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7 de setembro de 2017

A esquerda depois de Charlottesville

A esquerda não pode se deixar consumir pelo debate sobre antifascistas. Precisamos de um programa proativo e de uma organização paciente.

Robert Greene II

Jacobin

Chokwe Lumumba anuncia sua candidatura para prefeito de Jackson, Mississippi, em maio. Créditos: The Link Mississippi.

Tradução / Os acontecimentos de Charlottesville permaneceram nas manchetes nas últimas semanas por diversas razões. Surpresa pela audácia da procissão de tochas dos neonazistas, simpatizantes da Ku Klux Klan e ultradireitistas em uma cidade americana, somada ao assassinato da ativista Heather Heyer durante um contraprotesto, incendiaram a cobertura inicial. A resposta abominável do Presidente Trump à tragédia e às lutas locais contra estátuas dos Confederados a manteve efervescente. E os frequentes debates obtusos sobre os méritos dos antifascistas têm jogado ainda mais oxigênio.

Mas seria um erro para a esquerda americana ver isso como um ponto decisivo de mudança histórica ou confundir os portadores de tochas fascistas com uma força de massas. Ao contrário: ser consumida por debates sobre o apoio aos antifascistas em confrontos de rua contra neonazistas faz perder-se no panorama político mais geral.

Os momentos pós-Charlottesville exigem mobilizações antirracistas e é encorajador que as organizações de esquerda tenham entrado em ação e visto seus números crescerem. Enfrentando-se contra a ultradireita – particularmente quando feito de forma eficaz e em massa, como em Boston – pode incentivar as pessoas que estão frustradas e desencantadas devido à administração Trump. Mas é preciso se vincular a uma organização política tangível que vá além da defesa e do simbolismo.

As discussões sobre o antifascismo também são importantes. Entrevistas feitas com contra-protestantes nas ruas de Charlotterville deixaram claro que estes eram mais do que alegres antifascistas que estavam ali para ajudar. Na verdade, Cornel West lhes agradeceu por terem salvo sua vida.

Mas o debate sobre o antifascismo não pode estar no centro da discussão política de esquerda. Estou menos preocupado em ser assassinado por neonazistas do que com a falta de acesso a um sistema de saúde de qualidade. Estou mais preocupado com a restrição dos direitos políticos e o perigo que isso causa à democracia hoje e no futuro do que com a simples dano representado por uma estátua confederada. Isso não é ignorar o esforço em derrubar estátuas confederadas. O que está nos espaços públicos comuns, afinal, precisa representar o tipo de país que queremos que os Estados Unidos sejam. Mas não podemos permitir que este conflito obscureça nossa visão.

Resumindo, as lições pós-Charlottesville são as lições que deveríamos ter aprendido mais cedo neste ano. Não podemos simplesmente reagir a Trump e à alt-right. Ser proativos, avançar em um programa claro que possa mobilizar e galvanizar uma faixa ampla do povo – esta deve ser a característica da esquerda americana. Caso contrário, a raiva genuína contra Trump e o partido republicano será perdida e desperdiçaríamos nossa chance de construir um tipo de esquerda com bases amplas que, ao final, é o melhor bastião contra a ultradireita.

A política que precisamos

A maioria da base da plataforma da esquerda que precisamos já está pronta, esperando para ser usada para estimular debates e ações genuínos na sociedade americana. Dois pontos em particular deveriam encabeçar a agenda da esquerda.

O primeiro é a assistência de saúde universal: Medicare para todos. A oferta arbitrária dos republicanos em eliminar a Affordable Care Act [Lei de Saúde Acessível – em tradução livre] mostrou que mesmo uma versão extremamente defeituosa de cobertura “universal” ainda é popular suficiente para evitar tentativas de revogação. Agora, de acordo com recente pesquisa, o apoio popular ao sistema de cobertura dos gastos de saúde pelo governo, financiado pelos impostos (o chamado sistema single-payer – NT) está crescendo. Mesmo democratas centristas, como Kamala Harris, estão declarando apoio. Depois de décadas de luta, a cobertura universal está, senão na esquina, pelo menos em um horizonte próximo.

