5 de janeiro de 2020

Parar a Guerra. Parar o império norte-americano

Os Estados Unidos não têm o direito de bombardear países, derrubar governos ou assassinar funcionários de outros estados, embora eles têm feito isso há tanto tempo que essas práticas passaram a ser amplamente aceitas como naturais.

Greg Shupak


O presidente Donald Trump fala na cerimônia de assinatura da Lei de Autorização de Defesa Nacional para o ano fiscal de 2020 em 20 de dezembro de 2019 em Joint Base Andrews, Maryland. (Tasos Katopodis / Getty Images)

Tradução / Para parar uma guerra, é necessário ser claro sobre as suas causas.

Em um ato criminoso, os Estados Unidos assassinaram Qassem Soleimani, o oficial militar mais importante do Irã e uma das pessoas mais poderosas do país, além de Abu Mahdi al-Muhandis, vice-comandante das Forças de Mobilização Popular do Iraque (PMF), aliadas com o Irã, junto com outras oito pessoas.

Posteriormente, um ataque aéreo dos EUA, ostensivamente dirigido a um comandante da PMF, matou seis pessoas, algumas das quais eram médicos, e deixou outras três gravemente feridas.

Tudo isso aconteceu menos de uma semana depois que os Estados Unidos bombardearam o Iraque e a Síria, supostamente matando 25 e ferindo 55, quatro deles comandantes das Brigadas do Hezbollah, um participante importante da PMF. A justificativa oferecida para isso era que um empreiteiro dos EUA e vários membros das forças armadas dos EUA foram mortos em um aparente ataque de foguete pelo qual Washington culpou as Brigadas do Hezbollah.

Os iraquianos responderam a esses atentados invadindo a embaixada dos EUA em Bagdá e exigindo que os oficiais americanos deixassem o país. Os Estados Unidos tentaram justificar sua onda de assassinatos em curso, alegando que o PMF e Soleimani planejaram os protestos – como se, depois de trinta anos de terror norte-americano, os iraquianos precisassem de uma conspiração externa para levá-los à ira contra os Estados Unidos. O fato de que Washington precisou de apenas dois dias da década de 2020 para estender sua série de bombardeios ao Iraque pela quarta década consecutiva revela a barbárie não adulterada do imperialismo americano.

Enquanto isso, a classe dominante americana está efetivamente em guerra contra o povo iraniano desde que os Estados Unidos realizaram um golpe contra o primeiro-ministro reformista democraticamente eleito do país, Mohammad Mossadegh, em 1953. Os Estados Unidos sustentaram a impiedosa ditadura do Xá, um aliado crucial na Guerra Fria, de 1953 até que foi deposto na Revolução Islâmica de 1979. O Irã se tornou independente da garra da morte de Washington, e os Estados Unidos tentaram transformá-lo novamente em um estado vassalo, financiando exilados iranianos e ajudando a invasão de Saddam Hussein e o uso de sarin e gás mostarda contra o Irã.

Os Estados Unidos estrangularam a economia iraniana por anos, incluindo o período em que o acordo nuclear do governo Obama com o Irã estava em vigor. Embora o Irã tenha cumprido com o acordo, Trump o interrompeu e intensificou as sanções, enfraquecendo a economia iraniana, impedindo que chegasse a ajuda às vítimas de inundações em massa e privando os iranianos de alimentos e medicamentos a ponto de matar pacientes com câncer. Durante anos, os Estados Unidos têm trabalhado para construir um agrupamento beligerante anti-Irã que inclui Israel – que tem um histórico de assassinato de cientistas iranianos – e monarquias árabes reacionárias, entre elas o chefe da Arábia Saudita.

Que não haja dúvida: se o antagonismo EUA-Irã explodir, será por causa desse longo registro de agressão norte-americana. O Irã não derrubou o que se passa por democracia americana, não forçou uma ditadura nos EUA, não ajudou uma invasão ao país, não participou de uma guerra química contra os Estados Unidos ou destruiu a economia dos EUA. As forças armadas americanas têm cinquenta e três bases militares e, a partir de setembro, entre sessenta mil a setenta mil soldados à porta do Irã; na última verificação, o Irã não tem bases ou soldados no Canadá ou México.

Está claro, portanto, quem precisa ser combatido para parar os combates.

Os sinais de que a guerra de longa data dos Estados Unidos contra o Irã se tornará um conflito militar de maior escala são nefastas: o governo Trump está enviando mais três mil soldados para o Oriente Médio, além dos 650 que anunciou estar implementando no Ano Novo. Exortou todos os seus cidadãos a deixarem o Iraque. Os preços do petróleo subiram e o valor das ações da Northrop Grumman, Lockheed Martin e outros aproveitadores da guerra se recuperaram.

O que está em jogo no momento atual é a conflagração regional em grande escala. Inúmeras vidas estão em risco não apenas no Iraque e no Irã, mas também no Líbano, Palestina, Síria e Iêmen, pois o Irã e os Estados Unidos têm parceiros em todos esses lugares. Afinal, a função do Irã como um obstáculo aos projetos dos EUA-Arábia Saudita-Israel em toda a região é a razão central da violência da classe dominante dos EUA contra o Irã. É praticamente impossível para o povo dessas ou de outras nações construir uma vida política e econômica melhor para si quando enfrenta a ameaça de aniquilação imperialista.

Os Estados Unidos não têm o direito de bombardear outros países, tentar derrubar governos ou assassinar oficiais de outros Estados, embora estejam praticando tais desgraças há tanto tempo que essas práticas passaram a ser amplamente aceitas como naturais.

Vamos trabalhar dura para reverter esse processo. Organizem-se nos seus locais de trabalho. Organizem-se no seu bairro e na sua escola. Não sejamos sectários. Sejamos solidários com aqueles que vivem sob a arma do império, especialmente com aqueles que resistem. Parem a Guerra.

Sobre o autor

Greg Shupak ensina Estudos de Mídia na Universidade de Guelph, no Canadá. Ele é autor de The Wrong Story: Palestine, Israel, and the Media (OR Books).

Quando o neoliberalismo sequestrou os direitos humanos

Quando os arquitetos do neoliberalismo montaram sua nova ordem econômica em Mont Pelerin, eles atrelaram uma visão moral a ela. Cooptando os conceitos outrora revolucionários de direitos humanos universais, os neoliberais remodelaram a ideia de liberdade, vinculando-a fundamentalmente ao mercado livre e transformando-a em uma arma a ser usada contra projetos anticoloniais em todo o mundo.

Jeanne Morefield

Jacobin

Primeiro encontro da Sociedade Mont Pelerin, em 1947, com os fundadores Friedrich Hayek e Ludwig von Mises. Foto: Sociedade Mont Pelerin

Tradução / Jessica Whyte inicia A Moralidade do Mercado com uma anedota sobre o incêndio da Torre Grenfell em 2017, no Reino Unido – uma anedota que é simultaneamente horripilante em sua grosseria e suavemente familiar. Na esteira daquele incêndio devastador que matou 71 pessoas e que deixou centenas de desabrigados, Jeremy Corbyn sugeriu, de maneira razoável, que propriedades vazias, voltadas à especulação, nesse bairro de classe alta de West London poderiam ser requisitadas para abrigar os sobreviventes que então dormiam no chão de igrejas, mesquitas, e salões locais.

A ousadia dessa proposta gerou indignação entre os proprietários e investidores. Isso levou o “nobre” Daniel Finkelstein, membro do Partido Conservador, a comparar Corbyn a Hugo Chávez em um artigo de opinião para o Times, onde argumentava que a solução para a crise do Grenfell estaria na lei britânica sobre os Direitos Humanos. A proteção aos direitos humanos existiria, continuou ele, exatamente para ocasiões como essa: para que as pessoas “possam ter garantida a sua liberdade individual – neste caso, a sua propriedade – quando a vontade popular estiver contra elas”.

Seria fácil, observa Whyte em sua introdução, descartar o uso da linguagem dos direitos humanos por Finkelstein como totalmente cínica e oportunista, uma resposta muito comum entre os acadêmicos quando confrontados com a hipocrisia de figuras públicas como Finkelstein, Niall Ferguson ou Thomas Friedman. Tal rejeição, no entanto, deixa de compreender a forma como a visão de Finkelstein sobre os direitos humanos faz parte de “uma longa linhagem entre os políticos e autores neoliberais”. De fato, como demonstra Whyte, essa compreensão neoliberal sobre os direitos humanos evoluiu historicamente lado a lado e mantendo relações com os “verdadeiros” direitos humanos que a primeira vista pareceriam aderir mais logicamente a uma tragédia como o incêndio de Grenfell: o direito à moradia adequada ou o direito à água e ao saneamento.

A Moralidade do Mercado, portanto, rastreia e analisa esse desenvolvimento entrelaçado, enfatizando as “relações históricas e conceituais entre direitos humanos e neoliberalismo” que surgiram na esteira da Segunda Guerra Mundial e que afirmaram seu passo nas décadas de 1970 e 1980. Em vez de tratar os direitos humanos e o neoliberalismo como duas lógicas globais distintas – uma que seria melhor expressa nas palavras da Declaração Universal dos Direitos Humanos (UDHR), e a outra, na declaração fulminante de Margaret Thatcher de que “não há alternativa” à austeridade – Whyte joga luz sobre como os direitos humanos “se tornaram a ideologia dominante de um período marcado pelo fim das utopias revolucionárias e da política socialista”.

Muito bem escrito, teoricamente sofisticado e portando uma crítica feroz, tudo ao mesmo tempo, o livro de Whyte segue o efluxo dessa ideologia, desde suas origens na década de 1940, passando pelo período do pós-guerra, o envolvimento dos Chicago Boys com o Chile durante a ditadura de Pinochet, a ascensão da Anistia Internacional e o perverso anti-terceiro-mundismo e antiestatismo das ONGs de direitos humanos na década de 1980. Claro, ela não é a primeira pesquisadora acadêmica a questionar a conveniente sobreposição entre direitos humanos e neoliberalismo. Samuel Moyn, por exemplo, descreve os direitos humanos como “companheiros impotentes” de uma agenda econômica neoliberal global. Da mesma forma, Wendy Brown observou em 2004 que o neoliberalismo e os direitos humanos parecem “convergir tranquilamente” para legitimar uma agenda imperialista de livre comércio global.

