Mostrando postagens com marcador Anne McShane. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Anne McShane. Mostrar todas as postagens

15 de abril de 2024

A luta pela cosmologia soviética

Para a União Soviética, o ateísmo tornou-se mais do que a ausência de religião. Era uma ideologia que tinha que preencher o vazio da própria religião.

Anne McShane


(George Rinhart / Corbis / Getty Images)

Tradução / "Entre 'Deus existe' e 'Deus não existe' há um campo enorme, que um homem sábio só atravessa com grande esforço." Em A Sacred Space Is Never Empty: A History of Soviet Atheism, a historiadora Victoria Smolkin mostra que os líderes soviéticos gastaram muita energia atravessando esse terreno — com vários graus de sabedoria.

Smolkin cita as palavras acima de Anton Chekhov para nos levar a um tour histórico dos esforços do estado soviético para não apenas combater a religião, mas substituí-la por um ateísmo ativo. Ela revela como as intervenções do estado soviético frequentemente produziam resultados inesperados — e indesejados —, levando os jovens ao desinteresse não apenas pela religião e pelo ateísmo, mas pelo próprio socialismo. Seu estudo também desafia qualquer ideia de que a União Soviética era homogeneamente ateísta. Ao mudar o foco da repressão do Partido Comunista à religião para sua tentativa de suplantá-la por um credo ateu, ela levanta muitas novas questões sobre o tipo de sociedade que estava realmente sendo criada.

Estratégia de esclarecimento

A história de Smolkin começa com a política inicial dos bolcheviques sobre religião, quando se acreditava que outubro de 1917 seria a primeira de uma série de revoluções que varreriam o mundo no caminho para o comunismo. O novo estado soviético imediatamente aprovou uma série de decretos enfrentando a Igreja Ortodoxa Russa. Ele afirmou sua própria autoridade sobre o registro de nascimentos, casamentos e mortes; nacionalizou a propriedade da Igreja; e removeu o Patriarcado de Moscou de qualquer papel de fornecer educação e assistência médica. Mas enquanto Vladimir Lenin via a igreja como inimiga do socialismo, ele "continuou a alertar contra a agitação antirreligiosa agressiva entre as massas, que ele alertou que politizaria a questão religiosa". Ele preferia uma estratégia de esclarecimento que evitasse antagonizar os crentes.

Mas Joseph Stalin adotou uma abordagem bem diferente: um compromisso de destruir a igreja e a prática religiosa cotidiana. Essa guerra contra a religião foi parte de uma revolução econômica e cultural incorporada no primeiro plano quinquenal. Agora, tanto as instituições religiosas quanto a religião em si eram inimigas — e os crentes e clérigos eram denunciados como retrógrados. Todos os aspectos da vida religiosa e cultural considerados “vestígios do antigo” eram condenados como implicitamente antagônicos à construção socialista. O único proselitismo que era encorajado era a “Liga dos Militantes Sem Deus”, que ia até as massas, imaginando-se como “guerreiros lutando na frente religiosa”.

Um planetário foi aberto em Moscou para educar as massas e substituir crenças supersticiosas por pensamento científico e ateísmo. Os membros do partido tinham que ser modelos para o resto da sociedade e "abandonar o medo individualista da morte e a preocupação com a salvação pessoal e abraçar a imortalidade coletiva, que só poderia ser alcançada dando tudo de si para a revolução e criação do novo mundo". Em 1937-38, cerca de quatorze mil igrejas foram fechadas e mais de trinta e cinco mil "servos de cultos religiosos" presos. Em 1938, a Igreja Ortodoxa estava em grande parte em ruínas.

Defensores da fé

Em 1926, a liderança do partido lançou o Hujum, que significa "ataque", com o objetivo de destruir o domínio do clero islâmico e as manifestações de desigualdade de gênero por meio de práticas como poligamia, casamento arranjado e dotes. Na república uzbeque e na região tadjique, o Hujum se tornou sinônimo de ataque ao véu.

A campanha de desvelamento produziu uma revolta em massa reunida por figuras religiosas, levando à supressão e morte de mulheres desveladas. As iniciativas do Zhenotdel (Departamento Feminino) foram deixadas em frangalhos.

Mesmo na Rússia, onde danos sérios foram causados ​​à Igreja Ortodoxa, a religião em si não desapareceu. Para Smolkin, a "campanha antirreligiosa provou ser um fiasco, minando a estabilidade social enquanto pouco conseguiu para avançar a missão ateísta". Mas o advento da Segunda Guerra Mundial melhoraria dramaticamente a posição social dos devotos.

