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12 de abril de 2026

Para os trabalhadores romanos, a vida era desagradável, brutal e curta

Nossas imagens do Império Romano são dominadas pelos monumentos e estilos de vida das elites urbanas ricas. Uma nova e importante obra histórica direciona nossa atenção para os 90% da população de Roma, cujo trabalho brutalmente explorado tornou tudo isso possível.

Paolo Tedesco

Jacobin

Em seu livro Surviving Rome, Kim Bowes nos oferece um retrato magnífico e revelador da população trabalhadora do Império Romano, de como viviam e do preço que pagavam para gerar a riqueza que se acumulava para uma elite social privilegiada. (DeAgostini / Getty Images)

Resenha do livro Surviving Rome: The Economic Lives of the Ninety Percent , de Kim Bowes (Princeton University Press, 2025)

A imagem que temos de Roma, com suas infraestruturas eficientes e obras arquitetônicas esplêndidas, está inextricavelmente ligada aos nomes dos imperadores, generais e senadores ricos que ordenaram (e pagaram por) sua construção e administração. Nesse contexto, a complexidade econômica do Império Romano parece ser o resultado da ação de alguns homens poderosos e ricos que comandavam uma multidão de trabalhadores anônimos.

Não é coincidência que a representação mais eficaz do dinamismo econômico romano seja a propriedade fundiária centralizada. No mundo romano, a maneira mais fácil de maximizar a produção e as trocas era através da exploração, por parte do empregador, das pessoas que realizavam o trabalho, fossem elas trabalhadores livres ou escravizados. Dessa perspectiva, qualquer forma de desigualdade criada pelo sistema romano era a consequência natural de sua economia inerentemente pré-capitalista.

Surviving Rome nos oferece uma visão muito diferente da vida econômica de Roma. O livro muda o foco dos indicadores macroeconômicos de crescimento para as pessoas comuns, mostrando-nos como elas realmente viviam, trabalhavam e morriam durante os quatro séculos que separam o período da República Tardia (século I a.C.) do Império Médio (século III d.C.). Não narra a macro-história da ascensão e queda econômica do império, mas nos apresenta muitas micro-histórias de camponeses e escravos — homens, mulheres e seus filhos — que precisavam lutar para sobreviver em um mundo difícil e complexo como agricultores, pastores, fiandeiros, oleiros ou comerciantes ocasionais.

O livro de Kim Bowes não é uma história sobre pessoas prósperas e felizes. Pelo contrário, descreve a vida de romanos trabalhadores que produziam e consumiam uma enorme variedade de bens, contribuindo para um sistema econômico opressivo que forçava a maioria da população a aumentar a produção para lidar com as pressões do consumo compulsivo e o consequente endividamento. Suas condições sociais refletem muitos aspectos da experiência das classes trabalhadoras sob o capitalismo contemporâneo.

História vista de baixo

Kim Bowes é uma arqueóloga estadunidense e atualmente professora de estudos clássicos na Universidade da Pensilvânia. Ela é uma renomada especialista nas áreas de cultura material e economia do mundo romano. Possui um extensivo registro de publicações sobre habitação, o significado social do dinheiro, dívida e poupança, bem como sobre inúmeros aspectos da vida cotidiana no mundo antigo. Bowes tem um grande interesse acadêmico pelos pobres, especialmente os pobres rurais.

Entre 2009 e 2014, ela dirigiu o primeiro estudo arqueológico sistemático já realizado sobre camponeses romanos. The roman peasant project, 2009–2014: Excavating the roman rural poor [O projeto camponês romano, 2009–2014: Desenterrando os pobres rurais romanos], examina dados arqueológicos de sítios rurais de pequenos agricultores no sul da Toscana para revelar como os camponeses locais organizavam suas moradias, dieta, fazendas e estratégias agrícolas, incluindo a mobilidade da mão de obra e as transações de mercado.

Os pequenos agricultores, e não os grandes proprietários de terras, dominavam a zona rural romana através de sítios especializados dispersos por toda a paisagem rural.

Os resultados sugerem que os pequenos agricultores, e não os grandes proprietários de terras, dominavam o campo por meio de sítios especializados dispersos pela paisagem rural. Esse padrão de “habitações distribuídas” permitiu que os camponeses se estabelecessem no território e maximizassem o uso de diversas parcelas de terra. A agricultura não se limitava à colheita de cereais para subsistência: na verdade, os camponeses intensificaram sua produção agrícola integrando a rotação de culturas de cereais e leguminosas com investimentos relevantes na pecuária. Os animais eram usados ​​para arar a terra, mas também se tornaram um componente essencial da dieta camponesa em seus últimos anos de vida.

Esses diversos níveis de consumo, com cereais, vegetais, frutas e carne fazendo parte da dieta, reforçam a ideia de que o campo não produzia apenas para a cidade consumidora parasitária, onde as elites geralmente residiam e investiam sua riqueza acumulada. Ele também constituía, por si só, um importante reservatório de demanda agregada rural.

Os dados obtidos nas escavações mostram que a cidade e o campo não mantinham uma relação de dependência rígida. Ao contrário, estavam unificados em complexas redes de produção e consumo de diversos tipos de bens, incluindo cerâmica, vidro, couro e têxteis. A mão de obra circulava livremente entre diferentes locais, com os camponeses deslocando-se diariamente de suas moradias rurais para seus campos dispersos. Ocasionalmente, também se deslocavam para mercados rurais e urbanos próximos, onde vendiam suas colheitas em troca de dinheiro, que podia ser usado para comprar alimentos que não produziam diretamente, bem como cerâmica e produtos artesanais.

O projeto liderado por Bowes propõe uma visão flexível e economicamente orientada dos camponeses que povoavam o campo romano. Esses camponeses apresentavam um alto grau de diferenciação social e consumiam uma dieta potencialmente diversificada, que incluía proteínas. Sua organização agrícola baseava-se em vários tipos de posse de terra e um regime de trabalho misto que envolvia todos os membros da família. As trocas ocorriam em uma economia monetizada, com livre acesso e intervenção nos mercados externos.

Do campo à teoria econômica

Após a publicação de The roman peasant project, Bowes publicou um importante ensaio teórico que critica duramente as abordagens cliométricas ao estudo da economia romana. Em When Kuznets went to Rome [Quando Kuznets foi a Roma], ela argumenta que os estudos macroeconômicos que buscam reconstruir o PIB agregado ou per capita, os índices de desigualdade ou os níveis salariais não revelam o real bem-estar econômico da população romana (ou dos trabalhadores em geral antes da Revolução Industrial).

Como esses estudos partem do pressuposto de níveis de consumo de subsistência inalteráveis, eles demonstram teleologicamente a natureza relativamente estacionária de todas as economias pré-modernas (incluindo a romana) quando comparadas ao crescimento impulsionado pela industrialização. Em essência, reiteram ideologicamente o paradigma histórico dominante do crescimento progressivo como principal motor econômico de qualquer sociedade histórica, aplicando, assim, retrospectivamente uma dinâmica política contemporânea ao passado.

Como Bowes insiste, os números do crescimento agregado ou estimativas comparáveis ​​usadas como indicadores econômicos não dizem muito sobre as necessidades e oportunidades dos trabalhadores romanos, assim como não revelam as condições reais da classe trabalhadora da época. Essas formas de macrodados simplesmente reiteram a teleologia metahistórica de “ascensão e declínio” na linguagem aparentemente mais neutra e aceitável da economia.

Os números de crescimento agregado ou estimativas comparáveis ​​usadas como indicadores econômicos não dizem muito sobre as necessidades e oportunidades dos trabalhadores romanos.

Para corrigir essa narrativa simplista, Bowes propõe examinar o consumo real em nível domiciliar. Essa mudança permite aos estudiosos demonstrar que, no mundo pré-moderno, a maioria da população trabalhadora possuía múltiplas fontes potenciais de renda e produzia excedentes significativos para acessar o mercado. Isso não apenas revela que a suposta “armadilha da subsistência” era, na verdade, uma invenção historiográfica, como também desvenda um panorama de estratégias complexas e experiências de vida que merecem ser compreendidas.