Mas nem Moyn nem Brown fazem um questionamento completo sobre essa convergência, e o resultado é um enigma persistente – nas palavras de Moyn, uma sensação de que a política neoliberal das ONGs de direitos humanos do final do século XX teria surgido “aparentemente do nada”. No caso de Brown, a excelente relação que ela observa entre o neoliberalismo e os direitos humanos é simplesmente contradita por sua reivindicação mais comum, presente em Undoing the Demos e em outros lugares: que o neoliberalismo seria, como explica Whyte, “expressamente amoral no nível dos fins e dos meios,” uma ideologia que se baseia exclusivamente em uma descrição da essência humana na forma do homo economicus. Em contraste, argumenta Whyte, o que “distinguiu os neoliberais do século XX de seus precursores do século XIX” não foi “uma compreensão estreita do ser humano como homo economicus, mas a crença de que um mercado competitivo em funcionamento exigia uma base moral e jurídica adequada.” Explorar as origens dessa compreensão moral durante a década de 1940 e vinculá-lo a uma visão distintamente neoliberal dos direitos humanos, argumenta ela, ajuda a iluminar o quebra-cabeça dos direitos humanos neoliberais no final do século.

Ao combinar a investigação histórica com a crítica teórica, o relato de Whyte explica como os direitos humanos neoliberais não surgiram “do nada”, mas, em vez disso, fluíram de uma tradição neoliberal de longa data, muito consciente de si, de forjar conexões retóricas entre a moralidade do mercado e os direitos humanos. O fato de que hoje vivemos em um mundo onde os direitos humanos das vítimas da Torre Grenfell – em sua maioria moradores negros de uma unidade de moradia social com falhas de projeto – são considerados no mesmo nível dos direitos humanos dos ausentes proprietários investindo em imóveis em bairros ricos sugere o quão bem-sucedida foi a fusão ideológica de esses dois mundos conceituais.

Whyte, então, começa seu livro levando seus leitores de volta a 1947, o momento em que “a Comissão de Direitos Humanos da ONU se reunia pela primeira vez no Lago Sucesso”. Nesse mesmo momento, “um grupo de economistas, filósofos e historiadores se reunia do outro lado do Atlântico, na vila de Mont Pèlerin, nos alpes suíços, para considerar os princípios que poderiam dar ânimo a uma nova ordem liberal”. Ela argumenta que, ao contrário dos defensores mais tradicionais da economia de laissez-faire do século XIX, os primeiros fundadores da Sociedade Mont Pelerin Society, como Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, acreditavam que preservar a integridade do mercado exigia sancionar certos tipos de intervenção estatal.

Entretanto, a diferenciar entre aquilo que eles viam como tipos ruins de intervenção estatal (por exemplo, intervenções para redistribuir riqueza e para financiar serviços sociais) e tipos bons de intervenção (por exemplo, intervenção para forçar a privatização de bens públicos ou para proibir a nacionalização de recursos naturais) exigia o cultivo de uma legislação e um ordem moral de mercado distintas. Em outras palavras, estabelecer uma linha entre os modos bons e modos ruins de controle pelo Estado exigia que os fundadores de Mont Pelerin teorizassem uma visão extra-econômica, uma ordem moral em que “sua própria versão dos direitos humanos” pudesse servir como “suporte moral e legal” para um Estado que pudesse intervir estrategicamente e se retirar quando necessário. Essa agenda produziu uma ladainha de equivalências ideológicas tortas que hoje equivalem a truísmos morais neoliberais. Por exemplo:

  • A política é sempre violenta, mas o mercado é sempre pacífico.
  • A liberdade só é possível em uma sociedade de mercado.
  • A dignidade humana e a desigualdade humana não estão em contradição.
  • Totalitarismo e redistribuição inevitavelmente caminham de mãos dadas.
  • O imperialismo não é o estágio mais alto do capitalismo.

A compreensão dos direitos humanos desenvolvida pelos pensadores de Mont Pelerin refletia esses truísmos e, argumenta Whyte, provavelmente era o que Milton Friedman tinha em mente em 1992, quando afirmou que “sem dúvidas” o propósito original da sociedade era “promover um filosofia liberal clássica, isto é, uma economia livre, uma sociedade livre – no âmbito social, civil nos direitos humanos.” Novamente, como com a reação crassa de Finkelstein diante do incêndio de Grenfell, é tentador repudiar Friedman – esse amante de Pinochet – como um mero hipócrita. Mas Whyte insiste que dispensar Friedman nesse ponto significa perder uma oportunidade vital de aprender mais sobre a lógica interna em ação em uma noção de direitos humanos que, neste ponto da história, se tornou dominante (até mesmo auto-evidente) para muitas ONGs de direitos humanos.

Conforme o primeiro capítulo ilumina, os neoliberais em Mont Pelerin elaboraram sua abordagem para os direitos humanos em uma relação tensa com a Comissão da ONU, usando uma linguagem que espelhava a linguagem do preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Juntamente dos autores da UDHR, eles declaravam “a dignidade humana e a liberdade” como os “valores centrais da civilização” e temiam que esses valores atualmente estivessem em perigo.

Porém, como revela a exploração de arquivos feita por Whyte, para os pensadores de Pelerin, a palavra “civilização” não era apenas explicitamente ocidental e racializada – com suas bases reputadas em “Grécia, Roma e Cristianismo” e no “individualismo básico” associado a “Erasmus, Montaigne, Cícero, Tácito, Péricles e Tucídides ” Também implicava num compromisso com o capitalismo de livre mercado que, argumentavam os pensadores de Mont Pelerin, estaria na época ameaçado tanto pelo comunismo soviético quanto pela possibilidade muito real de que Estados emergindo do jugo do imperialismo europeu – da violência dos colonos, extração de recursos, expropriação de terras, tributação predatória – pudesse então escolher mover-se em direções distintamente anti-capitalistas.

A análise histórica de Whyte expõe como os fundadores de Mont Pelerin estabeleciam conexões explícitas entre, por exemplo, os valores da “civilização” e a lógica imperialista do sistema de mandato da Liga das Nações, que alegava dar apoio aos “povos ainda incapazes de se sustentarem por si mesmos sob as árduas condições do mundo moderno”, impondo sobre eles políticas comerciais de “portas abertas”. Como Whyte demonstra, os neoliberais aperfeiçoaram sua abordagem da “liberdade” como um direito humano, a vinculando diretamente à liberdade do mercado em relação ao controle estatal – que então eles usaram para esfolar os governos pós-coloniais que tentaram, por exemplo, nacionalizar seus recursos naturais.

A Moralidade do Mercado, portanto, ilumina os elos de uma cadeia ideológica entre a acumulação de capital no colonialismo europeu, o surgimento dos direitos humanos neoliberais na década de 1940, o triunfo de uma agenda econômica neoliberal global nas décadas de 1970/80 e o simultâneo sucesso de ONGs de direitos humanos, como Anistia Internacional e a Médicos Sem Fronteiras (MSF), durante o mesmo período.

No capítulo mais devastador do livro (e, portanto, inevitavelmente, o mais controverso), Whyte explora as conexões que se desenvolveram em meados da década de 1980 entre o Médicos Sem Fronteira e seu “centro de pesquisa”, o profundamente neoliberal Liberté sans Frontières (“Liberdade Sem Fronteiras”, ou LSF). O centro foi estabelecido, demonstra Whyte, para desafiar “as afirmações de soberania e autodeterminação econômica pós-coloniais” dos argumentos terceiro-mundistas da época. Partindo da mesma lógica que levou Fanon a observar que “a Europa é literalmente a criação do Terceiro Mundo”, o Terceiro-Mundismo – como um movimento e escola de pensamento – tinha como objetivo abordar a profunda disparidade de riquezas e recursos globais causada por centenas de anos de saques europeus. E, no entanto, mesmo a iteração institucional moderada do Terceiro-Mundismo, sancionada pela ONU, a Nova Ordem Econômica Internacional (NIEO) era radical demais para a LSF e seus aliados neoliberais. A LSF produziu panfletos criticando o NIEO “por promover teses ‘simplistas’ que colocavam a culpa pelo subdesenvolvimento” no Ocidente.

Enquanto lançavam descrédito sobre o Terceiro-Mundismo, argumenta Whyte, essas ONGs também dobravam a aposta no enquadramento neoliberal de “liberdade” como liberdade em relação a intervenção e coerção pelo Estado. Além disso, juntamente da Anistia Internacional, a MSF e a LSF ecoavam a convicção neoliberal de que a política era inerentemente mais propensa à violência do que a sociedade civil (de mercado) que, se estruturada da maneira correta, promoveria liberdade, paz e prosperidade. Whyte mostra de forma convincente que, em vez de servir como “companheiros impotentes” do neoliberalismo, as principais ONGs de direitos humanos dessa época abraçaram ativamente uma abordagem neoliberal da liberdade, associada a uma suspeita neoliberal em relação à política, que avidamente transferia a totalidade da culpa pela violência, pela instabilidade e pobreza do Terceiro Mundo aos próprios Estados do Terceiro Mundo. Além disso, a adesão aos direitos humanos neoliberais pelas ONGs dava, nas palavras de Whyte, uma “fachada progressista” à agenda anti-terceiro-mundista de organizações como o FMI, o Banco Mundial e as grandes potências que apoiavam suas políticas de austeridade abusiva.

Essa “fachada progressista” era especialmente útil para acalmar as consciências dos liberais progressistas metropolitanos que – na esteira do Vietnã, do genocídio no Camboja e outras formas obviamente imperialistas de intervencionismo dos EUA – andavam se sentindo um pouco nauseados sobre a relação pós-colonial do Ocidente com o resto do mundo. Finalmente, defende Whyte, seu apoio a uma noção de “liberdade” limitada e proscrita pelo mercado tornou essas ONGs cúmplices na promoção da ofuscação neoliberal da verdadeira “coerção e intervenção política” necessárias para sustentar “relações existentes de mercado ‘livres’.”

