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1 de março de 2025

A necessidade de um projeto universal

Neste trecho de In Defense of History, de Ellen Meiksins Wood, Wood avalia o estado do pensamento pós-moderno no final do século XX. "O pós-modernismo de hoje", escreve Wood, "apesar de todo seu pessimismo aparentemente derrotista, ainda está enraizado na 'Era de Ouro do Capitalismo'. É hora de deixar esse legado para trás e encarar as realidades de hoje."

Ellen Meiksins Wood


Volume 76, Issue 10 (March 2025)

Uma das ironias do pós-modernismo é que, ao abraçar — ou pelo menos se render a — o capitalismo, ele rejeita o “projeto do Iluminismo”, responsabilizando-o por crimes que seriam mais justamente atribuídos ao capitalismo… Claro que seria tolo sustentar que o capitalismo foi responsável por todos os nossos males modernos ou mesmo negar os benefícios materiais que frequentemente o acompanharam. Mas seria igualmente tolo negar os efeitos destrutivos associados aos imperativos capitalistas de autoexpansão, “produtivismo”, maximização do lucro e competição. É difícil ver como esses efeitos pertencem intrinsecamente ao Iluminismo. No mínimo, temos que perguntar se um universalismo emancipatório equivale à mesma coisa que o expansionismo capitalista ou o imperialismo, e se os frutos da ciência e tecnologia “ocidentais” devem, por definição, servir às necessidades da acumulação capitalista e à destruição da natureza que inevitavelmente as acompanha.1

De qualquer forma, estamos vivendo em um momento histórico que mais do que qualquer outro exige um projeto universalista. Este é um momento histórico dominado pelo capitalismo, o sistema mais universal que o mundo já conheceu — tanto no sentido de que é global quanto no sentido de que penetra em todos os aspectos da vida social e do ambiente natural. Ao lidar com o capitalismo, a insistência pós-modernista de que a realidade é fragmentária e, portanto, acessível apenas a "conhecimentos" fragmentários é especialmente perversa e incapacitante. A realidade social do capitalismo é "totalizante" de maneiras e graus sem precedentes. Sua lógica de mercantilização, acumulação, maximização do lucro e competição permeia toda a ordem social; e uma compreensão desse sistema "totalizante" requer exatamente o tipo de "conhecimento totalizante" que o marxismo oferece e os pós-modernistas rejeitam.

A oposição ao sistema capitalista também exige que invoquemos interesses e recursos que unifiquem, em vez de fragmentar, a luta anticapitalista. Em primeira instância, esses são os interesses e recursos de classe, a única força mais universal capaz de unir diversas lutas emancipatórias; mas, em última análise, estamos falando sobre os interesses e recursos de nossa humanidade comum, na convicção de que, apesar de todas as nossas diferenças manifestas, há certas condições fundamentalmente e irredutivelmente comuns de bem-estar humano e autorrealização que o capitalismo não pode satisfazer e o socialismo pode.

Para as pessoas de esquerda, e especialmente para uma geração mais jovem de intelectuais e estudantes, o maior apelo do pós-modernismo é sua aparente abertura, em oposição aos supostos "fechamentos" de um sistema "totalizante" como o marxismo. Mas essa alegação de abertura é em grande parte espúria. O problema não é apenas que o pós-modernismo representa um tipo intelectual de pluralismo que minou seus próprios fundamentos. Nem é simplesmente um ecletismo acrítico, mas inofensivo. Há algo mais sério em jogo. A "abertura" dos conhecimentos fragmentários do pós-modernismo e sua ênfase na "diferença" são compradas ao preço de fechamentos muito mais fundamentais. O pós-modernismo é, em sua forma negativa, um sistema implacavelmente “totalizante”, que exclui uma vasta gama de pensamento crítico e política emancipatória — e seus fechamentos são finais e decisivos. Suas suposições epistemológicas o tornam indisponível à crítica, tão imune à crítica quanto o tipo mais rígido de dogma (como você critica um corpo de ideias que a priori exclui a própria prática do argumento “racional”?). E eles impedem — não apenas por rejeitar dogmaticamente, mas também por tornar impossível — uma compreensão sistemática do nosso momento histórico, uma crítica geral do capitalismo e praticamente qualquer ação eficaz.

Se o pós-modernismo nos diz algo, de forma distorcida, sobre as condições do capitalismo contemporâneo, o verdadeiro truque é descobrir exatamente quais são essas condições e para onde vamos a partir daqui. O truque, em outras palavras, é sugerir explicações históricas para essas condições em vez de apenas se submeter a elas e se entregar a adaptações ideológicas. O truque é identificar os problemas reais para os quais as modas intelectuais atuais oferecem soluções falsas — ou nenhuma — e, ao fazê-lo, desafiar os limites que elas impõem à ação e à resistência. O truque é responder às condições de hoje não como robôs alegres (ou mesmo miseráveis), mas como críticos... 2

O mundo está cada vez mais povoado não por robôs alegres, mas por alguns seres humanos muito raivosos. Do jeito que as coisas estão, há muito poucos recursos intelectuais disponíveis para entender essa raiva, e quase nenhum político (pelo menos na esquerda) para organizá-la. O pós-modernismo de hoje, apesar de todo seu pessimismo aparentemente derrotista, ainda está enraizado na “Era de Ouro do Capitalismo”. 3 É hora de deixar esse legado para trás e encarar as realidades de hoje.

Notas

1. Isso também levanta grandes questões sobre a relação do capitalismo e do Iluminismo, que não há espaço para discutir aqui. Em “Modernity, Postmodernity, or Capitalism?” [Monthly Review, julho-agosto de 1996], tento esboçar algumas distinções entre as condições históricas que deram origem ao Iluminismo e aquelas que deram origem ao processo de desenvolvimento capitalista.

2. Sobre “robôs alegres”, veja C. Wright Mills, The Sociological Imagination (Oxford: Oxford University Press, 1955), 175.—Ed.

3. Em Eric Hobsbawm, The Age of Extremes: The Short Twentieth Century, 1914–1991 (Nova York: Pantheon, 1995), 165–67. A “Era de Ouro” (aproximadamente de 1947 a 1973) está imprensada entre a “Era da Catástrofe” e o “Deslizamento de Terra”. [Esta nota foi movida de outro ponto no texto original de Wood.—Ed.]

Ellen Meiskins Wood (1942-2016) foi coeditora da Monthly Review de 1997 a 2000.

Este artigo foi extraído de Ellen Meiskins Wood, "What is the Postmodern Agenda?," em In Defense of History: Marxism and the Postmodern Agenda, eds. Ellen Meiskins Wood e John Bellamy Foster (Monthly Review Press, 1997), 12-16.

20 de janeiro de 2016

O recuo dos intelectuais

Ellen Meiksins Wood via um grande perigo na relutância dos intelectuais de hoje em criticar o capitalismo.

Ellen Meiksins Wood



A morte de Ellen Wood em 14 de janeiro representa uma imensa perda para os socialistas em todos os cantos. Como contribuinte frequente do Socialist Register desde seu primeiro ensaio em 1980, coeditora especial do volume de 1995 Porquê Não Capitalismo, e membro do coletivo editorial do Register de 1996 a 2009, a profundidade de seu comprometimento com o socialismo, originalidade teórica e percepção acurada podem ser medidas desse excerto de seu ensaio sobre "Os usos e abusos da 'sociedade civil'".

- Leo Panitch

Tradução / Vivemos em tempos curiosos. Justamente quando intelectuais da esquerda no ocidente têm a rara oportunidade de fazer algo útil, se não realmente histórico, eles - ou grandes porções deles - estão em pleno recuo. Justamente quando reformadores na União Soviética e no Leste Europeu buscam no capitalismo ocidental paradigmas de sucessos econômicos e políticos, muitos de nós parecer abdicar do papel tradicional da esquerda ocidental como crítica do capitalismo. Justamente quando mais do que nunca precisamos de um Karl Marx que revele o funcionamento interno do sistema capitalista, ou de um Friedrich Engels que exponha a feia realidade "no chão", o que temos é um exército de "pós-marxistas" cuja principal função é, aparentemente, afastar conceitualmente o problema do capitalismo.

A despeito da diversidade corrente de tendências teóricas na esquerda e seus variados meios de dissolver conceitualmente o capitalismo, elas frequentemente compartilham um conceito especialmente útil: "sociedade civil". Embora sejam construtivos seus usos em defesa das liberdades humanas contra a opressão estatal, ou em decifrar um terreno de práticas sociais, instituições e relações negligenciado pela "velha" esquerda marxista, "sociedade civil" está agora perigando se tornar um álibi para o capitalismo.

A concepção de Gramsci de "sociedade civil" pretendia ser, sem ambiguidade, uma arma contra o capitalismo, não uma acomodação a ele. A despeito do apelo à sua autoridade, que se tornou uma necessidade básica para o "novo revisionismo", o conceito em sua utilização corrente não mais tem esse inequívoco intento anticapitalista. Ele adquiriu agora todo um novo rol de significados e consequências, algumas muito positivas para os projetos emancipatórios da esquerda, outras bastante distante disso.

Os dois impulsos contrários podem ser resumidos deste modo: o novo conceito de sociedade civil sinaliza que a esquerda aprendeu as lições do liberalismo sobre o perigo da opressão estatal, mas nós parecemos estar esquecendo as lições que outrora aprendemos da tradição socialista acerca da opressão da sociedade civil. Por um lado, os defensores da sociedade civil estão fortalecendo nossa defesa de instituições não-estatais e relações contrárias ao poder do estado; por outro lado, eles tendem a enfraquecer nossa resistência às coerções do capitalismo.

A "sociedade civil" deu à propriedade privada e seus possuidores um comando sobre as pessoas e suas vidas cotidianas, um poder sem a quem responsabilizar, que muitos dos velhos estados tirânicos teriam invejado. Aquelas atividades e experiências que não são abrangidas pela estrutura de comando imediato da iniciativa capitalista, ou pelo poder político do capital, são reguladas pelos ditames do mercado, a necessidade de competição e lucratividade.

Mesmo quando o mercado não é, como comumente ocorre nas sociedades capitalistas avançadas, meramente um instrumento de poder para conglomerados gigantes e corporações multinacionais, ele ainda é uma força coercitiva, capaz de sujeitar todos os valores, atividades e relações humanas a seus imperativos. Nenhum déspota antigo poderia ter esperado penetrar as vidas pessoais de seus súditos – suas escolhas, preferências e relacionamentos - nos mais abrangentes e menores detalhes, não apenas no local de trabalho mas em cada canto de suas vidas.

Coerção, em outras palavras, tem sido não apenas uma desordem da "sociedade civi", mas um de seus princípios constitutivos. A realidade histórica tende a minar as distinções simples requeridas pelas teorias correntes que nos pedem para tratar a sociedade civil como, ao menos em princípio, a esfera da liberdade e da ação voluntária, a antítese do princípio coercitivo irredutível que pertence intrinsecamente ao estado.

Essas teorias, é claro, reconhecem que a sociedade civil não é um reino da perfeita liberdade e democracia. Ela é, por exemplo, marcada pela opressão na família, nas relações de gênero, no local de trabalho, por atitudes racistas, homofobia, e assim por diante. Mas essas opressões são tratadas como disfunções na sociedade civil. Em princípio, a coerção pertence ao estado enquanto a sociedade civil é onde a liberdade está enraizada, e a emancipação humana, de acordo com esses argumentos, consiste na autonomia da sociedade civil, sua expansão e enriquecimento, sua liberação do estado e sua proteção pela democracia formal.

O que tende a desaparecer de vista, novamente, são as relações de exploração e dominação que irredutivelmente constituem a sociedade civil, não apenas como alguma desordem estranha e corrigível, mas como a própria essência, a estrutura particular de dominação e coerção que é específica ao capitalismo como uma totalidade sistemática.

O que é alarmante nesses desenvolvimentos teóricos não é que eles violam algum preconceito doutrinário marxista no que diz respeito ao status privilegiado da classe. É óbvio, todo o objeto de tal exercício é pôr de escanteio a classe, dissolvê-la em categorias genéricas que lhe neguem qualquer status privilegiado, ou mesmo qualquer relevância política em absoluto. Mas esse não é o problema real.

