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7 de outubro de 2026

O que torna alguém marxista?

O marxismo é uma teoria social sobre como o mundo funciona e como mudá-lo. Qualquer pessoa comprometida em compreender e transformar o mundo deveria ser marxista.

Entrevista com
Vivek Chibber

Jacobin

O marxismo não é uma doutrina — até mesmo Karl Marx disse: "Eu não sou marxista". Em vez disso, trata-se de um conjunto de proposições e hipóteses sobre como o mundo realmente funciona, as quais qualquer pessoa que deseje mudá-lo deveria adotar. (Manfred Brückels / CC BY-SA 3.0)

Entrevista realizada por
Melissa Naschek

É famosa a declaração de Karl Marx de que ele não era marxista. No entanto, sua obra teórica deu origem a diversas vertentes de pesquisa, movimentos políticos e debates acalorados. Seria possível identificar um conjunto de ideias unificadoras que constituem o marxismo?

Neste episódio mais recente do podcast Confronting Capitalism, da Jacobin Radio, Vivek Chibber e Melissa Naschek examinam os fundamentos da obra de Marx e explicam como o marxismo se desenvolveu — e também se degenerou — ao longo do último século.

O programa Confronting Capitalism with Vivek Chibber é produzido pela Catalyst: A Journal of Theory and Strategy e publicado pela Jacobin. Você pode ouvir o episódio completo aqui.

Melissa Naschek

Em nosso podcast e em seus trabalhos acadêmicos, você apresenta consistentemente uma perspectiva marxista sobre política, teoria e economia, mas, às vezes, também critica aspectos do marxismo. Em que sentido você se considera marxista?

Vivek Chibber

O marxismo é uma teoria social sobre como o mundo funciona, e é a teoria que tem sido utilizada e mobilizada pelo movimento socialista. Portanto, do ponto de vista analítico, socialismo e marxismo são coisas diferentes.

Isso significa que, tecnicamente — como disse certa vez o marxista austríaco Rudolf Hilferding —, é possível reconhecer a força teórica do marxismo independentemente do seu alinhamento político; você pode considerar o marxismo a teoria mais adequada e esclarecedora sem ser socialista, pois são coisas distintas. Mas, na minha visão, essa não é a melhor maneira de compreender essa relação. A forma como eu colocaria a questão é que os marxistas são um tipo específico de socialista.

É tecnicamente verdade que alguém pode ser de direita e afirmar que o marxismo é a teoria que melhor explica o mundo, decidindo, então, utilizá-lo para tentar estabilizar o capitalismo.

Melissa Naschek

Fala-se muito sobre como figuras como Steve Bannon são influenciadas pelo marxismo.

Vivek Chibber

Isso é tecnicamente verdade, mas acredito que contraria o espírito do que o marxismo deve ser: a teoria que ajuda a esclarecer e orientar o movimento socialista.

Socialistas são aqueles que aderem a uma certa compreensão de como o capitalismo funciona, de como a história evoluiu e de quais são as condições que podem permitir uma sociedade mais humana e mais justa — aquilo que chamamos de socialismo.

O marxismo pode estar certo ou errado. Você pode ser socialista e dizer: "Bem, acho que o marxismo está, na verdade, majoritariamente equivocado". E também pode ser um socialista que adere a ele. A razão pela qual ainda aderi ao marxismo é que me considero socialista. Além disso, acredito que, quaisquer que sejam suas falhas, o marxismo continua sendo a teoria mais esclarecedora e útil para promover um projeto amplamente social-democrata e socialista.

Melissa Naschek

Então, quais ideias estão no cerne do marxismo?

Vivek Chibber

Essa é uma pergunta interessante, porque nunca houve consenso sobre isso. Percebo que, nas redes sociais, existe uma convicção enorme de que existe algo chamado "marxismo" — algo que teria estas quatro leis ou aqueles cinco componentes — e que ou você é marxista, ou não é. Mas, sempre que se tenta definir o marxismo dessa maneira restrita, facilmente encontramos pessoas universalmente reconhecidas como parte do panteão marxista que, no entanto, não aderem a um ou outro dos princípios tidos como essenciais à teoria marxista. Portanto, não é uma pergunta fácil de responder: o que está, afinal, no cerne do marxismo?

Alguns poderiam apontar a teoria do valor-trabalho; os mais ambiciosos e pretensiosos talvez citassem a dialética ou algo do gênero. Contudo, em qualquer momento da história do marxismo, se observássemos as figuras de vanguarda da política socialista que se autodenominam marxistas, encontraríamos profundas divergências sobre questões que poderíamos considerar essenciais ao marxismo — seja a teoria do valor, a filosofia, ou mesmo o materialismo, entre outras coisas. Assim, não é uma pergunta simples. Mas também não quero me esquivar dela.

Melissa Naschek

Vou fazer você responder a essa pergunta.

Vivek Chibber

Justo. Antes de mais nada, o marxismo não é uma doutrina. Ao contrário da Bíblia ou de uma religião, ele não possui dogmas centrais que precisem ser obrigatoriamente seguidos e que tenham sido definidos por uma autoridade central.

Na verdade, a autoridade central do marxismo era Karl Marx; quando ele viu a maneira como sua teoria estava sendo mobilizada e apresentada por outras pessoas, disse a famosa frase, já no fim da vida: "Tudo o que sei é que não sou marxista". E o que ele queria dizer com isso era que a teoria nunca teve a intenção de ser uma doutrina.

O marxismo é o que se chama de programa de pesquisa — um conjunto de proposições e hipóteses sobre o funcionamento do mundo que devem ser avaliadas com base em seus próprios méritos epistemológicos; isto é, se as evidências as sustentam ou não. Portanto, tentar cristalizá-lo em uma doutrina é uma insensatez.

Ao mesmo tempo, não se quer que ele seja tão abrangente ou vasto a ponto de tudo valer — de qualquer coisa poder ser considerada marxismo. Assim, a meu ver, busca-se uma definição de marxismo que o torne identificável, que lhe confira um núcleo, uma essência, mas que também permita divergências e debates suficientes em seu interior, para que não se perca todo o tempo excomungando pessoas por saírem da ortodoxia.

Então, vejamos o que Marx tentava fazer ao desenvolver sua teoria.

O que ele buscava demonstrar era que a raiz da injustiça neste mundo — a qual nos motiva a tentar construir um mundo melhor — residia na própria estrutura da sociedade moderna. E essa estrutura, segundo Marx, era a estrutura de classes. A ideia era que a estrutura de classes gera um conjunto de restrições e impõe uma série de compulsões às pessoas, levando-as a agir de determinadas maneiras — maneiras que tornam impossível uma ordem social humana e justa. E, como essa ordem é impossível, é preciso mudar a estrutura social e colocar em seu lugar uma nova que, no mínimo, crie a possibilidade de tipos de relações sociais, instituições e comportamentos compatíveis com o florescimento humano.

Melissa Naschek

Uma das ideias que realmente me marcou quando li O Capital, Volume I, pela primeira vez, foi a forma como Marx descreve o capitalista como mera personificação do capitalismo. O ponto central é que esse sistema não é impulsionado apenas por atores individuais com suas próprias intenções; ele é movido por atores que desempenham um papel em uma ordem social. Portanto, é a própria ordem social que precisa ser examinada, compreendida e combatida, e não apenas esses indivíduos. Essa é uma ideia realmente profunda.

Vivek Chibber

Muito verdade. Socialistas e marxistas aceitam muito bem a ideia de que os trabalhadores estão presos à sua situação — forçados a sair e vender sua força de trabalho todos os dias por não terem outra escolha. Isso é absolutamente verdadeiro. Mas Marx também apresentava um argumento mais profundo: o de que os capitalistas também estão presos à sua situação, pois precisam competir no mercado e tentar extrair trabalho excedente de seus funcionários para obter lucro.

Assim, para Marx, os capitalistas não são menos prisioneiros do mercado do que os trabalhadores. E isso é profundo porque significa que não se pode melhorar o capitalismo simplesmente pedindo aos capitalistas que sejam melhores. Se quiserem continuar sendo capitalistas, terão de fazer o que fazem. Para mudar a forma como o trabalho é realizado — a maneira como as pessoas ganham a vida —, é preciso, na verdade, alterar as pressões e as restrições que recaem sobre os capitalistas; trata-se de restrições e pressões inerentes à classe social.

Melissa Naschek

Certo. E quando falávamos sobre essa ideia de que as forças sociais são as principais responsáveis ​​— acima e além dos indivíduos —, as pessoas contestavam dizendo: "Bom, o Jeff Bezos, por exemplo, é mau". E eu tentava explicar que talvez ele seja, ou talvez não. Na verdade, isso é irrelevante.

Vivek Chibber

Recentemente, Susan Neiman defendeu que os socialistas deveriam usar a palavra "mau". Eu, na verdade, não concordo com isso. Mas, se você quiser, tudo bem. Não considero "mau" um termo moral; acho que é um termo religioso. Os socialistas devem ser morais e precisam ser motivados por questões morais. Você pode até dizer que o Bezos é mau, mas ele não faz o que faz simplesmente por ser mau. Se você tirasse o Jeff Bezos do pedestal e colocasse outra pessoa no lugar dele, essa pessoa faria mais ou menos as mesmas coisas, porque é isso que é preciso para ter sucesso no setor de negócios em que ele atua.

Ao ver a maneira como sua teoria estava sendo mobilizada, Karl Marx proferiu a famosa frase, já no final da vida: "Tudo o que sei é que não sou marxista".

Então, o primeiro componente do marxismo — seu fundamento principal — é que a estrutura de classes do capitalismo é o que lhe confere o que Marx chamava de suas "leis de movimento", ou seja, sua macrodinâmica. O que impulsiona essa estrutura de classes é o fato de que um grupo de pessoas não é apenas mais rico do que outro; ele obtém sua renda e riqueza explorando esse outro grupo.

Muitas outras teorias utilizam o termo "classe", mas, nelas, a classe está tipicamente associada à renda. Há pessoas ricas em uma classe, pessoas pobres abaixo delas em outra classe e, ainda, aquelas situadas no meio; é possível identificá-las com base em faixas de renda.

Melissa Naschek

Exato. Algumas dessas teorias equiparam classe a uma espécie de status cultural, a um conjunto de... sabe, morar em determinado lugar...

Vivek Chibber

Gostos.

Melissa Naschek

Sim, exatamente.

Vivek Chibber

Mas, para Marx, o que diferenciava as classes não era o nível de renda auferido, e sim o que as pessoas precisavam fazer para obter essa renda. Portanto, o segundo componente é que a classe se define quando um grupo de pessoas explora o outro; com isso, ele queria dizer que elas obtêm sua renda extraindo trabalho do outro grupo.

Ora, o fato de os ricos extraírem trabalho dos pobres cria um vínculo específico entre eles: os pobres são pobres devido ao que os ricos lhes fazem, e os ricos são ricos devido ao que fazem aos pobres. Pense no que isso significa: se os trabalhadores quiserem melhorar sua situação — obter salários mais altos, melhores condições de trabalho, moradia melhor —, eles precisam descobrir como obter mais de seus empregadores, pois é daí que vem o dinheiro.

