssil iraniano em Teerã, julho de 2026. Majid Asgaripour / West Asia News Agency / Reuters

Os Estados Unidos retomaram os ataques ao Irã. O memorando de entendimento que Teerã e Washington firmaram no mês passado na Suíça — que por semanas esteve por um fio — acabou por fracassar. "Acho que acabou", disse o presidente dos EUA, Donald Trump, em 8 de julho. "Não quero mais lidar com o [Irã]."

O colapso do memorando não surpreende. O Irã e os Estados Unidos tinham interpretações divergentes sobre as disposições do acordo, particularmente aquelas que regiam o Estreito de Ormuz. Teerã acreditava ter prometido, nos termos do memorando, "fazer arranjos, empregando seus melhores esforços, para a passagem segura de navios comerciais sem custos, apenas por 60 dias". Também entendia que o país e Omã "definiriam a futura administração e os serviços marítimos no Estreito de Ormuz", juntamente com outros Estados do Golfo Pérsico. Washington, por outro lado, acreditava que o Irã havia concordado em permitir incondicionalmente a livre passagem pelo estreito e que os Estados Unidos não precisavam respeitar quaisquer arranjos que o Irã estabelecesse. O acordo jamais poderia sobreviver a tal dissonância. A retomada do confronto militar era uma questão menos de "se" e mais de "quando".

Ainda assim, não é do interesse nem do Irã nem dos Estados Unidos perpetuar a guerra. Embora o povo e as forças armadas do Irã tenham defendido seu país contra duas potências nucleares, eles ainda veem o conflito como algo que lhes foi imposto — um embate que jamais desejaram iniciar. Washington, por sua vez, acaba se desviando de seu principal objetivo geopolítico. Há mais de uma década, sucessivas administrações dos EUA compartilham a meta abrangente de reduzir o fardo de longo prazo do país na Ásia Ocidental para focar no Indo-Pacífico, iniciando o que várias autoridades chamaram de "guinada para a Ásia". As políticas anteriores de Washington em relação ao Irã — incluindo o acordo nuclear de 2015, os Acordos de Abraão (nos quais vários Estados árabes normalizaram relações com Israel após negociações mediadas pelos EUA, criando um bloco sólido contra o Irã e efetivamente terceirizando para Israel grande parte do papel regional dos Estados Unidos), os ataques ao país em junho de 2025 e a guerra iniciada em fevereiro — são todos instrumentos empregados para alcançar esse fim. Contudo, como o conflito atual deixa claro, Washington não consegue eliminar o governo iraniano. Apenas a diplomacia, um novo acordo de paz e uma nova estrutura de segurança — elaborados por e para os Estados da região — permitirão aos Estados Unidos voltar sua atenção para outras áreas.

DIÁLOGO SOBRE O ESTREITO

Os confrontos militares do último ano fizeram mais do que testar as capacidades do Irã, de Israel e dos Estados Unidos. Eles desafiaram pressupostos de longa data sobre coerção, dissuasão e o futuro da Ásia Ocidental. Os Estados Unidos e Israel iniciaram conflitos recentes com o Irã partindo da premissa de que uma pressão militar sustentada poderia forçar Teerã à submissão ou desencadear o colapso da República Islâmica. Em vez disso, viram-se estagnados em um atoleiro estratégico. Nenhuma de suas ações — incluindo os ataques sem precedentes à liderança política e militar do Irã e os danos significativos à infraestrutura do país — forçou Teerã a mudar de rumo. Sua integridade territorial e seu sistema político resistiram, comprovando a resiliência da nação iraniana e sua capacidade de defender sua soberania mesmo nas circunstâncias mais extremas.

Potências externas precisam assimilar esse fato e compreender suas implicações. A capacidade do Irã de suportar uma pressão militar sustentada tornou mais difícil excluir Teerã de qualquer futura arquitetura de segurança regional. Isso inclui, primordialmente, o papel central do Irã na garantia da passagem de suprimentos de energia e do transporte marítimo comercial pelo Estreito de Ormuz. Teerã voltou a restringir o acesso ao estreito — o que muitos analistas ocidentais interpretaram como prova de que o Irã é uma potência hostil que busca exercer coerção econômica, perturbar os mercados globais de petróleo e limitar a liberdade de navegação. No entanto, o Irã perturbou os mercados de energia por uma razão estratégica muito específica: forçar os Estados Unidos e seus parceiros a encerrar a campanha para destruir o Irã.

Em outras palavras, a guerra levou o Irã a passar a encarar o estreito como uma questão existencial para a sua própria segurança. Antes do início das hostilidades em larga escala, no final de fevereiro, o Irã geralmente tolerava a navegação pela via marítima sem interferência, mesmo que as sanções dos EUA — apoiadas pelos parceiros de Washington — impedissem o país de acessar muitas das mercadorias que transitavam pelo estreito. As sanções americanas efetivamente fecharam o Estreito de Ormuz para o comércio iraniano, mantendo-o aberto para praticamente todos os outros. Os ataques dos EUA e de Israel puseram fim a essa tolerância, tanto entre os comandantes militares iranianos quanto — o que é mais importante — entre a vasta maioria da população do país. Atualmente, o objetivo primordial do Irã no estreito é garantir que adversários não possam utilizar a via navegável para preparar, facilitar ou sustentar ações coercitivas contra o país, sejam elas de natureza militar, política ou econômica. A distinção, antes aceita, entre tráfego comercial e trânsito militar tornou-se difusa. Em tempos de paz, o direito marítimo internacional molda as expectativas; contudo, em tempos de guerra, até mesmo as leis internacionais de conflito armado priorizam a sobrevivência nacional.

