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21 de junho de 2025

Livro mostra por que esquerda e direita ignoraram a desigualdade por décadas

Branko Milanovic repassa a história da modernidade sob o ponto de vista da concentração de renda

Celso Rocha de Barros
Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra), autor de "PT, uma História" e colunista da Folha


Ilustração de Adams Carvalho - Adams Carvalho

[RESUMO] Um dos mais brilhantes economistas da atualidade, o sérvio-americano Branko Milanović examina em seu novo livro as obras de seis autores clássicos de diferentes vertentes (como Adam Smith e Karl Marx) sobre a desigualdade de renda. Nessa viagem de mais de dois séculos, da Revolução Francesa ao fim da Guerra Fria, ele analisa as visões de cada época a respeito da concentração de riquezas, retrata o nascimento, o posterior ostracismo e o atual ressurgimento desse debate e lança perguntas oportunas sobre as turbulências de hoje.

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Em "Visões da Desigualdade: da Revolução Francesa ao Fim da Guerra Fria", o economista Branko Milanović promete uma história intelectual a respeito do tema através das obras de seis autores clássicos: François Quesnay, Adam Smith, David Ricardo, Karl Marx, Vilfredo Pareto e Simon Kuznets.

Na verdade, o livro entrega muito mais do que isso. Primeiro, porque uma boa história intelectual é também uma boa história dos problemas sociais concretos que os autores analisados tinham diante de si. Segundo, porque Milanović nos mostra que esses problemas são extremamente atuais.

O livro acaba sendo uma história da modernidade sob o ponto de vista da desigualdade. Nos estudos pioneiros de Quesnay ainda vemos as classes do Antigo Regime, mas também já temos uma perspectiva tecnocrática característica do Estado Moderno, importantíssima para a história da economia.

Branko Milanović, economista sérvio-americano, conhecido por seu trabalho sobre distribuição e desigualdade de renda - Divulgação

Adam Smith nos apresenta o capitalismo já plenamente formado, com suas virtudes e seus problemas. Karl Marx traz para a mesa de discussão a perspectiva das classes subalternas do capitalismo, que até então mal começavam a desfrutar os benefícios do crescimento acelerado.

Kuznets descreve um quadro em que a desigualdade, após crescer muito no início do período capitalista, tende a cair, o que reflete bem a experiência social-democrata do século 20 —mas não o momento da globalização recente.

A leitura de Milanović da obra de Adam Smith busca distanciá-lo da versão simplista em que o autor de "A Riqueza das Nações" seria um defensor acrítico do capitalismo. Smith abraçava, como Quesnay, a ideia de que o progresso econômico se mede pelo nível de vida dos mais pobres.

Embora fosse um defensor da livre concorrência, apontava um canal pelo qual a desigualdade de classe promovida pelo mercado poderia gerar resultados indesejáveis: os ricos sempre terão uma chance razoável de colocar o Estado a serviço de seus interesses.

A propósito, se os defensores da globalização neoliberal tivessem levado isso em conta nos anos 1990 e 2000, poderiam ter notado a captura dos governos, inclusive os de esquerda, pelos apologistas da desregulamentação financeira, um lobby poderoso com grande capacidade de financiar campanhas e think tanks.

A incapacidade de perceber isso nos levou à crise de 2008, o maior golpe contra as ideias liberais das últimas décadas, o início da crise de hegemonia global em que vivemos até hoje.

Ilustração de Adams Carvalho - Adams Carvalho

Isso não quer dizer, é claro, que Adam Smith possa ser aproximado da perspectiva "anticapitalista", seja lá o que signifique. Só mostra que, exatamente por ter entendido corretamente os mecanismos que tornavam a economia de mercado mais eficiente do que as outras, Smith também percebeu momentos em que ela podia dar errado.

O que nos traz ao capítulo sobre Marx, que facilmente poderia ser expandido e publicado como uma obra independente.

