4 de janeiro de 2011

Não, o povo não é uma massa bruta e ignorante

Jacques Rancière

Libération

A palavra "populismo" tem sido muito usada nos últimos meses. Falou-se dos ataques contra o Islã de Marine Le Pen, da denúncia das elites de Jean-Luc Mélenchon, da transformação dos ciganos em bodes expiatórios de Nicolas Sarkozy... Que populismo é esse que atinge as democracias ocidentais? Libération convocou três filósofos: Jacques Rancière (leia abaixo) que critica a própria noção de populismo. Enzo Traverso que se preocupa com a ascensão da islamofobia e Bernard Stiegler que analisa o "populismo industrial" nascido da transição da democracia escrita para a sociedade das imagens analógicas.

Não passa um dia sem que alguém decida denunciar os riscos do populismo. Não é por isso fácil identificar aquilo que a palavra designa. O que é um populista? Através de todas as flutuações do termo, o discurso dominante parece caracterizá-lo a partir de três traços essenciais: um estilo de interlocução dirigido diretamente ao povo por cima dos seus representantes e notáveis; a afirmação de que os governos e as elites dirigentes cuidam melhor dos seus interesses do que a coisa pública; uma retórica identitária que exprime o medo e a rejeição dos estrangeiros.

É por isso claro que nenhuma necessidade liga estes três traços. Que existe uma entidade chamada povo, que é a fonte de todo o poder e o interlocutor prioritário do discurso político, era a convicção profunda dos oradores republicanos e socialistas de outrora. Não lhe é associada qualquer forma de sentimento racista ou xenófobo. Que os nossos políticos pensam mais nas suas carreiras do que no futuro dos seus concidadãos e que os nossos governos vivem em simbiose com os representantes dos grandes interesse financeiros, pode ser proclamado sem se ser necessariamente um demagogo. A mesma imprensa que denuncia as derivas "populistas" oferece-nos quotidianamente os testemunhos mais detalhados. Por sua vez, certos chefes de Estado e de governo ditos "populistas", como Silvio Berlusconi ou Nicolas Sarkozy, estão longe de propagar a ideia "populista" que elites são corruptas. O termo "populismo" não serve por isso para caracterizar uma força política concreta. Não designa uma ideologia nem sequer um estilo político coerente. Serve simplesmente para desenhar a imagem de um certo povo.

Porque "o povo" não existe. Aquilo que existe são imagens diferentes, por vezes antagônicas, do povo, imagens construídas privilegiando certas formas de pertença, certos traços distintivos, certas capacidades ou incapacidades. A noção de populismo constrói um povo caracterizado pela atroz aliança entre uma capacidade - a potência bruta do grande número - e de uma incapacidade - a ignorância atribuída a esse mesmo grande número. Por isso, o terceiro traço, o racismo, é essencial. Trata-se de mostrar aos democratas, sempre suspeitos de ingenuidade "angelical", o que é na verdade o povo profundo: uma turba habitada por uma pulsão primária de rejeição que visa simultaneamente os governantes que declara traidores, incapaz de compreender a complexidade dos mecanismos políticos, e os estrangeiros que receia devido ao seu apego atávico a um quadro de vida ameaçado pela evolução demográfica, econômica e social. A noção de populismo recoloca em cena uma imagem do povo elaborada no final do século XIX por pensadores como Hyppolite Taine e Gustave Le Bon, aterrados pela Comuna de Paris e pelo crescimento do movimento operário: a das massas ignorantes impressionadas pelas palavras sonantes dos "agitadores" e dadas à violência extrema pela circulação de rumores incontroláveis e de pânicos contagiosos.

Esses tumultos epidêmicos das massas cegas manipuladas pelos líderes carismáticos estarão verdadeiramente na ordem do dia entre nós? Quaisquer que sejam os preconceitos expressos todos os dias relativamente aos imigrantes, e nomeadamente aos "jovens da periferia", eles não se traduzem em manifestações populares de massa. Aquilo a que hoje em dia chamamos racismo no nosso pais é essencialmente a conjunção de duas coisas. Por um lado, as formas de discriminação no emprego ou no local de residência que se exercem na perfeição dentro de gabinetes assépticos. Por outro, medidas de Estado que não resultam de todo de movimentos de massa: restrição à entrada no território, recusa de conceder documentos a gente que trabalha e paga impostos em França há anos, recusa do direito de cidadania a quem nasce dentro do país, dupla penalização, leis contra o foulard e a burqa, metas obrigatórias de deportação ou o desmantelamento de acampamentos de nômades. Essas medidas têm como principal objetivo precarizar uma parte da população quanto aos seus direitos de trabalhadores ou de cidadãos, constituir uma população de trabalhadores que podem a qualquer momento ser reenviados para o seu destino e de franceses que não têm a certeza de o continuar a ser.

Essas medidas são apoiadas por uma campanha ideológica, justificando essa diminuição de direitos pela evidência de uma não-pertença aos traços característicos da identidade nacional. Mas não foram os "populistas" da Frente Nacional que desencadearem essa campanha. Foram os intelectuais, de esquerda ao que se diz, que encontraram o argumento imparável: essas pessoas não são verdadeiramente francesas porque não são laicas.

A recente "derrapagem" de Marine Le Pen é instrutiva a esse respeito. Não faz efetivamente senão condensar numa imagem concreta uma sequência discursiva (muçulmano - islâmico - nazista) que se insinua um pouco por toda a prosa dita republicana. A extrema-direita "populista" não exprime uma paixão xenófoba específica que emana das profundezas do corpo popular; ela é um satélite que utiliza a seu favor as estratégias do Estado e as campanhas intelectuais mais sofisticadas. O Estado alimenta um permanente sentimento de insegurança que funde os riscos da crise e do desemprego com os do gelo na estrada ou os do ácido fórmico, para fazê-los culminar a todos na suprema ameaça do terrorismo islâmico. A extrema-direita coloca as cores da carne e do sangue sob o retrato robô delineado pelas medidas ministeriais e pela prosa dos ideólogos.

Assim, nem os "populistas" nem o povo projetado pelas denunciações rituais do populismo correspondem verdadeiramente à sua definição. Mas isso pouco interessa aos que agitam o seu fantasma. O essencial, para esses, é amalgamar a própria ideia do povo democrático à imagem da turba perigosa. E de retirar daí a conclusão que todos nos devemos entregar a quem nos governa e que qualquer contestação da sua legitimidade e da sua integridade é a porta aberta ao totalitarismo. "Antes uma república das bananas do que uma França fascista", dizia um dos mais sinistros slogans anti-Le Pen em abril de 2002. A atual campanha em torno dos perigos mortais do populismo procura converter em teoria a ideia de que não temos outra escolha.

Jacques Rancière é um filósofo francês, professor da European Graduate School de Saas-Fee e professor emérito da Universidade de Paris.

3 de janeiro de 2011

Para derrotar a pobreza, dê dinheiro aos pobres

Um único programa social está transformando a forma como países de todo o mundo ajudam seus pobres.

Tina Rosenberg

The New York Times

Prédio de apartamentos em frente à favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Bruno Domingos/Reuters

A cidade do Rio de Janeiro é famosa pelo fato de que uma pessoa pode olhar de um barraco precário em um morro, desde uma favela miserável, e ver praticamente dentro da janela de condomínios de alto luxo. Partes do Brasil se parecem com o sul da Califórnia. Partes parecem com o Haiti. Muitos países mostram grande riqueza ao lado de grande pobreza. Mas até recentemente o Brasil era o país mais desigual do mundo.

Hoje, no entanto, o nível de desigualdade econômica no Brasil está se reduzindo num ritmo maior que o de qualquer outro país. Entre 2003 e 2009, a renda dos pobres brasileiros cresceu sete vezes mais que a renda dos brasileiros ricos. A pobreza foi reduzida neste período de 22% para 7% da população.

Contraste isso com os Estados Unidos, onde entre 1980 e 2005, mais de 4/5 do aumento da renda foi para o 1% no topo da escala (veja aqui — the book is on the table — uma grande série sobre desigualdade nos Estados Unidos feita por Timothy Noah, da [revista eletrônica] Slate). A produtividade entre os trabalhadores americanos de renda baixa e média aumentou, mas a renda não. Se a tendência atual for mantida, os Estados Unidos podem em breve se tornar tão desiguais quanto o Brasil.

Vários fatores contribuíram para o feito surpreendente do Brasil. Mas a maior parte é devida a um único programa social que agora está transformando a forma com que os países de todo o mundo ajudam os pobres.

O programa, chamado Bolsa Família no Brasil, recebe nomes diferentes em lugares diferentes. No México, onde primeiro começou em escala nacional e foi igualmente bem sucedido na redução da pobreza, é chamado Oportunidades.

O termo genérico para os programas é “transferência condicional de renda”. A ideia é fazer pagamentos regulares a famílias pobres, em dinheiro ou transferências eletrônicas, se elas cumprirem certas metas.

As exigências variam, mas muitos países usam o que o México usa: famílias precisam manter as crianças na escola e fazer exames médicos regulares, a mãe precisa fazer cursos sobre temas como nutrição e prevenção de doenças. Os pagamentos quase sempre vão para as mulheres, já que elas mais provavelmente vão gastar o dinheiro com suas famílias. A ideia elegante por trás das transferências condicionais de renda é combater a pobreza hoje, mas quebrando o ciclo de pobreza amanhã.

A maior parte de nossas colunas até agora tem sido sobre ideias bem sucedidas, mas pequenas. Elas enfrentam uma dificuldade comum: como funcionar em maior escala. Esta é diferente. O Brasil está empregando uma versão de uma ideia que agora está em uso em 40 países do globo, uma ideia já bem sucedida em uma impressionantemente enorme escala. Este é provavelmente o mais importante programa de governo antipobreza que o mundo já viu. Vale a pena saber como funciona e porque foi capaz de ajudar tanta gente.

No México, Oportunidades hoje cobre 5,8 milhões de famílias, cerca de 30% da população. Uma família da Oportunidades com uma criança na escola primária e outra na escola secundária, que cumpre todas as exigencias, pode receber um total de 123 dólares por mês. Os estudantes também podem receber dinheiro para material escolar e as crianças que completam o ensino médio dentro do tempo recebem um pagamento de 330 dólares.

A Bolsa Família, que tem exigências similares, é ainda maior. Os programas de transferência condicional de renda do Brasil foram iniciados antes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas ele consolidou vários programas e os expandiu. Agora cobre cerca de 50 milhões de brasileiros, um quarto dos habitantes do país. Paga um valor mensal de 13 dólares para as famílias pobres por criança de 15 anos ou menos que estiver na escola, para até três crianças. As famílias podem ter um valor adicional de 19 dólares por criança de 16 ou 17 anos ainda na escola, para um máximo de duas crianças. Famílias que vivem na extrema pobreza recebem um beneficio básico de 40 dólares, sem condições.

Estas somas parecem dolorosamente pequenas? São. Mas uma família vivendo em extrema pobreza no Brasil dobra a sua renda quando recebe o benefício básico. Faz tempo está claro que o Bolsa Família reduziu a pobreza no Brasil. Mas apenas pesquisas recentes revelaram o papel do programa na redução da desigualdade econômica.

O Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento estão trabalhando com governos para espalhar os programas em todo o mundo, dando ajuda técnica e empréstimos. Os programas de transferência condicional de renda são encontrados agora em 14 países da América Latina e em outros 26 países, de acordo com o Banco Mundial. (Um dos programas é em Nova York, um programa piloto pequeno, financiado privadamente, chamado Opportunity NYC. Uma avaliação inicial mostrou sucesso relativo, mas ainda é cedo para tirar conclusões). Cada programa é desenhado para as condições locais. Alguns na América Latina enfatizam a nutrição. O da Tanzânia está experimentando com pagamentos condicionais que dependem do comportamento de toda a comunidade.

O programa combate a pobreza de duas formas. Uma, direta: dá dinheiro aos pobres. Funciona. E, não, o dinheiro não é roubado nem desviado para os mais ricos. O Brasil e o México são muito bem sucedidos em incluir apenas os pobres. Nos dois países houve redução de pobreza, especialmente pobreza extrema, e houve redução da taxa de desigualdade.

O outro objetivo da proposta — dar mais educação e saúde às crianças — é de longo prazo e mais difícil de medir. Mas tem sido medida — o Oportunidades é provavelmente o programa social mais estudado do planeta. O programa tem um grupo de avaliação e publica todos os seus dados. Houve centenas de estudos de acadêmicos independentes a respeito dele.

No México houve redução de desnutrição, anemia e nanismo, assim como de outras doenças da infância e de adultos. A mortalidade infantil e de mães caiu. O uso de contraceptivos na zona rural aumentou e a gravidez de adolescentes caiu. Mas os efeitos mais dramáticos foram vistos na educação. Crianças no Oportunidades repetiram menos de ano e ficaram mais tempo na escola. O trabalho infantil caiu. Em zonas rurais, a porcentagem de crianças entrando no ensino médio aumentou 42%. Matrículas em escolas médias da zona rural aumentaram imensos 85%. Os maiores efeitos em educação se dão em famílias onde as mães têm o menor nível de educação. Famílias indígenas do México foram particularmente beneficiadas, com as crianças ficando mais tempo na escola.