Lutando para sobreviver

Surviving Rome vai além de seus estudos anteriores. Nesse novo livro, Bowes combina a rigorosa abordagem teórica desenvolvida em When Kuznets went to Rome com a enorme coleta de dados realizada durante The roman peasant project. O resultado é um relato magnífico de como 90% da população do Império Romano — algo entre cinquenta e sessenta milhões de pessoas, dependendo da estimativa — viviam, trabalhavam e morriam durante o período abordado.

A mensagem do livro é direta: o Império Romano possuía uma economia de mercado dinâmica. Os romanos produziam e consumiam bens agrícolas, artesanais e industriais em grandes quantidades. As trocas ocorriam em níveis local, regional e inter-regional, impulsionadas pelas infraestruturas imperiais e com um alto grau de monetização, chegando até mesmo às áreas rurais mais remotas.

O Império Romano possuía uma economia de mercado dinâmica. Os romanos produziam e consumiam bens agrícolas, artesanais e industriais em grandes quantidades.

Na reconstrução de Bowes, a força motriz da economia romana não era o Estado romano e seus aparatos — como o exército ou a administração financeira — nem os latifundiários senatoriais super-ricos que administravam suas propriedades. Eram os trabalhadores comuns, com sua produção especializada, altos níveis de demanda e padrões de consumo variados. O imperativo social dos 90% da população de ter acesso a bens de consumo para melhorar seu bem-estar e status — o que Bowes chama de custos da inclusão social — foi fundamental para a gênese e expansão de uma revolução do consumo.

A noção de revolução do consumo não é nova no estudo da economia romana. Em sua magnífica obra Peasant and empire in Christian North Africa [Camponês e império no Norte da África Cristã], Lesley Dossey utilizou esse conceito para explicar o enorme desenvolvimento socioeconômico do mundo rural africano no final da Antiguidade. Na interpretação de Dossey, o século IV d.C. testemunhou um crescimento exponencial da demanda camponesa. Os camponeses africanos não produziam apenas para os habitantes urbanos — eles também utilizavam o mercado para aumentar sua própria renda e, consequentemente, seus níveis de consumo.

Bowes aplica a ideia de uma revolução do consumo aos séculos I e II d.C. Ela estende seu efeito transformador ao início e ao meio do Império Romano, quando a economia atingiu seu ponto de máxima expansão em termos de produção e troca de mercadorias em grande escala.

No entanto, Bowes não gosta de comparações diacrônicas entre os indicadores macroeconômicos das economias romana e moderna, assim como de analogias simplistas entre passado e presente. Em vez disso, ela examina uma série de diferenças e uma semelhança fundamental nas estruturas inerentes às duas economias.

Produção doméstica

A economia romana difere significativamente da economia capitalista moderna em dois aspectos principais. Em primeiro lugar, embora os salários fossem comuns no mundo romano, raramente eram suficientes para cobrir as necessidades básicas de uma família, servindo, em vez disso, como uma fonte de renda adicional, porém ocasional.

Em contraste com o mundo industrial, onde houve uma luta contínua entre capital e trabalho, a economia agrária dos antigos grupos subalternos não funcionava segundo o que E. P. Thompson chamou de nexo monetário. Trata-se de um mecanismo econômico que envolve uma relação entre os níveis salariais e os padrões de vida, bem como conflitos entre empregador e empregado sobre o que é considerado salário justo.

Embora os salários fossem comuns no mundo romano, raramente eram suficientes para cobrir as necessidades básicas de uma família.

Como os romanos que trabalhavam não podiam contar com salários como a base de sua economia doméstica, eles continuaram a depender da agricultura e da produção artesanal e têxtil caseira. Isso não significa que eles não operavam em uma economia de mercado; na verdade, estavam totalmente integrados às suas estruturas. Mas participavam dos ciclos de oferta e demanda expandindo sua produção doméstica mais do que vendendo sua força de trabalho para terceiros.

A segunda diferença relevante é que os romanos comuns raramente conseguiam acumular poupanças. Ao contrário dos camponeses e artesãos durante a “revolução industriosa” do século XVIII, que acumulavam poupanças através do adiamento do casamento e do aumento da produtividade, os 90% romanos tinham menos oportunidades de aumentar os seus rendimentos e reservar algum dinheiro para compensar os riscos inerentes a uma economia agrária com as suas colheitas variáveis.

Bowes argumenta que tanto a economia romana quanto a do capitalismo tardio compartilhavam uma característica comum: a precariedade. Em ambos os contextos, a precariedade significava que as pessoas podiam, ou podem, facilmente passar de uma situação de mera sobrevivência (ou, às vezes, até de prosperidade) para uma situação de extrema pobreza. A revolução do consumo impôs à população romana uma tendência compulsiva ao consumo.

Não devemos interpretar isso como um indicador de uma “sociedade abastada” no sentido em que J.K. Galbraith a descreveu em seu livro de 1958 com esse título. Em vez disso, evidenciava uma sociedade onde era extremamente caro e difícil viver e (às vezes) até mesmo sobreviver. Como observa Bowes, assim como os estadunidenses modernos, os 90% romanos viviam perpetuamente endividados, com a precariedade como sua companheira constante.

A economia da maioria

Os estudos sobre a economia romana têm se concentrado principalmente em desvendar os mecanismos de arrecadação de recursos da população, buscando compreender como instituições como o Estado ou os mercados utilizavam o dinheiro e distribuíam ou comercializavam mercadorias. O debate girou em torno de diferentes formas de cobrança de impostos, baseadas em dinheiro ou pagamento em espécie, na coleta e transferência de rendas agrícolas e no papel do sistema monetário unificado na facilitação das transações entre parceiros institucionais, bem como na forma como as instituições possibilitavam o acesso ao mercado.

O interesse pela população trabalhadora tem se limitado a estabelecer qual tipo de sistema de posse de terras e regime de trabalho associado — arrendamento, trabalho assalariado ou escravidão — era mais propenso a aumentar a produção e melhorar a eficiência da economia imperial. Em essência, os estudos têm se concentrado mais em como os proprietários de terras organizavam a produção e como as instituições os ajudavam a transferir ou trocar mercadorias do que em como os trabalhadores gerenciavam suas vidas.

Surviving Rome adota uma perspectiva diferente. Assim como em outras sociedades pré-industriais, a grande maioria das pessoas no mundo romano — cerca de nove décimos da população — vivia e trabalhava no campo. Se quisermos entender como essa sociedade funcionava e se seu povo estava bem, precisamos observar os camponeses em vez das elites, muito mais documentadas e visíveis.

A grande maioria das pessoas no mundo romano — cerca de nove décimos da população — vivia e trabalhava no campo.

Os camponeses representavam a maior parte dos 90%, mas essas pessoas nunca foram agricultores em tempo integral. A visão atemporal do camponês que ganhava a vida cultivando (com a ajuda da família) uma pequena parcela de terra é um mito criado pelos escritores romanos para celebrar o valor moral do cidadão romano ideal.

Em todo o vasto território que se estendia dos atuais Países Baixos ao Egito, os camponeses romanos estavam longe de ser românticos ou conservadores ao elaborarem suas estratégias econômicas. Eles dispunham de múltiplas fontes potenciais de renda, derivadas de um campo totalmente imerso em um complexo sistema de trocas.

Por vezes, os camponeses possuíam várias parcelas de terra. Contudo, como a oferta de terra nunca era suficiente, arrendavam com mais frequência as suas parcelas a grandes ou médios proprietários de terras. A dupla condição de pequenos proprietários e arrendatários exigia da família camponesa um planejamento complexo do emprego dos recursos humanos, que tinha de ter em conta as necessidades sazonais da agricultura, como a rotação de culturas e a colheita. Os camponeses também tinham de considerar as exigências simultâneas das fábricas de cerâmica, das indústrias artesanais ou do comércio de produtos agrícolas e têxteis no mercado local.

Escassez e excedentes

A combinação de diversas atividades poderia resultar em escassez de mão de obra. Por sua vez, isso oferecia oportunidades de emprego para trabalhadores assalariados externos, geralmente recrutados entre pastores de meio período ou camponeses sem terra. Às vezes, porém, a composição variável da família também podia gerar excedente de mão de obra, tornando necessário que alguns membros trabalhassem por salário na propriedade de outra pessoa.