O problema é que teorias que não diferenciam - e, sim, "privilegiam", se isso significa atribuir prioridades causais ou explicativas - entre variadas instituições sociais e "identidades" não podem lidar criticamente com o capitalismo em absoluto. A consequência de tais procedimentos é varrer a questão como um todo para baixo do tapete.

E para onde quer que vá o capitalismo, para lá vai a ideia socialista. O socialista é a alternativa específica ao capitalismo. Sem capitalismo, não temos qualquer necessidade do socialismo; podemos nos contentar com conceitos bem difusos e indeterminados de democracia que não se oponham especificamente a qualquer sistema identificável de relações sociais, em verdade, nós nem reconhecemos qualquer sistema assim. O que nos resta então é uma pluralidade fragmentada de opressões e uma pluralidade fragmentada de lutas emancipatórias.

Aqui está outra ironia: o que clama ser um projeto mais universalista do que o socialismo tradicional é na verdade muito menos. Ao invés do projeto universalista do socialista e a política integrativa da luta contra a exploração de classe, nós temos uma pluralidade de lutas particulares essencialmente desconectadas.

Isso é coisa séria. O capitalismo é constituído pela exploração de classe, mas o capitalismo é mais do que apenas um sistema de opressão de classe. É um implacável processo totalizante que molda nossas vidas em cada aspecto concebível, e todos lugares, não apenas na relativa opulência do norte capitalista.

Entre outras coisas, e mesmo pondo de lado o puro poder do capital, ele sujeita toda a vida social aos requisitos abstratos do mercado, através da mercantilização da vida em todos seus aspectos. Isso ridiculariza nossas aspirações a autonomia, liberdade de escolha e autogoverno democrático. Para socialistas, é moral e politicamente inaceitável seguir uma linha de raciocínio que torna invisível tal sistema, ou o reduz a uma de muitas realidades fragmentadas, justamente em um momento em que o sistema é mais difundido, mais global do que nunca.

Essa substituição do socialismo por um conceito indeterminado de democracia, ou a dissolução de relações sociais diversas e diferentes no interior de categorias genéricas como "identidade" ou "diferença", ou concepções frouxas da "sociedade civil", representa uma rendição ao capitalismo e suas mistificações ideológicas.

Certamente tenhamos diversidade, diferença e pluralismo; mas não esse tipo de pluralismo indiferenciado e desestruturado. O que precisamos é de um pluralismo que de fato reconheça diversidade e diferença - e isso significa não apenas pluralidade ou multiplicidade.

Isso significa um pluralismo que também reconheça realidades históricas, que não negue a unidade sistêmica do capitalismo, que possa nos dizer a diferença entre relações constitutivas do capitalismo e outras desigualdades e opressões com diferentes relações com o capitalismo, um diferente lugar na lógica sistêmica do capitalismo e, por conseguinte, um diferente papel nas lutas contra ele.

O projeto socialista deveria ser enriquecido pelos recursos e visões dos novos movimentos sociais, não empobrecido recorrendo-se a eles como uma desculpa para desintegrar as lutas contra o capitalismo. Nós não devemos confundir o respeito pela pluralidade das experiências humanas e lutas sociais com uma completa dissolução da causalidade histórica, onde não há nada senão diversidade, diferença e contingência, sem estruturas unificadoras, sem processo lógico, sem capitalismo e, portanto, nenhuma negação a ele, nenhum projeto universal de emancipação humana.

Colaborador

Ellen Meiksins Wood é autora de A Origem do Capitalismo, entre muitos outros títulos.

12 de maio de 2014

Os coveiros do capitalismo

As formas de definir o capitalismo e de pensar sobre seu desenvolvimento influenciam as formas que as lutas assumem para superá-lo.

Ellen Meiksins Wood

Jacobin

Fonte: Popular Science Monthly, 1902.

Tradução / O “capitalismo” foi visto como uma palavra proibida nos últimos tempos, ao menos na política e na mídia dominante, que trataram ela como um termo pejorativo de esquerda. O que nós vimos em seu lugar foram termos como “empresa privada”, “livre-mercado” e similares. A palavra está novamente retomando seu lugar na linguagem cotidiana, mas seu significado tende a ser um pouco vago.

Diante da pressão por uma definição de capitalismo, a maioria das pessoas fará uma referência a mercados, trocas e comércio. Qualquer sociedade com uma atividade comercial bem desenvolvida, particularmente (mas não exclusivamente?) onde o comércio e a indústria fossem propriedade privada, seria vista como capitalista.

Algumas pessoas insistem em definir o termo mais precisamente. Eu sou uma delas – e nós fomos criticados por muito tempo por oferecermos uma definição tão precisa (discutirei mais sobre isso depois). Mas me parece que há vantagens em começar definindo claramente o que realmente distingue o sistema capitalista de qualquer outra forma social – ao menos se nós quisermos entender porque ele opera de um jeito, independentemente de estar em (relativamente) tranquilidade ou agitação.

Definindo capitalismo

Então, o que quero dizer com capitalismo? Capitalismo é um sistema em que todos os principais atores econômicos dependem do mercado para suas necessidades básicas. Outras sociedades tiveram mercados, frequentemente numa grande escala; mas somente no capitalismo é que a dependência do mercado tornou-se a condição fundamental para a vida de todos. E isso é igualmente verdade tanto para capitalistas como para trabalhadores.

A relação entre capital e trabalho é ela mesma mediada pelo mercado. Trabalhadores assalariados têm de vender sua força de trabalho para um capitalista simplesmente para conseguir ter acesso a meios de subsistência e até mesmo os meios para exercerem seu trabalho; e o capitalista depende do mercado para acessar o trabalho e conseguir, com isso, os lucros advindos do produto dos trabalhadores. É claro que há um enorme desequilíbrio de força das classes entre capital e trabalho, mas capitalistas não são menos dependentes do mercado para se sustentarem a si mesmos e o seu capital.

Em sociedades não-capitalistas os produtores diretos, tais como os camponeses, tradicionalmente possuíam seus meios de subsistência e produção (a terra, as ferramentas, etc.), então eles não eram dependentes do mercado. A classe dominante tinha, então, de empregar poderes superiores para conseguir se apropriar do excedente dos outros, através daquilo que Marx chamou de meios “extra-econômicos” – ou seja, força coercitiva de algum tipo: jurídica, política ou militar – como, por exemplo, quando um senhor feudal extraía trabalho ou renda dos camponeses.

Por contraste, os lucros capitalistas não são extraídos diretamente dos trabalhadores.

Capitalistas pagam seus trabalhadores inicialmente e devem conseguir seus ganhos ao venderem aquilo que o trabalhador produz. O lucro depende da diferença daquilo que os capitalistas pagam aos trabalhadores e aquilo que eles conseguem com a venda dos produtos e serviços feitos pelos trabalhadores. O fato de que os capitalistas só podem ter lucro se eles tiverem sucesso na venda das mercadorias e serviços no mercado, e de que precisam vende-los por mais do que o custo de produção deles, significa que a realização de seu lucro é incerta.

Capitalistas também devem ter sucesso ao competir com outros capitalistas no mesmo mercado para poderem assegurar seu lucro. A competição é, de fato, a força motora do capitalismo – mesmo que os capitalistas façam o impossível para evitá-la, como por exemplo, através de monopólios.

Mas a média social da produtividade é que, em qualquer mercado concebido, determina o sucesso da competição de preços e isso está além do controle de capitalistas individuais. Eles não podem comandar os preços pelos quais seus produtos serão vendidos com sucesso e não conseguem sequer antever quais as condições necessárias para garantir suas vendas, o que dirá ter uma margem de lucro.

A única coisa que os capitalistas podem controlar de forma significativa são os seus custos. Sendo assim, já que os lucros dependem de uma razão favorável entre preço/custo, eles farão tudo possível para cortar gastos visando assegurar seu lucro. Isso significa, acima de tudo, cortar os custos oriundos do trabalho; e isso exige constantes melhorias na produtividade, encontrar meios técnicos e organizacionais para extrair o máximo de excedente possível dos trabalhadores dentro de um período fixo de tempo, com o custo mais baixo possível.

Para manter esse processo em andamento, são necessários investimentos regulares, o reinvestimento desses excedentes e a constante acumulação de capital. Isso é imposto aos capitalistas regularmente, mas também independentemente de suas necessidades pessoais e desejos, sem importar se eles são altruístas ou gananciosos. Mesmo o mais modesto e socialmente responsável capitalista é sujeito a essas pressões e, portanto, compelido a acumular maximizando seus lucros, e isso tudo somente para permanecer nos negócios. A necessidade do capitalismo em adotar estratégias de “maximização” é uma característica fundamental desse sistema.

Assim, todo o sistema capitalista é operado por imperativos de mercado, pelas compulsões da competição, pela maximização do lucro, pela acumulação de capital e por um incansável imperativo de aumentar a produtividade do trabalho ao mesmo tempo em que reduz os custos para com isso reduzir seus preços.

O que o capitalismo não é

O que nos leva ao que o capitalismo não é. Eu fico falando sobre imperativos do mercado capitalista e o que estou sugerindo aqui é que há uma diferença essencial entre imperativos e oportunidades.

Redes comerciais altamente desenvolvidas emergiram durante a história humana, em vários continentes; e, apenas para mencionar alguns dos principais exemplos europeus, houve sociedades tais como as repúblicas de Florença e Holanda, onde os interesses comerciais foram dominantes política e economicamente. A França também possuía uma rede comercial avançada e longínqua. Mas mesmo tais sociedades comercialmente desenvolvidas não eram sujeitas aos princípios especificamente capitalistas de constante acumulação enfrentando constante competição – a incansável pressão para aumentar a produtividade do trabalho enquanto reduz seus custos.

As elites em tais sociedades tradicionalmente acreditavam que sua acumulação de riqueza vinha do poder “extra-econômico” superior nas esferas legal, política, ou militar coercitiva. A burocracia, por exemplo, era uma grande fonte de renda. Mesmo o sucesso comercial dependia enormemente da superioridade na negociação perante mercados separados (distinta, por exemplo, da competição num mercado integrado) – e através de meios tais como a dominação no frete e no comando de rotas comerciais, assim como em monopólios e privilégios comerciais concedidos por governos, sem contar a própria força militar direta que algumas companhias privadas possuíam.

Essas sociedades comerciais podiam se lançar numa empreitada de produção substancial e podiam até mesmo atingir significativas inovações tecnológicas, mas isso tinha menos a ver com a melhoria diante da competitividade e mais com um aumento nas exportações para ganhar vantagem num mercado em crescimento. O declínio das oportunidades de mercado era combinado com uma retração do investimento na produção – ao contrário do capitalismo, onde o declínio das oportunidades de mercado pode acabar intensificando, ao invés de enfraquecer, a necessidade de responder aos imperativos do mercado.

Assim sendo, quando as economias da Europa ocidental mergulharam numa crise em 1660, as ricas elites da República Holandesa “desinvestiram” dinheiro da terra e até mesmo da produção industrial. Em meados do século XVIII, os rentistas não-produtivos eram os que detinham a maior riqueza.

Isso é um forte contraste com o que estava acontecendo na Inglaterra na mesma época. Nos seus primeiros anos, a Inglaterra estava, em alguns aspectos, atrás de seus vizinhos europeus no que toca a questão do desenvolvimento comercial. Mas a economia inglesa – especialmente o setor agrícola – foi o primeiro da história cuja produção era diretamente orientada pelos imperativos da competição, maximização de lucros e acumulação de capital.

Uma classe substantiva de produtores agrícolas ingleses, a maioria deles proprietários de terras, tinham emergido das ruínas do campesinato, que por sua vez, tinha visto suas terras sendo expropriadas. Separados de seus meios de subsistência, esses capitalistas agrários eram dependentes do mercado e, qualquer que fossem suas necessidades de consumo, elas deveriam ser adequadas a esses imperativos.

Eles podem não ter conseguido atingir uma margem de lucro nos moldes de uma economia capitalista moderna, mas a produção visando o lucro além de sua própria subsistência era uma condição para o seu contínuo acesso à terra e também uma pressuposição da produção para sua própria subsistência.

Esses produtores estavam sujeitos às pressões da razão preço/custo de uma forma completamente nova, sendo que a crise trans-europeia e o declínio dos preços agrícolas que trouxe a intensificação da competição, acabaram gerando na Inglaterra, em contraste com os Países Baixos e o resto da Europa, um aumento nos investimentos produtivos em novas tecnologias para aumentar a produtividade do trabalho e sua relação entre custo e eficiência.