O Bolsa Família tem um impacto similar no Brasil. Um estudo recente descobriu aumentos na permanência na escola e no avanço escolar — particularmente no Nordeste, onde a presença na escola é a menor, e particularmente para as meninas mais velhas, que correm o maior risco de abandonar os estudos. A pesquisa também descobriu que o Bolsa aumentou o peso das crianças, os índices de vacinação e o uso do cuidado pré-natal.

Quando viajei pelo México em 2008 para fazer reportagem sobre o Oportunidades, encontrei família atrás de família com histórias distintas entre o antes e o depois. Pais cujo trabalho consistia em usar machetes para cortar grama tinham, graças ao Oportunidades, filhos formados na escola secundária e que agora estavam estudando contabilidade ou enfermagem. Algumas famílias tinham filhos mais velhos que haviam sido maltrunidos na infância, mas as crianças mais jovens agora eram saudáveis porque o Oportunidades tinha chegado em tempo de ajudá-las a se alimentar melhor.

Na cidade de Venustiano Carranza, no estado mexicano de Puebla, encontrei Hortensia Alvarez Montes, uma viúva de 54 anos de idade cuja renda vinha de lavar roupa. Tinha parado de estudar na sexta série, da mesma forma que três dos filhos dela. Mas quando o Oportunidades chegou, ela manteve as crianças mais novas na escola. Estavam ambos completando o ensino secundário quando os visitei. Um deles planejava fazer faculdade.

Fora do Brasil e do México, os programas de transferência condicional de renda são mais novos e menores. De qualquer forma, há amplas pesquisas demonstrando que também eles aumentam o consumo, reduzem a pobreza e aumentam a permanência na escola e o uso de serviços de saúde.

Se programas de transferência condicional de renda funcionarem adequadamente, muitas novas escolas e clínicas serão necessárias. Mas os governos nem sempre podem acompanhar a demanda e algumas vezes só podem fazer isso reduzindo drasticamente a qualidade. Se este é um problema para países de renda média como o Brasil e o México, imagine o desafio para Honduras ou Tanzânia.

Para os céticos, que acreditam que programas sociais nunca funcionam em países pobres e que a maior parte do que é gasto com eles é roubado, os programas de transferência condicional de renda são uma resposta convincente. Aqui estão programas que ajudam os que mais precisam de ajuda e que fazem isso com pouco desperdício, corrupção ou interferência política. Mesmo programas pequenos, que atendam uma única vila e sejam bem sucedidos, são motivo para celebrar. Fazer isso na escala que México e Brasil fizeram é impressionante.

Colaboradora

Tina Rosenberg won a Pulitzer Prize for her book “The Haunted Land: Facing Europe’s Ghosts After Communism.” She is a former editorial writer for The Times and now a contributing writer for the paper’s Sunday magazine. Her new book, “Join the Club: How Peer Pressure Can Transform the World,” is forthcoming from W.W. Norton.

1 de janeiro de 2011

O espectro de Althusser

Uma resenha de trabalhos franceses e latino-americanos recentes sobre Althusser sugere que as interpretações recebidas do trabalho deste último podem ser reexaminadas proveitosamente. A noção de que existe um Althusser inicial, médio e tardio, cada um distinto dos outros de maneiras importantes, é radicalmente questionada por este corpo de estudos. Vários autores mostram a presença de uma dimensão aleatória, geralmente associada ao Althusser tardio, mesmo em seus conceitos mais "estruturalistas" (por exemplo, causalidade estrutural). Essas obras nos ajudam a ler Althusser de uma nova maneira.

Warren Montag

Historical Materialism

Historical Materialism - VOLUME 19, ISSUE 3, 2011

Althusser, el infinito adios, Emilio de Ípola, Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2007 
Althusser: une lecture de Marx, edited by Jean-Claude Bourdin, Paris: Presses Universitaires de France, 2008 
Althusser et la psychanalyse, Pascale Gillot, Paris: Presses Universitaires de France, 2009 
Machiavel et nous, suivi de ‘Des problèmes qu’il faudra bien appeler d’un autre nom et peut-être politique’, Louis Althusser; Althusser et la insituabilité de la politique et de ‘la recurrence du vide chez Louis Althusser’, François Matheron, Preface by Étienne Balibar, Paris: Éditions Tallandier, 2009

Em 1990, no exato momento em que um mundo intelectual aliviado estava convencido de que poderia, finalmente, com a consciência tranquila e incontestável justificação teórica e política, esquecer Althusser, ele teve a imprudência de morrer.

Se houvesse sido, como ele expressou, sepultado em silêncio durante a última década de sua vida – um pouco de hipérbole que, não obstante, captou a sensação de que, legalmente, profissionalmente e socialmente, no momento em que ele estrangulou Hélène Legotien em 1980, já estava morto, esperando apenas pelo pronunciamento oficial que veio uma década depois – sua morte paradoxalmente o trouxe de volta à vida. Não apenas trouxe de volta os elogios e louvores que deveriam (mas talvez não poderiam) ter sido proferidos durante sua vida: as palavras de louvor e admiração, os tributos esperados e inesperados, que revelaram que o silêncio em torno de Althusser foi determinado por causas externas e não internas a seu trabalho, como se o desejo de dar a Althusser o que lhe era merecido apenas estivesse esperando o momento apropriado para se expressar.

Talvez não pudesse ter sido de outra forma considerando o desprezo generalizado que cercou seus textos mais importantes, Por Marx e Ler o Capital, textos que foram confinados a um momento histórico não só passado, mas superado, qual seja, o momento estruturalista, um momento bem conhecido por ser desprovido de qualquer interesse teórico. No mundo de língua inglesa, o fato de A miséria da teoria de E.P. Thompson, com seu retrato de Althusser como um estruturalista e stalinista, ter precedido a morte de Hélène Legotien em pouco mais de um ano, o fez parecer presciente. As revelações concernentes ao extenso histórico de doença mental de Althusser deu à afirmação de Thompson de que muito do que foi dito por Althusser não passava de “absurdos” uma certa credibilidade.

No entanto, a morte de Althusser dez anos depois marcou o tempo não só de um enterro, mas também de uma descoberta: seus efeitos alteraram para sempre a narrativa de ascensão e queda do “marxismo estrutural” (para citar o título do conhecido estudo de Ted Benton) de Althusser. Acabou que Althusser havia produzido um enorme corpo de trabalhos durante um período de mais de quatro décadas que ele, por várias e frequentemente complicadas razões, nunca publicou. Isto inclui não apenas uma tese sobre Hegel, mas uma série de manuscritos, ensaios, notas explicativas, assim como um número surpreendente de cartas abordando, muitas delas, temas filosóficos e políticos.

Destes, nenhum é mais notável que a autobiografia de Althusser, O futuro dura muito tempo [L’avenir dure longtemps], que começa descrevendo e depois dá uma (tentativa de) explicação da morte de sua esposa. A publicação desse texto em 1992 teve êxito na reabertura do “caso” Althusser, ainda que primariamente em um sentido psiquiátrico (Escritos sobre psicanálise, publicado no ano seguinte, continha longas cartas ao analista de Althusser), como se ele unicamente tivesse que tomar seu lugar ao lado do Dr. Schreber ou Pierre Rivière. Em menor medida, no entanto, sua publicação conseguiu trazer os leitores de volta às suas obras publicadas. Suas breves observações sobre filosofia foram suficientes para lançar dúvidas sobre a leitura dominante de Althusser, e desobstruíram o caminho para o aparecimento, em 1994, do primeiro volume dos Escritos filosóficos e políticos.[1] Dos textos incluídos nos Escritos filosóficos, nenhum provou ser mais estimulante ou provocativo do que “A corrente subterrânea do materialismo do encontro”[2], um texto selecionado e reunido a partir de vários fragmentos por François Matheron. Composto por materiais escritos por Althusser em 1982, foi quase imediatamente recebido em meados dos anos 90 como o aviso de nada menos que um novo projeto: o estabelecimento de um “materialismo do aleatório”. Além disso, no mesmo ano outras obras póstumas foram publicadas, Sur la philosophie, que continha uma extensa e cuidadosamente organizada entrevista com a filósofa mexicana Fernanda Navarro, Filosofia e marxismo, que repetiu os temas (às vezes textualmente) da “Corrente subterrânea”. Assim, nasceu o “último Atlhusser”, um Althusser que, como foi alegado, havia se libertado dos erros e fracassos do “jovem Althusser” (que, significativamente, não foi o Althusser dos anos quarenta e cinquenta, mas dos anos sessenta, ou seja, o Althusser posterior ao livro sobre Montequieu), caracterizado como um proponente do estruturalismo, ou marxismo estrutural. Era como se o próprio trabalho de Althusser fosse marcado por um corte epistemológico (Toni Negri o chamou de “Kehre”) pelo qual ele se separou de seu próprio passado metafísico ou idealista. Talvez tal leitura fosse inevitável, como se a única maneira de se referir a Althusser fosse dissociá-lo dele mesmo e declará-lo inocente de seu trabalho de juventude. Não obstante todos os seus problemas, tal leitura foi bem-sucedida em identificar os antagonismos internos ao trabalho de Althusser, mesmo que pudesse fazê-lo apenas através da tradução desses antagonismos na linguagem do que o próprio Althusser denominou o tempo cronológico de sucessivas problemáticas teóricas e, portanto, de um “antes” e “depois”. A influência dessa visão continua tão grande que não só a publicação póstuma dos textos escritos antes de 1975 não conseguiu substituí-la, mas Maquiavel e nós, cuja maior parte havia sido escrita em 1972-3 (e, portanto, como apontou Étienne Balibar, concomitantemente à Resposta a John Lewis) continua a ser considerado como um texto de maturidade.

Agora, finalmente, quase vinte anos após a morte de Althusser, temos motivos para esperar que a situação esteja começando a mudar. No mundo de língua inglesa, os prefácios às versões inglesas das publicações póstumas, muito bem pesquisados por G.M. Goshgarian, assim como Louis Althusser e as tradições do marxismo francês de William Lewis, reconstruíram meticulosamente o contexto político e as apostas do trabalho de Althusser, sobretudo dos nos sessenta e setenta. Uma versão revisada e atualizada do clássico de Gregory Elliot, Althusser: o desvio da teoria, fornece uma visão geral indispensável do trabalho de Althusser como um todo. O interesse renovado em Althusser também não se restringe aos Estados Unidos e à Grã-Bretanha. Um conjunto de estudos em francês e espanhol que me proponho a analisar aqui retornaram ao “jovem” Althusser com uma compreensão clara do caráter incompleto e contraditório mesmo dos textos mais polidos, muitas vezes insistindo em apresentar nada menos que uma leitura sintomal do próprio Althusser: Althusser, o infinito adeus de Emilio de Ípola, Althusser e a psicanálise, de Pascale Gillot, e uma coleção de ensaios editados por Jean-Claude Bourdin, Althusser: uma leitura de Marx. Mas, talvez, de forma ainda mais significativa, eles retornaram às investigações e debates que ocorreram no interior e no entorno dos textos de Althusser antes de serem suspensos e depois postos de lado pelos eventos de 1968, e tornados quase ilegíveis pela conjuntura teórica e política que esses eventos produziram. Agora, muitos anos depois, em uma conjuntura muito diferente, parece que essas investigações e debates não apenas preservaram seu interesse, mas que adquiriram novos significado e relevância. Tal ponto de vista não apenas exclui a leitura evolutiva do “desenvolvimento” de Althusser, mas nos força a confrontar a complexidade irredutível que caracteriza sua obra do começo ao fim.

Tomarei como ponto de partida o extraordinário trabalho de Emilio de Ípola, Althusser, o infinito adeus. Eu digo extraordinário porque é, de uma só vez, estranho, estimulante e surpreendente. Ípola havia sido aluno de Althusser em 1965 e, embora haja uma incontestável conotação “pessoal” no trabalho, não há traços de nostalgia. Pelo contrário, longe de advogar pela “era de ouro” teórico-política da Paris dos anos 1960, Ípola retoma o debate em torno do tema, quase esquecido na França e ainda objeto de desprezo no mundo anglófono, da causalidade estrutural. Ele escreve como se os participantes (sobretudo Althusser, Jacques-Alain Miller, e Badiou) tivessem retornado depois de uma noite de descanso para retomar a discussão, e os últimos quarenta anos tivessem representado nada mais do que um instante no tempo da teoria. Na verdade, os três livros aqui mencionados compartilham do sentido, mais enfaticamente argumentado (ou até mesmo dramatizado) por Ípola, de que os debates acerca dos conceitos de causalidade estrutural, conjuntura e sujeição foram, de uma forma perfeitamente aleatória, subitamente suspensos (e nunca, até agora, retomados) pelos eventos de 1968 e uma nova “conjuntura teórica”, para usar a expressão de Althusser, na qual, para melhor ou pior, outras questões teóricas e políticas, que pareciam muito mais urgentes e inevitáveis, emergiram. Partindo dessa perspectiva, segundo a qual a sucessão histórica não pode ser confundida com progresso e o que vem depois não necessariamente é superior ao que veio antes, os debates que ocorreram no interior do círculo de Althusser não chegaram a um impasse teórico e também não cessaram por falta de interesse ou importância. Os textos nos quais eles assumiram sua existência material vagaram invisíveis através do vazio teórico até o momento em que um encontro ou uma série de encontros, tão imprevisíveis quanto aqueles que os tornaram ilegíveis por quase meio século, dotou-os não só de visibilidade, mas também de um novo poder teórico.

