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20 de junho de 2026

O jovem Ho Chi Minh

Ho Chi Minh emergiu do mundo criado pela Era das Revoluções e exigiu que os ideais republicanos se aplicassem além da Europa.

Ian Birchall


Antes de se tornar um símbolo global do anti-imperialismo, Ho Chi Minh era um jovem que levou as promessas da Revolução Francesa ao pé da letra — e exigiu que elas chegassem aos colonizados. (Keystone-France / Gamma-Keystone via Getty Images)

Em 2 de setembro de 1945, em Hanói, o Viet Minh, liderado por Ho Chi Minh, promulgou a Declaração de Independência da República Democrática do Vietnã. Ho era pouco conhecido no Ocidente na época, mas na década de 1960 seu nome era entoado por manifestantes em todo o mundo, para quem ele se tornou um símbolo da resistência do Terceiro Mundo contra o imperialismo americano.

Em uma época anterior, ele era conhecido como Nguyen Ai Quoc, beneficiário de uma educação privilegiada que teria dito que, assim que ouviu o lema “liberdade, igualdade, fraternidade”, desejou conhecer a França. Mas a lei colonial proibia os vietnamitas nativos de deixarem o país; a única maneira de chegar à Europa era trabalhando em um navio. Ele viajou primeiro para Londres e depois para Paris.

Os primeiros contatos de Nguyen ao chegar à França parecem ter sido com a esquerda sindicalista. Ele visitou a Librairie du Travail, uma livraria operária, no antigo prédio do jornal La Vie Ouvrière, um periódico sindicalista revolucionário publicado por Pierre Monatte e Alfred Rosmer, que haviam sido alguns dos internacionalistas mais consistentes desde o primeiro dia da Primeira Guerra Mundial.

Ele então se juntou ao Partido Socialista Francês (SFIO), em meio a um intenso debate para decidir se deveria ou não se filiar à recém formada Internacional Comunista, criada na sequência à Revolução Russa.

O SFIO se reuniu em um congresso em Tours, em dezembro de 1920 para a deliberação, votando a favor da filiação e se tornado o Partido Comunista Francês (PCF), com uma minoria socialista rompendo por aversão à ideia da hegemonia dos bolcheviques russos sobre a Internacional Comunista.

Nguyen falou enquanto delegado, contando à assembleia como sua terra natal era “vergonhosamente oprimida e explorada”, bem como “envenenada” pelo álcool e pelo ópio. As prisões eram mais numerosas que as escolas e a liberdade de imprensa não existia. Ele insistiu que “o Partido deveria fazer propaganda em todas as colônias”, concluindo com o apelo: “Camaradas, salvem-nos!”

Ele foi aplaudido, mas obviamente tocou em certas feridas. Ele foi interrompido duas vezes. Na primeira interrupção, Jean Longuet, neto de Karl Marx, exclamou em defesa de sua própria reputação: “Eu já intervi pela defesa dos nativos!”. Pouco depois, sob a interrupção de um delegado anônimo, Nguyen respondeu com um sonoro “Silêncio, parlamentares!”

As palavras de Nguyen tinham peso especial, uma vez que uma das condições de filiação ao partido exigia dos comunistas que expusesse os truques e esquivas de “seus” imperialistas nas colônias, apoiando não somente em palavras, mas em atos, todos movimentos de libertação colonial, exigindo a expulsão de seus próprios imperialistas das colônias, inculcando entre os trabalhadores de seus países uma atitude genuinamente fraterna aos trabalhadores das colônias e às nações oprimidas, dando continuidade a agitações permanentes entre as tropas de seus países contra qualquer opressão dos povos colonizados.

Uma forma em que o PCF tentou implementar esta nova política foi buscando relações com um grande número de pessoas colonizadas.

Estima-se que entre 1914 e 1918, algo em torno de 900,000 homens das colônias foram arrastados ao conflito europeu: mais de meio milhão de soldados, ao menos 250,000 do norte da África e muitos milhares da Indochina, além de 220,000 trabalhadores. O PCF logo fundou a Union inter-coloniale organização voltada a pessoas de origem colonial vivendo na França e em abril de 1922 lançou a publicação Le Paria, editada por Nguyen-Ai-Quoc.

A Le Paria era um tanto mal-acabada e certamente mal financiada, e sua circulação era sempre baixa. Entretanto, ela conseguiu amalgamar um grupo pequeno porém dedicado de camaradas comprometidos com a luta anti-imperialista. Grupo este que incluía não só Nguyen-Ai-Quoc, mas também um jovem norte-africano, Hadjali Abdelkader, que mais tarde seria candidato à eleição no partido em 1924.