Precisando de unidade nacional e diante de uma onda de religiosidade popular, Stalin tomou uma decisão inesperada de reabilitar a igreja. O patriotismo do clero e a disposição de se unir para a defesa da pátria também foram um fator importante nessa reaproximação. Os órgãos da igreja receberam status oficial e foram supervisionados por conselhos estaduais que "começaram o trabalho de reabrir espaços religiosos e registrar comunidades religiosas". Isso foi replicado na Ásia Central, com a criação da Administração Espiritual dos Muçulmanos da Ásia Central e Cazaquistão em 1943. O acordo continuou nos anos do pós-guerra, com a aceitação da religião e da igreja como facetas do projeto soviético. O ateísmo militante foi congelado.

Esse equilíbrio foi quebrado após a queda de Stalin em 1953. Quando, no "Discurso Secreto" de 1956, Nikita Khrushchev denunciou os crimes de seu antecessor e sua perseguição aos oponentes, ele prometeu um "retorno à pureza ideológica, liderança partidária e progresso material em direção ao futuro comunista". Proclamando que isso colocava a URSS em um caminho para ultrapassar rapidamente o Ocidente, ele "prometeu ao povo soviético que eles veriam o comunismo em suas vidas". Naquela época, Khrushchev estava há três anos no poder e já havia liderado uma guerra de propaganda fracassada contra o clero em 1954, alegando imoralidade e corrupção. Após essa breve campanha, a religião teve um ressurgimento, com um aumento nas cerimônias religiosas e na renda da igreja. Os fiéis estavam se mostrando ainda mais leais do que antes. Este não era simplesmente um fenômeno rural, já que até mesmo as igrejas de Moscou estavam supostamente lotadas em feriados religiosos. Smolkin afirma que “os crentes interpretaram a desestalinização como um sinal de que a liberalização política se estendeu à posição soviética sobre a religião”.

Mesmo quando a economia soviética acelerou para o que era chamado de "comunismo", a religião não definhou. Um crente entre a intelligentsia, Boris Alexandrovich Roslavlev, até argumentou que a igreja era uma ferramenta para construir o comunismo, pois poderia fornecer o que a sociedade soviética não podia: "nutrição espiritual". Khrushchev não compartilhava da ideia. Alarmado pela falta de progresso em direção ao ateísmo, ele lançou uma nova repressão em 1956. Decretou aumento de impostos sobre igrejas, assédio a clérigos e crentes, fechamento de locais de culto e outras proibições. As medidas de Stalin aliviando a pressão sobre a Igreja Ortodoxa foram revertidas e "em 1964, havia pouco mais da metade das igrejas em funcionamento do que havia em 1947". Novamente, isso fez pouco para promover o ateísmo. Um chefe da KGB, Yuriy Shcherbak, relatou naquele ano que muitas dessas políticas tiveram “consequências indesejáveis: aumento do ‘fanatismo’ religioso, bem como o crescimento de grupos religiosos não registrados e seu movimento clandestino, onde as autoridades não podiam mais monitorar suas atividades”.

Não há deus aqui em cima

A campanha antirreligiosa de Khrushchev investiu recursos significativos na educação e treinamento de membros do partido, que eram obrigados, pelo menos externamente, a ser ateus. Oradores eram treinados para entregar propaganda ateísta às massas — um projeto nem sempre popular entre aqueles que o recebiam.

Um meio mais fácil de provar a inexistência de Deus era a exploração cósmica. A missão espacial pioneira dos soviéticos mostrou que "o ateísmo removeu os obstáculos às conquistas tecnológicas que ainda restringiam o mundo capitalista". O cosmonauta Yuri Gagarin viajou para os céus e retornou para confirmar que não havia Deus no céu. Planetários foram construídos para educar a população em ciência e racionalidade — e para expulsar a ilusão de Deus. Mas nem todos estavam convencidos de que "religião e comunismo [eram] inerentemente irreconciliáveis"; até mesmo alguns membros do partido "não viam a contradição ou entendiam os riscos do projeto ateu". Ícones e cerimônias religiosas coexistiam com a crença no progresso científico.

Khrushchev foi, portanto, incapaz de erradicar ou substituir a religião. Os líderes do partido chegaram a um consenso de que a religião tinha “dimensões psicológicas, estéticas e emocionais, que o marxismo-leninismo e o ateísmo científico não abordavam suficientemente”. Isso foi demonstrado ainda mais pelo fato de que os não crentes, particularmente os jovens, também não acreditavam no ateísmo. De fato, esse desinteresse foi percebido como um perigo potencialmente ainda maior, pois mostrava uma falta de investimento no socialismo. Os ateus reconheceram que “precisavam entender melhor a desconexão entre os ditames do marxismo-leninismo e a realidade soviética que encontravam no terreno”. Eles precisavam “transformar o ateísmo de uma ferramenta didática que apelava à razão em um programa positivo emocional e espiritualmente robusto”.