Crucialmente, a demanda pelo Medicare para todos também oferece um sentido para construir laços de solidariedade. Como o escritor de Atlantic, Vann R. Newkirk, recentemente apontou, Martin Luther King Jr. e outros ativistas dos direitos civis viram a cobertura de saúde universal como um componente crítico para sua luta por uma sociedade justa e igualitária. O mesmo é verdade hoje. Entre os movimentos – seja pelas vidas negras ou pelo salário mínimo de quinze dólares [por hora] ou pelo direito dos imigrantes – a assistência médica universal é uma demanda que unifica.

Existe outra razão para priorizar o impulsionamento por assistência médica universal. Organizações de ultradireita, como o partido dos trabalhadores tradicionalistas, começaram a fazer propostas a brancos pobres em locais como Appalachia com conversas sobre empregos e acesso à saúde de qualidade. Não podemos permitir que uma tendência a favor da saúde de qualidade ou um argumento a favor de bons empregos, sejam usados como uma porta o fascismo.

Direitos eleitorais universais deveriam ser a segunda demanda para qualquer plataforma imediata de esquerda. Nosso sistema político e econômico não pode ser mudado, radicalmente e no longo-prazo, por meio de eleições. Mas um número incontável de pessoas está sendo atingido pelo sistema que existe hoje e um aumento substancial na participação de eleitores é um pré-requisito para vencer em reformas que irão melhorar a vida dessas pessoas em curto prazo.

Os conservadores entendem a importância de direitos eleitorais. Em anos recentes, diversos estados controlados pelo partido republicano têm aprovado leis que restringem direitos políticos, seja por meio de requisitos de identificação ou prazos mais curtos para registro de eleitores. Eles sabem que uma menor e desmoralizada base eleitoral torna mais difícil eleger candidatos de esquerda.

No passado, a era Populista dos anos 1890 parou em parte por conta das Leis Jim Crow e as novas constituições estaduais no Sul que limitaram severamente os direitos eleitorais para afro-americanos (e muitos brancos pobres também). Pelo contrário, o surgimento de uma forte base eleitoral no Norte urbanizado, que incluiu sindicalistas e afro-americanos, impulsionada pelo avanço do New Deal, deu à social democracia na América algumas de suas mais antigas e importantes vitórias – apesar da oposição dos republicanos conservadores e democratas sulistas.

Mais recentemente, resultados em nível local comprovaram o poder duradouro de um eleitorado mobilizado. As vitórias de Chokwe Lumumba em Jackson, no pleito de prefeito do Mississipi e Khalid Kamau em South Fulton, na eleição da Câmara de Vereadores, foram possíveis pela presença de ativistas políticos de esquerda em campo. O fato que estas vitórias ocorreram no interior sulista e com larga participação política de afro-americanos também desmente concepções comuns sobre o que a Esquerda aparenta ser e onde pode competir.

Lumumba e Kamau reuniram pessoas onde estavam, enquanto também esboçaram uma visão reflexiva. O que me traz a outra parte importante das ferramentas da esquerda pós-Charlottesville: educação política.

O debate sobre monumentos e bandeiras confederadas é a oportunidade perfeita para mudar o pensamento americano não apenas sobre o mundo em que vivemos, mas em que tipo de mundo podemos viver se a esquerda tiver a oportunidade de governar. Além de considerar quais estátuas derrubar, poderíamos discutir quais estátuas colocar em seus lugares. Porque não ter mais monumentos, por todo o país, dos batalhões compostos majoritariamente por negros (e também povos indígenas) dos Estados Unidos ou de Harriet Tubman? Mas não devemos apenas falar sobre estátuas e história pública, por mais importantes que sejam para moldar os debates futuros sobre o destino do país.

A educação política deve atingir um número superior de americanos, para expandir sua concepção do que é possível e aprender como enxergar o mundo. Educação de esquerda, acima de tudo, deveria ser uma via de mão dupla. Pode ter várias formas – desde um estande em um evento comunitário ou organizar um seminário em uma sede de um sindicato para simplesmente assegurar que organizações socialistas estão abertas ao público, o quanto for possível.