Por outro lado, para obter lucro, os empregadores precisam tentar conceder o mínimo possível aos seus funcionários. Marx chegou a essa visão de classe porque o movimento operário, por meio de experiências difíceis, constatou que, ao tentar melhorar a condição de sua base — os trabalhadores —, deparava-se repetidamente com a resistência dos empregadores, dos capitalistas. Dessas lições árduas surgiu um conceito de classe no qual ela não representa apenas desigualdade, mas um tipo de relação social que une as pessoas de tal forma que a melhoria da situação de uma ocorre às custas da outra. Isso é chamado de exploração.

Daí deriva o terceiro componente: se quisermos que a maioria das pessoas no capitalismo — os trabalhadores — tenha uma vida melhor, é preciso encontrar meios de superar a resistência e a negação desses direitos por parte de seus empregadores, dos "Jeff Bezos" do mundo. Como fazer isso? Para tanto, Marx desenvolveu uma teoria política sobre como pessoas comuns podem melhorar sua situação de trabalho: organizando-se como classe. Como elas fazem isso? Identificam o que têm em comum — sua situação econômica —, reconhecem o que as separa do outro lado — o fato de estarem sendo exploradas por ele — e buscam criar organizações e instituições que lhes permitam lutar melhor contra seus empregadores. Esse processo de criar organizações, utilizá-las na luta e alterar a correlação de forças entre ricos e pobres é chamado de luta de classes.

Essas três ideias constituíam o compromisso fundamental de Marx e aquilo que toda a tradição marxista buscou explicar e desenvolver: a classe é a base da sociedade moderna; a classe se mantém nessa posição por meio do processo de exploração; e, para superar essa situação e construir uma sociedade melhor — ou até mesmo um capitalismo melhor —, é preciso organizar as pessoas como classe. Não como raça, nem como gênero, mas como classe, pois raça e gênero não são a mesma coisa que classe.

Melissa Naschek

Então, o que você está dizendo é que não se pode ser realmente marxista a menos que se coloque a classe social no centro da análise.

Vivek Chibber

Exatamente. E aqui reside a ironia e a profunda tragédia da esquerda atual. A característica definidora do marxismo — a centralidade da classe — é justamente o que a esquerda de hoje encara como um crime ou um sinal de estupidez. A menos que você aceite a centralidade da classe, não pode ser marxista. Na verdade, a meu ver, você não pode sequer ser socialista. É algo lamentável que isso precise ser debatido.

Pois bem, Marx construiu, a partir disso, uma certa economia política ou teoria econômica — conhecida como sua teoria do valor-trabalho —, na qual tentou demonstrar como os capitalistas extraem trabalho dos trabalhadores; como os salários são determinados; como os preços são fixados no capitalismo; e como os capitalistas, enquanto classe, repartem o excedente extraído do trabalho, passando assim a ter um interesse coletivo — um interesse comum — em extrair esse trabalho dos trabalhadores. Era isso que sua teoria econômica buscava explicar.

Houve muitos debates no âmbito do marxismo sobre a sustentabilidade da teoria do valor-trabalho. Pessoas com credenciais marxistas impecáveis ​​consideraram que a versão restrita dessa teoria não se sustenta. Ora, você pode perguntar: "Certo, então é possível ser marxista mesmo achando que a teoria do valor-trabalho está equivocada?"

A meu ver, para ter uma visão de mundo distintamente marxista, é preciso considerar que a classe é fundamental, que a exploração é o eixo central da questão de classe e que a saída para isso se dá por meio da luta de classes. É possível manter essa visão mesmo sem aderir à teoria do valor-trabalho. Esse é apenas um exemplo.

Para Marx, os capitalistas não são menos prisioneiros do mercado do que os trabalhadores.

Na minha opinião, a teoria do valor não deveria ser uma das características ou critérios definidores e decisivos para determinar se alguém é ou não marxista. Você pode aceitá-lo ou rejeitá-lo razoavelmente, respeitando a sociologia subjacente que Marx tentou desenvolver e que todos os marxistas tentaram desenvolver. Se olharmos para a história do marxismo, encontraremos muitas divergências – sobre a teoria dos valores, sobre a dialética, sobre a teoria da história. Mas todas as pessoas que estão a ter estes debates concordam que a classe é central, que a luta de classes é central e que a exploração é o que define a classe.

Isto mostra-lhe indutivamente que as pessoas que se consideram - e que eram consideradas pelo mundo - como marxistas tinham a teoria de classes como núcleo comum e podiam legitimamente discordar sobre outras coisas.

Na minha opinião, é isto que me permite chamar-me marxista, embora pense, por exemplo, que a teoria do valor pode muito bem estar errada; embora eu tenha criticado publicamente o materialismo histórico ortodoxo como provavelmente insustentável (penso que uma versão mais fraca dele é sustentável, mas a ortodoxa não é). Também tenho uma visão bastante obscura do que é chamado de dialética. Não é que esteja errado, mas é bastante trivial. Sendo esse o caso, penso que é perfeitamente consistente ter essas opiniões e ainda ser marxista. As pessoas são livres para discordar disso, mas você terá dificuldades se decidir que qualquer um desses outros fenômenos é central para o marxismo. O que você descobrirá é que as pessoas que você ama como marxistas não conseguem se classificar.

Rosa Luxemburgo, que foi uma revolucionária impecável, seguiu uma teoria chamada subconsumismo, que defendia a visão de que o capitalismo sofre de uma falta crónica de procura efectiva. Ela foi duramente criticada por Nikolai Bukharin e outros marxistas nesta questão, porque insistiam que Marx rejeitava categoricamente o subconsumismo. Ok, qual deles é então o marxista aceitável? Você gostaria de excomungar um deles?

Paul Sweezy é o maior marxista americano do século XX. Ele defendia a opinião de que o capitalismo entrou numa fase chamada capital monopolista. Agora, se mantivermos a opinião de que a concorrência acabou e as empresas podem monopolizar sectores e dissuadir efectivamente a entrada, também defenderemos a opinião de que o capital não pode entrar e sair de sectores que procuram a taxa de lucro mais elevada. Isto significa, tecnicamente falando, que a lei do valor deixou de ser válida. Se você acha que a lei do valor é central para a teoria do valor-trabalho, então você está dizendo que alguém como Sweezy, Hilferding ou Vladimir Lenin não é mais marxista. Você gostaria de dizer isso? Simplesmente não faz sentido.

Portanto, penso que ter uma compreensão muito estreita disto vai contra tanto a história do que tem sido o marxismo como o seu espírito. Prefiro ter uma visão mais ampla do assunto, mas penso que manter a centralidade da classe ainda dá ao marxismo uma base reconhecível que o torna distinto de outras teorias e que lhe dá, penso eu, a possibilidade de ser também falsificável. E é isso que você quer que uma teoria seja.

O marxismo depois de marx

Melissa Naschek

Como aqueles importantes marxistas do século XX começaram a desenvolver — e, de certa forma, a modificar — as ideias originais que Karl Marx e Friedrich Engels formularam no século XIX?

Vivek Chibber

Acredito que todos eles levaram a sério a ideia de que precisamos compreender que o problema fundamental para a justiça social é o capitalismo e que, portanto, devemos entender como esse sistema econômico funciona. E, como as obras de Marx não ofereciam respostas para tudo, eles tiveram de pegar sua estrutura teórica e desenvolvê-la, levando-a a novos horizontes dentro da teoria, utilizando suas capacidades da melhor maneira possível. E fizeram isso em uma época marcada por intensos debates e discussões sobre essas questões.

Eles também tiveram a segurança necessária para afirmar que certos aspectos da teoria de Marx poderiam, de fato, estar equivocados. Rosa Luxemburgo declarou claramente que Marx havia se enganado na forma como desenvolveu os esquemas de reprodução no segundo volume de O Capital, e que ela tentaria corrigi-lo. Hoje, há muitos marxistas que ficariam chocados com essa ideia. É uma tradição peculiar do marxismo. A palavra "revisionista" é usada como um xingamento. Trata-se de uma visão fundamentalmente religiosa, segundo a qual revisar uma teoria implica ser excomungado. Isso revela uma rejeição absoluta à ideia de que o marxismo é uma ciência social. A noção de que uma ciência não pode ser revisada acaba transformando-a em religião.

Ao analisarmos os avanços ou revisões reais ocorridos no marxismo durante o século XX, percebemos que as contribuições mais produtivas surgiram quando o movimento operário estava extremamente ativo e havia uma cultura profunda e vibrante na esquerda. Isso conferia às pessoas a confiança de saber que, embora os fundamentos da teoria estivessem corretos, elas também tinham liberdade para pensar em como fortalecê-la — reconhecendo a existência de pontos fracos na teoria e sem receio de criticá-los.

Melissa Naschek

Você pode dar um exemplo de um dos debates de que está falando?

Vivek Chibber

Sim. O debate em torno da compreensão de Rosa Luxemburgo sobre o imperialismo — ou da de Hilferding — girava em torno da questão de saber se o capitalismo consegue se sustentar com base em suas próprias dinâmicas internas ou se necessita de fontes externas de demanda e de estímulo. Alguém como Luxemburgo afirma que não consegue, e ela é criticada por pessoas que dizem que ela está totalmente equivocada. Mas elas não a criticam dizendo: "Você está indo contra as palavras de Marx e, portanto, deve ser excomungada". Houve um debate muito saudável no início do século XX sobre o que os esquemas de reprodução, presentes no Volume II de O Capital, realmente provam ou deixam de provar.

Da mesma forma, o debate sobre o capital monopolista: quando a Nova Esquerda e aquela geração de economistas surgiram, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, eles criticaram de forma muito eficaz a teoria que, na época, predominava na economia marxista — uma teoria herdada de Lênin. A teoria do capital monopolista sustentava que o capitalismo concorrencial havia chegado ao fim no início do século XX. O capitalismo concorrencial teria se transformado em capital monopolista, um sistema no qual — e é aqui que a coisa fica imprecisa — ou se dizia que a era da concorrência havia acabado e grandes conglomerados controlavam os mercados (caso em que a concorrência estaria praticamente extinta), ou se apresentava aquele argumento — a meu ver, absurdo — sobre a existência de algo chamado "concorrência monopolística". Acho que isso é, essencialmente, um oxímoro, uma espécie de argumento forçado.

Essa teoria do capitalismo monopolista, que antes era a teoria dominante e hegemônica, foi duramente criticada por uma geração emergente de economistas marxistas, de modo que, já na década de 1980, ela havia se tornado uma teoria minoritária.

