A ascensão da China nas últimas décadas costuma ser apresentada como um “milagre econômico”. Mas, segundo a formulação oficial da economia política chinesa, esse resultado não é fruto do acaso nem da simples adoção do mercado: ele se apoia em um conjunto de princípios que articulam planejamento estatal, inovação tecnológica, propriedade pública, desenvolvimento social e soberania nacional. Este artigo apresenta os oito fundamentos teóricos que, na visão de autores chineses marxistas, explicam a trajetória de crescimento e transformação do país.
Cheng Enfu e Ding Xiaoqin
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| Monthly Review Vol. 68, No. 08 |
O rápido desenvolvimento econômico da China nos últimos anos é frequentemente caracterizado como "milagroso".1 Referências a um "Consenso de Pequim" ou "modelo chinês" tornaram-se comuns em debates acadêmicos. No entanto, como escrevemos anteriormente, "começaram a surgir problemas teóricos no que diz respeito à própria existência, ao conteúdo e às perspectivas do modelo chinês".2 A questão fundamental, então, é saber que tipo de teoria e estratégia econômica sustentam esse "milagre". O modelo chinês tem sido descrito de diversas formas: ora como uma modalidade de neoliberalismo, ora como um tipo inédito de keynesianismo. Em contrapartida a essas visões, sustentamos que os principais avanços recentes do país em termos de desenvolvimento são fruto de progressos teóricos na economia política — originados na própria China —, ao passo que os problemas centrais que acompanharam esse desenvolvimento refletem a influência deletéria do neoliberalismo ocidental. O presidente Xi Jinping tem enfatizado a necessidade de defender e desenvolver uma economia política marxista para o século XXI, adaptada às necessidades e aos recursos da China. Nesse sentido, o comunicado de uma conferência sobre a economia chinesa realizada pelo Comitê Central do Partido Comunista em dezembro de 2015 ressaltou a importância de oito princípios fundamentais da "economia política socialista com características chinesas". Tais princípios e suas aplicações são discutidos a seguir, juntamente com comentários sobre as diferentes interpretações existentes entre os intelectuais chineses. Esperamos esclarecer o modelo teórico oficial subjacente ao "milagre" econômico chinês, utilizando os termos e conceitos predominantes na China atual.
1. Sustentabilidade impulsionada pela Ciência e Tecnologia
Uma premissa fundamental da economia política marxista é que as forças produtivas determinam, em última análise, as relações de produção, formando ambas uma dialética constante que molda a superestrutura da ideologia e das instituições jurídicas e políticas. Ao mesmo tempo, as relações de produção predominantes em um estágio de desenvolvimento acabam por se tornar entraves ao desenvolvimento posterior de outros modos produtivos. Nesse processo, as forças produtivas são o elemento mais revolucionário e ativo, enquanto os seres humanos — que desenvolvem constantemente tecnologias e métodos organizacionais mais avançados — constituem a força motriz da produção. Hoje, o desenvolvimento da produtividade envolve três elementos substantivos essenciais: força de trabalho, ferramentas e maquinário de trabalho, e materiais; bem como três elementos interativos: ciência e tecnologia, gestão e educação. Dentre eles, a ciência e a tecnologia tendem a impulsionar as mudanças decisivas que conduzem o desenvolvimento das forças produtivas.
O princípio da sustentabilidade, impulsionado pela ciência e tecnologia, é crucial para o estudo da política econômica da China. Esse princípio enfatiza que libertar e desenvolver as forças produtivas é a missão primordial do socialismo em seus estágios iniciais. Como modelo econômico, o socialismo requer, em sua base, um certo nível de desenvolvimento material e tecnológico. O princípio ressalta que o crescimento populacional, a exploração e alocação de recursos e o meio ambiente devem apoiar e sustentar uns aos outros mutuamente. Na prática, segundo a estrutura oficial da China, isso significa construir uma "sociedade de três tipos": uma "sociedade de qualidade aprimorada", alcançada pelo controle e redução populacional; uma "sociedade de eficiência aprimorada", por meio da conservação de recursos; e uma "sociedade de proteção e promoção ambiental". Todas elas exigem a inovação contínua como sua força motriz.
A ênfase na inovação sustentável é especialmente vital nos dias de hoje. O problema do "gargalo" que restringe o desenvolvimento econômico e social chinês reside na escassez de forças motrizes para a inovação e na falta de novas forças nessa área. Entre 1998 e 2003, a produção de alta tecnologia da China não apenas dependia fortemente de materiais importados, mas também era, em grande parte, gerida por empresas e investidores estrangeiros. Por exemplo, em 2003, empresas chinesas dependentes de investimento estrangeiro respondiam por aproximadamente 90% das exportações do país em computadores, componentes e periféricos, e por 75% das exportações de equipamentos eletrônicos e de telecomunicações.3 Desde então, o governo chinês tem dedicado maior atenção à política de inovação.
Somente se os direitos de propriedade intelectual forem protegidos em todos os níveis é que as empresas chinesas e a economia como um todo poderão explorar as vantagens comerciais de marcas e avanços técnicos em determinados campos, bem como atender aos padrões técnicos internacionais para exportação.4 Atualmente, no clima econômico do "novo normal", apenas se abraçarmos a inovação — a principal força motriz do desenvolvimento — poderemos mitigar diversos riscos, solucionar o problema do excesso de capacidade, alcançar a transformação estrutural e a modernização da economia, e acompanhar o ritmo dos avanços científicos e tecnológicos globais. Somente se fizermos da inovação a tarefa primordial para promover o desenvolvimento — utilizando-a para transformar forças existentes, cultivar novas forças, revitalizar as antigas e criar condições para o surgimento constante de outras novas — é que poderemos conferir um forte impulso ao desenvolvimento sustentável da economia e da sociedade. Devemos abandonar ideias antigas, prevalentes no discurso econômico chinês — como "produzir não é tão bom quanto comprar, que não é tão bom quanto alugar" ou "usar o mercado para adquirir tecnologias" —, e abordar as questões da inovação original, da inovação integrada e da re-inovação, bem como a introdução e a absorção de inovações na economia. É necessário estabelecer um sistema tripartite que combine governo, mercado e tecnologia, a fim de transformar a "espontaneidade" econômica em "atomização". Nesse processo, é preciso compreender plenamente o "papel determinante" da ciência e da tecnologia e reconhecer, em nível estratégico, a importância de a ciência e a tecnologia orientarem a alocação de recursos.5
2. Orientar a produção para melhorar as condições de vida da população
1. Sustentabilidade impulsionada pela Ciência e Tecnologia
Uma premissa fundamental da economia política marxista é que as forças produtivas determinam, em última análise, as relações de produção, formando ambas uma dialética constante que molda a superestrutura da ideologia e das instituições jurídicas e políticas. Ao mesmo tempo, as relações de produção predominantes em um estágio de desenvolvimento acabam por se tornar entraves ao desenvolvimento posterior de outros modos produtivos. Nesse processo, as forças produtivas são o elemento mais revolucionário e ativo, enquanto os seres humanos — que desenvolvem constantemente tecnologias e métodos organizacionais mais avançados — constituem a força motriz da produção. Hoje, o desenvolvimento da produtividade envolve três elementos substantivos essenciais: força de trabalho, ferramentas e maquinário de trabalho, e materiais; bem como três elementos interativos: ciência e tecnologia, gestão e educação. Dentre eles, a ciência e a tecnologia tendem a impulsionar as mudanças decisivas que conduzem o desenvolvimento das forças produtivas.
