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20 de junho de 2014

O espectador mais importante do mundo: O mundo de Obama

O primeiro ano e meio do segundo mandato de Barack Obama foi extraordinariamente azarado.

David Bromwich

London Review of Books

Vol. 36 No. 13 · 3 July 2014

Tradução / O primeiro ano e meio do segundo mandato de Barack Obama tem sido espetacularmente azarado. Os sucessivos percalços de seu plano de assistência à saúde (Obamacare); os muitos erros da coordenação feita por computador que obrigou pessoas doentes e famílias a esperar dias ou semanas à frente de telas pretas consumiram a nova fé no governo que o tal plano pretendia afirmar. E quando, pelo final de abril de 2014, a coisa parecia meio resolvida, com milhões finalmente cobertos por seguro-saúde e inúmeras carências afinal superadas, começaram as histórias dos falsos relatórios de tratamentos e dos meses de espera por um internamento nos Hospitais dos Veteranos. Foi mais um fracasso do gerenciamento, em mais um ramo do governo com o qual Obama manifestara o mais caloroso interesse-envolvimento. E nem uma pequena coisa que de longe que fosse, se assemelhasse a um sucesso na política exterior, para compensar os embaraços em casa. Os EUA, que sempre precisam estar fazendo coisas e tomando providências, nada conseguiram fazer sobre a reintegração da Crimeia à Federação Russa, nem sobre o conflito na Ucrânia.

O traço comum em todos esses eventos foi que Obama, em pessoa, parecia sempre bem longe da cena. Obama estava trabalhando, nos induziram a crer, preocupado e atentamente compreensivo. Mas em questões como essas, sente-se facilmente que é indispensável um sinal bem claro de que o presidente está ali, “com a mão na massa”. O que se viu, contudo, foi que Obama foi surpreendido pela rejeição de seu plano de assistência à saúde – que ficou chocado e consternado, como todos os norte-americanos. Mas Obama não teria de saber mais, sobretudo, que a maioria de nós, norte-americanos comuns? Mais uma vez, o escândalo dos Hospitais dos Veteranos foi assunto (e escândalo) do qual Obama só soube pelos jornais... Mas por que só soube daquilo tudo quando ligou a TV ou abriu os jornais? O show de caras de confiança traída e surpresa que Obama ofereceu foi recebido com mais simpatia e solidariedade do que em outro evento, ainda mergulhado em obscuridades, em que quatro norte-americanos foram assassinados em Benghazi em 11 de novembro de 2012. Dessa vez, o presidente fora informado, mas estava em plena campanha eleitoral e deixou a crise para o Departamento de Estado. Ausente e absolvido. A questão é que sempre, em todos os casos, há algo de aéreo, zonzo, alheado e enervante em todas essas ausências do presidente Obama. Obama ordenou o bombardeio da Líbia, em março de 2011, depois de ter sinalizado que não bombardearia ninguém. E ordenou o bombardeio da Líbia num discurso inesperado, repentino, sem qualquer planejamento, enquanto fazia visita oficial ao Brasil.

O segundo mandato começou de forma diferente, com uma iniciativa espontânea que surgiu da presença voluntária de Obama numa cena da qual, se não quisesse, não precisaria ter participado. Depois de um assassinato em massa numa escola de crianças em Newtown, Connecticut, em dezembro de 2012, Obama falou com alarde de conseguir a aprovação para nova lei que apertaria o controle sobre posse e uso de armas. Quem o tenha visto, com certeza testemunhou o momento da mais profundamente engajada emoção de toda a presidência de Obama, e o presidente, assumindo o maior risco de todo o seu governo. O momento para divulgar as determinações da nova lei era durante aqueles dias de dezembro de 2012, quando o sofrimento das famílias comovia o país inteiro. A solução de Obama foi típica: anunciou que Joe Biden examinaria as possibilidades legislativas e tinha um mês para apresentar seu relatório. Foram-se as semanas, várias leis que proíbem posse e porte de armas foram veementemente criticadas em público... e a National Rifle Association teve todo o tempo de que precisava para se organizar. O momento passou, e a lei não apareceu. Isso foi mais ou menos o que aconteceu também com a promessa, em janeiro de 2009, de fechar Guantánamo. Obama saiu da sala e deixou ordens para que o chamassem quando o caso estivesse resolvido. A pausa da prudência foi alongada e logo se converteu em sinal tão claro de que o assunto não preocupava Obama, que a questão perdeu qualquer traço de urgência que algum dia tivesse tido.

Obama é adepto de transmitir sentimentos de benevolência que seus ouvintes querem, sentimentos que poderiam levar a ações benevolentes. Parecia estar em seu elemento em todos os discursos de luto & pêsames depois de assassinatos em massa nos EUA, não só em Newtown, mas em Aurora, em Fort Hood, em Tucson, em Boston depois das bombas da Maratona; e em seu encontro com desolados proprietários de casas destruídas em furacões recentes e respectivos prefeitos das áreas devastadas. É presidente para distribuir compaixão com cara de bom, e de uma altura decorosa e reduzida. Esse parece ser o papel que Obama prefere representar também no planeta. Seria a postura da qual teria gostado de falar sobre a Primavera Árabe, e, também, sobre a guerra na Síria. Bastaria que Assad tivesse obedecido às ordens de Obama, quando Obama disse que “Assad tem de sair”. Obama tem o desejo de ajudar o próximo mais puro do que qualquer dos seus predecessores na Casa Branca desde Jimmy Carter; e por alguma espécie de precaução que muito se aproxima da timidez, Obama jamais conversou com Carter, sequer uma vez, nos últimos cinco anos. Obama discursa pela boa causa, mas quase sempre acaba por aprovar o mal aceitável que os políticos ou os ricos dos EUA já tenham aceitado. Obama assiste ao mundo como o seu mais importante espectador.

Mas evita a companhia de outros políticos – traço já bem conhecido de muitos e sempre espantoso. Um importante Democrata do Senado, perguntado sobre quantas vezes conversara com Obama no ano passado, respondeu que só acontecera uma vez. O mesmo senador pediu que seu nome não fosse citado, porque tal grau de intimidade com o presidente despertaria ciúmes entre seus pares. A falta de interesse de Obama no dia a dia da política – ter de negociar e viver imerso também em interesses de outros, o tantas vezes apenas formal, mas necessário intercâmbio de ideias – muito fez para embotar a sensibilidade do presidente quanto a mudanças no sentimento da população. Avesso a conflitos como é, Obama jamais vê que alguma luta se aproxima, senão quando já está sobre a sua cabeça e quase totalmente fora de controle. O Tea Party começou na primavera de 2009, com um surto na Bolsa de Mercadorias de Chicago, do ex-administrador de hedge fund Rick Santelli, que perguntou por que os bons norte-americanos teriam de pagar pelos perdedores que o colapso financeiro afogara num mar de hipotecas impagáveis. Santelli prometeu criar um novo grupo insurgente nas semanas seguintes, feito à imagem do Tea Party de Boston. Foi um discurso espertalhão, mas moralmente feio, e poderia ter sido contido. Obama só tomou conhecimento do Tea Party mais de um ano depois. Quando já estava muito bem organizado e em posição de aplicar a Obama a fragorosa derrota que sofreu nas eleições de meio de mandato de 2010 e derrota da qual seu governo, na verdade, jamais se recuperou.

Por que tantos e tantos choques e surpresas? Obama chegou à presidência sem antes ter comandado coisa alguma. Indicou servidores com ares de muito bem qualificados, mas (como depois se viu) completamente ineptos, com nenhuma das habilidades indispensáveis para administrar. Steven Chu, secretário de Energia no primeiro mandato de Obama é dono de um Prêmio Nobel em Física, mas promulgou sem reagir a “acima exposta” política energética, que incluía, com ecumênica indiferença, energia nuclear, perfuração em águas profundas, perfuração no Ártico e extração xisto (fracking). Kathleen Sebelius, secretária da Saúde e Serviços Humanos, fora governadora do Kansas e leal apoiadora de Obama, mas sem qualquer experiência de administração em larga escala, antes de ver chegar ao seu gabinete o gigantesco aparelho da [lei] “Affordable Care Act”. O mesmo se pode dizer de Eric Shinseki, general famoso por dizer a verdade sobre o número de soldados necessários para tornar seguro o Iraque. Shinseki foi mal posto como administrador dos Assuntos dos Veteranos, e demitido apenas poucas semanas depois de Sebelius.

“Desengajamento” passou a ser a palavra polida para designar a relação de Obama com suas próprias políticas. Ausente, não cobrado e absolvido foi como se viu Obama na crise da Ucrânia que cresceu ao longo dos meses de janeiro e fevereiro. O golpe para derrubar Yanukovich e a tomada do poder por um governo provisório em Kiev foram antecipados e de fato encorajados pela comissão de Europa e Eurásia do Departamento de Estado. A secretária-assistente encarregada era Victoria Nuland, neoconservadora muito bem-sucedida no processo de transição, em 2009, da equipe de Dick Cheney, para a equipe de Hillary Clinton. Nuland é casada com o cofundador do “Projeto para o Novo Século Norte-americano” [orig. Project for the New American Century], Robert Kagan, um dos principais promotores da Guerra no Iraque. É provável que o mundo jamais venha a saber o que Obama supunha que Nuland planejava fazer quando ela voou para a Praça Maidan e lá reapareceu, distribuindo comida aos manifestantes contra a Rússia e a um passo das fronteiras russas. Mas a mensagem já circula amplamente: Obama é um homem que não se empenha muito para saber muito das coisas. Sobre a Ucrânia, parecia longe e distanciado da ação, possivelmente sem nada saber das implicações do investimento do seu Departamento de Estado na sociedade civil e na promoção da democracia para a Ucrânia: e foram mais de US$ 5 bilhões desde 1991 – como Nuland revelou em sessão do National Press Club, em 13 de dezembro de 2013 – soma gigantesca, pelos padrões da Agência USAID. Obama delegou ao seu secretário de Estado, John Kerry, o controle sobre a posição pública dos EUA no mundo. Resultado disso com a Ucrânia em 2014, como com a Síria em 2013, foi tornar a situação ainda mais confusa, cada dia mais carregada de oportunidades para hostilidades entre EUA e Rússia. Até que, no final de março, Obama pronunciou um discurso ante a União Europeia em Bruxelas, no qual expôs a débâcle, mas travestida como se fosse política.