Nascido na ex-Iugoslávia, Milanović conhece bem o pensamento marxista e a realidade dos sistemas socialistas. Isso, por si só, já lhe confere certa singularidade nos dias de hoje: poucos defensores ocidentais contemporâneos do marxismo dedicaram muito tempo a ler, por exemplo, os estudos críticos elaborados nos próprios países da antiga Cortina de Ferro.

A Iugoslávia, que desenvolveu seu próprio modelo de socialismo de mercado, era um ponto de observação privilegiado.

É provável que essa biografia, que combina o domínio do instrumental técnico da economia moderna, o conhecimento da tradição marxista e a vivência em um país socialista altamente singular, explique muito da originalidade de Milanović.

Voltemos a Marx: uma das melhores passagens do livro oferece um corretivo à ideia de que o capitalismo sempre geraria desigualdade crescente. Na verdade, utilizando somente os parâmetros da teoria econômica marxista, é possível projetar vários cenários para o futuro da desigualdade de renda no livre mercado: em alguns, ela cresce; em outros ela, cai.

Isso é consistente com a experiência histórica. Embora Marx tenha municiado seus críticos ao criar formulações excessivamente simples, ele era menos determinista do que se pensa.

A desigualdade de renda, tal como a entendemos, não era o problema central do pensamento marxista. O filósofo alemão obviamente se preocupava com as condições de vida dos pobres sob o capitalismo, esse foi o problema que inspirou seus estudos, e defendia todas as propostas reformistas que pudessem melhorá-las. Entretanto, não acreditava em uma solução de longo prazo que não passasse pela abolição das classes sociais e pelo advento de um novo sistema econômico.

Aqui o contraste da perspectiva marxista com a perspectiva social-democrata, na qual a desigualdade de renda é absolutamente central, fica claro. A luta concreta dos trabalhadores no século 20 mostrou que, em certas circunstâncias, é possível reduzir muito a desigualdade e elevar muito a qualidade de vida sob o capitalismo.

Nada parecido com isso havia acontecido quando Marx era vivo. É legítimo nos perguntarmos se o filósofo alemão tinha como prever esses desdobramentos, em que, aliás, a influência de seu próprio pensamento foi muito importante. A utopia socialista provavelmente ajudou a aumentar a propensão de trabalhadores do mundo todo à ação coletiva.

De qualquer forma, se Karl Marx for ressuscitado como inteligência artificial, vai ter que reconhecer que os sociais-democratas provaram que as fronteiras do possível eram mais amplas do que ele supunha.

Mesmo assim, Milanović, que sabe disso tudo, faz bem em lembrar que a perspectiva marxista, com seu foco na estrutura de classes do capitalismo, tem duras lições a ensinar à social-democracia, que sofreu, e continua sofrendo, pesados golpes desde que a globalização foi retomada no final do século 20.

O populismo nativista de extrema direta cresceu, em boa parte, conforme as soluções sociais-democratas do século passado foram sendo abandonadas. Na verdade, a própria ideia de "crise da democracia" é, em grande parte, a crise de uma democracia de perfil social-democrata.

Esse tipo de modelo tem que se mover entre esses dois polos, permanentemente: a democracia oferece inúmeras possibilidades aos trabalhadores sob o capitalismo, possibilidades ausentes nos regimes leninistas, mas a estrutura econômica da sociedade moderna favorece o crescimento, não necessariamente a justiça.

A social-democracia sempre vai ser uma ofensiva da política contra as tendências "automáticas" do mercado.

O grande momento do livro, contudo, não é a discussão de nenhum dos seis autores citados, mas sim o capítulo 7, em que Milanović fala do declínio dos estudos sobre desigualdade durante a Guerra Fria. Arrisco dizer que o coral dos clássicos está no livro para enfatizar o quão estranho foi o silêncio sobre o assunto quando o mundo era dividido entre os blocos capitalista e socialista.