O resultado, descrito às vezes como uma revolução agrária na Inglaterra do século XVIII, foi uma constante redução de custos levando ao aumento real dos salários, o crescimento do mercado doméstico, a superação dos limites populacionais malthusianos – a primeira grande ruptura em direção ao “crescimento sustentável”.

Esse contraste histórico acentua a diferença essencial entre sociedades não-capitalistas comerciais e uma economia guiada pelo imperativo de mercado de aumentar sua competitividade ao aumentar a produtividade do trabalho. Para colocar de outra forma – no jargão da economia contemporânea – pode-se dizer que nessas sociedades comerciais e não-capitalistas, as finanças, junto com o comércio e o arrendamento, eram a “verdadeira economia”, em contraste com o das sociedades capitalistas onde o setor financeiro geralmente é distinguido e subordinado a “real” produção de bens e serviços.

Os mercadores e comerciantes tradicionalmente dependiam de comprar barato em um mercado para vender caro no outro, ou de arbitragem e negociação em mercados separados. Se eles retirassem investimentos da produção, a atividade comercial seguiria contínua em sua própria forma tradicional. Ao mesmo tempo, produtores como os camponeses, que possuíam seus meios de subsistência e, portanto, estavam bastante protegidos de constrições competitivas, nunca realmente precisaram satisfazer os imperativos do mercado e podiam ficar apenas produzindo para sua subsistência.

Isso contrasta fortemente com as sociedades capitalistas desenvolvidos, em que, para o capital e o trabalho, tanto a continuidade da produção e igualmente a sua própria sobrevivência dependem da obediência aos imperativos do mercado na base da ordem social.

Os interesses financeiros realmente podem se separar da esfera da produção, ou da “economia real”; mas então precisa-se explicar como e por que, num sistema capitalista, a especulação financeira poderia e iria desligar-se da economia real de uma maneira que só pode acabar mal (como tem acontecido com a crise atual) – uma explicação que exige uma concepção específica do que o capitalismo é (e do que ele não é).

O vazio da revolução burguesa

Concepções vagas de capitalismo não podem explicar o que é específico do sistema capitalista em relação a outras formas sociais e isso se dá porque eles se desviam de uma outra questão: de onde ele veio inicialmente. Se o capitalismo sempre existiu – ou algo do tipo – ou se não há nenhum processo identificável de mudança histórica de sociedades não-capitalistas para sociedades capitalistas, então não há muito a dizer sobre sua especificidade.

Do século XVIII em diante, explicações padronizadas sobre a origem do capitalismo passaram a tomá-lo como um fenômeno que existiu de forma embrionária desde os primórdios, ou seja, desde que existiam mercados e trocas. Com suficiente comércio e oportunidades para fazer dinheiro, vendedores iriam cedo ou tarde começar a agir parecidos com capitalistas: especializando-se, acumulando e inovando.

Se alguma coisa precisasse de explicação, segundo essa visão, era o fracasso em remover obstáculos – os impedimentos políticos e culturais – que por muito tempo limitaram a atividade comercial de atingir sua massa crítica e espontaneamente gerarem um capitalismo apropriado. Nós podemos chamar isso de “modelo de comercialização” da história do capitalismo, sendo que tal modelo data ao menos do próprio Adam Smith, em seu A Riqueza das Nações.

Então, essa versão da história do capitalismo é uma conversa velha. Mas essa concepção vaga de capitalismo que existe em seu próprio seio se tornou particularmente essencial numa recente escola de pensamento marxista que tem acusado pessoas como eu (que eles gostam de chamar de “marxistas políticos”) de ter uma “concepção excentricamente estreita de capitalismo”. (Alex Callinicos and Camilla Royle, “Pick of the Quarter,” International Socialism 142, April 2, 2014).

Sua própria conceptualização é em grande parte consistente com o modelo de comercialização, com particular ênfase no avanço tecnológico como uma força motora. Mas no cerne de suas ideias está o conceito de “revolução burguesa”. De fato, o ponto principal da sua imprecisão acerca da definição e da história do capitalismo é o resgate do conceito de revolução burguesa. (Ver principalmente Neil Davidson, How Revolutionary Were the Bourgeois Revolutions? Haymarket, 2012; “Is There Anything to Defend in Political Marxism?” International Socialist Review 91, August 14, 2014.)

Como o próprio modelo de comercialização, a revolução burguesa é uma conversa velha e que não foi inventada por marxistas. Mas a narrativa histórica padrão sobre o capitalismo teve uma significativa virada quando passou a ser associada com a ideia de uma “revolução burguesa” que teria sido decisiva ao remover obstáculos para o avanço da sociedade comercial.

Foram os historiadores franceses, principalmente François Guizot, que começaram a pensar numa história ocidental – ou até mesmo global – moderna enquanto uma marcha rumo ao progresso, de uma burguesia em luta de classes perante as forças reacionárias, passando assim a interpretar eventos históricos (sejam eles levantes sociais, guerras civis, ou até mesmo o processo de industrialização) a partir de um imaginário de revolução derivado da própria experiência revolucionária recente de sua nação.

Historiadores tais como Guizot conferiram à Guerra Civil Inglesa seu status de revolução burguesa (e a posterior industrialização britânica como uma revolução industrial). O efeito dessa mescla entre história francesa e história inglesa conflagraria a ascensão do capitalismo com o progresso da burguesia.

É difícil registrar as confusões geradas por essa miscelânea histórica, que é responsável inclusive pela identificação de “burguesia” com “capitalismo”. No seu sentido original derivado do francês, a bourgeoisie se referia aos moradores da cidade e, em certo ponto, passou a designar os mais prósperos elementos do Terceiro Estado. Mas o capitalismo, em si, tinha pouco a ver com isso.

Pode ser razoável descrever a Revolução Francesa como burguesa – ou seja, como um conflito entre a burguesia e a aristocracia – pelo menos enquanto burguês não seja compreendido como capitalista e que se entenda que ela não era sobre capitalismo. A tradicional burguesia revolucionária não era capitalista, ou mesmo pré-capitalista mercantil, mas sim burocratas ou profissionais liberais. A oposição da burguesia à aristocracia não pretendia promover o capitalismo, mas sim desafiar o privilégio aristocrático e o acesso privilegiado que eles tinham à burocracia estatal.

A Revolução Inglesa, por outro lado, podia ser razoavelmente descrita como capitalista, porque ela estava embasada na propriedade capitalista e foi até mesmo liderada por uma classe que era essencialmente capitalista. Mas não era particularmente burguesa. Não porque não houvesse luta de classes entre burgueses e aristocratas, mas porque a classe capitalista dominante era, de fato, a aristocracia latifundiária.

A combinação desses casos históricos tornou a “revolução burguesa” um tema central na história do capitalismo. Assim que isso teve início, ela começou a ter um papel central sobre as perguntas e as respostas, ou mais precisamente das não-respostas, acerca das origens do capitalismo. E quando se decidiu que a burguesia era inerente e, por definição capitalista, poderia se dizer que o capitalismo existiria a partir dali; e tudo que era exigido em termos de explicação era não sobre a origem do capitalismo, mas sobre o triunfo da burguesia e, por consequência, sobre a remoção dos obstáculos para a vitória do capitalismo em conflito contra as forças reacionárias.

Essa tendência seria particularmente visível em várias tradições marxistas. É verdade que o próprio Marx foi influenciado por Guizot e pela narrativa do progresso da burguesia; mas na sua madura análise sobre o capitalismo ele se afastaria das ideias de desenvolvimento histórico e luta de classes inspirada por Guizot. (Mesmo em seus primeiros trabalhos, notavelmente no Manifesto Comunista, já havia significativos afastamentos em relação a influência do pensador francês.)

Ainda assim, a ideia de revolução burguesa enquanto um estágio historicamente necessário oriundo da luta de classes entre burguesia e classes agrárias atrasadas, iria se solidificar em uma ortodoxia simplista quando fosse mobilizado para apoiar a doutrina stalinista de “socialismo em um só país” contra a “revolução permanente” de Trotsky.

Sendo assim, a noção de revolução burguesa como um evento histórico conduzido por um conflito de classes onde haveria de um lado uma classe capitalista emergente de mercadores e industrialistas e de outro uma aristocracia feudal retrógrada, se tornou difícil de sustentar-se diante da impressionante evidência histórica de que não ocorreu nenhuma luta direta de classes entre aristocracia fundiária e classes capitalistas em parte alguma, nem mesmo na França. Logo, a revolução burguesa e suas variações mais grosseiras foram bastante abandonadas já a algum tempo.

Os “marxistas políticos”

Apesar de tudo, a base da ideia foi mantida viva, num formato negativo, pelos críticos do marxismo. Ela serviu como alvo principal para vários historiadores “revisionistas” que procuravam desafiar as “interpretações sociais” das revoluções Francesa e Inglesa ao demonstrar que em nenhum desses casos havia algo parecido com uma luta de classes revolucionária entre uma burguesia capitalista em ascensão contra uma aristocracia feudal em declínio. Mas enquanto os “revisionistas” estavam mirando num tipo de interpretação social que, em verdade, poucos historiadores sérios estavam defendendo, os marxistas seguiram em frente.

Alguns concluíram que o conceito de revolução burguesa obscurecia mais do que revelava – especialmente aqueles rotulados de “marxistas políticos” – e começaram a oferecer novas interpretações sociais das revoluções Francesa e Inglesa (ver, particularmente, o trabalho de George Comninel, Rethinking the French Revolution, Verso, 1987; e, sobre a Inglesa, Robert Brenner, pós-fácil ao Merchants and Revolution, Verso 2003).

Eles ainda enfatizaram as relações sociais de propriedade e as classes, sublinhando as restrições específicas e os requerimentos impostos pelas relações sociais específicas com suas próprias e distintas “regras de reprodução”. Mas essas novas interpretações sociais não mais dependiam das antigas narrativas sobre lutas de classes entre aspirantes capitalistas contra proprietários rurais atrasados.

Outros ainda ficaram relutantes em abandonar a ideia de uma revolução burguesa. Mas para conseguir sustentá-la, eles tiveram de abandonar em definitivo a ideia tradicional de uma classe burguesa em ascensão contra uma classe feudal atrasada e substituíram-na por uma noção muito mais vaga.

Partindo de uma convencional identificação da burguesia com o capitalismo (sempre problemática), um grupo de historiadores marxistas, liderados principalmente por Neil Davidson, levaram adiante a ideia de que o que faz uma revolução burguesa, independentemente de suas causas e agencias, é o fato de que ela tem como efeito contribuir para o avanço do capitalismo. Em outras palavras, é nos resultados ou consequências que identificamos as revoluções como burguesas, e não nos seus agentes particulares.

Essa versão “consequencialista” da revolução burguesa aplica o conceito para qualquer tipo de transformação que, de alguma forma, possa ser vista como capaz de promover o desenvolvimento do capitalismo ou simplesmente limpar os obstáculos para o seu avanço, independente das composições de classe ou das intenções dos agentes revolucionários. De fato, a agência pode até mesmo desaparecer diante dos avanços capitalistas da revolução burguesa, substituídos por algum mecanismo transhistórico do progresso “burguês”, tais como o inevitável avanço das forças tecnológicas.

Esses marxistas consequencialistas podiam tentar levar em conta, pelo menos até certo ponto, as evidências históricas que desafiam suas velhas ortodoxias; e seria perfeitamente razoável se tudo que eles estivessem dizendo fosse que o capitalismo inicialmente surgiu não como um projeto deliberado por uma classe, mas sim como uma consequência (o que, diga-se de passagem, é algo que o marxismo político defende na verdade). E até poderia ser compreensível – com ressalvas – se eles simplesmente aceitassem a (problemática) identificação de “burguês” e “capitalista” e redefinissem a “revolução burguesa” como qualquer processo revolucionário em que, a despeito de agências ou intenções, avançasse no desenvolvimento do capitalismo.

Mas, da forma como está, o argumento deles cai em obstáculos intransponíveis. Isso é porque eles se sentem compelidos, basicamente por razões ideológicas, a dar ao conceito de revolução burguesa uma insustentável universalidade, que no final das contas acaba tirando todo seu significado.