No decurso da campanha, ele recrutou um operário fabril, Messali Hadj e, juntos, fundaram a Étoile Nord-Africaine, a primeira organização a exigir a independência argelina, de onde surgiria a FLN (Frente Nacional de Libertação) nos anos 1950.

Deste modo o Le Paria semeou ao menos algumas das sementes das duas grandes guerras de libertação que dominariam a política francesa nas duas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial. Trinta e seis edições do Le Paria apareceriam entre 1922 e 1926, geralmente em folha única de grande formato, com as manchetes dispostas em alfabetos árabe e chinês.

A principal preocupação do jornal era a situação do império colonial francês. Nguyen-Ai-Quoc escreveu sobre a “crueldade inacreditável” do “funcionário sádico” da administração colonial, contrastando a barbárie da prática colonial francesa com a imagem tradicional da política republicana.

Evocando a imagem feminina de Marianne, que era vista como a personificação da República desde a Revolução Francesa, Nguyen escrevera:

Há dolorosa ironia ao observar que a civilização, simbolizada em suas diversas formas (liberdade, justiça, etc.) pela imagem gentil da mulher e estruturada por uma categoria de homens cuja reputação é de polidez perante as damas, devam fazer com que o símbolo vivo sofra o tratamento mais desprezível, e atacando-a vergonhosamente em seu comportamento, sua modéstia e sua própria vida.

Igual atenção foi dada à luta pelas liberdades políticas, principalmente a liberdade de imprensa, e também protestaram contra o serviço postal por interferir na correspondência ao Le Paria. O jornal animou diversas campanhas, em particular protestando contra a visita do imperador de Annam, Kaï Dinh à Paris.

Raramente o Le Paria colocava a exigência pela independência dos territórios coloniais. O principal impulso das demandas do jornal era pelo fim da repressão e brutalidade nas colônias, assim como pelos direitos iguais entre as populações coloniais e os cidadãos da França metropolitana.

Para este fim, encorajava-se a união entre as classes trabalhadoras da Europa e da Indochina. Num artigo do jornal diário do PCF, L’Humanité, de maio de 1922, Nguyen-Ai-Quoc reconheceu a profundidade da ignorância e preconceito que existia tanto entre os trabalhadores metropolitanos assim como entre os trabalhadores coloniais.

Após citar Lenin acerca da necessidade dos trabalhadores metropolitanos auxiliar as lutas em nações subjugadas, ele observou tristemente: “Infelizmente, há ainda muito militantes que pensam que a colônia não é nada senão um país cheio de areia sob a luz reluzente do sol, alguns coqueiros verdes e homens de cor; e só”.

Enquanto isso, a maioria do habitantes das colônias ou eram repelidos pela ideia do Bolchevismo, ou identificavam-no puramente com o nacionalismo. No que diz respeito à minoria educada, esta talvez compreendesse de que se tratava o comunismo, mas não possuía interesse em vê-lo estabelecido: “como o cão da fábula, eles preferem usar uma coleira, mas garantir seu osso”.

Por isto, Nguyen argumentou:

Da ignorância mútua de ambos os proletariados nascem os preconceitos. Para o trabalhador francês, o nativo é um ser inferior, insignificante, incapaz de compreender e muito menos de agir. Para o nativo, os franceses – sejam lá quem eles forem – são todos exploradores maldosos. Imperialismo e capitalismo não falham em tirar vantagem desta desconfiança mútua e desta hierarquia racial artificial para obstruir a propaganda e dividir forças que deveriam se unir.

E ele conclui: “frente a essas dificuldades, o que deve fazer o Partido? Intensificar a propaganda para superar-los.”

Assim o Le Paria defendeu a unidade entre os operários metropolitanos e coloniais. Em um “Apelo às Populações Coloniais” de agosto de 1922, insistia: “Perante o capitalismo e o imperialismo, nossos interesses são os mesmos. Lembremos das palavras de Karl Marx: Trabalhadores de todos os países, uni-vos”. Na edição seguinte, Max Clainville-Bloncourt reforçaria: “Irmãos nas colônias, é indispensável que vocês se dêem conta que não há salvação possível para vocês por fora da conquista do poder político na Europa pelas massas trabalhadoras”.

Esta mensagem atingiu principalmente as colônias. Sua tiragem inicial parece ter sido de 1.000, chegando até 3.000. A maioria dos exemplares foram para as colônias; de 2000 cópias, somente 500 ficaram em França, enquanto 500 foram para Madagascar, 400 para o Daomé, 200 para o Magrebe, 100 para a Oceania e 200 para a Indochina.