O princípio da sustentabilidade, impulsionado pela ciência e tecnologia, é crucial para o estudo da política econômica da China. Esse princípio enfatiza que libertar e desenvolver as forças produtivas é a missão primordial do socialismo em seus estágios iniciais. Como modelo econômico, o socialismo requer, em sua base, um certo nível de desenvolvimento material e tecnológico. O princípio ressalta que o crescimento populacional, a exploração e alocação de recursos e o meio ambiente devem apoiar e sustentar uns aos outros mutuamente. Na prática, segundo a estrutura oficial da China, isso significa construir uma "sociedade de três tipos": uma "sociedade de qualidade aprimorada", alcançada pelo controle e redução populacional; uma "sociedade de eficiência aprimorada", por meio da conservação de recursos; e uma "sociedade de proteção e promoção ambiental". Todas elas exigem a inovação contínua como sua força motriz.
A ênfase na inovação sustentável é especialmente vital nos dias de hoje. O problema do "gargalo" que restringe o desenvolvimento econômico e social chinês reside na escassez de forças motrizes para a inovação e na falta de novas forças nessa área. Entre 1998 e 2003, a produção de alta tecnologia da China não apenas dependia fortemente de materiais importados, mas também era, em grande parte, gerida por empresas e investidores estrangeiros. Por exemplo, em 2003, empresas chinesas dependentes de investimento estrangeiro respondiam por aproximadamente 90% das exportações do país em computadores, componentes e periféricos, e por 75% das exportações de equipamentos eletrônicos e de telecomunicações.3 Desde então, o governo chinês tem dedicado maior atenção à política de inovação.
Somente se os direitos de propriedade intelectual forem protegidos em todos os níveis é que as empresas chinesas e a economia como um todo poderão explorar as vantagens comerciais de marcas e avanços técnicos em determinados campos, bem como atender aos padrões técnicos internacionais para exportação.4 Atualmente, no clima econômico do "novo normal", apenas se abraçarmos a inovação — a principal força motriz do desenvolvimento — poderemos mitigar diversos riscos, solucionar o problema do excesso de capacidade, alcançar a transformação estrutural e a modernização da economia, e acompanhar o ritmo dos avanços científicos e tecnológicos globais. Somente se fizermos da inovação a tarefa primordial para promover o desenvolvimento — utilizando-a para transformar forças existentes, cultivar novas forças, revitalizar as antigas e criar condições para o surgimento constante de outras novas — é que poderemos conferir um forte impulso ao desenvolvimento sustentável da economia e da sociedade. Devemos abandonar ideias antigas, prevalentes no discurso econômico chinês — como "produzir não é tão bom quanto comprar, que não é tão bom quanto alugar" ou "usar o mercado para adquirir tecnologias" —, e abordar as questões da inovação original, da inovação integrada e da re-inovação, bem como a introdução e a absorção de inovações na economia. É necessário estabelecer um sistema tripartite que combine governo, mercado e tecnologia, a fim de transformar a "espontaneidade" econômica em "atomização". Nesse processo, é preciso compreender plenamente o "papel determinante" da ciência e da tecnologia e reconhecer, em nível estratégico, a importância de a ciência e a tecnologia orientarem a alocação de recursos.5
2. Orientar a produção para melhorar as condições de vida da população
Um dos princípios da economia política é a teoria sobre o objetivo da produção. No capitalismo, o objetivo direto e último da produção é acumular o máximo possível de mais-valia privada ou lucros privados, e a produção de valor de uso visa servir à produção de mais-valia privada ou lucros privados. Nesse aspecto, existe uma diferença fundamental entre o capitalismo e o socialismo. No capitalismo, impulsionada pelo lucro para poucos, a acumulação ocorre em escala mundial, enquanto a grande maioria das massas globais é lançada na pobreza.6 Em contraste com esse modelo, o objetivo direto e último da produção no socialismo é satisfazer as necessidades materiais e culturais de toda a população. A produção de novo valor e de mais-valia pública visa servir à produção de valor de uso que reflita um objetivo de produção centrado no povo e orientado para as condições de vida da população.
A economia política de um socialismo com características chinesas deve seguir o princípio de organizar a produção para elevar os padrões de vida e atender às necessidades do povo. Esse princípio enfatiza que a contradição principal no socialismo em seu estágio inicial é aquela entre as crescentes necessidades materiais e culturais da população e o atraso da produção social. Essa discrepância só pode ser superada por meio do desenvolvimento rápido e constante das capacidades produtivas; essa é a tarefa primordial do socialismo em suas fases iniciais. Esse desenvolvimento deve ser centrado nas pessoas, tendo a prosperidade coletiva como objetivo norteador. Nosso objetivo deve ser uma sociedade na qual todos contribuam para a satisfação das necessidades humanas na medida de suas capacidades e desfrutem de acesso aos recursos materiais, sociais e espirituais necessários para o pleno desenvolvimento de seu potencial humano — em conformidade, naturalmente, com as exigências da sustentabilidade ecológica.7
A visão de que a "melhoria das condições de vida da população equivale ao desenvolvimento" é uma articulação do objetivo da produção socialista e do desenvolvimento econômico. Devemos continuar a fazer do desenvolvimento econômico nossa tarefa central e insistir na ideia estratégica de atribuir importância primordial ao desenvolvimento econômico. Devemos buscar a inovação como elemento fundamental dessa mudança, promovendo assim o desenvolvimento chinês e conduzindo-o a patamares mais elevados. No entanto, o ponto de partida e o ponto de chegada do desenvolvimento da produção e da economia é a melhoria das condições de vida da população; portanto, devemos estabelecer para nós mesmos a meta de construir uma sociedade de prosperidade moderada de forma abrangente. Qualquer plano para melhorar as condições de vida da população deve procurar atender a sete critérios: distribuição de renda e riqueza, redução da pobreza, emprego, habitação, educação, assistência médica e seguridade social. No contexto do "novo normal", marcado por um crescimento mais lento e pelo desenvolvimento dos mercados internos, esses critérios devem ser cumpridos mediante a articulação entre o desenvolvimento econômico e o social.
Melhorar as condições de vida da população é uma tarefa contínua, na qual novos desafios surgem constantemente. Devemos adotar medidas mais direcionadas e diretas, auxiliando os trabalhadores em geral a superar dificuldades e a promover seu bem-estar por meio de instituições jurídicas e da sociedade civil. É preciso avaliar de forma realista os efeitos de nossas ações sobre os padrões de vida, assegurando que os serviços públicos criem uma "rede de proteção" confiável.