Será que um desses lados não é marxista? Um lado é marxista e o outro não? Ninguém dizia que Paul Sweezy não era marxista. Não o chamavam de revisionista. Diziam que a análise estava equivocada, e Sweezy dizia o mesmo a respeito deles. Acho isso perfeitamente válido. Creio que vocês têm um bom debate em mãos. Ambos os lados concordaram que o capitalismo é o problema, que a estrutura de classe gera aquilo que estamos analisando e que, para alcançar uma sociedade melhor, é preciso mudar essa estrutura de classe. No entanto, discordaram quanto às macrodinâmicas dessa estrutura, aos fatores que a impulsionam e aos tipos de restrições que o capital e o trabalho enfrentam hoje. Trata-se, simplesmente, de um debate científico saudável.

Melissa Naschek

Então, estamos rindo da ideia de que alguns tratam o marxismo como uma religião, mas por que você acha importante que o marxismo seja algo vivo, pulsante e em evolução?

Vivek Chibber

Bem, no momento em que ele deixa de fazer uma autocrítica real, ele morre; isso porque a realidade muda a tal ponto que simplesmente repetir uma teoria de 150 anos atrás, por meio da memorização mecânica, não permitirá que você compreenda as formas ou as particularidades do capitalismo atual. Afinal, embora ainda seja capitalismo, ele é diferente do capitalismo do século XIX. Portanto, é preciso ser capaz de extrair as consequências da teoria a partir de uma realidade que — pelo menos na superfície — difere da realidade do século XIX. A essência, porém, permanece a mesma.

A menos que você aceite a centralidade da classe, não pode ser marxista. A meu ver, não pode sequer ser socialista.

Mas é preciso demonstrar empiricamente que, embora as formas fenomênicas possam parecer diferentes das do século XIX, as estruturas causais subjacentes do mundo permanecem as mesmas: a busca pelo lucro, a ameaça da concorrência e o imperativo de produzir para que o capital migre de um setor para outro em busca da maior taxa de retorno; como isso, por sua vez, impõe restrições às empresas; como as restrições impostas às empresas limitam os trabalhadores; e como as limitações enfrentadas pelos trabalhadores criam as condições sob as quais eles precisam tentar se organizar. É isso que a teoria busca fazer.

Se você não conseguir expandir a teoria para esses novos domínios empíricos e fenômenos, ela se reduz essencialmente a uma religião ou doutrina — algo que pode até atrair certas subculturas de estudantes e acadêmicos americanos, mas que não terá relevância alguma para lidar com o mundo tal como as pessoas o vivenciam.

O estado do marxismo moderno

Melissa Naschek

Como você definiria o marxismo moderno?

Vivek Chibber

Essa é uma boa pergunta. Não é fácil respondê-la, pois o fato é que, com o declínio do movimento operário e a degeneração da cultura acadêmica e intelectual, o marxismo está — se não morto — sobrevivendo apenas por aparelhos nos dias de hoje.

Nos últimos quinze ou vinte anos, não houve muita produção teórica relevante no âmbito do marxismo. No entanto, se eu fosse descrever o que restou dessa tradição marxista, diria que — ironicamente, e apesar de ser mais difícil encontrar marxistas na academia ou no meio intelectual atualmente — a teoria está muito mais sólida do que há cem anos.

Melissa Naschek

Como assim?

Vivek Chibber

A lógica econômica subjacente à teoria foi explicada de forma muito, muito mais clara do que na época de Lênin, Luxemburgo e Hilferding. E acredito que o mesmo possa ser dito sobre os fundamentos normativos da teoria — isto é, seus compromissos morais e sua visão de justiça e injustiça. O tipo de visão que ela propõe para uma sociedade mais humana é infinitamente mais claro hoje do que era até mesmo na década de 1950.

Muitos marxistas de gerações anteriores levaram a sério a própria relutância de Marx em desenvolver uma teoria moral. Marx apresentava uma contradição: embora negasse estar desenvolvendo fundamentos morais, seus argumentos eram profundamente morais. E, nas duas gerações seguintes, pessoas da geração de Lênin e Karl Kautsky repetiam essa mesma visão. Foi preciso que surgisse a Nova Esquerda para identificar isso como uma contradição.

Após as experiências terríveis do stalinismo e de Pol Pot, percebeu-se a necessidade de uma compreensão muito clara sobre quais são as linhas morais que nos recusamos a cruzar e qual é o fundamento moral a partir do qual criticamos o capitalismo.

Então, se dizemos que os capitalistas exploram o trabalho, observe a palavra "explorar". É uma palavra profundamente carregada de sentido moral. Marx não disse simplesmente que os capitalistas empregam mão de obra; ele disse que eles exploram o trabalho. Não há como apresentar uma definição moralmente neutra para a palavra "explorar".

Melissa Naschek

Mesmo fora dos círculos marxistas, "explorar" não é uma palavra positiva.

Vivek Chibber

Exato. Explorar alguém significa tirar vantagem dessa pessoa ou tratá-la, de alguma forma, injustamente. Se usamos essa palavra, precisamos deixar claro o que torna a relação de emprego uma relação de exploração. Esse aspecto não foi desenvolvido pelos filósofos marxistas até as décadas de 1960 e 1970, mas foi abordado pela Nova Esquerda. E acredito que essa tenha sido uma linha de investigação muito frutífera. Também acho que temos uma compreensão muito, muito mais clara da teoria do Estado. O livro que as pessoas utilizaram por muito tempo foi O Estado e a Revolução, de Lênin — que, francamente, é um livro péssimo. A argumentação é muito fraca. Ele não apresenta uma teoria real sobre o que é o Estado nem sobre o que o caracteriza como um Estado burguês.

Melissa Naschek

Certamente não uma teoria coerente.

Vivek Chibber

Não. Portanto, há muitos e muitos aspectos do marxismo que, a meu ver, foram desenvolvidos e explicados de forma muito mais sólida — e assentados sobre bases mais firmes — ao longo dos últimos quarenta anos do que anteriormente. Aquele foi o último momento em que uma geração de intelectuais realmente talentosos se voltou para o marxismo. Isso deixou de acontecer durante a sua trajetória e também durante a maior parte da minha.

Assim, encontramo-nos nesta situação peculiar: acredito que a teoria esteja, de fato, em bases muito mais sólidas do que estava, digamos, em 1960; no entanto, a evolução das universidades, dos partidos políticos e dos sindicatos nas últimas quatro décadas acabou por esvaziar a intelectualidade de esquerda. Existe, sim, uma intelectualidade de esquerda, mas muito pouco dela é marxista. E a maior parte dessa intelectualidade de esquerda, na verdade, difama a tradição marxista e mina ativamente os fundamentos daquilo que tem sido a essência do movimento socialista há 120 anos: a política de classe.

Os muitos críticos de Marx

Melissa Naschek

Acho que é bastante óbvio por que liberais e conservadores são tão críticos em relação ao marxismo. Se você não tem certeza do motivo, pode conferir qualquer um dos nossos quarenta e nove episódios anteriores, e isso lhe dará uma noção. Mas por que pessoas de esquerda também participam de tentativas de denegrir o marxismo?

Vivek Chibber

É porque elas percebem, corretamente, que a política de classe e a centralidade da classe estão no cerne do marxismo. E a esquerda atual dedica-se obstinadamente a minar a política de classe e a substituí-la por vários tipos de política identitária. E, na minha opinião, por esse motivo, ela não merece ser chamada de esquerda. Ela é a ala esquerda do neoliberalismo. Não é uma esquerda de fato. Não se pode ser de esquerda ou radical se não se coloca o capitalismo no centro da sua política. E isso significa colocar a classe no centro da sua política. Isso tem sido verdade desde o surgimento da esquerda moderna. Eles colocavam a classe no centro de sua política. A contribuição histórica desta esquerda atual é ter sido a primeira a não apenas questionar isso, mas a rejeitá-lo violentamente. E ela entrará para a história como motivo de piada por esse motivo.

Melissa Naschek

Bem, espero que um dia eu possa rir disso. Há muitas críticas diferentes que pessoas de esquerda, em particular, fazem ao marxismo. Uma delas que eu queria levantar é a crítica de que o marxismo é determinista. Então, quero lhe perguntar: o marxismo é determinista? E, se for, isso é algo ruim?

Vivek Chibber

É claro que é determinista. E não só não há problema nisso, como é essencial para qualquer teoria social viável, pois as teorias sociais tratam essencialmente de causalidade. É isso que as teorias sociais fazem. Você tenta entender o que gera outra coisa. E então tenta fazer uma generalização sobre isso: que, em certas circunstâncias, quando se tem A, também se terá B. É isso que as teorias fazem. O marxismo afirma que, enquanto existirem estruturas de classe capitalistas, haverá certos tipos de resultados sociais. Esses resultados sociais incluem a exploração e todo tipo de injustiça ou desfecho iníquo. Trata-se de uma afirmação determinista. Esse é o que chamo de determinismo em nível macro. No entanto, uma sociedade capitalista apresentará certos tipos de instituições e resultados sociais específicos. Isso significa que tal lógica também se aplica em nível micro.

Se você trabalha em uma fábrica ou em um restaurante, os marxistas argumentam que a relação de emprego gerará certos comportamentos naquele ambiente específico, e não apenas na sociedade como um todo. É por isso que, ao tentar organizar trabalhadores em um centro de distribuição da Amazon ou no setor de transportes da UPS — tratando-se de uma empresa ou de um armazém individual —, você encontra os mesmos tipos de interesses e processos de classe que são teorizados em nível macro.

Melissa Naschek

Isso nos remete ao início da nossa conversa, quando falamos sobre a ideia de que os atores são compelidos pelas relações sociais.

Vivek Chibber

É fato que, ao passar do nível macro para o micro, a análise se torna menos determinística. Isso ocorre porque, no nível individual, as pessoas podem estar dispostas a fazer todo tipo de sacrifício, a agir contra os interesses de sua classe e a desafiar essas coerções. Mas também sabemos que essas pessoas são exceções. E é por isso que, ao agregar indivíduos, o poder preditivo da teoria aumenta.

No entanto, isso não significa que ela não tenha capacidade preditiva no nível micro. Se fosse assim, chegaríamos a uma situação estranha: afirmar que "as leis macro do capitalismo são determinísticas, mas, veja bem, se você tentar organizar sua fábrica ou seu sindicato, isso não vai funcionar porque é algo do nível micro". Isso realmente não faz sentido. Faz sentido dizer que a análise é menos determinística no nível micro, mas ainda assim ela permanece altamente probabilística.

No contexto da política de identidade, as pessoas adoram falar sobre contingência. Mas, se o mundo fosse regido pela contingência, por que se opor ao racismo? Por que se opor ao patriarcado? Se você afirma que as relações sociais patriarcais geram um tipo específico de injustiça, você rejeitou o determinismo marxista, mas aceitou outro em seu lugar. Trata-se, portanto, de um artifício retórico desenvolvido por essa chamada intelectualidade radical.