Em última análise, A Moralidade do Mercado não só lança luz sobre as conexões entre o neoliberalismo e os direitos humanos, mas também abre a porta para os tipos de questionamentos históricos e políticos ao imperialismo estadunidense na era pós-colonial, que são absolutamente essenciais neste momento da história global. Desde suas primeiras intervenções orquestradas pela CIA no Oriente Médio e na América Latina, os EUA têm trabalhado ativamente para derrubar os governos de dezenas de Estados ao longo da era supostamente pós-colonial, muitas vezes trabalhando de mãos dadas (como no Chile) com os autoritários mais perniciosos e oponentes neoliberais da nacionalização e redistribuição.

Embora possa ser tentador se juntar às fileiras de intelectuais públicos como John Ikenberry, Michael Ignatieff e Anne-Marie Slaughter enquanto eles se encolhem de horror diante do espectro de Donald Trump e a ascensão do nacionalismo branco global – agarrando-se cada vez mais firmemente às pérolas de uma ordem mundial liberal eternamente ingênua – tais respostas não fazem nada para desafiar a bolha de invisibilidade possibilitada pelo mito da Pax Americana.

A brilhante pesquisa de Whyte corta essa visão como uma foice, expondo a violência e a feiura sustentada por uma ordem mundial liberal na qual o neoliberalismo e os direitos humanos trabalham em conjunto para sustentar uma política tóxica de deflexão. No fim das contas, somente quando chegarmos a um termo com essa cumplicidade histórica será possível imaginar um tipo diferente de política de direitos humanos para o futuro.

Sobre a autora

Jeanne Morefield faz parte do Quincy Institute for Responsible Statecraft e é professora sênior do departamento de ciência política e estudos internacionais da Universidade de Birmingham.

3 de janeiro de 2020

Para não perder a década na política

Iniciamos 2020 com queda do gasto social e tentativa de intervenção nas universidades

Nelson Barbosa

Folha de S.Paulo

No segundo semestre, o consumo das famílias é apontado como o principal motor da aceleração da atividade econômica. Mantido esse ritmo no próximo ano, a expectativa é que esse seja o primeiro componente da demanda a voltar aos níveis verificados antes da recessão de meados da década. Jefferson Coppola/TBA/Folha S.Paulo

Entramos nos anos 20. A virada simultânea de ano e indicador decenal levou vários analistas a avaliar nossa nova “década perdida”, pois os anos 80 e 90 do século passado também não foram bons em crescimento econômico.

Porém, se utilizarmos o padrão histórico correto, o século 21 começou em 2001 e a segunda década deste século só acabará no final de 2020. Dado que a expectativa média do mercado é de crescimento de 2,3% neste ano, cabe perguntar: será isto suficiente para salvar a década? A resposta é não.

Tomando o PIB per capita como referência, a atual expectativa de crescimento pouco alterará a estagnação prevista para 2011-20. Traduzindo do economês, em 2020 a renda média por habitante do Brasil retornará ao nível de 2010. Para piorar, como houve aumento da desigualdade no período, isto significa redução da renda real dos mais pobres.

Mesmo que a economia surpreenda positivamente (tomara), crescendo 3% neste ano, ainda assim teremos nossa segunda pior década desde que temos dados sobre o PIB per capita do Brasil.

Coloquei todos os números no blog do Ibre/FGV. Nesta coluna me concentrarei no período pós 1980.

Com base nos dados do IBGE, o PIB per capita teve queda acumulada de 3,9% em 1981-90. Em outras palavras, em 1990 estávamos quase 4% mais pobres do que em 1980.

O retrocesso econômico foi parcialmente compensado pelo avanço da democracia, dado que voltamos a ter eleições diretas para presidente nos anos 1980 e encerramos o período com uma nova Constituição e previsão de ampliação da rede de proteção social.

Apesar dos pesares a situação melhorou nos dez anos seguintes, em 1991-00, quando houve expansão de 18,1% na renda real por habitante.

O crescimento foi facilitado pelo cenário externo favorável durante a maior parte do período, que por sua vez viabilizou a estabilização da economia (Plano Real).

Como a redução da inflação beneficiou relativamente mais os mais pobres, também houve redução da desigualdade na “década tucana”. Difícil considerar os anos 1990 como década perdida neste aspecto.

A situação melhorou mais ainda na primeira década deste século, em 2001-10, quando registramos expansão de 27,8% (o “milagrinho” econômico) novamente em um cenário externo quase sempre bem favorável.

Na “década petista” houve aceleração da renda e redução mais rápida da desigualdade, com materialização de vários direitos previstos na Constituição de 1988, via aumento da rede de proteção social e maior acesso a crédito, educação e a empregos com carteira assinada (o “Brasil de Todos” do PT).

Diante do quadro acima, nosso desempenho em 2011-20 é decepcionante, sobretudo quando consideramos o retrocesso político dos últimos anos. Enquanto na década perdida de 1981-10 tivemos redemocratização e “Constituição Cidadã”, hoje temos tendências autoritárias e desmonte da rede proteção social.

Como exemplos, lembro que iniciamos 2020 com previsão de nova queda real do gasto social do governo por habitante, tentativa de intervenção do Planalto nas universidades federais (MP 914) e retomada da guerra jurídica contra a esquerda, vide a nova decisão da Justiça contra o ex-Presidente Lula e a ação da CGU contra Sergio Gabrielli (ex-Presidente da Petrobras).

Diante destes sinais, podemos esperar por mais ataques à democracia neste ano. Para não perder a década também na política, precisaremos de mais mobilização social, pacífica e dentro da lei, contra o obscurantismo em curso. O primeiro passo é repelir a intervenção na educação.

Sobre o autor

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research.

Donald Trump e o establishment da política externa querem guerra com o Irã

Tudo que Donald Trump fez desde que assumiu o cargo aproximou os EUA de uma guerra com o Irã. O caos no Iraque e o assassinato de Qassem Soleimani empurram o país novamente para um atoleiro catastrófico e torna o mundo um lugar menos seguro.

Derek Davison


President Donald Trump waves after speaking at a White House Mental Health Summit on December 19, 2019 in Washington, DC. (Drew Angerer / Getty Images)

Tradução / Deixe-me oferecer esta observação geral no terceiro dia do novo ano, pois, em 2020, não há tempo para perder. A Turquia pode estar prestes a enviar soldados para a Líbia. A Coréia do Norte pode estar planejando algo grande e provocador. Os líderes do sul do Iêmen se retiraram das negociações de paz com o governo do Iêmen, potencialmente reabrindo nova trincheira de guerra no Iêmen. O Talibã pode estar prestes a declarar um cessar-fogo no Afeganistão... ou, pode ser que não. A Austrália está rapidamente se tornando inabitável, enquanto seu primeiro ministro, um negacionista das mudanças climáticas, fica apenas assistindo.

E, agora, Donald Trump pode finalmente ter começado uma guerra de verdade com o Irã.

Uma história que começou quinta-feira à noite com relatos incompletos sobre um ou possivelmente dois ataques de mísseis fora do aeroporto de Bagdá se transformou em um relatório confirmado de que os Estados Unidos mataram o comandante da Força Quds iraniana Qassem Soleimani em Bagdá. No mesmo ataque com drones, os Estados Unidos também mataram Abu Mahdi al-Muhandis, vice-líder do Comitê de Mobilização Popular do Iraque (PMC), o órgão que supervisiona as inúmeras facções das milícias do Iraque. Embora tecnicamente o vice-chefe do PMC, al-Muhandis também era o líder da milícia mais influente do Iraque, o Kata’ib Hezbollah, o que o transformava na figura mais poderosa da comunidade das milícias iraquianas. Sua morte é uma enorme escalada na última crise política do Iraque, que discutiremos aqui. Mas, obviamente, sua morte e suas repercussões são totalmente ofuscadas pela de Soleimani.

Se você acompanhou os desenvolvimentos dos últimos dois meses, sabe que o Iraque está à beira do caos completo, com manifestantes irritados com a corrupção, a ineficácia do governo e a influência estrangeira (principalmente via Teerã), tomando as ruas para exigir mudanças políticas gerais. A resposta violenta do governo iraquiano, a maioria provavelmente liderada pelas milícias da Mobilização Popular, deixou centenas de pessoas mortas e forçou a renúncia do primeiro-ministro iraquiano Adil Abdul-Mahdi. Mas a política iraquiana está tão quebrada que Abdul-Mahdi permanece no cargo de primeiro ministro interino porque os líderes políticos iraquianos não conseguiram chegar a um acordo. Isso é central para entender o contexto os acontecimentos recentes.

Em paralelo ao colapso político do Iraque, o país passou por uma escalada de violência envolvendo as milícias. Isso, provavelmente, inclui a morte de manifestantes, mas também inclui ataques esporádicos de foguetes contra bases militares iraquianas, onde estão posicionadas as forças estadunidenses, e também inclui ataques aéreos esporádicos, não atribuídos, mas provavelmente realizados por Israel (e/ou Arábia Saudita, mas provavelmente Israel), alvejando bases de milícias e esconderijos de armas. Os líderes da milícia culparam os Estados Unidos por ajudarem ou, pelo menos, permitirem esses ataques.

O contexto final aqui é a crescente tensão entre os Estados Unidos e o Irã desde que o governo Trump rompeu no ano passado o acordo nuclear feito com o Irã em 2015, o que já levou a vários incidentes violentos no Golfo Pérsico e ao redor. Seria impossível recapitular toda essa saga aqui, mas o principal fato a ser lembrado é que a instabilidade que tomou conta dessa região nos últimos meses decorre da decisão do governo estadunidense de cancelar um acordo internacional que a) estava funcionando e b) oferecia um caminho fácil para diminuir as tensões entre EUA e Irã para estabilizar o Golfo Pérsico.