Smolkin descreve como os administradores sob o sucessor de Khrushchev, Leonid Brezhnev, se voltaram para as ciências sociais para estudar as atitudes populares em relação à religião. Eles relataram que isso desempenhava um papel intrínseco nas cerimônias familiares, mesmo para ateus: o ritual “não era apenas sobre ‘crença’, mas também sobre prática, emoção, comunidade e experiência”. Poucos queriam ser forçados ao ateísmo apenas para serem aceitos como bons cidadãos. A suposta solução estava em rituais alternativos e socialistas — um projeto já iniciado sob Khrushchev. Quase 150 comissões rituais foram criadas na República Soviética Russa em 1964, acompanhadas de otimismo de que nascimentos, casamentos e funerais socialistas ajudariam a espalhar o ateísmo. Mas, embora algumas cerimônias fossem populares, em particular os casamentos socialistas, elas falharam em “produzir convicção ateísta” e, em vez disso, ilustraram “a flexibilidade ideológica do povo soviético”.

Smolkin descreve como, apesar de muitos contratempos, as autoridades acreditavam que o ateísmo em massa inevitavelmente prevaleceria. No entanto, na década de 1970, era cada vez mais reconhecido que isso não era mais certo. A "maior decepção para os ateus soviéticos foi o povo soviético, porque eles nunca conseguiram viver de acordo com o ideal ateísta de convicção disciplinada na visão de mundo ateísta científica e no modo socialista". O projeto de moldar um cidadão soviético ideal havia falhado. A chegada de Mikhail Gorbachev ao poder em 1985 seria o toque de finados não apenas para o ateísmo, mas para o próprio estado soviético. Sua perestroika (reestruturação) "não era apenas um programa econômico e político; era um chamado para renovação moral e espiritual".

No início de 1988, Gorbachev anunciou que o estado soviético patrocinaria o milênio da Igreja Ortodoxa como uma celebração verdadeiramente nacional. Essa decisão reverteu setenta anos de secularismo e deixou muitos líderes partidários em choque. Foi um golpe mortal ideológico na justificativa do “Comunismo Soviético, que postulava que a religião inevitavelmente declinaria e desapareceria”. A religião estava ressurgindo — e até recebeu um abraço oficial. Tanto o estado quanto o partido entraram em colapso rapidamente nessas novas circunstâncias, à medida que o cristianismo ortodoxo substituiu o ateísmo como a característica definidora da identidade russa.

Colaborador

Anne McShane é uma advogada de direitos humanos radicada na Irlanda e historiadora do movimento das mulheres soviéticas.

11 de agosto de 2019

As mulheres no coração da revolução

Alexandra Kollontai e suas camaradas fundaram o Zhenotdel em 1918 para garantir a plena participação das mulheres na sociedade soviética. Seus esforços para libertar as mulheres na Ásia Central muçulmana mostraram a promessa emancipatória da revolução - e os perigos de impor mudanças sem o apoio ativo dos oprimidos.

Anne McShane


Tradução / A história de dez anos do Zhenotdel – o departamento feminino do comitê central do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) – é uma importante história da luta para colocar a emancipação das mulheres no centro do projeto soviético. Criado em dezembro de 1918 por mulheres bolcheviques como Alexandra Kollontai e Inessa Armand, ele forneceu uma plataforma sem precedentes para as mulheres da classe trabalhadora e camponesas participarem da vida social e política, tomando a revolução diretamente em suas próprias mãos. No entanto, essa experiência permanece pouco conhecida, mesmo entre aqueles que se consideram bem versados na história soviética.

A reivindicação da Revolução Russa na promoção dos direitos das mulheres é muitas vezes considerada uma questão de proclamações de princípios que não mudaram profundamente as condições reais das mulheres. Sem dúvida, os códigos legais introduzidos nos 2 primeiros anos da revolução prometiam mudanças sem precedentes no papel da mulher na sociedade, como no “Código sobre Casamento, Família e Tutela” introduzido em 1919. Fim das sanções religiosas ao casamento e confirmação da disponibilidade de divórcio, este código declara homens e mulheres iguais perante a lei e garante salário igual para trabalho igual. Além disso, legalizou o aborto e aboliu a ilegitimidade, estabeleceu a idade mínima para o casamento em 18 anos para os homens e 17 para as mulheres, e exigiu o consentimento de ambas as partes para se casarem.