A verdade é que qualquer pessoa com um programa social concreto e identificável — qualquer um que possua uma teoria social de justiça e injustiça que vincule as injustiças a instituições e estruturas sociais — está operando com base em algum grau de determinismo causal ou, no mínimo, em uma teoria altamente probabilística que não é nem mais nem menos determinística do que a teoria de classe. Ao se oporem ao marxismo, essas pessoas não estão realmente rejeitando o determinismo; elas estão apenas rejeitando a ideia de que a classe social é o fator explicativo. E, como eu disse, essa é a marca registrada da esquerda contemporânea.

Melissa Naschek

Essa também é uma maneira muito desonesta de atacar outra ideia. Por que não dizer simplesmente: "Bem, eu discordo da ideia de que a classe social é o fator determinante fundamental"? Por que não dizer: "Na verdade, eu acredito nesta outra coisa"?

Vivek Chibber

É. Isso faz parte da confusão geral que se instalou na teoria social nos últimos trinta anos.

Veja, se o capitalismo não possui propriedades determinísticas, por que você é anticapitalista? Por que se opor ao capitalismo se você não acredita que ele seja a causa das injustiças que tenta combater?

Não dá para se dizer anticapitalista a menos que se acredite que o sistema possui propriedades causais muito fortes, identificáveis ​​e de alta probabilidade. O mesmo vale para quem é feminista ou antirracista. Não se pode ser um "guerreiro da justiça social" e, ao mesmo tempo, defender a ideia de contingência.

O declínio do marxismo

Melissa Naschek

Você disse que o marxismo está sobrevivendo por aparelhos. E, no entanto, estávamos falando sobre como ele floresceu, se desenvolveu e cresceu durante o século XX. O que aconteceu nesse intervalo?

Vivek Chibber

Bem, ele não floresceu durante todo o século XX. Na verdade, existem dois períodos em que se vê a teoria marxista se desenvolvendo de forma séria. Um deles ocorreu nas décadas seguintes à — digamos — primeira revolução russa de 1905; foi de 1905 até o início da década de 1930, quando entrou em declínio real. Depois, houve uma retomada entre meados da década de 1960 e meados da década de 1980, seguida por um declínio gradual. E, por volta de 2015, o sistema entrou em queda livre. Por quê? Se você parar para pensar um pouco, a resposta é óbvia.

O marxismo é uma teoria social que exige estudo sério, reflexão séria e análise séria. Trata-se, portanto, de um conjunto de ideias que tende a circular principalmente entre acadêmicos profissionais — ou, poderíamos dizer, intelectuais um tanto distantes da organização cotidiana. Assim, mesmo figuras como Lênin, Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo, embora profundamente envolvidos na política de sua época, dedicavam a maior parte de seu tempo à leitura, à escrita e a reuniões — e não ao chão de fábrica ou ao trabalho de organização propriamente dito.

A simples repetição de uma teoria de há 150 anos não nos permitirá compreender as particularidades do capitalismo de hoje.

Havia um elo que os conectava aos organizadores; eles estavam imbuídos dessa cultura, mas não eram, eles próprios, organizadores do chão de fábrica. Havia também figuras daquela época, como György Lukács ou Karl Korsch, que eram essencialmente apenas intelectuais. Todas essas pessoas tinham algo em comum: passavam grande parte do tempo lendo, refletindo, estudando e debatendo. Algumas estavam nas universidades, outras não, mas todas estavam institucionalmente afastadas do ativismo cotidiano.

Também na década de 1960, havia pessoas que integravam partidos comunistas, atuavam em institutos de pesquisa ligados a sindicatos ou — pela primeira vez na história — estavam nas universidades. As décadas de 1960 e 1970 marcaram o momento em que o marxismo se enraizou de fato nas universidades em larga escala. Em ambos os períodos, ele foi desenvolvido por pessoas que poderíamos chamar de intelectuais profissionais. Isso implica um determinado ambiente de classe. Tratava-se de indivíduos de origem e ambiente de classe média; portanto, ao assumirem o marxismo, eles estavam, na verdade, saindo da cultura de sua própria classe.

O que os levava a romper com essa cultura de classe? O crescimento explosivo do movimento operário. Tanto no início do século XX quanto nas décadas de 1960 e 1970, o traço comum foram as grandes convulsões sociais: movimentos operários, movimentos anticoloniais e o movimento antirracista — este último concentrado principalmente na classe trabalhadora, especificamente na classe trabalhadora negra e parda. Aquele foi, também, o último momento em que se viu uma explosão de ativismo trabalhista no mundo capitalista desenvolvido.

Esse fenômeno retirou intelectuais e acadêmicos de classe média de seu ambiente habitual e, de certa forma, os humanizou. Conferiu-lhes uma espécie de humanidade que acadêmicos normalmente não possuem. No fundo, acadêmicos não passam de burocratas glorificados. Basicamente, são burocratas que publicam artigos irrelevantes — coisas que ninguém jamais lerá — visando à promoção e à ascensão na carreira, sem qualquer reflexão real sobre como isso se conecta ao mundo ao seu redor.

Melissa Naschek

Isso me chama a atenção de modo particular; é algo que sempre me atraiu no marxismo. Aquela máxima de que o objetivo da teoria não é explicar o mundo, mas transformá-lo. Trata-se de uma teoria que não visa apenas apresentar ideias de forma abstrata, mas fornecer, de fato, informações que os organizadores possam utilizar. Isso pode parecer óbvio, mas, na realidade, a maior parte da produção teórica não se preocupa com esse aspecto.

Vivek Chibber

Não, e não há recompensa específica no meio acadêmico por realizar trabalhos socialmente relevantes. Assim, a maioria dos acadêmicos e jornalistas está inserida nesse ambiente de classe média, e sua motivação fundamental é a ascensão profissional — exatamente como ocorre com alguém que trabalha em uma seguradora, em uma imobiliária ou algo do gênero.

O que esses dois períodos tinham em comum, no entanto, era o fato de serem épocas de convulsão social; muitas pessoas de classe média foram atraídas para fora da cultura de sua classe e voltaram-se para o mundo. Além disso — caso tivessem a sorte de integrar ou conviver com organizações políticas, como partidos comunistas, sindicatos e partidos socialistas —, elas eram moldadas pela cultura dessas instituições a buscar tornar suas ideias relevantes para a realidade. Isso lhes dava a motivação para realmente questionar essas ideias e refletir profundamente sobre elas. Havia um número suficiente de pessoas nesse convívio para que pudessem estimular e cobrar umas às outras. Por fim, como havia tantos pensadores marxistas, o marxismo acabou se tornando algo relativamente comum, parte do debate principal.

Hoje, a maioria dos intelectuais e acadêmicos evita o marxismo por dois motivos: um é que ele não ajuda muito na carreira, e o outro é que causa certo constrangimento. Você se sente como um "ponto fora da curva"; a menos que tenha muita autoconfiança, uma comunidade ao seu redor ou esteja vinculado a uma organização ou algo semelhante, é difícil ser esse elemento destoante no ambiente. Assim, você acaba sendo assimilado aos poucos — e isso traz vantagens, pois a progressão na carreira acadêmica é melhor para quem não é marxista.

Foi por todos esses motivos que se observou um enorme florescimento da teoria marxista nesses dois períodos. Quando os movimentos trabalhistas perdem força e as instituições políticas, sindicatos e partidos são desmantelados, os acadêmicos são reabsorvidos pelo seu mundo de ascensão profissional e de desprezo geral pelos trabalhadores — sentimento comum à maioria das pessoas de classe média, certo? Foi isso o que se viu nas décadas de 1940, 1950 e 1960. E, a partir da década de 1990, o mesmo padrão se repetiu. Na década de 1990, as instituições acadêmicas e intelectuais já eram diferentes do que haviam sido nos anos 1950, pois não eram mais totalmente dominadas por homens brancos. Agora, essas instituições também contavam com a presença de mulheres e pessoas não brancas; elas começaram a perceber que não recebiam as mesmas vantagens que os homens brancos obtinham e passaram a desenvolver teorias e análises sociais fundamentalmente voltadas para suas experiências de discriminação, de barreiras invisíveis à ascensão profissional (o chamado "teto de vidro"), entre outras questões. Isso acabou se tornando o novo radicalismo.

Esse novo radicalismo era aquele em que o maior pecado não é a exploração. Não é a forma como os pobres são reduzidos a pó. O maior pecado passou a ser a discriminação, a apropriação cultural ou a falta de tratamento com o mesmo respeito dispensado a outros nesses ambientes de classe média. E qualquer pessoa que tente trazer a questão de classe para esse ambiente — para essa análise —, tentando redirecionar a atenção para aqueles que não conseguem suprir suas necessidades básicas e não possuem seguridade social ou emprego estável, é vista como uma ameaça a essa versão de radicalismo. Esse radicalismo está fixado, de forma quase exclusiva, nas dificuldades enfrentadas pelas classes profissionais cujas ambições e possibilidades de ascensão social estão sendo frustradas. É isso que se torna o novo radicalismo.

A ironia dessa mudança de foco, afastando-se da questão de classe, não reside no fato de ter colocado raça ou gênero acima da classe social. A ironia está em ter associado raça e gênero a um segmento específico dessas comunidades — um segmento de classe privilegiada. Portanto, não se trata de menosprezar o antirracismo em favor de uma política de classe; trata-se de constatar que a política de identidade transformou a política racial na visão de mundo de negros e pardos ricos, das classes profissionais e empresariais dentro das comunidades negra, latina e asiática.

Melissa Naschek

E seus interesses de classe específicos.

Vivek Chibber

O marxismo sempre foi antirracista. Sempre. O marxismo sempre combateu as relações de gênero patriarcais. Mas ele as conceituava e abordava de uma maneira que colocava em primeiro plano e promovia os interesses de pessoas de cor e mulheres pertencentes à classe trabalhadora. Isso significa que se tratava de uma perspectiva de classe sobre as identidades sociais.

O que a política de identidade fez foi reduzir raça, gênero e sexualidade à forma como essas questões eram vivenciadas por profissionais em ascensão social — tanto na academia quanto nas chamadas classes profissionais. Portanto, não se trata de ter substituído classe por raça. O que ocorreu foi a introdução de uma versão de raça que interessa apenas às elites. Introduziu-se uma versão de política de gênero que interessa apenas a mulheres profissionais e mulheres ricas. E isso significa que, para combater de fato e com mais eficácia a opressão de raça e gênero, é preciso abordá-las da maneira como a classe trabalhadora as vivencia. E a discriminação é apenas um pequeno componente daquilo que essas pessoas vivenciam.

Para as populações oprimidas — seja você mulher, pessoa de cor ou integrante de qualquer outro grupo —, a luta fundamental continua sendo por moradia, assistência médica, empregos, creches e coisas do gênero; questões que, para as classes profissionais, nunca foram problemas, pois elas já dispõem de tudo isso. Assim, elas concentram-se obsessivamente nos obstáculos a uma maior ascensão social, em vez de focarem em como a sua situação de classe, na verdade, agrava a sua situação de gênero e raça em comparação com aqueles que estão em ascensão social.