A despreocupação, o descaso com que Obama vê Cheney semear nos canteiros de sua própria política é característico e revelador. Como Barton Gellman revelou em Angler, ainda o melhor livro sobre Cheney, o vice-presidente em 2001 recebeu carta-branca para encher todos os departamentos e agências do governo com trabalhadores de primeiro e segundo escalão que fossem fanaticamente leais a ele-Cheney. Muitos daqueles ainda permanecem por lá; Obama não fez esforço algum para preservar o próprio governo contra a influência deles. O desgosto contra Bush e Cheney, mesmo no Partido Republicano, era generalizado no início de 2009 e dava real poder de alavancagem a qualquer novo presidente. Mas a ideia de que o país tinha de voltar a ser estado de direito não prosperou sob Obama; até a expressão “estado de direito” deixou de ser ouvida. Não se viu sequer um criminoso de Wall Street que tenha sido processado; não se viu sequer uma ação judicial contra advogado que tenha defendido a tortura; ou contra funcionário público que tenha ordenado a tortura nos EUA ou em qualquer lugar do mundo em nome dos EUA; ou contra agente do governo dos EUA que torturou. Onde Cheney e Bush são vistos e ressentidos como instigadores desses crimes, Obama é tido como coadjuvante, cúmplice ou corresponsável.

O modo descontraído e relaxado com que lida com a Constituição, finalmente pôs o presidente Obama do lado oposto ao de seus mais fiéis aliados, mesmo entre os Democratas centristas. A Casa Branca está agora envolvida em luta-livre com a presidente da Comissão de Inteligência do Senado, Dianne Feinstein, tida como defensora rotineira dos interesses da polícia e dos serviços de inteligência, contra cidadãos e suspeitos. A recusa da CIA, mesmo com meses de atraso, a aprovar a entrega a uma comissão do Senado do relatório de suas ações desde 2001, levou Feinstein, afinal, a questionar o papel da Casa Branca, na ocultação do relatório. Feinstein interpretou o elaborado show de imparcialidade de Obama como uma extensão a mais do privilégio executivo, contra o braço do governo responsável pela fiscalização.

A ação executiva foi mais uma vez a opção de Obama, quando acertou o retorno, dia 31 de maio de 2014, de Bowe Bergdahl, prisioneiro norte-americano no Afeganistão, trocado por cinco Talibã que permaneciam presos em Guantánamo. E dia 2 de junho de 2014, a Agência de Proteção Ambiental, com apoio explícito de Obama, anunciou novos limites de carbono calculados para encurtar a vida de usinas movidas a carvão. Essas duas ações, uma doméstica, outra com efeitos fora do país, foram os movimentos mais firmes de Obama, em cinco anos. Mas ambos foram apresentados como decisões do Executivo, nada devendo a político algum, nenhum dos quais foi consultado. Democratas preocupados com eleições e que não foram consultados, teriam relutado a defender a troca de prisioneiros; e democratas dos estados de minas de carvão, como West Virginia e Kentucky já está denunciando ativamente os novos limites de carvão. E essa determinação de Obama, que insiste em fazer as coisas enquanto pode nos seus últimos anos de governo, e em agir sozinho quando não pode agir com o Congresso agora o prendeu e comprometeu-o de tal modo, que Obama está absolutamente sem saída. Aquelas são decisões que, pela própria natureza, não podem ser canceladas. Se o Partido Republicano já não tivesse desperdiçado um pedido de impeachment há pouco tempo demais contra Bill Clinton ele, com certeza, teria respondido à fúria que subia das suas fileiras, e teria castigado Barack Obama, com um impeachment.


O Tea Party tem fama de ser o lar dos liberais-libertaristas norte-americanos: defensores da separação dos poderes e da Bill of Rights, especialmente da 1ª, 2ª, 4ª e 5ª emendas – que protegem, respectivamente: a liberdade de expressão, de prática religiosa e de reunião pacífica; o direito de portar armas; o direito dos cidadãos de serem protegidos contra investigações, espionagem e prisão arbitrárias; e o direito de não ser acusado de crime capital, ou condenado ou punido sem o devido processo legal. Mas o Tea Party abriga crentes-defensores de mais dois tipos, além dos libertaristas de “direitos”: os defensores fanáticos da propriedade e dos lucros privados (não importa o meio pelo qual tenham sido adquiridos); e os odiadores da ação do estado e também do próprio estado, exceto para efeito de prender criminosos e fazer guerra aos inimigos do estado... Até aqui, só um candidato viável que não é membro inscrito do Tea Party parece preparado a candidatar-se à presidência em 2016. Trata-se de Jeb Bush, ex-governador da Florida, irmão caçula de George W. e, segundo o pai deles, o mais sensível dos irmãos.

Enquanto isso, os aspirantes do Tea Party são gente bem estranha, que refletem as características ainda não plenamente definidas do Partido. Marco Rubio, o simpático jovem senador pela Florida, de fala fácil, simpática e rasa, que pode ser equipado para recapturar o voto dos hispânicos de que os Republicanos precisam, se querem sobreviver. Rubio foi apanhado numa mentira há alguns meses: mudou a data da saída de seus pais de Cuba, para mostrá-los como fugitivos de Castro e do comunismo. Mas foi logo perdoado: nos estados do sul em geral, a doença anti-Castro já nada tem a ver, hoje, nem com Castro nem com algum comunismo, nada significa coisa alguma e... Rubio foi absolvido. Ted Cruz, jovem senador do Texas, formado em Princeton e na Faculdade de Direito de Harvard, apresenta-se também como norte-americano por adoção, grato filho de família EUA-cubana (embora tenha nascido no Canadá). É estranhamente parecido, no físico, com Joe McCarthy – um McCarthy bem barbeado, que não bebe, nem deixa beber, sem a pele flácida e as pálpebras avermelhadas pelas noitadas. Cruz fala bem, em tom suave e artisticamente mole, sempre em tom de acusação: um modo de falar que se suporia já morto e enterrado com McCarthy, mas o ódio e o ressentimento nacionalistas deixam sotaque que persiste e persiste.

“O líder incontestável do partido” no Texas (segundo o Dallas Morning News), o senador Cruz prometeu levar para a política nacional a plataforma de 2014 dos Republicanos do Texas. Elementos da plataforma são, dentre outros: selar a fronteira com o México e proibir anistia para imigrantes ilegais; permitir que proprietários de empresas neguem emprego a pessoas que considerem moral ou ofensivas, por motivos religiosos; abolição de todos os impostos sobre a propriedade; extinção da Agência de Proteção Ambiental; fim do salário mínimo; fim de qualquer “ação afirmativa”; apoio à “terapia de reparação” para converter homossexuais às práticas heterossexuais; e fim da loteria estadual. Qualquer esperança de que o establishment Republicano venha a suavizar os rigores desse programa diminuiu consideravelmente quando, dia 10 de junho de 2014, um insurgente do Tea Party derrotou Eric Cantor, líder da maioria no Senado, nas eleições primárias Republicanas no distrito de Cantor na Virginia. Cantor é considerado o representante de Bibi Netanyahu nos EUA e supunha-se que tivesse demarcado o limite máximo de intransigência Republicana durante o debate do teto da dívida em 2011. O homem que derrotou Cantor, com orçamento ínfimo, Dave Brat, é professor de Economia, denunciador do capitalismo-de-comadres e alarmista anti-imigrantes. “O cara” – escreveu o blogueiro que se assina Pangloss, em tom de absoluta surpresa – “achou espaço para se meter à direita de Cantor”.

Rand Paul, filho do libertarista Ron Paul, permanece, como Cruz, candidato ao apoio do Tea Party em 2016. Está entre os mais interessantes políticos contemporâneos, mas, também, entre os mais difíceis de seguir, por sua inconsistência. O discurso de Paul, contra a nomeação de John Brennan para dirigir a CIA, e que se tornou ação de 13 horas de presença ininterrupta na tribuna, para bloquear a ordem de Obama que autorizaria ataques com drones, foi evento que fez história em 2013, mas que, como depois se viu, não passou de prelúdio sem sequelas. Outros atos mais prudentes de Paul como candidato, como um adiamento errado de votação sobre mudança climática, a viagem que fez a Israel (com todo o ritual usual de servilismo), a solução oportunista que ofereceu para a questão da Ucrânia (entregue tudo aos russos, corte relações com todos eles e deixe que a Ucrânia quebre os russos), nada sugerem além das ideias-fixas obsessivas do pai. Mesmo assim será interessante ver quanto do liberal-libertarismo de Ron Paul, que não é partilhado por nenhum outro político de expressão nacional, pode vir a ser representado, seja como for, por Rand.