Se desejam a paz, os Estados Unidos precisam examinar o papel de Israel.

O Irã opera agora sob a convicção de que as rotas marítimas não podem ser politicamente neutras se facilitam o transporte de sistemas de armas, componentes de aeronaves, recursos de inteligência ou apoio logístico para os Estados Unidos e seus parceiros regionais. Visto que armas e tecnologias que posteriormente atingiram o território, a infraestrutura e a população civil do Irã transitaram pelo Estreito de Ormuz, as autoridades iranianas estão plenamente no direito de restringir o fluxo de tráfego enquanto a guerra persistir, enquanto a coerção econômica contra o Irã continuar e enquanto esforços para minar o direito do Irã de proteger seus interesses no estreito forem ativamente perseguidos. É simplesmente muito difícil para Teerã determinar quais navios transportam mercadorias comerciais e quais transportam materiais que ameaçam o direito de existência do Irã. Os movimentos marítimos no Golfo Pérsico precisam ser compreendidos à luz das regras de conflito armado e da intenção estratégica, e não das regras que regem tempos de paz.

Ainda assim, para Teerã, a vantagem estratégica proporcionada pelo estreito é frágil. Se o Irã ameaçar repetidamente o tráfego marítimo, poderá voltar grande parte do mundo contra si. Um fechamento prolongado também poderia acelerar investimentos internacionais em oleodutos, portos e corredores logísticos terrestres que contornem totalmente a via navegável. Caso os mercados globais consigam diversificar suas rotas, deixando de depender do estreito, o Irã não poderá mais utilizar seu possível fechamento como fator de dissuasão. Portanto, Teerã deve agir com moderação, assim como outros Estados devem abster-se de medidas econômicas, políticas e militares que prejudiquem os interesses iranianos no estreito. Tais medidas incluem a imposição de sanções que impeçam efetivamente o Irã de usufruir da liberdade de navegação, a formação de uma coalizão diplomática contra o país ou o transporte, pelas águas do estreito, de equipamentos militares que ameacem a segurança iraniana. A melhor maneira de realizar essas tarefas seria estabelecer uma rede de segurança regional que promovesse a confiança entre os Estados litorâneos do Golfo Pérsico por meio do diálogo e da cooperação. Essa abordagem poria fim à presença militar desestabilizadora e ao aventureirismo de potências externas, ao eliminar a razão de ser de sua presença. Conforme estipulado no memorando, o Irã e Omã irão "definir a futura administração e os serviços marítimos no Estreito de Ormuz em discussão com outros Estados litorâneos do Golfo Pérsico, em conformidade com o direito internacional aplicável e com os direitos soberanos dos Estados costeiros do Estreito de Ormuz".

UMA NEGOCIAÇÃO DIFÍCIL

O Estreito de Ormuz continua sendo um ponto crítico de tensão. Mas não é, de forma alguma, a única fonte de atrito entre Teerã e Washington. Para pôr fim aos combates, o Irã e os Estados Unidos precisam gerir suas divergências mais amplas.

Os objetivos de cada lado devem ser modestos: Teerã e Washington não podem ser amigos. As guerras recentes — nas quais os Estados Unidos e Israel mataram o Líder Supremo do Irã, seus comandantes de alto escalão e crianças em idade escolar inocentes — aprofundaram as feridas históricas do país. Essas mágoas não serão esquecidas nem perdoadas, mas não precisam resultar em combates contínuos ou em escalada do conflito. A chave será garantir que futuros engajamentos diplomáticos, ao contrário dos anteriores, gerenciem as diferenças de forma pragmática. As disputas entre EUA e Irã são, por vezes, produto de diferenças fundamentais de identidade que exigem um diálogo esclarecedor. Outras vezes, são fruto de uma desconfiança mútua que prejudica a cooperação em interesses táticos comuns. Em alguns casos, tratam-se de questões políticas negociáveis, passíveis de um compromisso estratégico. Para avançar, ambos os países precisarão distinguir entre valores existenciais e objetivos transacionais compartilhados, evitando buscas inúteis por maior poder de barganha.