A revolução burguesa tem de incluir não apenas os levantes revolucionários, mas também processos históricos muito longos e graduais. Se espera também que ele, de forma bastante explícita, cubra uma curiosa e diversificada gama de terreno histórico. A revolução burguesa se torna cada vez mais improvavelmente flexível quando forçada a dar conta de uma enorme variedade de padrões históricos em diversos continentes.

Mas o que realmente produz uma contradição insolúvel no conceito que os consequencialistas têm das revoluções burguesas é que ele inclui não apenas os casos em que o capitalismo realmente avançou – por exemplo, no triunfo da aristocracia latifundiária da Inglaterra –, mas também nos casos onde o desenvolvimento capitalista foi de fato impedido pela revolução. Isso fica mais evidente na visão dos analistas consequencialistas diante do caso clássico de revolução burguesa, a dizer, a Revolução Francesa – que teve o efeito de limitar o desenvolvimento capitalista tanto ao proteger a propriedade camponesa como para abrir caminhos para um acesso facilitado da burocracia burguesa nos cargos do Estado.

Um conceito de revolução burguesa que consiga incluir tanto os casos onde o capitalismo avançou como aqueles em que ele foi obstruído, parece bastante sem sentido. Mas mesmo colocando de lado o fato de que o conceito consequencialista de revolução burguesa não tem nenhuma conexão óbvia com o avanço do capitalismo, ele simplesmente não consegue explicar a origem das relações de propriedade capitalistas, mesmo dizendo que a tal revolução teria ocorrido antes, e portanto como uma condição, do amadurecimento do capitalismo.

Isso é porque, pela própria definição dos consequencialistas, tudo que a revolução burguesa consegue explicar é a remoção de obstáculos para o desenvolvimento de um capitalismo que já existe, um capitalismo cuja existência é definida a priori. A questão fundamental de como ele veio a existir simplesmente não consegue ser colocada.

No seu mais recente desenvolvimento, o argumento consequencialista enfatiza a importância das revoluções dos de cima, ou das transformações dentro do Estado, que por sua vez procuravam maximizar o lucro capitalista. Essas transformações do Estado podem variar enormemente em sua natureza, temporalidade e causalidades; e as revoluções burguesas podem produzir uma grande variedade de formas de Estado, como nos casos da França, ou a Inglaterra, ou o Japão. E ainda assim, quaisquer que sejam as naturezas e as temporalidades necessárias para as transformações relevantes do Estado, o consequencialismo não consegue explicar a origem precisa das relações de propriedade capitalistas que as transformações do Estado supostamente ajudam a avançar.

O valor explicativo do conceito de “revolução burguesa” fica ainda mais comprometido se nós reconhecermos que todos os casos posteriores de desenvolvimento capitalista pressupunham imperativos comerciais e militares gerados por um capitalismo que já existia em outras partes do mundo. O principal exemplo aqui eram as vantagens no comércio e na guerra que favoreciam uma Grã-Bretanha capitalista, o que afetou o desenvolvimento de outros poderes europeus e sua expansão imperialista, especialmente por encorajar políticas estatais feitas para rivalizar com os ingleses – como pode se ver no caso da França.

Esse consequencialismo é ambíguo tanto em suas causas como em suas consequências. Nesse ponto, é possível afirmar que o conceito de revolução burguesa dificilmente se refere a algo específico. A ideia de uma revolução burguesa definhou em sua existência. Ela se aplica a tudo, o que significa dizer que ela não explica nada.

A loucura da inevitabilidade

Com certeza há bastante coisas a serem explicadas acerca dos tumultuados eventos que acompanharam a expansão global do capitalismo; mas é difícil ver no que o termo “revolução burguesa” pode contribuir para essa explicação. Aqueles que ainda se apegam a essa ideia fazem não porque ela ilumina nossa compreensão da História, mas sim por causa do seu significado simbólico e político.

Não é nem tanto por que as revoluções burguesas servem de modelo para outras transformações revolucionárias, principalmente no que se refere à transição para o socialismo. O ponto aqui é que esse conceito carregou, desde os seus primórdios, a ideia de um progresso inevitável. Em sua forma Iluminista, isso significava a marcha inexorável da razão, incluindo aí os avanços tecnológicos. Em sua forma socialista, o progresso da burguesia foi transformado na inevitabilidade do socialismo, levado adiante pelo inexorável desenvolvimento das forças produtivas conforme elas entravam em conflito com as relações sociais existentes.

O projeto socialista é, evidentemente, um sonho vazio ao menos que o socialismo seja o destino inevitável de um processo conduzido pela dinâmica e irresistível expansão das forças produtivas – com a revolução burguesa sendo parte, de alguma forma, desse processo, independente de quão diferentes formas ela possa ocorrer. Mas mesmo sem tais motivações ideológicas, os consequencialistas precisam de uma concepção de inevitabilidade histórica para pelo menos sustentar as suas intrigantes (não-)explicações sobre a origem do capitalismo.

Esse consequencialismo também trata as próprias “leis motoras” específicas do capitalismo – seus imperativos específicos para melhorar as forças de produção e varrer os obstáculos para esse desenvolvimento – como leis universais da História. Ou, para colocar numa forma mais precisa, esses consequencialistas adotam o tipo mais simplista de determinismo tecnológico para evadir as especificidades do capitalismo.

Seria importante afirmar uma obviedade (os “marxistas políticos” como eu costumam fazer isso), ou seja, de que houve grandes avanços tecnológicos em várias épocas e em vários lugares antes da emergência do capitalismo; e é até mesmo possível dizer, numa perspectiva mais ampla (para não dizer banal), que ao longo dos tempos houve uma tendência geral de desenvolvimento e melhorias tecnológicas, ainda que seja para dizer que, uma vez descobertos, esses avanços não costumam desaparecer.

Mas esse tipo de progresso tecnológico é muito diferente dos imperativos singulares do capitalismo, de sua inevitável compulsão, enquanto condição para sobrevivência, de melhorar constantemente a produtividade do trabalho e reduzir seus custos, tudo para conseguir competir e maximizar os seus lucros. Ainda assim, o consequencialismo exige que nós apaguemos essa diferença.

Eles precisam desse apagamento não apenas para desviar do problema de como o capitalismo surgiu. Eles também precisam dele para sustentar a visão de que, quaisquer que sejam os atrasos, diversões e reveses que surgiram pelo caminho, a História é inexoravelmente movida por uma força universal e transhistórica de progresso tecnológico, que invariavelmente culminará no socialismo.

A inevitabilidade substitui a História pela teleologia e acaba sabotando qualquer noção de causalidade histórica. Isso se torna particularmente claro diante das críticas levantadas pelos consequencialistas contra os historiadores marxistas (os chamados “marxistas políticos”) que recusam a ideia de “revolução burguesa” ao enfatizarem o papel das relações sociais de propriedade e de classe. Tais historiadores, de acordo com os consequencialistas, reduziram toda a História a uma “voluntarista” disputa de vontades, que não apenas era carente de um desfecho e de um socialismo inevitável, mas até mesmo carente de condições materiais pré-estabelecidas.

Esse criticismo consequencialista não podia estar mais errado. O marxismo político insiste que formas sociais específicas, como o capitalismo – com suas próprias condições materiais, suas específicas relações de propriedade e suas próprias regras de reprodução – engendram objetos e formas de conflito bastante específicos.

Ele reconhece que seus desfechos não são predeterminados, mas que mesmo assim são moldados e limitados por condições materiais específicas, em formas históricas específicas, em processos específicos de transformação histórica: a luta de classes numa sociedade feudal, independente de seu desfecho, é necessariamente um processo diferente do que constitui uma luta de classes numa sociedade capitalista; e, ainda que nunca haja uma garantia sobre os seus desfechos, o socialismo como uma consequência das lutas de classes do capitalismo é uma possibilidade histórica que não poderia existir no contexto de uma sociedade feudal e suas relações de propriedade.

Mesmo se o socialismo fosse um objetivo consciente e deliberado das lutas de classe capitalistas da mesma forma que o capitalismo não era um projeto deliberado das lutas de classe feudais, isso não torna o socialismo uma consequência inevitável. Reconhecer isso significa falar de história, ao invés de falar de teleologia.

A crítica de que o marxismo político é “voluntarista” demonstra a falta de entendimento sobre o que significa falar em causalidade histórica. Ela sugere que nós estamos compelidos a escolher entre um processo completamente contingente por um lado, ou predeterminação incondicional por outro.

Isso é particularmente enganador vindo daqueles que advogam em defesa do novo consequencialismo, que adotaram uma curiosa mescla de contingência completamente a-histórica com determinismo absoluto. Eles permanecem convencidos de que a luta de classes é o motor da História, mas ainda assim insistem que o seu desfecho deve ser, em última instância, preordenado. Eles acabam defendendo a ideia de “revolução burguesa” menos como momento histórico e mais como momento teleológico.

Como tantas outras concepções vagas de capitalismo, esses críticos do marxismo político não conseguem explicar a origem do capitalismo e não podem sequer defini-lo de forma significativa. Se tudo pode contar como “revolução burguesa”, como vamos reconhecer o capitalismo quando o vermos? E a propósito, como é possível sustentar uma concepção de capitalismo enquanto forma social específica, com seus próprios princípios sistêmicos operacionais, se as suas leis de transformação são basicamente leis trans-históricas?

A ironia suprema da visão consequencialista é que, ao procurar defender um tipo de ortodoxia marxista contra aquilo que eles definem como heresia, ela acaba jogando fora um dos mais importantes preceitos do materialismo histórico de Marx, negando assim todos os esforços para esclarecer a natureza específica do capitalismo a qual ele dedicou boa parte de sua vida.

Esse retorno ao consequencialismo acaba voltando às concepções de história que Marx estava criticando em sua crítica à economia política clássica e às suas concepções Iluministas de progresso. Tudo que eles conseguem acrescentar a uma grosseira ideia pré-marxista de progresso é a de um socialismo inevitável.

Diferente de seus predecessores Iluministas, Marx deliberadamente substituiu a teleologia pela História. Ele caracterizou sua própria crítica à economia política como, entre outras coisas, um esforço para rebater os economistas que tratavam a produção como resposta às “eternas leis naturais independentes da história, nas quais as oportunistas relações burguesas são silenciosamente transformadas em leis naturais invioláveis nas quais as sociedades são abstratamente fundadas”. (Grundrisse I.1)

O trabalho de sua vida foi substituir essa tendência a-histórica com uma explicação sobre a dinâmica específica do capitalismo e seus princípios operacionais distintos. Será que isso é uma “excentricamente estreita” concepção de capitalismo?

Sobre a autora

Ellen Meiksins Wood é a autora de A Origem do Capitalismo, entre muitos outros títulos.

22 de setembro de 2013

Recuperar a centralidade da classe

Ellen Meiksins Wood

Against the Current


Tradução / Em 1963, quando E.P. Thompson publicou The Making of the English Working Class, ainda existia uma importante cultura anticapitalista na esquerda intelectual, que floresceu com um vigor especial entre os historiadores marxistas britânicos, um notável grupo ao qual pertencia E.P. Thompson Durante pouco mais de uma década, apesar (ou talvez por causa) das erupções militantes de 1968 e de algumas dramáticas lutas operárias nos anos posteriores, a vida intelectual da esquerda ocidental foi moldada por uma atitude de rendição ao capitalismo e por um “recuo da classe”.

A moda acadêmica mais influente na esquerda, começando com o pós-marxismo e culminando com o pós-modernismo, parece agora - para o bem ou para o mal - aferrada a um princípio, segundo o qual o capitalismo era a única opção viável e a luta de classes não está mais na agenda.

Essas modas tiveram seu início a partir década de 1970, e se desenvolveram mais ou menos em paralelo com a "Nova direita" e o neoliberalismo. Justamente quando os governos impulsados pela doutrina neoliberal estavam realizando uma luta classes aberta em nome do capital e contra o trabalho, o conceito de classe estava em declínio. Na Grã-Bretanha, por exemplo, quando o governo de Margaret Thatcher estava travando sua implacável guerra de classes luta de classes contra os trabalhadores, sua própria estratégia retórica consistia em negar a própria existência das classes.

Essa estratégia ideológica é mais alarmante ainda porque reaparece na esquerda intelectual como uma imagem no espelho. E não ocorre apenas com pós-marxismo. Até mesmo a Marxism Today, a revista teórica do partido comunista britânico, aderiu com entusiamo ao “recuo do conceito de classe”.