É amplamente assumido que as limitações de uma revolução isolada significavam que esses direitos legais permaneceram no papel – ou seja, não havia nenhum projeto sério para traduzi-los na emancipação concreta da mulher. No entanto, essa percepção é imprecisa. O Zhenotdel foi um projeto muito sério – não apenas para as centenas de milhares de mulheres que se beneficiaram dele. Iniciou a participação das mulheres na vida social e política em toda a União Soviética. Em 1920, foi mais longe e lançou a Internacional das Mulheres Comunistas – um projeto que durou até 1930, quando tanto ela quanto a Zhenotdel foram fechadas sob o regime de Stalin.

A gama de atividades do Zhenotdel era vasta. Abriu cantinas, lavanderias, creches, creches públicas e organizou o recrutamento de mulheres para os locais de trabalho em pé de igualdade com os homens. Também organizou reuniões de delegados para representar as mulheres da classe trabalhadora em seus locais de trabalho e comunidades, que por sua vez administraram um programa de estágio para treinar mulheres para novos cargos em fábricas e departamentos governamentais. Estabeleceu inspeções de fábricas e locais de trabalho para fazer cumprir as leis de proteção à saúde e segurança das mulheres trabalhadoras e, mesmo fora do local de trabalho, organizou mulheres desempregadas e criou cooperativas. Na Ásia soviética, o foco de minha própria pesquisa, o Zhenotdel adotou formas inovadoras de trabalho para tirar as camponesas e as mulheres urbanas da reclusão tradicional e para desenvolver atividades independentes em projetos econômicos e culturais coletivos.

Mas, embora essas iniciativas tenham tornado Zhenotdel popular entre as mulheres da classe trabalhadora e camponesas, o mesmo não pode ser dito da maioria dos membros masculinos do partido, inclusive dentro da liderança. Na verdade, proeminentes mulheres bolcheviques criaram o Zhenotdel em 1918 precisamente porque viram o quão passivo este último era sobre a questão da emancipação das mulheres, considerando-a secundária em relação aos principais desafios econômicos e militares enfrentados pelo Estado sitiado. Diante dessa situação, em dezembro de 1918, mulheres como Alexandra Kollontai, Inessa Armand, Konkordiia Samoilova, Klavdiia Nikolaeva e Nadezhda Krupskaya tomaram a iniciativa de organizar um congresso de mulheres operárias e camponesas.

Este evento atraiu delegados de todo o jovem Estado soviético, que concordaram com a necessidade de estabelecer uma organização dedicada. Comissões foram formadas e então reunidas como Zhenotdel pelo comitê central bolchevique em agosto de 1919. Alguns acadêmicos argumentaram que este foi um movimento cínico do comitê central para manter o controle do movimento das mulheres. No entanto, foi saudado pelas mulheres bolcheviques como uma evidência do reconhecimento de seus argumentos. O congresso de dezembro forçou o comitê central a agir. Mas isso não significava que o argumento para a centralidade da questão da mulher tivesse sido ganho dentro do partido – qualquer coisa, menos isso.

Conservadorismo bolchevique

As lideranças do Zhenotdel argumentaram que o sucesso ou o fracasso do socialismo soviético dependia da questão da mulher. Longe de ser um assunto que pudesse ser adiado para depois da derrota da ameaça imperialista ao Estado soviético, o reconhecimento dos direitos das mulheres foi crucial para superar a crise. Afinal, para as mulheres serem mobilizadas para defender a revolução, elas primeiro precisavam ser ganhas para se identificarem com ela como uma força libertadora. Os escritores do Kommunistka, o jornal Zhenotdel, argumentaram constantemente que, sem a incorporação desse entendimento em todas as áreas do trabalho partidário, não havia perspectiva real de avanço para o socialismo soviético. Mas, apesar do apoio de alguns homens na liderança, mudanças profundas no papel das mulheres continuaram a ser vistas como algo para o futuro. O Zhenotdel, com suas demandas por ação imediata e mudanças de atitude, era freqüentemente visto como um incômodo, evitando lidar com os sérios desafios “masculinos” da guerra civil e da sobrevivência econômica.