Dado que a distribuição era clandestina e as cópias frequentemente confiscadas pelas autoridades, é difícil saber de fato a amplitude em que o jornal era distribuído. Mas o Le Paria sem dúvida foi bem sucedido na construção de um time entusiasmado de ativistas que carregavam o jornal a despeito da pouca adesão por camadas mais amplas do PCF.

Le Paria na prática desapareceu após setembro de 1925, lançando sua última edição em abril de 1926. Aos poucos, porém continuamente, os quadros entusiasmados e corajosos que haviam construído o Le Paria se dispersaram. Nguyen-Ai-Quoc/Ho Chi Minh partiu para Moscou em 1923 e logo embarcou na linha majoritária stalinista, do comunismo oficial.

Internacionalismo minguante

O espírito do internacionalismo proletário que animou o pequeno grupo de pioneiros em torno do Le Paria desapareceu junto com Ho Chi Minh, cimentando a relação desigual da esquerda francesa com o imperialismo.

Em nenhum lugar isso ficou mais claro do que no Sudeste Asiático. A Indochina Francesa foi formada inicialmente em outubro de 1887, após a Guerra Sino-Francesa. Um dos arquitetos da colonização foi Jules Ferry, primeiro-ministro até 1885. Ferry era abertamente racista, tendo declarado à Assembleia Nacional em 1885 “Nós devemos dizer abertamente que raças superiores... têm o dever de civilizar raças inferiores”.

Sua outra conquista notável foi estabelecer a educação gratuita, compulsória e laica na França. Ainda que isto às vezes seja visto como parte da herança de esquerda, ela era integral as aspirações imperiais de Ferry. Uma vez que França deveria se tornar um grande poder imperial, necessitaria de um exército, largamente composto de camponeses com um forte senso de identidade nacional.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Indochina foi governada por uma administração colonial francesa controlada pelo governo pró-Alemanha de Vichy, que fez um acordo com o Japão em 1940. Em 1945 o Japão, por sua vez, ocupou o território. Após os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, o Japão se rendeu rapidamente, tomando de surpresa os Aliados, que imaginavam que a guerra continuasse até 1946.

Inicialmente, não foi a França que reocupou o Vietnã, mas a Grã-Bretanha, então governada pelos trabalhistas. Foi decidido na conferência de Potsdam, em julho de 1945, que as forças chinesas ocupariam a parte norte da Indochina e as tropas britânicas a metade sul.

A França ainda se recuperava de quatro anos de ocupação e precisava de tempo para reorganizar suas forças armadas. Somente em outubro as tropas francesas iniciaram (por navio) sua retirada da Indochina. As forças britânicas, utilizando as tropas japonesas recém derrotadas, intervieram para garantir que a França pudesse reclamar sua colônia mais para frente. Charles De Gaulle, que encabeçou o governo provisório da França em 1945, expressou o momento pós-guerra em transmissão radiofônica, anunciando a fundação da Quarta República:

Nossos portos estão reabrindo. Nossos campos estão sendo arados. Nossas ruínas estão sendo clareadas. Quase todos que deixaram a França retornaram. Estamos recuperando nosso imperio. Estamos estabelecidos no Reno. Estamos retomando nosso lugar no mundo.

Os partidos de esquerda que dominavam o governo – comunistas, socialistas e democratas cristãos – não fizeram oposição às exaltações imperialistas de De Gaulle. De fato, até 1947, mesmo após o início de uma guerra de larga escala, ministros comunistas respeitaram a disciplina ministerial votando a favor dos créditos de guerra (ainda que deputados comunistas tenham demonstrado sua oposição se abstendo na votação).

Um representante da Indochina que visitou a França em 1946 relatou uma reunião com o líder comunista Maurice Thorez na qual declarou que o partido “não tinha a intenção de ser considerado responsável por liquidar as posições francesas na Indochina, e que [ele] desejava ardentemente ver a bandeira francesa tremulando em todos os cantos da União Francesa”.

O Partido Socialista estava igualmente disposto a preservar o império. O líder veterano Léon Blum defendeu a fórmula de reconhecer o Vietnã como “um estado livre dentro da União Francesa”, mas justificou a decisão com uma retórica muito própria ao imperialismo: “Há apenas um único meio de preservar, na Indochina, o prestígio de nossa civilização, de nossa influência política e espiritual, assim como de nossos legítimos interesses materiais, e isto seria um acordo sincero baseado na independência”.

