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3 de janeiro de 2020

Donald Trump e o establishment da política externa querem guerra com o Irã

Tudo que Donald Trump fez desde que assumiu o cargo aproximou os EUA de uma guerra com o Irã. O caos no Iraque e o assassinato de Qassem Soleimani empurram o país novamente para um atoleiro catastrófico e torna o mundo um lugar menos seguro.

Derek Davison


President Donald Trump waves after speaking at a White House Mental Health Summit on December 19, 2019 in Washington, DC. (Drew Angerer / Getty Images)

Tradução / Deixe-me oferecer esta observação geral no terceiro dia do novo ano, pois, em 2020, não há tempo para perder. A Turquia pode estar prestes a enviar soldados para a Líbia. A Coréia do Norte pode estar planejando algo grande e provocador. Os líderes do sul do Iêmen se retiraram das negociações de paz com o governo do Iêmen, potencialmente reabrindo nova trincheira de guerra no Iêmen. O Talibã pode estar prestes a declarar um cessar-fogo no Afeganistão... ou, pode ser que não. A Austrália está rapidamente se tornando inabitável, enquanto seu primeiro ministro, um negacionista das mudanças climáticas, fica apenas assistindo.

E, agora, Donald Trump pode finalmente ter começado uma guerra de verdade com o Irã.

Uma história que começou quinta-feira à noite com relatos incompletos sobre um ou possivelmente dois ataques de mísseis fora do aeroporto de Bagdá se transformou em um relatório confirmado de que os Estados Unidos mataram o comandante da Força Quds iraniana Qassem Soleimani em Bagdá. No mesmo ataque com drones, os Estados Unidos também mataram Abu Mahdi al-Muhandis, vice-líder do Comitê de Mobilização Popular do Iraque (PMC), o órgão que supervisiona as inúmeras facções das milícias do Iraque. Embora tecnicamente o vice-chefe do PMC, al-Muhandis também era o líder da milícia mais influente do Iraque, o Kata’ib Hezbollah, o que o transformava na figura mais poderosa da comunidade das milícias iraquianas. Sua morte é uma enorme escalada na última crise política do Iraque, que discutiremos aqui. Mas, obviamente, sua morte e suas repercussões são totalmente ofuscadas pela de Soleimani.

Se você acompanhou os desenvolvimentos dos últimos dois meses, sabe que o Iraque está à beira do caos completo, com manifestantes irritados com a corrupção, a ineficácia do governo e a influência estrangeira (principalmente via Teerã), tomando as ruas para exigir mudanças políticas gerais. A resposta violenta do governo iraquiano, a maioria provavelmente liderada pelas milícias da Mobilização Popular, deixou centenas de pessoas mortas e forçou a renúncia do primeiro-ministro iraquiano Adil Abdul-Mahdi. Mas a política iraquiana está tão quebrada que Abdul-Mahdi permanece no cargo de primeiro ministro interino porque os líderes políticos iraquianos não conseguiram chegar a um acordo. Isso é central para entender o contexto os acontecimentos recentes.

Em paralelo ao colapso político do Iraque, o país passou por uma escalada de violência envolvendo as milícias. Isso, provavelmente, inclui a morte de manifestantes, mas também inclui ataques esporádicos de foguetes contra bases militares iraquianas, onde estão posicionadas as forças estadunidenses, e também inclui ataques aéreos esporádicos, não atribuídos, mas provavelmente realizados por Israel (e/ou Arábia Saudita, mas provavelmente Israel), alvejando bases de milícias e esconderijos de armas. Os líderes da milícia culparam os Estados Unidos por ajudarem ou, pelo menos, permitirem esses ataques.

O contexto final aqui é a crescente tensão entre os Estados Unidos e o Irã desde que o governo Trump rompeu no ano passado o acordo nuclear feito com o Irã em 2015, o que já levou a vários incidentes violentos no Golfo Pérsico e ao redor. Seria impossível recapitular toda essa saga aqui, mas o principal fato a ser lembrado é que a instabilidade que tomou conta dessa região nos últimos meses decorre da decisão do governo estadunidense de cancelar um acordo internacional que a) estava funcionando e b) oferecia um caminho fácil para diminuir as tensões entre EUA e Irã para estabilizar o Golfo Pérsico.