Esse conservadorismo não deve ser simplesmente descartado como um atraso russo: este era, afinal, o país cuja classe trabalhadora havia dado os passos mais avançados. Mas a revolução teve muitos pontos fracos a esse respeito. Um problema chave residia na falta de trabalho teórico sobre a questão da família entre os bolcheviques antes da revolução. A emancipação das mulheres foi marginal nas discussões políticas do partido antes de 1917, fora de sua oposição ao feminismo burguês, que era considerado um movimento seccional e divisionista. Mesmo as propostas canônicas sobre a superação da opressão das mulheres sob o socialismo, apresentadas por August Bebel em 1879 e Friedrich Engels em 1884, parecem não ter sido amplamente discutidas. Houve iniciativas – baseadas no ativismo feminino – para organizar as mulheres trabalhadoras, fazer campanha, produzir e divulgar o jornal Rabotnitsa (“Mulher Trabalhadora”) e organizar eventos para o Dia Internacional da Mulher. Mas se os homens bolcheviques não viam os direitos das mulheres como uma questão crucial antes da revolução, era inevitável que os vissem como um desvio após a revolução.

Houve exceções – principalmente o próprio Lênin. Em uma entrevista com Clara Zetkin em 1920, ele expressou enorme orgulho de que a revolução estava “trazendo as mulheres para a economia, para a legislação e o governo”, bem como “cumprindo seriamente a demanda em nosso programa de transferência do poder econômico e educacional, funções da família separada para a sociedade” por meio de avanços como “cozinhas comunitárias e restaurantes públicos, lavanderias e oficinas de conserto, creches, jardins de infância, lares de crianças, institutos educacionais de todos os tipos”. Mas suas próprias opiniões nem sempre foram a norma – na verdade, nesta mesma entrevista ele reclamou que “infelizmente ainda podemos dizer de muitos de nossos camaradas, ‘arranque o comunista do nome e um filisteu aparece'”, pois “sua mentalidade em relação às mulheres” era igual a dos “proprietários de escravos”. Para Lenin, era politicamente crucial “arrancar a velha ideia de ‘mestre’ até a sua última e menor raiz, no partido e entre as massas”, bem como formar “uma equipe de camaradas, bem treinados em teoria e prática, para exercer a atividade partidária entre as mulheres trabalhadoras”.

As idéias do Zhenotdel

Em contraste com a maioria de seus camaradas homens, os principais membros do Zhenotdel estudaram e discutiram as ideias de Engels e Bebel sobre a origem da opressão das mulheres. Em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, Engels elaborou seu entendimento de que a sociedade humana primitiva havia sido matriarcal e comunista, com uma abordagem coletiva de todas as formas de trabalho. O surgimento da propriedade privada destruiu esses laços comunais e concentrou a propriedade nas mãos de uma minoria, levando ao domínio do Estado, à família privatizada e à supremacia dos homens sobre as mulheres. As mulheres foram marginalizadas da sociedade civil e escravizadas pelos cuidados infantis e pelo trabalho doméstico. Assim, o colapso do comunismo primitivo trouxe a “queda histórica do sexo feminino”.

Como os principais membros de Zhenotdel compreenderam, a família monogâmica do século XIX foi apenas o exemplo mais recente de uma forma de família repressiva na qual as próprias mulheres eram tratadas como propriedade – o que Bebel chamou de “um lugar de escuridão e superstição”. Alcançar o socialismo significou transcender esta instituição e reafirmar o papel central das mulheres em todas as áreas da sociedade. Engels acreditava que o envolvimento feminino na “produção social transformaria a sexualidade” e desafiava o domínio da família patriarcal. A liberdade do trabalho enfadonho, do trabalho doméstico e do cuidado das crianças levaria à liberação sexual. Tanto ele quanto Bebel argumentaram que era imperativo para um Estado operário tomar medidas imediatas para libertar as mulheres desses fardos junto com as mudanças legais e políticas.

Enquanto Lenin fez vários discursos sobre o tema dos direitos das mulheres, Kollontai foi a única a tentar desenvolver as ideias de Engels e Bebel. Ela é frequentemente criticada com razão como utópica, em suas opiniões, sobre o que poderia ser alcançado dentro dos parâmetros da Rússia pós-revolucionária: como sua biógrafa Cathy Porter colocou, Kollontai tendia a fundir a comuna comunista do futuro com o Estado soviético existente. Kollontai estava, à primeira vista, fazendo uma política dogmática e intrusiva quando afirmou em um artigo no Kommunistka em outubro de 1920 que “nosso trabalho é decidir quais aspectos de nosso sistema familiar estão desatualizados e determinar quais relações entre os homens e mulheres das classes trabalhadoras e camponesas e quais direitos e deveres se harmonizariam melhor com as condições de vida na nova Rússia operária”.