A guerra na Indochina começou em 1946, sob o governo de Blum, em parte por ele ter fracassado em questionar o comando militar francês que tornou a guerra inevitável.

Apenas pequenas correntes à esquerda se opuseram à recolonização da Indochina. Em 22 de dezembro de 1945, o jornal independente de esquerda Franc-Tireur publicou um ataque vigoroso à política externa francesa, citando uma carta de um um soldado francês que comparava as ações francesas na Indochina ao Massacre de Oradour, uma das piores atrocidades durante a ocupação nazista da França.

Uma série de fatores levou a esquerda francesa a fracassar na oposição ao restabelecimento do Império Francês, incluindo a lealdade do Partido Comunista à Rússia, que naquele ponto não queria causar problemas desafiando o imperialismo ocidental.

Mas o principal fator foi a tradição republicana que dominava o pensamento político francês, especialmente à esquerda. Isto encorajou a noção de que o papel da França no mundo era um progressivo, trazendo a civilização e o esclarecimento aos territórios ignorantes – a chamada “missão civilizatória”

Acreditava-se que os habitantes do mundo colonial podiam e deviam aspirar a nada mais do que serem cidadãos da República Francesa. É interessante contrastar tal visão com a postura do governo britânico pós-Guerra, que aceitou a independência indiana. A França, ao contrário, se agarrou à Indochina e à Argélia até que fosse expulsa por meio de amargas e prolongadas lutas pela independência.

O restante da história é conhecido. Os franceses lutaram para manter a Indochina até serem finalmente derrotados na batalha de Dien Bien Pu em 1954. O Vietnã foi dividido, mas o papel estadunidense em inflar seu aliado sul-vietnamita levou a mais guerra. Somente em 1975 o Vietnã finalmente alcançou a independência, após três décadas de guerras que deixaram em cerca de dois milhões de mortos.A realidade poderia ter sido outra? Estas especulações são sempre complicadas. Porém, se a esquerda francesa tivesse sido verdadeira aos princípios verdadeiramente internacionalistas em 1945, aqueles pelos quais o jovem Ho Chi Minh havia lutado no início dos anos 1920, a história talvez tivesse tomado um rumo menos trágico.

Colaborador

Ian Birchall é autor de Sartre Against Stalinism e de diversos artigos e ensaios sobre a obra de Jean-Paul Sartre.

23 de março de 2025

Pierre Naville abriu um caminho surrealista para o marxismo

A rebelião artística não convencional do surrealismo pode parecer muito distante do trabalho sóbrio e disciplinado dos revolucionários marxistas. Mas o escritor francês Pierre Naville uniu o surrealismo e o marxismo em meio à turbulência da Europa entre guerras.

Ian Birchall


Pierre Naville, como muitos surrealistas, concluiu que não poderia revolucionar a arte sem revolucionar a sociedade. (Bill Smith / Flickr)

Nos anos após o fim da Primeira Guerra Mundial, houve movimentos de revolta política e cultural, lançados por uma nova geração determinada a não haver repetição do terrível massacre. A Revolução Russa de 1917 levou à criação de um movimento comunista internacional, com partidos comunistas de massa formados na França, Alemanha, Itália e outros lugares.

Crescendo a partir da crítica das ideias tradicionais de arte pelos dadaístas, o grupo surrealista, sob a liderança de André Breton, atraiu poetas e pintores que defendiam uma arte que se originava na mente inconsciente. O uso de justaposições inesperadas desafiou associações convencionais aceitas. Breton definiu o surrealismo como "não-conformismo absoluto".

Os dois movimentos, político e artístico, não coincidiram apenas no tempo — houve uma sobreposição de pessoal entre eles. Pierre Naville foi uma figura importante na interação do surrealismo e do comunismo. Ele se tornou um ativista bem conhecido na esquerda francesa ao longo de sete décadas.

Um grito do espírito

Nascido em 1904, Naville, poeta e pintor, juntou-se ao grupo surrealista de Paris em 1924. Os surrealistas buscavam desafiar todas as convenções existentes; eles concluíram que não poderiam revolucionar a arte sem também fazer uma revolução na sociedade.

Como sua declaração de janeiro de 1925 colocou, "O surrealismo não é uma forma poética. É um grito do espírito... determinado a quebrar seus grilhões. Se necessário, com martelos materiais." Mas onde esses "martelos materiais" poderiam ser encontrados? Os surrealistas permaneceram confinados à política de gestos — por exemplo, escrevendo cartas abertas a figuras de autoridade odiadas, como o Papa.