Isso nos leva a 27 de dezembro, quando um desses ataques de foguetes esporádicos atingiu uma base militar iraquiana em Kirkuk e matou um empreiteiro civil americano, ferindo vários funcionários estadunidenses e iraquianos. Até onde sei, “empreiteiro civil” poderia abranger qualquer coisa, desde um funcionário de escritório até um oficial de segurança mercenário que não havia se envolvido em combate. Ou seja, um cidadão americano foi morto e os Estados Unidos determinaram que a Kata’ib Hezbollah — que foi fundada em 2003, se tornando uma das principais milícias que resistiram à ocupação americana no Iraque no pós-guerra e que enviou combatentes para ajudar Bashar al-Assad na Síria — estava por trás do ataque. E assim revidou, atingindo cinco alvos do Kata’ib Hezbollah no Iraque e na Síria no fim de semana. O Kata’ib Hezbollah disse que pelo menos vinte e quatro integrantes do seu pessoal foram mortos nos ataques, e al-Muhandis prometeu algum tipo de resposta.

A resposta inicial veio na segunda-feira por parte do governo iraquiano, que de maneira furiosa, condenou os ataques dos EUA como, antes de tudo, uma violação da soberania iraquiana. O que sustenta essa condenação é o profundo e muito compreensível medo iraquiano de que uma guerra entre os Estados Unidos e o Irã (e seus representantes) cause mais danos ao Iraque do que em qualquer outro lugar. O governo estadunidense rejeitou as queixas dos iraquianos com uma queixa própria, acusando o governo iraquiano de não ter protegido seu pessoal.

A resposta maior ocorreu no decorrer de segunda e terça-feira, quando uma multidão de combatentes e apoiadores do Kata’ib Hezbollah tentaram invadir a embaixada dos EUA em Bagdá. Eles tentaram iniciar incêndios, mas foram impedidos de invadir o prédio pela segurança. Talvez o fato principal seja que dois atores importantes da política iraquiana — o clérigo populista Muqtada al-Sadr e o grande aiatolá Ali al-Sistani se juntaram à multidão na condenação do ataque norte-americano. Al-Sadr pediu à multidão que parasse de atacar a embaixada e disse que usaria meios políticos para tentar forçar os Estados Unidos a sair do Iraque. Nem Al-Sadr nem Al-Sistani podem ser descritos como “pró-Estados Unidos”, mas ambos andavam muito mais preocupados com a interferência iraniana nos assuntos iraquianos nos últimos meses. Os ataques aéreos estadunidenses parecem ter mudado isso.

Agora, os Estados Unidos mataram al-Muhandis e Soleimani, uma das figuras mais poderosas e populares do Irã, que tinha perdido parte de seu brilho nos últimos dois anos, mas que ainda era uma das duas ou três pessoas cuja influência dentro do Irã era ofuscada apenas pela do seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Obviamente, é muito cedo para saber quais serão as consequências, mas é inconcebível que o governo iraniano não retalie de alguma maneira, e essa retaliação não precisa vir na forma de uma guerra em grande escala. Seus representantes em toda a região, do Paquistão ao Líbano, passando por Israel-Palestina, podem realizar muitos ataques de retaliação contra os interesses dos Estados Unidos e de seus aliados.

Também é inconcebível que o governo iraquiano vá permitir que as coisas fiquem por isso mesmo. Deixando de lado a dependência política de Teerã por Bagdá, esta é a segunda vez em questão de dias que os Estados Unidos tratam a soberania iraquiana como uma piada, e desta vez isso resultou no assassinato de um alto funcionário iraquiano e de uma alta autoridade oficial iraniana que estava sob a garantia de segurança iraquiana. Há uma possibilidade muito forte de que o governo iraquiano exija a desocupação completa das Forças Armadas estadunidenses no país, e se a segurança do pessoal diplomático e de suas famílias na embaixada dos EUA em Bagdá já estava em perigo antes, esse risco foi ampliado consideravelmente.

Também deve ser enfatizado que tudo o que vier a seguir será de responsabilidade de um presidente dos EUA que se diz antiguerra, que afirma entender que a Guerra do Iraque foi incrivelmente estúpida e vingativa e que ainda assim pode ter provocado um conflito ainda mais catastrófico. Tudo o que ele fez desde que assumiu o cargo aproximou os Estados Unidos da guerra com o Irã, para a alegria do establishment de política externa de Washington, que busca exatamente isso há mais de quarenta anos.

É verdade, indubitavelmente, que, como vem reiterando repetidamente na TV o desfile de supostos especialistas desde o incidente, poucas pessoas fora do Irã e alguns poucos locais no Oriente Médio lamentarão a morte de Soleimani. Porém, seu assassinato não é, como Donald Trump certamente reivindicou, um feito espetacular do poderio militar estadunidense. Soleimani não estava escondido como Osama bin Laden ou Abu Bakr al-Baghdadi. Matá-lo foi relativamente fácil, mas também foi extremamente estúpido. Soleimani é agora um mártir do bullying americano e sua morte quase certamente tornará o Oriente Médio ainda menos seguro.

Sobre o autor

Derek Davison é um autor e analista especializado no Oriente Médio e política externa estadunidense.

Os incêndios na Austrália nos dão um vislumbre do que está por vir

Enquanto o país queima, o governo conservador reafirma seu compromisso com a produção de carvão e trava uma guerra ideológica contra os ativistas climáticos. Mas à medida que a crise se aprofunda, a barbárie climática não é mais uma opção.

Jeff Sparrow


Dois incêndios florestais se aproximam de uma casa localizada nos arredores da cidade de Bargo em 21 de dezembro de 2019 em Sydney, Austrália. (David Gray / Getty Images)

Tradução / Enquanto o país queima, o governo conservador reafirma seu compromisso com a produção de carvão e trava uma guerra ideológica contra os ativistas climáticos. Mas à medida que a crise se aprofunda, a barbárie climática não é mais uma ameaça futura, é a realidade atual.

Dois incêndios florestais se aproximam de uma casa localizada nos arredores da cidade de Bargo em 21 de dezembro de 2019 em Sydney, Austrália. (David Gray / Getty Images)

A catástrofe ambiental que está ocorrendo na Austrália oferece uma visão estarrecedora da “nova normalidade” que o mundo está enfrentando. Incêndios florestais desde setembro já incineraram mais de 11,3 milhões de acres, uma área maior que a Holanda. Na última contagem, 18 pessoas morreram e mais de mil casas foram destruídas.

A fumaça amarela paira quase que permanentemente nas grandes cidades, uma nuvem tão tóxica que causou o colapso de uma idosa e que morreu depois com problemas respiratórios ao pisar na pista do aeroporto de Canberra. Milhões de australianos estão sendo expostos a partículas cancerígenas; respirar o ar de Sydney foi descrito como o equivalente a fumar trinta e quatro cigarros por dia.

Entre a devastação, quase meio bilhão de animais morreram, incluindo uma proporção considerável dos coalas de Nova Gales do Sul. Certamente, espécies inteiras foram exterminadas, pois o fogo varreu os ecossistemas nunca antes expostos a chamas.

As cenas das áreas afetadas tornaram-se cada vez mais apocalípticas. Dezenas de milhares de residentes rurais permanecem sem energia. Um estado de emergência prevalece em New South Wales, o terceiro declarado nos últimos meses. Nas zonas de desastre, as pessoas ainda aguardam extração por navios da marinha.

Quase certamente, o pior está por vir. No momento da redação deste artigo, cerca de 150 incêndios estão em chamas, e os meteorologistas esperam um clima quente e tempestuoso nos próximos dias. E com dois meses restantes do verão, há mais por vir.

Naufrago climático
Os incêndios florestais não são uma novidade na Austrália, mas o aumento da temperatura num mundo em aquecimento os torna mais quentes, mais intensos e mais difíceis de combater. Além de chegar em lugares mais longínquos.

Tudo isso está de acordo com as tendências internacionais e com previsões específicas para a Austrália. Em 2007, por exemplo, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (ecoando vários relatórios australianos) alertou que “ondas de calor e incêndios certamente aumentam em intensidade e frequência”.

Diante destes avisos, a Austrália aumentou a taxa e a magnitude da extração e consumo de carbono. O país agora se classifica como o terceiro maior exportador de combustíveis fósseis (apenas atrás da Rússia e da Arábia Saudita). Além disso, recentemente desempenhou um papel descomunal no colapso das negociações climáticas da COP 25, onde a insistência australiana em reivindicar os chamados créditos de transição ajudou a impedir uma busca por metas mais ambiciosas.

Ao mesmo tempo, o governo, federal e estadual, quer que a gigante multinacional Adani abra sua vasta mina de carvão Carmichael em Queensland, um projeto que facilitará a extração de gás de xisto na bacia de Beetaloo, no Território do Norte, e novos empreendimentos de carvão e gás no norte de Bowen, na Bacias da Galiléia, adicionando 4,6 bilhões de toneladas de poluição de carbono à atmosfera.

“É sem precedentes”, diz o analista de gás Bruce Robertson. “Esta é o maior número de projetos de combustíveis fósseis que já vi na minha vida. . . Eles estão acelerando o desenvolvimento de combustíveis fósseis em um ritmo que nunca vi. A balança é alucinante.”

No ano passado – o mais quente da história australiana até este ano, com temperaturas de 1,52 graus Celsius acima da média – o governo concedeu aprovação ambiental à empresa norueguesa de energia Equinor para um poço de petróleo na Great Australian Bight, um importante viveiro de baleias.

Carvão e trollagem
Oentusiasmo pessoal do primeiro-ministro Scott Morrison pelo carvão – ele certa vez exibiu um pedaço do material no parlamento – explica sua estranha insatisfação com a atual crise.

Em novembro, quando o comissário do Serviço de Bombeiros Rurais da NSW, Shane Fitzsimmons, alertou sobre condições “catastróficas” que arriscavam “territórios inexplorados”, Morrison usou seu twitter para enviar “pensamentos e orações” às vítimas dos incêndios – seguindo o slogan twittando uma foto sua em um local esportivo de Brisbane. “Será um ótimo verão para o críquete”, disse ele, “e para nossos bombeiros e comunidades afetadas pelo fogo, tenho certeza de que nossos meninos lhes darão algo para se animar”.