Exemplos de educação política, como as que descrevi, já existem. Em meu estado adotivo, Carolina do Sul, o SC Progressive Network oferece anualmente a “Escola Modjeska Simkins” para ativistas iniciantes. Nomeado em homenagem a um dos maiores defensores dos direitos humanos, o seminário ensina história assim como táticas de protesto e ativismo. Outro esforço educacional como esse pelo país, são os netos espirituais da Escola Highlander Folk nos anos 1930, 40 e 50.

Finalmente, protestos massivos contra a supremacia branca continuarão a ser táticas cruciais para avanço. O ato em Boston no último mês, onde um punhado de neonazistas se depararam com trinta mil contra-protestantes, foi uma enorme vitória para os progressistas e a esquerda e demonstrou o poder da solidariedade profunda e publicamente.

Mas tais ações devem também ser atreladas a tipos de programas e táticas políticas acima – usando-as como oportunidade não somente para reunir todos aqueles que se opõem à supremacia branca, mas para falar com as pessoas sobre as formas que a guerra de classes vinda dos poderosos, a de gênero, a discriminação racial e o revanchismo político, atingem virtualmente todos diariamente.

Não podemos deixar que narrativas sobre “brancos pobres” determinem o discurso sobre o racismo na sociedade americana. Os supremacistas brancos que marcharam em defesa da estátua de Robert E. Lee incluem muitos brancos ricos e com ensino superior que não teriam escrúpulos ao destruir as vidas dos brancos americanos pobres. Eles também destroem as vidas e aspirações de afro-americanos, judeus, latinos, imigrantes e da comunidade LGBT.

Ao desafiar estas narrativas e vinculá-las a demandas concretas para um futuro melhor, podemos alcançar pessoas que se uniram por Charlottesvile mas não sabem o que fazer a seguir.

Freando a supremacia branca

Estas recomendações não são politicamente populares. Não parecem ser o material da revolução. Mas são materiais que, necessariamente, melhoram as condições políticas para um futuro próximo – que devem ser feitas antes de podermos trabalhar para mudanças mais transformadoras. Educação política, por exemplo, será crucial para ressuscitar o movimento trabalhista, para evitar mais derrotas como as sofridas pelas campanhas de sindicalização do sindicatos dos motoristas da planta da Boeing em Charleston, Carolina do Sul ou da planta da Nissan em Canton, Mississipi.

Uma esquerda forte expande a esfera pública, oferece uma concepção mais ampla do que é possível atingir politicamente. Oferece às pessoas uma política não de bode expiatório ou de austeridade, mas uma saúde pública universal e uma atuação democrática. Historicamente, é o antídoto mais poderoso para combater a ultradireita.

Mas também devemos lembrar que a vitória nas batalhas de rua não é igual a uma vitória política duradoura. Nem, por outro lado, ver um parlamento democrata em 2018 ou um democrata na Casa Branca em 2020 é a medida final da vitória. Os problemas da América de Trump são, sem surpresa alguma, bem parecidos com os problemas da América de Obama. E da América de Bush. E da América de Clinton.

Uma esquerda efetiva pós-Charlottesville terá que se preocupar, como sempre, com um plano a longo prazo e uma organização paciente. Esta é a única forma que finalmente interromperá o retorno de políticas de ideologia branca – a única ideologia política que sempre esteve realmente no poder na América.

31 de outubro de 2016

Relembrando o Partido dos Panteras Negras

Cinquenta anos após a sua fundação, a visão antiracista e anticapitalista do Partido dos Panteras Negras mantém a mesma relevância.

Robert Greene II


Charles Bursey entrega um prato de comida para uma criança como parte do programa de café da manhã gratuito do Partido dos Panteras Negras. Foto cortesia de Pirkle Jones e Ruth-Marion Baruch.

Tradução / Este ano assinala-se o 50º aniversário da expressão "Black Power", cunhada por Stokely Carmichael, e também da formação do Partido dos Panteras Negras (PPN).