Em 1925, Naville foi convocado para o serviço militar. Enquanto estava no exército, ele tomou a arriscada decisão de se tornar ativo como comunista, distribuindo panfletos nos quartéis se opondo à guerra colonial da França no Marrocos; ele foi preso por um mês. Agora ele começou a procurar um caminho a seguir além da revolta surrealista. Ele se juntou ao Partido Comunista Francês (PCF) em 1926.

No mesmo ano, ele escreveu um panfleto, Revolução e Intelectuais, que teria uma influência considerável no meio surrealista. Naville decidiu se comprometer com a atividade política no movimento comunista, e ele estava desafiando seus amigos surrealistas a seguir seu exemplo.

Ele queria que eles fossem além de uma abordagem negativa e anarquista em favor da ação disciplinada da luta da classe trabalhadora, e se comprometessem com o que ele via como o único caminho revolucionário, ou seja, o marxista. Ele lembrou a seus camaradas surrealistas que "a burguesia não tem medo dos chamados intelectuais de esquerda. ... As massas são agentes da força revolucionária; elas não precisam da assistência sempre suspeita dos intelectuais."

Ele também os confrontou com a seguinte questão:

Os surrealistas acreditam na libertação do espírito antes da abolição das condições burguesas da vida material, ou eles consideram que um espírito revolucionário pode ser criado somente após a revolução ter sido realizada?

Seu argumento claramente teve um impacto, pois em 1927 cinco surrealistas, incluindo Breton, Louis Aragon e Paul Éluard, se juntaram ao PCF.

Comunismo e trotskismo

Como comunista, Naville se tornou uma figura-chave no jornal Clarté, lançado em 1919 pelo romancista anti-guerra Henri Barbusse em apoio à Revolução Russa. Mas ele também se tornou um ativista: em sua autobiografia, ele descreve seu trabalho na célula do partido anexa à fábrica de aeronaves Farman em Billancourt, em Paris, distribuindo folhetos, realizando reuniões nos portões das fábricas e vendendo jornais em estações de metrô.

É interessante comparar a evolução política de Naville com a de outros surrealistas, como Breton e Aragon. Breton se juntou brevemente ao PCF, mas se sentiu incapaz de dar um relatório sobre a situação econômica na Itália para uma reunião de célula para trabalhadores do gás. Aragon se tornou um comunista vitalício, mas também se tornou um stalinista leal que abandonou todos os princípios surrealistas.

As ideias revolucionárias de Naville logo o colocaram em conflito com o Partido Comunista cada vez mais stalinista. Ele visitou a Rússia em 1927, na época da expulsão de Leon Trotsky do partido. Lá, ele conheceu Trotsky e também Victor Serge, um jornalista revolucionário e uma figura importante na Oposição de Esquerda.

Em grande parte sob a influência de Naville, Clarté se tornou um jornal da Oposição de Esquerda Trotskista, mudando seu nome para Lutte de Classes ("Luta de Classes"). Na revista renomeada, ele publicou uma seção do livro de Serge, Ano Um da Revolução Russa, que contrastava os primeiros anos da revolução com sua degeneração posterior. Clarté já havia publicado o relato de Serge sobre a fracassada revolução chinesa em 1927.

Naville foi expulso do Partido Comunista em 1928. Mas o PCF ainda não havia sido totalmente dominado pelo stalinismo. Sua seção local passou dois dias inteiros debatendo sua expulsão e as questões que surgiram dela.

Ele também rompeu com o grupo surrealista, que Breton administrava cada vez mais como se fosse uma seita política. Breton denunciou Naville pela razão um tanto bizarra de que ele estava pegando dinheiro de seu pai, que era banqueiro, para financiar publicações revolucionárias — certamente era uma atividade louvável desviar dinheiro de um capitalista para usar em uma causa revolucionária? Demorou algum tempo até que Breton também rompesse completamente com o stalinismo, embora ele eventualmente se identificasse com Trotsky e se juntasse a ele na publicação de um manifesto sobre arte revolucionária.

Em 1929, Naville, com sua esposa, Denise, visitou o exilado Trotsky na Turquia. Eles discutiram um plano pelo qual Trotsky escaparia para a França de iate, embora isso não tenha dado em nada. Ele se tornou ativo no movimento trotskista internacional; em 1930, ele estava em Berlim, ajudando a organizar a Oposição de Esquerda.