Mas Kollontai tinha razão – uma que ela desenvolveu em Relações sexuais e luta de classes quando argumentou que “toda a experiência da história nos mostra que um grupo social elabora sua ideologia e, conseqüentemente, sua moralidade sexual, no processo de sua luta com forças sociais hostis”. O que ela quis dizer é que a luta deve ser abordada de forma consciente e não apenas deixada para o futuro – sem ação, as formas mais conservadoras triunfariam. Nesta referência às “forças sociais hostis”, Kollontai sem dúvida estava aludindo à introdução das forças de mercado com a Nova Política Econômica (NEP) naquele ano e seu impacto negativo sobre as mulheres, tanto no trabalho quanto na família. Mulheres que foram recrutadas para a indústria durante a Guerra Civil perderam seus empregos para os homens que voltaram do conflito. Com o desemprego feminino subindo para 70% do número total, muitas mulheres ficaram sem independência financeira e sem o respeito concedido a elas como trabalhadoras.

A NEP também foi um grande revés para a capacidade de ação do Zhenotdel, pois seu financiamento e equipe foram reduzidos. O jornal Kommunistka do período da NEP está repleto de artigos protestando que era realmente importante manter o compromisso com a igualdade das mulheres nas novas condições. Costuma-se argumentar que a NEP era um mal necessário para permitir que o jovem projeto soviético sobrevivesse. Mas a sobrevivência teve um alto preço para as mulheres e mudou para pior os rumos da sociedade soviética.

Emancipação feminina na Ásia Central soviética

Sob a liderança de Kollantai, Zhenotdel também procurou espalhar seu trabalho para além da Rússia europeia na Ásia Central soviética e nas cidades do Uzbequistão. Esta era uma sociedade profundamente dividida em termos de gênero, onde as mulheres eram isoladas, cobertas por véus e não tinham permissão para contato com homens fora de sua família. O Zhenotdel mostrou ter uma imaginação e sensibilidade cultural ao decidir estabelecer iniciativas exclusivas para atrair mais mulheres para a atividade social e econômica. Clubes e cooperativas só para mulheres foram estabelecidos, com creches, consultas médicas e atividades culturais organizadas em torno deles. Em um artigo para a Kommunistka, Kollontai as descreveu como “escolas onde as mulheres são atraídas para o projeto soviético por meio de sua própria atividade e começam a cultivar o espírito do comunismo dentro de si”. O objetivo era que as mulheres passassem a ter mais participação pública, uma vez que elas e a sociedade ao seu redor se tornassem mais abertas.

Esses esforços foram, no entanto, prejudicados pela falta de liderança e direção do partido. Isso criou obstáculos para que as mulheres indígenas pudessem frequentar clubes e cooperativas – oposição que geralmente vinha de homens de partidos indígenas. Uma escritora do Kommunistka implorou a seus companheiros do sexo masculino que reconhecessem que “atrair as mulheres para o trabalho e dar-lhes salários tem importância social e política porque elas se considerarão membros iguais da sociedade e se empenharão no desenvolvimento da economia”. Ainda em setembro de 1925, outro escritor queixava-se de que “até agora praticamente nada foi feito para organizar as artesãs. Devemos colocar nosso trabalho em uma base sistemática ou ele irá falhar”.

Algum sucesso veio mais tarde naquele ano com o lançamento de um jornal feminino uzbeque, Yangi Y’ol, e o recrutamento de mulheres uzbeques do movimento nacionalista Jadid (secular muçulmano), que se alinhou com o governo soviético. Lojas só para mulheres foram instaladas nas principais cidades, em torno das quais se formaram cooperativas de produtores e consumidores. As mulheres podiam vender seus produtos diretamente a outras mulheres, em vez de depender das principais cooperativas para ajudá-las. Curiosamente, essas iniciativas foram relatadas como tendo a aprovação de homens indígenas não partidários, que não precisavam mais acompanhar as mulheres às lojas e mercados. O número de mulheres uzbeques nas cooperativas aumentou de 225 em outubro de 1925 para 1.500 em outubro de 1926. Embora fosse claramente um número pequeno, mostrou que havia potencial para fornecer às mulheres independência econômica de uma forma culturalmente sensível.