3. A preeminência da propriedade pública nos direitos de propriedade nacionais
A economia política de um socialismo com características chinesas deve seguir o princípio de organizar a produção para elevar os padrões de vida e atender às necessidades do povo. Esse princípio enfatiza que a contradição principal no socialismo em seu estágio inicial é aquela entre as crescentes necessidades materiais e culturais da população e o atraso da produção social. Essa discrepância só pode ser superada por meio do desenvolvimento rápido e constante das capacidades produtivas; essa é a tarefa primordial do socialismo em suas fases iniciais. Esse desenvolvimento deve ser centrado nas pessoas, tendo a prosperidade coletiva como objetivo norteador. Nosso objetivo deve ser uma sociedade na qual todos contribuam para a satisfação das necessidades humanas na medida de suas capacidades e desfrutem de acesso aos recursos materiais, sociais e espirituais necessários para o pleno desenvolvimento de seu potencial humano — em conformidade, naturalmente, com as exigências da sustentabilidade ecológica.7
A visão de que a "melhoria das condições de vida da população equivale ao desenvolvimento" é uma articulação do objetivo da produção socialista e do desenvolvimento econômico. Devemos continuar a fazer do desenvolvimento econômico nossa tarefa central e insistir na ideia estratégica de atribuir importância primordial ao desenvolvimento econômico. Devemos buscar a inovação como elemento fundamental dessa mudança, promovendo assim o desenvolvimento chinês e conduzindo-o a patamares mais elevados. No entanto, o ponto de partida e o ponto de chegada do desenvolvimento da produção e da economia é a melhoria das condições de vida da população; portanto, devemos estabelecer para nós mesmos a meta de construir uma sociedade de prosperidade moderada de forma abrangente. Qualquer plano para melhorar as condições de vida da população deve procurar atender a sete critérios: distribuição de renda e riqueza, redução da pobreza, emprego, habitação, educação, assistência médica e seguridade social. No contexto do "novo normal", marcado por um crescimento mais lento e pelo desenvolvimento dos mercados internos, esses critérios devem ser cumpridos mediante a articulação entre o desenvolvimento econômico e o social.
Melhorar as condições de vida da população é uma tarefa contínua, na qual novos desafios surgem constantemente. Devemos adotar medidas mais direcionadas e diretas, auxiliando os trabalhadores em geral a superar dificuldades e a promover seu bem-estar por meio de instituições jurídicas e da sociedade civil. É preciso avaliar de forma realista os efeitos de nossas ações sobre os padrões de vida, assegurando que os serviços públicos criem uma "rede de proteção" confiável.
3. A preeminência da propriedade pública nos direitos de propriedade nacionais
A tensão fundamental entre a produção cada vez mais socializada e a propriedade privada capitalista dá origem a outras contradições e crises. Entre elas, incluem-se o conflito entre a gestão e o planejamento das empresas privadas e o caos do mercado, a disparidade entre a expansão indefinida da produção e a insuficiência relativa da demanda real, bem como as bolhas, pânicos e recessões periódicas.
Os antagonismos de classe decorrentes dessas contradições inspiraram historicamente movimentos de massa que buscavam substituir a propriedade privada dos meios de produção pela propriedade pública.
A economia política chinesa contemporânea adere ao princípio dos direitos de propriedade, com a predominância da propriedade pública. No contexto do relativo subdesenvolvimento das forças produtivas nos estágios iniciais do socialismo, o desenvolvimento econômico exigiu que uma propriedade pública dominante se desenvolvesse paralelamente a uma propriedade privada diversificada: "Empresas privadas nacionais e estrangeiras são desenvolvidas sob a precondição da prioridade qualitativa e quantitativa da economia pública"8. Esse princípio enfatiza a necessidade de fortalecer e desenvolver continuamente a economia pública, ao mesmo tempo em que se incentiva o desenvolvimento dos setores privados da economia, garantindo que todas as formas de propriedade compensem as deficiências umas das outras por meio do fomento mútuo e do desenvolvimento coordenado. No entanto, o papel central da propriedade pública deve ser preservado; portanto, o setor estatal deve ser dominante na economia. Essa é a garantia institucional para todo o povo chinês — de que compartilharão os frutos do desenvolvimento —, bem como uma garantia importante para reforçar a posição de liderança do Partido e manter o sistema socialista chinês. O princípio destaca uma diferença fundamental entre a economia socialista e o sistema econômico capitalista moderno, no qual a propriedade privada é dominante. Se bem conduzida, a propriedade pública pode não apenas integrar-se organicamente à economia de mercado, mas também alcançar maior equidade e eficiência do que a propriedade privada. Ao mesmo tempo, devemos reconhecer claramente que o mundo ainda está dividido em Estados-nação e que a propriedade estatal permanece como uma forma adequada de propriedade socialista.
Atualmente, devemos nos pautar pela ideia de que o setor estatal atua como a base da economia socialista e que o objetivo das reformas de propriedade mista não é enfraquecer as empresas estatais, mas fortalecê-las. Devemos aprender com os erros passados da reforma do setor estatal, que permitiram a uma elite restrita acumular enormes fortunas por meio do desvio de recursos. Precisamos concentrar esforços no desenvolvimento de uma propriedade mista de mão dupla, com participação de capital público. O modelo coletivo e cooperativo das economias das aldeias chinesas requer mais investimentos. É necessário implementar novas políticas para fortalecer a vitalidade, a competitividade e a gestão de riscos da economia pública. O governo deve controlar e regular as empresas privadas, tanto no mercado interno quanto no exterior — e não apenas apoiá-las —, a fim de aproveitar seus benefícios e, ao mesmo tempo, minimizar seus efeitos negativos. A China deve incentivar e orientar as empresas privadas a adotar reformas que permitam aos trabalhadores acumular participações acionárias, beneficiando assim tanto o trabalho quanto o capital e promovendo a prosperidade coletiva.
4. A primazia do trabalho na distribuição de riqueza
Os antagonismos de classe decorrentes dessas contradições inspiraram historicamente movimentos de massa que buscavam substituir a propriedade privada dos meios de produção pela propriedade pública.