Esse dinamismo econômico leva Bowes a argumentar que a relação entre terra, trabalho e produção não era predeterminada por alguma lei econômica abrangente, mas sim influenciada pela atividade camponesa e pelas contingências históricas. Em essência, dependendo da situação, um camponês, sua esposa e seus filhos podiam atuar como pequenos proprietários, arrendatários, assalariados, pastores ocasionais, comerciantes ou trabalhadores têxteis e de cerâmica — às vezes, todos os anteriores.

Apesar do analfabetismo generalizado na população rural, as famílias trabalhadoras ainda conseguiam lidar com cálculos complexos.

A capacidade dos camponeses de lidar com todas essas atividades desmente duas outras crenças equivocadas. Em primeiro lugar, apesar do analfabetismo generalizado entre a população rural, as famílias trabalhadoras ainda conseguiam realizar cálculos complexos e manter registros detalhados de seus impostos, aluguéis, obrigações públicas e privadas, e assim por diante. Assim como os pobres na sociedade contemporânea, os romanos trabalhadores podiam ser altamente habilidosos com números sem precisar saber ler ou escrever.

Em segundo lugar, eles administravam suas transações diárias de forma muito racional, pensando em termos de valor monetário. É verdade que o campo sofria com a escassez estrutural de moedas, já que os camponeses estavam constantemente precisando de dinheiro. Mas, como Rory Naismith afirmou em seu fascinante livro Making money in the early Middle Ages [Fazendo dinheiro no início da Idade Média], a falta de moedas nas transações cotidianas não impedia as pessoas comuns de mensurar o valor da terra, do gado e das mercadorias (ou mesmo de bens mais intangíveis, como honra e devoção espiritual) em unidades monetárias. A contabilidade monetária era um hábito econômico significativo para aqueles que viviam no campo.

Bowes oferece como exemplo dessa racionalidade econômica duas histórias de camponeses no Egito do primeiro século. Epímaco possuía vários pequenos lotes perto de Hermópolis, no Vale do Nilo, e administrava ativamente sua fazenda com a ajuda de quatro ou cinco escravizados e trabalhadores diaristas. A natureza dispersa de suas propriedades e a dependência do trabalho assalariado provavelmente exigiam uma contabilidade complexa. Ele empregava um escravizado chamado Dídimo para manter registros detalhados, começando cada mês com os ganhos organizados cronologicamente e registrando as despesas diárias. Os ganhos e as despesas eram então contabilizados, transferindo qualquer lucro ou déficit para o mês seguinte.

Soterichos, um arrendatário, e sua família conservaram seus contratos de arrendamento, recibos de aluguel e impostos, documentos de quitação de dívidas, um recibo de compra de um burro e a compensação pela pastagem consumida pelo gado. Embora não fossem alfabetizados em grego, administraram com eficiência os arrendamentos e empréstimos, insistiram em receber os recibos de pagamento e guardaram esses documentos por anos após o vencimento. Essas duas histórias sobre famílias camponesas refletem, em nível micro, a história econômica mais ampla do Império Romano.

Uma classe trabalhadora maltratada

Um dos capítulos mais impressionantes do livro aborda os efeitos destrutivos do trabalho na saúde dos trabalhadores. O período romano testemunhou uma das explorações mais intensas do campo antes da mecanização da agricultura na segunda metade do século XIX. A expansão maciça da produção agrícola excedente e a busca incessante pelo aumento do consumo tiveram um enorme impacto sobre a população trabalhadora.

A expansão maciça da produção excedente agrícola e a busca incessante pelo aumento do consumo tiveram um enorme impacto na população trabalhadora.

Uma enorme quantidade de novos dados provenientes de esqueletos humanos revelou as consequências perigosas de se viver em um mundo onde o corpo humano era a principal máquina produtiva. O trabalho imposto aos operários prejudicava seriamente sua saúde. Seus corpos contêm indicadores reveladores de níveis de estresse e lesões sem precedentes. Os romanos trabalhadores podem ter tido acesso a alimentos melhores, panelas feitas em roda de oleiro e roupas de melhor qualidade, mas pagaram um preço alto em troca de benefícios mínimos.

Embora todos os trabalhadores romanos sofressem com a sobrecarga de trabalho, os 90% restantes não constituíam um grupo homogêneo. Os membros da maioria rural foram afetados mais seriamente do que seus pares urbanos. As pessoas que viviam e trabalhavam em cidades como a antiga Londres, Cartago ou a própria Roma se beneficiavam de uma dieta mais variada, incluindo carne, queijo, leguminosas e peixe. Essa fonte estável de proteína ajudava os trabalhadores urbanos a suportar as muitas horas de trabalho árduo.

Os trabalhadores rurais não dispunham de uma variedade comparável nem de uma fonte estável de proteínas: consumiam carne com menor teor proteico e raramente tinham acesso a peixe. Aqueles empregados em indústrias especializadas, como minas, ou na agricultura, realizavam trabalhos árduos que exigiam o consumo de quase quatro mil calorias por dia. Quando não conseguissem obter essas rações diárias — e eles raramente conseguiam —, seus corpos sofriam sérios danos.

A situação era ainda pior para os adolescentes de ambos os sexos, pois a combinação de um regime de trabalho pesado com a insuficiência de proteínas e vitaminas comprometia severamente seu crescimento. A maioria dos trabalhadores que sobreviviam a essa infância precária carregava as sequelas do trabalho pesado por toda a vida.

Trabalho livre e não livre

Em termos de impacto na saúde popular, a diferença entre cidade e campo era mais relevante do que a distinção legal entre trabalhadores livres e escravizados. Trabalhadores livres pobres e escravizados desempenhavam funções semelhantes, especialmente em indústrias especializadas como as minas de carvão e no campo. Recebiam salários comparáveis ​​e tinham dietas semelhantes.

Os esqueletos de pessoas escravizadas parecem idênticos aos dos pobres que trabalhavam em liberdade. Essas descobertas sugerem que a escravidão em Roma não fornecia uma categoria distinta de trabalhadores para a economia romana. Embora tais semelhanças não diminuam a brutalidade da escravidão, elas mostram que a experiência do trabalho pesado não apenas tornava os trabalhadores livres e escravizados fisicamente indistinguíveis, mas também os integrava a um mesmo grupo social.

Surviving Rome nos mostra como as forças de mercado e um sistema imperial opressor forçaram os trabalhadores a se tornarem protagonistas de um ciclo vicioso e perigoso. Ao examinar esse processo, Bowes destaca como principal motor o esforço tenaz dos pobres para serem socialmente incluídos, embora reconheça que foram as estratégias de acumulação das elites que forçaram os trabalhadores a exercerem múltiplos empregos para sobreviver.

Ao discutir questões de classe, Bowes prefere as categorias de Pierre Bourdieu às de Karl Marx. No entanto, assim como ocorreu com o trabalho empírico de Bourdieu sobre o campesinato argelino, sua reconexão entre produção e consumo a partir da perspectiva de baixo para cima fortalece a mensagem do livro. Na Roma Antiga, assim como no presente capitalista contemporâneo, eram os trabalhadores que pagavam o preço por um mundo repleto de bens materiais.

Colaborador

Paolo Tedesco ensina história na Universidade de Tübingen. Seus principais interesses de pesquisa incluem a história social e econômica do final da antiguidade e início da Idade Média, história agrária comparada, o destino do campesinato em diferentes tipos de sociedades e materialismo histórico.

18 de janeiro de 2024

Como se formou a classe trabalhadora italiana

Depois de participar na ascensão radical da esquerda italiana, Franco Ramella começou a escrever sobre a história inicial do capitalismo italiano e da resistência da classe trabalhadora. Seu trabalho brilhante tem fortes ecos de Making of the English Working Class, de E. P. Thompson.

Paolo Tedesco


Fábrica têxtil em Bérgamo, Itália, ca. 1750. (Imagens de Belas Artes / Imagens de Patrimônio / Imagens Getty)

Resenha de Terra e telai: sistemi di parentela e manifattura nel Biellese dell'Ottocento by Franco Ramella (Donzelli, 2022)

O advento do capitalismo está inextricavelmente ligado ao início do colonialismo, da expropriação e da escravatura. Os povos da Ásia, da África e das Américas pagaram o preço mais pesado na ascensão econômica do mundo ocidental. Mas a exploração das classes trabalhadoras europeias também foi uma parte crucial do processo de industrialização.