Na discussão sobre a desigualdade nas sociedades socialistas, Milanović joga em casa: é difícil imaginar outro pesquisador célebre no Ocidente que possa citar com desenvoltura o economista iugoslavo Branko Horvat, ou o sociólogo húngaro Iván Szélenyi, dois grandes pensadores que estudaram o socialismo real.

Um dos estudos citados, de autoria de Miroslav Janicijevic, mostrou em 1977 que, sob o socialismo, quanto mais alto a pessoa estivesse na hierarquia do partido, maior sua propensão a dizer que não existiam classes na sociedade. A comparação com os ricos no capitalismo é evidente —e divertida.

Os sistemas socialistas reduziram muito a desigualdade de renda quando extinguiram a propriedade do capital, mas daí em diante seu foco não foi mais na igualdade salarial.

Milanović cita um discurso de Stálin sobre a conveniência de maior desigualdade de salários que facilmente poderia ser feito por Javier Milei, o ultraliberal presidente argentino. E as desigualdades de poder características da gestão de Lênin reduziram o efeito do igualitarismo socialista.

Mesmo assim, e com todas as dificuldades de mensuração impostas pelo autoritarismo leninista, a desigualdade socialista parece ter sido, em geral, menor que a capitalista.

Se no Oriente os estudos sobre desigualdade sofreram com a doutrina oficial de que as classes haviam sido abolidas, fato contestado por alguns dissidentes, no Ocidente a ideologia oficial foi reforçada com os resultados empíricos de Kuznets, que mostravam uma queda da diferença de renda a partir de um certo ponto do desenvolvimento capitalista.

O fato de que os trabalhadores podiam lutar por melhorias salariais sem recorrer a uma revolução violenta era parte da propaganda do sistema —e era, naquele período, verdade.

A economia ocidental, inclusive boa parte do keynesianismo, passou a tratar o tema da desigualdade de renda como uma questão menor. Milanović passa muitas páginas batendo, com razão, no establishment de sua própria disciplina por esse erro.

Afinal, esse equívoco ficou claríssimo nos últimos anos da Guerra Fria, quando várias —mas, diga-se, muito menos do que todas— conquistas sociais-democratas foram desmontadas, seja por governos de orientação neoliberal, pela abertura comercial ou pela mudança tecnológica que diminuiu o peso político da classe operária.

No epílogo, quando Milanović aborda a volta do tema da desigualdade ao debate econômico em anos recentes, as curvas de Kuznet já se transformaram em ciclos de Kuznets, nos quais as disparidades de renda podem voltar a subir no capitalismo desenvolvido.

A propósito, Milanović teria feito um favor ao leitor se tivesse passado mais tempo discutindo a abordagem teórica de Thomas Piketty, um autor-símbolo desse novo momento do debate.

Um ponto que merece destaque para o leitor brasileiro é a referência do livro aos economistas estruturalistas latino-americanos (como Celso Furtado) e a outros autores do terceiro mundo, como o egípcio Samir Amin. Eles foram exceções à regra de ignorar a concentração de renda durante a Guerra Fria, talvez por não viverem nos países mais diretamente envolvidos na disputa ideológica.

Milanović admite que teses importantes dessas escolas não se confirmaram (alguns países pobres se tornaram desenvolvidos) e que houve um déficit de análises empíricas em algumas delas.

Mesmo assim, elogia a proposta de integrar análise política e histórica aos estudos sobre desenvolvimento e desigualdade. Infelizmente para o leitor brasileiro, o autor não dedica muitas páginas a esse debate, por não se considerar especialista na obra desses pensadores.

A versão brasileira do livro consegue reproduzir a fluidez do original, o que não é fácil. Entretanto, teria se beneficiado do apoio de um profissional de economia, mais familiarizado com a tradução padrão de termos clássicos.

Em alguns momentos, "rent" é traduzido como "aluguel", ao invés de "renda". Nada que prejudique a leitura do leigo, que talvez só ache esquisito o quanto os economistas clássicos se importavam com os aluguéis. Mas irritará, com razão, os especialistas.