A legibilidade dos textos de Althusser e dos textos de seus alunos, no entanto, não é nem espontânea nem já dada. Não é fácil nos libertarmos da rede de interpretações que uma aliança objetiva de críticos e admiradores de Althusser conseguiram impor ao seu trabalho. É por esse motivo que Ípola propõe um protocolo para ler Althusser, um protocolo que, longe de visar identificar ou reconstruir a coerência e consistência dos argumentos de Althusser (Althusser de acordo com a ordem de suas razões), abre-se às lacunas, aos deslocamentos, aos silêncios, isto é, aos sintomas, que atravessam, segundo o próprio Althusser, até os textos aparentemente mais rigorosos: “Não há dúvidas de que existe na obra de Althusser um objetivo [propuesta] filosófico e político explícito, um projeto declarado que a maioria de seus exegetas, para melhor ou pior, viram como sua única contribuição. Entretanto, na medida em que adentramos sem preconceitos nos detalhes de sua análise e na sutil textura de sua escrita, nós, não sem aumentar nossa perplexidade, descobrimos nela a inesperada presença de certas dissonâncias, a intermitente, porém sistemática erupção de certas afirmações atípicas e, em certas ocasiões, de particulares momentos de incoerência na lógica de sua argumentação, os quais servem para lançar dúvidas sobre a univocidade de seu projeto”[3].

Com certas precauções, podemos falar de dois projetos interligados, porém distintos e opostos, que caracterizam o trabalho de Althusser, cuja síntese disjuntiva, na qual diferentes projetos que divergem e posteriormente se encontram no confronto, produzem uma difração de significados sobre a superfície dos textos. Entretanto, estaríamos errados em considerar o projeto “subterrâneo” totalmente formado, porém oculto sob o projeto declarado, como seu inverso ou seu reflexo, como na concepção religiosa dos significados textuais exotéricos e esotéricos. É mais correto descrever a interligação desses projetos como um processo de desenvolvimento teórico desigual e combinado, um processo que não termina nem simplesmente cessa no limite do trabalho de Althusser, mas persegue seu desenvolvimento imprevisível através dos encontros que constituem a vida após a morte de Althusser. O projeto subterrâneo, de acordo com o argumento de Ípola, emergiu como o remanescente impensado de seu projeto declarado, existindo “de maneira esporádica, em certas fórmulas que Althusser, de maneira alusiva e intermitente, deixou escapar em seus primeiros escritos”[4]. A descrição de Bourdin da própria prática de leitura de Althusser usará outra fórmula, a qual é aplicável tanto aos textos de Althusser quanto aos de Marx: “A tarefa consiste em ‘ler’ textos como o Capital com o objetivo de extrair deles a filosofia que os habita em ‘estado prático’”.[5]

A “causalidade estrutural”, como rapidamente se torna aparente, é um ponto de intersecção, uma encruzilhada na qual dois conceitos encontram-se e divergem simultaneamente na obra de Althusser: o conceito de conjuntura e o conceito de sujeito (interpelado). A primeira nos lembra que a tarefa primária de Althusser era a de reunir e pensar os diferidos efeitos que, na medida em que voltaram a alterar o significado dos textos de Marx, constituíram sua “revolução científica”. Como nos lembra Balibar, Althusser tem sido lido como um pensador da estrutura e um pensador da conjuntura, como um “funcionalista estrutural” e como um pensador da indeterminação, isto é, como um pensador de polos opostos e irredutivelmente antagônicos. O uso do termo “estrutura”, especialmente no início dos anos sessenta, juntamente com seu anti-humanismo e anti-historicismo, convenceu muitos leitores marxistas de que ele, de fato, moveu-se na direção de um a-historicismo do qual não havia saída: E.P. Thompson é o espécime perfeito de tal leitor. Por outro lado, sua constante alusão à ideia de conjuntura – uma ideia que encontrou o seu caminho em poucos comentários sobre Marx, que geralmente procurava as estruturas profundas, não superficiais da história, o local da necessidade, como Gramsci sugeriu no Moderno Príncipe, não o local dos acidentes pelos quais foi bloqueada ou retardada – surgiu (para um grupo menor e talvez mais exigente de leitores) quase como uma provocação, uma tentativa de usar a linguagem da prática política e o confronto de forças para disfarçar seu contrabando de filosofias estrangeiras além das fronteiras do marxismo oficial. Não foi sua referência constante a Lênin, à “análise concreta da situação concreta” – a “alma do marxismo”, e seu correspondente desprezo por qualquer “religião da história” marxista, compreendida como um movimento infalível em direção ao comunismo, uma maneira de falar sobre Maquiavel e talvez até sobre Spinoza e, portanto, um movimento de afastamento do marxismo, um movimento ainda mais astuto por ter sido realizado em nome de um retorno a Marx?

Ípola sugere exatamente o oposto: os polos aparentemente opostos do pensamento de Althusser são melhor compreendidos como tentativas de responder a um mesmo problema teórico-político. A causalidade estrutural não pertence nem ao primeiro nem ao último Althusser, não está nem ao lado da estrutura nem ao lado da conjuntura: é o elemento no pensamento de Althusser que, uma vez entendido no nexo em que tomou forma, anula essas polaridades, que podem ser vistas como nada mais que tentativas de se pensar o mesmo problema histórico sob diferentes pontos de vista. Aqui, a reconstrução cuidadosa de Pascale Gillot do lugar e participação da noção de causalidade estrutural – especialmente na medida em que foi moldada pelo encontro com a análise lacaniana – é muito proveitoso. Althusser foi mais inspirado do que instruído pela psicanálise, particularmente pela noção de “causalidade metonímica”, aparentemente construída por ele com base na apresentação de Jacques-Alain Miller ao seminário de Althusser sobre psicanálise de 1963-4. Citando as notas de Balibar à apresentação de Miller, Gillot ilumina esse outrora misterioso conceito: a manque-à-être (a falta no ser) que caracteriza a existência do sujeito na e pela ordem da linguagem não pode ser considerada a “causa” do desejo que simultaneamente tenta e fracassa em preencher essa falta [manque]. Ao invés disso, “o desejo é a metonímia da falta no ser [le désir est le métonymie du manque à être]”. Aqui, e vou além da análise de Gillot, podemos ver a maneira pela qual o interesse crescente e a familiaridade de Althusser com relação a Spinoza moldaram sua “construção” da causalidade metonímica. Se recusando a seguir a rejeição de Miller da própria noção de causa, ele compreende a metonímia como a ação de uma causa que não existe fora ou anteriormente aos seus efeitos. No sentido de que não está presente em lugar algum, exceto no efeito que “produz”. É uma causa ausente. Spinoza, que rejeitou a noção do vácuo ou do vazio, seja no sentido científico ou teológico, preferiu chamar tal causa (precisamente, Deus) de uma causa imanente, talvez excluindo de antemão qualquer recurso a um vazio originário ou nada, como, à sua maneira, fez Miller. A diferença entre a causa ausente e a causa imanente, tão discreta a ponto de parecer insignificante, seria decisiva para o surgimento do “materialismo do aleatório”.

Talvez ainda mais importante, o conceito de causalidade estrutural marcou a tentativa de Althusser de romper com os modelos de causalidade emanativa ou expressiva cujos efeitos tanto práticos quanto teóricos no marxismo provaram-se tão desastrosos. A ideia ou princípio de fé de que uma teologia imanente das forças produtivas realiza-se na contradição entre forças de produção e relações de produção (ou mesmo a contradição entre a base econômica e a superestrutura ideológica) governou as políticas aparentemente opostas entre si do evolucionismo social-democrata e do voluntarismo ultra-esquerdista (ou, no tempo de Althusser, do PCF e do Maoísmo da União dos Jovens Comunistas Marxistas-Leninistas (1966-8) e seu sucessor, A Esquerda Proletária (1968-73)). Essa fé implacável na teleologia imanente da história foi expressa em fórmulas como “capitalismo tardio” ou “os primeiros estágios da transição para o comunismo”. Foi Althusser, sobretudo o “Althusser estruturalista”, que repetidamente observou a insistência de Lênin, muitas vezes não apenas contra seus argumentos anteriores, mas talvez até mesmo contra seus próprios instintos, de que uma orientação política não era determinada pelas etapas do desenvolvimento histórico (o capitalismo esteve sempre-já “maduro”), mas pela conflituosa unidade da conjuntura cuja própria configuração, cujas alianças e conflitos “objetivos” frequentemente surgiam para contradizer as leis “imutáveis” do desenvolvimento histórico.

Em sua introdução à nova edição francesa de Maquiavel e nós, Balibar faz uma observação muito importante, de que mais do que os fragmentos em que Althusser buscou pensar em um “materialismo do aleatório”, muitas vezes tratado como sua palavra “final”, o texto sobre Maquiavel representa uma reiterada tentativa, de mais de uma década, de examinar certos problemas-chave: “a interpretação de Maquiavel constituiu para ele um lugar privilegiado de invenção e experimentação, e não representou uma aplicação a um ‘caso particular’”[6] . Se Maquiavel de fato era o elemento no qual Althusser, com o risco de cair no “empirismo” e no “pluralismo” dos quais havia sido acusado logo após a publicação de Contradição e Sobredeterminação[7] em 1962, seguiria uma linha de pensamento que começava com as noções de sobredeterminação e subdeterminação, é apenas aqui em Maquiavel e nós que ele irá, como gostava de dizer, “colocar suas cartas na mesa”. Existiriam, por um lado, as condições objetivas para a realização da nação italiana (ou a construção do socialismo) e, de outro, os obstáculos meramente acidentais e epifenomenais (cujo eventual desaparecimento é, portanto, garantido) a essa realização? Althusser, seguindo Gramsci seguindo Maquiavel, perguntará se uma necessidade histórica (o próprio produto das leis da história) que pode ser “adiada”, “atrasada”, “retardada” por anos, décadas ou séculos, pode ser chamada de maneira precisa de uma “necessidade”. Como ele famosamente ou infamemente alegou em Contradição e Sobredeterminação, um regime histórico que consiste na necessidade e suas (intermináveis listas de) “exceções” deve abrir caminho para o reconhecimento da necessidade da exceção que, assim, deixa de ser compreendida como uma exceção.

Ao falar de Maquiavel, e, portanto, a uma distância segura dos temas relacionados às revoluções traídas, adiadas e abandonadas, Althusser pode dizer abertamente que a necessidade histórica não existe antes ou fora da conjuntura, que seria então compreendida como sua expressão imperfeita ou degradada. Melhor, a necessidade histórica existe na, e apenas na, sua realização conjuntural. A necessidade ou causa da conjuntura é “estrutural”, “a estrutura da conjuntura”, imanente em ou ausente de (essa é a questão) seus efeitos. Assim, conjuntura não é o nome de uma lista aleatória ou casuística de elementos, determinações ou circunstâncias; em vez disso, é a codificação de múltiplas relações de força. O “sistema”, tão frágil e instável como um sistema pode ser, que essas forças, em seus próprios antagonismos, constituem determinam os movimentos de deslocamento e de condensação que asseguram que “a hora solitária da última instância” nunca chegue[8].

Dado o interesse no aleatório ou tendência conjuntural em Althusser, é ainda mais surpreendente que nenhum trabalho de Althusser receba mais atenção desses estudos recentes do que “Aparelhos ideológicos do Estado”. Este texto, extraído de um extenso manuscrito póstumo, Sobre a reprodução, publicado por Jacques Bidet em 1995, tem exercido grande influência em mais campos de estudo que qualquer outro trabalho de Althusser. De fato, em alguns aspectos importantes, ele é significativamente diferente das outras obras (publicadas) de Althusser: é, em parte, um manual do Marxismo-Leninismo escrito em uma linguagem simplificada, para não dizer simplista, e, em parte, uma descrição densa e extremamente elíptica (em que, mais uma vez, promove um encontro entre Spinoza e Lacan) da constituição dos sujeitos de uma maneira que transforma completamente a própria ideia de ideologia. A coexistências dessas duas partes completamente diferentes em um único texto produziu o efeito, talvez almejado, de obscurecer a originalidade e dificuldade da última parte do ensaio, e assegurar que seria lido à luz da primeira parte: para usar o rótulo – ou imprecação – aplicado ao texto de Althusser dos AIEs nos livros de sociologia americanos, qual seja, seu “funcionalismo estrutural”. Devemos ser absolutamente claros: essa não é uma leitura equivocada. De fato, o adiamento por Althusser de qualquer discussão sobre resistência e luta a um curto pós-escrito, no qual tenta negar o que acabara de fazer citando “a primazia da luta de classes”, apenas reforçou a separação entre a reprodução das relações sociais capitalistas e a luta de classes, cuja mútua imanência o ensaio torna impensável. Como Isabelle Garo observa, no texto do AIE, “a ideologia é situada apenas no lado das funções de conservação e reprodução”.[9] Na verdade, é esse próprio funcionalismo – o argumento de que o capitalismo produz os próprios aparatos ideológicos necessários à sua reprodução, os meios pelos quais um sujeito coletivo persegue o fim de sua própria subsistência – que assegurou ao ensaio seu prestígio. Uma comparação do ensaio dos AIE com as partes de Sobre a reprodução das quais foi extraído, no entanto, revela alguns fatos surpreendentes. Por razões que ainda não foram exploradas, Althusser removeu cuidadosamente passagens da versão publicada que de alguma forma qualificariam ou complicariam o funcionalismo que a maioria dos leitores encontraram no ensaio, especialmente aquelas em que ele descreve os antagônicos “subprodutos [sous-produits]” que o processo de reprodução “secreta”. Para Ípola, Gillot e muitos outros colaboradores de Althusser: uma leitura de Marx (mais diretamente, Garo e Franck Fischbach, e talvez não diretamente, Jacques Bidet e Roberto Nigro)[10], todos esses problemas estão condensados em uma única “tese”: a ideologia interpela os indivíduos como sujeitos.