Isso não ocorria nas décadas de 1950 e 1960 — e não poderia ocorrer —, pois essas pessoas estavam sistematicamente excluídas de tais instituições sociais. É por isso que, hoje, o radicalismo não só é amplamente inútil para os trabalhadores, como estes também desprezam os radicais; afinal, os radicais passam a maior parte do tempo destilando desprezo pelas "massas ignaras" e querem manter a atenção voltada exclusivamente para as agruras daquilo que chamamos de classe profissional-gerencial. Essa é a essência da política de identidade. O que torna isso uma novidade hoje é o fato de ter ocupado o espaço de análise radical que antes pertencia a socialistas e marxistas. Enquanto essa forma de radicalismo for a que vemos na esquerda, a esquerda continuará sendo marginal, inútil e amplamente desprezada.

Colaborador

Vivek Chibber é professor de sociologia na Universidade de Nova York. Ele é editor da Catalyst: A Journal of Theory and Strategy.

Melissa Naschek é membro da Democratic Socialists of America.

10 de agosto de 2026

Como o capitalismo mina a democracia

Milton Friedman argumentava que o capitalismo era o habitat natural da democracia. Ele não poderia estar mais enganado.

Entrevista com
Vivek Chibber

Milton Friedman disse que o capitalismo era o solo ideal para a democracia. Na verdade, todos os direitos democráticos que temos foram conquistados contra as objecções da classe capitalista. (Arquivo de História Universal / Grupo de Imagens Universais via Getty Images)

Entrevista realizada por
Melissa Naschek

Pensadores libertários como Milton Friedman gostam de dizer que o capitalismo não apenas deu origem à democracia, mas também é o sistema econômico ideal para complementá-la. No entanto, embora o capitalismo possa ter criado as condições para a democracia, ele é, na verdade, o principal obstáculo para garantir direitos democráticos plenos.

Neste episódio mais recente do podcast Confronting Capitalism, da Jacobin Radio, Vivek Chibber e Melissa Naschek analisam as lutas dos trabalhadores que foram fundamentais para a ascensão da democracia e explicam por que a classe dominante se opõe a ela em um sistema estruturado em torno do lucro. Confronting Capitalism with Vivek Chibber é produzido pela Catalyst: A Journal of Theory and Strategy e publicado pela Jacobin. Você pode ouvir o episódio completo aqui.

Melissa Naschek

Tem havido muita discussão sobre o estado da democracia, particularmente nos Estados Unidos, mas também em todo o mundo. As pessoas estão muito preocupadas com a estabilidade da democracia no mundo capitalista moderno. Por isso, hoje, gostaria de analisarmos a relação geral entre capitalismo e democracia.

Vivek Chibber

A verdadeira natureza da relação entre capitalismo e democracia é uma questão absolutamente central. Historicamente, a esquerda tratou essa questão como um de seus temas fundamentais, mas a direita também o fez.

Se observarmos o livro Capitalismo e Liberdade, de Milton Friedman — uma das obras clássicas do pensamento neoliberal moderno —, veremos que ele apresentou um argumento muito forte a favor da conexão entre capitalismo e democracia. De muitas maneiras, ele ecoava certos tipos de argumentos marxistas ao afirmar que o capitalismo não é apenas compatível com a democracia, mas também o melhor sistema possível para ela. E ele fazia esse contraste tendo a União Soviética como contraponto.

Ao comparar as democracias liberais com a União Soviética, o argumento de Friedman torna-se fácil de sustentar. Em uma economia controlada pelo Estado, onde o governo planeja de forma autoritária — determinando aos produtores o que e quanto produzir e indicando, direta ou indiretamente, onde e quando a mão de obra deve trabalhar —, é impossível haver democracia, pois as escolhas básicas são controladas diretamente pelo governo.

Ele argumenta que, em um livre mercado, a liberdade de escolha econômica se traduz facilmente em liberdade de escolha política. Assim, sua obra transforma-se em uma defesa do capitalismo não apenas como um sistema eficiente, mas como o sistema que promove a liberdade em sua máxima extensão.

Melissa Naschek

Você concorda com Friedman que o capitalismo é o sistema econômico ideal para promover a democracia?

Vivek Chibber

Não, não é. Se fosse, não precisaríamos ser anticapitalistas. Como pessoas que buscam promover mais liberdade e mais democracia, acabamos também nos tornando anticapitalistas. Isso significa que apontamos falhas no capitalismo que minam sistematicamente as aspirações e os valores democráticos.

Dito isso, é correto afirmar que o capitalismo lançou as bases para a democracia. Portanto, precisamos examinar ambos os aspectos. Devemos começar por como o capitalismo estabeleceu os fundamentos da democracia e, em seguida, abordar por que, apesar disso, existem tensões significativas entre a economia capitalista e a política democrática.

Então, como o capitalismo lançou as bases para a democracia?

Para entender isso, é útil observar o que precedeu o capitalismo — quando não havia democracia — e por que os sistemas econômicos anteriores tornavam a democracia inviável. Esse sistema, na Europa e em grande parte do mundo não europeu, era o feudalismo.

A essência do feudalismo residia no fato de que as elites dominantes exerciam autoridade pessoal direta sobre os indivíduos do campesinato e suas famílias. Elas precisavam deter essa autoridade e poder individuais sobre eles, pois essa era a única maneira de extrair um excedente de sua produção.

Esses camponeses possuíam suas próprias terras. Tinham controle sobre elas, o que significava que podiam prover seu próprio alimento, abrigo e recursos básicos, sem jamais depender da nobreza feudal ou das classes proprietárias de terras do feudalismo. Se essas classes proprietárias desaparecessem, o campesinato continuaria bem — o que significa que não precisavam delas de forma alguma.

Então, como os senhores feudais extraíam excedente dos camponeses se estes não precisavam deles? Faziam isso por meio de ameaças físicas, coerção direta, exercício de direitos de monopólio e restrições à mobilidade do campesinato. Isso se acentuava na servidão, mas, mesmo sem ela, existiam diversas formas institucionalizadas de controle e autoridade sobre os camponeses, tornando a coerção e as ameaças físicas elementos absolutamente essenciais ao sistema.

Ora, quando se tem um sistema assim, a essência de um sistema democrático torna-se impossível. E qual é a essência de qualquer sistema democrático? A igualdade formal. A possibilidade de cada pessoa ter voz igual no sistema político.

O capitalismo no nascimento da democracia

Melissa Naschek

Em outras palavras, você está dizendo que, em um sistema feudal, uma autoridade estatal — ou algo análogo — é essencial para a extração do excedente.

Vivek Chibber

Seja na Índia, na China ou na Europa, uma característica comum a todos os sistemas feudais era que as classes proprietárias de terras locais detinham também o monopólio do poder e da autoridade política sobre seus camponeses. Os senhores podiam governar diretamente, conforme desejassem, nas localidades onde detinham poder; isso significava que os camponeses jamais poderiam ter os mesmos direitos políticos que os senhores. Era algo inviável. Se tivessem direitos políticos iguais, os senhores perderiam a capacidade de extrair deles o excedente.

Melissa Naschek

Comparando com os dias de hoje: imagine se o seu chefe tivesse controle total sobre onde você mora e o que faz no seu tempo livre, além de poder puni-lo fisicamente. É um sistema muito diferente.

Vivek Chibber

Imagine conceder direitos iguais aos trabalhadores nesse sistema. Seria impossível. O sistema entraria em colapso. Para que o sistema se sustentasse, a classe senhorial, como um todo, precisava negar aos camponeses até mesmo a possibilidade de direitos iguais.

O que acontece quando se transita para uma economia capitalista? A essência de uma economia capitalista é que os capitalistas detêm a propriedade dos meios de produção, ao passo que, no feudalismo, os camponeses tinham controle sobre os meios de produção.

Uma vez que os capitalistas assumem o controle dos meios de produção — sendo proprietários das fábricas e das terras —, os camponeses deixam de ter direitos sobre a terra. A única forma de sobrevivência para os trabalhadores — sejam agricultores, camponeses ou proletários — passa a ser buscar um emprego, pois eles não conseguem mais se sustentar em terras próprias. Eles não são proprietários da terra.

Buscar um emprego significa procurar empregadores dispostos a contratá-lo. Isso quer dizer que os empregadores não precisam exercer coerção ou restringir a mobilidade dos trabalhadores, como faziam no feudalismo. Os empregadores podem simplesmente aguardar que os trabalhadores — sejam rurais ou urbanos — venham até eles. Isso é realmente importante porque, como não é necessário recorrer à coerção física direta para levar essas pessoas ao trabalho, então — pelo menos em princípio — a concessão de direitos políticos formais a esses trabalhadores não prejudicaria nem comprometeria o processo de reprodução de classe. Isso não afetaria negativamente o poder econômico da classe patronal. É possível conceder poder político aos trabalhadores sem ameaçar o poder econômico dos empregadores. Já no feudalismo, conceder poder político aos camponeses teria aniquilado o poder econômico dos senhores.

Uma maneira de compreender isso é observar que, no capitalismo, existe — pelo menos em potencial — uma separação entre poder econômico e poder político. Em contrapartida, em todos os sistemas anteriores — escravidão, feudalismo, sistemas tributários —, a característica comum que os unia, apesar de suas muitas diferenças, era a fusão entre poder político e poder econômico.

Portanto, Friedman tem razão em certo sentido: o capitalismo realmente lança as bases para a democracia, pois a classe dominante no capitalismo — a classe capitalista — pode abrir mão do poder político direto sobre os indivíduos explorados sem, com isso, renunciar ao seu poder econômico ou perdê-lo.

A questão é: embora o capitalismo torne possível a democracia, ele é o sistema ideal ou o melhor sistema possível para ela? A resposta é não.

Melissa Naschek

Por que não?

Vivek Chibber

Vamos analisar os fatos. O capitalismo surgiu no noroeste da Europa entre o final do século XV e o início do século XVI, espalhando-se pelo restante da Europa e, posteriormente, pelo resto do mundo ao longo dos séculos.

Em suma, podemos dizer que o capitalismo já estava bastante consolidado no noroeste da Europa por volta de 1550. A democracia, por sua vez, só surgiu no início do século XX. Então, por que levou 350 anos?

Isso acontece porque, embora os capitalistas possam operar sem deter poder político direto, eles preferem muito mais exercê-lo, se possível. E esse é um ponto que precisa ser explorado. Qual é o papel da dominação política no capitalismo, se ela não é uma pré-condição para a existência do sistema?

Melissa Naschek

Acho importante também esclarecer de que tipos de dominação política estamos falando.

Vivek Chibber

Vamos começar pelo papel do poder político no capitalismo. No feudalismo, era preciso forçar fisicamente os camponeses a trabalhar para você, pois eles possuíam suas próprias terras. Por que eles iriam até as suas terras para realizar qualquer tipo de trabalho se não fossem obrigados?

No capitalismo, não é preciso forçar os trabalhadores a comparecer ao trabalho. Eles mesmos o procurarão, pois não têm outra forma de sobrevivência.