Branko Milanović é um dos pensadores mais originais do debate contemporâneo —e neste livro está mais próximo de sua especialidade do que em sua última obra, o muito influente "Capitalismo sem Rivais" (também pela editora Todavia).

Alguns leitores deste livro anterior podem achar que o tema de "Visões da Desigualdade" é mais restrito, interessante apenas para especialistas. Enganam-se: as duas obras tratam dos mesmos grandes assuntos da modernidade, que talvez agora sejam até discutidos com mais profundidade.

Visões da desigualdade: Da Revolução Francesa ao fim da Guerra Fria
Preço R$ 119,90 (352 págs.) Autoria Branko Milanović Editora Todavia Tradução Pedro Maia Soares

26 de julho de 2018

Nova biografia apresenta Karl Marx sem cair na tentação maniqueísta

Biografia "Karl Marx: Grandeza e Ilusão" tem como maior mérito a reconstituição do ambiente em que se deu a formação intelectual do jovem Marx, fundamental para entender como ele passou a pensar o capitalismo. Livro ainda discute com competência fracassos e insights do alemão, mas se concentra pouco em "O Capital".

Celso Rocha de Barros
Marcos Lisboa

Folha de S.Paulo

August Diehl como Marx no filme "O Jovem Karl Marx" (2017), de Raoul Peck. Crédito: Divulgação

RESUMO Biografia "Karl Marx: Grandeza e Ilusão" tem como maior mérito a reconstituição do ambiente em que se deu a formação intelectual do jovem Marx, fundamental para entender como ele passou a pensar o capitalismo. Livro ainda discute com competência fracassos e insights do alemão, mas se concentra pouco em "O Capital".

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Os países desenvolvidos passaram por transformação espantosa a partir de 1700: a renda por habitante cresceu mais de 50 vezes e a expectativa de vida aumentou em 40 anos.

Para ter uma noção do imenso avanço, a dieta típica de um habitante de um país rico no começo do século 18, como a França, não era melhor do que a de um morador de um dos países mais pobres do mundo na segunda metade do século 20, como Ruanda. Esse notável desempenho, entretanto, não veio sem solavancos.

A transição para o capitalismo foi particularmente dolorosa. A rápida e desordenada urbanização e a superabundância de trabalhadores vindos do campo resultaram em salários baixos, condições sanitárias inadequadas, moradias precárias e proliferação de doenças transmissíveis.

Para a maioria da população nos países desenvolvidos, foi um período de retrocesso, com queda da expectativa de vida e de outros indicadores socioeconômicos.

A pobreza, antes escondida nos campos, tornou-se visível nas cidades, onde a degradação contrastava com um aumento da riqueza que parecia inexoravelmente restrito a poucos. Não surpreende que então tenham surgido movimentos bastante críticos ao capitalismo nascente.

Karl Marx (1818-83) foi o mais famoso dos intelectuais revolucionários do século 19, e sua vida é contada na biografia "Karl Marx: Grandeza e Ilusão" [Companhia das Letras, 784 págs., R$ 79,90], de Gareth Stedman Jones, ex-editor da revista "New Left Review".

O maior mérito da biografia talvez esteja na reconstituição do ambiente em que se deu a formação intelectual do jovem Marx. Quem já estudou o autor de "O Capital" e "Manifesto Comunista" sabe que as disputas em torno do legado de Hegel e a relação entre essas disputas e a política prussiana da época podem ser temas áridos.

Entretanto, são fundamentais para entender como o pensador alemão passou da discussão da religião como projeção de conflitos terrenos para a discussão do Estado como projeção de conflitos na sociedade civil, e daí para a discussão do capitalismo.

Ao reconstituir esses debates, Jones mostra como as ideias filosóficas radicais de emancipação do jovem Marx o acompanharam por toda a vida. Durante sua evolução intelectual, o pensador procurou conciliar essa visão emancipatória da juventude com a crítica do capitalismo, formulada muitos anos depois —e aqui ele fracassou.