Criado pelos ativistas radicais de Oakland, Huey Newton e Bobby Seale, os Panteras Negras depressa se tornaram a maior manifestação da ideologia “Black Power” após a sus formação em outubro de 1966. No entanto, muito do que se sabe acerca dos Panteras permanece no esquecimento ou foi distorcido, e a iconografia das armas surge à frente de um conhecimento aprofundado dos seus objetivos.

Para pôr a história em pratos limpos, o texto que se segue é um manual sobre o Partido dos Panteras Negras - um grupo que meio século após a fundação ainda tem muito para nos ensinar sobre organização, ideologia e os perigos de defender o socialismo revolucionário nos Estados Unidos.

Origens e objetivos

O Partido dos Panteras Negras seguiu os passos dos grupos negros esquerdistas que o precederam, como a African Blood Brotherhood and o National Negro Congress. Tal como os antecedentes, os Panteras Negras adotaram tanto o nacionalismo negro como o socialismo. Seale e Newton pretendiam criar uma organização que pudesse defender a comunidade negra contra a brutalidade policial, dando ao mesmo tempo uma clara visão anticapitalista.

Ao contrário das principais organizações do Movimento dos Direitos Civis, o PPN tinha a sua base potencial no "Lumpenproletariado Negro Urbano", como explicou um dos seus primeiros líderes, Eldridge Cleaver, no manifesto On the Ideology of the Black Panther Party.

Para Cleaver e outros líderes do PPN, o lumpenproletariado negro era composto por quem está "perpetuamente na reserva" - os Afro-Americanos, em Oakland e não só, que não conseguiam encontrar trabalho ou obter a formação necessária para competir numa força de trabalho em modernização. Eles dirigiram-se a este segmento da população - em vez do agente tradicional da revolução, a classe operária organizada - para potenciar a sua luta contra a supremacia branca, o imperialismo e o capitalismo.

Nascido em Oakland, cidade com longa história de radicalismo e luta pelos direitos civis, o PPN acabou por formar núcleos por todo o país - de Nova Iorque a Chicago e no Sul, em locais tão distintos como Winston-Salem, Carolina do Norte e New Haven, Connecticut. Nos seus tempos áureos, o PPN anunciava mais de 5.000 militantes a nível nacional. E chegavam a muitos mais através do seu jornal, o Black Panther, que tinha uma circulação de 250.000.

O que dava coerência aos vários núcleos não era forçosamente uma liderança do topo para a base, mas um ethos de Black Power, organização comunitária e o socialismo que canalizava a energia dos jovens Afro-Americanos descontentes com a hipocrisia do liberalismo da Grande Sociedade e com a insensibilidade do conservadorismo da Nova Direita. Surgiram líderes jovens e talentosos a nível local, em especial Fred Hampton, em Chigago.

Na resistência à brutalidade policial em Oakland, os Panteras escolherem a autodefesa armada, uma tática empregada por muitos Afro-Americanos em todo o Sul do país. A ligação geográfica não era uma coincidência. Fundada por dois sulistas (Seale nasceu no Texas, Newton no Louisiana), o PPN partilha o seu símbolo icônico com a Lowndes County Freedom Organization no Alabama (fundada por Carmichael). Ambos os grupos desafiaram diretamente a supremacia branca nas bases.

Mas para o PPN, a luta contra o racismo não ficava completa sem uma luta contra o capitalismo. A sua plataforma em dez pontos de 1966, a mais clara expressão programática da política do grupo, apresentava uma análise crítica tanto da supremacia branca como do capitalismo na América. Entre as suas reivindicações estavam o "pleno emprego", "habitação digna" e um "plebiscito fiscalizado pelas Nações Unidas" para decidir se os Afro-Americanos desejavam separar-se dos EUA e criar a sua própria comunidade auto-organizada.

Cada um desses objetivos, juntamente com os outros descritos no programa de dez pontos, apontavam para uma organização que já estava juntando os vários eixos do pensamento de esquerda predominantes no final da década de 1960.