A economia política chinesa contemporânea adere ao princípio dos direitos de propriedade, com a predominância da propriedade pública. No contexto do relativo subdesenvolvimento das forças produtivas nos estágios iniciais do socialismo, o desenvolvimento econômico exigiu que uma propriedade pública dominante se desenvolvesse paralelamente a uma propriedade privada diversificada: "Empresas privadas nacionais e estrangeiras são desenvolvidas sob a precondição da prioridade qualitativa e quantitativa da economia pública"8. Esse princípio enfatiza a necessidade de fortalecer e desenvolver continuamente a economia pública, ao mesmo tempo em que se incentiva o desenvolvimento dos setores privados da economia, garantindo que todas as formas de propriedade compensem as deficiências umas das outras por meio do fomento mútuo e do desenvolvimento coordenado. No entanto, o papel central da propriedade pública deve ser preservado; portanto, o setor estatal deve ser dominante na economia. Essa é a garantia institucional para todo o povo chinês — de que compartilharão os frutos do desenvolvimento —, bem como uma garantia importante para reforçar a posição de liderança do Partido e manter o sistema socialista chinês. O princípio destaca uma diferença fundamental entre a economia socialista e o sistema econômico capitalista moderno, no qual a propriedade privada é dominante. Se bem conduzida, a propriedade pública pode não apenas integrar-se organicamente à economia de mercado, mas também alcançar maior equidade e eficiência do que a propriedade privada. Ao mesmo tempo, devemos reconhecer claramente que o mundo ainda está dividido em Estados-nação e que a propriedade estatal permanece como uma forma adequada de propriedade socialista.
Atualmente, devemos nos pautar pela ideia de que o setor estatal atua como a base da economia socialista e que o objetivo das reformas de propriedade mista não é enfraquecer as empresas estatais, mas fortalecê-las. Devemos aprender com os erros passados da reforma do setor estatal, que permitiram a uma elite restrita acumular enormes fortunas por meio do desvio de recursos. Precisamos concentrar esforços no desenvolvimento de uma propriedade mista de mão dupla, com participação de capital público. O modelo coletivo e cooperativo das economias das aldeias chinesas requer mais investimentos. É necessário implementar novas políticas para fortalecer a vitalidade, a competitividade e a gestão de riscos da economia pública. O governo deve controlar e regular as empresas privadas, tanto no mercado interno quanto no exterior — e não apenas apoiá-las —, a fim de aproveitar seus benefícios e, ao mesmo tempo, minimizar seus efeitos negativos. A China deve incentivar e orientar as empresas privadas a adotar reformas que permitam aos trabalhadores acumular participações acionárias, beneficiando assim tanto o trabalho quanto o capital e promovendo a prosperidade coletiva.
4. A primazia do trabalho na distribuição de riqueza
Em qualquer economia capitalista, os trabalhadores assalariados são remunerados apenas pelo dispêndio de sua força de trabalho, e não pelo valor das mercadorias que produzem. Nessas condições, o salário específico que um trabalhador recebe está associado à sua posição e ao seu desempenho. E, embora em alguns setores das economias capitalistas a organização coletiva dos trabalhadores possa limitar a taxa de exploração e criar a aparência de uma distribuição justa de riqueza, o poder predominante continua sendo o dos direitos de propriedade privada de proprietários e empregadores.
A distribuição de riqueza em uma economia socialista chinesa deve ser orientada pelas necessidades do trabalho, e não do capital. Devemos combater a exploração e a polarização. A disparidade de renda deve ser reduzida, e o aumento da renda de todos os cidadãos deve caminhar junto cpm o crescimento econômico e a produtividade do trabalho. É vital estabelecer um mecanismo sólido e científico para determinar os níveis salariais, bem como um mecanismo para reajustes salariais regulares.
Devemos colocar em prática a ideia de que somente através da construção de instituições eficazes, que garantam a distribuição equitativa dos benefícios do crescimento da China, é possível proporcionar às pessoas um senso de propósito comum no projeto de desenvolvimento econômico. Precisamos fortalecer o ímpeto do desenvolvimento e promover a unidade do povo, avançando gradual e firmemente em direção à prosperidade coletiva. Somente se a alocação de recursos tiver como foco a prosperidade coletiva é que a produção social poderá ocorrer de forma saudável e estável, permitindo que a superioridade do sistema socialista se concretize.
A adesão ao desenvolvimento compartilhado envolve, principalmente, questões relacionadas às condições de vida da população e à prosperidade coletiva, sendo a distribuição o problema mais crítico. De fato, a má distribuição de riqueza é o maior obstáculo à prosperidade coletiva na atualidade. Observamos uma queda significativa na participação do trabalho no PIB, passando de cerca de 53% em 1990 para 42% em 2007. O crescente "exército de reserva de mão de obra", a segmentação do mercado de trabalho e as privatizações em massa de empresas estatais reduziram significativamente o poder e enfraqueceram a solidariedade da classe trabalhadora.9 Na China de hoje, as desigualdades na posse de propriedade e na renda são acentuadas e crescentes, com um coeficiente de Gini nacional que supera o dos Estados Unidos. O 1% mais rico das famílias chinesas detém um terço de todo o patrimônio familiar do país, o mesmo índice observado nos Estados Unidos. Devemos notar que o principal indicador de polarização entre ricos e pobres não é a renda proveniente de salários ou vencimentos, mas sim a riqueza — isto é, o patrimônio líquido das famílias.10
Na última década, documentos oficiais enfatizaram a importância de "reduzir as disparidades de renda", mas essa questão tem se mostrado controversa. Alguns artigos chegam até a exaltar os ricos como motores do crescimento econômico e modelos sociais, merecedores, portanto, de uma parcela desproporcional da riqueza do país. Essa ideia, popular porém destrutiva, sustenta que a atual disparidade entre ricos e pobres é uma questão trivial, sem relação com o desenvolvimento em larga escala de economias não públicas, e que a verdadeira preocupação agora é a chamada "armadilha da renda média".
No entanto, foi o neoliberalismo que inventou o conceito de "armadilha da renda média" e arrastou os países latino-americanos para ela. Também contribuiu para mergulhar economias de alta renda — como as dos Estados Unidos, do Japão e da União Europeia — em crises financeiras e deixou países de baixa renda, como os da África Subsaariana, atolados em um desenvolvimento lento e prolongado. A economista Mylene Gaulard escreve que
A distribuição de riqueza em uma economia socialista chinesa deve ser orientada pelas necessidades do trabalho, e não do capital. Devemos combater a exploração e a polarização. A disparidade de renda deve ser reduzida, e o aumento da renda de todos os cidadãos deve caminhar junto cpm o crescimento econômico e a produtividade do trabalho. É vital estabelecer um mecanismo sólido e científico para determinar os níveis salariais, bem como um mecanismo para reajustes salariais regulares.
Devemos colocar em prática a ideia de que somente através da construção de instituições eficazes, que garantam a distribuição equitativa dos benefícios do crescimento da China, é possível proporcionar às pessoas um senso de propósito comum no projeto de desenvolvimento econômico. Precisamos fortalecer o ímpeto do desenvolvimento e promover a unidade do povo, avançando gradual e firmemente em direção à prosperidade coletiva. Somente se a alocação de recursos tiver como foco a prosperidade coletiva é que a produção social poderá ocorrer de forma saudável e estável, permitindo que a superioridade do sistema socialista se concretize.