Em dezembro, quando a situação piorou, Morrison não pôde ser encontrado – até os jornalistas o localizarem de férias no Havaí. Uma foto amplamente divulgada o mostrava de short, segurando uma cerveja e gesticulando para a câmera.

Eventualmente envergonhado em voltar para casa, ele organizou uma festa de véspera de Ano Novo para jogadores de críquete em sua residência oficial e fez um discurso peculiar no qual ele novamente apresentou os fogos como pano de fundo para o esporte de verão.

Alguns atribuíram a resposta vazia de Morrison ao seu pentecostalismo, sugerindo que ele entende as chamas como divinamente ordenadas. Mas seu comportamento é melhor compreendido em relação à crescente dependência do conservadorismo australiano na guerra cultural como um meio de fazer política.

Quando, nas eleições federais de maio, os liberais em exercício tiveram uma vitória apertada, os direitistas tomaram o resultado como uma confirmação da hostilidade contra uma agenda progressista da “elite” – e, com ela, ação contra as mudanças climáticas.

O deputado conservador Craig Kelly, por exemplo, pediu aos membros da Friends of Coal Exports (sim, isso existe!) que “queime o máximo de petróleo e gás possível durante o verão: coloque seu assado em um forno a gás, encha suas garrafas de gás e voe de um extremo ao outro do país”.

O governo se sentiu com confiança suficientemente em relação à indiferença pública à mudança climática e prometeu uma legislação draconiana contra os ativistas do Extinction Rebellion, com o ministro dos Assuntos Internos, Peter Dutton, descrevendo os ambientalistas como “marginais”, que deveriam ser hostilizados publicamente e presos. “Essas pessoas não são manifestantes, são anarquistas”, explicou. “Eles não acreditam na democracia, não acreditam no nosso modo de vida”.

A estratégia de carvão e as trollagens de Morrison significava que, durante grande parte do ano, os liberais mais experientes consideravam qualquer relação entre aquecimento global e incêndios como uma concessão inaceitável para a esquerda.

Assim, em setembro, quando as condições no sudeste de Queensland e no norte de NSW bateram novos recordes no McArthur Forest Fire Danger Index, o Ministro de Secas e Desastres Naturais, David Littleproud, disse a um entrevistador que não tinha certeza “se as mudanças climáticas o fizeram.”

No dia 31 de dezembro, o Ministro da Energia, Angus Taylor, publicou um artigo na publicação negacionista de Murdoch, a Australiana com a seguinte manchete: “Deveríamos nos orgulhar de nossos esforços com a mudança climática”. Foi uma declaração que coincidiu com a imagem amplamente difundida de cinco mil pessoas amontoados em uma praia na cidade costeira de Mallacoota e depois caminhando na água para escapar da invasão das chamas.

A repercussão
Não é surpresa que o governo esteja agora enfrentando uma reação. Quando, por exemplo, Scott Morrison se aventurou na cidade devastada pelo fogo em Cobargo, moradores revoltados o abusaram na rua. “Você não receberá votos aqui, amigo”, gritou um morador.

Em outro episódio, um bombeiro se recusou a apertar a mão do primeiro-ministro (embora Morrison o agarre de qualquer maneira). “Tenho certeza de que ele está apenas cansado” foi a justificativa de Morrison. “Não”, respondeu um funcionário, “ele acabou de perder a casa”.

Até o Ministro dos Transportes da NSW, Andrew Constance (membro do próprio partido do primeiro-ministro), reconheceu que Morrison “provavelmente merecia” o tratamento que recebeu em Cobargo.

Se o aparente colapso da autoridade de Morrison sinalizar uma abertura para o Partido Trabalhista (ALP), não está claro que a liderança deles alcançaria uma melhoria significativa. Pelo menos o atual líder da ALP, Anthony Albanese, discute abertamente a relação entre a crise do fogo e o aquecimento global. Mas os trabalhistas estão lado a lado com o compromisso do Partido Liberal com o carvão.

Por exemplo, os albaneses recentemente criticaram o sentimento anti-carvão dentro de seu partido, com uma versão do argumento clássico do “traficante de drogas”. “Se a Austrália deixasse de exportar hoje”, disse ele, “não haveria menos demanda por carvão – o o carvão viria de um lugar diferente”.

Isso foi em 9 de dezembro, com o país já bem consumido pelas chamas. Alguns dias depois, Joel Fitzgibbon, membro do Partido Trabalhista – um membro do grupo pró-carvão bipartidário de Kelly – instou os australianos a pararem de “demonizar” o mineral. Em Queensland, é uma administração trabalhista e um premiê trabalhista que estavam pedindo que os manifestantes climáticos fossem presos.

Todos nós ouvimos poderosos discursos sobre mudanças climáticas de Al Gore e Barack Obama e (meu correspondente as vezes) Kevin Rudd. Mas sabemos que eles fizeram muito pouca diferença para as pessoas comuns. Até o atual momento, as conferências internacionais sobre o meio ambiente conseguiram fornecer um pano de fundo para esses vôos oratórios, mesmo quando as emissões de carbono aumentam ano após ano.

Na Austrália, a catástrofe do incêndio florestal oferece uma abertura para uma abordagem diferente. Afinal, as mudanças climáticas não representam mais um futuro possível neste país. É evidente que algo está acontecendo com pessoas comuns aqui e agora.

Existe, portanto, uma oportunidade de vincular soluções de curto prazo e soluções de longo prazo com, por exemplo, a necessidade óbvia de planos de resgate nas áreas afetadas, legitimando as reformas estruturais que podem facilitar uma economia descarbonizada.

No passado, os esforços para acabar com a dependência da Austrália em carvão poderiam ter parecido uma ameaça ao emprego na zona rural. Entretanto, a atual devastação em cidades remotas mostra como a viabilidade a longo prazo das comunidades do país depende de uma “transição justa” da mineração.

Já vimos sindicalistas se recusarem a trabalhar na névoa poluída de Sydney – uma mobilização específica que mostra o potencial para uma ação climática mais ampla. Da mesma forma, a raiva dessas pessoas em Cobargo sugere um sentimento que pode vincular a energia e o idealismo da greve climática estudantil ao poder social da classe trabalhadora.

É claro que é fácil falar sobre um novo movimento climático – e não é tão fácil construí-lo, especialmente considerando o estado em que se encontra a esquerda australiana. Mas que escolha temos?

A extensão dos incêndios deste ano sugere o que está por vir. O que enfrentamos hoje representa apenas o começo do que enfrentaremos quando as temperaturas globais mudarem. Nem todo país terá incêndios. Alguns enfrentarão secas, inundações ou geadas. Mas nenhum lugar permanecerá seguro pelo que está por vir.

O desastre específico que atinge a Austrália prenuncia uma crise mais ampla à qual a esquerda internacional deve responder.

Sobre o autor
Jeff Sparrow é o editor da Overland.

1 de janeiro de 2020

Evald Ilyenkov e a filosofia soviética

Vesa Oittinen entrevista Andrey Maidansky sobre a filosofia soviética e o conhecido e controverso filósofo soviético Evald Ilyenkov (1924-79).

Andrey Maidansky e Vesa Oittinen

Montlhy Review

Monthly Review Volume 71, Number 8 (January 2020)

Vesa Oittinen

O filósofo soviético Evald Ilyenkov morreu em 1979. Desde então, sua fama cresceu constantemente, lentamente a princípio, mas ele recebeu crescente atenção internacional nos últimos anos. Como você explicaria esse fenômeno? Afinal, a filosofia soviética em geral tem a reputação de ser bastante monótona.

Andrey Maidansky

De fato, a popularidade de Ilyenkov tem crescido, especialmente nos últimos dez a quinze anos, enquanto o resto do marxismo soviético (com exceção da psicologia histórico-cultural de Lev Vygotsky) praticamente se transformou em uma peça de museu. Quase todos os anos, vemos novas traduções dos trabalhos de Ilyenkov, especialmente para inglês e espanhol. Recentemente, na Europa Ocidental, foi formado o grupo Amigos Internacionais de Ilyenkov (seu segundo simpósio foi realizado em Copenhague no verão de 2018).

Acredito que dois fatores principais contribuem para a crescente atração das obras de Ilyenkov.

A primeira é uma nova onda de interesse em Karl Marx e no marxismo criativo em todo o mundo, num contexto de rápida transformação social, expectativa de outra crise econômica e assim por diante. E Ilyenkov conseguiu tirar o melhor de Marx - isto é, o método de pensamento de Marx e seu espírito crítico. No trabalho de Ilyenkov, há um mínimo de véu ideológico e escolasticismo, o que afasta muitas pessoas inteligentes do marxismo. Em segundo lugar, ainda havia muitos textos no arquivo de Ilyenkov que ele não podia publicar durante sua vida, e às vezes eram ainda mais interessantes do que seus trabalhos publicados. Aqui, eu mencionaria sua impressionante Cosmologia do Espírito (que foi traduzida recentemente para alemão e inglês pela primeira vez); seus escritos sobre psicologia e pedagogia; seu estudo do fenômeno da alienação do homem na sociedade moderna (sua crítica ao socialismo das máquina é especialmente interessante); e sua pesquisa por formas históricas de se verter a alienação. O fluxo de publicações dos manuscritos de Ilyenkov continuou inabalável, despertando a curiosidade do público. Mais da metade de sua herança manuscrita permaneceu em sua mesa. Ele não conseguiu imprimir nem mesmo sua querida Dialética do Ideal.

Vesa Oittinen

Você mencionou a Escola Histórico-Cultural da Psicologia Soviética (Aleksey Leontiev, Lev Vygotsky). De fato, parece que Ilyenkov estava em muitos aspectos próximo a esta escola. O terreno comum entre eles era a teoria da atividade, ou abordagem da atividade, como era chamada.