Como Garo e Fischbach apontaram, essa tese é inédita no marxismo que toma, ao menos em suas formas dominantes, o sujeito humano como um dado, e mais, como um ponto de partida que apenas posteriormente se dividiria, fragmentado, perdido para si mesmo, ou em uma palavra, alienado. Por mais “complexas” e sofisticadas que pudessem ser, da teoria da reificação de Lukács até a noção da “sociedade do espetáculo”, o que se poderia chamar de “teorias do sujeito” tendiam a dar ênfase no equívoco de um sujeito já constituído. Althusser sozinho, ao menos de uma maneira direta, colocou a questão da constituição do sujeito, de como os indivíduos livres e iguais, que são os sujeitos reais das sociedades “democráticas”, mas meramente os sujeitos potenciais de regimes “totalitários” (eu coloco esses termos entre aspas porque o ensaio de Althusser põe essas distinções radicalmente em questão), são constituídos e responsabilizados – e puníveis – pelas ações de que são autores e proprietários.

O conceito de sujeito interpelado, entretanto, não pode ser compreendido independentemente das teses que o precedem no argumento de Althusser. Removê-lo do contexto de seu desenvolvimento teórico e imaginar, como muitos comentadores o fazem, que a interpelação é primariamente um ato discursivo ou um ato linguístico no qual um Sujeito chama o sujeito através de um ato discursivo, é remontar Althusser a um dualismo do discursivo e do não-discursivo, se não exatamente do espírito e da matéria. Na verdade, as referências e alusões lacanianas no ensaio têm servido com frequência para encorajar tais leituras. Quanto mais de perto lemos o ensaio, mais podemos vislumbrar o contorno de Spinoza sob o de Lacan. Não é simplesmente, ou primariamente, a noção de interpelação que separa Althusser das teorias da ideologia anteriores. Mais importante, o termo “ideologia” no ensaio dos AIE não tem nada em comum com suas anteriores utilizações a não ser o nome, e o ensaio em si pode ter contribuído para o declínio da frequência do uso de “ideologia”. Ideologia sugere um sistema de ideias que, ao menos no período moderno, tendia a ser considerado falso ou inadequado (o próprio Althusser ofereceu uma versão de tal teoria em “Marxismo e humanismo” em Por Marx). Em seu ensaio sobre os AIE de 1970, Althusser rompe irrevogavelmente com tais noções de ideologia: “a ideologia tem uma existência material”, o que significa que nem mesmo as ideias têm uma existência “ideal”, mas são sempre-já realizadas “em um aparelho e sua prática ou suas práticas”

Assim, como Garo aponta, a frase “a ideologia representa a relação imaginária do indivíduo com suas condições reais de existência”, muitas vezes compreendida como uma noção ilusória, “o que os indivíduos imaginam” (isto é, falsamente) ser sua relação com a realidade, assume um significado radicalmente oposto. A relação imaginária não é apenas completamente material e real, está inserida nos aparelhos e práticas. O que é essa relação? É exatamente como Spinoza descreveu no Apêndice à Parte I da Ética, assim como no Escólio da Proposição 2, Parte III: os indivíduos imaginam ser a causa de suas ações, eles imaginam que um ato de vontade move o corpo para a ordenação da mente. Mas esses erros “subjetivos” são “refletidos” na existência objetiva dos aparelhos: eles não são apenas os “autores” de suas ações, sua autoria é uma rede teórico-prática interminável, organizada em torno da “intenção”, que é atribuída e imposta a eles e a seus corpos, um fato que Foucault, um leitor receptivo, porém crítico, do ensaio dos AIE, capturaria em seu famoso dito: a alma é a prisão do corpo. Michel Pêcheux, um dos interlocutores privilegiados de Althusser em matéria de ideologia, cujo importante texto, Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio, foi publicado em 1975 na coleção “Théorie” de Althusser, afirma que para Althusser a autonomia do sujeito é a forma de sua sujeição. Podemos pensar nos miseráveis simultaneamente “libertados” (isto é, expulsos e abandonados) e criminalizados pelo processo de acumulação primitiva na Inglaterra descrito por Marx, os ancestrais dos “imigrantes ilegais” de hoje.

Assim, a interpelação não é mais redutível à fala ou ao discurso do que a convocação ouvida pelo apóstolo Paulo no caminho de Damasco: é o chamado, vocatio ou κλέτις, já inscrito no movimento de perseguição e contra-perseguição, de violência e contra-violência (“duro é recalcitrar contra os aguilhões”, ou seja, resistir à tortura). É esse chamado pelo qual a polícia individualiza o sujeito que será inquirido a “identificar-se”, para melhor ser responsabilizado por seus atos, uma convocação na qual o discurso e a força armada, e, portanto, não simplesmente a força do discurso, são uma única e mesma coisa.

Pêcheux levou muito a sério a acusação (notavelmente feita por um dos ex-alunos de Althusser, Jacques Rancière) de que a ênfase de Althusser na reprodução às custas da transformação deixa pouco espaço para a resistência, que não é simplesmente um estratagema do desenvolvimento capitalista. Fischbach examina as duas tentativas mais proeminentes de imaginar a resistência à interpelação, as de Judith Butler e Slavoj Žižek, mas não considera nenhuma delas satisfatória. Para Butler, “a subjetividade é mais extensa que a identidade do sujeito que resulta da sujeição da interpelação ideológica”[11]. Para Žižek, a subjetividade resgata aquela negatividade na qual a ordem simbólica funda-se em um gesto que afirma sua própria não-substancialidade. Ambas as opções, subjetividade como reserva de possibilidade e subjetividade como negatividade tendem à “desrealização” e à “desencarnação”[12] do sujeito. Em oposição, Fischbach postula aquele corpo composto cuja própria persistência tomaria a forma de resistência à “abstração e alienação a que a interpelação ideológica nos sujeita”.[13]

Parece, então, que se Althusser alguma vez nos incitou a ler Spinoza, isto é, realmente ler Spinoza, buscando nos cantos mais remotos de sua obra soluções aos prementes problemas confrontados pela prática teórica do marxismo, agora Spinoza volta-se a Atlhusser e seus contemporâneos, lançando uma brilhante luz sobre passagens tantas vezes lidas, mas negligenciadas. Levar a sério esses estudos recentes é ver Althusser não como uma presença fantasmagórica pairando nas margens do mundo, assombrando-a como uma memória ruim, mas antes como uma parte indispensável ao processo no qual o presente pode tornar-se inteligível a si mesmo, seu trabalho em sua irregularidade e sua conflituosidade retornando ao presente para abrir um buraco em suas paredes, um buraco através do qual algo novo, o futuro, pode passar.

Notas

[1] Nenhum dos dois volumes dos Écrits philosophiques et politiques de Althusser foi traduzido ao português, embora seja possível encontrar alguns dos textos que o compõem.

[2] ALTHUSSER, Louis. A corrente subterrânea do materialismo do encontro. In: Crítica Marxista, n. 20, pp. 9-48, 2005.

[3] IPOLA 2007, pp.36-7.

[4] IPOLA 2007, p.39.

[5] BOURDIN (org.) 2008, p.195

[6] ALTHUSSER e MATHERON 2009, p.14.

[7] ALTHUSSER 2015, pp.71-106.

[8] Ver “L’horreur dialectique (description d’um itinéraire)” para uma análise dessa tendência no pensamento do Althusser, especialmente à medida que toma forma no interior e contra a noção de dialética (BOURDIN (org.) 2008, pp.147-92).

[9] BOURDIN (org.) 2008, p.54.

[10] Digo isso porque, num certo sentido, pode-se dizer mais adequadamente que os problemas da alienação (Bidet) e da antropologia (Nigro), problemas que, se levarmos em conta o termo utilizado, Althusser rejeitava, foram substituídos pela problemática da interpelação.

[11] BOURDIN (org.) 2008, p.144

[12] Ibid.

[13] BOURDIN (org.) 2008, p.145

Referências

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Thompson, Edward Palmer. The Poverty of Theory: or an Orrery of Errors, London: Merlin Press, 1978.

23 de dezembro de 2010

Obscurantismo contemporâneo

Desde a década de 1980, tem havido tentativas, sob o pretexto de “modernidade”, de reciclar o velho lixo liberal que remonta à década de 1820.

Alain Badiou

Le Monde


Tradução / Como devemos chamar as construções intelectuais extraordinárias que são os trabalhos de Darwin, Marx e Freud? Elas não são estritamente ciências, mesmo se a biologia – incluindo a biologia contemporânea – for pensada dentro da moldura darwiniana. Elas certamente também não são filosofias, mesmo se a dialética, esse antigo nome platônico para filosofia, tenha ressurgido com Marx. Elas não podem ser reduzidas a práticas às quais esses autores jogaram luz, mesmo se a experimentação prova a razão de Darwin, mesmo se políticas revolucionárias tentam verificar a hipótese comunista de Marx, e mesmo se a cura psicanalítica coloque Freud nas fronteiras sempre confusas da psiquiatria.

Vamos chamar o “século 19” de período que vai da Revolução Francesa à Revolução Russa. Eu proponho chamar essas três tentativas de dispositivos de pensamento geniais e, afirmando isso, em um certo sentido esses dispositivos identificam o que o século 19 trouxe, como uma nova força, para a história da emancipação humana. Depois de Darwin, os movimentos da vida humana e da existência, irrevogavelmente desvencilhados de toda transcendência religiosa, foram deixados à imanência de suas próprias leis.

Depois de Marx, a história dos grupos humanos foi removida tanto da opacidade da providência e da onipotência quanto das inércias opressivas da propriedade privada, da família e do Estado. Ela foi deixada ao jogo livre das contradições dentro da qual um futuro igualitário deve ser ser escrito – mesmo se for com esforço e incerteza. Depois de Freud, ficou compreendido que não há alma, cujo treinamento seria sempre algo moralizante, opondo os desejos primordiais ao que a infância traz com o que será. Ao contrário, é no centro desses desejos, particularmente dos desejos sexuais, que a possível liberdade do sujeito está em jogo – uma liberdade em que ele ou ela dependem da linguagem, esse resumo da ordem simbólica.

Por muito tempo, todas as formas de conservadorismo atacaram esses três grandes dispositivos. É natural. É muito bem conhecido o fato de que nos Estados Unidos, mesmo hoje, as instituições educacionais são geralmente forçadas a opor o criacionismo bíblico à evolução em um sentido darwiniano. A história do anti-comunismo praticamente sobrepõe-se à da ideologia dominante em todos os grandes países em que o capital-parlamentarismo reina sob a capa da “democracia”. A psiquiatria positiva, que vê desvios e anomalias em todos os lugares que devem ser contra-atacados com o uso brutalidades químicas, tenta desesperadamente “provar” que a psicanálise é uma impostura.

Por muito tempo, particularmente na França, não obstante, os imensos efeitos emancipatórios, em pensamento e ação, de Darwin, Marx e Freud, prevaleceram em meio a argumentos ferozes, revisões agonizantes e críticas criativas. O movimento desses dispositivos dominou a arena intelectual. Conservadorismos estavam na defensiva.

Depois do vasto processo de normalização em escala global que começou nos anos 1980, todo tipo de pensamento ou mera crítica emancipatória é inconveniente. Portanto, nós temos visto um esforço atrás do outro para remover todos os traços desses grandes dispositivos de pensamento que são cunhados como “ideologias” onde eles são exatamente a crítica racional da ideologia por si só. A França, de acordo com Marx o “lugar clássico da luta de classes”, se viu sob a ação de pequenos grupos de renegados da “década vermelha” (1965-1975), que estão na linha de frente dessa reação. Nós temos testemunhado a multiplicação de “livros negros” sobre o comunismo, sobre a psicanálise, sobre o progressismo e sobre tudo que não é igual à estupidez contemporânea: consumir, trabalhar, votar e calar a boca.

Entre essas tentativas, que, sobre o rótulo de “modernidade”, reciclam as tolices obsoletas liberais da década de 1820, as menos detestáveis não são aquelas derivadas de um materialismo do prazer que atua como uma espécie de vigia, particularmente em relação à psicanálise. Longe de ser qualquer tipo de emancipação, o imperativo “aproveite!” é aquele que as tão proclamadas sociedades ocidentais nos ordenam a obedecer. E isso para nos prevenir de ver o que realmente conta: o processo em que algumas verdades disponíveis são liberadas, que os grandes dispositivos de pensamentos costumavam considerar.

Portanto, devemos chamar de “obscurantismo contemporâneo” todas as formas, sem exceção, de supressão e erradicação do poder contido, para o benefício de toda a humanidade, em Darwin, Marx e Freud.

13 de dezembro de 2010

Chega de direitos humanos

WikiLeaks e Saara Ocidental

Jeremy Harding



Tradução / Graças a WikiLeaks, aprendem-se duas coisas sobre a ocupação ilegal, pelo Marrocos, do Sahara Ocidental, lições que nos vêm da Embaixada dos EUA em Rabat: 1) a ocupação é fonte de renda pessoal para oficiais do exército marroquino, mas... 2) tudo bem, tudo ótimo.