Estes novos guerreiros não classistas de esquerda aceitam na prática a construção neoliberal do universo social. Tão pouco para eles há classes ou política de classes; simplesmente um mundo pós-moderno no qual a fragmentação, a diversidade e as "múltiplas" identidades acabaram com as velhas solidariedades de classe.

É verdade, claro, que para muitos isso significava perseguir outras lutas necessárias contra outras formas de opressão, especialmente aqueles relacionados ao gênero e raça. Mas havia algo mais nesse recuo - ou talvez deveríamos dizer menos - que um interesse em formas alternativas de luta; e esse abandono do conceito de classe não pode simplesmente ser atribuído ao declínio do movimento operário nos anos 1970 e 1980. O recuo do conceito de classe, que compartilham alguns sectores da esquerda intelectual, tem outras raízes que o precedem. [1]

Os intelectuais de esquerda mais decididos a abandonar o conceito de classe também se inclinam a sugerir que não temos necessidade de desafiar o capitalismo como una totalidade sistêmica, porque não existiria algo assim como um sistema capitalista - se é que alguma vez existiu - na nova realidade fragmentada. Nos contam que se está dando uma tremenda expansão da “sociedade civil” que amplia consideravelmente o leque de nossas escolhas individuais. O modo de combater as doutrinas neoliberais consistiria aparentemente em aceitar seus pressupostos básicos e tratar de vence-los no seu próprio jogo retórico.

A crise capitalista real

Hoje nós estão confrontando o mundo real do capitalismo, de uma forma que não vemos há muito tempo. Desde a crise de 2008 e o desastroso projeto de austeridade que se seguiu, é quase impossível desconhecer os brutais efeitos sistêmicos do capitalismo ou a cruel realidade das classes.

Houve alguns sinais promissores de novos movimentos contestatórios, como o movimento “Occupy”, que se bem não produziram ainda um movimento político coerente, no entanto começaram a mudar o discurso sobre las consequências do capitalismo e as desigualdades de classe. Ainda mais que grande parte da esquerda intelectual perdeu o hábito, os meios ou sequer a vontade de se opor ao capitalismo não só na prática mas na teoria.

Por isso é o momento adequado para recuperarmos E.P. Thompson. Não somente porque ele, provavelmente mais que qualquer outro historiador, deu vida aos processos da formação e luta de classes, mas também porque mais que qualquer outro historiador e talvez qualquer acadêmico ou escritor, E.P. Thompson foi quem com mais acuidade definiu o capitalismo como uma forma social historicamente específica - não como una lei da natureza -, e nos obrigou a vê-lo com distância crítica e antropológica.

E isso é especialmente importante hoje, pois faz muito tempo que adquirimos o hábito de considerar o capitalismo como dado, como si se tratasse de algo tão universal e invisível como o ar que respiramos. E. P. Thompson desafiou os pressupostos básicos do capitalismo, entendendo-o como um conjunto de práticas sociais e princípios morais e estudando seu desenvolvimento como um processo constante de luta.

Não apenas mostrou este processo em seu livro La Formación de la Clase Obrera en Inglaterra, mas também em outros trabalhos, por exemplo em seu clássico ensaio Moral Economy and Popular Protest: Crowds, Conflicts and Authority no qual segue as pistas das lutas contra a racionalidade do mercado, imposta a pesar da resistência de grupos com costumes e expectativas distintas e com diferentes concepções do direito à subsistência; ou seu ensaio Custom, Law, and Common Right, no qual nos mostra o modo em que as definições de propriedade com base na produtividade para o lucro capitalista afirmaram-se à custa das costumes e as concepções de direito ao uso; ou seu ataque - especialmente em seu ensaio "Time, Work Discipline and Industrial Capitalism" - ao conceito de “industrialização” e sua insistência na especificidade do capitalismo industrial como um modo historicamente distinto de exploração - não como um processo neutro de mudança tecnológica -, com efeitos que afetaram as práticas laborais e também a algo muito mais central para nossa vida cotidiana, que é nossa experiencia do tempo. [2]

A abordagem da história por E.P. Thompson resume o que para mim é a essência do materialismo histórico, uma aproximação que lança luz sobre a teoria e a prática, sobre a historia e a política. Embora ele tentasse evitar a linguagem teórica, seu trabalho histórico sempre me pareceu tão fértil para a teoria como esclarecedora para a história.

Segundo E.P. Thompson, o conhecimento teórico não é sobre uma “representação conceitual estática”, mas sobre “conceitos apropriados para investigar os processos”. Isto significa, entre outras coisas, que não existe essa antítese entre história e teoria ou entre o empírico e o teórico na qual insistem algumas correntes muito influentes do marxismo.

O desafio, segundo E.P. Thompson, consiste em captar e iluminar os processos históricos, e não considerar a classe como uma localização estática em uma estrutura de “estratificação”, mas como um processo e uma relação social. Em outras palavras, E.P. Thompson levou a sério a ideia de Karl Marx de que o materialismo histórico se ocupa da “atividade prática” humana, da agência humana, dentro dos limites das condições históricas e sociais específicas. Isso é o que o converte em um estudioso tão efetivo do capitalismo entendido como um terreno disputado e alvo de luta.

Notas

[1] Esse assunto é discutido com maiores detalhes no meu artigo “A Chronology of the New Left and Its Successors, or: Who’s Old-Fashioned Now?” Socialist Register 1995, 22-49 e no Prefácio à edição de 1998 do meu livro The Retreat from Class: A New "true" Socialism.

[2] Estes ensaios estão incluídos em Customs in Common: Studies in Traditional Popular Culture (New York: New Press, 1993).

Sobre a autora

Ellen Meiksins Wood foi autora de The Origin of Capitalism, Democracy Against Capitalism e Liberty and Property.

2 de junho de 1998

As origens agrárias do capitalismo

O artigo “The Agrarian Origins of Capitalism” examina como as transformações agrárias — mudanças nas relações de trabalho, propriedade da terra e lógicas de uso do solo — foram centrais para o surgimento do capitalismo. Ele argumenta que não foi apenas a industrialização ou o comércio que impulsionaram o capitalismo, mas também a reorganização do campo, com deslocamentos de camponeses, cercamentos e novas formas de agricultura voltadas para o mercado. A autora mostra como essas raízes agrárias moldaram não só a economia, mas também as estruturas sociais e as relações de poder fundamentais no desenvolvimento capitalista.

Ellen Meiksins Wood


Monthly Review Vol. 50, No. 03 (July-August 1998)

Tradução / Uma das convenções mais arraigadas da cultura ocidental é aquela que associa capitalismo a cidades. O capitalismo supostamente nasceu e cresceu nas cidades. Mais que isso, a implicação é de que qualquer cidade – com seus aspectos característicos de comércio e troca – é, por sua própria natureza, potencialmente capitalista, e somente obstáculos exógenos impediriam qualquer civilização urbana de dar surgimento ao capitalismo. A religião errada, a forma errada de Estado, ou qualquer tipo de constrangimento ideológico, político ou cultural, atando as mãos das classes urbanas é que teria impedido o capitalismo de brotar em todos os lugares, desde tempos imemoriais – ou pelo menos desde que a tecnologia permitiu a produção de excedentes suficientes.

De acordo com esta visão, o desenvolvimento do capitalismo no ocidente se explica pela autonomia ímpar das suas cidades e das suas classes únicas (típicas), os habitantes dos burgos ou burgueses. Em outras palavras, o capitalismo emergiu no Ocidente menos em decorrência do que estava presente do que daquilo que estava ausente: limitações às práticas econômicas urbanas. Nessas condições, foi preciso apenas uma relativa expansão espontânea do comércio para desencadear o desenvolvimento do capitalismo e levá-lo à maturidade. Só faltava então um crescimento quantitativo, que teve lugar quase automaticamente com o passar do tempo (em algumas versões, é claro, auxiliado, mas não necessariamente causado, pela ética protestante).

Há muito a ser dito a propósito destas pressuposições sobre a ligação natural entre cidades e capitalismo. Dentre elas, está o fato de que tendem a naturalizar o capitalismo, a disfarçar sua característica distintiva de ser uma forma social específica com um começo e (sem dúvida) com um fim. A tendência de identificar capitalismo com cidades e comércio urbano tem sido acompanhada pela inclinação de considerar o capitalismo mais ou menos como uma decorrência automática de práticas tão antigas quanto a história humana, ou até mesmo como a conseqüência automática da natureza humana, a inclinação “natural” para o comércio, nas palavras de Adam Smith “truck, barter and exchange”.

Talvez o corretivo mais salutar para tais pressuposições – e suas implicações lógicas – seja o reconhecimento de que o capitalismo, com todo o seu impulso específico de acumular e de buscar o lucro máximo, nasceu não na cidade mas no campo, num lugar muito específico, e tardiamente na história humana. Ele requer não uma simples extensão ou expansão do escambo e da troca, mas uma transformação completa nas práticas e relações humanas mais fundamentais, uma ruptura nos antigos padrões de interação com a natureza na produção das necessidades vitais básicas. Se a tendência de identificar capitalismo com cidades se apresenta associada à de obscurecer a sua especificidade, uma das melhores maneiras de entender esta especificidade é examinar as origens agrárias do capitalismo.

No que consistiu o “capitalismo agrário”?

Por muitos milênios, os seres humanos proveram suas necessidades materiais através do trabalho da terra. E provavelmente durante um período mais ou menos similar estiveram divididos em classes sociais, constituídas por aqueles que trabalhavam a terra e aqueles que se apropriavam do trabalho dos outros. Esta divisão entre produtores e apropriadores tem assumido diversas formas dependendo do tempo e do lugar, mas possuindo uma característica geral, qual seja, a de que os produtores diretos têm sido camponeses. Estes produtores camponeses permaneceram na posse dos meios de produção, especificamente a terra. Como em todas as sociedades pré-capitalistas, esses produtores tinham acesso direto aos meios de sua própria reprodução. Isto significa que a apropriação do trabalho excedente pela camada exploradora era feita pelo que Marx chamou de meios “extra-econômicos” – quer dizer, por meio de coerção direta, exercida pelos senhores rurais e/ou Estado, através do emprego de força superior, acesso privilegiado aos poderes militares, judiciais e políticos.

Aqui está, portanto, a diferença essencial entre todas as sociedades pré-capitalistas e as capitalistas. Não tem nada a ver com o fato de a produção ser urbana ou rural e tem tudo a ver com as relações de propriedade entre produtores e apropriadores, seja na agricultura ou na indústria. Somente no capitalismo, a forma dominante de apropriação do excedente está baseada na expropriação dos produtores diretos, cujo trabalho excedente é apropriado exclusivamente por meios puramente econômicos. Devido ao fato de que os produtores diretos numa sociedade capitalista plenamente desenvolvida se encontram na situação de expropriados, e devido também ao fato de que o único modo de terem acesso aos meios de produção, para atenderem aos requisitos da sua própria reprodução, e até mesmo para proverem os meios do seu próprio trabalho, é a venda da sua força de trabalho em troca de um salário, os capitalistas podem se apropriar da mais-valia produzida pelos trabalhadores sem necessidade de recorrer à coerção direta.

Esta relação particular entre produtores e apropriadores é, obviamente, mediada pelo mercado. Mercados de vários tipos existiram através da História e até mesmo da pré-história, quando as pessoas trocaram ou venderam o excedente de diversas maneiras e com diferentes objetivos. Mas o mercado no capitalismo tem uma função distinta e sem precedente. Virtualmente tudo numa sociedade capitalista é uma mercadoria produzida para o mercado. O mais importante é que capital e trabalho dependem do mercado para as condições mais básicas da sua reprodução. Assim como os trabalhadores dependem do mercado para vender sua força de trabalho como uma mercadoria, os capitalistas dependem dele para comprar a força de trabalho e também os meios de produção, e para realizarem os seus lucros através da venda de bens e serviços produzidos pelos trabalhadores. Esta dependência do mercado dá a este último um papel sem precedente nas sociedades capitalistas, não apenas como um simples mecanismo de intercâmbio ou distribuição mas como o principal determinante e regulador da reprodução social. O surgimento do mercado como um determinante da reprodução social pressupôs a sua penetração na produção do ingrediente básico mais necessário, o alimento.