Isso nos leva a 27 de dezembro, quando um desses ataques de foguetes esporádicos atingiu uma base militar iraquiana em Kirkuk e matou um empreiteiro civil americano, ferindo vários funcionários estadunidenses e iraquianos. Até onde sei, “empreiteiro civil” poderia abranger qualquer coisa, desde um funcionário de escritório até um oficial de segurança mercenário que não havia se envolvido em combate. Ou seja, um cidadão americano foi morto e os Estados Unidos determinaram que a Kata’ib Hezbollah — que foi fundada em 2003, se tornando uma das principais milícias que resistiram à ocupação americana no Iraque no pós-guerra e que enviou combatentes para ajudar Bashar al-Assad na Síria — estava por trás do ataque. E assim revidou, atingindo cinco alvos do Kata’ib Hezbollah no Iraque e na Síria no fim de semana. O Kata’ib Hezbollah disse que pelo menos vinte e quatro integrantes do seu pessoal foram mortos nos ataques, e al-Muhandis prometeu algum tipo de resposta.

A resposta inicial veio na segunda-feira por parte do governo iraquiano, que de maneira furiosa, condenou os ataques dos EUA como, antes de tudo, uma violação da soberania iraquiana. O que sustenta essa condenação é o profundo e muito compreensível medo iraquiano de que uma guerra entre os Estados Unidos e o Irã (e seus representantes) cause mais danos ao Iraque do que em qualquer outro lugar. O governo estadunidense rejeitou as queixas dos iraquianos com uma queixa própria, acusando o governo iraquiano de não ter protegido seu pessoal.

A resposta maior ocorreu no decorrer de segunda e terça-feira, quando uma multidão de combatentes e apoiadores do Kata’ib Hezbollah tentaram invadir a embaixada dos EUA em Bagdá. Eles tentaram iniciar incêndios, mas foram impedidos de invadir o prédio pela segurança. Talvez o fato principal seja que dois atores importantes da política iraquiana — o clérigo populista Muqtada al-Sadr e o grande aiatolá Ali al-Sistani se juntaram à multidão na condenação do ataque norte-americano. Al-Sadr pediu à multidão que parasse de atacar a embaixada e disse que usaria meios políticos para tentar forçar os Estados Unidos a sair do Iraque. Nem Al-Sadr nem Al-Sistani podem ser descritos como “pró-Estados Unidos”, mas ambos andavam muito mais preocupados com a interferência iraniana nos assuntos iraquianos nos últimos meses. Os ataques aéreos estadunidenses parecem ter mudado isso.

Agora, os Estados Unidos mataram al-Muhandis e Soleimani, uma das figuras mais poderosas e populares do Irã, que tinha perdido parte de seu brilho nos últimos dois anos, mas que ainda era uma das duas ou três pessoas cuja influência dentro do Irã era ofuscada apenas pela do seu líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Obviamente, é muito cedo para saber quais serão as consequências, mas é inconcebível que o governo iraniano não retalie de alguma maneira, e essa retaliação não precisa vir na forma de uma guerra em grande escala. Seus representantes em toda a região, do Paquistão ao Líbano, passando por Israel-Palestina, podem realizar muitos ataques de retaliação contra os interesses dos Estados Unidos e de seus aliados.

Também é inconcebível que o governo iraquiano vá permitir que as coisas fiquem por isso mesmo. Deixando de lado a dependência política de Teerã por Bagdá, esta é a segunda vez em questão de dias que os Estados Unidos tratam a soberania iraquiana como uma piada, e desta vez isso resultou no assassinato de um alto funcionário iraquiano e de uma alta autoridade oficial iraniana que estava sob a garantia de segurança iraquiana. Há uma possibilidade muito forte de que o governo iraquiano exija a desocupação completa das Forças Armadas estadunidenses no país, e se a segurança do pessoal diplomático e de suas famílias na embaixada dos EUA em Bagdá já estava em perigo antes, esse risco foi ampliado consideravelmente.

Também deve ser enfatizado que tudo o que vier a seguir será de responsabilidade de um presidente dos EUA que se diz antiguerra, que afirma entender que a Guerra do Iraque foi incrivelmente estúpida e vingativa e que ainda assim pode ter provocado um conflito ainda mais catastrófico. Tudo o que ele fez desde que assumiu o cargo aproximou os Estados Unidos da guerra com o Irã, para a alegria do establishment de política externa de Washington, que busca exatamente isso há mais de quarenta anos.