Nos primeiros anos do movimento trotskista, Naville trabalhou em estreita colaboração com Alfred Rosmer, um antigo sindicalista revolucionário e veterano da Internacional Comunista. Em um ponto, Trotsky pareceu desconfiar de Naville por ser muito intelectual, preferindo o entusiasmo juvenil de Raymond Molinier. A esposa de Rosmer, Marguerite, escreveu a Trotsky defendendo Pierre e Denise Naville: "Eles vendem jornais às 6:00 da manhã, nos portões de fábricas de folhetos — isso é desintelectualizá-los, eu lhe asseguro."

Em 1934, Naville se opôs à decisão dos trotskistas franceses de trabalhar dentro do Partido Socialista. No entanto, ele aceitou a disciplina da organização e permaneceu ativo no movimento trotskista.

Em 1938, Rudolf Klement — o homem responsável por organizar a conferência de fundação da Quarta Internacional, lançada por Trotsky como uma alternativa ao stalinismo — foi sequestrado por agentes soviéticos, decapitado e jogado no rio Sena. Como resultado, grande parte do trabalho de secretaria envolvido na fundação da Quarta Internacional caiu sobre os ombros de Naville. Em particular, ele preparou um relatório de membros identificando os pequenos grupos de revolucionários anti-stalinistas em países ao redor do mundo.

Denise Kahn

Naville se casou com Denise Kahn em 1926, e ela permaneceria sua companheira e camarada até sua morte em 1969. Seu desenvolvimento durante aqueles anos revelou as profundas ambiguidades na atitude surrealista em relação às mulheres — não havia mulheres no grupo original de Breton.

Denise foi bem recebida pelos surrealistas, aclamada como uma musa. Breton, Aragon e Éluard escreveram poemas para ela. Mas ela não foi encorajada a se tornar uma escritora "criativa"; em vez disso, ela trabalhou como tradutora.

Nascida em uma família de língua francesa residente na Alemanha, ela era perfeitamente bilíngue em francês e alemão, e ao longo dos quarenta anos seguintes ela traduziu uma ampla gama de textos literários, políticos e sociológicos, fazendo uma grande contribuição para a vida intelectual francesa. Suas traduções incluíam o trabalho de Friedrich Engels (A Dialética da Natureza) e Nikolai Bukharin, assim como Sobre a Guerra, de Carl von Clausewitz.

Quando Pierre passou do surrealismo para o trotskismo, Denise foi ativa junto com ele e colocou seus talentos a serviço do movimento. Ela visitou Trotsky no exílio e o ajudou a preparar versões alemãs de seus livros.

Em 1934, ela acompanhou Trotsky a Copenhague, onde ele deu uma palestra sobre a Revolução Russa para um público de mais de duas mil pessoas. Ela traduziu vários artigos para a imprensa trotskista e organizou a publicação na França de material da Oposição de Esquerda Russa.

Um marxista independente

No entanto, Pierre Naville não permaneceu por muito tempo no movimento trotskista. Em 1939, diante da iminente eclosão da guerra, Trotsky instou seus seguidores na França a se juntarem à nova organização formada por Marceau Pivert, cujos seguidores haviam sido excluídos do Partido Socialista. O líder trotskista americano James P. Cannon veio a Paris para impor a tática. Naville se recusou a seguir a nova linha e rompeu seus laços com o trotskismo organizado. No entanto, ele permaneceu comprometido com o marxismo e continuou a pensar muito bem de Trotsky como indivíduo.

Depois de ser convocado para o exército francês em 1939, ele passou algum tempo em um campo de prisioneiros de guerra alemão durante a guerra, mas foi libertado por motivos de saúde. Sob a ocupação alemã da França, ele publicou dois livros.

Um foi um estudo do filósofo do século XVIII Paul-Henri d'Holbach, no qual Naville afirmou que as ideias de Marx deviam mais ao materialismo iluminista do que ao filósofo idealista alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel. O outro foi um estudo da psicologia behaviorista de J. B. Watson. Ambas as obras tinham a intenção de servir como uma defesa do materialismo contra as ideias idealistas e religiosas promovidas pelo regime pró-alemão de Vichy, cujo slogan era "Trabalho, Família e Pátria".

Pelo resto de sua vida, Naville escreveu prolificamente, publicando livros sobre psicologia, sociologia e estratégia militar. Ele contribuiu amplamente para a imprensa de esquerda, polemizando com o filósofo Jean-Paul Sartre e outros em defesa de sua compreensão do marxismo.

Ele estava particularmente interessado em examinar a teoria da exploração de Karl Marx, considerando isso mais significativo do que a preocupação do jovem Marx com a alienação. Ele também estava preocupado com salários e horas de trabalho e insistia que o controle dos trabalhadores deve estar no centro do projeto socialista. Naville escreveu extensivamente sobre os estados do bloco oriental, especialmente em sua obra de sete volumes The New Leviathan, onde condenou o regime na URSS como imperialista e um obstáculo à renovação socialista.