Em 21 de maio de 2014, Ron Paul fez um extraordinário discurso contra a nomeação de David Barron para a Corte Federal de Apelações; argumentou que Barron, autor do memorando secreto em que expôs argumentos a favor de o presidente assassinar cidadãos norte-americanos mediante o uso de drones, evidentemente era homem que acalentava ideias sobre o poder executivo que, elas próprias, o desqualificavam para o cargo de juiz. Paul instruiu-se nos escritos de jornalistas que não são, de modo algum, considerados da direita nos EUA, como Glenn Greenwald e Conor Friedersdorf; e apoiou toda a sua crítica na importância de o acusado ser julgado por júri qualificado, e na exigência de prova além de qualquer dúvida razoável:

Naqueles memorandos [que Barron redigiu para o presidente] há um padrão diferente (...) O padrão é que um assassinato seria justificado quando “um funcionário informado, de alto nível, do governo dos EUA tenha determinado que o indivíduo-alvo impõe ameaça iminente de ataque violento contra os EUA”. Assim sendo, já não se está usando a dúvida razoável como parâmetro. Esse padrão foi deixado de lado. Agora, já estamos falando de funcionár4io de alto nível, bem informado, que decide, em segredo, que algum ataque estaria para acontecer. 
Interessante sobre “ataque iminente” é que já não nos pautamos pelo que se entende por “iminente” (...) É nova definição do sentido de “iminência” que já não inclui a palavra “imediatamente” (...) O presidente crê, no que tenha a ver com a privacidade, na 4ª emenda, e no que tenha a ver com matar cidadãos norte-americanos, na 5ª emenda, que, se houver meia dúzia de advogados para reler o processo, pronto, já será o devido processo legal. É apavorante, porque isso nada tem a ver com “devido processo legal” (...) Não há devido processo legal se há segredos, processos internos reservados só ao Executivo (...) Da próxima vez, para assassinar um cidadão norte-americano, farão tudo em segredo, só o Executivo saberá do que o Executivo faz, porque essa é a nova norma. 
Vocês estão votando no homem que tornou possível esse precedente histórico pelo qual nós agora podemos assassinar norte-americanos em outros países do mundo. Em segredo – um braço do governo é o assassino – sem representação legal, sem processo legal, tudo baseado numa acusação e em nenhum a defesa. Deixamos para trás o critério da culpa provada além de qualquer dúvida razoável, e abraçamos o critério de que basta uma acusação, para a execução. Estou horrorizado, mas estamos exatamente nesse ponto (...) Temos de nos perguntar nós mesmos: quanto vale o conceito da inocência presumida?

No segundo período de Obama na presidência, coube a um Republicano enunciar essas palavras sobre liberdades civis – embora tenha sido o único no partido dele. Ao contrário, o professor da Faculdade de Direito de Harvard que escreveu aqueles memorandos para justificar o assassinato de cidadãos norte-americanos pelo estado norte-americano e sem o devido processo legal foi visto com máxima consideração pelo establishment liberal, porque tem posição “boa” sobre o casamento gay. Os Democratas têm maioria no Senado, e a nomeação de Barron para a Corte de Apelação já foi aprovada.

A anomalia do discurso de Paul no campo da oposição, e o voto Democrata a favor do advogado dos drones apontam para enigma muito mais profundo. Um perigoso e não dito acordo na política norte-americana cresceu e cresceu quando ninguém estava olhando, e hoje une a esquerda liberal e a direita autoritária. A esquerda liberal e a direita autoritária concordam no apoio não questionado a um governo sem controles e contrapesos; e coube à presidência de Obama cimentar o acordo. O aparelho de Estado que apoia guerras e a indústria de armas para os Republicanos gera bem-estar e direitos expandidos para os Democratas. Os Democratas pouco se incomodam com as guerras, mas tendem a aceitá-las e prescrevê-las pelo que obtêm em troca. Os Republicanos odeiam tudo que se pareça com gastos públicos a favor de qualquer “bem-estar”, mas não conseguem escapar de serem acusados de hipócritas quando votam a favor de gastos públicos sempre crescentes para os militares.

No final de maio, Obama acrescentou mais dois anos e meio ao prazo final que ele mesmo demarcara para retirar os soldados norte-americanos do Afeganistão. A data final para a retirada, agora, será em dezembro de 2016. Dois dias depois, recebeu na Casa Branca um “Concussion Summit” [ap. Cúpula das Cabeças Quebradas (NTs)], que discutiu efeitos de ferimentos na cabeça em crianças pequenas – exatamente o tipo de coisa que os Republicanos adoram usar como tema de zombaria, porque lhes parece atividade descabida para a dignidade do presidente. Entre o anúncio do prazo final da retirada do Afeganistão e o evento das “Cabeças Quebradas”, Obama fez um discurso em West Point, na formatura dos cadetes, que foi anunciado pelos assessores como a principal formulação da doutrina de política externa de Obama. O discurso é manifestação completa e consumada da tendência “nem isso, nem não isso, antes o contrário”, do presidente, embora ratifique a barganha contra o poder do estado, que é a força dominante na política dos EUA. Disse que os EUA vão se engajar em mais atividades militares do que jamais antes, mas como menos norte-americanos mortos. Vamos cuidar do bem-estar dos norte-americanos em primeiro lugar, sem esquecer que temos de defender coisa mais ampla e mais difícil de limitar: nossos “interesses básicos” e nosso “modo de vida” [orig. our “core interests” and our “way of life”].

A epígrafe invisível do discurso de Obama deve ter vindo de Madeleine Albright, secretária de Estado no segundo governo de Bill Clinton. “Se temos de usar a forçar”, disse Albright, “é porque somos os EUA; somos a nação indispensável. Estamos acima e vemos mais longe que outros países na direção do futuro”. Exatamente nesse espírito, Obama disse aos cadetes formandos de West Point que os EUA têm de liderar o mundo, embora não possam policiar o mundo. Por isso é indispensável um consenso internacional para aplicar “normas internacionais”. Essa expressão final tornou-se peça básica do mobiliário intelectual de Obama: normas internacionais existem para ampliar a diferença que separa a lei internacional (que os EUA reservam-se o direito de violar) e a nova “ordem mundial”, da qual os EUA são O Criador e devem permanecer como O Guardião.

“Nos retiramos do Iraque”, disse Obama; e estamos “encerrando nossa guerra no Afeganistão”; a liderança da al-Qaeda foi dizimada nas regiões de fronteira entre Paquistão e Afeganistão e Osama bin Laden já não existe”. Assim sendo, “a questão que enfrentamos (...) a questão que cada um de vocês enfrentará não é se os EUA liderarão, mas como os EUA liderarão”. Mas por que os EUA teriam de só liderar e fazer e acontecer? Porque “se não fizermos, ninguém mais fará”. Como se vê, a deferência ao chiliquismo nacionalista de Albright foi mantida, e deixou aberta uma porta para a doutrina da guerra humanitária inventada por Samantha Power – sucessora de Albright como embaixadora dos EUA à ONU, onde se converteu na mais consultada consultora de Obama para questões de sabedoria sobre engajamentos estrangeiros. Power ajudou Obama a reescrever seu segundo livro e bem pode ter ajudado a redigir o próprio discurso de West Point. Em homenagem àquele modo de pensar, que mistura persuasão, força e bote salva-vidas em resgate de emergência, “a ação militar dos EUA” – Obama prosseguiu – “não pode ser o único, sequer pode ser componente primário de nossa liderança em todos os casos”. O modo preferencial para tratar de problemas internacionais que “agridem a consciência” será multilateral. Mas os EUA, porém, usarão unilateralmente a força “quando nossos interesses básicos assim o exigirem; quando nosso povo estiver ameaçado; quando nossa vida estiver em risco; quando a segurança de nossos aliados estiver em perigo”.

Cada uma e todas as palavras dessa última passagem é, são, ambíguas. A frase inteira é como um convite aos que caçam ambiguidades como oportunidade para usar armas e fazer guerras. Mas... quem é “nosso povo”? Inclui os espiões e os que ouvem nossas conversas telefônicas? As forças especiais que operam na ilegalidade? Mas a palavra mais escorregadia de todas, aí, é a de sempre, eterna desculpa para “ação” e mais “ação”: segurança. Na sequência, então, vinha uma frase que é puro Obama: “A opinião internacional interessa, mas os EUA não precisamos pedir permissão para proteger nosso povo, nossa pátria ou nosso way of life”. Em resumo: até que nos esforçamos para respeitar a opinião internacional, tentando obrigar todos a concordarem conosco; mas, de fato, fazemos o que bem entendemos: impor “normas internacionais” pela violência não é crime que se compare a guerra de agressão, não importa o que diga a “opinião internacional”. O presidente Obama e o secretário de Estado pediram US$ 5 bilhões ao Congresso para apoiar “um novo fundo de parceira para o contraterrorismo” que “amparará países parceiros nas linhas de frente”. Cinco bilhões é eco do dinheiro de que Nuland falou no caso da Ucrânia (vídeo no fim do parágrafo, em inglês), e traz à mente o curioso fato de ajuda externa, seja violenta, seja não violenta, tem vindo muito mais frequentemente do Departamento de Estado, que do Departamento de Defesa. A Síria será o primeiro cenário de ação para esses fundos; parceiros devem ser o Líbano, a Turquia, o Iraque e a Jordânia. “Creio no excepcionalismo norte-americano” – disse Obama na conclusão – “com cada fibra do meu ser”. Essa formulação tem-se convertido em fórmula-juramento de fidelidade, com a mão sobre o coração, que se espera de todos os presidentes norte-americanos; e Obama pronunciou as sílabas com as necessárias reverência e unção. Mas imediatamente acrescentou que “os EUA desejam trabalhar com a OTAN, a ONU, o Banco Mundial e o FMI” (todas as organizações internacionais e financeiras juntas, sem qualquer distinção nem pausa).