O Sahara Ocidental foi possessão espanhola, que Madrid teria de entregar às populações nativas em 1975. O rei Hassan II do Marrocos aproveitou-se do caos reinante na Espanha ao tempo da morte de Franco e anexou o território. A ONU lamentou muito; a Frente Polisario embarcou numa guerra de libertação, que acabou em impasse e num cessar-fogo, em 1989. Naquele momento, o Marrocos controlava a maior parte do território, onde fazia jorrar colonos, com o projeto de superar, em números populacionais, os sarauis indígenas.

Sob auspícios da ONU, os dois lados – o reino do Marrocos e a Frente Polisario – concordaram que a independência passaria porreferendum. Vinte anos depois, ainda não aconteceu e já ninguém espera que aconteça: os marroquinos avançaram sobre o terreno, encontrando resistência bizantina, ano após ano. A missão da ONU foi posta de lado; o projeto colonial avança; há centenas de milhares de refugiados na Argélia e uma população no território, sempre punida quando reivindica direitos de independência.

São questões de somenos para o embaixador Thomas T. Riley, escrevendo de Rabat em 2008. O que conta é “a robusta relação militar entre EUA e Marrocos”, confirmada pela “compra de armamento sofisticado dos EUA, que incluirá, esse ano, 24 F-16s”[1]. O regime, anuncia Riley:

“também aumentou suas atividades num acordo de parceria com a Guarda Nacional de Utah, que visita regularmente o Marrocos para conduzir operações de treinamento e ajuda humanitária”.

Ainda assim, perturba-o um pouco a corrupção no exército do Marrocos (no total, 218 mil soldados; entre “50 e 70% (...) preocupados com operações na região do Sahara Ocidental”). Riley cita o Tenente General Abdelaziz Bennani, comandante da Sessão Sul – i.e. o território anexado. Ao que parece, Bennani:

“usou sua posição para arrancar dinheiro de empresas fornecedoras dos militares e influenciar decisões comerciais. Boato muito disseminado diz que é proprietário de grandes fatias de empresas pesqueiras no Sahara Ocidental (...) há relatórios, inclusive, de alunos da Academia Militar do Marrocos que pagam para obterem indicação para postos militares mais lucrativos.”

No topo da lista: o Sahara Ocidental

Riley arranjou excelente emprego na Savvis, a empresa de comunicações, depois que os Republicanos perderam a Casa Branca. Fast forward até o verão de 2009: outro par de mãos trabalha no laptop em Rabat – o chargé d’affaires, Robert P. Jackson – que digita outro telegrama que tem muito prazer em intitular “Western Sahara Realities” [Realidades do Sahara Ocidental]’ [2]. E repete os números de Riley – cerca de 150 mil soldados marroquinos estão alocados no Sahara Ocidental – e diz, corretamente, que 385 mil pessoas vivem na área anexada. (Só uma faixa ‘liberada’, à margem do deserto, é ainda controlada pela Frente Polisario, e o cessar-fogo continua vigente.)

Jackson acerta também ao dizer que os colonos marroquinos chegam hoje “a bem mais da metade daquele número”. Esse portanto é território cuja população nativa é apenas ligeiramente maior que o número de soldados ali alocados por Rabat: a proporção é quase de 1:1. Se isso não for repressão, o que mais será? Lá estarão para dar aulas de educação moral e cívica? O exército marroquino organizará seminários sobre genealogia dos mórmons, para proveito da Guarda Nacional de Utah? Pois Jackson escreve que “o respeito aos direitos humanos no território melhorou muito”2. Admite que os cidadãos nativos não têm direito de reivindicar qualquer independência: talvez os direitos humanos dos sarauís sejam como direitos animais das raposas, que já conquistaram o direito de se meterem na toca, à espera de que alguém defenda o direito das raposas. Mas não esperem que Jackson – hoje embaixador dos EUA em Camarões – faça o serviço.

Há oito anos, perto de Layoune, capital do Saara Ocidental, os sarauís organizaram um acampamento para protestar contra a ocupação marroquina foi invadido e sitiado pelos militares e, em novembro, foi destruído; houve 60 feridos e foram presos os suspeitos de sempre. E só, em matéria de direitos humanos dos sarauís.

Há até passagens mais preocupadas com a natureza do conflito, no telegrama de Jackson. Pergunta-se por que a Frente Polisario (a qual, segundo ele, operaria “à moda dos cubanos”) jamais reclamou áreas do próprio Marrocos, da Mauritânia ou da Argélia, onde vivem grandes números de sarauís, como parte do Estado independente que reivindicam. Conclui que não o fazem foi falta de “um nacionalismo mais amplo”, de onde conclui que a disputa é estreitamente territorial – expressão de antigas tensões de fronteira entre Marrocos e Argélia, com a Frente Polisario atuando como cúmplice dos argelinos.

Sim, sim, trata-se de território, mas só na medida em que a descolonização do Sahara espanhol deveria ter implicado em direito à independência. A etnia dos que vivem na região, ou de outros, além fronteiras, nada tem a ver com isso. Seja qual for o papel da Argélia nesse conflito, a Frente Polisario jamais comprometeria seus objetivos desafiando a Organização da Unidade Africana (OAU) ou a inviolabilidade das fronteiras coloniais e sonhando com um Sahara Ocidental ‘maior’, expandido. Tivesse feito isso, não teria recebido parecer favorável da Corte Internacional de Justiça, a ONU não teria concordado com o referendo sobre a independência, e o governo do que é hoje o único território colonizado da África (República Árabe Democrática Sarauí, ing. Saharawi Arab Democratic Republic, SADR o SADR) não seria membro da União Africana nem seria reconhecida por 81 Estados.

Pois... vejam só! Um chargé d’affaires em Rabat desqualifica o movimento de independência, porque fez o que deveria ter feito. Já o Marrocos, que viola rotineiramente fronteiras de um Estado soberano, que viola as aspirações legítimas dos sarauís, que infla a terra anexada com colonos e soldados... é premiado com duas dúzias de aviões bombardeiros para a própria ‘proteção’!

1 de dezembro de 2010

Vida sem salário

Origens dos números do desemprego e do setor informal, e sua inadequação às formas contemporâneas de ausência de salário. Michael Denning extrai lições de Marx, Fanon e das ruas de Ahmedabad.

Michael Denning

NLR 66 • Nov/Dec 2010

No capitalismo, a única coisa pior do que ser explorado é não ser explorado. Desde o início da economia baseada no trabalho assalariado, a vida sem salário tem sido uma calamidade para aqueles despojados de terra, ferramentas e meios de subsistência. Expulsos do trabalho, os desprovidos de salário tornaram-se também invisíveis para a ciência: a economia política, como Marx observou nas primeiras formulações de sua crítica à disciplina, “não reconhece o trabalhador desempregado”: ​​“O malandro, o vigarista, o mendigo, o desempregado, o trabalhador faminto, miserável e criminoso — essas são figuras que não existem para a economia política, mas apenas para outros olhares: os do médico, do juiz, do coveiro e do oficial de justiça, etc.; tais figuras são espectros fora de seu domínio”.[1] Hoje em dia, o marxismo — visto mais frequentemente como um exemplo de economia política do que como sua crítica — e outras análises baseadas no trabalho enfrentam a mesma objeção. Dizem-nos que as concepções construídas sobre o trabalho assalariado não conseguem dar conta da realidade vivida pela parcela mais numerosa e miserável da população mundial: aqueles sem salário, aqueles que, na verdade, não têm sequer a esperança de um salário. Vida nua, vida desperdiçada, vida descartável, vida precária, vida supérflua: esses estão entre os termos usados ​​para descrever os habitantes de um planeta de favelas. Não é a criança na oficina de exploração (sweatshop) que constitui nossa figura mais característica, mas sim a criança das ruas, alternadamente predadora e presa.

Diante dessa situação, nenhuma das designações marxistas clássicas para os desprovidos de salário — o exército industrial de reserva ou o lumpemproletariado — parece adequada. Para alguns, apenas uma teoria da cidadania e da exclusão dela, ou dos direitos e de sua ausência, consegue captar essa realidade: falar de trabalho é falar daqueles que já gozam de direitos de cidadania. Outros recorreram a uma biopolítica ou necropolítica da existência nua. Nenhuma dessas alternativas é convincente. Embora a luta pela inclusão social e cultural, bem como pela cidadania política, seja vital em um mundo de sans-papiers, com demasiada frequência as batalhas teóricas sobre cidadania e direitos humanos permanecem presas a fantasias de soberania. Por outro lado, a retórica da vida e da morte por vezes apresenta uma falsa imediação, enxergando um estado de exceção ou de emergência naquilo que, infelizmente, é um estado de normalidade. Falar repetidamente em vida nua e vida supérflua pode nos levar a imaginar que existem, de fato, pessoas descartáveis, e não apenas que elas são descartáveis ​​aos olhos do Estado e do mercado.

Além disso, a vida nua não está desprovida de atividade prática. Uma análise crítica do viver e do prover a própria subsistência sob os imperativos capitalistas deve, a meu ver, partir não da acumulação de capital, mas de seu outro lado: a acumulação de trabalho. Dialeticamente, ambos são a mesma coisa: como afirmou Marx, "a acumulação de capital é, portanto, a multiplicação do proletariado".[2] No entanto, abordar a questão do ponto de vista do capital é — como Hegel e Marx poderiam dizer — algo unilateral. Vários críticos contemporâneos da economia política observaram esse desequilíbrio. Michael Lebowitz argumenta que a obra de Marx sobre o capital deveria ter sido acompanhada por outra sobre o trabalho assalariado; em Os Limites do Capital, David Harvey descreve "a falha, bastante surpreendente, de Marx em empreender qualquer estudo sistemático dos processos que regem a produção e a reprodução da própria força de trabalho" como "uma das mais graves lacunas na própria teoria de Marx".[3]

A seguir, proponho que precisamos de uma inversão semelhante no que diz respeito ao trabalho assalariado. A vida sem salário tem sido quase sempre vista como uma situação de carência, um espaço de exclusão: o desempregado, o trabalhador informal. Não pretendo resolver esse problema semântico: meu próprio termo de trabalho — "os sem salário" — é uma construção paralela. No entanto, quero insistir na necessidade de descentralizar o trabalho assalariado em nossa concepção da vida sob o capitalismo. O fetichismo do salário pode muito bem ser a fonte das ideologias capitalistas de liberdade e igualdade, mas o contrato de trabalho não é o seu momento fundador. Pois o capitalismo não começa com a oferta de trabalho, mas com o imperativo de ganhar a vida. Despossessão e expropriação, seguidas pela imposição de tributos monetários e do pagamento de aluguel: eis o idílio do "trabalho livre". Naqueles raros momentos de emancipação moderna, as pessoas libertadas — da escravidão, da servidão e de outras formas de trabalho coercitivo — jamais escolheram tornar-se trabalhadoras assalariadas. Pode até existir uma "propensão a traficar, permutar e trocar uma coisa por outra", como disse Adam Smith, mas claramente não há propensão a conseguir um emprego.

Em vez de encarar o operário fabril que provê o sustento como a base produtiva sobre a qual se ergue uma superestrutura reprodutiva, imagine o lar proletário despossuído como uma base de trabalho de subsistência não remunerado — o "trabalho das mulheres" de cozinhar, limpar e cuidar — que sustenta uma superestrutura de migrantes em busca de salário, os quais atuam como embaixadores, ou talvez reféns, da economia salarial. Essas migrações podem ser de curta distância e duração — os deslocamentos diários de bonde ou ônibus do cortiço à fábrica, ou do prédio de apartamentos ao escritório, que viriam a ser chamados de commuting — ou podem estender-se às viagens globais anuais de trabalhadores sazonais (via navio a vapor, ferrovia e automóvel), bem como à separação radical da migração aérea, mantida por anos de remessas e telefonemas. O desemprego precede o emprego, e a economia informal precede a formal, tanto histórica quanto conceitualmente. Devemos insistir que "proletário" não é sinônimo de "trabalhador assalariado", mas sim de despossessão, expropriação e dependência radical do mercado. Não é preciso ter um emprego para ser proletário: a vida sem salário — e não o trabalho assalariado — é o ponto de partida para compreender o livre mercado.

Neste ensaio, pretendo explorar os contornos da vida sem salário ao longo do último século, apresentando uma genealogia de duas representações fundamentais que não apenas a nomeiam e buscam regulá-la, mas também traçam uma linha divisória marcante entre as concepções dessa realidade nas metrópoles imperiais do capitalismo e na sua periferia: as figuras do desemprego e do setor informal. A primeira foi o tropo fundador da social-democracia do século XX, surgido em meio às grandes crises econômicas que assolaram os capitalismos industriais do Atlântico Norte e repercutiram em seus territórios coloniais. Esse conceito deslocou uma série de noções anteriores sobre os pobres, os ociosos e os perigosos, tornando-se parte central do discurso estatal e popular ao longo do século seguinte, sobretudo durante os períodos de desemprego em massa: a Grande Depressão da década de 1930 e a Grande Recessão da década de 1970. Por outro lado, o termo "setor informal" foi cunhado no início da década de 1970 para dar conta da massa de pessoas sem salário no Terceiro Mundo recém-independente — uma realidade que parecia escapar tanto à categoria de emprego quanto à de desemprego. Esse termo também deslocou concepções anteriores — talvez a mais notável delas sendo a de lumpemproletariado, tal como retratada por Frantz Fanon em Os Condenados da Terra — e continua a integrar tanto o discurso oficial quanto o não oficial.