Havia atividades políticas e práticas dentro das lojas. Cantos para mães e bebês foram montados, e houve leituras e discussões do jornal Yangi Y’ol, junto com aulas de alfabetização. Uma camarada chamada Butusova descreveu ter a “sensação de que as mulheres uzbeques estavam encontrando suas próprias respostas para perguntas sobre suas próprias vidas que nunca poderiam obter em seu ambiente doméstico”. Assim, uma forma de organização de uso prático para as mulheres locais também facilitaria seu auto-empoderamento. No final de 1926, havia 34 clubes somente para mulheres no Uzbequistão e 90 “centros vermelhos” onde as mulheres se reuniam em instalações temporárias, junto com 43 lojas exclusivas para mulheres. Setenta e uma mil mulheres compareceram a consultas médicas durante um período de seis meses naquele ano.

O Hujum e o Plano Quinquenal no Uzbequistão

No entanto, se os primeiros anos de Zhenotdel garantiram grandes avanços para as mulheres na Ásia Central soviética, esses desenvolvimentos positivos seriam completamente obliterados pelos acontecimentos de 1927. O Dia Internacional da Mulher foi celebrado naquele ano em meio à infame campanha de “Hujum”, cujo objetivo principal era fazer com que as mulheres indígenas tirassem o véu em massa em outubro, ou seja, no décimo aniversário da revolução. A ordem veio do comitê central do Partido Comunista e foi liderada pelo Sredazburo – a organização do partido no Leste.

O Zhenotdel foi ordenado a devotar todas as suas energias para o sucesso desta campanha, mas a resposta foi mista. Serafima Liubimova, um importante membro russo do Zhenotdel que estava no centro do trabalho no Uzbequistão, via Hujum com antipatia. Ela e outros ativistas russos argumentaram que isso geraria hostilidade ao trabalho do partido entre as mulheres. Na verdade, o Zhenotdel nunca havia promovido a ideia de retirar o véu em massa: clubes, cooperativas e lojas exclusivas para mulheres foram criados precisamente para fornecer um ambiente protetor que conduzisse à mudança. A retira do véu em massa, em vez disso, colocaria essas mulheres em confronto direto com suas famílias e comunidades. Liubimova foi destituída de sua posição como chefe do uzbeque Zhenotdel e Antonia Nukhrat – uma pessoa mais receptiva à nova linha – foi colocada no comando. Mas, apesar da pressão da liderança do partido, Kommunistka mal mencionou o Hujum durante a campanha de março a maio de 1927. Na verdade, o primeiro artigo a se referir a ele veio em agosto de 1927, quando Klavdiia Nikolaeva, militante importante do Sredazburo, escreveu uma repreensão com palavras fortes aos membros do Zhenotdel em nome da liderança do partido por não cumprirem as instruções.

Em contraste com o Kommunistka, o jornal uzbeque Yangi Yo’l fez campanha entusiasticamente pelo Hujum. Muitos membros indígenas Zhenotdel acreditavam que a retirado do véu em massa precipitaria sua emancipação ao confrontar as forças conservadoras dentro da sociedade uzbeque. Essas mulheres participaram avidamente das manifestações de 8 de março de 1927. No entanto, outras mulheres – esposas e filhas de membros indígenas do Partido Comunista – também foram forçadas a retirar o véu. Há relatos em Kommunistka de mulheres sendo até forçadas sob a mira de uma arma.

Naquele 8 de março, cerca de 70 mil mulheres participaram da queima em massa de seus véus. A reação que se seguiu foi imediata e terrível. Membros de Zhenotdel e mulheres indígenas foram agredidos fisicamente, intimidadas e até assassinadas. As ruas das cidades uzbeques tornaram-se áreas proibidas para as mulheres. Relatórios confirmam que a grande maioria das mulheres que abandonaram o véu foram forçadas a usá-lo novamente. Clubes e cooperativas exclusivas para mulheres caíram em desuso, pois as mulheres eram proibidas ou tinham medo de participar. As 43 lojas exclusivas para mulheres foram fechadas pelo movimento cooperativo geral sob o pretexto de que não eram mais necessárias, agora que o véu havia sido abolido. Claro, o oposto era verdadeiro. Outra campanha para abandonar o véu em massa declarada para 1º de maio foi novamente recebida por outra onda de violência. A sociedade uzbeque estava mergulhada em um conflito violento – e as iniciativas do Zhenotdel estavam em frangalhos.

