2 de fevereiro de 2022

Na Ucrânia, Joe Biden e Vladimir Putin estão brincando com fogo

O atual impasse Ucrânia-Rússia é a crise de guerra europeia mais perigosa em décadas. A arrogância retórica e o acúmulo de armamento correm o risco de desencadear uma explosão devastadora. Movimentos progressistas devem se organizar urgentemente para a paz e a desescalada.

Gilbert Achcar

Jacobin

Joe Biden falando com os participantes da Conferência Legislativa da Associação Estadual de Educação de Iowa 2020 (ISEA) em West Des Moines, Iowa, em 18 de janeiro de 2020. (Gage Skidmore / Flickr)

Tradução / Não é exagero dizer que o que está acontecendo atualmente no coração do continente europeu é o momento mais perigoso na história contemporânea e o mais perto de uma terceira guerra mundial desde a crise dos misseis soviéticos em Cuba em 1962. É verdade que nem Moscou nem Washington sugeriram o uso de armas nucleares até agora, apesar de não haver dúvidas de que os dois países colocaram os seus arsenais nucleares em estado de alerta face às atuais circunstâncias. É também verdade que o nível de alerta militar na América ainda não atingiu o nível alcançado em 1962. Mas o aumento de pessoal militar russo nas fronteiras da Ucrânia excede os níveis de concentração de tropas a que as fronteiras europeias assistiram nos momentos mais quentes da "Guerra Fria", ao mesmo tempo que a escalada verbal do Ocidente contra a Rússia atingiu um nível perigoso, acompanhado por gestos militares e preparativos que criam a possibilidade real do deflagrar do conflito.

Os governantes das grandes potências estão brincando com o fogo. Vladimir Putin pode até pensar que isto é como movimentar a rainha e dar cheque no xadrez forçando o opositor a retirar as suas peças; Joe Biden pode pensar que isto é uma oportunidade adequada para repolir a sua imagem interna e internacional, muito apagada desde o seu fracasso embaraçoso no encenar da retirada das forças dos EUA do Afeganistão; e Boris Johnson pode acreditar que a gabarolice pretensiosa do seu governo é uma forma fácil de desviar as atenções dos seus problemas políticos domésticos. A questão não deixa de ser, contudo, que, nestas circunstâncias, os acontecimentos ganham a sua dinâmica própria com o rufar dos tambores de guerra - dinâmica que ultrapassa o controle de todos os atores individuais e arrisca desencadear uma explosão que nenhuma das partes originalmente queria.

A tensão atual entre a Rússia e os países ocidentais atingiu um grau sem precedentes na Europa desde a II Guerra Mundial. Os primeiros episódios europeus de guerra testemunhados desde então, as guerras dos Bálcãs na década de 1990, nunca chegaram ao nível de tensão prolongada e de alerta entre as próprias grandes potências a que estamos assistindo hoje. Se rebentasse um conflito como resultado desta tensão, ainda que fosse inicialmente apenas travado em solo ucraniano, a localização central e a própria dimensão da Ucrânia são o suficiente para o perigo do incêndio se estender a outros países europeus com fronteira com a Rússia, assim como ao Cáucaso e Ásia Central, ser grave e iminente.

A principal causa do que está acontecendo relaciona-se com uma série de desenvolvimentos, recaindo a primeira e maior responsabilidade sobre eles no país mais poderoso que tomou a iniciativa - e este é, claro, os EUA. Desde que a União Soviética entrou em agonia sob o governo de Mikhail Gorbachev, e até mais ainda sob o do primeiro presidente da Rússia pós-soviética, Boris Yeltsin, Washington comportou-se para com a Rússia como um vencedor sem misericórdia o faz quando impede o vencido de voltar a erguer-se. Isto traduziu-se na expansão da OTAN, que é dominada pelos EUA, ao incluir países que anteriormente pertenceram ao Pacto de Varsóvia, que era dominado pela URSS, em vez de dissolver a aliança ocidental em paralelo com a sua homóloga oriental. Também se traduziu no fato de o ocidente ter ditado uma política econômica de “terapia de choque” à economia burocrática da Rússia, provocando uma enorme crise sócio-econômica e o colapso.

Estas premissas foram o que quase naturalmente conduziu ao resultado para que um dos conselheiros mais proeminentes de Gorbachev - um ex-membro do Soviete Supremo e do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética - Georgi Arbatov, tinha alertado há trinta anos atrás, quando previu que as políticas ocidentais relativas à Rússia iriam levar a uma "Nova Guerra Fria" e à emergência de um governo autoritário em Moscou que faria reviver a velha tradição imperial russa.

Isto concretizou-se mesmo com a ascensão de Putin ao poder, representando o interesse dos dois blocos mais importantes da economia capitalista russa (na qual os interesses privados e do capitalismo de Estado estão misturados): o complexo militar-industrial - que emprega um quinto da força laboral industrial da Rússia, para além do pessoal das forças armadas - e o setor do petróleo e do gás.

O resultado foi que a Rússia de Putin está praticando uma política de expansão militar que vai muito além do que aconteceu durante o tempo da União Soviética. Então, Moscou não destacou forças de combate para fora da esfera que tinha ficado sob seu controle no final da II Guerra Mundial, até invadir o Afeganistão no final de 1979, uma invasão que precipitou a agonia mortal da URSS. No que diz respeito à Rússia de Putin, depois de voltar a ganhar vitalidade econômica graças ao aumento dos preços dos combustíveis desde a viragem do século, interveio militarmente fora das suas fronteiras com uma frequência comparável à das intervenções militares dos EUA antes da derrota no Vietnã e entre a primeira guerra americana contra o Iraque em 1991 e a saída inglória das suas forças daquele país vinte anos mais tarde. As intervenções e invasões russas já não estão confinadas ao seu "exterior próximo", ou seja aos países adjacentes à Rússia que eram dominados por Moscou através da URSS e do Pacto de Varsóvia. A Rússia pós-soviética interveio militarmente no Cáucaso, especialmente na Geórgia, na Ucrânia e, mais recentemente, no Cazaquistão. Mas também tem travado uma guerra na Síria desde 2015 e intervém sob um disfarce transparente na Líbia e mais recentemente na África subsariana.

Assim, entre a renovada beligerância russa e a continuada arrogância norte-americana, o mundo dá por si à beira de um desastre que poderia acelerar bastante a aniquilação da humanidade para a qual o nosso planeta caminha por via da degradação ambiental e do aquecimento global. Só nos resta ter esperança que a razão prevaleça e que as grandes potências cheguem a um acordo que lide com as preocupações de segurança da Rússia e volte a criar condições para uma “coexistência pacífica” que reduziria a temperatura da Nova Guerra Fria e a impediria de se transformar em uma guerra quente que seria uma catástrofe enorme para toda a humanidade.

Republicado Al-Quds al-Arabi.

Colaborador

Gilbert Achcar é professor da SOAS, University of London. Seus livros mais recentes são Marxism, Orientalism, Cosmopolitanism (2013), The People Want: A Radical Exploration of the Arab Uprising (2013), e Morbid Symptoms: Relapse in the Arab Uprising (2016).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Guia essencial para a Jacobin

A Jacobin tem divulgado conteúdo socialista em ritmo acelerado desde 2010. Eis aqui um guia prático para algumas das obras mais importantes ...