Ao mesmo tempo, ele nunca abandonou o ativismo político. No final da guerra, ele lançou uma nova publicação, La Revue Internationale. A Libertação foi um período de fermentação intelectual, e o diário de Sartre, Les Temps modernes, teve influência considerável. O objetivo de Naville era produzir um periódico rival que fosse explicitamente marxista.

O periódico manteve um padrão consistentemente alto, trazendo, por exemplo, os escritos de David Rousset sobre suas experiências em um campo de concentração alemão. No entanto, enfrentou problemas financeiros contínuos e não conseguiu decolar, cessando a publicação em 1951.

Memórias combativas

Naville também queria ajudar a desenvolver uma alternativa política às principais organizações da esquerda francesa: o irremediavelmente stalinista PCF e o Partido Socialista, que estava cada vez mais comprometido com o colonialismo francês e suas guerras na Indochina e na Argélia.

Em 1960, um grupo considerável de membros do Partido Socialista que não conseguiam mais tolerar a política argelina de seu partido se fundiu com outros grupos de esquerda para fundar o Parti Socialiste Unifié (Partido Socialista Unido ou PSU). Naville ajudou a redigir a declaração de fundação do PSU e foi membro da liderança do partido, concorrendo duas vezes como candidato parlamentar. Nas décadas de 1960 e 1970, o PSU teve uma influência considerável no desenvolvimento de um polo de esquerda independente na França.

Embora se possa criticar algumas das posições intelectuais e políticas particulares de Naville, está claro que ele permaneceu leal aos princípios que o inspiraram a partir da década de 1920. No prefácio de um livro sobre surrealismo, publicado pouco antes de sua morte em 1993, ele escreveu:

Não é simplesmente uma questão de manter vivas as memórias: é também altamente necessário recorrer a essas memórias como uma fonte de ação combativa capaz de resistir à opressão de todos os tipos. Ainda somos, e por muito tempo, as vítimas rebeldes dessa opressão.

Colaborador

Ian Birchall é o autor de Sartre Against Stalinism e de muitos artigos e ensaios sobre a obra de Jean-Paul Sartre.

25 de novembro de 2024

Jean-François Lyotard e a Revolução Argelina

Jean-François Lyotard é mais lembrado hoje como um teórico do pós-modernismo. Durante a década de 1950, Lyotard estava ativamente envolvido no apoio à luta pela liberdade da Argélia, enquanto identificava realisticamente os problemas que viriam após a independência.

Ian Birchall

Jacobin

Jean-Francois Lyotard. (Wikimedia Commons)

Em 1945, a França ainda tinha o segundo maior império colonial do mundo, cobrindo quase um décimo da superfície da Terra. Vinte anos depois, a maior parte dele havia desaparecido, após duas guerras amargas e sangrentas pela independência nacional na Indochina e na Argélia.

Muitos na esquerda francesa tentaram entender o significado das mudanças importantes que estavam ocorrendo. Uma contribuição que ainda permanece interessante hoje foi a de Jean-François Lyotard, que combinou sua análise teórica dos eventos na Argélia com um perigoso trabalho clandestino em apoio ao seu movimento de independência nacional.

Hoje, Lyotard é lembrado principalmente como um dos principais pensadores do "pós-modernismo", um termo que ele ajudou a popularizar com seu livro de 1979, The Postmodern Condition. Entre 1956 e 1963, no entanto, ele escreveu uma série de artigos perspicazes sobre a luta argelina pela independência, com base em sua própria experiência do país.

Contra todo imperialismo

Nascido em 1924, Lyotard estudou filosofia e foi enviado para lecionar em um liceu (escola secundária) na Argélia. Uma ficção legal declarou que a Argélia não era uma colônia, mas uma parte integrante do território francês, embora a vasta maioria da população muçulmana indígena não tivesse direitos de cidadania e muitos vivessem em pobreza abjeta.

Lyotard foi radicalizado por sua experiência de racismo colonial na Argélia, que ele via como “um povo inteiro de alta civilização que havia sido ofendido e humilhado”. Ele se tornou amigo de outro professor de francês, Pierre Souyri, um de cujos alunos foi Mohamed Harbi, que mais tarde se tornaria uma figura de liderança no movimento de independência da Argélia, a FLN (Frente de Libertação Nacional).

Uma ficção jurídica declarou a Argélia não como uma colônia, mas como parte integrante do território francês.