A adesão ao desenvolvimento compartilhado envolve, principalmente, questões relacionadas às condições de vida da população e à prosperidade coletiva, sendo a distribuição o problema mais crítico. De fato, a má distribuição de riqueza é o maior obstáculo à prosperidade coletiva na atualidade. Observamos uma queda significativa na participação do trabalho no PIB, passando de cerca de 53% em 1990 para 42% em 2007. O crescente "exército de reserva de mão de obra", a segmentação do mercado de trabalho e as privatizações em massa de empresas estatais reduziram significativamente o poder e enfraqueceram a solidariedade da classe trabalhadora.9 Na China de hoje, as desigualdades na posse de propriedade e na renda são acentuadas e crescentes, com um coeficiente de Gini nacional que supera o dos Estados Unidos. O 1% mais rico das famílias chinesas detém um terço de todo o patrimônio familiar do país, o mesmo índice observado nos Estados Unidos. Devemos notar que o principal indicador de polarização entre ricos e pobres não é a renda proveniente de salários ou vencimentos, mas sim a riqueza — isto é, o patrimônio líquido das famílias.10
Na última década, documentos oficiais enfatizaram a importância de "reduzir as disparidades de renda", mas essa questão tem se mostrado controversa. Alguns artigos chegam até a exaltar os ricos como motores do crescimento econômico e modelos sociais, merecedores, portanto, de uma parcela desproporcional da riqueza do país. Essa ideia, popular porém destrutiva, sustenta que a atual disparidade entre ricos e pobres é uma questão trivial, sem relação com o desenvolvimento em larga escala de economias não públicas, e que a verdadeira preocupação agora é a chamada "armadilha da renda média".
No entanto, foi o neoliberalismo que inventou o conceito de "armadilha da renda média" e arrastou os países latino-americanos para ela. Também contribuiu para mergulhar economias de alta renda — como as dos Estados Unidos, do Japão e da União Europeia — em crises financeiras e deixou países de baixa renda, como os da África Subsaariana, atolados em um desenvolvimento lento e prolongado. A economista Mylene Gaulard escreve que
o crescimento econômico chinês tem desacelerado desde 2002. Muitas pesquisas sobre a "armadilha da renda média" acompanham atentamente se a China conseguirá ingressar no grupo de nações de alta renda com seu PIB per capita. A maioria das pesquisas atribui isso ao aumento dos custos salariais — mais precisamente, ao aumento do custo unitário da mão de obra —, o que resulta na perda de competitividade internacional. Contudo, visto que o aumento do custo unitário da mão de obra não parece tão arriscado quanto a queda na eficiência do capital, devemos recorrer à análise marxista para compreender melhor esse problema.11
A China deve seguir as orientações de Deng Xiaoping, formuladas no final do século passado, para solucionar os problemas de desigualdade entre ricos e pobres e alcançar a prosperidade coletiva, desenvolvendo um mecanismo de distribuição de riqueza e renda baseado na primazia do trabalho.12
5. O princípio de mercado orientado pelo Estado
5. O princípio de mercado orientado pelo Estado
O caráter anárquico do mercado capitalista e o impulso do capitalista individual para inovar, visando reduzir os custos de mão de obra, levam periodicamente a crises de superprodução, nas quais os trabalhadores são os mais afetados. Tais crises podem ser de curto ou longo prazo, dependendo do grau de fatores "não mercadológicos" presentes, particularmente a escala do monopólio. Em uma economia de mercado capitalista, essa lei de proporcionalidade baseia-se principalmente em ajustes espontâneos, e o papel da regulação estatal é relativamente limitado.
Em contrapartida, em uma economia socialista chinesa, o mercado é orientado pelo Estado, e não o contrário. Marta Harnecker argumentou que, sem planejamento participativo, não pode haver socialismo — não apenas devido à necessidade de acabar com a anarquia da produção capitalista, mas também porque somente através do engajamento das massas a sociedade pode verdadeiramente apropriar-se dos frutos de seu trabalho. Os atores do planejamento participativo variarão de acordo com os diferentes níveis de propriedade social.13 Esse princípio de "mercado orientado pelo Estado" enfatiza que uma sociedade socialista pode desenvolver uma economia de mercado de maneira planejada e proporcional, e que o papel fundamental do mercado na alocação de recursos deve ser exercido sob supervisão governamental.
Ao atribuir ao mercado um papel determinante na alocação geral e, simultaneamente, promover o papel regulador do governo, devem ser envidados todos os esforços para enfrentar problemas como mecanismos de mercado imperfeitos, intervenção governamental excessiva e supervisão regulatória deficiente. Para tanto, devemos avançar em reformas orientadas para o mercado que reduzam significativamente a alocação direta de recursos pelo governo e permitam que essa alocação ocorra segundo as regras de mercado — com preços e concorrência —, visando à máxima eficiência. Os deveres e funções do governo consistem principalmente em manter uma política macroeconômica estável, fortalecer os serviços públicos, garantir a concorrência leal e reforçar a supervisão do mercado, bem como promover a prosperidade coletiva e corrigir ou compensar falhas de mercado.
Devemos continuar empenhados em combinar o sistema básico do socialismo com uma economia de mercado. Dessa forma, podemos aproveitar plenamente ambos os aspectos. É preciso reconhecer que, na economia da China, as leis de autorregulação do mercado desempenham um papel determinante na alocação geral de recursos; no entanto, elas operam de maneira diferente daquela observada nos mercados capitalistas. Em uma economia capitalista, o funcionamento do mercado é o que determina a alocação de recursos. No entanto, em uma economia socialista, o governo utiliza controles de preços, subsídios, racionamento e outras políticas para garantir que a alocação de recursos seja planejada e proporcional. Precisamos, então, ver o papel determinante do mercado melhor integrado aos planos governamentais. Devemos aproveitar os benefícios do mercado e, ao mesmo tempo, corrigir ineficiências nos mecanismos regulatórios tanto do Estado quanto do próprio mercado, adotando assim uma abordagem de duas vertentes.14 Obviamente, como a economia de mercado socialista chinesa se baseia na primazia da propriedade pública, a força e o alcance da regulamentação em áreas como legislação, política fiscal, administração e ética superam a capacidade regulatória dos governos em economias de mercado capitalistas. O desempenho incomparável da economia chinesa nas últimas décadas é uma prova contundente da maior capacidade do governo de conduzir o desenvolvimento.
Não devemos negar a objetividade da programação, do planejamento e da regulamentação estatais — nem sustentar que conceitos como "lei de regulamentação estatal", "lei de planejamento" e outros não se aplicam — simplesmente porque isso envolve ações potencialmente equivocadas de agentes humanos. Afinal, ao aceitar essa lógica, deve-se também aceitar que existe um elemento humano nas atividades de mercado e que, portanto, conceitos relacionados como "lei de regulamentação do mercado", "lei do valor" e assim por diante também não se aplicariam. Afinal, o mercado é determinado pelo comportamento humano. A ação econômica humana no mercado regula as empresas, a natureza da mercadoria, os preços e a concorrência. Portanto, tanto as leis de regulamentação do mercado quanto as de regulamentação estatal baseiam-se em atividades humanas, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo. Uma micro e macroeconomia eficaz exige que todos os trabalhadores das empresas e do governo busquem harmonizar suas contribuições individuais com as atividades econômicas objetivas das quais os seres humanos participam.