As atividades do Partido dos Panteras Negras

Entre as principais atividades dos Panteras estavam os seus serviços sociais, ou "programas de sobrevivência". O mais famoso era o programa de café da manhã gratuito, que fornecia refeições a muitos jovens Afro-Americanos pobres em Oakland. Outro era o programa local de educação para a saúde, que ajudava os Afro-Americanos sem acesso a cuidados de saúde de qualidade.

Juntos, os mais de sessenta programas de sobrevivência permitiram aos Panteras Negras ganhar o apoio de muitos operários Afro-Americanos em luta, melhorando de imediato a qualidade de vida dos moradores enquanto apontavam a um futuro socialista.

O PPN também ficou conhecido por patrulhar a ação dos agentes policiais de Oakland nas ruas. Armados com shotguns e livros de leis da Califórnia, eles circulavam na cidade e fiscalizavam as blitz policiais, procurando diminuir a brutalidade policial. O uso das armas levou a Assembleia Geral da Califórnia a aprovar, e o então governador Ronald Reagan a promulgar, o Mulford Act de 1967, que proibiu o porte público de armas carregadas.

A polícia também não viu com bons olhos a fiscalização armada dos Panteras. No mesmo ano da aprovação do Mulford Act, uma blitz de trânsito descambou num tiroteio entre Newton e o agente da polícia de Oakland John Frey, que morreu no local. Os julgamentos de Newton que se seguiram tornaram-se causas importantes para a esquerda americana, que tomou o slogan "Free Huey" como o grito contra a opressão, a brutalidade policial e a supremacia branca na sociedade.

A inquietação aumentou nos meios governamentais sobre a ameaça que os Panteras colocavam à segurança nacional. Para além das blitz pontuais e emboscadas policiais, o FBI, sob os auspícios do seu famigerado COINTELPRO (Counter Intelligence Program) abriu guerra aos Panteras. O FBI olhou com especial interesse para os núcleos de Oakland e Chicago, semeando a discórdia entre os membros do PPN e muitas vezes deixando os militantes inseguros sobre em quem confiar.

O assassinato de Hampton e de Mark Clark, líder do Partido dos Panteras Negras no estado do Illinois, durante uma vistoria ao apartamento de Hampton a 4 de dezembro de 1969, mostrou até onde as autoridades locais e nacionais estavam dispostas a ir para acabar com o Partido dos Panteras Negras. Até os programas de café da manhã gratuito - vistos como fonte potencial de radicalização de uma nova geração de Afro-Americanos - foram alvo do FBI e da polícia local.

Sob o peso de uma severa repressão estatal, acabaram por surgir divergências graves acerca das diversas atividades do grupo. No início dos anos 1970, os Panteras Negras haviam se dividido tanto sobre a linha ideológica, como tática.

Huey Newton queria centrar a atenção do PPN no ativismo local, formação e programas de serviço comunitário. Eldridge Cleaver - que chegou a ser o ministro da informação do PPN mas que desde então fugira para Cuba e depois para a Argélia na sequência de uma cilada da polícia de Oakland - pressionava o partido para se preparar para a insurreição armada nos Estados Unidos. O cisma foi colocado à vista de todos em 1971, quando Newton criticou abertamente Cleaver nas páginas do Black Panther.

Quando Elaine Brown se tornou a presidente do partido em 1973 - substituindo Newton, que estava exilado em Cuba –, ela fez o partido regressar em força à sua orientação para as bases. Brown deu destaque ao serviço comunitário, gerindo a Oakland Community School nos anos 1970 e formando nesse processo centenas de crianças Afro-Americanas de Oakland.

Durante o seu mandato, o PPN tornou-se um importante agente político em Oakland e na Califórnia. Bobby Seale fez uma grande campanha para prefeito de Oakland em 1973 e 1975 (acabando em segundo entre nove candidatos após perder no segundo turno), e Brown entrou na disputa para o conselho municipal em 1973 e 1975 (nas duas vezes ficou perto de ganhar). Brown apoiou também a candidatura bem sucedida do Democrata Jerry Brown a governador em 1974 (embora seja menos evidente no que é que esse apoio beneficiou o eleitorado do PPN).