Aos olhos da sociedade europeia, o capitalismo ainda é sobretudo visto como uma força libertadora, que lançou as bases para um estilo de vida contemporâneo privilegiado. No entanto, mesmo nas partes do mundo que se beneficiaram principalmente do sistema, as desvantagens do capitalismo eram evidentes. Talvez, se olharmos um pouco mais para casa, estas verdades incômodas serão mais difíceis deser  ignoradas.

A obra do historiador italiano Franco Ramella deu uma importante contribuição para este trabalho de exposição. O livro de Ramella, Terra e telai: sistemi di parentela e manifattura nel Biellese dell'Ottocento (Terra e teares: sistemas de parentesco e manufatura na Biella do século XIX) subverte completamente a visão tradicional do campo italiano no século XIX. A sua abordagem micro-histórica às manufaturas têxteis revela como o capitalismo industrial impôs um regime de exploração muito mais duro e novas formas de precariedade, trazendo miséria para a vida tanto dos camponeses como dos operários fabris.

O trabalho de Ramella tem fortes ecos dos livros e ensaios de E. P. Thompson sobre o início da história do capitalismo na Grã-Bretanha. Assim como Thompson, Ramella uniu os mundos do conhecimento acadêmico e do ativismo político em sua carreira intelectual. Land and Looms, que apareceu pela primeira vez na década de 1980, foi recentemente republicado, dando-nos a oportunidade de lançar um novo olhar sobre um grande historiador que merece ser mais conhecido fora do seu país natal.

Fazendo um historiador

O trabalho de Ramella como acadêmico está profundamente interligado com suas experiências de vida e afiliações políticas. Nasceu em Biella, cidade industrial do norte da Itália, em 1939. Durante a década de 1960, como muitos jovens de sua geração, envolveu-se na política, primeiro no Partido Socialista Italiano (PSI), e a partir de 1964 no Partido Italiano. Partido Socialista da Unidade Proletária, que rompeu com o PSI após a sua entrada em uma coligação governamental com os Democratas-Cristãos.

Durante esses anos, Ramella colaborou estreitamente com a revista Quaderni Rossi, publicada entre 1961 e 1966, que contava entre os entre seus fundadores Raniero Panzieri, Danilo Montaldi, Romano Alquati e Mario Tronti. Estes homens podem ser considerados, com razão, os pilares da fase inicial do operaismo ("operismo"), uma corrente influente da esquerda radical italiana.

The Quaderni Rossi circle argued that factory, society, and state had become tightly interconnected. Industry was fundamentally a political tool deployed to control labor and standardize society. In this new setting, class conflicts no longer revolved around the opposition between wage workers and capital. Since the grip of capitalism over society had grown tighter, the struggle of the proletariat had expanded to encompass other issues, such as culture, imagination, language, forms of life, and reproduction.

Em um artigo de 1964 publicado no Quaderni Rossi, Ramella e o seu concidadão Clemente Ciocchetti lançaram alguma luz sobre estes novos tipos de contenção na indústria têxtil de Biella. Os dois autores recolheram depoimentos orais e escritos dos trabalhadores através do método de pesquisa colaborativa (“conricerca”).

Seus esforços visavam mostrar como a automatização do processo produtivo e a subordinação dos trabalhadores à linha de montagem afetavam o ambiente de trabalho. Neste contexto alterado, surgiu uma nova paisagem microfísica de resistência. Os trabalhadores exerceram a sua vontade de transformação política e social através de novos instrumentos de luta: recusaram-se a trabalhar e recorreram à sabotagem e a outros meios de resistência individual e coletiva à disciplina fabril.

O desenvolvimento capitalista teve de contrariar eficazmente estas formas proativas de resistência. Uma vez que os trabalhadores já não agiam como vítimas passivas, o capital não podia simplesmente confiar na sua própria lógica de subjugação. Teve que resistir inventando novas formas de exploração. Para refrear a força do trabalho vivo, as fábricas implementaram tipos de regimes de trabalho diferentes e mais severos.

Marxismo e micro-história

No início da década de 1970, a agenda dos trabalhadores tornou-se impraticável. Quando o Partido Socialista da Unidade Proletária se dissolveu e o operaísmo entrou em crise, Ramella deixou a política e mudou-se de Biella para Turim. Em uma entrevista de 2014 a Serena La Malfa, o historiador explicou que abandonou o ativismo político porque percebeu que o capitalismo tinha vencido.

Contudo, a aceitação da derrota rapidamente se transformou em um impulso que impulsionou um novo começo. Em 1974, sob a orientação de Giovanni Levi, formou-se na Universidade de Torino. Nas palavras de Ramella, o encontro e a subsequente colaboração com Levi foram “um divisor de águas para sua biografia intelectual”. A partir do início da década de 1970, Ramella situou-se na intersecção entre duas tradições historiográficas: o marxismo e a micro-história.

Ramella aproximou-se da historiografia marxista através do trabalho de Thompson sobre a sociedade inglesa do século XVIII. De Thompson, Ramella derivou a ideia de que o advento do capitalismo foi o resultado de uma sucessão de confrontos entre duas forças principais: por um lado, uma economia de mercado inovadora baseada no nexo monetário e no conflito de classes, que girava principalmente em torno da questão da remunerações; por outro lado, a economia moral consuetudinária das classes plebéias, cujo tecido de costumes e usos econômicos tradicionais atravessava os princípios do “mercado livre” e, portanto, trabalhava contra eles.

A micro-história, especialmente desenvolvida nas obras de Levi e Edoardo Grendi, foi a segunda abordagem historiográfica que moldou a trajetória intelectual de Ramella. Tal como Thompson, estes dois estudiosos direcionaram as suas investigações para longe daquilo que chamavam de “centro de poder” e dos grandes personagens que escreveram a história da humanidade. O seu novo objetivo era explorar o mundo negligenciado das margens e dos “muitos”.

Nesta visão, ser um entre muitos também significava estar entre os desfavorecidos e os explorados. Mas isso não significa que as identidades das pessoas “inferiores”, a sua existência como indivíduos vivos e que respiram, devam ser perdidas no fluxo da história mundial. As suas vidas não podem e não devem ser reduzidas ao seu papel social, como rostos anônimos em uma multidão homogeneizada e bem organizada de trabalhadores.

Os micro-historiadores não consideram o desenvolvimento histórico como um processo unificado e linear, que pode ser recontado em uma grande narrativa do mundo em que apenas alguns nomes são lembrados, enquanto a maioria é obliterada pelas ondas do tempo. A história é antes um fluxo multifacetado que consiste em muitos centros individuais. Esses centros são pessoas, e as pessoas não vivem a “história” em um sentido conjectural, mas sim histórias. Ou melhor ainda, histórias: o que importa são as histórias delas.

Em Land and Looms, publicado pela primeira vez em 1984, Ramella recombinou elementos de ambas as tradições historiográficas, construindo assim a sua própria perspectiva original. Na sua opinião, a formação da classe trabalhadora estava longe de ser um processo simples, linear e inevitável que transformasse uma classe monolítica de camponeses em uma classe monolítica de trabalhadores industriais.

Pelo contrário, a história de Ramella é composta por muitas histórias diferentes, onde os protagonistas são homens, mulheres, famílias e lares. Neste quadro, os camponeses e os operários fabris são vistos como pessoas, e não como categorias sociais ou meras engrenagens da grande máquina histórica. Eles aparecem como pessoas e grupos que traçaram ativamente os caminhos de suas próprias vidas, quer sua existência fosse considerada digna de ser lembrada ou não.

Um lugar quieto

A história de Land and Looms começou no lugar mais improvável: o tranquilo vale de Mosso, nas colinas baixas que cercam Biella. Tal como muitas aldeias europeias no período entre o final do século XVII e a revolução industrial, as pequenas comunidades rurais de Mosso caracterizavam-se por baixos rendimentos agrícolas e pela existência de uma grande reserva de mão-de-obra barata.

Como resultado, os agricultores tiveram um forte incentivo para recorrer à indústria a fim de complementar os seus rendimentos. Homens, mulheres e crianças dividiam o seu tempo entre a agricultura e a indústria. Dentro dos muros de suas próprias casas rurais, essas pessoas trabalhavam para produzir manufaturas que mais tarde seriam vendidas no mercado.