AM: Sim, Ilyenkov se considerava um campeão dessa poderosa escola de psicologia. Ele escreveu sobre "a superioridade da escola de Vygotsky sobre qualquer outro esquema de explicação da psique", associando-se explicitamente a essa escola. Ilyenkov trabalhou de acordo com a teoria da atividade de Leontiev e Petr Galperin. Esse é um dos ramos da escola de Vygotsky, que apresenta a psique como uma forma de pesquisa e orientação no mundo exterior. No caso dos seres humanos, essa atividade é realizada no mundo de objetos culturais, artefatos, criados pelo trabalho humano.

Ilyenkov estava especialmente interessado no processo de interiorização - a mecânica de enraizar (o termo de Vygotsky) funções culturais dentro da psique individual (inicialmente um animal não humano). Nesse momento, uma personalidade humana, ou um próprio eu, surge. Esse processo sutil é visto de maneira especialmente clara, como em um filme em câmera lenta, no experimento de Zagorsk com crianças surdas-cegas. Ilyenkov dedicou mais de dez anos de sua vida a esse experimento. Após sua trágica morte (ele se suicidou em 1979), sua aluna surda-cega Sasha Suvorov escreveu um poema-diálogo, "The Focus of Pain", sobre sua professora e outra aluna, Natasha Korneeva, nomeou a sua filha de Evaldina.

Vesa Oittinen

Apesar dessas afinidades com a psicologia histórico-cultural soviética, Ilyenkov não era psicólogo, mas filósofo. Acredito que poderíamos dizer que foi ele quem introduziu a teoria da atividade na filosofia soviética, uma abordagem que antes era aplicada apenas na psicologia?


AM: Ilyenkov era principalmente um filósofo, é claro, e no campo da psicologia ele lidou principalmente com os problemas de ordem metodológica geral: como a psique é formada e qual é sua "célula germinativa" primária, qual é a personalidade e assim por diante .

Quanto à teoria da atividade, foi formalmente tirada de livros didáticos de filosofia marxista,
com citações relevantes das teses de Marx sobre Feuerbach sobre atividade objetivo-prática e a necessidade não apenas de interpretar o mundo, mas de mudá-lo. O termo teoria da atividade propriamente não é utilizado nos livros didáticos, mas Ilyenkov também não a usou (actividad como adjetivo, dejatel'nostnyj, não ocorre em suas obras). Não obstante, foi Ilyenkov quem primeiro voltou sua atenção para o desafio de explicar a gênese e a estrutura do pensamento humano com base na atividade-trabalho objetivo.

Em termos gerais, o caso lhe apareceu da seguinte maneira. O trabalho humano, por assim dizer, transforma os fenômenos naturais de dentro para fora, revelando na prática as formas puras (ideais) das coisas. E somente depois, essas formas, derretidas na "réplica da civilização", imprimem-se na mente humana como "ideias". A mudança prática do mundo serve como base e fonte de percepção artística e pensamento lógico, bem como de todas as habilidades especificamente humanas.

Esse princípio foi adotado pelos talentosos alunos de Ilyenkov - Yury Davydov, Lev Naumenko, Genrikh Batishchev e alguns outros. Infelizmente, seus principais trabalhos não foram traduzidos para idiomas estrangeiros. Um leitor de inglês pode ter uma ideia deles, talvez, mas apenas no livro que editamos alguns anos atrás.

Vesa Oittinen

Ilyenkov, portanto, não era apenas um filósofo profissional, mas também queria que suas ideias sobre o papel da atividade na educação fossem amplamente aplicadas na sociedade soviética. Aqui, podemos ver uma união de teoria e prática.


AM: É verdade, Ilyenkov nunca foi um filósofo de poltrona. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele serviu como artilheiro, em tempos de paz ele projetou dispositivos de rádio (incluindo um enorme gravador com excelente qualidade de som) e até instalou um torno em seu escritório. Ele também trabalhou muito em economia e psicologia pedagógica.

Ilyenkov ficou atormentado com a pergunta: por que o Estado não murcha nos países socialistas, ao contrário da previsão de Marx? Por que a sociedade não evolui para uma comunidade autônoma? Pelo contrário, o poder do estado sobre a personalidade humana cresceu tremendamente. Ilyenkov concluiu que, para construir uma sociedade com o chamado rosto humano, a própria personalidade humana precisava ser transformada. Daí o seu grande interesse no experimento de Zagorsk com crianças surdas-cegas, em que os princípios de nutrir um novo tipo de personalidade poderiam ser aperfeiçoados e testados na prática. A psicologia histórico-cultural e a pedagogia em desenvolvimento devem nos ensinar a formar uma personalidade harmoniosa, capaz de romper o jugo das mega-máquinas de alienação - o estado e o mercado.

Alguém pode chamar isso de utopia pedagógica. Talvez. Mas, como Oscar Wilde disse, "um mapa do mundo que não inclua a utopia não é digno de ser olhado, pois ignora o único território em que a humanidade sempre atraca".

Vesa Oittinen

Visto da perspectiva de hoje, a contribuição mais original de Ilyenkov à filosofia marxista talvez tenha sido o conceito de ideal, um conceito que desde então tem sido muito debatido.


AM: A publicação do artigo de Ilyenkov em 1962, "O Ideal", na Enciclopédia Filosófica, causou uma enorme onda de controvérsia na comunidade filosófica soviética. A cortina de ferro ideológica impedia que a discussão chegasse além da União Soviética. O trabalho mais importante de Ilyenkov sobre esse assunto foi totalmente traduzido para o inglês apenas recentemente e publicado na Dialética do Ideal, com comentários esclarecendo o contexto polêmico em torno da noção de ideal.

O destino deste manuscrito tardio não foi simples. O diretor do Instituto de Filosofia, um ex-funcionário do Partido Comunista Boris Ukraintsev, não permitiu que a Dialética do Ideal fosse impressa por vários anos. O manuscrito foi publicado apenas postumamente, depois de abreviado e com um título modificado. Assim, a Dialética do Ideal colocou em prática a hipérbole de Roland Barthes: o nascimento do leitor deve pagar-se com a morte do autor.

Esta publicação de 1979 estimulou a controvérsia em torno do conceito de ideal. Mikhail Lifshits, um corifeu da estética soviética, entrou na disputa. Ilyenkov tratou Lifshits com grande respeito. (A propósito, Lifshits também era um amigo próximo de Georg Lukács.) Lifshits se manifestou contra a teoria da atividade sobre o ideal. Segundo ele, o conceito de ideal estabelece um padrão de perfeição para qualquer coisa e é aplicável a tudo e à natureza.

Por sua parte, Ilyenkov viu no ideal "uma espécie de selo impresso na substância da natureza pela atividade social da vida humana". Tudo o que se enquadra no círculo dessa atividade da vida recebe o “selo” da idealidade, tornando-se (enquanto a atividade persiste) uma morada e uma ferramenta do ideal. O córtex cerebral se torna um instrumento do pensamento, prata e ouro se tornam dinheiro, e o fogo parece ser a divindade da lareira. Até as estrelas no céu se transformam em signos do zodíaco, em uma bússola e um calendário. Ilyenkov chama o ideal de "relação de representação" das coisas (de suas essências internas e leis da existência, para ser mais preciso) dentro da bússola da atividade humana, dentro do processo de produção da vida social.

Ilyenkov estava profundamente interessado no problema da ordem social ideal. Em seu livro On Idols and Ideals (1968), ele tentou desenhar o vetor do movimento comunista no mundo moderno. Ele entendia o comunismo como o processo de transferir as funções de administrar a vida social para as mãos das pessoas individuais ou, em outras palavras, como o processo de substituir o mercado e as máquinas estatais por uma "organização autônoma". O jovem Marx chamou de "remoção da alienação" e "reapropriação do homem" (der menschlichen Wiedergewinnung).

Para desgosto de Ilyenkov, aquele "pesadelo cibernético", o ídolo da Máquina que o aterrorizou, apareceu na União Soviética sob o disfarce do ideal comunista. Foi um socialismo semelhante a uma máquina que foi construído no país, em vez de uma sociedade "com rosto humano". Acredito que isso minou sua vontade de viver. O 1984 de George Orwell (que foi proibido na União Soviética) se tornou seu livro favorito. Ilyenkov leu em alemão e até traduziu para o russo para uso pessoal.

Vesa Oittinen

Ilyenkov tinha a reputação de ser um marxista hegeliano. Parece-me, no entanto, que ele não era o mesmo tipo de hegeliano que, por exemplo, a escola Abram Deborin da década de 1920 na filosofia soviética inicial. Talvez pudéssemos compará-lo com Lukács?


AM: Como filósofo, Ilyenkov cresceu com os livros de Hegel. Ele ficou profundamente impressionado com o panfleto de Hegel, Quem pensa abstratamente? Ele o traduziu e comentou duas vezes em vinte anos. Ao mesmo tempo, ele censurou Hegel por pensar de maneira muito abstrata - a saber, por transformar fórmulas dialéticas em "contornos a priori" e por "uma atitude altiva e desprezível em relação ao mundo dos fatos dados empiricamente, eventos e fenômenos". As principais luzes do materialismo dialético (Ilyenkov menciona os nomes de Georgi Plekhanov, Joseph Stalin e Mao Zedong) herdaram esse pecado original do idealismo de Hegel.

Ilyenkov fez uma repreensão semelhante contra os seguidores de Plekhanov liderados por Deborin. Essas pessoas criaram cursos escolares de diamat e histmat (abreviação de materialismo dialético e histórico), que nauseavam Ilyenkov. Na literatura ocidental, costuma-se afirmar que Ilyenkov continuou a linha de Deborin na filosofia marxista. Essa opinião me parece incorreta, embora eu não negue a afinidade entre os dois em sua compreensão sobre o objeto da filosofia e certas categorias de dialética, bem como o fato de que eles têm simpatias comuns por Hegel e Spinoza.

Lukács é outra questão. Ilyenkov valorizou muito seu livro O jovem Hegel e os problemas da sociedade capitalista; ele o traduziu e comentou amplamente  em conjunto com seus alunos. No arquivo de Ilyenkov, esta preservada sua resenha da Ontologia do Ser Social de Lukács, de princípios dos anos 1970. Foi escrito com grande respeito por Lukács, que morreu em 1971, apesar de Ilyenkov ser um oponente implacável da ontologização da dialética. Aos seus olhos, Lukács é um representante da melhor e mais vibrante tradição marxista, em contraste com o escolasticismo natimorto da diamat.