Um acordo de segurança realista entre EUA e Irã exigirá, em última análise, uma estrutura mútua de não agressão que impeça que disputas de identidade levem à violência. Teerã e Washington poderiam, então, coordenar ações diante de desafios comuns, como a estabilização do Afeganistão, o combate ao tráfico de drogas e a gestão da migração. Os Estados Unidos reconheceriam a integridade territorial do Irã, removeriam o Irã e suas agências da lista de patrocinadores do terrorismo e levantariam permanentemente todas as sanções. Washington também se comprometeria a ajudar o Irã a se reconstruir após a devastação causada por sua agressão, conforme prometido no memorando, mediante a criação de um fundo de investimento de US$ 300 bilhões para o país. Em contrapartida, o Irã concordaria com garantias permanentes de não proliferação nuclear — como a ratificação do Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que concede aos inspetores da agência acesso adicional às instalações nucleares de um Estado. O Irã poderia consagrar legalmente a *fatwa* do falecido Líder Supremo iraniano, Aiatolá Ali Khamenei, contra armas nucleares.

Se deseja a paz, os Estados Unidos precisam examinar o papel de Israel. Além de iniciar a primeira guerra contra o Irã, em junho de 2025, e persuadir Trump a participar do início da segunda, sucessivos governos israelenses opuseram-se consistentemente a iniciativas dos EUA que buscavam reduzir tensões e estabilizar a Ásia Ocidental, incluindo o acordo nuclear de 2015 e o recente memorando de entendimento. Qualquer esforço para evitar a retomada do conflito deve, portanto, levar em conta esse agente desestabilizador, cujo desejo de continuar lutando — independentemente dos custos — contraria os interesses dos Estados Unidos. A conduta de Israel não apenas impede a paz com o Irã, mas também desestabiliza toda a Ásia Ocidental. Por meio da expansão de assentamentos em territórios ocupados, do genocídio em Gaza e da devastação do Líbano, Israel demonstrou repetidamente que deseja semear o caos em toda a região para manter sua dominância militar.

Caberá aos Estados Unidos e aos seus parceiros lidar com essa fonte persistente de instabilidade. Tanto Trump quanto o vice-presidente dos EUA, JD Vance, comprometeram-se, no primeiro parágrafo do memorando, a "garantir a integridade territorial e a soberania do Líbano". Ao mesmo tempo, porém, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, iniciou uma campanha ativa para minar essa disposição durante sua visita à região no mês passado, em parte ao empregar táticas agressivas para coagir o governo libanês a aceitar um acordo unilateral com Israel, enquanto este continua a ocupar partes do Líbano. As inconsistências da administração e sua indiferença em relação ao sofrimento diário do povo palestino precisam acabar. Em vez disso, Washington deve começar a exercer pressão real sobre Israel.

SEM ELOS FRACOS

Israel dificilmente é o único ator capaz de influenciar o sucesso de um acordo de paz entre Teerã e Washington. O Irã e seus vizinhos imediatos no Golfo Pérsico fariam bem em elaborar um plano para encerrar décadas de tensão — iniciada com a Guerra Irã-Iraque (1980–1988) e persistente até hoje, em detrimento de todos. Isso significa que a Ásia Ocidental deve se afastar de um modelo de segurança dependente de potências estrangeiras, uma tendência que atraiu forças dos EUA para a região e gerou conflitos contínuos. Essa abordagem tem se mostrado desastrosa há anos, como demonstrado inicialmente pela invasão do Kuwait pelo Iraque após a guerra contra o Irã e ilustrado ainda mais pelas hostilidades recentes. Tentar terceirizar a segurança para potências globais não proporciona segurança genuína, muito menos a estabilidade necessária para um desenvolvimento econômico sustentável.

Em vez disso, os países da Ásia Ocidental deveriam começar a se integrar melhor, de modo que a força de cada Estado reforce a estabilidade de todos os outros. Os iranianos já propuseram vários dos elementos fundamentais para esse tipo de ordem. Quando vice-presidente, em 2024, defendi o estabelecimento de um diálogo institucionalizado entre os Estados da região, baseado no respeito mútuo, na não intervenção e, futuramente, em acordos de não agressão. Tal iniciativa incluiria medidas de construção de confiança, como programas de assistência humanitária em zonas de conflito, ações conjuntas de contraterrorismo e campanhas midiáticas colaborativas que promovam a coexistência. Propus também uma rede nuclear regional, incluindo um consórcio de enriquecimento dedicado exclusivamente ao uso pacífico da ciência nuclear. Seus membros reuniriam conhecimentos regionais, promoveriam a colaboração científica e reforçariam a confiança por meio de mecanismos cooperativos de verificação, garantindo que nenhum membro busque desenvolver armas nucleares. A China e a Rússia, juntamente com os Estados Unidos, poderiam ajudar a estabelecer esse consórcio de enriquecimento de combustível com o Irã e os vizinhos interessados ​​no Golfo Pérsico; tal consórcio deveria, então, tornar-se a única instalação de enriquecimento de combustível para a Ásia Ocidental.