Neste esforço, os trabalhadores poderiam trabalhar por conta própria ou então depender de alguns pequenos empresários baseados na cidade. Em ambos os casos, a sua casa era a sua oficina e o seu agregado familiar uma célula de produção única e independente. A maioria dessas manufaturas eram produtos têxteis. Os camponeses dedicavam-se a este artesanato apenas durante os períodos de folga - não de forma consistente, mas de forma intermitente e dependendo da estação.

Estes artesanatos caseiros destinavam-se não só ao consumo local, mas também ao mercado nacional e internacional. Sem o estímulo de grandes mercados competitivos, as indústrias rurais vegetaram silenciosamente no campo, suprindo as necessidades domésticas e locais, mas permanecendo globalmente intocadas pelas pressões do capitalismo comercial. A ligação entre os produtores camponeses e o mundo em geral era fornecida por comerciantes que visitavam as cidades mercantis nas regiões de indústria artesanal para comprar produtos manufaturados.

As cidades ainda não eram os principais centros de produção industrial. Pelo contrário, eram locais onde os trabalhadores protoindustriais escoavam os seus bens, compravam matérias-primas e compravam mercadorias que eles próprios não podiam produzir ou cultivar, tais como alimentos e outros produtos agrícolas.

Na zona rural de Biella, as exigências do mercado tornaram-se tão fortes que a indústria transformadora ultrapassou a oferta de mão-de-obra disponível. Ao fazê-lo, levou esta forma germinal de organização industrial a modificar as suas técnicas de produção. A indústria rural transformou-se assim gradualmente em indústria fabril.

Fazenda para fábrica

O que aconteceu durante o século XIX foi, portanto, uma transição difícil e desigual do mundo mais antigo da indústria doméstica - descontínua, multifocal e horizontal - para o mundo integrado, centralizado e hierárquico do capitalismo industrial.

No mundo da indústria rural, os produtores camponeses conseguiram manter de certa forma os ritmos de trabalho das fazendas, das pequenas oficinas ou das corporações artesanais de onde provinham. Conseguiram também preservar um grau adequado de diferenciação entre si, tanto em sexo como em idade, assegurando assim a divisão do trabalho suficiente para garantir o bom funcionamento da indústria rural nacional tradicional.

No entanto, à medida que a produção industrial ganhou destaque, alterou a natureza e a função das famílias camponesas de diversas maneiras. Os salários monetários substituíram gradualmente o rendimento familiar tradicional, enquanto os tecelões se tornaram cada vez menos dependentes das receitas da terra e do apoio de outros membros do agregado familiar.

Neste novo cenário, tanto os homens como as mulheres eram mais propensos a se casar mais tarde, por volta dos vinte e tantos anos. No entanto, a idade em que tiveram relações sexuais pela primeira vez não aumentou proporcionalmente. Como consequência, o número de crianças nascidas fora do casamento cresceu, enquanto os casos de abandono de crianças tornaram-se cada vez mais frequentes.

A produção foi transferida da casa da família. Uma quantidade cada vez maior de trabalhadores foi reunida em novos estabelecimentos dedicados: as fábricas modernas. O impacto na produtividade foi enorme: o trabalho humano tornou-se mais rápido, à medida que foi progressivamente subjugado ao ritmo da produção, alterando tanto a natureza do processo de produção tradicional como o próprio trabalho.

A vida dos novos trabalhadores fabris mudou drasticamente, pois eram periodicamente empurrados para a precariedade pela natureza instável dos produtos industriais e pela sua presença no mercado. Sempre que o comércio caía e a produção fabril parava, os fabricantes camponeses eram despedidos pelos seus empregadores. Na ausência da indústria, os agricultores e as suas famílias regressaram à sua ocupação agrícola tradicional, da qual obtinham o rendimento básico para a sua sobrevivência.

Transformação cultural

Infelizmente, esta alternância entre indústria e agricultura não funcionou muito bem. A indústria transformadora enquadrava-se nos períodos mais intensivos em mão-de-obra do ano agrícola, quando os camponeses estavam ocupados com a colheita. Os trabalhadores eram, portanto, sobreexplorados tanto na indústria como na agricultura durante o verão, enquanto permaneciam ociosos (e privados de rendimento) durante o resto do ano.

A natureza dos conflitos sociais também mudou. No mundo da indústria rural, as classes trabalhadoras foram mais rapidamente estimuladas a agir através do aumento dos preços - o que Thompson chamou de nexo do pão, isto é, a correlação entre o preço do pão e os tumultos. Em contraste, o conflito de classes econômicas na Itália do século XIX, como em outras partes do mundo industrial, encontrou a sua expressão característica na questão dos salários.

À medida que o número de trabalhadores assalariados crescia, tornavam-se cada vez mais dependentes dos seus salários e dos empregadores, ao mesmo tempo que perdiam a sua autonomia como trabalhadores rurais. Sven Beckert lembrou-nos recentemente que o controle abrangente dos trabalhadores - uma característica central do capitalismo - conheceu o seu primeiro grande sucesso na fábrica têxtil.

A transição da manufatura camponesa para o trabalho industrial acabou por colocar fim ao que os acadêmicos chamam de “cultura plebeia” da economia familiar protoindustrial. Todos os costumes deste modo ultrapassado de organização do trabalho extinguiram-se, juntamente com a mentalidade que lhe estava associada e os seus direitos. Isso incluía o direito de trabalhar de acordo com um horário autodeterminado e de participar em “rituais tradicionais de lazer”, bem como o sentimento de pertençimento a uma comunidade local e a possibilidade de desfrutar de padrões de consumo há muito estabelecidos.

Um novo regime de trabalho

A vida dos operários fabris tornou-se significativamente diferente da experiência de produção dos artesãos rurais. As fábricas impuseram o seu próprio regime de trabalho e os novos e frenéticos ritmos de trabalho levaram muitos trabalhadores a se revoltarem contra os seus senhores.

Resistência foi a palavra que unificou o movimento proletário. No entanto, a sua natureza compósita e a diversidade dos seus objetivos (e inimigos) deram origem a uma multiplicidade de linguagens, atitudes e gestos. Cada um deles foi projetado para atingir um alvo específico.

Em seu trabalho, Ramella enfatiza a importância dessa linguagem de protesto habitualmente inventada. À medida que o capitalismo desenvolveu formas mais rigorosas de opressão, a resistência adotou as suas próprias ferramentas para as combater.

Os fabricantes tentaram explorar as relações há muito estabelecidas entre as famílias camponesas para evitar a concentração de trabalhadores nas fábricas. No entanto, tanto a família camponesa como a fábrica moderna dependiam de um sistema de governação rígido e hierárquico: dentro de ambas as estruturas, os trabalhadores estabeleceram fortes laços de solidariedade. Isso os tornou aliados na mesma batalha e sua camaradagem permitiu-lhes obter controle parcial sobre os ritmos de produção.

Em termos práticos, os trabalhadores estabeleceram tacitamente um nível padrão de produção: aqueles que conseguiam aumentar a sua produção individual de tecidos acima desse nível geralmente encontravam-se isolados e dificultados pelos outros. Os trabalhadores mais produtivos tornaram-se alvos dos trabalhadores médios, que se recusaram a colaborar com eles. Às vezes, eles até danificaram seus teares para impedir comportamentos individuais considerados prejudiciais ao interesse coletivo do grupo.

As greves também foram um momento crucial: nelas, cada trabalhador tinha que mostrar solidariedade à causa comum. Como forma de resistência, as greves foram dirigidas principalmente contra o dono da fábrica e suas tentativas de impor uma disciplina de trabalho mais rigorosa. No entanto, as greves e os protestos também poderiam afetar outros alvos: por exemplo, os trabalhadores que não participassem na greve poderiam sofrer pesadas consequências.

Os grevistas costumavam rotular aqueles que se recusavam a aderir à sua ação com o nome insultuoso de “beduínos”. Tendo sido assim marcados, ficavam afastados de qualquer tipo de relacionamento social com os seus colegas de trabalho e membros de toda a comunidade, com a sua complexa rede de solidariedade e apoio mútuo. Isto incluiu a perda de acesso à água, crédito e qualquer outro recurso ou forma de assistência para os “beduínos”. Esse isolamento acabou por forçá-los a abandonar tanto a fábrica como a aldeia.