Uma história institucional mais antiga poderia afirmar que o Estado de bem-estar social foi criado em resposta ao desemprego: o espectro do desempregado retorna a cada depressão e recessão, à medida que ilustradores e fotógrafos tentam representar a ausência de trabalho em ícones que vão desde "A Reunião dos Desempregados", do cartunista vitoriano Tom Merry, até "A Fila do Pão do Anjo Branco" (White Angel Breadline), de Dorothea Lange. No entanto, uma história biopolítica mais recente sugere que o Estado social emergente inventou o desemprego no processo de normalização e regulação do mercado de trabalho. A própria palavra surgiu justamente quando o fenômeno se tornou objeto de produção de conhecimento estatal durante a longa desaceleração econômica das décadas de 1880 e 1890. O termo foi utilizado pela primeira vez em inglês em 1887, quando o chefe do Departamento de Estatísticas do Trabalho de Massachusetts, Carroll D. Wright, tentou contabilizar os desempregados — desencadeando uma prática estatística que se tornaria central para o Estado moderno e que, na década seguinte, já era de uso comum. A primeira abordagem teórica — o artigo de 1895 intitulado "O Significado e a Medida do 'Desemprego'", do economista liberal J. A. Hobson (mais conhecido por sua influente análise do imperialismo) — definiu a pauta para um século de debates: como defini-lo e medi-lo? A palavra francesa para desempregado, chômeur, remonta à mesma época, e o equivalente alemão, Arbeitslosigkeit, era raramente utilizado antes da década de 1890. De fato, como aponta John Garraty, autor da obra de referência Unemployment in History, o próprio Marx não utilizava essa expressão. Em O Capital, assim como na passagem dos manuscritos de 1844 citada anteriormente, Marx escreve sobre die Unbeschäftigen — os "não ocupados" ou "sem ocupação" — em vez de die Arbeitslosen, o termo contemporâneo para desempregados.[5]

O conceito moderno de desemprego dependia da normalização do emprego, o intrincado processo pelo qual a participação nos mercados de trabalho se torna a norma. Enquanto os empregadores estabelecem as regras, os trabalhadores insistem nas práticas habituais, e tribunais, parlamentos e inspetores de fábricas definem os padrões. Marx argumentou que “a criação de uma jornada de trabalho normal [ein Normalarbeitstag] é, portanto, produto de uma prolongada, mais ou menos disfarçada, guerra civil entre a classe capitalista e a classe trabalhadora”. De fato, Marx insistiu que “em lugar do pomposo catálogo dos ‘direitos inalienáveis ​​do homem’, fosse concedida a modesta Magna Carta de uma jornada de trabalho legalmente limitada”.[6]

A normalização do emprego possibilitou a normalização do desemprego de pelo menos três maneiras. Primeiro, estar desempregado significava perder o emprego habitual, e, de fato, as primeiras formas de proteção ao desemprego surgiram dos sindicatos, que buscavam manter o nível salarial vigente oferecendo benefícios aos membros que perdiam seus empregos. Em sua discussão sobre desemprego e governo, William Walter sugere que “o status de ‘desempregado’ foi realmente inventado pelo sindicalismo”. A segunda forma de normalização surgiu quando os desempregados começaram a se organizar e a se manifestar como tal. O ponto de partida clássico é o famoso Motim de Fevereiro de 1886 em Londres. A Liga do Comércio Justo, liderada pelos conservadores, convocou uma manifestação de desempregados na Trafalgar Square, que atraiu 20.000 trabalhadores da construção civil e portuários; quando a Federação Social Democrata liderou parte da multidão pela Pall Mall, vitrines foram quebradas, lojas foram saqueadas e Londres, segundo o The Times, mergulhou no pânico. Manifestações semelhantes continuaram a ocorrer, aumentando em 1887 e culminando em novembro no Domingo Sangrento, o protesto contra medidas coercitivas na Irlanda, no qual a polícia atacou os manifestantes e três pessoas foram mortas.[7]

Finalmente, por volta da virada do século, o desemprego foi incorporado ao trabalho de teóricos como Hobson e William Beveridge, que argumentaram que não se tratava de uma questão de depravação ou preguiça individual, mas de um aspecto normal e inevitável da sociedade industrial. “Sem dúvida, as causas pessoais explicam em grande parte quem serão os indivíduos que representarão os 10% dos ‘desempregados’”, argumentou Hobson, “mas elas não são, de forma alguma, causas que contribuem para o ‘desemprego’”. Essas análises construíram a primeira ideia de que o capitalismo criou um exército industrial de reserva, um conceito frequentemente considerado distintamente marxista, já que aparece em O Capital na discussão sobre o excedente populacional relativo no capitalismo. No entanto, Marx estava simplesmente adotando a retórica do movimento operário britânico. Os radicais, especialmente as associações cartistas e fourieristas, imaginavam os novos operários como vastos exércitos industriais, e essa ideia difundida levou a líder cartista Bronterre O’Brien a falar, em 1839, no jornal Northern Star, sobre um exército industrial de reserva. O jovem Engels retomou a imagem em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, em 1844, e Marx ocasionalmente invocaria a metáfora, diferenciando entre o exército ativo e o exército de reserva da classe trabalhadora. No final do século XIX, ela fazia parte da interpretação racional do desemprego: em 1911, até mesmo o Departamento de Estatísticas do Trabalho de Massachusetts pôde concluir que “por mais prósperas que sejam as condições, sempre haverá um ‘exército de reserva’ de desempregados”.[8]

Risco e Alívio

Essa normalização do desemprego formou a base das principais técnicas social-democratas que buscavam conter o espectro da vida sem salário. A fase inicial foi caracterizada pela concepção do desemprego como um risco segurável, um acidente como doença, incêndio, roubo ou morte. Essa foi a base da Lei Nacional de Seguros Britânica de 1911, o primeiro programa governamental desse tipo. Imitando o sistema de bem-estar social de Bismarck, o governo de Herbert Asquith criou um fundo estatal para assegurar os trabalhadores contra o desemprego. No entanto, a lógica do seguro falha em casos de desastres coletivos, quando muitos acidentes ocorrem simultaneamente. Assim, o desemprego em massa durante a Grande Depressão da década de 1930 tornou evidentes as limitações dessas redes de proteção. Surgiu uma nova geração de movimentos de trabalhadores desempregados, geralmente liderados por jovens ativistas comunistas, como os Comitês de Desempregados na França ou os Conselhos de Desempregados nos Estados Unidos, onde um terço da população estava desempregada. As marchas e protestos mais famosos contra despejos ocorreram nesses centros industriais — os distúrbios de Wall Street em 1930, a marcha da fome da Ford dois anos depois, a marcha de Lille a Paris no final de 1933 — mas manifestações semelhantes também ocorreram nas colônias, como a marcha da fome na Jamaica em 1933.

A subsequente reconceitualização keynesiana do desemprego como um indicador econômico sujeito a ajustes macroeconômicos nacionais tornou-se a base para os estados de bem-estar social do pós-Segunda Guerra Mundial, que previam uma economia de pleno emprego. Por duas décadas, pareceu que o desemprego em massa era coisa do passado. No entanto, a Grande Recessão da década de 1970 na Europa e na América do Norte marcou o retorno do espectro da vida sem salário, agora sob o signo da superfluidez. O fechamento permanente de fábricas ocorreu à medida que regiões inteiras passavam por uma contrarrevolução industrial. Uma nova onda de movimentos emergiu, particularmente na França, no inverno de 1997-1998. Assim como na década de 1930, a desindustrialização é frequentemente entendida como um fenômeno do Primeiro Mundo, mas, como veremos, deixou para trás inúmeras áreas deprimidas em todo o globo, como evidenciado pelo caso de Ahmedabad, a Manchester da Índia.

Para alguns teóricos, porém, a desindustrialização marcou o fim do desemprego como ferramenta política e conceitual. Entre aqueles que argumentaram que havíamos chegado ao fim do trabalho estava Ulrich Beck, o teórico alemão da sociedade de risco do neoliberalismo, que apontou para a mudança de um “sistema uniforme de trabalho em tempo integral e vitalício, organizado em um único local industrial, com a alternativa radical do desemprego, para um sistema arriscado de subemprego flexível, pluralizado e descentralizado que, no entanto, possivelmente nunca mais poderá apresentar o problema de [...] estar completamente sem emprego remunerado”.⁹ Os economistas neoliberais insistiam que o desemprego involuntário sequer existia; o desemprego era ou uma escolha resultante da utilidade marginal do lazer, ou uma obstrução temporária do mercado de trabalho causada por altos salários, tornados rígidos demais pelo monopólio sindical e pelo salário mínimo estatal.

Também é importante destacar a grande fragilidade da normalização social-democrata do emprego e do desemprego. Essa normalização criou um sujeito normal: o assalariado. Consequentemente, grande parte da complexidade do capitalismo era irreconhecível para um movimento operário que havia sido reconstituído pelo aparato estatal em um movimento de emprego, em um agente de assalariados divididos em unidades de negociação coletiva. Em toda a sociedade, havia muitos que viviam à margem do emprego e do desemprego típicos: mulheres que trabalhavam em suas próprias casas, comunidades desindustrializadas que sofreram com o desinvestimento e a falta de salários, aqueles sujeitos a códigos raciais, até mesmo assalariados em indústrias e locais de trabalho não oficialmente reconhecidos (nos Estados Unidos, por exemplo, trabalhadores domésticos, trabalhadores agrícolas e estagiários e pesquisadores precários não abrangidos pelo Conselho Nacional de Relações Trabalhistas). Como argumentou uma geração de feministas críticas ao Estado de bem-estar social, isso levou a uma injusta divisão de gênero na seguridade social. Famílias e bairros da classe trabalhadora eram divididos entre sujeitos independentes, caracteristicamente homens, sujeitos à seguridade social, e sujeitos dependentes, caracteristicamente mulheres, sujeitos à assistência social. Um braço do aparato estatal assegurava e protegia o provedor masculino normativo contra o risco de desemprego involuntário; outro braço examinava os métodos e meios de criação dos filhos pelas mulheres antes de distribuir auxílios estigmatizados. Se a concepção social-democrata de desemprego rompeu com a retórica das Leis dos Pobres do século XIX ao entender a pobreza como sistêmica em vez de individual, como um desperdício de trabalho social em vez da pretensão de ociosidade e dissolução, ela também traçou uma linha divisória rígida e ideológica dentro das massas da classe trabalhadora.

Favelas e bairros de lata

Enquanto o desemprego dominava o imaginário dos estados capitalistas ocidentais, ele não seria o conceito regulador no discurso de desenvolvimento dos estados pós-coloniais. Aqui, o espectro da vida sem remuneração nas favelas e bairros de lata em expansão da Ásia, África e América Latina obliterou qualquer divisão clara entre empregados e desempregados. A vida sem remuneração não era um revés temporário contra o qual se pudesse obter seguro, nem uma falha macroeconômica da demanda agregada; Aparentemente, era o principal modo de existência em uma economia à parte, quase autônoma.

A ideia do setor informal surgiu após duas décadas de migração extraordinária do Terceiro Mundo para as cidades, onde a população trabalhadora urbana dobrou entre 1950 e 1970. Os regimes e assentamentos coloniais, assim como as economias de plantação das Américas, restringiram e até criminalizaram a migração para a cidade; assim, muitas das revoltas de meados do século foram baseadas em levantes de camponeses e trabalhadores agrícolas. Mas, na sequência da libertação nacional, “os pobres”, como aponta Mike Davis, “reivindicaram com entusiasmo o seu ‘direito à cidade’, mesmo que isso significasse apenas uma favela na sua periferia”.¹⁰ Nas grandes áreas urbanas ocupadas da década de 1950, surgiram novas formas de subsistência e luta, e mesmo antes de economistas e sociólogos do desenvolvimento darem um nome ao setor informal, os cineastas retrataram a vida sem salário das novas favelas em filmes que se tornaram paradigmas para o resto do século: Orfeu Negro (1959), de Marcel Camus, lançou a primeira World Music — a bossa nova — a partir de uma representação romântica e mítica das favelas do Rio durante o carnaval; e A Batalha de Argel (1966), de Gillo Pontecorvo, criou um retrato imperecível da revolução anticolonial argelina, não como a guerra camponesa que foi, mas através da metonímia épica da insurreição urbana derrotada de 1956-1957.

O primeiro grande engajamento teórico com essa nova forma de existência sem salário também surgiu de uma reflexão sobre a revolução argelina: em Os Condenados da Terra, Frantz Fanon reviveu o termo marxista do século XIX "lumpenproletariado". Cunhado por Marx na década de 1840 como um entre uma família de termos — o lumpemproletariado, a turba, os lazzaroni, os boêmios, os brancos pobres — ele caracterizava as formações de classe do Segundo Império em Paris, do Risorgimento em Nápoles, da Londres vitoriana e dos estados escravistas da América do Norte. Na maioria dos casos, Marx até mesmo usou a linguagem original para sugerir a especificidade histórica dessas formações, em vez do alcance teórico do conceito. Para ele, tais expressões tinham duas conotações principais: por um lado, a de um estrato improdutivo e parasitário da sociedade, uma escória ou resíduo social composto por aqueles que se aproveitavam dos outros; Por outro lado, havia o fato de que uma parcela dos pobres geralmente se aliava às forças da lei, como no relato do recrutamento do lumpemproletariado por Luís Napoleão em O Dezoito Brumário, ou em sua análise da aliança entre proprietários de escravos e brancos pobres no sul dos Estados Unidos.