6. Desenvolvimento acelerado com alto desempenho
Em contrapartida, em uma economia socialista chinesa, o mercado é orientado pelo Estado, e não o contrário. Marta Harnecker argumentou que, sem planejamento participativo, não pode haver socialismo — não apenas devido à necessidade de acabar com a anarquia da produção capitalista, mas também porque somente através do engajamento das massas a sociedade pode verdadeiramente apropriar-se dos frutos de seu trabalho. Os atores do planejamento participativo variarão de acordo com os diferentes níveis de propriedade social.13 Esse princípio de "mercado orientado pelo Estado" enfatiza que uma sociedade socialista pode desenvolver uma economia de mercado de maneira planejada e proporcional, e que o papel fundamental do mercado na alocação de recursos deve ser exercido sob supervisão governamental.
Ao atribuir ao mercado um papel determinante na alocação geral e, simultaneamente, promover o papel regulador do governo, devem ser envidados todos os esforços para enfrentar problemas como mecanismos de mercado imperfeitos, intervenção governamental excessiva e supervisão regulatória deficiente. Para tanto, devemos avançar em reformas orientadas para o mercado que reduzam significativamente a alocação direta de recursos pelo governo e permitam que essa alocação ocorra segundo as regras de mercado — com preços e concorrência —, visando à máxima eficiência. Os deveres e funções do governo consistem principalmente em manter uma política macroeconômica estável, fortalecer os serviços públicos, garantir a concorrência leal e reforçar a supervisão do mercado, bem como promover a prosperidade coletiva e corrigir ou compensar falhas de mercado.
Devemos continuar empenhados em combinar o sistema básico do socialismo com uma economia de mercado. Dessa forma, podemos aproveitar plenamente ambos os aspectos. É preciso reconhecer que, na economia da China, as leis de autorregulação do mercado desempenham um papel determinante na alocação geral de recursos; no entanto, elas operam de maneira diferente daquela observada nos mercados capitalistas. Em uma economia capitalista, o funcionamento do mercado é o que determina a alocação de recursos. No entanto, em uma economia socialista, o governo utiliza controles de preços, subsídios, racionamento e outras políticas para garantir que a alocação de recursos seja planejada e proporcional. Precisamos, então, ver o papel determinante do mercado melhor integrado aos planos governamentais. Devemos aproveitar os benefícios do mercado e, ao mesmo tempo, corrigir ineficiências nos mecanismos regulatórios tanto do Estado quanto do próprio mercado, adotando assim uma abordagem de duas vertentes.14 Obviamente, como a economia de mercado socialista chinesa se baseia na primazia da propriedade pública, a força e o alcance da regulamentação em áreas como legislação, política fiscal, administração e ética superam a capacidade regulatória dos governos em economias de mercado capitalistas. O desempenho incomparável da economia chinesa nas últimas décadas é uma prova contundente da maior capacidade do governo de conduzir o desenvolvimento.
Não devemos negar a objetividade da programação, do planejamento e da regulamentação estatais — nem sustentar que conceitos como "lei de regulamentação estatal", "lei de planejamento" e outros não se aplicam — simplesmente porque isso envolve ações potencialmente equivocadas de agentes humanos. Afinal, ao aceitar essa lógica, deve-se também aceitar que existe um elemento humano nas atividades de mercado e que, portanto, conceitos relacionados como "lei de regulamentação do mercado", "lei do valor" e assim por diante também não se aplicariam. Afinal, o mercado é determinado pelo comportamento humano. A ação econômica humana no mercado regula as empresas, a natureza da mercadoria, os preços e a concorrência. Portanto, tanto as leis de regulamentação do mercado quanto as de regulamentação estatal baseiam-se em atividades humanas, tanto em sua forma quanto em seu conteúdo. Uma micro e macroeconomia eficaz exige que todos os trabalhadores das empresas e do governo busquem harmonizar suas contribuições individuais com as atividades econômicas objetivas das quais os seres humanos participam.
6. Desenvolvimento acelerado com alto desempenho
A taxa ideal de crescimento econômico deve buscar maximizar o desempenho econômico. Uma taxa de crescimento relativamente baixa, com utilização insuficiente de recursos, inibe o pleno emprego, a acumulação de riqueza e o bem-estar público. Por outro lado, uma taxa de crescimento mais elevada, baseada na utilização extensiva — e não intensiva — de recursos, é igualmente prejudicial à sustentabilidade ecológica e à justiça distributiva. É necessária uma análise dialética para qualquer índice baseado no Produto Interno Bruto (PIB). Avaliada isoladamente, qualquer abordagem focada exclusivamente no PIB é inadequada: devemos prestar atenção não apenas ao crescimento pelo crescimento, mas também ao tipo de crescimento que estamos impulsionando, em quais áreas e a que custo.
A economia chinesa deve priorizar o desempenho em detrimento da velocidade. Da década de 1980 até a de 1990, o crescimento econômico foi a principal prioridade do governo chinês, e o PIB quadruplicou nesse período. Projeta-se que, até 2020, o PIB e o PIB per capita sejam o dobro dos valores de 2010. Desde 2013, após trinta anos de crescimento rápido e quase ininterrupto, a China entrou em uma nova fase que chamamos de "novo normal". O crescimento desacelerou, e a economia chinesa está se transformando de um modelo extensivo de alto crescimento para um modelo intensivo de alto desempenho.15
Para alcançar um crescimento econômico estável, devemos nos preocupar com reformas estruturais do lado da oferta. As principais razões para a crescente pressão de desaceleração sobre a economia chinesa são a falha em reformar as estruturas necessárias para longos períodos de crescimento extensivo, bem como a dependência de insumos materiais, do consumo de recursos e de baixos níveis de inovação. As mudanças na conjuntura econômica, tanto interna quanto externa, exigem uma atualização urgente da economia chinesa, passando de um desenvolvimento acelerado para um desenvolvimento de alta qualidade. O mercado de trabalho chinês deve transitar para uma divisão de trabalho mais diversificada, com uma estrutura mais flexível.
7. Desenvolvimento equilibrado com coordenação estrutural
A economia chinesa deve priorizar o desempenho em detrimento da velocidade. Da década de 1980 até a de 1990, o crescimento econômico foi a principal prioridade do governo chinês, e o PIB quadruplicou nesse período. Projeta-se que, até 2020, o PIB e o PIB per capita sejam o dobro dos valores de 2010. Desde 2013, após trinta anos de crescimento rápido e quase ininterrupto, a China entrou em uma nova fase que chamamos de "novo normal". O crescimento desacelerou, e a economia chinesa está se transformando de um modelo extensivo de alto crescimento para um modelo intensivo de alto desempenho.15
Para alcançar um crescimento econômico estável, devemos nos preocupar com reformas estruturais do lado da oferta. As principais razões para a crescente pressão de desaceleração sobre a economia chinesa são a falha em reformar as estruturas necessárias para longos períodos de crescimento extensivo, bem como a dependência de insumos materiais, do consumo de recursos e de baixos níveis de inovação. As mudanças na conjuntura econômica, tanto interna quanto externa, exigem uma atualização urgente da economia chinesa, passando de um desenvolvimento acelerado para um desenvolvimento de alta qualidade. O mercado de trabalho chinês deve transitar para uma divisão de trabalho mais diversificada, com uma estrutura mais flexível.