Os proprietários muitas vezes tentaram substituir os grevistas por trabalhadores externos recrutados em áreas de desemprego estrutural ou periódico, como a Lombardia ou a Toscana. É claro que era do interesse dos trabalhadores locais expulsá-los. Da fábrica à taberna, os trabalhadores locais cercaram agressivamente os estrangeiros, pressionando-os a entregar uma parte dos seus salários como reembolso pelo que, na sua opinião, era considerado simples roubo.

Se estes resistissem, eram socados ou apedrejados. Cada vez que os proprietários tentavam substituir a força de trabalho residente em greve os recém-chegados decidiam deixar a fábrica logo após a sua chegada, tendo as manobras intimidatórias dos trabalhadores locais e das suas famílias desempenhado um papel importante nesta escolha.

Centros de solidariedade

Dado que o processo de especialização do trabalho rompeu os laços entre os trabalhadores e a comunidade camponesa tradicional, os primeiros tiveram de encontrar novos locais onde se reunir e estabelecer laços de solidariedade em uma base diferente. Neste novo cenário, a taberna (osteria ou bettola) tornou-se o ponto de encontro mais importante da comunidade operária industrial. Nas tabernas, os trabalhadores têxteis discutiam as questões que acompanhavam a sua nova condição social e nasceram novas formas de solidariedade.

A taberna foi também o local que acolheu as primeiras reuniões da nova sociedade de Croce Mosso. Formalmente, a Croce Mosso era uma sociedade de ajuda mútua: no seu essencial, o seu objetivo era angariar fundos para assistir os trabalhadores nos seus momentos de dificuldade (doença, desemprego, etc.).

Na realidade, porém, foi muito mais do que isso. Reunidos, os membros desta associação decidiram a orientação política e as orientações gerais do movimento operário. Foi, para todos os efeitos, um instrumento de resistência.

Em contraste, os representantes do Estado e os proprietários das fábricas viam as tabernas como focos de libertinagem e corrupção moral. Na sua opinião, os trabalhadores só queriam salários mais elevados para poderem gastar o seu rendimento adicional na embriaguez. Tal como os políticos e empregadores italianos contemporâneos que afirmam que as pessoas preferem descansar em casa a trabalhar por um salário miserável, os proprietários de fábricas têxteis no final do século XIX justificaram a sua sede de lucro difamando a taberna e todas as estratégias anti-exploração que foram concebido dentro de suas paredes.

A verdade era muito diferente, claro. Os trabalhadores pouparam parte dos seus salários para complementar os seus escassos rendimentos agrários, mas também investiram outra parte dos seus salários para financiar as suas estratégias de resistência à exploração industrial. Um funcionário estatal que investigou as greves da década de 1870 relatou que os trabalhadores usaram o pouco dinheiro que receberam dos seus empregadores para apoiar o movimento grevista. A sua motivação era bastante simples: “Não pode haver poupança se não se visar lutar contra o patrão (il padrone)”.

Como reação à resistência dos trabalhadores, os proprietários das fábricas adotaram o tear mecânico e substituíram a sua força de trabalho masculina por trabalhadoras femininas. Estas últimas eram muito mais baratas e - pelo menos em teoria - mais fáceis de manter sob controle. Ao contrário das estratégias anteriores, que ainda preservavam algum tipo de continuidade entre o funcionamento do agregado familiar e o sistema fabril, esta nova política perturbou o agregado familiar tradicional. Levou ao abandono escolar precoce das crianças, ao casamento tardio, ao declínio demográfico e, finalmente, à emigração de trabalhadores do sexo masculino desempregados para fazerem fortuna em outros locais.

Patterns of migration

Em Land and Looms, Ramella demonstrou uma estreita correlação entre mudanças no regime de trabalho, alterações na estrutura demográfica e ciclos migratórios. Não é, portanto, surpreendente que, nos anos que se seguiram à publicação da sua obra-prima, ele tenha ficado cada vez mais interessado nas vidas e nos sentimentos das pessoas que deixaram a Itália durante a emergência do capitalismo industrial.

Neste campo específico, Ramella editou com Samuel L. Baily uma coleção de cartas escritas pelos membros da família Sola: One Family, Two Worlds: An Italian Family's Correspondence across the Atlantic, 1901-1922 (1988). A correspondência da família Sola é um conjunto rico e detalhado de documentos que nos dá uma visão única do processo subjetivo da migração. O livro pode muito bem ser considerado um complemento de Land and Looms, uma vez que descreve as vicissitudes das pessoas que trocaram a sua casa por outro país, e não daquelas que trocaram o campo pelas fábricas nas áreas urbanas.

Nos seus estudos posteriores, Ramella pesquisou as trajetórias das migrações internas e internacionais, investigando as redes de assistência que facilitaram a integração dos recém-chegados na sua cidade ou país adotivo, bem como as muitas formas como os migrantes remodelaram a sua sociedade de acolhimento. Durante o primeiro ano da pandemia da COVID-19, Ramella também examinou incansavelmente a ligação causal entre a mobilidade humana e a difusão do vírus. Isso tornou sua própria morte pelo vírus, em 25 de novembro de 2020, ainda mais trágica.

Recuperando Ramella

Por que Land and Looms foi reimpresso quase quatro décadas após sua publicação original? No período desde 1984, os historiadores melhoraram enormemente a nossa compreensão do capitalismo, ou melhor, dos capitalismos no sentido plural. Propuseram novas definições sobre o que é o capitalismo, com diferentes cronologias e trajetórias multilineares que conduzem à formação da economia global moderna.

Também reorientaram a atenção acadêmica para temas como o colonialismo, a raça e a violência, e demonstraram até que ponto a afirmação violenta do capitalismo dependia da intersecção de diferentes mecanismos de opressão, como a raça, o gênero e a etnia.

No prefácio da edição de 2022, Maurizio Gribaudi oferece uma justificativa convincente para a recuperação da obra de Ramella. Apesar do passar do tempo, Land and Looms ainda se destaca pela sua capacidade de descrever com precisão como o capitalismo industrial mudou a vida social das pessoas comuns que viviam no vale de Biellese durante o século XIX.

As histórias contadas por Ramella sobre a comunidade agrícola de Mosso demonstram que não há razão para que uma abordagem da investigação histórica que lide com amplas transformações sociais e uma abordagem centrada na vida e existência das pessoas comuns não possam coexistir e se complementar. A tarefa do historiador é explorar as conexões entre esses dois níveis de experiência histórica. O trabalho de Franco Ramella é um testemunho da eficácia desta abordagem.

Colaborador

Paolo Tedesco ensina história na Universidade de Tübingen. Os seus principais interesses de investigação incluem a história social e econômica da Antiguidade tardia e do início da Idade Média, a história agrária comparada, o destino do campesinato em diferentes tipos de sociedades e o materialismo histórico.

13 de julho de 2023

O trabalho de Jairus Banaji transformou nossa compreensão das origens do capitalismo

O historiador Jairus Banaji desenvolveu uma perspectiva altamente original sobre a história do capitalismo que enfatiza a importância do capital comercial. Sua obra é leitura essencial para quem quer saber como o sistema econômico global tomou forma.

Paolo Tedesco


Os efeitos do bom governo no campo, de Ambrogio Lorenzetti (1338-1340), retrata comerciantes no campo. (Art Media / Colecionador de Impressões / Getty Images)

O livro de Jairus Banaji, Uma Breve História do Capitalismo Comercial, publicado pela primeira vez em 2020, pretende descobrir as profundas raízes históricas do desenvolvimento capitalista. O livro aborda importantes debates teóricos, especialmente na tradição marxista, sobre as origens do capitalismo.

O trabalho de Banaji questiona várias narrativas arraigadas sobre a história econômica global, incluindo a visão de uma Idade Média economicamente regressiva e a ideia de uma transição linear para a modernidade. As imagens que Banaji esboça através de um conjunto de tirar o fôlego de casos ilustrativos de todo o mundo, abrangendo quase um milênio, levanta muitas questões fundamentais para quem quer entender como o sistema econômico mundial surgiu e como ele pode continuar a se desenvolver no futuro.

Uma Breve História do Capitalismo Comercial já teve um grande impacto no mundo dos estudos e atraiu muitas respostas dos colegas historiadores de Banaji. Mas deve ser de grande interesse também para não especialistas. A seguir, darei um breve resumo da formação intelectual de Banaji e os principais argumentos que ele apresenta, antes de examinar a discussão que o livro provocou.