No fim das contas, a visão de Newton para o PPN acabou por triunfar. Mas o seu regresso do exílio em 1976 desencadeou outra luta pelo poder que acabou por destruir o PPN.

A relação com a esquerda

O Partido dos Panteras Negras não se isolou do resto da esquerda. O seu núcleo de Chicago, por exemplo, tinha uma relação de trabalho com os Young Patriots, uma organização composta sobretudo pelos filhos e filhas dos migrantes brancos dos Apalaches. Em 1969, o PPN convidou os Young Patriots e outras organizações de esquerda para virem a Oakland participar na United Front Against Fascism Conference.

A liderança de Hampton era crucial para estabelecer esta ligação. Enquanto líder do núcleo de Chigago, Hampton dirigia-se aos brancos pobres como parte do seu esforço para forjar uma aliança antiracista e anticapitalista dos necessitados. Como explicou Hampton, "Não vamos lutar contra o racismo com racismo, mas sim com solidariedade. Não vamos lutar contra o capitalismo com o capitalismo negro, mas sim com o socialismo". O seu assassinato em 1969 destruiu o Partido dos Panteras Negras e retirou ao movimento um dos seus líderes mais jovens e promissores.

Os Panteras também estiveram envolvidos no movimento antiguerra, considerando que a sua luta pela libertação negra e a autodeterminação estava ligada aos movimentos de resistência no Vietnã, Argélia e noutros países. Chegaram mesmo a abrir um núcleo na Argélia em 1969. Quando se envolveram no movimento anti-alistamento ("uma das primeiras alianças bem sucedidas que tivemos", sublinhou Seale), os Panteras deixaram claro que os abusos que os Afro-Americanos enfrentavam às mãos da polícia nos EUA eram o reflexo da repressão que os vietnamitas e outros grupos sofriam dos militares norte-americanos.

Os textos de Newton sobre a ideologia do Partido dos Panteras Negras no fim dos anos 1960 mostram uma tendência mais ampla entre os radicais Afro-Americanos - de Martin Luther King, Jr. a Stokely Carmichael - que ligavam o racismo no país ao imperialismo no estrangeiro. Newton, por exemplo, exprimiu muitas vezes o seu apoio à Palestina nos seus artigos, que eram muito lidos.

Nos anos 1970, enquanto membros da esquerda Black Power mais vasta, os Panteras entraram nos debates sobre o caminho a seguir pelos Afro-Americanos após o declínio do Movimento pelos Direitos Civis. Figuras de proa do movimento Black Power como Amiri Baraka (LeRoi Jones antes da sua adesão ao nacionalismo negro no fim dos anos 1960) tornaram-se reconhecidos marxistas e combateram a retórica nacionalista.

Os Panteras, embora com menos nacionalismo negro do que a imaginação popular lhe dá, nunca renegou a sua marca Black Power. Mas gastaram bem mais tempo a refletir sobre a melhor combinação de nacionalismo negro e socialismo - e influenciou a prática de outros grupos de esquerda nesse processo.

O legado dos Panteras

A importância do trabalho dos Panteras Negras permanece ainda hoje, por muitas razões. Primeiro, recordam-nos que o problema da brutalidade policial está connosco há muito tempo (Martin Luther King, Jr. até o mencionou no seu muito citado, e muitas vezes mal interpretado, discurso do "I Have a Dream". De fato, os protestos que se seguiram à morte de Denzil Dowell em North Richmond, uma localidade perto de Oakland, em abril de 1967, tiveram um papel determinante no crescimento do PPN, que passou de uma pequena organização de quadros a uma grande força política e social.

Em segundo lugar, o PPN mostra-nos um bom modelo de ativismo de base e de ideologia em ação. Enquanto o grupo era dilacerado pelos conflitos entre Newton e Cleaver nos anos 1970, os Panteras continuaram a fazer um importante trabalho no terreno em Oakland. Os seus "programas de sobrevivência" dirigiram-se a Afro-Americanos na pobreza que não conseguiam apoio da administração local. E sobretudo, eles ligaram o seu programa de educação e café da manhã gratuito a um projeto político mais amplo. Enquanto mistura genial da prática com o visionário, o trabalho comunitário do PPN foi o trabalho mais revolucionário que fizeram.