Este sistema único de dependência do mercado implicou na existência de algumas “leis do movimento” muito especiais, compulsões e exigências sistêmicas específicas que nenhum outro modo de produção exigiu: os imperativos da competição, acumulação e maximização do lucro. E estes imperativos, por sua vez, significam que o capitalismo pode e deve constantemente se expandir de maneiras e em graus que outras formas sociais desconheciam – permanentemente acumulando, buscando novos mercados, impondo seus imperativos em novos territórios e em novas esferas da vida, em seres humanos e sobre o meio ambiente.

Uma vez que reconheçamos quão distintos são esses processos e essas relações sociais, quão diferentes são das outras formas sociais dominantes na maior parte da história da humanidade, fica claro que é preciso mais para explicar o surgimento dessa forma social distinta do que a duvidosa pressuposição de que ela sempre existiu (de modo embrionário), precisando apenas ser liberada dos constrangimentos artificiais que a encerravam. A questão das suas origens, então, pode ser formulada da seguinte maneira: dado que os produtores foram explorados pelos apropriadores através de meios não-capitalistas durante milênios antes que o capitalismo surgisse, e dado que os mercados também existiram desde os tempos imemoriais praticamente em todos os lugares, como explicar o fato de que as relações produtores/apropriadores passaram a ser dependentes do mercado?

Naturalmente seria possível refazer, incansavelmente, o longo e complexo processo histórico que atribuiu ao mercado este papel central. Mas acreditamos que a questão se torna mais manejável se pudermos identificar a primeira vez e lugar nos quais uma nova dinâmica social se tornou claramente perceptível, uma dinâmica causada pela dependência do mercado dos atores econômicos principais. Aí então poderemos explorar as condições específicas nas quais está mergulhada essa situação única.

Até o século XVII, e ainda bem depois, a maior parte do mundo, inclusive da Europa, estava imune aos imperativos impostos pelo mercado tais como descritos acima. Sem dúvida existia um vasto sistema de comércio que se estendia por todo o globo. Mas em nenhum lugar, nem nos grandes centros comerciais da Europa, nem na vasta rede comercial do mundo islâmico ou da Ásia, estava a atividade econômica, e em particular a produção, impulsionada pelos imperativos da competição e da acumulação. O princípio dominante do comércio, em todo lugar, era “lucro através da venda”, ou “comprar barato para vender caro”. Comprando barato num mercado, vendendo caro em outro. O comércio internacional era essencialmente “carrying trade”, com os comerciantes comprando bens em um lugar para serem vendidos com lucro em outro. Mas mesmo dentro de um único, poderoso e relativamente unificado reino como a França, basicamente os mesmos princípios não-capitalistas de comércio prevaleciam. Não havia um mercado unificado, um mercado no qual as pessoas obtivessem lucro não através do “comprar barato e vender caro”, ou através da simples transferência de mercadorias de um mercado para outro, mas através de uma produção a melhores preços num processo competitivo dentro de um mesmo mercado.

O comércio pendia ainda para os artigos de luxo, ou pelo menos para os artigos que se destinavam aos lares mais prósperos ou que respondiam às necessidades e aos padrões de consumo das classes dominantes. Não havia um mercado de massas para os produtos baratos do consumo cotidiano. O camponês médio produzia não somente suas próprias necessidades alimentares mas também outros artigos corriqueiros como os tecidos de que necessitavam. Eles podiam levar seus excedentes para os mercados locais, onde eram trocados por outros produtos. E produtos agrícolas até podiam ser vendidos em mercados mais distantes. Mas também nesses casos os princípios do comércio eram aqueles aplicados aos produtos manufaturados.

Estes princípios não-capitalistas de comércio existiam ao lado das formas de exploração não-capitalistas. Por exemplo, na Europa ocidental, mesmo lá onde a servidão havia desaparecido, outras formas de exploração “extra-econômica” ainda prevaleciam. Na França, por exemplo, onde os camponeses constituíam a maior parte da população e ainda permaneciam com a posse da terra, um cargo público era um meio de sustentação para muitos membros das classes dominantes, um meio de extração de sobre-trabalho dos camponeses na forma de impostos. E mesmo a grande maioria dos senhores de terras que viviam de rendas dependiam de poderes e privilégios extra-econômicos para amealhar sua fortuna.

Em conseqüência, os camponeses tinham acesso aos meios de produção, à terra, sem precisar oferecer sua força de trabalho no mercado como uma mercadoria. Senhores de terras e ocupantes de cargos públicos (office-holders), com a ajuda de vários poderes e privilégios extra-econômicos, extraíam sobre-trabalho dos camponeses diretamente, na forma de renda ou imposto. Em outras palavras, enquanto todo tipo de pessoa podia comprar e vendar toda sorte de objetos no mercado, nem os camponeses-proprietários que produziam, nem os senhores de terras e funcionários (office-holders) que se apropriavam da produção dos outros, dependiam diretamente do mercado para as condições de sua reprodução, e as relações entre eles não eram mediadas pelo mercado.

Mas havia uma exceção importante a esta regra geral. A Inglaterra, já no século dezesseis, se desenvolvia numa nova direção. Embora houvesse outros Estados monárquicos relativamente fortes, mais ou menos unificados sob a monarquia (como a Espanha e a França), nenhum era tão unificado quanto a Inglaterra (e a ênfase aqui é na Inglaterra e não nas outras partes das ilhas britânicas). A unificação do reino inglês começara bem cedo, no século XI, quando os conquistadores normandos se estabeleceram, através de uma grande coesão militar e política, como classe dominante na ilha. E no século XVI, a Inglaterra já percorrera um longo caminho no sentido de eliminar a fragmentação feudal do Estado e a soberania “dividida” herdada do feudalismo. Os poderes autônomos detidos pelos nobres, corpos municipais e outras entidades corporativas existentes nos outros Estados europeus estavam na Inglaterra cada vez mais concentrados no Estado central. Isto contrastava com os outros Estados europeus, onde mesmo monarquias poderosas continuaram por muito tempo a conviver penosamente com poderes militares pós-feudais, sistemas legais fragmentados e privilégios de corpos sociais. Os detentores desses poderes insistiam em preservar a autonomia frente à centralização do poder no Estado.

A centralização política do Estado inglês tinha fundamentos materiais e corolários. Primeiro, já no século XVI, a Inglaterra possuía uma rede impressionante de estradas e de vias de transportes fluviais e marítimas que unificavam a nação de modo bastante excepcional para o período. Londres cresceu numa taxa muito acima das outras cidades inglesas e do crescimento total da população (transformou-se na maior cidade da Europa) e tornou-se o centro de um mercado nacional em desenvolvimento.

A base material sobre a qual esta economia nacional emergente repousava era a agricultura inglesa, especial em mais de um aspecto. A classe dominante inglesa se caracterizava por dois aspectos que se inter-relacionavam: por um lado, em aliança com a monarquia, participava de um Estado com forte poder centralizador, e não possuía numa medida similar à das suas congêneres europeias os poderes extra-econômicos, mais ou menos autônomos, nos quais estas últimas se apoiavam para extrair sobre-trabalho (ou o excedente) dos produtores diretos. Por outro lado, a alta concentração da terra constituía um dado presente há muito tempo no campo inglês, com grandes senhores de terras detendo uma parcela importante do território. Esta concentração significava que os senhores ingleses podiam usar suas propriedades de diferentes e novas maneiras. O que faltava à classe proprietária em poder extra-econômico para a extração do excedente era largamente compensado pelo seu crescente poderio econômico.

Esta combinação particular de fatores teve consequências significativas. De um lado, a concentração da propriedade da terra implicava que uma porção considerável da terra fosse tornada produtiva não por camponeses-proprietários mas por arrendatários. Isto vinha ocorrendo mesmo antes das grandes ondas de expropriação, que ocorreram principalmente nos séculos XVI e XVIII, usualmente associadas com os “cercamentos” (a eles voltaremos adiante), em contraste, por exemplo, com o ocorrido na França, onde uma parcela importante das terras permaneceu por longo período histórico ainda nas mãos dos camponeses.

De outro lado, a relativa “fraqueza” dos poderes extra-econômicos dos senhores de terras fazia com que dependessem cada vez menos da sua habilidade de espremer mais renda dos arrendatários por meios coercitivos diretos do que da produtividade desses mesmos arrendatários. Em conseqüência os senhores de terras tinham um incentivo muito forte para encorajar – e quando possível obrigar – seus arrendatários a encontrar os meios de aumentar sua produção. Neste aspecto eles eram fundamentalmente diferentes dos aristocratas rentistas que em variadas épocas históricas fizeram depender suas fortunas da capacidade de extorquir o excedente dos camponeses através da simples coação, aumentando essa capacidade através apenas do aperfeiçoamento dos seus poderes coercitivos – militares, judiciais e políticos.

Quanto aos arrendatários, eles estavam crescentemente sujeitos não só à pressão direta dos senhores de terras mas aos imperativos do mercado que os impeliam a aumentar a produtividade. As formas do arrendamento foram múltiplas na Inglaterra, existindo muitas variações regionais, mas um número crescente delas estava sujeita a rendas “econômicas”, isto é, rendas fixadas pelas condições do mercado e não por algum padrão legal ou consuetudinário. Desde o início da Época Moderna, até mesmo muitos contratos baseados no costume tinham se tornado contratos “econômicos”.

O efeito do sistema de relações de propriedade foi tornar muitos agricultores (inclusive prósperos “yeomen”) dependentes do mercado, não apenas para a venda de seus produtos, mas no sentido mais fundamental de que seu acesso à terra, isto é aos meios de produção, era mediado pelo mercado. Havia, com efeito, um mercado de aluguel de terras no qual arrendatários em potencial tinham que competir. Neste mercado, a garantia do arrendamento dependia da capacidade de pagar o valor corrente do aluguel, e a falta de competitividade podia significar a direta perda da terra. Para alcançar uma renda adequada numa situação em que outros arrendatários em potencial estavam competindo pelo mesmo contrato de aluguel, os arrendatários eram compelidos a produzirem mais barato sob pena de perderem a terra.

Mesmo aqueles arrendatários que gozavam de alguma espécie de direito costumeiro à terra, portanto, mais garantidos nas suas parcelas, eram obrigados a vender seus produtos nos mesmos mercados, e consequentemente estavam submetidos às condições da concorrência, quer dizer, aos padrões de produtividade estipulados pelos agricultores submetidos mais diretamente às pressões do mercado. O mesmo ocorria numa proporção cada vez maior com os proprietários que exploravam eles próprios suas terras. Neste ambiente competitivo, agricultores produtivos prosperavam e suas parcelas de terras cultivadas tendiam a crescer, enquanto que agricultores menos competitivos fracassavam e iam se juntar aos sem-terra.

Em todos os casos, os efeitos dos imperativos do mercado foram intensificar a exploração tendo em vista o aumento da produtividade – fosse a exploração do trabalho dos outros, ou a auto-exploração do agricultor e sua família. Este padrão seria reproduzido nas colônias, e também na América independente, onde os pequenos produtores independentes, supostamente a espinha dorsal de uma república livre, tiveram cedo de encarar a cruel escolha imposta pelo capitalismo agrário: na melhor hipótese, intensa auto-exploração e na pior, perda das terras para empresas maiores e mais produtivas.

O surgimento da propriedade capitalista

Em síntese, a agricultura inglesa no século XVI reunia uma combinação ímpar de fatores, ao menos em certas regiões, que acabariam por determinar a direção da economia inglesa como um todo. O resultado disso foi o setor agrário mais produtivo da história. Proprietários e arrendatários se tornaram igualmente preocupados com o que chamavam de “melhoramento” (improvement), o aumento da produtividade da terra visando o lucro.

Vale a pena se debruçar um momento sobre esse conceito de “melhoramento”, porque ele revela muito sobre a agricultura inglesa e o capitalismo. A palavra improve (melhorar) no seu sentido original não significava somente “tornar melhor” num sentido amplo, mas literalmente5 fazer algo visando lucro monetário, e especialmente, cultivar terra visando lucro. No século XVII, o sentido da palavra improver (o agente da melhoria) fixou-se definitivamente na linguagem para designar o indivíduo que tornava a terra produtiva e lucrativa, especialmente através do cercamento ou da supressão do desperdício. Os melhoramentos agrícolas eram naquele momento uma prática já bem estabelecida, e no século XVIII, na época de ouro do capitalismo agrário, “improvement” (melhoramento), no idioma e na realidade, designava um e mesmo fenômeno.