Capitalismo comercial

Jairus Banaji nasceu em Poona em 1947, ano em que a Índia conquistou sua independência, e foi educado na Inglaterra antes de retornar ao seu país natal para ser um ativista político. Em seu trabalho acadêmico, Banaji é um historiador do Mediterrâneo antigo e medieval e do Oriente Médio cujos interesses também estão na longa história do capitalismo. Seu trabalho aborda uma variedade de tópicos, incluindo o destino dos camponeses no contexto de uma economia em rápida globalização e a história da economia mercantil no último milênio.

O principal objetivo de Banaji em Uma Breve História é recentralizar o conceito de capitalismo comercial como uma categoria chave para investigar a formação da economia global moderna. Em sua obra, esse termo é usado para descrever um sistema econômico voltado para o lucro, no qual os comerciantes empregam seu capital não apenas para fazer circular mercadorias, mas também para obter controle direto sobre a produção e, assim, subordiná-la a seus interesses.

A ênfase de Banaji no controle mercantil sobre a produção é um ataque frontal à tradicional dicotomia marxista entre o mundo do comércio (a “esfera da circulação”) e o da produção - uma dicotomia que levou economistas e historiadores marxistas como Maurice Dobb a descontar a própria ideia do capitalismo comercial como uma contradição em termos.

Como aponta Banaji, foram em grande parte historiadores trabalhando fora da tradição marxista, ou se envolvendo mais livremente com ela, que adotaram a categoria. O caso mais notável é Fernand Braudel, que definiu o capitalismo comercial como o termo mais útil para descrever a natureza da produção e troca mercantil na Europa e no Mediterrâneo entre os séculos XV e XVIII.

Uma Breve História é o último de uma série de volumes que abordam essas questões, seguindo Agrarian Change in Late Antiquity (2001), Theory as History (2010), e Exploring the Economy of Late Antiquity (2016). Enquanto Banaji escreve dentro da tradição acadêmica marxista, seus principais pontos de referência na galáxia marxista diferem daqueles da maioria dos historiadores marxistas ocidentais. Em particular, Banaji baseia-se no trabalho de três estudiosos russos do início do século XX: o historiador Mikhail N. Pokrovsky (1868-1932), o economista Yevgeni A. Preobrazhensky (1886-1937) e o economista agrário Alexander V. Chayanov (1888-1939).

Pokrovsky, Preobrazhensky, Chayanov

Mikhail N. Pokrovsky foi um dos intelectuais mais influentes da sociedade soviética na década de 1920. Ele gozou de um prestígio enorme, na verdade inigualável, entre os historiadores soviéticos de seu tempo. Em um afastamento radical do que se tornaria consagrado como o relato marxista ortodoxo sob Joseph Stalin, a interpretação de Pokrovsky da história russa enfatizou a centralidade do capital comercial como agente de mudança socioeconômica entre os séculos XVII e XIX. No entanto, ele afirmou explicitamente que a existência e a operação do capital comercial não significam que uma economia capitalista tenha surgido.

Yevgeni A. Preobrazhensky foi um pioneiro no estudo das consequências da “penetração lateral” do capital industrial no campo. Como Pokrovsky antes dele, Preobrazhensky via a pequena produção de mercadorias como típica do capitalismo comercial, ao mesmo tempo em que era uma das principais restrições à sua expansão. Em consonância com os marxistas agrários como Lev N. Kritsman, Preobrazhensky via o capitalismo como uma força que erradicava o campesinato e, por fim, causava sua extinção.

Ele acredita que isso aconteceu como resultado de dois processos. Por um lado, houve o desenvolvimento interno das relações capitalistas nas fileiras do próprio campesinato, com a formação de uma classe de camponeses ricos que controlavam a lavoura em larga escala. Por outro lado, de forma mais ampla e catastrófica, houve a subordinação externa das áreas rurais à grande indústria, com a criação de uma classe de camponeses sem-terra trabalhando na agricultura comercial.

Alexander V. Chayanov foi um dos principais economistas agrários de sua época. Em sua obra The Theory of Peasant Economy, Chayanov enfatizou a resiliência das famílias camponesas e sua capacidade de adaptação para que pudessem resistir ao ataque do capitalismo, em contraste direto com os marxistas agrários e Preobrazhensky. Ele argumentou que o desenvolvimento das tendências capitalistas e a concentração produtiva na agricultura não resultaram necessariamente na desapropriação dos camponeses e no surgimento de grandes fazendas capitalistas.

Para Chayanov, o capital comercial e financeiro também poderia exercer seu controle de forma mais sutil, estabelecendo uma hegemonia econômica sobre setores consideráveis da agricultura. Enquanto isso, esses setores poderiam permanecer praticamente os mesmos de antes no que diz respeito à produção, ou seja, compostos de pequenos empreendimentos camponeses baseados na mão de obra familiar.

O trabalho de Banaji mostra que podemos conciliar esses modelos aparentemente incompatíveis. Cada um descreve uma possível trajetória diferente de penetração do capital no campo. Mas eles também refletem diferentes fases do próprio caminho intelectual de Banaji.

Em seus escritos anteriores, Banaji abraçou a ideia de Preobrazhensky da penetração lateral do capital para mostrar o efeito destrutivo da industrialização sobre o campesinato na Rússia do final do século XIX e início do século XX. Nesse contexto, o modelo de Preobrazhensky foi útil como ponto de comparação para a análise de Banaji dos camponeses em todo o mundo. Em estudos subsequentes, no entanto, Banaji passou a ver a reconstrução de Preobrazhensky apenas como uma das formas possíveis para o capital industrial penetrar no campo.

Ele foi influenciado por um interesse renovado na obra de Chayanov, particularmente nas obras que Henry Bernstein mais tarde desenvolveu e expandiu. A conceituação de Chayanov da relação entre o campesinato e o capital, portanto, ocupa o centro do palco como a principal fonte de inspiração para Uma Breve História de Banaji.

Essa reavaliação da obra de Chayanov leva Banaji a incluir em seu modelo as circunstâncias históricas em que as famílias camponesas resistiram à penetração do capitalismo. Temos que entender essa “resiliência” no sentido de que as famílias camponesas não foram desenraizadas, mas “incorporadas” - um ato que, por sua vez, permitiu conflito e resistência de sua parte. Embora tais famílias continuassem a existir em grande número, seu ciclo de reprodução social era agora amplamente e crucialmente moldado pelo capital.

Comerciantes e manufatureiros

Em Uma breve história, ao contrário de seus trabalhos anteriores, Banaji não está tão preocupado em traçar uma distinção teórica entre o que Karl Marx chamou de “modo de produção capitalista” e modos não capitalistas. Em vez disso, ele lida com o capitalismo em termos menos normativos, argumentando em particular que um tipo de “capitalismo comercial” existia muito antes da industrialização em certas regiões do mundo, em um período que vai do século XII (ou mesmo antes) ao XVIII.

Embora Banaji não ofereça uma definição formal de capitalismo comercial, podemos captar seu significado combinando a análise do livro com seus escritos teóricos anteriores. Fernand Braudel via o capitalismo como uma rede global de banqueiros e grandes comerciantes que presidiam a economia da vida cotidiana a partir de seus centros financeiros urbanos, embora carecessem de qualquer controle direto sobre os produtores primários. Banaji, por outro lado, identifica a longa história do capitalismo em termos de suas relações sociais características.

O capitalismo é um sistema no qual os detentores do capital têm controle limitado dos meios de produção e então reduzem o trabalho a um fator dentro do processo de produção – uma simples mercadoria que pode ser comprada e vendida. O confronto entre um capitalista e um camponês ou artesão – uma pessoa que sobrevive vendendo sua força de trabalho – ocupa o centro da análise de Banaji.

A partir dessa distinção, ele argumenta contra a visão marxista amplamente difundida de que a riqueza mercantil não constitui capital no sentido marxiano, porque permanece externa ao processo de produção. Uma vez que a riqueza mercantil é, de acordo com Marx, separada do que ele chamou de subsunção real do trabalho ao capital, ela meramente subtraiu os produtos dos produtores primários, e os comerciantes obtiveram lucros vendendo-os.