Se o tratamento dado ao jovem Marx é cuidadoso, o livro como um todo apresenta-se desbalanceado. Jones poderia ter gasto menos espaço com querelas políticas menores e se concentrado no fundamental: a obra tardia e inconclusa de seu biografado, "O Capital".

ACERTOS

A análise econômica de Marx combina alguns momentos de impressionante percepção, para a época, com outros recheados de argumentos inconsistentes.

Começamos pelos melhores momentos. A maioria dos intelectuais de então associava a miséria urbana apenas à substituição da classe dominante. Onde antes havia os grandes senhores herdeiros do feudalismo, agora reinava a burguesia. Marx, porém, desde meados dos anos 1840, reconhecia que o capitalismo trazia algo além de uma nova forma de opressão.

Como escreveu Jones: "Karl foi o primeiro a evocar os poderes aparentemente ilimitados da economia moderna e o seu alcance verdadeiramente global. Foi o primeiro a mapear a assombrosa transformação produzida em menos de um século pelo surgimento de um mercado mundial e pelo desencadeamento das forças sem precedentes da indústria moderna".

Em "O Capital", Marx oferece uma explicação nova para o sucesso da nova ordem em produzir tantas inovações e aumento da produtividade: a concorrência.

Na medida em que um produtor individual seja capaz de introduzir uma mudança que reduza seus custos em relação aos demais produtores, ele obtém um retorno adicional (mais-valia extraordinária, no jargão de Marx). Esse ganho não é duradouro, pois logo seus concorrentes tentam copiá-lo. Mas o retorno, mesmo que temporário, estimula a inovação.

Esse argumento foi posteriormente difundido por Schumpeter e se tornou lugar-comum nos livros de economia.

Em outros momentos, entretanto, o pensador alemão erra feio.

ERROS

Seguindo uma variação do argumento dos economistas clássicos, Marx supõe que o valor das mercadorias é determinado pela quantidade de trabalho necessária à sua produção.

Os salários, por sua vez, são determinados pelo valor da cesta de bens necessários à subsistência dos trabalhadores. Os trabalhadores, porém, produzem mais do que o necessário à sua sobrevivência. A diferença é a mais-valia apropriada pelos donos dos meios de produção.

Segundo Marx, os ganhos de produtividade decorrentes da concorrência terminariam por reduzir a quantidade de trabalho utilizada na produção das mercadorias, aumentando a relação capital/trabalho. Como, para o autor de "O Capital", apenas o trabalho gera valor, o resultado seria a tendência à queda da taxa de lucro, que resultaria na crise do capitalismo.

Marx, entretanto, não consegue demonstrar analiticamente a sua conjectura. Para seu mérito, deve-se ressaltar que ele reconhece as dificuldades, ainda que fracasse sistematicamente ao tentar superá-las nos manuscritos do volume 3 de "O Capital".

Suas conjecturas sobre salários e lucros foram igualmente derrotadas pelos dados das principais economias desde 1900.

Os salários não permaneceram no nível de subsistência, mas cresceram com a produtividade do trabalho; a taxa de retorno do capital não apresentou tendência de queda ao longo do século 20, e sim permaneceu relativamente estável em meio a oscilações ocasionais. E o mesmo é verdade sobre as participações dos salários e da remuneração do capital na renda nacional dos países desenvolvidos.

Como se sabe, Marx se defrontou com problemas analíticos igualmente intransponíveis ao propor que a sua teoria do valor trabalho explicaria o preço das mercadorias.

Os manuscritos preparatórios de "O Capital" (os "Grundrisse") mostram que o plano inicial era muito ambicioso. Tratava-se de analisar o processo de construção social que resultou no capitalismo, na formação do Estado moderno e na constituição do mercado global, além de descrever a causa da sua crise inevitável: a trajetória de queda da taxa de lucro.