Nessas formulações, Marx tinha dois antagonistas. Primeiro, ele combatia a visão predominante de que toda a classe trabalhadora era um elemento perigoso e imoral. Ele traçou uma linha divisória entre o proletariado e o lumpemproletariado para defender o caráter moral do primeiro. Segundo, ele desafiava aqueles — especialmente seu grande aliado e adversário anarquista Bakunin — que sustentavam que criminosos e bandidos constituíam uma força política revolucionária.[11] Em meados do século XX, o conceito de lumpemproletariado havia praticamente desaparecido do discurso socialista e marxista. Contudo, sua reinvenção em Os Condenados da Terra para descrever as populações urbanas inteiramente novas do Terceiro Mundo o tornou uma figura-chave nos debates teóricos das décadas de 1960 e 1970. A discussão sobre o lumpemproletariado ocorre principalmente no segundo ensaio do livro, "Grandeur et faiblesse de la spontanéité" (Grande e Fraqueza da Espontaneidade), no qual Fanon traça as contradições da coalizão anticolonial à medida que os militantes nacionalistas urbanos se voltavam para as massas camponesas. Ele faz três afirmações convincentes e controversas. A primeira é uma afirmação sociológica sobre o surgimento de uma nova população de despossuídos, o povo das favelas: "Deixando o campo [...] os camponeses sem-terra, agora um lumpemproletariado, são impelidos para as cidades, amontoados em favelas enquanto se esforçam para infiltrar os portos e as cidades, criações da dominação colonial." "Esses homens, separados à força de seus locais de nascimento pelo crescimento da população rural e pela expropriação colonial, cercam incessantemente as cidades, na esperança de que um dia lhes seja permitido entrar nelas." Fanon recorre a metáforas biológicas: “a favela é a consagração da decisão biológica do colonizado de invadir as cidadelas do inimigo a qualquer custo e, se necessário, pelos canais mais subterrâneos”. É uma “podridão irreversível”, uma “gangrena que devora o coração da dominação colonial”. “Por mais que seja chutada ou apedrejada, [essa lumpemproletariado] continua a corroer as raízes da árvore como uma matilha de ratos.”[12]

Em segundo lugar, Fanon, assim como Marx, argumenta que esse lumpemproletariado é facilmente manipulado pelas forças repressivas da ordem colonial; se não for “organizado pela insurreição, juntar-se-á às tropas coloniais como mercenários”, e cita exemplos de Madagascar, Argélia, Angola e Congo. Em terceiro lugar, e o que ele enfatiza com mais veemência contra a visão aceita tanto pelos movimentos nacionalistas quanto pelos comunistas, Fanon insiste que:

é entre essas massas, entre o povo das favelas e o lumpemproletariado, que a revolução encontrará sua vanguarda urbana. O lumpemproletariado, essa coorte de homens famintos, divorciados de tribo e clã, constitui uma das forças mais espontâneas e radicalmente revolucionárias dos povos colonizados [...] Esses desempregados, essa espécie subumana, redimem-se aos seus próprios olhos e perante a história.[13]

O Nascimento da Informalidade

A apropriação do termo do século XIX por Fanon alimentou debates políticos ao longo da década de 1960. Praticamente todos os estudos pioneiros sobre trabalho no Terceiro Mundo endossaram sua formulação: Pierre Bourdieu sobre trabalho e trabalhadores na Argélia; Ken Post sobre as revoltas operárias na Jamaica na década de 1930; Charles van Onselen sobre a vida cotidiana no Witswatersrand, na África do Sul. Economistas e sociólogos do desenvolvimento se esforçaram para nomear a nova realidade que Fanon havia identificado. Em sua história clássica do desenvolvimento econômico do Terceiro Mundo, Paul Bairoch argumentou que “os conceitos de desemprego e subemprego, tal como foram formulados no Ocidente, não podem ser aplicados [...] exceto de maneira muito grosseira e aproximada”.¹⁴ Trabalhando dentro de uma tradição social-democrata, o economista jamaicano W. Arthur Lewis desenvolveu um influente modelo da “economia dual” colonial no início da década de 1950. Em meados da década seguinte, o conceito de massas marginalizadas, desenvolvido pelo marxista argentino José Nun, suscitou um debate considerável.

A expressão que passou a dominar o discurso oficial — o “setor informal” — foi cunhada no início da década de 1970 por um economista britânico especializado em desenvolvimento, Keith Hart, que estudava as comunidades migrantes Frafa, originárias do norte de Gana, que viviam na favela de Nima, nos arredores da cidade velha de Accra. Hart afirmou que “grande parte da força de trabalho urbana não tem contato com empregos assalariados”. Ele prosseguiu resumindo as formas de “trabalho por conta própria” que garantiam o sustento dos habitantes da favela de Nima: “A distinção entre oportunidades de renda formais e informais baseia-se essencialmente na diferença entre assalariados e trabalhadores por conta própria”. O termo foi rapidamente adotado pela Organização Internacional do Trabalho em um estudo de 1972 sobre emprego no Quênia. Vinte anos depois, a OIT desenvolveu critérios para medições estatísticas no setor informal, e diversos debates se seguiram não apenas na África anglófona, mas também no Sul da Ásia e na América Latina. O “setor informal” tornou-se o termo dominante para representar o trabalho não remunerado em cidades do mundo todo. Segundo a OIT, “o emprego informal representa entre metade e três quartos do emprego não agrícola nos países em desenvolvimento”: 48% no Norte da África, 51% na América Latina, 65% na Ásia e 72% na África Subsaariana. Além disso, “três tipos de trabalho atípico e não padronizado — trabalho por conta própria, trabalho em tempo parcial e trabalho temporário — representam 30% do emprego total em quinze países europeus e 25% nos Estados Unidos”. No final do século, a economia informal (como havia sido renomeada) tornou-se visível não apenas em Accra e Nairóbi, mas também em Los Angeles e Moscou.15

Em seu ensaio sobre Accra, Hart deu início a um debate sobre a natureza informal do trabalho não remunerado que persiste até hoje: “O crescente subemprego e o desemprego residual nas cidades dos países em desenvolvimento são geralmente considerados ‘algo ruim’. Mas por que precisa ser? Em que sentido exatamente esse fenômeno constitui um problema?” Sua pergunta pode ser vista como o início da normalização do setor informal. Modelos anteriores da economia dual o tratavam como o legado “negativo” da modernização incompleta do colonialismo, um momento de transição no caminho para o emprego formal e o desemprego. Esses Estados haviam herdado aparatos trabalhistas coloniais que tentavam disciplinar e regular o trabalho precário. E, de fato, a era da industrialização por substituição de importações em meados do século testemunhou o crescimento do emprego no setor formal na América Latina e até mesmo em partes da Ásia e da África; O surgimento de novos exércitos de trabalhadores industriais organizados deu origem às grandes revoltas operárias na África do Sul, no Brasil e na Coreia do Sul. No entanto, na década de 1970, o crescimento desses empregos estagnou, e o discurso que cunhou o termo "setor informal" o considerava uma esfera normal da atividade econômica — na verdade, em crescimento sob o neoliberalismo — que fazia parte da lógica da acumulação capitalista pós-colonial.[16]

Assim como a definição de desemprego no final do século XIX dependia de uma nova interpretação da economia, a descoberta do setor informal dependeu, em certo sentido, dos aparatos formais do Estado para o trabalho, que estabeleciam salários mínimos e jornadas máximas de trabalho, além de fornecer seguro-desemprego e seguridade social. O que caracterizava o setor informal não era o tamanho da empresa ou a forma do processo de trabalho, mas sim sua relação com o Estado. A questão central, então, tornou-se a força ou a fraqueza do Estado: para alguns, as economias informais se desenvolvem quando o Estado regula demais, levando a atividade econômica para a clandestinidade, sem regulamentação e sem tributação; para outros, são produto de Estados fracos ou falidos, incapazes de fornecer proteção social aos seus cidadãos e de fazer cumprir as leis ou arrecadar impostos. Os críticos neoliberais da regulação estatal tendem a celebrar o entusiasmo empreendedor pelo setor informal, por suas microempresas que precisam apenas de microcrédito para prosperar. Os defensores dos Estados de bem-estar social-democratas têm defendido a formalização do setor informal: a expansão da proteção social e da representação sindical.

Trabalho sindical em Ahmedabad

Ao mesmo tempo em que economistas do desenvolvimento como Hart descobriam o setor informal, a primeira grande organização de trabalhadores desse setor começava a tomar forma. Em 1972, Ela Bhatt, ativista da Associação de Trabalhadores Têxteis de Gandihana, começou a reunir mulheres que trabalhavam carregando e descarregando mercadorias e como vendedoras ambulantes na cidade têxtil de Ahmedabad em um sindicato, a Associação de Mulheres Autônomas. Bhatt havia sido designada para examinar a situação das famílias afetadas pelo fechamento de duas grandes fábricas têxteis.

Enquanto os homens se dedicavam a fazer campanha pela reabertura das fábricas, [...] eram as mulheres que ganhavam dinheiro e sustentavam suas famílias. Elas vendiam frutas e verduras nas ruas; costuravam em casa por peça para intermediários; trabalhavam como operárias em mercados atacadistas, carregando e descarregando mercadorias; ou coletavam lixo reciclável nas ruas da cidade [...] trabalhos sem definição. Aprendi pela primeira vez o que significava ser autônoma. Nenhuma das leis trabalhistas se aplicava a elas; no caso delas, minha formação jurídica era inútil.

“Ironicamente”, recorda ele três décadas mais tarde, “foi enquanto trabalhava no setor formal que testemunhei pela primeira vez a vastidão do setor informal.”17

Ao longo dos trinta anos seguintes, a AMAE evoluiu para um conjunto de três tipos de organizações de pessoas pobres às quais seus membros se filiavam. Primeiro, um sindicato — em 2004, o maior sindicato de base da Índia — composto por uma variedade de comerciantes informais — catadores de lixo, costureiras de roupas e de chindi (cigarro indiano), enroladores de bidi (cigarro indiano), vendedores de verduras — que negociavam com compradores, empreiteiros e autoridades municipais sobre trabalho por peça e espaço nas ruas. Segundo, uma coalizão de dezenas de cooperativas de produtores que fabricavam tecido para camisetas, reciclavam papel usado e limpavam escritórios; e terceiro, diversas instituições de ajuda mútua e proteção, incluindo um banco da AMAE e cooperativas de saúde organizadas em torno de parteiras que também faziam parte do setor informal.

Uma parte fundamental de sua história tem sido a luta por representatividade. Como diz Bhatt, “Quando alguém me pergunta qual foi a parte mais difícil da jornada da AMAE”, posso responder sem hesitar: superar bloqueios conceituais. Algumas de nossas maiores batalhas foram para refutar ideias e atitudes preconcebidas de funcionários, burocratas, especialistas e acadêmicos. As definições fazem parte dessa batalha. O Registro Sindical não nos considerava “trabalhadores”; portanto, não podíamos nos registrar como um “sindicato”. Os trabalhadores braçais, bordadeiras, carroceiros, catadores de trapos, matronas e coletores de produtos florestais podem contribuir para o produto interno bruto do país, mas Deus os impede de serem reconhecidos como trabalhadores! Sem um empregador, você não pode ser classificado como trabalhador e, como não é um trabalhador, não pode formar um sindicato. Nossa luta para sermos reconhecidos como um sindicato nacional continua.18

A AMAE rejeitou a retórica do setor informal que dominava o discurso oficial: “Dividir a economia em setores formal e informal é artificial”. Bhatt argumenta que “isso pode facilitar a análise ou a administração, mas, em última análise, perpetua a pobreza”: “Agrupar uma força de trabalho enorme em categorias como ‘marginal’, ‘informal’, ‘desorganizada’, ‘periférica’, ‘atípica’ ou ‘economia subterrânea’ me pareceu absurdo. Eu me perguntava: marginal e periférica em relação a quê? [...] Aos meus olhos, eles eram simplesmente ‘autônomos’”. De fato, os vendedores ambulantes que estiveram entre os primeiros a construir a AMAE se autodenominavam comerciantes.<sup>19</sup>

Essa retórica do trabalho autônomo se baseava nas ideologias da ala gandhiana do sindicalismo indiano, da qual a AMAE emergiu, e foi adotada por outras organizações de trabalhadores não assalariados, particularmente a União Sul-Africana de Mulheres Autônomas, com sede em Durban e fundada em meados da década de 1990. Contudo, em retrospectiva, parece ter-se tornado um lugar-comum nominal, visto que a AMAE adotou como uma de suas principais tarefas a representação de um mundo de trabalho não remunerado, invisível ao aparato trabalhista estatal. Quando, no final da década de 1970, a AMAE organizou mulheres que costuravam chindi — retalhos de tecido descartados pelas fábricas têxteis — para fazer kohls (cobertores de retalhos), começou por estudá-las, apesar do seu ceticismo:

Para melhor compreender os problemas enfrentados pelos trabalhadores de chindi, decidimos realizar uma pesquisa nos sete pontos de venda, ou ruas, onde a maior parte do kohl era costurada. Karimaben [uma das ativistas] não teve paciência para a pesquisa e reclamou comigo: “Sabemos exatamente qual é o problema. Deixe-me dizer, eu gasto mais em uma peça de kohl do que ganho fazendo-a”.