Por seu lado, Banaji argumenta que a riqueza mercantil é de fato capital e que, do século XII ao século XVIII, os mercadores utilizaram sistematicamente este capital para controlar e explorar o trabalho de uma parte significativa da população em todo o mundo afro-eurasianoo. Ele identifica dois domínios da produção onde a penetração do capital comercial foi particularmente significativa.

A primeira foi no setor da agricultura comercial, onde os “capitalistas comerciais” se apropriaram de vastas quantidades de trabalho familiar não pago por meio de vários expedientes, impondo assim relações de dívida aos camponeses. Os capitalistas comerciais eram proprietários de terras que se tornaram comerciantes; às vezes, eles também eram comerciantes (incluindo agiotas) que se interessavam em controlar propriedades de colheitas comerciais. Eles formaram uma categoria flutuante que é historicamente muito difícil de definir.

Apesar de suas diferenças, a base produtiva para a maioria dos comércios de produtos era uma força de trabalho mista. Este é um ponto que Banaji demonstrou em seu exame dos pequenos camponeses de Deccan no final do século XIX, e recebe mais apoio do trabalho de Lorenzo Bondioli sobre o campesinato egípcio do século XI.

O segundo setor é o da produção artesanal, ou “manufatura mercantil”, como o chama Banaji. Nesse setor, os comerciantes forçavam os pobres rurais e urbanos a processar seda, lã e algodão para o mercado. Isso significava que eles não estavam apenas vendendo seu excedente, mas trabalhando para os comerciantes com “um preço por peça baseado em chalés”.

Trajetórias de acumulação

Em Uma Breve História, Banaji examina as “trajetórias de acumulação” que levam do capitalismo comercial ao industrial. Enquanto os capitalistas mercadores valorizam a abertura da agricultura — juntamente com a mineração, a exploração dos recursos marinhos, etc. — à exploração capitalista, os capitalistas industriais levam esse processo a um nível completamente diferente. A simples escala de subordinação, a natureza de seu impacto e o grau de subsunção distinguem a subjugação do campo à acumulação industrial dos ciclos anteriores do “capitalismo”.

Banaji não vê apenas uma rápida intensificação nos mecanismos de exploração sob o capitalismo industrial. Ele também nota uma mudança radical na repartição das participações nos lucros entre comerciantes e industriais em benefício destes últimos. No final do século XIX, os atores econômicos que controlavam diretamente a produção conseguiram marginalizar os comerciantes, alcançando a subordinação do capital comercial ao capital industrial descrita por Marx.

Esta parece ser a pista para uma separação duradoura na visão de Banaji entre a era do capitalismo comercial e a do capitalismo industrial, uma era que merece plenamente o rótulo de modo de produção capitalista. No entanto, essas trajetórias do capitalismo comercial para o industrial foram multilineares no tempo e no espaço. Não seguiam uma sequência rígida de etapas e não eram irreversíveis, como demonstram as tendências contemporâneas.

Os varejistas globais que operam no mercado mundial hoje controlam a manufatura por meio dos fluxos de capital comercial sem possuir os meios de produção. Como observou Nelson Lichtenstein:

A hegemonia do varejo no século XXI ecoa, e até replica, características do regime mercantil outrora presidido pelos grandes mercadores e banqueiros dos séculos XVII e XVIII de Amsterdã, Hamburgo e da City de Londres.

Em suma, uma espécie de empresário braudeliano “retornou para sustentar o sistema global contemporâneo”.

A exposição de Banaji sobre o “capitalismo comercial” pode, portanto, acomodar vários níveis e graus variados de integração entre produção e circulação, apontando para a força motriz do capital como um denominador comum que atravessa diferentes configurações. O modelo resultante do capitalismo comercial é de desenvolvimento desigual e combinado. Esse modelo rejeita a noção de uma sucessão linear entre diferentes modos de produção — antigo, feudal e capitalista — e resgata as histórias do capitalismo tanto do eurocentrismo quanto do orientalismo.

Perspectivas críticas

Desde sua publicação em 2020, Uma Breve História atraiu a atenção de uma ampla e diversificada comunidade de especialistas no campo da história do capitalismo, levando a várias críticas à obra de Banaji. Embora cada autor expresse preocupações diferentes sobre vários aspectos de sua visão do capitalismo, podemos identificar três grandes temas: (1) a definição de capitalismo comercial; (2) a relação entre a ascensão do capitalismo comercial e o Estado; e (3) o impacto do capitalismo comercial e do colonialismo na vida social.

A primeira crítica surge da definição vaga de capitalismo comercial de Banaji. Lorenzo Bondioli observa que todas as infraestruturas do capitalismo comercial que Banaji identificou como aparecendo pela primeira vez no século IX dC têm raízes mais profundas do que sugere A Brief History. Suas fundações foram lançadas no final do período antigo (ocasionalmente com raízes remontando à antiguidade propriamente dita) e continuaram a operar sem nenhuma descontinuidade dramática na Idade Média.

A partir dessa constatação, Bondioli isola três possíveis definições de capitalismo e tenta traçar uma relação não teleológica entre elas. Primeiro, há o capitalismo de mercadores capitalistas que empregaram a riqueza monetária como capital extraindo mais-valia de vários produtores subordinados; em segundo lugar, há o capitalismo dos Estados mercantis coloniais que colocam a violência organizada a serviço da acumulação dos mercadores capitalistas; terceiro, há o capitalismo da sociedade capitalista industrial moderna - em outras palavras, de um modo de produção capitalista plenamente desenvolvido.

A intervenção do Estado na economia mundial é o segundo critério que Banaji emprega em sua análise do capitalismo comercial. Banaji vê no "conluio entre comércio e estado" - isto é, na ascensão de estados mercantilistas no final da Idade Média e início da Europa moderna - uma mudança significativa no processo de acumulação de capital e subordinação do trabalho. No entanto, podemos observar o “conluio” per se, e particularmente o envolvimento de comerciantes nas finanças do estado, em muitos contextos históricos.

Isso sugere que, como Martha Howell claramente demonstra, não foi a mera presença de um conluio do Estado com os comerciantes que determinou uma aceleração na escala de acumulação de capital. Tampouco foi qualquer tipo de estado – como os estados tributários muçulmanos ou as dinastias chinesas examinadas por Andrew Liu – que determinou uma mudança na escala de acumulação de capital e subordinação do trabalho.

Em vez disso, foi apenas o estado que serviu como exportador de agressão e violência que controlou tal mudança. Essa visão também recentraliza o elo fundamental entre o capitalismo comercial e o colonialismo, enfatizando que foi a violência colonial que provocou uma mudança na qualidade e no funcionamento do capital comercial.

Com este ponto, passamos para o terceiro item de discórdia que emerge do relato de Banaji: a relação entre capitalismo comercial e colonialismo. Como tanto Priya Satya quanto Sheetal Chhabria observam com perspicácia, Banaji não separa raça de classe ou casta de classe. No entanto, essas distinções são importantes, pois nos permitem diagnosticar o ponto em que o capitalismo comercial se cruzou com o colonialismo e passou a depender da racialização ou da identidade de casta.

Essa lacuna também aponta na direção de uma crítica mais ampla. Em sua análise das relações de produção, Banaji nem sempre deixa claro como o capitalismo comercial impactou e refez violentamente a vida social das pessoas a ele subordinadas. Em outras palavras, ficamos imaginando até que ponto o capitalismo comercial, como Banaji o descreve, transformou fundamentalmente, ou não transformou, os modos de vida social em diferentes lugares e em diferentes épocas.

Esta questão pode abrir uma série de caminhos de pesquisa promissores que parecem apontar em uma direção. Não podemos escrever a história do capitalismo sem considerar a interseção de diferentes mecanismos de opressão, como raça, gênero, etnia e origem nacional, além da classe social. Estes oferecem uma imagem mais rica de como “níveis separados de opressão” mudaram a vida das pessoas comuns sob o capitalismo.

Esta é uma versão resumida da introdução de uma edição especial da revista Storica sobre a obra de Jairus Banaji.

Colaborador

Paolo Tedesco ensina história na Universidade de Tübingen. Seus principais interesses de pesquisa incluem a história social e econômica do final da antiguidade e início da Idade Média, história agrária comparada, o destino do campesinato em diferentes tipos de sociedades e materialismo histórico.

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