Qual pode ser a razão de Obama para decidir “parceirizar” o treinamento contraterrorista e o suprimento de armas para prolongar a guerra na Síria? Não parece ser via que o interesse, se quer acordo com o Irã para usar como “chave de ouro” de sua política exterior. Mas Obama tem uma propensão, que não há via racional que justifique, para prometer coisas que parecem fortes, imediatamente depois cancelar tudo e depois fazer qualquer coisa, seja lá como for. A Síria no verão e outono de 2013 foi o pior momento possível para Obama fazer as coisas desse modo e à vista de todos. Da ameaça à hesitação, à declaração de guerra, a abortar o ataque, porque apareceu solução vinda de fora e que não exigia uso de força: a sucessão tonta de posturas “de guerra” ostentadas e abandonadas ano passado continuará agora, numa guerra por procuração, mais uma, afinal de contas.

O pior erro norte-americano da década passada foi falar de uma guerra ao terror, em vez de uma operação de política internacional cooperativa. Obama não gosta de pronunciar a expressão “guerra ao terror”, mas vive a falar em termos de prontidão bélica e capacidade bélica e leva os norte-americanos a assumirmos, como coisa garantida, que teremos de nos meter em mais de uma guerra de cada vez, e por mais de uma geração. É instrutivo que Dick Cheney, em 2002 e 2003, tenha dito, repetidamente, com essas palavras, que uma hipotética política de defesa poderia vir a ser descrita como “criminosa” ou “política”; e que falasse dessas descrições sempre em tom de desprezo. Ele sabia que, se algum dia o senso comum conseguisse imperar, o pânico, sem o qual sua própria política não sobreviveria, ficaria sem combustível. Fato é que, desde 2002, com exceção dos primeiros meses no Afeganistão e no Iraque, os EUA só fazem lutar contra insurgências. Os inimigos são rebeldes que fazem oposição a governo que os EUA queremos-porque-queremos que lá permaneçam, no Afeganistão, no Iêmen, na Somália e agora também na Líbia. Adeptos da guerra humanitária – Hillary Clinton e Samantha Power sobretudo – em sua loucura para fazer acontecer a guerra na Líbia, amassaram o alvo e confundiram o objetivo, convertendo os EUA em oponentes também de um governo soberano e reclamando para eles a prerrogativa de pôr-se contra governos e divulgar seus crimes, ao mesmo tempo em que encobrem, ignoram e fazem ignorar os crimes de (alguns) rebeldes. Na sequência, aplicaram o mesmo “princípio” à Síria. Os detalhes talvez desagradem Cheney, mas o resultado segue as “linhas” de Cheney. A nova “parceiragem” de Obama no contraterrorismo significará que não há problema algum em meter o país em uma dúzia de diferentes pequenas guerras simultâneas por aí, pelo mundo inteiro.

A próxima eleição já está sendo prejudicada pela imprensa. Já se sabe – já praticamente todos aceitamos – que a candidata dos Democratas será Hillary Clinton. Foi prestimosa secretária de Estado de Obama. Nunca disse bobagens descuidadas e altamente repetíveis que pudessem embaraçar o presidente, como vive a fazer seu sucessor, John Kerry, vezes sem fim. Mas, ao mesmo tempo, Clinton fez do Afeganistão provação muito mais difícil e mais longa, para Obama, quando ela se pôs ao lado dos generais; e cavou trincheira personalizada, para Obama e para os EUA, quando pressionou obsessivamente pela derrubada de Gaddafi. Mrs. Clinton anda ocupadíssima, agora, posicionando-se à direita de Obama. Faz sentido para ela e sua concepção de consenso dominante, como já fez também em 2008. Em semanas recentes, ela tem confessado uma queda já antiga por armar forças rebeldes na Síria; comparou Putin a Hitler; e até sugeriu que sua ideia sobre o Irã é menos positiva que a de Obama: ninguém deve esperar barganha decente das negociações sobre o processamento de urânio. É abordagem sórdida, acanalhada; afinal, pode, sim, acontecer como ela “prevê”. Iraque – guerra a favor da qual ambos, Hillary Clinton e John Kerry, votaram – foi uma catástrofe que bem deveria nos tornar mais atentos; mas desde que as tropas norte-americanas partiram, nos dedicamos a nos convencer de que nada temos a ver com a violência que destruiu o Iraque. Pois mesmo assim, Obama respondeu à rebelião de junho/2014 no Triângulo Sunita, com o envio de 275 marines para ajudar da defesa da embaixada dos EUA em Bagdá. Como se na sequência tivesse “pensado melhor”, pressionado, meteu logo na mesma lista mais 300 “conselheiros” militares; e já avisou que pode ordenar ataques aéreos e massacres por drones. Os neoconservadores estão em marcha outra vez, para as páginas das colunas assinadas nos jornais da imprensa-empresa. O Partido Republicano e alguns Democratas dizem que os EUA devem fazer mais (embora não saibam exatamente o quê). A julgar pelo caos na região (Oriente Médio e Ásia Central) e pela confusão que reina na classe política nos EUA, cujos mais ambiciosos membros continuam a superar-se sempre uns aos outros em matéria de pensamento e postura delirantes, ainda terá de haver ecos e ecos dos desastres do Iraque, Líbia e Afeganistão, antes que os EUA sejam obrigados a recomeçar a pensar.

26 de setembro de 2013

Diário: Putin ao resgate

A insurgência antigovernamental na Síria recebeu uma visão inebriante de triunfo pelas palavras que Obama disse em agosto de 2011: "Assad precisa sair".

David Bromwich

Vol. 35 No. 18 · 26 September 2013

Tradução / A insurgência contra o governo na Síria foi induzida a uma inebriante visão de triunfo, ao ouvir o que o presidente Obama disse em agosto de 2011, que foi traduzido, acertadamente, na manchete “Assad tem de sair”. Antes, Obama já emitira mensagens semelhantes: “Mubarak tem de sair” e “Gaddafi tem de sair”. Obama pode talvez se ter metido na cabeça a ideia de que desempenhava papel benigno na Primavera Árabe – mostrando-se “do lado certo da história” (como ele gosta de dizer). “Assad tem de sair” soou também como se o presidente tivesse incorporado o espírito de George W. Bush; mas talvez não. Obama tem uma queda pelo pouco caso, ou por tolices ditas como se fossem frases solenes para a história, com as quais bem faria se começasse a se preocupar. Em fevereiro de 2010, no auge da pressão para que seu governo agisse contra os "banksters" responsáveis pelo colapso financeiro de 2008, Obama respondeu uma pergunta sobre os CEOs Lloyd Blankfein (do Banco Goldman Sachs) e Jamie Dimon (de J.P. Morgan Chase): "Conheço esses dois caras: são homens de negócios muito bem informados." Era Obama tentando provar a si mesmo que estava “por dentro”, confortável naquele ambiente, suficientemente próximo de Wall Street, para impressionar um dos lados; mas suficientemente distanciado, para merecer a confiança dos eleitores. Não funcionou. O comentário valeu-lhe um grau a menos de confiança dos eleitores e livrou os culpados de boa dose de um saudável medo. Este verão, depois de encontro insatisfatório com Vladimir Putin, Obama disse: "Eu sei que a imprensa gosta de se concentrar na linguagem corporal, e ele tem esse tipo de desleixo, parecendo o garoto entediado no fundo da sala." É frase que até se pode arquivar para as Memórias, supondo que alguém a ache esperta e digna de nota – mas imprópria, vinda de um estadista que descreva outro líder mundial.

Já transcorridos 56 meses de governo Obama, não cabem dúvidas de que Barack Obama gosta de falar. Pensa que os americanos e outros anseiam por ouvir o que ele tenha para dizer, e sobre vários assuntos; conforme essa sua percepção, ele disse, em agosto de 2012, sobre a guerra civil na Síria: "Uma linha vermelha para nós é se começarmos a ver quantidades de armas químicas movidas de cá para lá ou sendo usadas. Isso mudaria meu cálculo." Em março, a versão era outra, para a mesma declaração: o uso de armas químicas por Assad “muda o jogo”. Dois comentários nada diplomáticos. Quem estivesse interessado em empurrar os EUA para mais guerras não diria melhor, nem mais claramente, dos próprios interesses. Quando surgiram algumas evidências de que se usaram armas químicas na Síria, esse ano, primeiro em março, perto de Aleppo, depois em agosto, perto de Damasco, as forças que pressionam a favor do envolvimento dos EUA exigiram, imediatamente, mudança de política. Quem são essas forças? Uma das maiores e das quais menos se fala nos EUA sempre foi a Arábia Saudita. Se é preciso fornecer armas e dinheiro a jihadistas para enfraquecer a Síria e, por essa via, enfraquecer também o Irã, os sauditas sempre se mostram dispostos a fazer tudo isso. Turquia e Qatar também apoiam os jihadistas, contando com auferir vantagem política; e a Israel interessa prolongar a guerra, mas sem deixar que a vitória penda para os jihadistas. Assim Israel brilha com renovado fulgor como único parceiro com que os EUA contam, numa região que vai sendo cada vez mais devastada. Uma matéria publicada pelo New York Times no dia 5 de setembro noticiava manifestação de um ex-diplomata israelense, sobre os jihadistas e o exército sírio: "Que sangrem os dois, hemorragia até a morte: por aqui, esse é o nosso pensamento estratégico. Enquanto continuarem assim, não haverá real ameaça síria."

Depois que emergiram notícias do uso de armas de gás em março, Obama concordou, pela primeira vez em público, com mandar armas norte-americanas para apoiar grupos “do bem” dentro da insurgência na Síria. Depois do incidente de agosto, no qual se registraram mais mortes, Obama anunciou sua conclusão de que Assad ordenara os ataques e que mísseis norte-americanos não tardariam a “punir” a infração atacando alvos significativos do Estado. Ao mesmo tempo, Obama insistia que não queria alterar o rumo da guerra, com a intromissão da força bélica dos EUA. Seu plano não iria além de um bem merecido castigo. Esta formulação parecia trair sua contínua relutância; também mostrava que Obama pode ser levado a agir contra suas inclinações e, mesmo assim, consegue acomodar a coisa aos seus próprios padrões morais.