É verdade, indubitavelmente, que, como vem reiterando repetidamente na TV o desfile de supostos especialistas desde o incidente, poucas pessoas fora do Irã e alguns poucos locais no Oriente Médio lamentarão a morte de Soleimani. Porém, seu assassinato não é, como Donald Trump certamente reivindicou, um feito espetacular do poderio militar estadunidense. Soleimani não estava escondido como Osama bin Laden ou Abu Bakr al-Baghdadi. Matá-lo foi relativamente fácil, mas também foi extremamente estúpido. Soleimani é agora um mártir do bullying americano e sua morte quase certamente tornará o Oriente Médio ainda menos seguro.

Sobre o autor

Derek Davison é um autor e analista especializado no Oriente Médio e política externa estadunidense.

29 de junho de 2019

Os vilões são os EUA, não o Irã

Trump diz que quer impedir o Irã de atacar os EUA e desenvolver armas nucleares, mesmo tendo destruído um acordo internacional que estava fazendo exatamente isso. Estamos diante de uma guerra que Washington diz não querer, mas que estão fazendo de tudo para causar.

Derek Davison


Donald Trump speaks after signing an executive order imposing new sanctions on Iran at the White House on June 24, 2019 in Washington, DC. (Mark Wilson / Getty Images)

Tradução / Quando não está ameaçando o Irã com “novas sanções”, Donald Trump mostra sua preferência pela guerra. Meses atrás, de acordo com o noticiário em Washington, ele pediu a seus assessores, incluindo o Secretário de Estado ‘falcão’, Mike Pompeo, e o Conselheiro de Segurança Nacional ‘ultra-falcão’, John Bolton, para “baixar o tom” da retórica sobre o Irã. Brian Hook, representante especial do Irã, disse ao Congresso que o objetivo da campanha de sanções de “pressão máxima” do governo é a negociação, não o conflito.

Trump foi longe demais ao dizer que será o “melhor amigo” do Irã – com uma condição: os iranianos desistirem de todos os esforços para obterem armas nucleares. “Não teremos um Irã com armas nucleares”, disse aos repórteres em junho. “Quando eles concordarem, terão um país rico. Serão muito felizes e eu serei seu melhor amigo. Espero que isso aconteça”.

Acreditemos, então, na palavra do presidente. Talvez ele esteja interessado em fechar um acordo. Entenderemos, assim, que o governo pode não estar confiando tanto na palavra do Irã (Teerã insistiu que “nunca estará em busca uma arma nuclear”) ou mesmo na palavra do setor de inteligência (cujo relatório, em 2007, concluiu que o Irã interrompeu o trabalho de armas nucleares que estava realizando em 2003). Que tipo de acordo ele estaria procurando com Teerã?

Para ser viável, o plano precisaria ser internacional, envolvendo não somente os EUA e Irã, mas também a China, a Rússia e os principais estados europeus. Todos eles teriam de tomar medidas conjuntas para garantir que o Irã cumprisse suas obrigações sob o pacto e se beneficiassem com isso. O acordo precisaria ser abrangente, cobrindo todos os aspectos do programa nuclear do país; incluir um mecanismo para reforçar a submissão iraniana e fornecer ao país um alívio da atual série de sanções estadunidenses e internacionais.

Esse acordo hipotético seria uma vitória para todas as partes: os EUA e companhia receberiam a cobiçada desnuclearização e o Irã seria libertado das sanções que causaram estragos em sua economia.

Há apenas um problema: esse tipo de acordo já foi criado em 2015. É o chamado “Plano de Ação Conjunto Global” (JCPOA) — no qual o Irã acordou com os Estados Unidos, China, França, Alemanha, Rússia, e Reino Unido. O mesmo acordo que Trump decidiu abandonar no ano passado, que agora levou os EUA e o Irã à beira de um confronto militar.

Enquanto Trump passou a campanha presidencial de 2016 destruindo o JCPOA — chamando-o de “o pior acordo já negociado” e declarando que sua “prioridade número um” seria “desmontá-lo”, os especialistas em controle de armas o apoiaram por ser uma ferramenta eficaz. Mais de oitenta especialistas em não-proliferação assinaram uma declaração conjunta em 2017, antes de Trump abandonar o acordo, dizendo que o JCPOA “provou ser um programa eficaz e verificável, sendo uma vantagem líquida para os esforços internacionais de não-proliferação nuclear”, bem como “um importante sucesso da diplomacia multilateral, cuja implementação plena é fundamental para a paz e a segurança internacionais”.