Vesa Oittinen

No momento, você está editando as Obras Completas de Ilyenkov. Você poderia me falar um pouco mais sobre esse projeto de publicação? Também seria interessante saber se o material não publicado do arquivo Ilyenkov afetará a imagem até então estabelecida de sua filosofia.

AM: Em fevereiro de 2019, o primeiro dos dez volumes das Obras coletadas de Ilyenkov apareceu em russo. Estamos preparando mais três volumes para impressão. O acadêmico Vladislav Lektorsky, a filha de Ilyenkov, Elena Illesh, e eu trabalhei neles.

A publicação dos demais materiais do arquivo de Ilyenkov pode adicionar novos recursos ao retrato, mas é improvável que isso afete significativamente sua imagem atual. A parte principal de seu arquivo já foi publicada. Entre os trabalhos ainda não publicados, destacaria o manuscrito de seu livro final, que critica o projeto tecnocrático de construção do socialismo, que Ilyenkov acreditava estar sendo realizado na União Soviética. Como ele não tinha permissão para criticar diretamente o socialismo mecânico na época, Ilyenkov discutiu com seus ideólogos, como Alexander Bogdanov (aliado mais próximo de V. I. Lenin, até um certo período e seu oponente em filosofia) e o marxista polonês contemporâneo Adam Schaff.

No entanto, a censura soviética bloqueou fortemente tudo o que foi escrito por Ilyenkov sobre esse tópico. Apenas um ano após sua morte, seu último livro foi publicado - e mesmo assim, sob uma forma fortemente censurada e sob um título escolhido por algum censor: a Dialética Leninista e a Metafísica do Positivismo.

Vesa Oittinen

Ainda uma pergunta final e inevitável: você vê lacunas ou pontos problemáticos na filosofia de Ilyenkov?

AM: Grandes pensadores, como Ilyenkov, cometem erros inteligentes. Seus erros fornecem material valioso para reflexão e indicam os pontos de desenvolvimento de uma teoria. Ou seja, são erros objetivos, condicionados pelo espírito da época e pelas contradições do próprio objeto de pesquisa, e não por uma fraqueza subjetiva da mente.

Existem problemas sobre os quais Ilyenkov se dedicou por muito tempo, mas não conseguiu lidar com eles - como, por exemplo, o já mencionado definhamento do Estado. E a lacuna mais grave pode ser encontrada nessa área. Ilyenkov criticou com freqüência e espirituosamente a ideia de projetar uma “Máquina mais inteligente que o homem”, ou seja, um supercomputador capaz de planejar o desenvolvimento econômico e gerenciar a vida social melhor do que as pessoas vivas. No entanto, ele nunca levantou a questão óbvia (para os marxistas): como uma máquina eletrônica programável pode nos ajudar a "remover a alienação" e a "reapropriação do homem"? Se “o moinho de vento nos dá uma sociedade com senhor feudal; o motor a vapor, uma sociedade com o capitalista industrial” (Marx), então que sociedade nos dá um moinho baseado em computador?

Para mim, pessoalmente, as discussões mentais com Ilyenkov são especialmente interessantes e úteis. O conceito de "corpo pensante", que Ilyenkov atribuiu a Spinoza, parece-me inadequado e confuso (eu tive que travar um debate feroz com os alunos de Ilyenkov sobre esse conceito). Ou, recentemente, nas páginas da Mind, Culture, and Activity, defendi a visão de Vygotsky sobre o afeto como uma "célula germinativa" da psique contra a posição de Ilyenkov, que considerava a imagem dos sentidos como uma "célula". Mas, mesmo nesses casos, estou acostumado a ver as coisas através das lentes de categorias lógicas polidas por Ilyenkov. Ainda tenho que encontrar melhores ópticas teóricas.

Andrey Maidansky é professor de filosofia na Universidade de Belgorod, Rússia. Ele publicou, em russo, muitos livros e artigos sobre Baruch Spinoza, marxismo e história da filosofia soviética. Um de seus principais interesses é o conhecido e controverso filósofo soviético Evald Ilyenkov (1924-1979), que deixou para trás um vasto arquivo de materiais não publicados que serão publicados em uma coleção de dez volumes editada pela Maidansky.

Vesa Oittinen é professora do Instituto Aleksanteri, Universidade de Helsinque, Finlândia. Ela e Maidansky são colaboradores de longa data. Eles editaram um livro juntos sobre a teoria da atividade na filosofia soviética das décadas de 1960 e 1970, The Practical Essence of Man: The "Activity Approach" in Late Soviet Philosophy (Haymarket Books, 2017).

O mito rebelde da Mafalda

A cativante tirinha Mafalda alcançou fama mundial durante os anos de ascensão do neoliberalismo. Mas seu sucesso deveu-se ao seu compromisso obstinado com as causas sociais que a austeridade e o individualismo desenfreado pareciam ter enterrado.

Isabella Cosse

Jacobin

No jornal italiano Il Messaggero, Mafalda foi consagrada como "a rebelde por excelência".

Tradução / No jornal italiano Il Messaggero, Mafalda foi consagrada como "a rebelde por excelência".
Aconsagração da Mafalda em todo o mundo é o fenômeno que marca as últimas décadas de sua história. A cada aniversário, sua popularidade cresce e seu significado social e simbólico muda.

Não pretendo — não poderia — tratar aqui do grande número de episódios — celebrações, edições, exposições, interpretações — que cercaram essa ascensão global. Mas planejo compreender o porquê da tira ter permanecido relevante e quais foram seus principais significados ao longo do tempo.

Com esse desafio em mente, e conforme o objetivo inicial, estudo aqui os novos formatos e canais de circulação no mercado, a expansão do público e as ressignificações que Mafalda teve dentro e fora da Argentina entre o final de 1980 e o início de 2010.

A questão da relevância coloca no centro a tensão entre uma personagem que continua viva — podemos comemorar seus 50 anos —, mas cujo poder simbólico exige que a tira tenha deixado de ser produzida no passado para permitir constantes reproduções.

O problema envolve o status simbólico de Mafalda, que, de acordo com a hipótese que orienta este parágrafo, adquiriu um status sagrado nos últimos vinte e cinco anos. Ela se tornou um mito. Por mito entendo, como Mircea Eliade o descreveu, uma história de “valor inestimável” que oferece modelos exemplares para a conduta humana porque confere significado à existência.

O mito, segundo Eliade, expressa, aprimora e codifica crenças, protege princípios morais e oferece regras práticas para os homens em sua vida social. O autor terminou seu livro em 1963 chamando a atenção para a conexão entre o mito e a mídia de massa. Citando o primeiro ensaio de Umberto Eco sobre o Super-Homem, ele explicou que os quadrinhos canalizavam as “nostalgias secretas” do “homem moderno” que, diante da frustração, sonhava em se tornar um “herói”, ou seja, um “personagem excepcional”.

No decorrer deste artigo, voltarei a essas ideias, mas adiantarei meu argumento. A história de Mafalda nessas últimas décadas vinculou diferentes marcos na criação social e cultural de um mito. A história em quadrinhos — e a história de seu surgimento — expressava um tempo original que condensava “façanhas” (comportamentos, virtudes, moralidades) significativas para as classes médias de diferentes países, cujas condições materiais de existência e suas identidades forjadas trinta anos antes estavam sendo fraturadas.

A criação de momentos marcantes possibilitou que esses significados fossem revividos, transmitidos e atualizados socialmente; permitiu que, aniversário após aniversário, eles assumissem novos significados que os fizeram perdurar. Foi esse processo, estudado nestas páginas, que fez de Mafalda um fenômeno cultural significativo em escala global que ainda é válido hoje.

Consagração global em um contexto neoliberal

As comemorações de Mafalda adquiriram um caráter global com o 25º aniversário. A organização de homenagens na Argentina, na Espanha e na Itália, mais ou menos em uma cadeia de eventos, aumentou o impacto das assessorias de imprensa internacionais na divulgação do evento. As reverberações das notícias — sobre o aniversário, as comemorações, a história da tira — formaram uma espiral em ascensão, na qual cada evento retroalimenta os seguintes.

Nesse tipo de competição de mídia, Mafalda se tornou uma manchete obrigatória, o que, só por esse efeito, deu a ela maior apelo de mídia e, com isso, importância simbólica. A história da origem da tira colaborou por si só. Ela tinha todos os ingredientes para fazer uma história brilhar: um personagem específico e famoso sobre o qual se conheciam histórias interessantes, até mesmo glamourosas, mas que também tinha valor político e cultural e mobiliza a subjetividade dos leitores.

O fato de a história em quadrinhos não ter uma data exata de criação e de ter envolvido um processo como sua origem (desde os primeiros esboços até sua aparição na imprensa) fez com que, por muito tempo, as comemorações se estendessem quase como um continuum no tempo. Como vimos no parágrafo anterior, a natureza processual do nascimento deu uma certa elasticidade com relação à data, o que facilitou a multiplicação de homenagens.

Assim, a publicação do inédito Mafalda e a exposição retrospectiva, o foco das comemorações na Argentina, foram reproduzidas no ano seguinte na Itália e na Espanha. Naquela época, a Europa estava passando por um boom de análises de memória e retrospectivas ao comemorar os 200 anos da Revolução Francesa e duas décadas do Maio Francês.

As comemorações, que sempre favorecem o balanço do passado e as projeções do futuro, com o prestígio produzido pelas cifras gordas, foram colocadas no centro da opinião pública e dos debates políticos. As controvérsias estavam no legado — o significado político que isso tinha no presente — do passado revolucionário.

A questão ganhou densidade em relação à geração rebelde de 1968. Não apenas porque sua classificação histórico ainda era pouco consolidado, mas também porque as sociedades europeias estavam passando por um processo político e social que confrontava as bandeiras levantadas duas décadas antes pelo movimento estudantil e operário.