Não há dúvidas de que houve um ataque. Ninguém sabe ainda, com razoável certeza, quem o ordenou. Assad poderia ter ordenado, mas, dado que estava em vantagem na guerra e o movimento seria suicídio, não se entende como Obama concluiu o que concluiu. Diz-se que os rebeldes não teriam competência técnica para usar o gás, mas há notícias de que estavam de posse de armas químicas; a ideia de uma operação forjada, de provocação, e bem-sucedida, exigiria alto grau de perversão e talento dissimulatório que também são difíceis de aceitar. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, obscureceu a discussão no final de agosto, quando, primeiro, pediu inspeção do local por inspetores da ONU; e logo depois os alertou para que saíssem de lá, porque os EUA bombardeariam tudo imediatamente. A coisa trouxe de volta ecos de Bush no Iraque em 2003, e Kerry tratou de cancelar a própria ordem; mas, surpreendentemente, declarou que nada do que os inspetores da ONU descobrissem faria, para ele, qualquer diferença.

As quatro páginas de um resumo do “relatório de inteligência”, não sigiloso, que Kerry distribuiu para divulgação pública – e, segundo avaliação do congressista Alan Grayson, o relatório completo, 12 páginas, sigiloso, nada dizia de diferente disso – falam do ponto de vista de “Nós [o governo dos EUA]”. A razão desse uso pouco usual das fórmulas gramaticais é clara: o tal documento não foi produzido pela inteligência dos EUA. Gareth Porter, jornalista de Inter Press Service, examinou as pontas soltas, os “informes” vagos e genéricos, as omissões, as distorções gramaticais reproduzidas na fala de Kerry e concluiu que a ausência de assinatura de James Clapper naquele “relatório” é detalhe muito significativo. Clapper evidentemente se recusou a assinar, porque os dados haviam sido apenas alinhavados uns nos outros, sem qualquer investigação ou trabalho de inteligência (como os dados que Colin Powell apresentou na ONU, em fevereiro de 2003). Kerry falou de precisas 1.429 mortes no ataque de agosto; mas não há dado algum que confirme esse número, que varia muito nos relatos de primeira mão: a inteligência francesa estimou 281 mortos; os Médicos Sem Fronteiras, 355. Em menos de uma semana o “relatório” de Kerry foi desqualificado e desacreditado, mas nem a imprensa, nem o establishment político foram informados disso. Apoiado só em inferências forçadas e pressupostos, dos quais a melhor “pista” era uma comunicação interceptada – gravação de uma fala de um muito perturbado suposto comandante de forças sírias, entregue aos EUA pela inteligência israelense – Obama declarou sua intenção de ordenar um ataque. Em seguida, pediu autorização ao Congresso, para usar força militar e queria poderes para agir como entendesse necessário, para “responder a”, “deter” e “degradar” as capacidades militares e defensivas do governo sírio. Todas essas são palavras sem significado preciso, e foram escolhidas por essa razão. Em grau muito curioso, o pedido de Obama ao Congresso em setembro de 2013 é parecido com o pedido de Bush, para o mesmo fim, em outubro de 2002.

A conversa sobre “punir” Assad é toda ela marcada por uma posição de disciplina parental; não traz qualquer traço semântico da linguagem especializada do Direito Internacional. Não aconteceu por acaso. País que ataque estado soberano, sem agressão prévia, viola leis do Direito Internacional. Quanto a “punições”, até pode acontecer de um governo punir legalmente os próprios cidadãos, mas não é relação possível entre dois países. Um exemplo simples: um pai pode dizer ao filho “Vá para o seu quarto”. Mas ninguém pode dizer a um vizinho indesejável “Você tem de sair”. Obama confunde-se e atrapalha-se, de modo que parece bem genuíno, sempre que se trataria de não ultrapassar a importantes linhas vermelhas dos discursos e das palavras. Anda de um lado para o outro, com excessivo à vontade. No início da crise, tentou armar um estratagema retórico em torno da lei: os EUA e seus aliados, ao punir um ataque a gás contra sírios, que sem dúvida possível fora ordenado pelo presidente da Síria, estaria “fazendo valer normas internacionais”.“Normas internacionais” é expressão que, ultimamente, se ouve por toda parte. Um mundo sem normas (parece ser a implicação inevitável) é mundo em caos. Uma vez que a Rússia não levantaria o veto na ONU e confiado no que lhe diziam franceses e britânicos e o seu próprio governo... quem faria valer as normas internacionais? Quem, se não os EUA?

Muitas forças dentro da política norte-americana operaram para pressionar Obama em direção da guerra. Uma dupla de senadores Republicanos, Lindsey Graham e John McCain, ganharam extraordinário destaque nos veículos da imprensa-empresa, como especialistas em política externa. Comandaram a ala militarizada do Partido Republicano, apesar até da defecção de renegados do Tea Party e libertaristas free lance. E muitos Democratas guardaram para si as próprias dúvidas, para não parecer que se opunham ao presidente. Só quando a Câmara dos Comuns britânica votou contra, afinal a política de guerra dos EUA balançou. O presidente e equipe foram profundamente perturbados pelo resultado daquela votação. O povo e seus representantes respiraram fundo; e a política de guerra dos EUA começou a ser mais amplamente questionada. Que sentido teria o tal ataque “limitado e adequado” [orig. “limited and tailored”] (frase típica de Obama) que simultaneamente aplicaria golpe inesquecível ao “ditador” alvo?

Essa apresentação autocontraditória foi devida em parte a outra das forças que exigiam “castigo” americano ao sírio, a saber, os pregadores de guerra humanitária, e à líder deles, a assessora para segurança nacional de Obama, Susan Rice. A posição dela em pouco difere da antecessora, Condoleezza Rice (não são parentes), mas as duas desenvolveram suas credenciais internas por vias distintas: Condoleezza Rice, como acadêmica especializada em estratégia soviética; Susan Rice, num processo de ascensão dentro da elite política, com uma muito proclamada vocação de consciência para impedir “outra Rwanda”. A campanha doméstica a favor de ataque norte-americano aos sírios foi marcada por uma notável novidade vinda dos agentes promotores de guerra humanitária: mensagens de Twitter, enviadas por Rice e pela embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, para promover também pelo lado de fora os objetivos pelos quais trabalhavam dentro do governo.

Todas elas são nomes que Obama nomeou recentemente e pelas quais expressou admiração. Mas, ao obedecer a elas e a um novo discípulo delas, recém conquistado, John Kerry, Obama passava a ignorar outra vozes dentro do governo, que teriam enorme peso. Todos os comandantes militares do Estado-Maior das Forças Armadas opunham-se à intervenção na Síria. O chefe dos chefes do Estado-Maior, general Martin Dempsey, já vinha dizendo há meses por que considerava perigoso o ataque. Que para nada serviria, exceto para prolongar a guerra civil; e que exporia bens norte-americanos na região à retaliação, no Afeganistão, na Líbia, por toda a parte. (Susan Rice comandou a campanha para que os EUA, com a OTAN, derrubassem o governo na Líbia. É possível que Obama ainda suponha que a guerra da Líbia tenha sido um sucesso, mas é ilusão só sua, da qual não partilham nem as forças armadas nem o serviço diplomático norte-americano). O depoimento de Dempsey ao Senado e à Câmara de Representantes foi feito com talento, mas, se visava a tranquilizar alguém, teve resultado oposto: a certa altura, o general recusou-se a prever efeitos futuros de algum ataque limitado; e o secretário de Defesa, Chuck Hagel, não conseguiu disfarçar as próprias emoções e respondeu a tudo como se não acreditasse em nenhuma palavra do que dizia. Juntos, esses dois faziam impressionante contraste com o secretário de Estado sentado ali ao lado. Kerry parecia tomado de renovada certeza, absoluta certeza, que ia aumentando a cada resposta, a cada pergunta que lhe era feita.

Verdade é que Kerry funcionava como o mais espetacular boneco de ventríloquo encarregado de vender uma política incoerente. “Não consigo parar de pensar em John Kerry, ontem, todo vaidoso” – disse o demagogo conservador e radialista Rush Limbaugh – “revelando que alguns países do Oriente Médio ofereceram-se para pagar pelo nosso ataque à Síria”. Quero dizer... Já não é ruim que chegue sermos chamados de policiais do mundo? Quem quer ser um policial subornado?! O que haveria de bom nisso? Quem somos nós, agora? Viramos mendigo, pedinte?!”. O provável maior problema de qualquer governo em total desalinho é que ele induz as pessoas a pensar duas vezes sobre tudo que o governo faça ou diga e sobre todas as suas políticas.

No final de agosto, com britânicos ou sem, os EUA estavam posicionados para ir à guerra. Mas a opinião pública já migrara para um ceticismo desconfortável – a proporção, que era de 3:1 a favor dos que não queriam a guerra, subiu, na segunda semana de setembro para mais de 2:1 contra. E foi no meio dessa deriva que o presidente resolveu enviar a questão ao Congresso e pedir que dividissem com ele a responsabilidade. Mas o Congresso, então, já estava refletindo a opinião pública. A consulta sugeriu que Obama queria mais tempo para pensar, e que não queria perder para a Grã-Bretanha, que seguira os procedimentos de um governo constitucional. Mas incongruente e muito estranhamente, Obama logo acrescentou que não seria pautado pela votação no Congresso. O que aí se vê é ambivalência pessoal privada, exposta para contemplação universal. Mas naqueles primeiros dias de setembro já se respirava outro ar, o ar de uma democracia que olhava a própria cara. John McCain foi acusado de leviandade, numa reunião popular no Arizona, por uma mulher que tem um primo sírio. O senador Rand Paul, o branco libertarista do Kentucky, e o Deputado Elijah Cummings, o negro liberal de Baltimore, relataram, ambos, que seus respectivos eleitores opunham-se a qualquer ataque, na proporção de quase 100:1. O presidente e sua secretaria de Estado, e com esses também uma vasta porção da elite política, haviam aprovado a ação militar para derrubar um quarto governo no Oriente Médio, depois de Afeganistão, Iraque e Líbia. Mas o povo dos EUA, dessa vez, disse “não”.