Para garantir que o sucesso de cada país beneficie os demais, os governos da Ásia Ocidental deveriam criar um ecossistema econômico regional integrado. Eles poderiam, por exemplo, instituir um fundo de desenvolvimento da Ásia Ocidental para financiar a reconstrução pós-conflito, a saúde, a educação e a infraestrutura crítica. Uma conectividade regional fluida — abrangendo ferrovias transnacionais, oleodutos e gasodutos, infraestrutura digital e rotas marítimas — facilitaria a circulação de capitais e mercadorias. Outras instituições conjuntas poderiam auxiliar os Estados da região a enfrentar ameaças existenciais comuns, como as mudanças climáticas e a escassez de água. Se esta região conseguir construir instituições significativas e compartilhadas, poderá vivenciar um desenvolvimento sem precedentes. Ela possui abundantes recursos naturais, civilizações de raízes profundas e populações jovens e instruídas. O Irã, por si só, traz uma vasta extensão territorial, conhecimento científico avançado e capital humano de classe mundial. Os Estados árabes oferecem uma capacidade financeira, de investimento e de gestão inigualável, juntamente com redes comerciais globais. O Paquistão e a Turquia contribuem com capacidades industriais significativas e peso geopolítico.

Nada disso será fácil, dadas as décadas de desconfiança e suspeita na região, inclusive entre alguns Estados árabes e entre esses Estados e o Irã. Mas a Ásia Ocidental não precisa permanecer prisioneira de seu passado violento. As guerras recentes demonstraram não apenas os custos catastróficos do confronto militar, mas também os limites do que a coerção pode alcançar. Tanto Washington quanto os países árabes devem aceitar que o Irã é um elemento permanente do cenário regional e que a região não conseguirá alcançar estabilidade excluindo-o. Ao mesmo tempo, o Irã deve corresponder à sua confiança recém-afirmada com a disposição de estender a mão da amizade aos seus vizinhos e buscar a segurança tanto por meio da cooperação quanto da dissuasão. E o mundo inteiro deve reconhecer que uma estabilidade duradoura não pode ser importada para a Ásia Ocidental a partir de fora nem imposta pela força. Ela deve ser construída pelos próprios povos e Estados da região.

M. Javad Zarif é professor associado de Estudos Globais na Universidade de Teerã e fundador e presidente da Possibilities Architects. Anteriormente, atuou como vice-presidente, ministro das Relações Exteriores e representante permanente do Irã nas Nações Unidas.

23 de dezembro de 2024

Uma nova abordagem iraniana para a segurança e prosperidade regionais, por M. Javad Zarif

O vice-presidente do Irã sobre como seu país pode tornar a região mais segura e próspera

Ilustração: Dan Williams

Como um estudante de relações internacionais com décadas na vanguarda da diplomacia global, escrevo isso não como um representante do governo iraniano, mas apenas em minha capacidade pessoal. Minhas experiências me ensinaram que alcançar a estabilidade na Ásia Ocidental, particularmente na região do Golfo Pérsico, requer mais do que mera gestão de crise. Exige iniciativas ousadas e visionárias. Proponho o estabelecimento de uma Associação de Diálogo Muçulmano da Ásia Ocidental (MWADA) como o mecanismo para alcançar essa transformação.

A MWADA convida todos os principais países muçulmanos da Ásia Ocidental — Bahrein, Egito, Irã, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Catar, Arábia Saudita, (o futuro governo da) Síria, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Iêmen — a se envolverem em negociações abrangentes. Enviados relevantes das Nações Unidas também podem participar. Esta iniciativa deve ser fundamentada nos valores sublimes de nossa religião comum, o islamismo, e nos princípios de soberania, integridade territorial, não intervenção e segurança coletiva. MWADA, que significa "amizade" em árabe — a língua de nossas orações coletivas — deve ter como objetivo promover a coexistência pacífica e parcerias equitativas.

Uma prioridade fundamental é o estabelecimento de cessar-fogo imediato, sustentável e permanente em Gaza, Líbano, Síria e Iêmen. Um pacto de não agressão entre os estados da MWADA, juntamente com o monitoramento regional coletivo, ajudará a institucionalizar a estabilidade e proteger a região de interferências externas, bem como de conflitos internos.

A integração econômica também é central para a visão. A falta de interdependência na Ásia Ocidental decorre de redes comerciais fragmentadas, atenção insuficiente ao desenvolvimento de mecanismos bancários e de pagamento intrarregionais, rivalidades políticas e dependência de mercados externos. Um Fundo de Desenvolvimento MWADA proposto pode financiar projetos de infraestrutura críticos, particularmente em áreas devastadas pós-conflito. Além disso, as reformas de governança na Síria — como base para assistência econômica — promoverão a responsabilização e estabelecerão as bases para um país seguro e estável, onde mulheres e minorias podem prosperar.

A Síria pós-Assad apresenta um grande desafio para todos nós. Agressão israelense desenfreada desconsiderando a soberania síria, interferência estrangeira minando a integridade territorial síria, cenas horríveis de violência e brutalidade que lembram a selvageria do Estado Islâmico e violência étnica e sectária — que pode levar a uma guerra civil total — exigem a atenção imediata do MWADA proposto.

O desastre humanitário na Palestina também continua crítico para a estabilidade regional. O MWADA deve priorizar a autodeterminação palestina e apoiar soluções justas, respeitando totalmente as aspirações do povo. Isso envolve não apenas soluções políticas, mas também oportunidades econômicas e o reconhecimento dos direitos palestinos.