Isso pode dar a impressão de que os capitalistas não precisam mais de poder político sobre os trabalhadores, mas isso não é verdade. Em outros episódios, falei sobre o que a exploração implica. Para os trabalhadores, conseguir o emprego resolve um problema enorme: a obtenção de meios para sobreviver. No entanto, uma vez no trabalho, surge toda uma série de novos conflitos. O patrão tenta fazer com que trabalhem o mais rápido e o mais intensamente possível — muitas vezes em ritmos que são diretamente prejudiciais à saúde deles. Ele paga salários inferiores aos que eles gostariam e exige jornadas mais longas do que eles desejariam. Todos esses são aspectos do trabalho que eles consideram prejudiciais e inaceitáveis, gerando ressentimento. A reação natural deles ao chegar ao trabalho é empenhar-se apenas o estritamente necessário; ou seja, tentam se esquivar e poupar esforços, mantendo um ritmo e uma cadência de trabalho que lhes sejam menos desgastantes e prejudiciais do que aqueles desejados pelo chefe.

Melissa Naschek

Outro aspecto disso, que já discutimos anteriormente, é que, no capitalismo, os trabalhadores não são mais proprietários dos meios de produção. Isso significa que você não tem mais o direito de decidir como o trabalho é realizado. Você fica à mercê daqueles que detêm a propriedade desses meios e, portanto, perde o controle sobre o processo de produção.

Vivek Chibber

Devido a esse conflito de interesses, os empregadores não podem confiar que os trabalhadores entregarão a quantidade e a qualidade de trabalho desejadas. Como eles obtêm essa quantidade e qualidade? Curiosamente, apenas exercendo controle sobre esses trabalhadores. Que tipo de controle? É isso que a gestão faz.

Desde o início, houve uma tensão entre a possibilidade de uma democracia formal e a economia capitalista.

Embora você não force os trabalhadores a virem trabalhar para você, uma vez que eles estão no trabalho, é preciso comandá-los. É preciso fazer ameaças. A ameaça típica é: "Faça o que eu quero ou eu o demito". Mas há outras ameaças: "Faça o que eu quero ou reduzirei seu salário"; "Faça o que eu quero ou o colocarei em uma posição inferior na empresa". Existem várias formas pelas quais os empregadores precisam ameaçar seus trabalhadores.

A diferença em relação ao feudalismo é esta: no feudalismo, era preciso ir buscar os trabalhadores, trazê-los para a terra e forçá-los a trabalhar. Enquanto estavam na terra, eles trabalhavam praticamente no seu próprio ritmo.

No capitalismo, os capitalistas não precisam forçar os trabalhadores a vir trabalhar para eles; no entanto, uma vez no trabalho, precisam exercer autoridade para garantir que eles trabalhem no nível desejado. Os trabalhadores, por sua vez, tentam usar qualquer poder que possuam para ajustar o ritmo de trabalho aos seus próprios interesses — ao ritmo que preferem — e buscam utilizar seu poder e sua capacidade de negociação para obter melhores salários.

Isso significa que, no local de trabalho, trava-se uma disputa sobre quem detém mais poder, quem tem maior capacidade de negociação e quem pode definir as condições do trabalho. E isso significa que os capitalistas se empenham ao máximo para garantir que os trabalhadores não tenham qualquer poder de negociação no local de trabalho.

Ora, por que isso deveria importar para a democracia?

Um dos fatores que confere poder de negociação aos trabalhadores em conflitos trabalhistas são os direitos políticos. Se eles possuem direitos políticos — como, por exemplo, o de ter representantes próprios no governo —, esses representantes podem aprovar leis que protejam os trabalhadores no ambiente de trabalho. Uma dessas leis pode ser aquela que permite aos trabalhadores organizar sindicatos.

Durante os primeiros trezentos a quatrocentos anos da história do capitalismo, os sindicatos eram, de fato, ilegais. Por que eram ilegais? Basicamente porque os empregadores não queriam que seus trabalhadores tivessem o direito de se organizar e negociar coletivamente, visto que isso lhes conferia maior poder de negociação frente aos empregadores.

Havia também diversos outros direitos políticos que os trabalhadores poderiam ter exercido, incluindo o direito ao voto. Durante quase toda a história do capitalismo — e até um passado relativamente recente —, o direito ao voto foi negado aos trabalhadores. Por quê? Porque, se tivessem direito ao voto, eles elegeriam partidos e promoveriam leis que os colocariam em uma posição mais favorável para negociar com seus empregadores.

Ironicamente, embora o capitalismo tenha lançado as bases da democracia ao separar o poder econômico do político, enquanto os capitalistas podiam exercer o poder político de forma unilateral, eles o faziam com satisfação; afinal, isso lhes permitia exercer maior pressão sobre os trabalhadores no local de trabalho e extrair deles uma parcela maior do excedente.

Isso significa que, desde o início, houve uma tensão entre a possibilidade de uma democracia formal e a economia capitalista. Como essa tensão se manifestava, na prática? Ela se manifestava no fato de que os capitalistas, desde o surgimento do capitalismo, lutavam contra a igualdade política e os direitos formais de seus trabalhadores, pois isso afetaria a dinâmica de negociação entre as duas classes na economia.

Melissa Naschek

Então, como foi que conquistamos a democracia, afinal, se existe esse conflito dentro do capitalismo?

Vivek Chibber

Em outras palavras, de onde vem a democracia se os elementos mais poderosos da sociedade — os capitalistas — não querem realmente vê-la acontecer?

Deixe-me reiterar isso. Em todos os países, sempre que vimos a democracia surgir, o fator constante foi a oposição das elites econômicas e dos empresários a ela. Isso ocorreu no Sul Global, na Ásia, no Oriente Médio, na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos. A pergunta, então, é: como se conquistou a democracia?

E a resposta é que pessoas comuns lutaram por ela de forma longa e árdua. Vemos as lutas pelo que hoje chamaríamos de democracia formal propriamente dita — isto é, sufrágio universal e direitos políticos. Isso começa na Europa do século XVII, com a Revolução Inglesa de 1640. Depois, vemos isso na Revolução Francesa e na Revolução Americana. Mas esses foram apenas os maiores momentos de explosão dessas demandas.

O que se observa, na verdade, é uma demanda e uma luta constantes e ininterruptas por direitos democráticos por parte das classes trabalhadoras, desde o início do capitalismo. E foi somente no início do século XX que surgiu o que hoje reconheceríamos como democracia: proteções básicas aos direitos individuais e o sufrágio universal.

De onde veio a democracia? Ela começou com movimentos vindos de baixo. Mas não é coincidência que a velocidade com que os direitos democráticos são conquistados ganhe força real nas décadas de 1880 e 1890. Foi nessa época que nasceu o movimento sindical moderno.

São os trabalhadores que têm interesse em obter direitos democráticos, pois a classe trabalhadora precisava da democracia para se defender das elites, tanto no local de trabalho quanto fora dele. No entanto, enquanto não conseguiam se organizar como classe por meio do movimento sindical, tinham pouquíssimos meios de realmente alcançar esse objetivo.

Entre 1880 e 1920 — após quase trezentos anos de reivindicações democráticas —, ocorre uma rápida aceleração do movimento em direção aos direitos democráticos modernos propriamente ditos. Isso aconteceu porque foi o movimento sindical moderno que realmente conseguiu concretizá-los. Assim, ironicamente, Friedman tem razão em um ponto: há algo no capitalismo que tornou a democracia possível. Mas o que ele não diz — e deveria ter dito — é que, para que essa possibilidade se concretizasse, foi preciso superar o poder da classe central ao capitalismo: a classe dos capitalistas.

Marx sobre a democracia

Melissa Naschek

Se são realmente os trabalhadores os responsáveis ​​pela democracia moderna, por que até mesmo marxistas anteriores — incluindo o próprio Karl Marx — afirmavam que foram os capitalistas e a burguesia os responsáveis ​​pela criação da democracia?

Vivek Chibber

É uma pergunta interessante. Marx, de fato, sustentava a ideia de que os momentos decisivos na trajetória rumo à democracia ocorreram no que se chamou de revoluções burguesas — as revoluções de 1640 e 1688 na Inglaterra, de 1776 nos Estados Unidos e de 1789 na França. Ele realmente acreditava que a burguesia desempenhou um papel fundamental ao colocar a democracia na pauta.

Ele também percebeu — em parte por meio de sua própria experiência pessoal — que, embora a burguesia pudesse ter colocado a democracia na pauta ao eliminar o poder feudal, ao incluir a igualdade de direitos na agenda política e até mesmo ao lutar por direitos políticos, ela restringiu o alcance desses direitos. E foi a classe trabalhadora que tomou esses direitos para si e os universalizou. Ele via isso claramente.

Vale ressaltar que ele não escreveu muito sobre as revoluções burguesas. Se reunirmos todos os escritos de Marx sobre as revoluções burguesas, o conteúdo total equivaleria, talvez, a oitenta ou noventa páginas de um livro atual. E isso já é uma estimativa generosa.

Até que os trabalhadores pudessem se organizar como classe por meio do movimento sindical, eles dispunham de pouquíssimos meios para alcançar a democracia.

No entanto, após ele escrever isso — e com o advento da Segunda e da Terceira Internacional —, a ideia da burguesia revolucionária (que Marx sempre defendeu com certa cautela) cristalizou-se como uma ortodoxia. Em vez de se reconhecer que a burguesia lutava por uma concepção restrita de direitos, passou-se a acreditar que foi a burguesia quem, de fato, trouxe a democracia. A ideia era que a burguesia havia lutado pela democracia e instaurado o liberalismo, o qual foi, então, concedido à classe trabalhadora.

Ao analisar a história do pensamento marxista, creio que Marx pode ser criticado até certo ponto; contudo, é sobretudo a partir da geração de Karl Kautsky e Vladimir Lenin — e especialmente ao chegarmos à década de 1930 — que essa visão se consolidou em uma narrativa na qual a classe trabalhadora está praticamente ausente, cabendo à burguesia ascendente o papel de instaurar a democracia.

Embora isso exima Marx de certa responsabilidade, devo ressaltar que ele, de fato, exagerou o papel da burguesia, mesmo dentro do sentido limitado em que estava disposto a reconhecê-la. É verdade que a Revolução Francesa colocou os direitos democráticos em pauta e que uma noção restrita de democracia foi efetivamente promulgada. No entanto, aqueles que exigiam e lutavam por isso nunca foram a burguesia.

A burguesia, tal como concebemos essa classe — a classe capitalista que emprega mão de obra e busca maximizar lucros —, não existia realmente na França daquela época. O que se denominava "burguesia" correspondia ao que hoje chamamos de classes profissionais.

Ora, ao observarmos as classes profissionais de hoje, não surpreende que as classes profissionais daquela época desejassem certo grau de democracia; afinal, elas buscavam um sistema baseado na ascensão por mérito, no qual cargos políticos não pudessem ser comprados e onde as elites tivessem alguma participação no sistema, sem que este ficasse restrito à nobreza e à aristocracia. Isso não é surpreendente, pois a classe média atual também deseja essas mesmas coisas.