Mesmo assim, na primeira semana de setembro, Obama e Kerry ainda defendiam tanto a ambição delirante quanto a versão minimalista de seu ataque tão premeditado. Ataque decisivo e para incapacitar, que duraria poucos dias: essa parece ter sido a versão que o presidente apresentou a Graham e McCain. Mas o ataque que Kerry antevia, como disse à imprensa britânica dia 9 de setembro, seria: "(...) muito limitado, muito focado, esforço de curto prazo... Estamos falando é disso – esforço incrivelmente pequeno e limitado." E a confusão não fica aí. Recentemente em sua fala à nação, dia 10 de setembro, Obama contradisse Kerry e afirmou que o ataque não seria um beliscão, acrescentando em tom grave: "Os militares dos EUA não dão beliscões."

Dia 9 de setembro, Kerry deixou escapar um comentário, que seria carregado de consequências. O único meio pelo qual Assad conseguiria evitar ataque norte-americano seria ele entregar suas armas químicas a supervisão internacional e eventual destruição. “Claro” – Kerry acrescentou – “que não acontecerá”. Putin ouviu e entrou em cena. Mas, sim, disse Putin, é claro que acontecerá, porque a Síria entregaria suas armas químicas à inspeção internacional e até ao confisco, nos termos de um acordo que a Rússia intermediaria; em segundos, seu ministro de Relações Exteriores, Sergey Lavrov, apareceu com um plano diplomático no qual já vinha trabalhando há meses. A Casa Branca e o Departamento de Estado fizeram de tudo para ficar com os créditos por esse desenvolvimento, mas é quase impossível acreditar que tenha sido resultado de plano conjunto, do qual Kerry tivesse participado. Implicaria que o presidente ter-se-ia posto, ele próprio, numa situação que causaria embaraços ao governo, que o humilharia pessoalmente e que poria o mundo à beira de uma guerra, “porque” sabia da surpresa que surgiria no momento certo. A boia não requisitada que Putin empurrou para Obama levou o presidente a retirar a consulta que encaminhara ao Congresso – mas, isso, só depois de ter absoluta certeza de que a votação aconteceria dia 11/9. Estava a caminho de ser derrotado na Câmara de Representantes e, possivelmente, até no Senado.

Dia 10 de setembro, o presidente falou à nação. Precisou de mais tempo para justificar o ataque que estava devolvendo à prateleira, do que para explicar a nova rota na qual já estava comprometido, mas foi discurso “de abafa” também em outros sentidos: às vezes pedia, às vezes denunciava; dava lições de que o amor à paz tem às vezes de nos envolver em guerras, reiterando o imperativo de construir os EUA em casa, mas tomando o atento cuidado de falar do holocausto de judeus. E fechou com um apelo convencional ao onanismo nacional norte-americano: "(...) estamos sós no mundo, disse o presidente. Somos a nação “excepcional”. Por quase sete décadas os EUA têm sido a âncora da segurança global." Dia seguinte, o New York Times publicou coluna editorial assinada por Putin, que expressou sua esperança de que os norte-americanos escolheriam evitar guerra mais ampla. Falou com consideração, de Obama. Examinei atentamente a fala do presidente à nação, na terça-feira. E tenho de discordar da defesa do excepcionalismo norte-americano. O presidente disse que a política dos EUA é o que “faz diferentes os EUA, o que nos faz excepcionais”. É extremamente perigoso estimular as pessoas a que se vejam, elas mesmas, como diferentes, seja qual for a motivação. Verdade seca, de fonte questionável, mas impossível de negar. Nação que se suponha uma exceção aos padrões observados pelas demais nações é tão boa bisca quanto alguém que se veja, a si mesmo, como exceção.

É pouco provável que Obama mude outra vez, por hora. Mas deixar-se na posição passiva, de quem só ouve o que os russos digam, que responde às vezes sim, às vezes não, às vezes “Vamos analisar”, exporá todo seu governo à acusação de estar “liderando pela retaguarda” demais (foi Obama quem inventou essa, ao jactar-se do que fazia na Líbia). A diplomacia é coisa relativamente nova para Obama. Mas, dessa vez, não teve escolha. Nem Obama pode entregar essa carpintaria delicada às que mais alto gritavam a favor da guerra. Obama terá de trabalhar duro para resistir à pressão para bombardear o Irã que nunca para de vir de Israel e do lobby israelense nos EUA. Delegar grandes responsabilidades de governo pode ser compatível com um sinal de humildade – e até funcionou assim, para Reagan – mas há cenários nos quais essa atitude aproxima-se perigosamente da temeridade ou da irresponsabilidade. Em dezembro de 2011 pediram a Obama que ele confessasse um defeito pessoal; respondeu que o defeito que criticaria em si próprio era a preguiça. Mais uma vez (como o que disse sobre Putin e os banqueiros), melhor que não tivesse dito. Mas, seja como for, aí está a chance para se autorreformar: um tempo para comprometer-se pessoal e profundamente na construção de suas políticas, menos discursos palavrosos, menos comentários descuidados nas entrevistas; ocasião para trabalhar ativamente com novos parceiros, além de França, Grã-Bretanha e IsraelSe quer igualar-se a Putin nas artes da diplomacia e superá-lo no difícil exercício da autocontenção, Obama tem de aproveitar esse momento, também, para reconsiderar o extraordinário aparelho de sigilo em que seu governo está confinado, para tudo que tenha a ver com a segurança e com suas políticas externas.

David Bromwich ensina inglês em Yale. How Words Make Things Happen já está disponível.

22 de outubro de 2009

A ilusão de Obama

David Bromwich



Tradução / Bem antes de se tornar presidente, Barack Obama já dava sinais de prometer com facilidade e ceder com frequência. Moderado por temperamento, sempre foi claro que, uma vez eleito, ele se inclinaria para o centro. Mas havia algo de estranho na rapidez com que cunhou um slogan declarando que seu governo olharia para o futuro e não para o passado. Reduzido à prática, o slogan queria dizer que Obama preferiria não expor muitos dos atos ilegais da administração Bush. O valor da conciliação vencia o imperativo da verdade. Obama representava “as coisas que nos unem e não as que nos dividem”. Uma desagradável correção de erros passados poderia ser vista como retaliação e o novo presidente não permitiria que um equívoco dessa natureza atrapalhasse seus objetivos ecumênicos.

The message about uniting not dividing was not new. It was spoken in almost the same words by Bill Clinton in 1993; and after his midterm defeat in 1994, Clinton borrowed Republican policies in softened form – school dress codes, the repeal of welfare. The Republican response was unappreciative: they launched a three-year march towards impeachment. Os apelos de Obama pela harmonia, e seus gestos de conciliação, encontraram uma recepção uniformemente negativa. A bem da verdade, os republicanos estão tratando o sucessor de George W. Bush pior do que trataram Bill Clinton. Obama apenas parece mais estável porque a grande imprensa, que detestava Clinton de forma irracional, levantou-se em sua defesa. Mas existem inúmeras fontes de informação alternativas, capitaneadas pela Fox News Radio e Fox TV, as estações de Rupert Murdoch. Dessa fonte brotou um discurso que atingiu 20 milhões de ouvintes, no início do verão americano. A mensagem era coerente, detalhada e subvertia a ordem estabelecida. Visava atacar a legitimidade do presidente e prometia uma insurreição. Convocava-se um vago exército de furiosos e ressentidos a manifestar seu desprezo por Barack Obama e a exibir lealdade a princípios que poderiam estar ameaçados — o direito ao porte de armas, o direito de não pagar por planos de saúde. When representatives from Congress addressed town-hall meetings in the late summer, men in several states came armed with guns in leg holsters. O rancor dessa gente vinha da hostilidade ao projeto do sistema de saúde anunciado pelo presidente — projeto que detestavam sem tê-lo visto e que sequer fora explicado com clareza suficiente para compensar a desconfiança. (Clinton made the mistake of handing the construction of a national health system to his wife and a group of advisers she consulted in private. Obama, to avoid that error, left the framing and elaboration of a bill to five committees of Congress: an experiment in dissociation that rendered him blameless but also clueless beyond the broadest of rhetorical commitments.) But beneath all the accusations was a disturbance no ordinary answer could alleviate. The America these people grew up with was being taken away from them. That formulation occurred again and again on talk radio. Barack Obama passou a ser apresentado por determinados setores como o símbolo perfeito das forças que ludibriavam o povo americano, roubando-o de seus direitos de nascença. “Esse cara”— outra expressão comum — não tinha o direito de impor leis aos americanos.

When the Clinton impeachment was going forward, Obama was a young Chicago politician with other things on his mind. He could have learned something then about how the Republicans work. The most questionable of his appeals in the primary campaign against Hillary Clinton was the endlessly repeated bromide with which he dissociated himself from ‘the partisan bickering of the 1990s’ – a piece of spurious evenhandedness if there ever was one. Bill Clinton, who gained his national stature in the conservative Democratic Leadership Council, had been as much a prudent adjuster and adapter as Obama. The fury of the attack on Clinton, which started a few months into his presidency, was not the bickering of two rival parties exactly comparable in point of incivility. Yet such was Obama’s convenient picture of the recent past.