7. Desenvolvimento equilibrado com coordenação estrutural
Um dos princípios da economia política da China é a lei da distribuição proporcional do trabalho social (ou "lei da proporcionalidade", abreviadamente), que rege a dinâmica contraditória entre a produção social e a demanda, bem como a necessidade de coordenar o desenvolvimento de toda a economia nacional. Essa lei exige que o trabalho social global — envolvendo pessoas, ferramentas e materiais — seja distribuído proporcionalmente à demanda, a fim de manter um equilíbrio estrutural entre as diferentes indústrias e setores. Na reprodução social, a produção e a demanda mantêm um equilíbrio dinâmico em sua estrutura de valor, maximizando a produção e minimizando o consumo de trabalho. A coordenação estrutural generalizada da economia reflete-se na crescente racionalização e sofisticação da infraestrutura industrial, do comércio exterior, da gestão empresarial, da inovação tecnológica, entre outros aspectos.
Esse princípio de equilíbrio estrutural coordenado é essencial para a economia política chinesa contemporânea. Ele integra o objetivo mais amplo de promover a evolução da indústria chinesa de patamares baixo e médio para níveis médio e alto. No contexto de crescente modernização, deve-se manter o equilíbrio tanto internamente a cada setor quanto entre os setores primário, secundário e terciário. As estruturas econômicas de províncias, cidades e regiões devem ser diversificadas, e o comércio exterior deve envolver uma maior participação de produtos de alta tecnologia e de marcas nacionais. Grandes empresas e corporações chinesas devem deter a maior fatia do comércio, coexistindo com empresas de menor porte e firmas estrangeiras. No que tange aos produtos de alta tecnologia, é preciso ampliar a participação de tecnologias essenciais e de propriedade intelectual de titularidade chinesa no mercado global. No mercado, a oferta e a demanda devem manter um equilíbrio dinâmico, com a oferta ligeiramente superior à demanda. O desenvolvimento deve servir à economia real, evitando-se o desenvolvimento excessivo da economia virtual. A industrialização, a informatização, a urbanização e a modernização agrícola devem ocorrer de forma coordenada.
Neste momento, devemos adaptar nossas teorias, diretrizes e políticas ao "novo normal" econômico. É preciso concentrar esforços no fortalecimento das reformas estruturais pelo lado da oferta, ao mesmo tempo em que se amplia moderadamente a demanda agregada e se reformam os principais setores da economia, com ênfase especial na redução do excesso de capacidade estrutural. Devemos reduzir gradualmente a capacidade produtiva e os estoques, promover a desalavancagem das empresas e incentivar a inovação para reduzir custos e fortalecer elos mais frágeis. Também são necessárias melhorias na qualidade e na eficiência das cadeias de suprimentos, bem como na eficácia dos investimentos. Além disso, é importante acelerar o desenvolvimento de fontes de energia ecologicamente sustentáveis e impulsionar o crescimento sustentável. Devemos abandonar a ideia equivocada e persistente de que, bastando eliminar os excedentes econômicos decorrentes de intervenções administrativas, o excesso de capacidade produtiva e os excedentes de produtos gerados pela dinâmica de mercado se equilibrariam automaticamente, sem qualquer intervenção ativa do governo. Essa falácia neoliberal e suas consequências não constituem apenas a principal causa do excesso de capacidade estrutural em larga escala na economia chinesa, mas também contrariam o espírito do socialismo chinês.
8. Soberania econômica e abertura
Esse princípio de equilíbrio estrutural coordenado é essencial para a economia política chinesa contemporânea. Ele integra o objetivo mais amplo de promover a evolução da indústria chinesa de patamares baixo e médio para níveis médio e alto. No contexto de crescente modernização, deve-se manter o equilíbrio tanto internamente a cada setor quanto entre os setores primário, secundário e terciário. As estruturas econômicas de províncias, cidades e regiões devem ser diversificadas, e o comércio exterior deve envolver uma maior participação de produtos de alta tecnologia e de marcas nacionais. Grandes empresas e corporações chinesas devem deter a maior fatia do comércio, coexistindo com empresas de menor porte e firmas estrangeiras. No que tange aos produtos de alta tecnologia, é preciso ampliar a participação de tecnologias essenciais e de propriedade intelectual de titularidade chinesa no mercado global. No mercado, a oferta e a demanda devem manter um equilíbrio dinâmico, com a oferta ligeiramente superior à demanda. O desenvolvimento deve servir à economia real, evitando-se o desenvolvimento excessivo da economia virtual. A industrialização, a informatização, a urbanização e a modernização agrícola devem ocorrer de forma coordenada.
Neste momento, devemos adaptar nossas teorias, diretrizes e políticas ao "novo normal" econômico. É preciso concentrar esforços no fortalecimento das reformas estruturais pelo lado da oferta, ao mesmo tempo em que se amplia moderadamente a demanda agregada e se reformam os principais setores da economia, com ênfase especial na redução do excesso de capacidade estrutural. Devemos reduzir gradualmente a capacidade produtiva e os estoques, promover a desalavancagem das empresas e incentivar a inovação para reduzir custos e fortalecer elos mais frágeis. Também são necessárias melhorias na qualidade e na eficiência das cadeias de suprimentos, bem como na eficácia dos investimentos. Além disso, é importante acelerar o desenvolvimento de fontes de energia ecologicamente sustentáveis e impulsionar o crescimento sustentável. Devemos abandonar a ideia equivocada e persistente de que, bastando eliminar os excedentes econômicos decorrentes de intervenções administrativas, o excesso de capacidade produtiva e os excedentes de produtos gerados pela dinâmica de mercado se equilibrariam automaticamente, sem qualquer intervenção ativa do governo. Essa falácia neoliberal e suas consequências não constituem apenas a principal causa do excesso de capacidade estrutural em larga escala na economia chinesa, mas também contrariam o espírito do socialismo chinês.
8. Soberania econômica e abertura
Um princípio fundamental é a abertura da economia ao comércio e ao investimento. Esse princípio sustenta que tal abertura é benéfica para o crescimento econômico, tanto internamente quanto no exterior, favorecendo a otimização da alocação de recursos e o aprimoramento das interações entre indústria e tecnologia. A forma dessa abertura econômica, bem como seu alcance e extensão, deve ser implementada de maneira flexível e responsiva às condições complexas e variáveis das economias nacional e global. Os países em desenvolvimento devem dedicar atenção especial às suas estratégias e táticas ao se abrirem para países desenvolvidos, dados os riscos e incertezas inerentes a uma relação tão desigual.