Contudo, assim como a classe média de hoje, a classe média daquela época nutria um profundo desprezo pelas pessoas comuns. As classes profissionais francesas não lutaram pela democracia em prol daqueles que estavam abaixo delas na hierarquia social. O que Marx fez foi reconhecer esses limites, mas ele caracterizou e classificou erroneamente essa classe de profissionais como burguesa. Portanto, em sentido estrito, ele não apenas se equivocou ao atribuir à burguesia o papel de lutar por uma democracia limitada; ele também se equivocou em sua visão de que sequer existia uma burguesia na França em 1789.

Este é mais um caso em que se pode recorrer ao registro histórico para corrigir Marx e os marxistas — mas tal correção acaba se aproximando mais das premissas fundamentais da teoria marxista do que das afirmações feitas por Marx e seus seguidores.

O capitalismo contra a democracia

Melissa Naschek

Você disse que, no que diz respeito a como conquistamos a democracia, os capitalistas não apenas não lutaram por ela, mas, na verdade — devido ao seu conflito direto com os trabalhadores —, lutaram contra a democracia. Mas há uma questão distinta: uma vez estabelecida a democracia, ela é compatível com o capitalismo a ponto de o capitalismo sustentá-la?

Vivek Chibber

Ela certamente continua sendo compatível, mas a tensão subjacente nunca desaparece, o que significa que a democracia está sempre sob ameaça no capitalismo. Ela está sempre em perigo.

A razão para isso remete àquela mesma tensão subjacente de que falei. Os capitalistas são movidos por uma única coisa: a maximização do lucro. Eles consideram que uma classe trabalhadora com plenos direitos políticos, possuindo seu próprio partido e instituições políticas, é, na verdade, um obstáculo para o cenário que idealmente desejariam: ter poder total sobre o que acontece no local de trabalho, sobre como os salários são definidos, sobre como os trabalhadores vivem suas vidas e sobre que tipo de reivindicações eles podem fazer.

Melissa Naschek

Mesmo depois de a democracia estar estabelecida, os capitalistas nunca desistem de minar as instituições que conferem poder aos trabalhadores no sistema político.

Vivek Chibber

Assim, mesmo após a democracia estar estabelecida, os capitalistas nunca desistem de minar as instituições que dão aos trabalhadores acesso e poder no sistema político. Eles continuam a lutar contra os sindicatos e a corroer o poder sindical. Tentam enfraquecer os partidos da classe trabalhadora. E, claro, tentam, de todas as formas possíveis, restringir o exercício efetivo do direito ao voto.

Como eles podem restringi-lo? Aumentando os obstáculos para que os trabalhadores votem, restringindo o acesso ao sistema político e dificultando o registro eleitoral das pessoas. Todas essas medidas fazem parte do repertório da burguesia.

E, nos casos em que as pessoas comuns não conseguem exercer efetivamente um contrapeso à influência capitalista, vemos as instituições que permitem à classe trabalhadora acessar o sistema serem enfraquecidas — e, com isso, a participação dos trabalhadores também é reduzida.

Uma vez que isso ocorre, o resultado é um poder ainda maior e inconteste do capital dentro do Estado, dos partidos políticos e do sistema político. E isso significa que as democracias se tornam menos saudáveis. Elas tendem a se transformar em oligarquias.

É um fato amplamente estabelecido na ciência política que as democracias mais saudáveis ​​são aquelas que possuem instituições robustas voltadas para os trabalhadores. O que queremos dizer com democracias saudáveis? Pode-se medir aspectos como: qual é o nível de participação dos eleitores? Em que medida as leis realmente refletem as preferências das pessoas comuns? Qual é o grau de participação dessas pessoas no sistema político? Tudo isso pode ser quantificado. E observamos, de modo geral, que em todos os países onde as pessoas comuns dispõem de instituições próprias e robustas — sindicatos, partidos políticos próprios, associações de bairro e iniciativas semelhantes — obtêm-se resultados políticos melhores e mais democráticos.

Nos países onde as instituições dos trabalhadores são mais frágeis — onde os partidos de esquerda, os partidos trabalhistas e os sindicatos são fracos ou inexistentes —, observa-se uma dominação praticamente total do sistema político e do Estado pelo capital; trata-se, portanto, de uma situação que se assemelha a uma oligarquia. Esse desequilíbrio entre trabalhadores e capitalistas no sistema político é arquitetado e mantido pelos capitalistas na medida de suas possibilidades; isso significa que a tensão entre um sistema democrático saudável e plenamente funcional, de um lado, e o capitalismo como sistema econômico e os incentivos que ele gera, de outro, jamais desaparece de fato.

Melissa Naschek

Existe alguma maneira de dizer o quão democrática é a nossa sociedade atual? E a democracia é uma questão de quantidade versus qualidade?

Vivek Chibber

A democracia é sempre uma questão de qualidade, mas existe uma forma de avaliar quantitativamente qual é essa qualidade. A maneira convencional de medir esses aspectos envolve quem participa das instituições democráticas, a intensidade dessa participação e em que medida as leis refletem as preferências e os desejos das pessoas.

Então, se olharmos para os Estados Unidos, por exemplo, quem participa da democracia?

Existem algumas formas de medir isso. Uma delas é o comparecimento às urnas. E o que vemos é que o comparecimento eleitoral nos EUA é muito baixo, o que significa que a democracia não vai bem. Muitas pessoas não participam. Mas, indo além, essa participação é desigual em função da renda. Não é que 70% das pessoas não participem e que isso ocorra de forma aleatória; o fato é que os 70% mais pobres não participam. Portanto, não se trata apenas de baixa participação, mas de uma participação concentrada nos ricos e de uma não participação dos pobres.

Melissa Naschek

Podemos ir um passo além e analisar o comportamento associativo político. Profissionais liberais e a classe alta são muito mais organizados politicamente. Uma porcentagem bem maior deles integra organizações políticas capazes de defender seus interesses, em comparação com a classe trabalhadora e as pessoas pobres.

Vivek Chibber

E há outras medidas de engajamento político, como a frequência com que se entra em contato com o representante político. Qual é o nível de interação com eles? Novamente, há uma enorme disparidade relacionada à renda nesse aspecto também. Outra medida diz respeito aos recursos. Quem faz doações aos candidatos? Qual é o valor doado? Mais uma vez, são os ricos que mais doam aos candidatos. São os ricos que exercem maior influência sobre eles.

Também é possível medir a origem do dinheiro — de quais famílias e de qual nível de renda provêm esses recursos. Mais uma vez, isso é fortemente condicionado pela renda. A terceira medida, e a mais contundente, consiste em analisar as leis aprovadas: é possível ponderá-las, compará-las com pesquisas de opinião e verificar se elas refletem as preferências das pessoas. Vou lhe dar um exemplo muito bom. Há cinquenta anos, observamos em praticamente todas as pesquisas de opinião que uma grande maioria — chegando a uma supermaioria — dos americanos deseja um sistema nacional de saúde que seja gratuito e acessível. Durante todo esse período, não houve sequer o menor movimento nessa direção. Todas as políticas de saúde foram voltadas para descartar essa alternativa específica.

Esse é apenas um exemplo, mas existem muitos outros. Há uma literatura muito sólida demonstrando que, ao comparar os resultados das políticas públicas com as preferências dos americanos, esses resultados correspondem quase exatamente às preferências dos 10% mais ricos da população, não tendo praticamente nenhuma relação com as preferências dos 50% mais pobres.

Todas essas são formas de medir quantitativamente a qualidade da democracia. E, em todos esses critérios, os Estados Unidos constituem um caso atípico. É, de longe, o país menos democrático do mundo capitalista avançado.

Capitalismo e Autoritarismo

Melissa Naschek

Você está falando sobre como um sistema capitalista se presta a um sistema oligárquico de governo. Também podemos dar um passo adiante em direção a uma forma autoritária de governo. Isso é algo que também podemos atribuir ao capitalismo, ou é uma questão separada dos tipos de tensões de que está a falar?

Vivek Chibber

Não, penso que em todas as economias políticas capitalistas existe um impulso muito forte em direcção ao autoritarismo, a menos que seja controlado pelas instituições políticas dos trabalhadores comuns.

Esta era de retrocesso democrático tem uma característica comum em todo o mundo: surgiu após o declínio da esquerda. O que queremos dizer com isso?

A Esquerda sempre foi sustentada por dois tipos de coisas: partidos políticos robustos que lutaram pelos direitos dos trabalhadores e instituições económicas como sindicatos e organizações de agricultores e camponeses. Todas essas coisas foram desmanteladas na era neoliberal. E à medida que foram desmantelados, o que significou foi que a capacidade das pessoas comuns se unirem para lutar pelos seus interesses no sistema económico e na política foi grandemente reduzida.

A atual era de retrocesso democrático é uma consequência direta da ofensiva burguesa contra as instituições políticas e econômicas da classe trabalhadora.

Isso não deveria nos surpreender: esse era o ponto principal. O objectivo do neoliberalismo era reduzir o poder dos trabalhadores para que as elites económicas pudessem recuperar todos os privilégios no local de trabalho e fora do local de trabalho que tinham nos dias tranquilos antes do movimento sindical.

Melissa Naschek

É irónico que Milton Friedman, basicamente o pai filosófico do neoliberalismo, seja quem esteja a falar sobre como o capitalismo sustenta a democracia. Enquanto isso, ele defende um sistema que o ataca sistematicamente.

Vivek Chibber

Este era o complemento ideológico da agenda económica que tinham. Você destrói a capacidade das pessoas comuns de realmente influenciar e qualquer tipo de entrada no sistema político, ao mesmo tempo em que lhes diz que estão no melhor sistema possível.

Melissa Naschek

Certo. Contanto que você chame isso de “grátis” e continue gritando isso sem parar, acho que as pessoas não deveriam perceber que seus direitos estão sendo retirados e suas vidas estão piorando.

Vivek Chibber

Diga-lhes que são livres para serem mandados, livres para serem precários, livres para fazerem quaisquer escolhas, comprarem o que quiserem com o dinheiro que não têm.

Assim, uma vez desmanteladas todas estas instituições, não deverá ser nenhuma surpresa que o grau de corrupção no sistema político, a captura da elite, a distorção de todas as leis em favor dos interesses da elite, a completa evisceração da rede de segurança social – tudo isso venha a seguir.

Depois disso, não deveria ser surpresa que o que recebemos das massas votantes seja uma onda de cinismo, raiva e desânimo, porque o que eles vêem é que, embora tenham todos os direitos formais da democracia, a sua capacidade de participar efectivamente foi-lhes tirada. Essa capacidade sempre dependeu da existência de algum tipo de instituição colectiva que os unisse e lhes permitisse dar voz a quaisquer preferências e necessidades que tivessem. A era do retrocesso democrático de hoje é uma consequência directa do ataque burguês às instituições políticas e económicas dos trabalhadores.