Atrasos na aprovação do “pacote de estímulo” para revigorar a economia após o colapso financeiro de 2008 e, depois, do projeto do sistema de saúde deveram-se em grande medida à espera de Obama para que os republicanos concedessem a essas medidas uma aura de unanimidade bipartidária. Alguns, de fato, votaram a favor do estímulo econômico. Nenhum encampou a proposta do novo sistema de saúde. Os republicanos se mantêm onde estavam e assistem à estatura política do presidente diminuir. Os motivos de Obama para esperar certamente têm algo a ver com o medo. Ele recebe quatro vezes mais ameaças de morte que George W. Bush. Também se vê contido por um desejo natural dos moderados — o de se manter próximo de todas as instituições ao mesmo tempo: militares, financeiras, legislativas, comerciais. Fosse o mundo ideal, ele poderia inspirar a todos e ofender a ninguém. Mas a ideia de acomodar os inimigos gradualmente para chegar ao consenso parece, em Obama, quase um delírio no sentido mais literal: uma crença estabelecida em algo que não existe. Como ela teria chegado a dominar um homem tão inteligente?

Até agora a carreira de Obama não contava com realizações singulares pelas quais ele fosse o único responsável. Sua experiência parece não ter lhe ensinado a lei da seleção natural da política, em que as maiorias se formam dos que sobraram. Qualquer ato concreto produz pequenas multidões de desiludidos. A política é feita de sentimentos feridos que só o tempo pode curar, se é que cura. Essa é uma verdade que confronta Obama em diversos campos, mas que ele não aceita com facilidade. Sua forma de pensar se aproxima do espírito do Iluminismo, que supõe que um conjunto de procedimentos corretos jamais pode ser descrito e plenamente compreendido sem ser aceito.

The Republican Party of 2009 is a powerful piece of contrary testimony. It has become the party of wars and jails, and its moral physiognomy is captured by the faces of John Boehner and Mitch McConnell, faces hard to match outside Cruikshank’s drawings of Dickens’s villains, hard as nails and mean as dirt and with an issue still up their sleeve when wars wind down and the jails are full: a sworn hostility towards immigrants and ‘aliens’. The anti-immigrant bias – from which George W. Bush and John McCain were free, but which both were powerless to counteract – is an underground stream of the party that makes it a bearer of racist sentiments no longer avowable in public. I have been studying the ante-bellum South, for a course on the career of Abraham Lincoln, and have been struck by the resemblance between the Republicans today and the pre-Civil War Democrats. The model of the Republicans today is John C. Calhoun, the political theorist of the slave South and deviser of the rationale for local nullification of federal policies.

Ele age como se fosse o líder de um partido inexistente, como se paciência e um temperamento cordato pudessem trazer à tona o melhor em todos os homens. Ele parece falar, ao mesmo tempo ou alternadamente, como um organizador e um mediador, um líder nacional e um curandeiro. Há algo de estranho nessa alternância de posturas, do ponto de vista da prudência pragmática. As grandes bandeiras que ele levantou nos primeiros meses — a decisão de fechar Guantánamo, de pressionar pelo estabelecimento de dois Estados como solução para Israel e a Palestina, e de reformar o seguro-saúde com um plano nacional — foram apresentadas com um prefácio grandioso, seguido por meses de silêncio. Deixou que seus agentes, conselheiros ou o partido — se possível, os partidos, tanto o democrata quanto o republicano — cuidassem dos detalhes. Só que, durante a longa espera, são justamente as características mais marcantes de suas intenções que acabam sendo atenuadas. Thus, a new kind of pressure on Israel and a resolve to create a Palestinian state appeared to be signalled by his Cairo speech in early June. It was a thoughtful speech, and a courageous one, even if you took it as a series of propositions uttered at a certain time in a certain place. Simply to address the Muslims of the world without condescension was sure to make him unforgiving enemies on the American right – including the considerable body of Christian Zionists in the Southern and border states – and Obama went to Cairo and delivered his speech knowing that. Yet the four months since have seemed much longer than four months. Israel has sapped and undermined the settlement freeze. Binyamin Netanyahu gambled that he could trespass against objections by Obama’s negotiators, Hillary Clinton and George Mitchell, and the gamble has worked. The American desiderata were never backed by a sanction, and the Netanyahu government approved thousands of new units for the expansion of the Israeli colonies. This the Americans called ‘not helpful’.

O sistema de saúde, por sua vez, foi sendo minado por uma agenda diferente de negligência. Primeiro houve um longo verão de doutrinação conservadora pelo rádio, que tornou a oposição à mudança tão clamorosa que muitos encontros políticos regionais explodiram em tumultos. Foi somente no dia 9 de setembro que Obama falou para uma sessão conjunta do Congresso. Ali, finalmente, fez uma defesa concatenada e impressionante de seu plano. O discurso devolveu seus índices de popularidade para mais de 50% de aprovação e foi maculado apenas pelo grito de um representante da Carolina do Sul: “O senhor está mentindo!” Violar o silêncio daquele salão monumental requer premeditação e violência tão deliberadas quanto as que seriam necessárias para gritar “Inferno!” dentro de uma catedral. Com isso, a discórdia que o discurso de 9 de setembro pretendia minorar voltou a dar as caras diante do próprio discurso. Os Estados Unidos estão cheios de cidadãos que sentem cheiro de tirania em todo e qualquer programa do governo federal. E de cidadãos não fanáticos e de poucas posses, que ficam se perguntando como seus filhos vão pagar a conta das medidas de emergência adotadas pelo governo.

Early suspicion of the bank bail-outs found a ready target of displaced resentment in the later demand for health insurance reform. Healthcare had never seemed a main concern of Obama’s as a candidate, and this looked like one more exorbitance. O novo presidente tinha bancado uma conta imensa, perto de 1 trilhão de dólares, para pagar as corretoras e evitar uma depressão. Ele esperava uma gratidão que não recebeu. Sua escolha tática jamais seria facilmente explicável em um cenário em que tantos banqueiros sobreviveram, enquanto tantas pessoas comuns perderam casas e empregos. As medidas tomadas por Obama não tinham justificativa fácil. Ademais, alertou o presidente: “Vocês também estão perdendo a cobertura do seu seguro-saúde!” But in a country where 85 per cent have coverage of some sort, more have been worrying about their homes and their jobs. Most people’s health insurance payments are taken out of their monthly pay cheques and put into private plans offered by their employers; when an employer cuts your job you lose the insurance too; but it betrayed a planner’s conceit in Obama to imagine that people would worry first, and most acutely, about the loss of their insurance. Many without a history of political resentment, some of whom voted for Obama, are startled that they keep being asked to foot the bill. It was easier to blame ‘big government’ than to say that the bankers and brokers and the whole financial establishment, with Goldman Sachs at its core, did not deserve the bail-outs. Obama’s speech on 9 September arrived too late to work as a counter-charm. Num país em que 85% da população têm algum tipo de cobertura, a preocupação maior, porém, era com suas casas e empregos. Para a maioria desses 85%, os pagamentos pelo seguro-saúde saem de seus contracheques e vão direto para os planos privados oferecidos por seus empregadores; quando um empregador corta o seu emprego, você perde o seguro também. Só que Obama imaginou que as pessoas se preocupariam primeiro e mais agudamente com o seguro. Muitos sem histórico de ressentimento político, alguns dos quais votaram em Obama, ficam surpresos ao serem solicitados a pagar a conta. Era mais fácil culpar o "grande governo" do que dizer que os banqueiros e corretores e todo o establishment financeiro, com o Goldman Sachs no seu núcleo, não mereciam os resgates. O discurso de Obama de 9 de setembro veio tarde demais para funcionar como antídoto.

The pattern of the major announcement, the dilatory follow-up and the tardy self-defence has shown an alarming consistency in his administration. Obama ordenou o fechamento da prisão da baía de Guantánamo como o primeiro ato de sua presidência. Oito meses depois, Guantánamo continua aberta e sem solução, a data de seu fechamento foi adiada e a questão de o que fazer com os prisioneiros se tornou um dos assuntos mais candentes que confrontam a autoridade presidencial. After signing the order in January, he took a long break; and his enemies rallied. Two elements of the syndrome should be distinguished. Primeiro, Obama está tentando fazer muita coisa ao mesmo tempo, nem tudo isso é causado pelos desastres do governo anterior. It is also beginning to appear that Obama has a slower ratio to the passage of time than most politicians. When he was attacked for the Guantánamo order, on the grounds that it placed the security of Americans in jeopardy, he let it be known that the issue was undergoing reappraisal; then, on 21 May, he gave a speech on law and national security at the National Archives: the worst speech of his presidency. He said that his paramount duty was ‘to keep the American people safe’: that word, safe, which was accorded a primacy by George W. Bush it had not been given by any earlier president, Obama himself now ranked ahead of the words justice, right, liberty and constitution. The National Archives speech was, more particularly, a response to the charges made by Dick Cheney over several preceding weeks.

In a speech delivered on the same day, 21 May, the former vice president, who has never really retired, gave a digest of his own published criticisms. The decision to release photos of the victims of torture, and to rule out ‘enhanced interrogation methods’ in the future, could only ‘lead our government further away from its duty to protect the American people’. Cheney intimated that if an attack occurred in the coming years, the fault would be Obama’s for having restored an antiquarian understanding of civil liberties and obedience to international law. Obama’s answer was sober and resolute in appearance, but, in detail, the National Archives speech was a capitulation on most of the points specified by Cheney. Prisoners would now be divided into five categories: those who could be freed because they were innocent; those who could be extradited to foreign countries; those who fell under the jurisdiction of military tribunals; those who could be tried in civilian courts in the US; and then a fifth category – those whom we lacked evidence to convict but who (it had been decided) were too dangerous to set free. These prisoners would be held indefinitely under a new legal dispensation still to be devised.