Ao mesmo tempo, a palavra começou a adquirir um significado mais geral, no sentido com o qual a entendemos hoje (pode ser útil refletir a respeito de uma sociedade na qual a palavra “melhorar” tem como raiz lucro monetário); mesmo quando associada à agricultura, atualmente, ela perdeu uma pouco da sua antiga especificidade – de modo que, por exemplo, alguns pensadores radicais do século XIX podiam adotar a palavra “improvement” (melhoramento) no sentido de agricultura científica, sem a conotação de lucro comercial. Mas no início do período moderno, produtividade e lucro estavam indissoluvelmente ligados no conceito de “improvement”(melhoramento), o que resume bem a ideologia da classe agrária capitalista emergente.

No século XVII tomou corpo uma nova literatura que explicava detalhadamente as técnicas e os benefícios dos melhoramentos. Melhoramento foi também a preocupação principal da Royal Society, que reunia alguns dos mais proeminentes cientistas da Inglaterra (Isaac Newton e Robert Boyle eram membros da Society) e alguns dos membros mais progressistas das classes dominantes inglesas – como o filósofo John Locke e o seu mentor, o primeiro Earl de Shaftesbury, ambos profundamente interessados nos melhoramentos agrícolas.

Os melhoramentos não dependiam em primeira instância de inovações tecnológicas significativas – apesar de que novos equipamentos estavam sendo usados, como o arado com roda. Em geral, era mais uma questão de desenvolvimento de técnicas agrícolas: por exemplo, cultivo “conversível” ou “em degrau” – alternância de cultivo com períodos de descanso, rotação de cultura, drenagem de pântanos e terras baixas, etc.

Mas os melhoramentos também significavam algo mais do que novos métodos e técnicas de cultivo. Significavam novas formas e concepções de propriedade. Agricultura “melhorada”, para o proprietário de terras empreendedor e seu próspero capitalista arrendatário, implicava em propriedades aumentadas e concentradas. Também implicava – talvez em maior medida – na eliminação dos antigos costumes e práticas que atrapalhassem o uso mais produtivo da terra.

Comunidades camponesas tinham, desde tempos imemoriais, empregado vários meios de regulamentar o uso da terra conforme os interesses da comunidade aldeã: elas restringiam algumas práticas e concediam determinados direitos, tendo em vista não o aumento da riqueza do senhor ou da propriedade, mas a preservação da própria comunidade camponesa; às vezes, visando a conservação da terra ou a distribuição mais equitativa dos seus frutos, e, freqüentemente, para socorrer os membros menos afortunados da comunidade. Até a propriedade “privada” da terra foi condicionada por estas práticas, que davam a não-proprietários certos direitos de uso da terra apropriada por outra pessoa. Na Inglaterra, existiram muitas dessas práticas e costumes. Era o caso das terras comunais, que podiam eventualmente ser usadas pelos membros da comunidade como pasto ou para apanhar lenha, e havia também diversos tipos de direitos concernentes às terras privadas – tais como o direito ao recolhimento dos restos da colheita em determinados períodos do ano.

Do ponto de vista dos proprietários e dos arrendatários capitalistas, a terra devia ser liberada de todo tipo de obstrução ao seu uso produtivo e lucrativo. Entre o século XVI e XVIII, houve uma pressão contínua para a extinção dos direitos costumeiros que interferiam na acumulação capitalista. Isto poderia significar muitas coisas: a disputa da propriedade comunal com vistas à apropriação privada; a eliminação de um série de direitos de uso sobre as terras privadas; ou, finalmente, problematizar o acesso à terra dos pequenos camponeses que não possuíam título de domínio inequívoco. Em todos esses casos, a concepção tradicional de propriedade precisava ser substituída por um conceito novo, o conceito capitalista de propriedade – propriedade não apenas privada, mas excludente, literalmente excluindo outros indivíduos e a comunidade, através da eliminação das regulações das aldeias e das restrições ao uso da terra, pela extinção dos usos e direitos costumeiros, e assim por diante.

Estas pressões para transformar a natureza da propriedade manifestaram-se de diversas maneiras, na teoria e na prática. Elas são detectáveis nos casos surgidos nos tribunais, nos conflitos a propósito de direitos específicos de apropriação de parcelas das terras comunais ou de alguma terra particular sobre a qual mais de uma pessoa tinha direito de uso. Nesses casos, as práticas costumeiras e a posse freqüentemente eram confrontadas com os princípios dos “melhoramentos” – e os magistrados muitas vezes davam ganho de causa às reclamações baseadas no argumento do “melhoramento”, considerando-as legítimas contra direitos costumeiros que existiam há mais tempo do que a memória alcança.

Novas concepções de propriedade estavam também sendo teorizadas mais sistematicamente, sobretudo na famosa obra de John Locke, Concerning civil government, second treatise. No capítulo 5 deste trabalho encontra-se a afirmação clássica da teoria da propriedade baseada nos princípios do “melhoramento”. Nela, a propriedade como um direito “natural” está baseada naquilo que Locke considera como o meio divino de tornar a terra produtiva e lucrativa, “melhorá-la” (improve it). A interpretação convencional da teoria da propriedade de Locke sugere que o trabalho estabelece (ou funda) o direito de propriedade, mas se lermos cuidadosamente o capítulo de Locke sobre a propriedade veremos com clareza que o que está em questão não é o trabalho enquanto tal, mas a utilização da propriedade de modo produtivo e lucrativo, seu “melhoramento”. Um proprietário (ou senhor de terra) empreendedor, disposto a realizar os “melhoramentos” fundamenta seu direito à propriedade não através de seu trabalho direto, mas através da exploração produtiva da sua terra pelo trabalho de outras pessoas. Terras sem “melhoramentos”, terra que não se torna produtiva e lucrativa (como por exemplo as terras dos indígenas nas Américas) constituem desperdício, e como tal, estabelecem o direito e até mesmo o dever daqueles decididos a “melhorá-las” a se apropriarem dela.

A mesma ética dos melhoramentos podia ser usada para justificar certos tipos de expropriação não apenas nas colônias mas na metrópole inglesa também. Isto nos traz para a mais famosa redefinição de direitos de propriedade: os cercamentos. O “enclosure” é freqüentemente visto simplesmente como a privatização e o cercamento de terras comunais, ou dos “campos abertos” caracteristicamente presentes em algumas regiões do campo inglês. Mas “enclosure” significou, mais precisamente, a extinção (com ou sem o cercamento das terras) dos direitos de uso baseados nos costumes dos quais muitas pessoas dependiam para tirar o seu sustento.

A primeira grande vaga de cercamentos ocorreu no século XVI, quando grandes senhores de terras procuraram retirar os camponeses das terras que podiam se tornar mais rentáveis se usadas para pasto como exigia a cada vez mais lucrativa criação de carneiros. Os comentaristas coevos acusavam os cercamentos, mais do que qualquer outro fator, de responsável pela crescente vaga de vagabundos, aqueles homens sem terra nem senhor que vagavam pelos campos e ameaçavam a ordem social. O mais famoso desses comentaristas, Thomas More, embora ele próprio um “cercador”, descrevia essa prática como os “carneiros que devoram os homens”. Estes críticos sociais, como muitos historiadores depois deles, podem ter superestimado os efeitos dos “enclosures”, em detrimento de outros fatores como causa da transformação das relações de propriedade inglesas. Mas eles permanecem como a expressão mais vívida do processo incansável que estava mudando não apenas o campo inglês mas o mundo: o nascimento do capitalismo.

“Enclosure” continuou sendo uma fonte de conflito na Inglaterra da Época Moderna, fosse feita para a criação de carneiros, fosse para a crescente e lucrativa agricultura de arado. Revoltas por causa dos cercamentos marcaram os séculos XVI e  XVII, e os cercamentos apareceram como a maior reclamação durante a Guerra Civil Inglesa. Nas fases iniciais essa prática foi às vezes obstaculizada pelo Estado monárquico, quando mais não fosse por ser uma ameaça à ordem pública. Mas uma vez que as classes agrárias conseguiram moldar o Estado aos seus interesses – sucesso praticamente garantido depois da chamada Revolução Gloriosa de 1688 – não houve mais interferência estatal, e um novo tipo de cercamento apareceu no século XVIII, os chamados cercamentos do Parlamento. Nada testemunha com maior clareza o triunfo do capitalismo agrário.

Assim, na Inglaterra, uma sociedade na qual a riqueza ainda derivava predominantemente da produção agrícola, a auto-reprodução dos dois atores econômicos principais no setor agrícola – produtores diretos e apropriadores do excedente produzido por eles – era, pelo menos a partir do século XVI, cada vez mais dependente de práticas que podem ser consideradas capitalistas: a maximização do valor de troca por meio da redução de custos e pelo aumento da produtividade, através da especialização, acumulação e inovação.

Este modo de prover as necessidades materiais básicas da sociedade inglesa trouxe consigo toda uma nova dinâmica de crescimento auto-sustentado, um processo de acumulação e expansão muito diferente do antigo padrão cíclico que dominava a vida material em outras sociedades. Foi também acompanhado pelo processo capitalista típico de expropriação e de criação de uma massa de expropriados. É neste sentido que podemos falar de “capitalismo agrário” na Inglaterra da Época Moderna.

O capitalismo agrário era realmente capitalista?

Aqui devemos fazer uma pausa para enfatizar dois pontos importantes. Primeiro, não eram comerciantes nem “industriais” os condutores deste processo. A transformação das relações sociais de propriedade estava firmemente enraizada no campo, e a transformação do comércio e da indústria ingleses foi mais resultado do que causa da transição capitalista na Inglaterra. Os comerciantes podiam funcionar perfeitamente dentro de sistemas não capitalistas. Eles prosperaram, por exemplo, no contexto do feudalismo europeu, onde se aproveitaram não somente da autonomia das cidades mas também da fragmentação dos mercados e da oportunidade de realizar transações entre um mercado e outro.

Em segundo lugar, e ainda mais fundamentalmente, os leitores devem ter notado que o termo “capitalismo agrário” está sendo utilizado (neste texto) sem referência a trabalho assalariado, aspecto que aprendemos a considerar como a essência do capitalismo. Isto requer alguma explicação.

É preciso que se diga, primeiro, que muitos arrendatários empregavam trabalho assalariado, tanto que a “tríade” identificada por Marx e outros – a tríade de proprietários de terras vivendo da renda da terra capitalista, arrendatários capitalistas vivendo do lucro e trabalhadores vivendo de salários – tem sido vista por muitos como a característica definidora das relações agrárias na Inglaterra. E assim era – pelo menos naquelas partes do país, particularmente no leste e no sudeste, notáveis pela sua produtividade agrícola. De fato, as novas pressões econômicas, as pressões competitivas que excluíam fazendeiros improdutivos, foram um fato crucial na polarização da população agrícola em grandes proprietários de terras e trabalhadores sem terra, e na promoção da tríade agrária. E, naturalmente, as pressões pelo aumento da produtividade foram sentidas na exploração intensificada do trabalho assalariado.

Não seria, portanto, sem sentido definir o capitalismo agrário inglês em termos da tríade. Mas é importante ter presente ao espírito o fato de que as pressões competitivas e as novas “leis do movimento” que as acompanhavam dependiam numa primeira instância não da existência de uma massa proletária mas da existência de arrendatários dependentes do mercado. Trabalhadores assalariados e especialmente aqueles que dependiam inteiramente de salário, para a sua manutenção e não apenas como complementação sazonal (aquele tipo de trabalho assalariado sazonal e suplementar que tem existido desde os tempos antigos em sociedades camponesas), permaneciam em minoria na Inglaterra do século XVII.

Além do mais essas pressões competitivas se operavam não apenas nos arrendatários que empregavam trabalho assalariado mas também nos fazendeiros que – de modo típico com suas famílias – eram eles mesmos produtores diretos trabalhando sem ajuda contratada. As pessoas podiam depender do mercado – depender do mercado para as condições básicas da sua reprodução – sem estarem totalmente expropriadas dos meios de produção. Para se tornarem dependentes do mercado, era preciso apenas a perda do acesso direto (não dependente do mercado) aos meios de produção. De fato, uma vez que os imperativos do mercado estavam bem estabelecidos, até mesmo a propriedade plena não constituía uma proteção contra seus efeitos. E a dependência do mercado foi a causa e não o resultado da proletarização em massa.