O MWADA fornecerá terreno fértil para projetos de infraestrutura, de transporte a oleodutos de energia e redes de telecomunicações. Isso facilita não apenas a movimentação de mercadorias, mas também a troca de energia, informações e serviços. Nós, na Ásia Ocidental, devemos entender que a independência está interligada à participação de um país na cadeia global de valor agregado.

Garantias de segurança energética apresentam outra oportunidade para interdependência. Acordos regionais de energia devem ter como objetivo proteger rotas e explorar recursos de energia sustentáveis. O vasto potencial inexplorado do planalto iraniano e outros terrenos dentro da comunidade MWADA adequados para parques solares e eólicos tornam a cooperação para produzir energia limpa economicamente viável, para a região mais ampla e até mesmo além.

A MWADA também pode anunciar uma nova cooperação regional sobre liberdade de navegação, incluindo patrulhas conjuntas de segurança marítima. A região abriga pontos de estrangulamento estratégicos, incluindo o Estreito de Ormuz, o Canal de Suez e o Estreito de Bab al-Mandab. O Irã, dada sua localização e experiência em segurança, está em uma posição única para contribuir para a segurança de hidrovias como o Estreito de Ormuz. Outros podem desempenhar um papel de liderança na proteção de Suez e Bab al-Mandab. O Hormuz Peace Endeavor ou HOPE — introduzido pelo Irã há quase cinco anos representou um exemplo significativo de uma iniciativa regional que visa promover a paz e a estabilidade na comunidade de Ormuz, reunindo muitos estados. Essa proposta pode ganhar uma nova vida sob a MWADA, principalmente devido às relações muito melhoradas entre o Irã, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita hoje. Uma parceria entre o Irã e a Arábia Saudita — duas das potências mais influentes da região — desempenhará um papel crucial. Ao promover a unidade e a fraternidade entre muçulmanos xiitas e sunitas, podemos combater o extremismo e os conflitos sectários que historicamente desestabilizaram a região.

Trabalhar em direção a uma região livre de armas nucleares e reviver o acordo nuclear com o Irã (o JCPOA) são componentes essenciais dessa visão. Essa abordagem não deve apenas abordar a proliferação nuclear, mas também reforçar um compromisso coletivo com a paz e a estabilidade. A estrutura da MWADA também deve priorizar a cooperação em intercâmbios culturais, gestão de água, combate ao terrorismo e campanhas de mídia que promovam a coexistência.

O papel do Irã

Como outros participantes, o Irã desempenharia um papel indispensável. Nos últimos 45 anos, meu país demonstrou notável resiliência e autossuficiência em segurança e defesa, conseguindo sobreviver e até prosperar; não apenas sem assistência estrangeira, mas apesar da pressão de potências extrarregionais.

A percepção amplamente difundida de que o Irã está perdendo suas armas na região decorre de uma suposição equivocada de que o Irã tem relações de procuração com as forças de resistência. A resistência tem suas raízes na ocupação de terras árabes por Israel e na profanação de locais sagrados islâmicos, apartheid, genocídio e agressão constante contra seus vizinhos. Ela existia antes da revolução iraniana em 1979 e continuará enquanto suas causas persistirem. Tentar atribuí-la ao Irã pode servir a uma campanha de relações públicas, mas obstruirá qualquer resolução.

Como todas as nações, o Irã enfrentou sua cota de desafios e erros. O povo iraniano, tendo suportado sacrifícios significativos, agora está preparado — com resiliência e confiança — para tomar medidas ousadas. Essa mudança de uma perspectiva centrada na ameaça para uma orientada pela oportunidade se alinha com a visão delineada pelo presidente Pezeshkian (e por mim) durante a campanha presidencial do verão passado no Irã.

A MWADA nos desafia a reimaginar a região não como um campo de batalha, mas como um centro de mwada, amizade e empatia, caracterizado pela busca de oportunidades compartilhadas e prosperidade coletiva. É essencial se envolver em conversas significativas — e de fato francas — que nos permitirão criar um futuro definido pela cooperação, desenvolvimento compartilhado e sustentável, justiça social e bem-estar, e esperança renovada.

Transformar a Ásia Ocidental em um farol de paz e colaboração não é apenas uma aspiração idealista; é um imperativo estratégico e uma meta alcançável que requer apenas comprometimento, diálogo e uma visão compartilhada. A MWADA pode ser a plataforma de transformação. Vamos abraçar esta oportunidade de construir uma Ásia Ocidental estável, próspera e pacífica, onde a empatia, a compreensão e a colaboração substituam a discórdia e a divisão. Aqueles de nós nos respectivos governos de nossos estados devem aproveitar a oportunidade para começar a olhar para o futuro em vez de permanecer prisioneiros do passado. A hora de agir é agora. ■

Mohammad Javad Zarif é vice-presidente de assuntos estratégicos da República Islâmica do Irã.