Preventive detention was a step President Nixon had proposed to Congress in 1970, but he never found the support or the temerity to put the programme into effect. Yet here was a Democratic president and professor of constitutional law doing what Nixon and for that matter Cheney and his assistants had only dreamed of. We have yet to see the final result, but the lesson of the encounter would seem to be: when you announce a great change, steal a march on your opponents by clinching the declaration with the deed. In no decision of his administration has Obama followed the wisdom of that Machiavellian precept. His government is also hampered by its want of a spokesman who can hit hard with words when the president wishes not to be seen to strike. Obama’s confidant David Axelrod, who managed his campaign and is often summoned to speak to the press on his behalf, emits a pleasant porridge of upper-media demotic. Another close adviser, Valerie Jarrett, a Chicago friend, is a technocrat to the bone, genially officious but lacking in any pith and point. These people are no match for Cheney, or for the president’s antagonists in the substitute media who speak under no restraint.

What Cheney and the radio demagogues sowed, the less gifted members of the Republican minority in Congress gratefully reaped. The minority leader of the House of Representatives, John Boehner, said on 17 September on the PBS show NewsHour: ‘We’re in the middle of a modern-day political rebellion in America.’ Interviewer: ‘Rebellion?’ Boehner: ‘Rebellion’. He repeated the word without compunction, and added: ‘I’ve never seen anything like this.’ The tone of our public ‘conversation’ (he chose with malice the soft liberal word) Boehner pronounced to be healthy. He only hoped the crowds ‘would be civil’ or somehow would not become ‘too hateful’. But with Cheney at its head – a rebel against the constitution and a man above the laws since 2002 – the popular movement for nullification of the laws of the federal government has again become a force in American life.

Talk radio in the United States is a law unto itself. With the diffusion of authority that has followed wide adoption of the internet, Fox News Radio and Fox TV may be the only major outlets that still command a sizeable fraction of the audience of the old networks. The intuition of Obama and his advisers must have been that any protest in these byways of discourse was right-wing business as usual. That lazy assumption left them unequipped for the gravity of the challenge. They thought the anger would simmer and die down. It did not occur to them that it might simmer and boil. If a threat is seen to spring from a determined opponent, Obama’s inclination is generally to let it go. He will emerge (he trusts) in the long run as the man who takes long views. By the effects of these postponements, however, he is forever giving new hostages to the truckle of compromise; he is put in the position of backing away while his enemies pick up strength; and in a leader whose nature is conciliatory, this means that the declared scope of every undertaking slowly shrinks and recedes. Guantánamo will be closed but not as soon as we said. Israel must recognise the wrong of further expansion of the settlements, but Israel will not be required to stop soon. Healthcare will be passed on some terms or other, but government will not compete with the big insurers; price reductions will be conceived and executed by private consortiums; illegal immigrants will stay uninsured; and even legal immigrants will be prohibited from buying coverage.

There were plenty of people in December 2008 who nursed a prejudice against Obama but were still in search of reasons to back it. Rush Limbaugh was the radio talker who brought those people to a boil. Limbaugh’s style is a mixture of bluster, clowning and poison, in proportions hard to capture without his voice in your ear – a ‘fat’ voice, someone called it, that shifts in a beat from muttering to imprecation. It is always excited, always breathless, yet the pace is unhurried. Part of the appeal lies in a conscious and amiable egotism. ‘Rush Limbaugh,’ he will introduce himself after an ad, ‘with talent on loan from God.’ ‘El Rushbaugh, serving humanity (simply by being here).’ He tells people to believe him and believe no one else: ‘Shown by scientific study to be right 99.1 per cent of the time.’ He was capable, early, of nicknaming Obama ‘Bamster’ (to rhyme with ‘ham’), a semi-affectionate take-down in the parlance of fraternity boys. He nicknamed the health plan, with automatic sarcasm, ‘ObamaCare’. But the tone grew noticeably more bitter by late July. ‘You don’t know how difficult it is for me to say: the president of the United States is lying through his teeth.’ By 5 August it was ominous to the point of open menace: ‘The president of the United States, who is president of all of us, has decided to take aim at over half of the American people as political opponents.’

He was the scourge of Obama in the summer, a palpable challenge to his claim of legitimacy, as much as Cheney was in the spring. On his show of 27 July, Limbaugh could boast without exaggeration: ‘July is the month of horrors for Obama and the Democrats. And I am largely the reason why.’ In the absence of these accusers, the Republican Party would be adrift. With the impetus of such voices, it now stands a chance of winning the midterm elections in 2010. Limbaugh was placed on the defensive some months ago when he said that he wanted President Obama to fail. This seemed an insult to the office as well as the man. It also seemed to suggest a peculiarly self-separating definition of national loyalty. But he justified himself by remarking that Obama’s success would mean the end of America as we knew it. (The president had to fail for the country to succeed.) A link between Cheney and Limbaugh certainly exists. Limbaugh, unlike the other far right hosts, shuns the interviewing of guests, and yet Cheney, who for his part shuns interviews, was the guest of Limbaugh even when he was vice president. More recently Limbaugh has interviewed him in the role of ex officio party counsellor.

When I started taking notes for this piece at the end of the summer, violence was in the air. Has it passed? A protest march was shepherded to the Washington Mall and a monster rally of 100,000 was held on 12 September, the day after the anniversary of the World Trade Center and Pentagon attacks. One message of the demonstration was a rebuke of Obama’s supposed offence against patriotic memory by his naming of 11 September as National Day of Service and Remembrance. Service – except for military service – is heard on the American right as a codeword or moral wedge for socialism: it is to socialism as doubt is to atheism. Probably they wanted something more like Pearl Harbor Day (though that is no longer commemorated). But when was there ever a rational fit between the size of a grievance flourished by an audience like this and a single cause the crowd can name?

‘They’ve taken on too much, too fast,’ Limbaugh said of Obama’s domestic curriculum, ‘and they’re not doing it right.’ That was in late spring; and it was close to common sense. By late summer the mood on the right was reminiscent of the rage against Kennedy in 1962, which passed through November 1963 unchastened, and attained a temporary climax with the nomination of Barry Goldwater as the Republican presidential candidate in 1964. It surfaced again in the run-up to the Clinton impeachment in 1996-97; but the fury of that time was allowed to take a detour through sex mania. Given the emotions he was up against, Clinton may have got off lightly.

Malthus’s doctrine on population and the necessity of many living in adversity, Hazlitt wrote, was a gospel ‘preached to the poor’. Equality in the United States in the early 21st century has become a gospel preached by the liberal elite to a populace who feel they have no stake in equality. Since the Reagan presidency and the dismemberment of the labour unions, America has not known a popular voice against the privilege of the large corporations. Yet without such a voice from below, all the benevolent programmes that can be theorised, lacking the ground note of genuine indignation, have turned into lumbering ‘designs’ espoused by the enlightened for moral reasons that ordinary people can hardly remember. The gambling ethic has planted itself deep in the America psyche – deeper now than it was in 1849 or 1928. Little has been inherited of the welfare-state doctrine of distributed risk and social insurance. The architects of liberal domestic policy, put in this false position, make easy prey for the generalised slander that says that all non-private plans for anything are hypocritical.

Afghanistan is the largest and the most difficult crisis Obama confronts away from home. And here the trap was fashioned largely by himself. He said, all through the presidential campaign, that Iraq was the wrong war but Afghanistan was the right one. It was ‘a war of necessity’, he said this summer. And he has implied that he would accept his generals’ definition of the proper scale of such a war. Now it appears that Afghanistan is being lost, indeed that it cannot be controlled with fewer than half a million troops on the ground for a decade or more. The generals are for adding troops, as in Vietnam, in increments of tens of thousands. Their current request was leaked to Bob Woodward, who published it in the Washington Post on 21 September, after Obama asked that it be kept from the public for a longer interval while he deliberated. The leak was an act of military politics if not insubordination; its aim was to show the president the cost of resisting the generals.

The political establishment has lined up on their side: the addition of troops is said to be the most telling way Obama can show resoluteness abroad. This verdict of the Wall Street Journal, the Post and (with more circumspection) the New York Times was taken up by John McCain and Condoleezza Rice. If Obama declined at last to oppose Netanyahu on the settlement freeze, he will be far more wary of opposing General Petraeus, the commander of Centcom. Obama is sufficiently humane and sufficiently undeceived to take no pleasure in sending soldiers to their deaths for a futile cause. He will have to convince himself that, in some way still to be defined, the mission is urgent after all. Afghanistan will become a necessary war even if we do not know what marks the necessity. Robert Dole, an elder of the Republican Party, has said he would like to see Petraeus as the Republican candidate in 2012. Better to keep him in the field (this must be at least one of Obama’s thoughts) than to have him to run against.

For Obama to do the courageous thing and withdraw would mean having deployed against him the unlimited wrath of the mainstream media, the oil interest, the Israel lobby, the weapons and security industries, all those who have reasons both avowed and unavowed for the perpetuation of American force projection in the Middle East. If he fails to satisfy the request from General McChrystal – the specialist in ‘black ops’ who now controls American forces in Afghanistan – the war brokers will fall on Obama with as finely co-ordinated a barrage as if they had met and concerted their response. Beside that prospect, the calls of betrayal from the antiwar base that gave Obama his first victories in 2008 must seem a small price to pay. The best imaginable result just now, given the tightness of the trap, may be ostensible co-operation with the generals, accompanied by a set of questions that lays the groundwork for refusal of the next escalation. But in wars there is always a deep beneath the lowest deep, and the ambushes and accidents tend towards savagery much more than conciliation.

Sobre o autor

David Bromwich teaches English at Yale. How Words Make Things Happen is out now.

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