Isto é importante por vários motivos – e falaremos mais adiante sobre suas mais amplas implicações. Por enquanto, o ponto importante é que a dinâmica específica do capitalismo já estava instalada na agricultura inglesa antes da proletarização da força de trabalho. De fato, essa dinâmica foi um fator decisivo na proletarização da força de trabalho na Inglaterra. O fator crucial foi a dependência dos produtores, assim como dos apropriadores, no mercado e os novos imperativos sociais criados por esta dependência.

Algumas pessoas podem hesitar em descrever essa formação social como “capitalista”, justamente porque capitalismo está, por definição, baseado na exploração do trabalho assalariado. Esta relutância é justa – contanto que reconheçamos que, independentemente do nome que se dê, a economia inglesa no início da Época Moderna, levada pela lógica do seu setor produtivo básico, a agricultura, estava operando de acordo com princípios e com “leis do movimento” diferentes daqueles que prevaleceram em qualquer outro período histórico. Essas leis do movimento foram as pré-condições – que não existiram em nenhum outro lugar – para o desenvolvimento do capitalismo maduro que seria, de fato, baseado na exploração em massa do trabalho assalariado.

Qual foi então o resultado disso tudo? Primeiro, a agricultura inglesa tornou-se mais produtiva do que qualquer outra. Em torno do final do século XVII, por exemplo, a produção de grãos e cereais tinha aumentado de modo tão notável que a Inglaterra se tornou a líder na exportação desses produtos. Esses avanços na produção foram conseguidos com uma força de trabalho relativamente pequena empregada na agricultura. É isto que quer dizer ter a agricultura mais produtiva.

Alguns historiadores puseram em dúvida a ideia mesma de capitalismo agrário, sugerindo que a “produtividade” da agricultura francesa era mais ou menos a mesma que a inglesa no século XVIII. Mas o que eles realmente querem dizer é que a produção agrícola total nos dois países era mais ou menos a mesma. O que eles desconsideram é que num país este nível de produção era atingido por uma população majoritariamente composta de camponeses, enquanto no outro país, a mesma produção global era atingida por uma força de trabalho muito inferior, numa população rural declinante. Em outras palavras, a questão aqui não é produção total mas produtividade, no sentido de produção por unidade de trabalho.

O fato demográfico sozinho explica muito. Entre 1500 e 1700, a Inglaterra teve um crescimento substancial de população – como outros países europeus. Mas o crescimento da população na Inglaterra foi diferente num aspecto essencial: a porcentagem da população urbana mais que dobrou neste período (alguns historiadores consideram que era de um pouco menos de 25% já no final do século XVII). O contraste com a França é flagrante: lá, a população rural permaneceu estável, em torno de 85 a 90% no tempo da Revolução, em 1789, e depois. Por volta de 1850, quando a população urbana da Inglaterra e do país de Gales era de mais ou menos 40,8%, a da França era ainda de 14,4% (e da Alemanha 10,8%).

A agricultura na Inglaterra, já no início da Época Moderna, era produtiva o bastante para sustentar um número excepcional de pessoas não mais engajadas na produção agrícola. Este fato, obviamente, revela mais do que a eficiência das técnicas agrícolas. Ele também indica uma revolução nas relações sociais de apropriação. Enquanto a França permanecia um país de camponeses proprietários, a terra na Inglaterra estava concentrada em muito menos mãos e a massa dos sem-propriedade estava crescendo rapidamente. Enquanto a produção agrícola na França ainda seguia as práticas camponesas tradicionais (nada parecido com a literatura inglesa sobre “melhoramentos” existia na França, e a aldeia comunitária ainda impunha suas regulações e restrições na produção, afetando até mesmos grandes proprietários), os fazendeiros ingleses estavam respondendo aos imperativos da competição e dos melhoramentos.

Vale a pena acrescentar um outro ponto a propósito do padrão demográfico distinto da Inglaterra. O crescimento extraordinário da população urbana não estava distribuído igualmente pelas cidades inglesas. Em outros lugares da Europa, o padrão típico era uma população urbana dispersa em várias cidades importantes – de tal modo que Lyon não era muito menor que Paris. Na Inglaterra, Londres se tornou desproporcionalmente grande, crescendo de mais ou menos 60.000 habitantes em torno de 1520 para 575.000 em 1700 e se tornando a maior cidade da Europa, enquanto que outras cidades inglesas eram muito menores.

Este padrão significa mais do que se pode perceber à primeira vista. Testemunha, entre outras coisas, a transformação das relações sociais de apropriação no coração do capitalismo agrário, o sul e o sudeste, e a expropriação de pequenos produtores, o deslocamento e a migração de uma população cujo destino era, tipicamente, Londres. O crescimento de Londres também representa a crescente unificação, não só do Estado mas do mercado interno. A enorme cidade era o centro do comércio inglês – não somente como o lugar de trânsito para o comércio nacional e internacional mas como o imenso consumidor dos produtos ingleses, em particular, produtos agrícolas. O crescimento de Londres, em outras palavras, representa o capitalismo inglês emergente, com seu mercado integrado – cada vez mais um único, unificado e competitivo mercado; sua agricultura produtiva; e sua população expropriada.

As conseqüências a longo prazo destes padrões distintos devem estar bastante óbvias. Embora este não seja o lugar de explorar as conexões entre o capitalismo agrário e a subsequente transformação da Inglaterra na primeira economia “industrializada”, alguns pontos são evidentes. Sem um setor agrícola produtivo que pudesse sustentar uma importante força de trabalho não-agrícola, o primeiro capitalismo industrial do mundo provavelmente não teria aparecido. Sem o capitalismo agrário inglês, não teria havido uma massa de expropriados obrigados a vender sua força de trabalho por um salário. Sem essa força de trabalho não-agrícola expropriada, não teria havido um mercado de consumo de massa para os bens de consumo diário - como alimentos e têxteis - que lideraram o processo de industrialização na Inglaterra. E sem a sua crescente riqueza, associada às novas motivações para a expansão colonial – motivações distintas das antigas formas de aquisição territorial – o imperialismo britânico teria sido algo muito diferente da máquina de capitalismo industrial que ele se tornou. E (este é sem dúvida um ponto mais controverso) sem o capitalismo inglês provavelmente não haveria nenhum capitalismo: foram as pressões competitivas emanando da Inglaterra, especialmente a Inglaterra industrializada, que compeliram os outros países a promover seu desenvolvimento econômico no sentido capitalista.

As lições do capitalismo agrário

O que tudo isso nos ensina sobre a natureza do capitalismo ? Primeiro, lembra-nos que o capitalismo não é uma conseqüência “natural” e inevitável da natureza humana, ou mesmo de práticas sociais antigas como o comércio (“truck, barter, and exchange”). É o resultado tardio e localizado de condições históricas muito específicas. O impulso expansivo do capitalismo, a ponto de ter se tornado virtualmente universal hoje, não é uma consequência da sua conformidade com a natureza humana ou de algumas leis naturais trans-históricas, mas o produto das suas próprias leis históricas internas de movimento. E essas leis de movimento exigiram vastas transformações sociais para se iniciarem. Exigiram uma transformação nas trocas do Homem com a natureza, com vistas ao provimento das necessidades vitais básicas.

O segundo ponto é que o capitalismo foi desde o princípio uma força profundamente contraditória. Basta considerarmos os efeitos mais óbvios do capitalismo agrário inglês: por um lado, as condições para a prosperidade material não existiam em nenhuma outra parte como na Inglaterra da Época Moderna; porém, por outro lado, estas condições foram alcançadas às custas da extensa expropriação e intensa exploração. É quase dispensável acrescentar que essas novas condições também estabeleceram os fundamentos para novas e mais eficientes formas de expansão colonial e imperialismo, assim como novas necessidades para tal expansão, em busca de novos mercados e recursos.

E, depois, há os corolários dos “melhoramentos”: por um lado, produtividade e capacidade de alimentar uma vasta população; por outro lado, a subordinação de todas as considerações aos imperativos do lucro. Isto significa, entre outras coisas, que pessoas que podiam ser alimentadas são freqüentemente deixadas famintas. Na verdade, significa que existe em geral uma grande disparidade entre a capacidade produtiva do capitalismo e a qualidade de vida que proporciona. A ética dos “melhoramentos” no seu sentido original, no qual produção e lucro são indissociáveis, é também a ética da exploração, da pobreza, e do desamparo.

A ética do “melhoramento”, da produtividade visando o lucro é também, naturalmente, a ética do uso irresponsável da terra, da doença da vaca louca, e da destruição ambiental. O capitalismo nasceu no âmago da vida humana, na interação com a natureza da qual depende a própria vida. A transformação desta interação pelo capitalismo agrário revela os impulsos inerentemente destrutivos de um sistema no qual os aspectos fundamentais da existência estão sujeitos às exigências do lucro. Em outras palavras, revelam a essência secreta do capitalismo.

A expansão dos imperativos capitalistas através do mundo tem reiteradamente reproduzido alguns dos efeitos apresentados por ele no seu país de origem. O processo de expropriação, extinção dos direitos costumeiros de propriedade, a imposição dos imperativos do mercado e a destruição ambiental têm continuado. Este processo tem expandido seu alcance das relações entre classes exploradas e exploradoras às relações entre países imperialistas e países subordinados. Mais recentemente, a generalização dos imperativos do mercado tem tomado a forma, por exemplo, de obrigar (com a ajuda de agências capitalistas internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional) fazendeiros do terceiro mundo a substituir estratégias de auto-suficiência em matéria de produtos agrícolas por produção especializada para o mercado globalizado. Os efeitos calamitosos dessas mudanças serão explorados em outros artigos deste número da Monthly Review.

Mas se os efeitos destrutivos do capitalismo reproduzem-se constantemente, seus efeitos positivos não têm tido a mesma consistência. Uma vez estabelecido o capitalismo num país e uma vez tendo começado a impor os seus imperativos no resto da Europa e mais recentemente no mundo todo, seu desenvolvimento nos outros lugares não podia seguir o mesmo curso que havia seguido no seu país de origem. A existência de uma sociedade capitalista transformou daí em diante todas as outras, e a expansão subsequente dos imperativos capitalistas mudou sem cessar as condições do desenvolvimento econômico.

Chegamos a um ponto em que os efeitos destrutivos do capitalismo estão sobrepujando os ganhos materiais. Nenhum país do terceiro mundo, hoje em dia, por exemplo, pode esperar atingir até mesmo o desenvolvimento contraditório que a Inglaterra conheceu. Com as pressões da competição, acumulação e exploração impostas pelos outros sistemas capitalistas mais avançados, a tentativa de alcançar a prosperidade material, de acordo com os princípios capitalistas, cada vez mais deverá trazer com ela somente o lado negativo da contradição capitalista, a expropriação e destruição sem os benefícios materiais, ao menos para a vasta maioria.

Há também uma lição de caráter mais geral que se pode tirar da experiência inglesa de capitalismo agrário. Uma vez que os imperativos do mercado ditam os termos da reprodução social, todos os atores econômicos – tanto apropriadores quanto produtores, mesmo que mantenham a posse, ou mesmo a propriedade dos meios de produção – estão sujeitos às exigências da competição, da produtividade crescente, da acumulação de capital e da intensa exploração do trabalho.

No que concerne a este último aspecto, nem mesmo a ausência de uma divisão entre apropriadores e produtores é uma garantia de imunidade (e isto explica porque “socialismo de mercado” é uma contradição em termos): uma vez que o mercado torna-se o “disciplinador” ou o “regulador” econômico, uma vez que os atores econômicos se tornam dependentes do mercado, no que diz respeito às condições da sua própria reprodução, até mesmo trabalhadores que são donos dos seus meios de produção, individualmente ou coletivamente, serão obrigados a responder aos imperativos do mercado – competir e acumular, abandonar as empresas “não-competitivas” e seus trabalhadores, e a explorar a si mesmos.

A história do capitalismo agrário e tudo que segue mostra com clareza que, onde quer que os imperativos do mercado regulem a economia e governem a reprodução social, não há como escapar da exploração.

Ellen Meiksins Wood é coeditora da Monthly Review.

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