Dados os imensos problemas com os argumentos, não surpreende que Marx tenha revisto seu projeto original e decidido publicar, nos termos de Jones, "uma obra muito mais descritiva (...) do que em progressão dialética".

Jones também aponta, corretamente, que grande parte de "O Capital" se concentra na análise "factual do desenvolvimento e do estado das relações entre capital e trabalho, sobretudo na Inglaterra". Ele destaca a extraordinária quantidade de estatísticas, relatórios e informações da imprensa utilizados para descrever as condições de vida dos trabalhadores.

"O Capital" também inclui uma análise da produtividade crescente da agricultura, que tem como efeito colateral a expulsão dos camponeses para as cidades. Daí por que, para o biógrafo, Marx foi "um dos principais fundadores (...) do estudo sistemático de história social e econômica".

SEM DOGMATISMO

Resta-nos concordar com o diagnóstico de Jones: "Se 'O Capital' se tornou um marco no pensamento do século 19, não foi por ter identificado as 'leis do movimento' do capital. (...) [E]mbora tenha produzido um poderoso retrato da miséria (...) [e] das condições de vida dos trabalhadores (...), não conseguiu estabelecer uma ligação lógica e convincente entre o avanço da produção capitalista e a pauperização dos trabalhadores".

Finalmente, Jones acerta ao criticar a análise da democracia na reflexão geral de Marx. Quando o autor do "Manifesto Comunista" se depara com a formação dos primeiros partidos social-democratas, fica claro que sua visão de política era ainda demasiadamente influenciada pela Revolução Francesa.

Marx compreendeu que uma sociedade capitalista era completamente diferente de outros tipos de sociedade, mas não que uma sociedade democrática era completamente diferente de uma sem democracia, o que surpreende, dado seu sucesso como jornalista político.

Após a morte de Marx, as muitas inovações tecnológicas produzidas pela economia de mercado e a expansão das políticas públicas, em meio às pressões típicas nas democracias, permitiram a melhora da qualidade de vida já nas primeiras décadas do século 20.

De 1890 a 1930, a expectativa de vida aumentou 14 anos na Inglaterra e 16 anos nos Estados Unidos. Além disso, a jornada de trabalho caiu em cerca de 20 horas semanais de 1890 a 1990.

A desigualdade de renda na Inglaterra, medida pelo índice de Gini, caiu de 0,65, no começo do século 19, para 0,55, no começo do século 20, atingindo 0,32 em 1973 (quanto mais perto de zero, menor a desigualdade).

Crises ocasionais ocorreram, algumas muito severas, como a de 1929 e a de 2008, mas o resultado de longo prazo foi uma queda sem precedentes da pobreza.

Como Jones enfatiza, muitas das contradições e tensões presentes na reflexão do velho Marx desapareceram quando se constituiu o marxismo tal como o conhecemos. Foi Engels quem, no trabalho de edição das obras póstumas, e em especial em seu livro "Anti-Dühring", apresentou o marxismo como um sistema que deveria ser, para as ciências históricas, o que o darwinismo foi para a biologia.

Essa visão de um processo mecânico inevitável que levaria ao socialismo foi acolhida pelos socialistas alemães num período em que a repressão lhes dificultava a atuação política. Quando puderam disputar eleições, tiveram enorme sucesso, e essa versão do marxismo difundiu-se pela Europa, inclusive na Rússia.

Como sabemos, mais tarde os socialistas alemães começariam a revisão crítica do legado marxista, mas, àquela altura, a história na Rússia já seguia outro caminho.

A biografia de Gareth Stedman Jones discute com competência tanto os fracassos quanto os insights de Karl Marx. Quem sabe esse resgate possa colaborar para enfrentar a narrativa cheia de som e fúria da política contemporânea.

CELSO ROCHA DE BARROS, 44, colunista da Folha, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford.

MARCOS LISBOA, 53, economista, é presidente do Insper e colunista da Folha.

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