Os democratas e a democracia

Melissa Naschek

É interessante que você mencione a corrupção, porque quando falamos sobre o atual retrocesso democrático e as lutas atuais para salvar a democracia, há uma grande divisão na política americana. Há uma ideia de que os liberais são aqueles que lutam contra a corrupção – ou seja, Donald Trump – e que os conservadores e os republicanos são aqueles que são pelo menos permissivos e, no máximo, facilitadores activos da corrupção. Então, isso significa que os Democratas são, de certa forma, mais antagónicos à classe capitalista, porque estão a lutar contra esta coisa?

Vivek Chibber

Não, não acho que isso signifique isso. O que isto significa é que os Democratas estão mais preocupados com o ataque descarado e nu às instituições burguesas, enquanto os Republicanos estão mais dispostos a acompanhá-lo. Ambos os partidos têm participado na destruição e no desmantelamento de instituições políticas básicas, o que torna inevitável a captura pelas elites e as formas comuns de corrupção.

Uma forma aberta e flagrante de corrupção é o financiamento de campanhas. A forma como o financiamento de campanhas funciona hoje é legal e, nesse sentido, não é tecnicamente corrupta, mas é a influência mais corruptora que existe na política. Quando se trata de financiamento de campanha, ambas as partes estão apegadas a ele com total fidelidade.

Os Democratas não têm intenção de lutar contra os pilares da corrupção política neste país. A diferença é de nuance. Os democratas não querem tornar isso feio. Eles não querem ficar nus e expostos, ao passo que a facção Trump do Partido Republicano não tem problemas com isso.

Quero ser claro sobre isto: não é que Trump faça coisas que os democratas não fazem. É que ele faz mais disso. Até mesmo coisas como beneficiar-se de informações privilegiadas e ganhar dinheiro com o mercado de ações – Nancy Pelosi estava fazendo a mesma coisa. É que ela não jogou isso na sua cara. Ela não fez isso abertamente. Trump faz isso abertamente.

Melissa Naschek

Um bom exemplo disso foi mostrado apenas na Copa do Mundo, onde Trump participou muito claramente de alguma interferência em jogos com Gianni Infantino, o chefe da FIFA. Tentei explicar aos amigos que não são fãs ávidos de futebol e que não sabem nada sobre a FIFA que o que aconteceu aqui é apenas que Trump está orgulhoso disso e está falando sobre isso em voz alta. Mas a realidade é que a FIFA é basicamente uma organização criminosa e todos participam na corrupção. Geralmente eles tentam esconder isso. A diferença com Trump é apenas que ele tem orgulho disso.

Vivek Chibber

Sim, e esta não é uma diferença trivial, mas é uma pequena diferença.

Melissa Naschek

Porque isso prejudica sua narrativa. Como você está dizendo, deveria haver esse brilho nas instituições burguesas dentro da democracia, porque a democracia deveria estar lá para dizer: “Ei, você não está sendo tão dominado; você tem uma palavra a dizer nisso”. Então essa imagem é importante na sociedade.

Vivek Chibber

Uma forma de colocar isto é que os democratas se preocupam com a legitimidade e Trump se preocupa simplesmente com o poder. Ele não se importa com o poder legítimo. Ele apenas pensa: “Enquanto eu tiver poder, não me importo se isso é legítimo”. Os democratas fazem basicamente as mesmas coisas que Trump faz, mas gostariam de fazê-lo discretamente. Eles não querem fazer disso um grande espetáculo.

Mas o que isso significa para alguém como nós é que depositar fé nos Democratas como um partido que irá restaurar a democracia popular – a participação de cidadãos comuns nas instituições de um governo democrático – é um erro fatal, porque o declínio da democracia americana tem sido uma questão bipartidária. Ambas as partes participaram. Eles apenas diferem na forma como descaradamente fazem esses ataques.

Legitimidade e capitalismo

Melissa Naschek

De uma perspectiva mais ampla, qual é a relação entre legitimidade, capitalismo e democracia? Quão importante é que as massas acreditem viver em uma sociedade democrática?

Vivek Chibber

Minha visão — e não creio que seja a mais difundida na esquerda — é que isso não é tão importante assim. Existe uma tradição de longa data na esquerda segundo a qual o Estado capitalista requer o consentimento ativo das massas, e que isso, por sua vez, pressupõe que elas vejam o Estado como legítimo. Mas, se isso for verdade, supõe-se que, uma vez que o Estado burguês perca a legitimidade, ele se tornará instável.

Ora, a minha opinião é que, para as massas trabalhadoras do nosso tempo, o Estado burguês não tem gozado de muita legitimidade, pois tem sido um Estado neoliberal que corta tudo, retira tudo dos trabalhadores e destrói suas famílias e instituições. E a famosa frase de Margaret Thatcher, creio eu, sintetiza a visão burguesa: "Não há alternativa".

O declínio da democracia americana tem sido um processo envolvendo os dois partidos.

A visão de esquerda de que o Estado burguês exige legitimidade baseia-se em uma premissa oculta: a de que, se ele perder a legitimidade, entrará em colapso ou será derrubado. Mas, na verdade, ele não tem legitimidade há bastante tempo e permanece muito estável. A razão para isso é que, mesmo que as pessoas comuns não vejam o sistema como algo excelente e não lhe concedam seu consentimento, elas não conseguem se livrar dele a menos que superem problemas básicos de ação coletiva e mobilização social. E esses problemas são avassaladores.

Quando o Estado perde a legitimidade, em vez de as pessoas se unirem para derrubá-lo — caso não disponham das instituições necessárias para essa união e para a prática política —, elas acabam resistindo da maneira que lhes é possível; ou seja, uma forma de resistência muito individual, e não coletiva. E, se você resiste individualmente, sempre acaba perdendo.

A segunda reação, ao perceberem que só acumulamos derrotas, é tornar-se cínico e desistir de participar. Qual é a característica marcante da política americana hoje? A não participação. E essa não participação concentra-se entre os mais pobres da sociedade.

Foi isso que Trump acabou percebendo. O que ele diz é: "Não há nada que possam fazer para me deter. Posso fazer o que quiser". E ele não está errado.

Melissa Naschek

Isso me faz pensar em como as teorias da conspiração e o pensamento conspiratório se tornaram proeminentes em nossa cultura política atual.

Vivek Chibber

As conspirações são uma arma dos fracos. Quando as forças estruturais são tão avassaladoras que é impossível enfrentá-las, recorre-se à ideia de que são indivíduos, camarilhas ou grupos restritos que comandam tudo, em vez de perceber que, na realidade, é o próprio sistema que move as engrenagens.
Reconstruindo a Democracia

Melissa Naschek

Então, se vivemos em uma sociedade caracterizada por essa tensão insolúvel entre o capitalismo, de um lado, e a democracia e o empoderamento da maioria, de outro, como a democracia pode ser sustentada e, talvez, até fortalecida dentro do capitalismo?

Vivek Chibber

Tudo o que dissemos até agora aponta para a resposta óbvia. Uma democracia é saudável quando reflete as aspirações, os desejos e os interesses de todos os seus cidadãos, e não apenas de uma pequena minoria. E, para que isso aconteça, é preciso haver instituições que ampliem a capacidade de participação das pessoas.

A razão pela qual digo que são necessárias instituições para isso é a seguinte: toda participação democrática exige esforço e recursos. Para ir votar, é preciso tirar um dia de folga do trabalho. Para se unir em torno de interesses comuns, é preciso poder conversar com as pessoas e realizar algum tipo de deliberação com elas. Para votar de forma consciente, é preciso ter acesso a informações: quem são os candidatos? O que eles defendem? Quem lutará pelos meus interesses?

Em todos esses processos de deliberação, os ricos têm uma vantagem intrínseca sobre os pobres. Se você é rico, pode contratar alguém para buscar informações para você. Se é rico, pode forçar os partidos políticos a virem até você, pois é você quem fornece o dinheiro para que eles operem. Se você é um capitalista, tem o poder de simplesmente aguardar que os partidos o procurem, já que todos eles dependem do seu investimento e do seu comportamento como investidor. Se você é rico, pode ser a pessoa que financia os candidatos ou que entra em contato direto com eles; e, se não quiser fazer isso pessoalmente, pode contratar alguém para fazê-lo.

De todas essas formas, os ricos estão em uma posição privilegiada para exercer influência e participar individualmente. Já os pobres, por não disporem de recursos para buscar informações, reunir-se e deliberar, precisam de instituições que os auxiliem nessas tarefas. Era exatamente isso que os partidos políticos e os sindicatos faziam no passado.

Os sindicatos ofereciam aos trabalhadores um espaço — a sede sindical — onde podiam discutir quem estava concorrendo aos cargos públicos. Eles disseminavam informações, orientando as pessoas sobre em quem confiar. Muitas vezes, lançavam seus próprios candidatos com a promessa de lutar pelos interesses da categoria. Assim, permitiam que os trabalhadores superassem as limitações de recursos que restringiam sua participação.

Quando essas instituições deixam de existir, os pobres ficam entregues à própria sorte dentro do sistema político. Eles não têm absolutamente nenhuma maneira de igualar o poder dos ricos.

Uma vez que se retiram instituições como sindicatos e partidos trabalhistas, as pessoas pobres ficam entregues à própria sorte no sistema político.

Isso significa que, se você quer que os trabalhadores tenham algo próximo da mesma influência que os ricos, é preciso fortalecer suas instituições tradicionais — partidos, sindicatos, associações cívicas, clubes de trabalhadores e coisas do gênero. Isso exige mobilização política. É disso que precisaremos agora.

No capitalismo, a tendência natural do sistema é a captura política pelos ricos. Isso significa que ele tende a ser um sistema antidemocrático. Mesmo que se tenha direitos plenos e igualdade formal, o sistema será totalmente dominado pelos ricos.

Para contrapor essa influência dos ricos, são necessárias instituições dos pobres — especificamente dos pobres, voltadas para eles e que representem e articulem suas necessidades. Essas são as mesmas instituições que a esquerda social-democrata e socialista construiu ao longo de oitenta anos e que agora foram desmanteladas.

Ironicamente, não precisamos construir instituições trabalhistas apenas para lutar, digamos, pelo socialismo ou mesmo pela social-democracia. Precisamos dessas instituições simplesmente para ter um capitalismo melhor e uma democracia melhor dentro do capitalismo. E é por isso que liberais e socialistas deveriam lutar do mesmo lado. Pois, se você é um liberal de verdade, interessado em uma democracia capitalista robusta, deveria apoiar os sindicatos. Deveria lutar por um partido trabalhista, em vez dessas instituições oligárquicas que temos hoje.

Colaboradores

Vivek Chibber é professor de sociologia na Universidade de Nova York. Ele é editor da Catalyst: A Journal of Theory and Strategy.

Melissa Naschek é membro da organização Democratic Socialists of America (Socialistas Democráticos da América).

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A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...