O efeito político da comemoração explodiu em um campo ideológico dividido, mas em uma época marcada pela crise do socialismo — o Muro de Berlim havia caído em 1989 — e pela ascensão da direita. Por um lado, havia aqueles que estavam prontos para criticar a criação de uma “geração sagrada” e, com ela, a de ocasiões “nostálgicas” e “melancólicas” que revalorizariam as “aventuras de esquerda”. E, por outro lado, aqueles que estavam prontos para recuperar o “espírito” de 1968 com a celebração da ação coletiva, o ideal emancipatório e a imaginação utópica.

A comemoração de Mafalda estava inserida nesse contexto. O jogo de imaginar o destino dos personagens colocou em movimento, como na Argentina, projeções e avaliações da geração dos anos 1960. Na Espanha, onde o aniversário foi antecipado na mídia, a questão estava ligada à discussão argentina. Deve-se lembrar que as declarações de Quino imaginando Mafalda como uma pessoa desaparecida — que assumiram enorme importância e circulação — apareceram pela primeira vez na mídia espanhola, Cambio 16, em um artigo assinado pela argentina Norma Morandini.

Um ano depois, quando Mafalda foi publicada pela Lumen, um artigo no jornal ABC argumentou que Quino, ao imaginar Mafalda como uma pessoa desaparecida, estava se esquecendo de que “sua filhinha se juntou aos golpistas das páginas do Primera Plana”, na campanha de imprensa que levou o General Onganía ao poder. A crítica que o cartunista, como vimos, havia feito a si, colaborou para produzir um distanciamento do universo dos “mafaldos” ‘ — nas palavras do artigo — que ele caracterizou como “adultos com corpos de crianças”.

É claro que as projeções não envolviam apenas a realidade argentina. Pelo contrário, elas estavam entrelaçadas com o significado que os quadrinhos tinham na Espanha. A própria Morandini enfatizou a importância dos pontos em comum: “Feminista antes de seu tempo, crítica da televisão, preocupada com a ecologia, o destino da humanidade e a invasão dos amarelos, Mafalda pertencia a uma típica família de classe média que poderia muito bem ter nascido em Madri, Buenos Aires ou Roma”.

Com nostalgia, ela se lembrou de uma tira onde a “garota intelectualizada” reconhecia que “se você não se apressa em mudar o mundo, então é o mundo que muda você”. A mesma ironia sarcástica foi reconhecida nos registros espanhóis, coletados pelo jornalista, que projetaram em Mafalda as críticas aos rebeldes de 1968. Como o leitor deve se lembrar, muitos imaginavam que ela havia renegado seus ideais.

O aniversário, com a reiteração ad infinitum da história de origem, mobilizou a lembrança daqueles que foram jovens nos anos 60. Ela recuperou os tempos da certeza de um futuro melhor que unia o coletivo e o pessoal, o político e o íntimo. A memória trouxe de volta uma sensação nostálgica porque a lembrança dos tempos de juventude foi acompanhada pela consciência do fracasso político dos programas de mudança radical.

O sucesso duradouro da história em quadrinhos, que continuava a ser vendida como nos “melhores tempos”, ou seja, “aqueles em que essa menina argentina era considerada uma verdadeira contestadora”, possibilitou compartilhar a denúncia da ordem neoliberal. Essa visão pode até ser encontrada no final de outro artigo do jornal ABC: “Esperemos que, mesmo que apenas na memória de Quino, essa garota [...] ainda pense que os Beatles poderiam ter sido os melhores presidentes do mundo”.

Não era possível que esse passado voltasse. Nem mesmo Mafalda poderia voltar à vida, como Quino reiterou várias vezes. Aí estava a atração de brincar de imaginá-la como adulta. Nesse mecanismo, Mafalda inédita representou uma inovação: possibilitou recuperar a emoção de encontrar tiras desconhecidas e atualizar o ato social de lê-las.

Ela restabeleceu uma comunidade de pertencimento entre aqueles colegas que tinham conhecimento suficiente de quadrinhos para se interessar por um livro cult, mas que também compartilhavam um espaço ideológico que dava sentido à sua leitura. Desse ponto de vista, os quadrinhos podem ser vinculados a outras expressões culturais, legadas pela década de 1960, que simbolizavam o pertencimento a um espaço progressista e de esquerda, coalizado como resistência à ascensão do neoliberalismo.

Essa ligação, por exemplo, foi mencionada no El País, de Madri, quando relatou que o livro tinha um desenho do personagem destinado a El sur también existe, de Joan Manuel Serrat, com poemas de Mario Benedetti, que não foram incluídos no álbum. Houve “um mal-entendido entre um catalão e um andaluz”, nas palavras do próprio Quino, uma anedota que, por si só, traía a sensibilidade decorrente da empatia artística e ideológica. Não é coincidência que, nesse contexto, Mafalda tenha começado a ser publicada no La Vanguardia, o histórico jornal catalão localizado no campo do Partido Socialista, que, quando reformou seu design, acrescentou-a, em 1989, à contracapa de sua revista.

Os resultados mobilizados pelo aniversário não foram apenas políticos. As comparações com o passado também envolveram a classe média. Como Horácio Eichelbaum, jornalista argentino radicado na Espanha, apontou, Quino havia filmado com Mafalda “dia após dia as violentas altercações entre as ambições e os limites de uma classe média emergente”. Em seus termos, o sucesso contínuo do quadrinho na Europa se deve ao fato de que “as classes médias europeias [são] as que persistem nessa luta entre as ambições e os limites da realidade”.

Na Argentina, ele argumentou que, diferentemente, “esses limites se tornam intransponíveis e as ambições foram para o sótão das lembranças”. Ele estava certo: a classe média dos anos 1980, e não apenas a geração de jovens dos anos 1960, se reconheceu no fracasso dos vários sonhos que pareciam tê-la afundado. O fenômeno, no entanto, não foi apenas argentino. Na Europa, o desemprego subiu de 4,2% em 1970 para 9,2% no final da década de 1980 e para 11% em 1990 nos países da Comunidade Europeia; a distribuição de renda entre os trabalhadores e as condições de trabalho pioraram no contexto da desindustrialização.

Na Itália, o lançamento de Mafalda 25, a compilação de desenhos inéditos publicados em italiano pela editora Bompiani, tornou o quadrinho visível para a opinião pública. Mafalda manteve sua importância. No país onde Quino continuou a passar longos períodos, a tira continuou a ser publicada no jornal Il Messaggero, e Mafalda foi consagrada como “a contestadora por excelência”.

Como o L’Unità havia escrito pouco antes, sua protagonista era considerada uma “bruxinha feminista”, nascida no auge do movimento das mulheres e uma “garota terrível” que, colocada em uma “família normal”, havia se tornado uma bomba pronta para explodir. Foi por esse motivo, segundo ela, que seu criador teve de silenciá-la em 1973.

Quando o livro de desenhos inéditos foi publicado, a imprensa se baseou nas declarações do próprio Quino, que, após lembrar que sua criação era filha da era dos Beatles, de Che Guevara e da descolonização da África, afirmou que: “Tudo isso não significa mais nada. Agora as pessoas só querem ganhar o máximo de dinheiro possível no menor tempo possível. Não há espaço para ilusões infantis e meus olhos estão cada vez menos sensíveis, menos ingênuos. É por isso que não consegui desenhá-la novamente”.

A consagração internacional foi decisiva na América Latina. A imprensa costumava reproduzir telegramas de agências internacionais com informações sobre as celebrações em diferentes países. A referência ao sucesso na Europa era obrigatória. Isso valorizava a notícia, mas também mobilizava o orgulho na América Latina.

No México, o sucesso de Mafalda, como o leitor deve se lembrar, sustentou o rápido crescimento da editora Nueva Imagen, mas na década de 1980, com a forte desvalorização do peso mexicano, a editora foi à falência. Ela foi vendida — com a transferência dos direitos da tira — para a Editorial Tusquets, que continua a publicá-la até hoje.

Nesse contexto, Mafalda inédita circulou no México na versão das Ediciones de la Flor. Sua aparição foi celebrada em 1988 como parte da participação de Quino na Feira do Livro de Guadalajara. Naquela ocasião, a revista Plural, editada por intelectuais de esquerda, fez circular muitos dos desenhos inéditos. Como o colunista explicou em um longo artigo, no México, assim como em outros países, Mafalda era “o deleite de um público leitor variado que se identifica com suas posições de protesto no ambiente familiar e escolar, e em seus julgamentos e avaliações da situação no mundo”.

O significado ideológico dessa posição foi reforçado pelo fechamento da nota, na qual Quino confessou seu desconforto e sua posição política de uma forma nunca vista antes, mas que se tornaria cada vez mais frequente no futuro: “Acho o capitalismo uma porcaria, acho que é o pior de todos os sistemas, mas os países socialistas estão retrocedendo um pouco em sua ortodoxia [...] Tendo perdido líderes como Che Guevara, Ho Chi-Minh, Mao, João XXIII, estou muito desorientado”.

Em resumo, Mafalda reviveu uma sensibilidade que parecia derrotada pela crueza pragmática dos planos neoliberais e dos discursos individualistas. Foi possível transformá-la em um legado contínuo de resistência. Nesse contexto, a publicação dos desenhos inéditos revigorou a história das origens, expandindo sua circulação e alimentando-a com anedotas em uma narrativa ordenada. A história tinha os ingredientes de um mito.

Ao lê-la, as pessoas podiam recriar eventos coletivos, ligados à sua própria memória, para dar sentido ao presente. Como resultado, a reiteração da história pela mídia parecia não ter um ponto de amadurecimento. Nos anos seguintes, a história original, aquele tempo perdido, seria recriada em um cenário real.

Colaborador

Isabella Cosse é pesquisadora do Instituto de Pesquisa em Estudos de Gênero da Universidade de Buenos Aires e autora de Mafalda: história social e política (FCE, 2014), cuja versão revisada em inglês foi publicada sob o título Mafalda: A Social and Political History of Latin America's Global Comic (Duke University Press, 2019).

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