2 de dezembro de 2024

Como o Irã vê o caminho para a paz

A República Islâmica está aberta a negociações — inclusive com a América

Por Mohammad Javad Zarif

Foreign Affairs

O presidente iraniano Masoud Pezeshkian falando em Basra, Iraque, setembro de 2024
Essam al-Sudani / Reuters

Em 30 de julho, Masoud Pezeshkian foi empossado como o novo presidente do Irã. Poucas horas após a cerimônia, Ismail Haniyeh, ex-primeiro-ministro da Autoridade Nacional Palestina e presidente do bureau político do Hamas, foi assassinado por Israel em uma casa de hóspedes perto do complexo presidencial. Haniyeh havia sido convidado para comparecer à posse, e seu assassinato em solo iraniano lançou uma sombra sobre os procedimentos. Ele também antecipou os desafios que Pezeshkian enfrentará na busca de suas ambições de política externa.

Mas Pezeshkian está bem preparado para lidar com todas as dificuldades que surgirão nos próximos anos. Pezeshkian reconhece que o mundo está em transição para uma era pós-polar, onde os atores globais podem cooperar e competir simultaneamente em diferentes áreas. Ele adotou uma política externa flexível, priorizando o engajamento diplomático e o diálogo construtivo em vez de depender de paradigmas ultrapassados. Sua visão para a segurança do Irã é holística, abrangendo tanto as capacidades tradicionais de defesa quanto o aprimoramento da segurança humana por meio de melhorias nos setores econômico, social e ambiental.

Pezeshkian quer estabilidade e desenvolvimento econômico no Oriente Médio. Ele quer colaborar com os países árabes vizinhos e fortalecer as relações com os aliados do Irã. Mas ele também quer se envolver construtivamente com o Ocidente. Seu governo está pronto para administrar as tensões com os Estados Unidos, que também acabaram de eleger um novo presidente. Pezeshkian espera negociações equitativas sobre o acordo nuclear — e potencialmente mais.

No entanto, como Pezeshkian deixou claro, o Irã não capitulará a demandas irracionais. O país sempre enfrentará a agressão israelense. E não se deixará intimidar por proteger seus interesses nacionais.

A POLÍTICA É LOCAL

Este é um momento histórico para a estabilidade que o mundo não deve deixar escapar. Teerã certamente não deixará. Após mais de dois séculos de vulnerabilidade, o Irã — sob a liderança do Líder Supremo Ali Khamenei — finalmente provou que pode se defender contra qualquer agressão externa. Para levar essa conquista ao próximo nível, o Irã, sob sua nova administração, planeja melhorar as relações com os estados vizinhos para ajudar a criar uma ordem regional que promova estabilidade, riqueza e segurança. Nossa região tem sido atormentada por muito tempo por interferência estrangeira, guerras, conflitos sectários, terrorismo, tráfico de drogas, escassez de água, crises de refugiados e degradação ambiental. Para enfrentar esses desafios, trabalharemos para buscar integração econômica, segurança energética, liberdade de navegação, proteção ambiental e diálogo inter-religioso.

Eventualmente, esses esforços podem levar a um novo arranjo regional que reduza a dependência do Golfo Pérsico de poderes externos e incentive as partes interessadas a abordar conflitos por meio de mecanismos de resolução de disputas. Para isso, os países da região podem buscar tratados, criar instituições, promulgar políticas e aprovar medidas legislativas. O Irã e seus vizinhos podem começar imitando o processo de Helsinque, que levou à formação da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. Eles podem usar o mandato nunca implementado que o Conselho de Segurança da ONU deu ao secretário-geral da ONU em 1987, sob a Resolução 598. Essa resolução, que encerrou a Guerra Irã-Iraque, pediu ao secretário-geral que consultasse o Irã, o Iraque e outros estados regionais para explorar medidas que pudessem aumentar a segurança e a estabilidade no Golfo Pérsico. A administração Pezeshkian acredita que esta disposição pode servir como base legal para negociações regionais abrangentes.

É claro que há obstáculos que o Irã e seus vizinhos devem superar para promover uma ordem regional pacífica e integrada. Algumas diferenças com seus vizinhos têm origens profundas, moldadas por interpretações variadas da história. Outras surgem de equívocos, principalmente enraizados em comunicação ruim ou insuficiente. Outras ainda são construções políticas implantadas por forças externas, como alegações sobre a natureza e o objetivo do programa nuclear do Irã.

Mas o Golfo Pérsico deve seguir em frente. A visão do Irã se alinha com os interesses dos países árabes, todos os quais também querem uma região mais estável e próspera para o bem das gerações futuras. O Irã e o mundo árabe devem, portanto, ser capazes de resolver suas diferenças. O apoio do Irã à resistência palestina pode ajudar a dar o pontapé inicial nessa cooperação. O mundo árabe, afinal, está unido ao Irã em seu apoio à restauração dos direitos do povo palestino.