Claro que o Hujum nunca foi sobre a libertação das mulheres. Vindo no mesmo ano do lançamento do primeiro Plano Quinquenal, foi, em vez disso, um ataque preventivo de Stalin contra a sociedade da Ásia Central. A palavra turca Hujum, traduzida como nastuplenie em russo, significa “ataque”. E este foi um ataque aos clérigos islâmicos do Oriente e ao tecido social e cultural daquela sociedade. O período de cooperação com os nacionalistas estava no fim e todos os inimigos potenciais da coletivização forçada deveriam ser eliminados. Anna Nukhrat, a representante do comitê central, assegurou aos ativistas do Zhenotdel que o Hujum era a evidência de que a liderança do partido estava decididamente do lado deles. O oposto era verdade. Os direitos das mulheres foram pisoteados quando se tornaram mártires por uma causa que não era a sua.

A editora do Kommunistka, Nadezhda Krupskaya, lançou um debate sobre Hujum no jornal na preparação de uma conferência de ativistas de Zhenotdel do leste em dezembro de 1928. No decorrer desse debate, contribuições de ativistas condenaram a campanha pela destruição que ela havia causado em seu trabalho. Os membros masculinos do partido foram criticados por se recusarem a defender as mulheres sem véu ou por forçá-las a retirar. Em seu discurso na conferência – publicado na íntegra em Kommunistka – Krupskaya condenou os ataques às práticas religiosas. Ela argumentou que era politicamente perigoso “impor um nível de morte” a todos os membros da sociedade e forçá-los a renunciar a práticas culturais importantes. Mas a rebelião que ela liderou foi sufocada rapidamente. Kommunistka de 1929 foi reduzido a artigos e relatórios artificiais. A edição de janeiro publicou o discurso da conferência de Yaroslavsky, um partidário de Stalin e líder da campanha anti-religião. Em oposição à demanda de Krupskaya por paciência e sensibilidade cultural, Yaroslavsky exigiu uma ação ainda mais enérgica para processar aqueles que se opuseram à campanha para retirada do véu e exigiu que os membros de Zhenotdel ajudassem na limpeza de “elementos estranhos” do partido.

O fato de que a campanha para retirada do véu não tinha nada a ver com libertação das mulheres e tudo a ver com submissão ao Plano Quinquenal tornou-se muito evidente em 1929. Com a oposição do Zhenotdel reprimida, até mesmo partidárias como Anna Nukhrat foram forçadas a admitir que mulheres sem véu foram designadas a fazer a maioria das tarefas sujas e depreciativas nas fazendas e fábricas coletivas recém-estabelecidas. Em janeiro de 1930, o Pravda anunciou que o Zhenotdel seria fechado, pois um departamento feminino autônomo não seria mais necessário. Em vez de um departamento dedicado, os direitos das mulheres seriam assumidos pelo partido como um todo. Isso era tudo menos verdade. A próxima década viu os direitos das mulheres serem retirados, à medida que o aborto foi proibido e o divórcio se tornou muito mais difícil. As mulheres foram forçadas junto com os homens a se submeterem ao regime autoritário brutalizante do stalinismo. O conceito de mulheres como mães e trabalhadoras leais substituiu o programa do Zhenotdel para mulheres liberadas autônomas. Os vestígios desse programa – como creches e cantinas públicas – eram, em geral, os que podiam ser atrelados ao plano burocrático. Mas depois de 1930, a ideia de “igualdade das mulheres” era um nome totalmente impróprio para a nova realidade conservadora.

Herança

Aqui, podemos apenas tocar no trabalho do Zhenotdel e na experiência das mulheres na primeira década da Revolução Russa, na esperança de mostrar algo da rica e imaginativa herança do trabalho comunista entre as mulheres.

Essa história é importante e precisamos nos engajar de forma crítica. Mostra como a falta de uma compreensão teórica clara facilitou o conservadorismo dos homens dentro do partido bolchevique – e levou a uma oposição contínua ao trabalho do Zhenotdel. Também mostra que não precisamos adicionar o rótulo “feminista” para defender os direitos das mulheres. As mulheres bolcheviques que fundaram o Zhenotdel se opuseram ao sectarismo do feminismo. Elas se recusaram a se descrever como tal porque queriam forjar uma abordagem coletiva da classe trabalhadora que colocasse a luta para superar a opressão no coração do socialismo. Essa é também a posição que adoto.
Nosso socialismo deve recuperar o movimento das mulheres soviéticas e a Internacional das Mulheres Comunistas. É somente fazendo isso e aprendendo com essas experiências que podemos progredir na questão da mulher hoje.

Sobre a autora

Anne McShane é advogada de direitos humanos e marxista. Ela completou recentemente um PhD sobre o papel do Zhenotdel na Ásia Central Soviética.

O guia essencial da Jacobin

A Jacobin tem publicado conteúdo socialista em um ritmo acelerado desde 2010. Aqui está um guia prático de algumas das obras mais importante...