O Partido dos Panteras Negras foi também um importante campo de treinamento para as mulheres ativistas Afro-Americanas, como Kathleen Cleaver e Elaine Brown. Tal como no Movimento pelos Direitos Civis, as mulheres fizeram boa parte do trabalho básico do PPN.

Isto não quer dizer que o PPN fosse um exemplo no que toca aos direitos das mulheres. Quando Seale e Newton formaram o grupo, dirigiram o seu apelo aos "irmãos do bairro" Em Noutras ocasiões, a sua retórica foi bastante progressista: em agosto de 19760, Newton tornou-se um dos primeiros líderes Afro-Americanos de qualquer estirpe ideológica a exprimir solidariedade com os gays e lésbicas norte-americanos. Mesmo durante o mandato de Brown na presidência do PPN; a direção do grupo permaneceu esmagadoramente masculina e as mulheres Panteras eram sujeitas a abusos verbais e físicos.

Ainda assim, Brown e outras mulheres Panteras Negras conquistaram o seu espaço e deram um contributo imenso para a organização.

Finalmente, o legado do Partido dos Panteras Negras pode ser visto hoje no movimento Black Lives Matter. As suas reivindicações por justiça econômica, poder comunitário e compensações fazem lembrar a plataforma de dez pontos do Partido dos Panteras Negras. E tal como os movimentos Black Power e dos Direitos Civis, o movimento Black Lives Matter teve de enfrentar repetidamente a cobertura noticiosa negativa e a crítica de muitos liberais norte-americanos para “irem mais devagar”.

Agora que passam cinquenta anos desde a sua fundação, os Panteras devem ser recordados por mais do que as suas boinas negras e as shotguns. Apesar das suas falhas, eles combinaram a urgência e a transformação numa ideia política poderosa, defendendo uma aliança multirracial contra o racismo, o capitalismo e o imperialismo que resultou em ganhos tangíveis para os mais explorados. Essa ideia continua hoje a ser tão inspiradora como então.

Colaborador

Robert Greene II é professor assistente de história na Claflin University e editor de resenhas de livros do blog da Sociedade de Historiadores Intelectuais dos EUA.

15 de março de 2016

O socialismo dos Panteras Negras

Um novo documentário sobre o Partido dos Panteras Negras ignora o núcleo socialista do grupo.

Robert Greene II


Tradução / Na memória moderna americana da década de 1960, o Partido dos Panteras Negras é apresentado em três imagens. Primeiro, e talvez o mais predominante, é a de uma organização violenta composta por homens e mulheres afro-americanos enfurecidos — as pessoas que marcharam no prédio do Capitólio do Estado da Califórnia em 1967 e empunhando armas durante encontros com a polícia. Essa percepção de afro-americanos armados e perigosos — um eco, de certa forma, do medo de rebeliões de escravos e, posteriormente, do governo político negro no Sul — provocou demandas por lei e ordem em todo o país.

A segunda imagem dos Panteras Negras foi cultivada tanto por ativistas quanto por historiadores modernos: uma organização dedicada ao ativismo comunitário local, construção de poder político e prestação de serviços sociais para aqueles que mais precisavam. Visto em livros como Body and Soul: The Black Panther Party and the Fight Against Medical Discrimination de Alondra Nelson, essa versão dos Panteras os apresenta armados, não apenas com rifles e balas, mas também com medicamentos e comida.

Um novo documentário intitulado Black Panthers: Vanguard of the Revolution se destaca ao discutir essas duas primeiras imagens. Ele é menos hábil em abordar a terceira: uma organização construída com base em princípios e ideologia socialista.

O Programa de Dez Pontos dos Panteras Negras, apresentado em 1967, delineou os preceitos básicos do partido para um amplo público. O progressismo econômico, há muito tempo uma parte importante da luta pela liberdade dos afro-americanos no século XX, permeou o documento.