REINICIANDO

Após mais de 20 anos de restrições econômicas, os Estados Unidos e seus aliados ocidentais devem reconhecer que o Irã não responde à pressão. Suas medidas coercitivas cada vez mais intensas têm saído pela culatra. No auge da mais recente campanha de pressão máxima de Washington — e poucos dias depois de Israel assassinar o principal cientista nuclear do Irã, Mohsen Fakhrizadeh — o parlamento do Irã aprovou uma lei instruindo o governo a avançar rapidamente seu programa nuclear e reduzir o monitoramento internacional. O número de centrífugas no Irã aumentou drasticamente desde 2018 — quando o presidente dos EUA, Donald Trump, se retirou do acordo nuclear — e os níveis de enriquecimento dispararam de 3,5% para mais de 60%. É difícil imaginar que qualquer coisa disso teria acontecido se o Ocidente não tivesse abandonado sua abordagem cooperativa. A esse respeito, Trump, que assumirá o cargo novamente em janeiro, e os parceiros de Washington na Europa têm a culpa pelo progresso nuclear contínuo do Irã.

Em vez de aumentar a pressão sobre o Irã, o Ocidente deve buscar soluções de soma positiva. O acordo nuclear fornece um exemplo único, e o Ocidente deve tentar reanimá-lo. Mas, para isso, deve tomar ações concretas e práticas — incluindo medidas políticas, legislativas e de investimento mutuamente benéficas — para garantir que o Irã possa se beneficiar economicamente do acordo, como foi prometido. Se Trump decidir tomar tais medidas, o Irã estará disposto a ter um diálogo que beneficiaria Teerã e Washington.

Em uma escala mais ampla, os formuladores de políticas ocidentais devem reconhecer que as estratégias destinadas a colocar o Irã e os países árabes uns contra os outros, apoiando iniciativas como os chamados Acordos de Abraão (que normalizaram os laços entre vários países árabes e Israel) se mostraram ineficazes no passado e não terão sucesso no futuro. O Ocidente precisa de uma abordagem mais construtiva — uma que aproveite a confiança arduamente conquistada pelo Irã, aceite o Irã como parte integrante da estabilidade regional e busque soluções colaborativas para desafios compartilhados. Esses desafios compartilhados podem até mesmo levar Teerã e Washington a se envolverem na gestão de conflitos em vez de escalada exponencial. Todos os países, incluindo o Irã e os Estados Unidos, têm interesse mútuo em abordar as causas subjacentes da agitação regional.

Isso significa que todos os países têm interesse em interromper a ocupação israelense. Eles devem perceber que a luta e a fúria continuarão até que a ocupação termine. Israel pode pensar que pode triunfar permanentemente sobre os palestinos, mas não pode; um povo que não tem nada a perder não pode ser derrotado. Organizações como o Hezbollah e o Hamas são movimentos de libertação de base que surgiram em resposta à ocupação e continuarão a desempenhar um papel significativo enquanto as condições subjacentes persistirem — ou seja, até que o direito dos palestinos à autodeterminação seja realizado. Pode haver etapas intermediárias, incluindo cessar-fogo imediato no Líbano e em Gaza.

O Irã pode continuar a desempenhar um papel construtivo para acabar com o atual pesadelo humanitário em Gaza e trabalhar com a comunidade internacional para buscar uma solução duradoura e democrática para o conflito. O Irã concordará com qualquer solução aceitável para os palestinos, mas nosso governo acredita que a melhor maneira de sair dessa provação de um século seria um referendo em que todos que vivem entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo — muçulmanos, cristãos e judeus — e palestinos levados à diáspora no século XX (junto com seus descendentes) seriam capazes de determinar um sistema viável de governança futura. Isso está de acordo com o direito internacional e se basearia no sucesso da África do Sul, onde um sistema de apartheid foi transformado em um estado democrático viável.

O engajamento construtivo com o Irã, juntamente com um compromisso com a diplomacia multilateral, pode ajudar a construir uma estrutura para a segurança e estabilidade globais no Golfo Pérsico. Pode, assim, reduzir as tensões e promover a prosperidade e o desenvolvimento a longo prazo. Essa mudança é crucial para superar conflitos arraigados. Embora o Irã de hoje esteja confiante de que pode lutar para se defender, ele quer paz e está determinado a construir um futuro melhor. O Irã pode ser um parceiro capaz e disposto, desde que suas parcerias sejam baseadas em respeito mútuo e igualdade de condições. Não percamos esta oportunidade de um novo começo.

MOHAMMAD JAVAD ZARIF é Professor Associado de Estudos Globais na Universidade de Teerã. Ele é Vice-Presidente de Assuntos Estratégicos do Irã desde agosto de 2024. De 2013 a 2021, ele atuou como Ministro das Relações Exteriores do Irã. Ele foi o Negociador Nuclear Chefe do país de 2013 a 2015 e seu Embaixador nas Nações Unidas de 2002 a 2007.

10 de janeiro de 2016

O extremismo temerário da Arábia Saudita

Até agora, escreve o ministro das Relações Exteriores do Irã, Teerã agiu com moderação em relação às provocações de Riad.

Mohammad Javad Zarif

The New York Times

Manifestantes contra a Arábia Saudita se reuniram em Teerã na sexta-feira. Créditos: Abedin Taherkenareh/European Pressphoto Agency

Tradução / O mundo em breve comemorará a implementação de um acordo emblemático solucionando a crise desnecessária, embora perigosa, envolvendo o programa nuclear do Irã. Todas as partes esperavam, e continuam acreditando, que a solução dessa disputa permitirá que nos concentremos no grave desafio representado pelo extremismo que vem devastando nossa região e o mundo.