No entanto, a AMAE insistiu em “proceder metodicamente e realizar pesquisas”, informando os trabalhadores de chindi sobre as descobertas e usando-as para pressionar por um aumento no salário por peça tanto para os comerciantes de kohl quanto para os funcionários do Ministério do Trabalho. Bhatt afirma que “ao longo dos anos, os estudos têm sido úteis para a AMAE. Eles nos ajudam a obter uma compreensão detalhada dos problemas antes de tomar qualquer medida, e o processo nos ajuda a identificar potenciais líderes comunitários”.²⁰ Esses estudos proporcionaram uma visão muito mais matizada do mundo dos trabalhadores autônomos. Em 2004, a pesquisa da AMAE havia dividido seus membros em mais de 80 ocupações, dentro de quatro categorias principais: vendedores ambulantes, produtores domésticos, trabalhadores diaristas e prestadores de serviços, e produtores rurais.<sup>21</sup> A Tabela 1 mostra o crescimento de cada uma dessas categorias desde a década de 1970. Deve-se notar que o grupo mais visível — os vendedores ambulantes, que representavam 2% da população na Índia urbana — constituía uma parte central da AMAE inicial, antes de sofrer um declínio proporcional.

Após começar pelas cidades, a década de 1990 viu o lançamento de uma organização de produtores rurais e trabalhadores agrícolas. Dois terços de seus membros não são tanto autônomos, mas sim o que Jan Breman chamou de “caçadores e coletores de salários” — trabalhadores temporários e prestadores de serviços que trabalham para outros sob o disfarce complexo de trabalhadores contratados e remunerados por peça.[22]

Em 2004, uma análise mais detalhada (Tabela 2) revela não apenas a variedade de ocupações informais — de vendedores de verduras e catadores de lixo a trabalhadores de carga e descarga — mas também o número expressivo de trabalhadores agrícolas.

Portanto, as organizações de trabalhadores no chamado setor informal planejaram seu mundo não tanto com base em sua relação com uma economia formal e regulamentada pelo Estado, mas sim em seus próprios locais de trabalho, especialmente a rua e o lar. Quando a AMAE defendeu alianças transnacionais de associações de trabalhadores na década de 1990, fez isso criando os domínios StreetNet e HomeNet. Cada vez mais, as duas principais representações de trabalhadores informais, tanto no discurso oficial quanto na cultura popular, são o vendedor ambulante e o trabalhador doméstico.

Explorando o Mercado

Qual pode ser a conclusão dessa genealogia de representações da vida sem salário? Parece claro que nenhum dos dois principais termos do século XX — desemprego e setor informal — permanece adequado, principalmente devido à sua segregação em áreas específicas do sistema capitalista global; mesmo os estudos acadêmicos sobre cada um deles mal mencionam o outro. Essa sensação de exaustão conceitual também se aplica às analogias marxistas tradicionais: a adoção socialista do “exército industrial de reserva” de Marx e a adoção anticolonial da reinterpretação do lumpemproletariado por Fanon. Mas quais são as alternativas?

Como propus anteriormente, nosso imaginário contemporâneo parece ser dominado por dois tipos de metáforas. O primeiro aponta para a insegurança de muitos tipos de trabalho contemporâneo: falamos de precarização, informalização e proliferação de empregos temporários e precários. Em 1999, a OIT — há muito tempo um campo de batalha pelas formas de representação trabalhista, e cuja convenção de 1996 sobre trabalho a domicílio foi produto de uma luta prolongada liderada em parte pela AMAE — tentou romper a dicotomia formal-informal, caracterizando este último como trabalho vulnerável, contra o qual defendeu o trabalho decente. Essa reivindicação representa tanto um recuo, um reconhecimento de que a regulamentação do trabalho formal não alcança a maioria, quanto um passo adiante, um argumento em favor da proteção social e dos direitos trabalhistas para os vulneráveis. Apesar das muitas declarações grandiosas sobre direitos humanos inalienáveis, é evidente que ainda aguardamos a modesta Magna Carta do trabalho decente.

Uma segunda metáfora vai além, propondo que ultrapassamos um marco histórico: o fim do trabalho como o conhecemos. Dizem-nos que o trabalho perdeu sua centralidade na vida; a vida sem salário é uma vida sem trabalho, uma vida desperdiçada. Apontando para a ruptura dramática no discurso popular entre a retórica do desemprego e a da superfluidez, Zygmunt Bauman afirma que “superfluidez” compartilha seu espaço semântico com “rejeitados”, “preguiçosos”, “lixo”, “desperdício” — com resíduos. O destino dos desempregados, do “exército de reserva industrial”, era ser convocado de volta ao serviço ativo. O destino dos resíduos é o aterro sanitário, o lixão. “A produção de ‘resíduos humanos’ ou, mais precisamente, de humanos descartados [...] é um resultado inevitável da modernização”; “refugiados, requerentes de asilo, migrantes” são “os resíduos da globalização”.23

A denúncia apocalíptica de Bauman sobre nossa cultura do descarte é convincente, mas erra o alvo por dois motivos. Primeiramente, sua ligação excessivamente simplista entre resíduos materiais e resíduos humanos repete um dos tropos mais antigos a respeito dos não remunerados: eles são equivalentes a lixo, a refugo. Tais metáforas aparecem em todos esses estudos, desde a caracterização inicial do desemprego como resíduo feita por Hobson. Marx também não ficou isento delas, referindo-se em O Dezoito Brumário ao lumpemproletariado como resíduo. E de fato existe uma conexão: aqueles sem salário há muito tempo trabalham catando lixo. Mas, como apontei anteriormente, os catadores de lixo não são apenas uma parte significativa da AMAE (Aliança Monetária das Filipinas), muitos dos ofícios que ela abrange, como o das mulheres tecelãs de chindi, surgiram de subprodutos da indústria têxtil. Em março de 2008, foi realizada em Bogotá a primeira conferência internacional de organizações de catadores de lixo.

O fato de a globalização produzir superfluidez é melhor compreendido não pela imagem aparentemente concreta de vidas descartadas, mas por meio de dois conceitos dialeticamente relacionados de Marx: a população excedente relativa e os pobres virtuais. O primeiro vem de O Capital; O segundo dos Grundrisse. No capítulo fundamental sobre "A Lei Geral da Acumulação Capitalista" em O Capital, Marx considera o problema do ponto de vista do capital: "É a própria acumulação capitalista que produz constantemente — em relação direta com sua própria energia e extensão — uma população trabalhadora relativamente supérflua, isto é, uma população que é supérflua às necessidades médias do capital para a sua própria valorização, e que é, portanto, uma população excedente." Marx continua: "Esta é uma lei populacional característica do modo de produção capitalista e, de fato, historicamente, cada modo de produção específico tem suas próprias leis populacionais especiais. De fato, "o excedente populacional relativo existe em todos os tipos de formas. Todo trabalhador pertence a ele durante o tempo em que está apenas parcialmente empregado ou totalmente desempregado." O exército de reserva industrial é, portanto, simplesmente uma dessas formas; na verdade, como se poderia esperar, os exemplos particulares de Marx sobre o excedente populacional relativo são a parte mais antiquada de sua análise.24

A metáfora fundamental na análise de Marx é a das forças opostas: não se trata de duas classes de trabalhadores, empregados e desempregados, ou de dois setores da economia, formal e informal; antes, há um processo em que “quanto maior a atração dos trabalhadores pelo capital, maior a sua rejeição [...] às vezes os trabalhadores são repelidos, às vezes são atraídos novamente em massas ainda maiores”. “Quanto maior a produtividade do trabalho, maior a pressão dos trabalhadores sobre os meios de emprego, mais precária se torna a condição de sua existência, especialmente para a venda de sua própria força de trabalho”. Curiosamente, praticamente todo o vocabulário contemporâneo — redundante, supérfluo, precário — pode ser encontrado neste capítulo.[25]

Se a passagem em O Capital narra a história do ponto de vista da acumulação de capital, a passagem paralela nos Grundrisse parte do ponto de vista do trabalho vivo: “O conceito de trabalhador livre já significa que ele é um indigente: um indigente virtual… Se o capitalista não tem utilidade para seu trabalho excedente, então o trabalhador não pode realizar seu trabalho necessário”. Marx não está argumentando que todos os trabalhadores se tornarão mendigos, como sustenta a tese da pauperização frequentemente atribuída a ele. Em vez disso, esta é a sua explicação da vida nua: como a troca necessária para os meios de subsistência — a venda da força de trabalho — é acidental e indiferente à sua presença orgânica, o trabalhador é um indigente virtual.26 Indigentes virtuais: esta estranha figura — combinando uma palavra quase extinta com outra que assumiu conotações inteiramente novas — será meu ponto de parada temporário. Em uma carta escrita em seu quinquagésimo aniversário, Marx disse: “Meio século sobre meus ombros e ainda um indigente”. Um século e meio depois, o espectro da vida sem salário paira novamente sobre nós.

1 Karl Marx e Friedrich Engels, Obras Completas, Nova York, 1975, vol. III, p. 284. Este ensaio foi originalmente escrito como parte do Grupo de Trabalho de Yale sobre Globalização e Cultura. Gostaria de agradecer aos demais membros por suas sugestões e críticas, e a Achille Mbembe por sua resposta a um texto anterior no Instituto de Pesquisa Social e Econômica da Universidade de Witwatersrand, África do Sul, em 22 de fevereiro de 2006.

2 K. Marx, Capital, vol. I, Harmondsworth, 1976, p. 764.

3 Michael Lebowitz, Beyond Capital. Marx’s Political Economy of the Working Class, Nova York, 2003; David Harvey, The Limits to Capital, Chicago, 1982, p. 163.

4 As leituras biopolíticas do desemprego são, em certo sentido, um produto da convulsão intelectual causada pela terceira onda de desemprego em massa; dois textos seminais datam de 1986: Robert Salais, L’invention du chômage. Histoire et transformations d’une catégorie en France des années 1890 aux années 1980 (Paris, 1986), e Alexander Keyssar, Out of Work: The First Century of Unemployment in Massachusetts (Cambridge, 1986). Veja também Christian Topalov, Naissance du chômeur, 1880–1910 (Paris, 1994). Um estudo mais recente, baseado nesse trabalho, é Unemployment and Government: Genealogies of the Social, de William Walters (Cambridge, 2000).

5 John Garraty, Unemployment in History, Nova York, 1978, pp. 109, 4; J. A. Hobson, "The Meaning and Measure of 'Unemployment'", Contemporary Review 67, março de 1895.

6 K. Marx, Capital, cit., pp. 303, 307.

7 W. Walters, Unemployment, cit., p. 18. Ver também Gareth Stedman Jones, Outcast London, Nova York, 1984, pp. 291-296. Em suas cartas, Engels foi bastante crítico das "bobagens sobre revolução social" da FSD. Sua caracterização da manifestação como sendo composta principalmente por "vagabundos, espiões da polícia e malandros" é uma das passagens clássicas sobre o lumpemproletariado; K. Marx e F. Engels, Collected Works, cit., vol. XLVII, pp. 407, 408.

8 Hobson, citado por W. Walters, Unemployment, cit., p. 32. Ver também Stedman Jones, Languages ​​of Class, Cambridge, 1983, p. 159. O Departamento de Massachusetts é citado por A. Keyssar, Out of Work, cit., p. 72.

9 Ulrich Beck, Risk Society, Londres, 1992, p. 143.
 
10 Mike Davis, Planet of Slums, Londres, 2006, p. 55.

11 Hal Draper, Karl Marx’s Theory of Revolution, vol. II, Nova York, 1978, capítulo 15 e apêndice G: «On the Origin of the Term Lumpenproletariat».

12 Frantz Fanon, The Wretched of the Earth, Nova York, 2004, pp. 66, 81.

13 Ibid, pp. 81-82, 87.

14 Paul Bairoch, The Economic Development of the Third World since 1900, Berkeley, 1975, p. 165.

15 Keith Hart, «Informal Income Opportunities and Urban Employment in Ghana», Journal of Modern African Studies XI, 1, março de 1973, pp. 62, 68; Paul E. Bangasser, The ILO and the Informal Sector, ILO Employment Paper 2000/9, p. 10; ILO, Women and Men in the Informal Economy, Ginebra 2002, p. 7.

16 K. Hart, «Informal Income Opportunities», cit., p. 81. Veja tambémn Alejandro Portes y Kelly Hoffman, «Latin American Class Structures. Their Composition and Change during the Neoliberal Era», Latin American Research Review XXXVIII, 1º de fevereiro de 2003.

17 Ela Bhatt, We Are Poor but So Many: The Story of Self-Employed Women in India, Oxford, 2006, p. 89.

18 Ibid, pp. 17-18.

19 Ibid, pp. 18, 10, 11.

20 Ibid, pp. 63.

21 Martha Alter Chen, Self-Employed Women. A Profile of SEWA’s Membership, Ahmedabad, 2006, p.12

22 Jan Breman, Wage Hunters and Gatherers. Search for Work in the Urban and Rural Economy of South Gujarat, Delhi, 1994.

23 Zygmunt Bauman, Wasted Lives, Cambridge, 2004, pp. 12, 5, 66.
 
24 K. Marx, Capital, cit., pp. 782,783-784, 794.

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