Por exemplo, o segundo ponto defende o pleno emprego para os afro-americanos, e o ponto seguinte exige “um fim ao saqueamento dos capitalistas em nossas comunidades negras e oprimidas.” Apagar esse elemento da história do Partido dos Panteras Negras — ou mesmo minimizá-lo — distorce a realidade não apenas dos Panteras, mas também dos movimentos pela liberdade negra da época e da esquerda dos EUA de forma mais ampla.

Por volta de 1966-67, ativistas que haviam participado do Movimento pelos Direitos Civis estavam começando a pensar na melhor estratégia para adotar na América no pós-Lei dos Direitos Civis e Lei de Direitos de Voto. Já se percebia uma reação conservadora no ar. Ronald Reagan estava ganhando considerável apoio dos eleitores ao pedir “lei e ordem”, e George Wallace estava aperfeiçoando seus apelos de cunho racial aos eleitores brancos.

Ao mesmo tempo, a esquerda — preocupada com o Vietnã e a Guerra Fria no exterior, e com os limites esmagadores das reformas econômicas e de direitos civis em casa — foi galvanizada pela icônica imagem do BPP na mídia nacional. Algumas dessas atrações eram de natureza estilística, mas, mais importante, a afinidade surgiu da percepção de que os Panteras eram os críticos mais contundentes do racismo americano, do imperialismo e da exploração econômica. De fato, o BPP fazia parte de uma tradição radical mais ampla, começando com a esquerda negra, mas se estendendo muito além de seus limites.

Vanguard of the Revolution falha neste teste básico de história. Embora o documentário mencione brevemente a oposição do grupo ao capitalismo, isso não foi suficiente para explicar a importância do socialismo para o BPP.

O foco do documentário esteve nas figuras poderosas de Huey Newton, Eldridge Cleaver e Bobby Seale. Vanguard ao tratar a fissura que se desenvolveu entre Newton e Cleaver como algo pessoal e não ideológico, perdeu a oportunidade de explorar as falhas dos Panteras e da esquerda negra de forma mais ampla. Da mesma forma, o documentário diz pouco sobre as tendências ideológicas mais amplas entre os intelectuais afro-americanos no início dos anos 1970, quando os debates entre facções pan-africanistas e marxistas-leninistas prejudicaram as tentativas de solidariedade.

A inclusão de Fred Hampton no filme indica que os cineastas tinham alguma consciência da tonalidade anticapitalista do BPP. Como líder do capítulo de Chicago do BPP, Hampton tentou fomentar um movimento além da classe e multirracial contra o capitalismo. Seu slogan pessoal – “Sou um revolucionário!” — energizou milhares, e seus apelos aos residentes brancos pobres das favelas da cidade desafiaram a imagem dos Panteras como uma organização de “ódio aos brancos”.

O assassinato de Hampton em 1969 pelas mãos do Departamento de Polícia de Chicago marcou um ponto de virada não apenas para os Panteras Negras, mas também para o ainda em desenvolvimento Black Power Movemen (Movimento pelo Poder Negro). Sua morte, junto com as de Malcolm X e Martin Luther King Jr., estrangulou o potencial da luta pela liberdade dos afro-americanos no final dos anos 1960 e enfraqueceu a ação radical negra.

Esta tradição, abrangendo uma variedade de movimentos pela igualdade social e incluindo intelectuais desde W. E. B. Du Bois até Cornel West, testemunhou tanto seu maior triunfo nos anos 1960 quanto alguns dos seus reveses mais devastadores.

Vanguard of the Revolution capturou parte disso, mas sem uma compreensão adequada da ideologia e das tradições das quais o BPP surgiu. Ao omitir a base anticapitalista do BPP, o filme deixou os espectadores com uma imagem simplificada dos Panteras, criando uma linha desnecessária entre as questões de raça e classe.

Colaborador

Robert Greene II é professor assistente de história na Claflin University e editor de resenhas de livros do blog da Sociedade de Historiadores Intelectuais dos EUA.

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