Quando foi negociado em 2015, a premissa do JCPOA era simples: em troca de aceitar limitações em seu programa de energia nuclear e um intenso regime de inspeções para verificar seu cumprimento, o Irã obteria alívio das sanções estadunidenses e internacionais. Ao obrigá-lo a refazer um reator de água pesada que poderia ter gerado desperdício significativo de plutônio e estabelecer limites estritos ao programa de enriquecimento de urânio do país, o acordo fechou os dois caminhos potenciais do Irã para as armas nuclear. Mais criticamente, o Irã concordou com um nível sem precedentes de monitoramento e inspeções para verificar sua fidelidade. Esse trabalho foi realizado pela Agência Internacional de Energia Atômica, que afirmou incessantemente a adesão do Irã ao acordo.

Esse é o acordo que Trump escolheu violar no ano passado. Com a reimposição das sanções dos EUA – que se aplicam não apenas às entidades estadunidenses, mas a todas as partes que buscam negociar com o Irã – tornou-se impossível para Teerã receber quaisquer benefícios, apesar de sua fidelidade ao acordo. Embora os demais signatários do JCPOA precisem proteger parte do comércio iraniano das sanções norte-americanas, esses esforços têm um alcance muito limitado e, graças ao domínio dos EUA no sistema financeiro global, ainda são vulneráveis a sanções.

Não é de se espantar que os iranianos tenham recentemente começado a reduzir seus próprios compromissos com o acordo nuclear e planejem continuar a reduzi-los. Surpreendentemente, o governo Trump fez um alerta contra o país – o governo “ainda espera que o Irã cumpra os termos [do JCPOA]” “, de acordo com a NBC News. Mas a saída dos EUA do JCPOA, associada à aplicação zelosa de sanções do governo Trump, destruiu o pacto. Para todos os efeitos, o JCPOA não existe mais, e a noção de que o Irã continuaria aderindo a um acordo sem saída é, no mínimo, irracional.

Se a abordagem do governo Trump ao Irã parece incoerente, é porque é. Ele diz querer impedir o Irã de desenvolver armas nucleares, mas destruiu um acordo internacional que estava fazendo exatamente isso. Seus conselheiros dizem que querem forçar o Irã a negociar um acordo mais expansivo que atenda às deficiências do original, mas a melhor maneira de incentivar o país a continuar colaborando seria garantir que ele recebesse todas as vantagens prometidas pelo JCPOA.

Agora, os líderes iranianos chamam a oferta dos EUA de “engano”, e até os ostensivos aliados estadunidenses, como a França, dizem não terem visto “nenhum sinal de que os EUA estejam interessados em dialogar”. O governo alega que quer construir uma “coalizão global” para isolar e combater o Irã, mas suas ações isolaram apenas os EUA, mostrando que são eles, e não o Irã, os vilões nessa situação.

O governo Trump fez sanções a ele mesmo, amontoando-se cada vez mais no Irã e não oferecendo a Teerã qualquer chance de aliviá-las sem envolver algum tipo de rendição. Após a mais recente rodada de sanções dos EUA — que teve como alvo o próprio líder supremo aiatolá Ali Khamenei — o Irã insinuou que o “caminho para a diplomacia” está fechado agora, e não há razão para duvidar de que estejam falando a verdade.

A única constante nos últimos quarenta anos das relações Irã-EUA tem sido o profundo desejo de Washington de mudar o regime de Teerã. Visto sob esse prisma, a recusa do governo em criar uma rampa para descer dessa crise totalmente estadunidense pode ser deliberada — parte de um plano para punir o povo iraniano de maneira tão severa que eles acabem se levantando e derrubando seu governo em nome de Washington. Mas ainda não há indicação de que o esforço esteja funcionando. Enquanto isso, milhões de pessoas estão sofrendo, enquanto a região do Golfo Pérsico se aproxima de uma guerra que os EUA dizem que não querem, mas estão fazendo de tudo para causar.

Sobre o autor

Derek Davison é um autor e analista especializado no Oriente Médio e política externa estadunidense.

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