O presidente iraniano, Hassan Rohani, tem afirmado repetidamente que a principal prioridade da política externa do país é manter um relacionamento de amizade com seus vizinhos, paz e estabilidade na região – e uma cooperação global, particularmente na luta contra o extremismo. Em setembro de 2013, um mês após assumir o poder, ele apresentou uma iniciativa chamada Mundo contra a Violência e o Extremismo, aprovada por consenso pela Assembleia-Geral da ONU, trazendo a esperança de uma campanha global de longo alcance contra o terrorismo. Infelizmente, alguns países vêm criando obstáculos a esse compromisso construtivo.

Após a assinatura do acordo nuclear provisório, em novembro de 2013, a Arábia Saudita passou a direcionar recursos para destruir o acordo, impelida pelo medo de que sua “iranofobia” esteja desmoronando. Hoje, algumas pessoas em Riad não só continuam a dificultar a normalização, mas estão determinadas a arrastar a região inteira para o confronto.

A Arábia Saudita teme que a remoção da cortina de fumaça da questão nuclear deixará à mostra a verdadeira ameaça global: o seu patrocínio ativo do extremismo violento. O barbarismo está claro. Internamente, os carrascos do Estado saudita procedem a decapitações com espadas, como ocorreu na recente execução de 47 prisioneiros em um único dia, incluindo o xeque Nimr al-Nimr, uma respeitada autoridade religiosa que consagrou sua vida a promover a não violência e os direitos civis. Fora do país, homens mascarados cortam cabeças com facas.

Não devemos nos esquecer de que os responsáveis por muitos atos de horror, dos atentados do 11 de Setembro ao ataque a tiros em San Bernardino e outros episódios de massacres extremistas nesse ínterim – e também quase todos os membros de grupos extremistas como Al-Qaeda ou a Frente Al-Nusra – são cidadãos sauditas ou sofreram lavagem cerebral pelos demagogos financiados por petrodólares que promovem mensagens anti-islâmicas de ódio e sectarismo há décadas.

A estratégia saudita para destruir o acordo nuclear e perpetuar – e até exacerbar – a tensão na região tem três componentes: pressão sobre o Ocidente, promoção da instabilidade regional por meio da guerra no Iêmen e patrocínio do extremismo, e, indiretamente, provocação do Irã. A campanha militar de Riad no Iêmen e o seu apoio aos extremistas são bem conhecidos. As provocações contra o Irã não chegaram às manchetes internacionais graças à nossa prudente discrição.

O alto escalão do governo iraniano condeno o ataque contra a embaixada e o consulado sauditas em Teerã no dia 2, e garantiu a segurança dos diplomatas sauditas. Imediatamente, adotamos medidas para restaurar a ordem no complexo diplomático e afirmamos nossa determinação em levar os culpados à justiça. Também estabelecemos medidas disciplinares contra aqueles que não protegeram a embaixada e lançamos uma investigação interna para impedir qualquer situação similar.

O governo saudita e seus membros delegados, pelo contrário, nos últimos três anos, têm visado a instalações diplomáticas iranianas em ataques no Iêmen, no Líbano e no Paquistão, matando diplomatas iranianos e cidadãos locais. Ocorreram outras provocações. Peregrinos iranianos na Arábia Saudita são sistematicamente acossados. Em um caso, autoridades aeroportuárias sauditas molestaram dois garotos iranianos em Jeddah, o que provocou uma grande indignação.

A negligência saudita também foi responsável pela correria ocorrida durante recente peregrinação a Meca que deixou 464 iranianos mortos. Além disto, durante dias, as autoridades sauditas recusaram-se a atender aos pedidos das famílias enlutadas e do governo iraniano para repatriação de corpos.

Vale mencionar a prática rotineira de discursos de ódio não só contra o Irã, mas contra todos os muçulmanos xiitas por clérigos nomeados pelo governo saudita. A decapitação do xeque Al-Nimr foi imediatamente precedida de um sermão de ódio contra os xiitas pelo pregador da Grande Mesquita, em Meca, que no ano passado declarou que “nosso desacordo com os xiitas não será eliminado nem nosso suicídio para combatê-los” enquanto eles existirem na terra.

Em todos esses episódios, o Irã, confiante da sua força, rejeitou retaliar, romper ou rebaixar as relações diplomáticas com a Arábia Saudita. Até agora, temos respondido com moderação, mas a prudência unilateral é algo que não se sustenta. O Irã não deseja uma escalada das tensões na região. Precisamos de unidade para enfrentar as ameaças extremistas. Desde sua eleição, o presidente e eu temos deixado claro que privilegiamos o diálogo, a promoção da estabilidade e o combate ao extremismo desestabilizador. A tudo isso, a Arábia Saudita se faz de surda.

A liderança saudita tem agora de optar: ou continua apoiando os extremistas e promovendo o ódio sectário, ou assume um papel construtivo na promoção da estabilidade regional. Esperemos que a razão prevaleça.

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