Consequentemente, uma economia política socialista com características chinesas deve concentrar-se no princípio da soberania econômica. A China deve insistir na política estatal de abertura de mão dupla, que integra as políticas interna e internacional, desenvolvendo uma economia aberta de nível superior ao aproveitar os mercados doméstico e estrangeiro. Isso implica adaptar a política comercial para identificar e explorar acordos mutuamente benéficos, protegendo, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da China e prevenindo ativamente riscos à segurança econômica nacional. Exige-se uma política que atribua igual importância aos fluxos de entrada e saída da economia, bem como às "vantagens do retardatário" e às "vantagens do pioneiro". Devemos construir corporações internacionais regidas pelos "três controles": o lado chinês detém o controle das ações, das tecnologias e padrões tecnológicos fundamentais e das marcas. Ao mesmo tempo, é importante não cair nas tradicionais "armadilhas das vantagens comparativas" e implementar a teoria e a estratégia de vantagens baseadas em direitos de propriedade intelectual independentes.
No futuro imediato, devemos focar na abertura de diferentes regiões ao comércio exterior, aproveitando seus pontos fortes específicos e evitando a concorrência desnecessária entre regiões pelos mesmos tipos de comércio — especialmente quando estes são obviamente mais adequados a algumas regiões do que a outras. A China deve fazer o melhor uso de suas importações e exportações, evitando importar produtos que poderiam ser facilmente obtidos internamente ou exportar produtos para os quais existe demanda interna insatisfeita. É também importante elevar o nível da distribuição internacional, aproveitando ao máximo a expertise e as tecnologias estrangeiras para desenvolver a capacidade de produção e manufatura internacionais. Zonas de livre comércio e infraestrutura de investimento precisam ser objeto de negociação. De modo geral, a China precisa desempenhar um papel mais forte na governança econômica global.
Um desafio adicional é o emprego eficaz dos investimentos chineses no exterior para garantir benefícios ideais. Isso se aplica igualmente às reservas cambiais da China. Nesse sentido, é importante aprender o mais rápido possível com a experiência de economias desenvolvidas — como Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos — em suas relações comerciais com parceiros estrangeiros. Deve-se evitar o problema das fusões que levam à "decapitação" de empresas locais quando companhias e indústrias estrangeiras buscam ingressar no mercado chinês. A China precisa se comprometer a manter-se aberta ao comércio exterior para aprofundar e ampliar a qualidade e o crescimento de sua própria produção econômica. Um componente fundamental dessa estratégia é a iniciativa chinesa "Um Cinturão, Uma Rota". Esse projeto de investimento de grande porte deve caminhar lado a lado com o desenvolvimento de uma nova arquitetura financeira global, representada por instituições como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura e o Fundo da Rota da Seda. Tais instituições constituem marcos importantes no projeto mais amplo de fortalecer e sustentar o sucesso econômico da China.
Notas
1. A pesquisa para este artigo contou com o apoio do Projeto 16NKS081 da Fundação Nacional de Ciências Sociais da China — um projeto selecionado por meio de edital da Escola de Marxismo e do Programa de Disciplina Acadêmica de Destaque — e do Projeto 211 da Universidade de Finanças e Economia de Xangai. Ding Xiaoqin é o autor correspondente deste artigo.
2. Enfu Cheng, Xiangyang Xin, “Fundamental Elements of the China Model”, International Critical Thought 1, nº 1 (março de 2011): 2–10.
3. Martin Hart-Landsberg e Paul Burkett, “China, Capitalist Accumulation, and Labor”, Monthly Review 59, nº 1 (maio de 2007): 17–39.
4. Xiping Han e Lingling Zhou, “A Review of the Theory of Advantage of Intellectual Property Rights and Its Application Value”, Journal of Economics of Shanghai School 11, nº 3 (2013): 1–9.
5. Chengxun Yang e Yu Cheng, “The Evolution to Consciousness of Resource Allocation: The Ternary Mechanism—Rethinking the Lessons of Dialectics of Nature by Engels”, Journal of Economics of Shanghai School 13, nº 4 (2015): 31–43.
6. Harry Magdoff e John Bellamy Foster, “China and Socialism: Editors’ Foreword”, Monthly Review 56, nº 3 (2004): 2–6.
7. Pat Devine, “Question 1: Why Socialism?”, Science & Society 76, nº 2 (2012): 151–71.
8. Enfu Cheng e Xiangyang Xin, “Fundamental Elements of the China Model”, International Critical Thought 1, nº 1 (2011): 2–10.
9. Hao Qi, “The Labor Share Question in China”, Monthly Review 65, nº 8 (2014): 23–35.
10. Segundo o Reference News de 17 de outubro de 2015, o mais recente Relatório de Riqueza Hurun (Hurun Wealth Report) mostra que, em 2015, o número de bilionários na China (596) superou o dos Estados Unidos (537). Esse número não inclui bilionários de Hong Kong, Macau ou Taiwan.
11. Mylene Gaulard, “A Marxist Approach of the Middle-Income Trap in China”, World Review of Political Economy 6, n.º 3 (2015): 298–319.
12. Xinghua Wei, “The Persistence, Development, and Innovation of the Economic Theories on Socialism with Chinese Characteristics”, Studies on Marxism, 10 (2015): 5–16.
13. Marta Harnecker, “Question 5: Social and Long-Term Planning?”, Science & Society 76, n.º 2 (2012): 243–66.
14. Guoguang Liu e Enfu Cheng, “To Have a Comprehensive and Accurate Understanding of the Relationship between Market and Government”, Studies on the Theories of Mao Zedong and Deng Xiaoping, n.º 2 (2014): 11–16.
15. De 2002 a 2011, o PIB chinês cresceu a uma taxa anual superior a 9%. O PIB cresceu 7,7% em 2012 e 2013, caindo para 7,4% em 2014 e 6,9% em 2015. No primeiro semestre de 2016, o PIB cresceu a uma taxa anualizada de 6,7%. Apesar dessa desaceleração, a China continua sendo a grande economia que mais cresce no mundo; o FMI estima que a China responda por mais de um quarto da atividade econômica global.
Este artigo foi traduzido do chinês por Shan Tong, da Universidade de Ciência Política e Direito do Leste da China.
Cheng Enfu é membro da Academia Chinesa de Ciências Sociais e presidente da Associação Mundial de Economia Política. Ding Xiaoqin é vice-diretor do Centro de Economia Política Socialista com Características Chinesas da Universidade de Finanças e Economia de Xangai, pesquisador de pós-doutorado na Academia Chinesa de Ciências Sociais e secretário-geral da Associação Mundial de Economia Política.
Cheng Enfu é membro da Academia Chinesa de Ciências Sociais e presidente da Associação Mundial de Economia Política. Ding Xiaoqin é vice-diretor do Centro de Economia Política Socialista com Características Chinesas da Universidade de Finanças e Economia de Xangai, pesquisador de pós-doutorado na Academia Chinesa de Ciências Sociais e secretário-geral da Associação Mundial de Economia Política.

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