Em seu retorno à França, Lyotard e Souyri se tornaram ativistas socialistas, juntando-se ao pequeno grupo revolucionário Socialisme ou Barbarie (Socialismo ou Barbárie, abreviado como SouB). Os "bárbaros sociais", como eles se autodenominavam, haviam se separado da organização trotskista francesa em 1948, argumentando que a burocracia dominava o mundo oriental e ocidental, e que no leste formava uma nova classe dominante.

SouB era uma pequena organização que nunca teve mais de cem membros. No entanto, foi uma das poucas organizações de extrema esquerda a fazer uma tentativa séria de entender as mudanças que estavam ocorrendo no mundo do pós-guerra, especialmente no periódico de mesmo nome que seus membros publicavam.

Lyotard escreveu uma série de artigos sobre a Guerra da Argélia, a maioria dos quais foi posteriormente traduzida na coleção Political Writings de 1993. Eles começam com uma condenação total do colonialismo francês. Lyotard insistiu que a luta pela independência da FLN tinha profundas implicações revolucionárias:

A conquista da “independência” nacional forçará os colonos a recuar, a abandonar o aparato terrorista que era necessário para a superexploração; cria assim uma situação revolucionária caracterizada pela partilha do poder, econômico para os colonos, político para os “nacionalistas”; e dentro desta situação a questão da propriedade terá eventualmente de ser colocada.

Escrevendo nos primeiros meses de 1956, numa situação em que um governo liderado pelo líder do Partido Socialista Guy Mollet estava intensificando a guerra e até o Partido Comunista Francês (PCF) estava apoiando “poderes especiais” para prossegui-la, ele enfatizou a necessidade de apoio incondicional à independência nacional:

Portanto, na França metropolitana não podemos deixar de apoiar esta luta em todas as suas consequências extremas. Ao contrário de toda a “esquerda”, a nossa preocupação não é de forma alguma preservar a “presença francesa no Magreb”. Somos incondicionalmente contra todo o imperialismo, incluindo o imperialismo francês. Somos incondicionalmente opostos à continuação do terror.

Solidariedade crítica

No entanto, Lyotard também identificou complicações em mostrar solidariedade à FLN. Uma pequena minoria na esquerda francesa deu apoio ativo à luta pela independência da Argélia, alguns deles fornecendo assistência prática à FLN — esses eram os chamados "carregadores de malas", que transportavam dinheiro e documentos clandestinamente.

Muitos desses ativistas acreditavam que a FLN estava lutando não apenas pela independência nacional, mas também pela transformação socialista da Argélia. Essa atitude foi encorajada pelo fato de que a FLN, sabendo que era mais provável obter apoio prático da extrema esquerda, tendia a usar retórica socialista ao se dirigir aos esquerdistas.

Uma pequena minoria da esquerda francesa deu apoio ativo à luta pela independência da Argélia, alguns deles prestando assistência prática à FLN.

Essas ilusões faziam parte do "Terceiro-mundismo" que era difundido na esquerda francesa. O termo "Terceiro Mundo" foi lançado em 1952, por analogia com o Terceiro Estado durante a Revolução Francesa. Muitos ativistas acreditavam que a classe trabalhadora francesa havia se tornado passiva e que o locus da mudança revolucionária havia mudado dos países em que o capitalismo era mais desenvolvido para os territórios do mundo subdesenvolvido.

Foi para combater essas perspectivas que Lyotard desenvolveu sua crítica à FLN. Ele mostrou que a liderança da FLN derivava principalmente de elementos burgueses na população argelina: “Os quadros atuais da FLN são, em sua maioria, elementos das classes médias, o que significa que a resistência é o ponto de convergência entre a burguesia jacobina e os camponeses.”

Com base neste ponto, ele analisou a liderança da FLN como uma burocracia em formação: “O processo em andamento dentro de uma situação revolucionária que tem cinco anos é o da formação de uma nova classe, e todos os fatores que compõem essa situação significam que essa classe será necessariamente uma burocracia.” Isso se referia não apenas à maneira como a FLN estava conduzindo a guerra, mas ao fato de que aspirava ser a elite governante em uma Argélia independente.

Como Lyotard escreveu em 1957:

A Frente era originalmente um corpo militar; a subordinação de toda a sua atividade ao apoio ao ELN [Exército de Libertação Nacional] e aos guerrilheiros implicava a necessidade de uma única liderança onipotente. Por mais de dois anos, essa liderança não esteve sob o controle das massas; pelo contrário, as massas estão recebendo a marca de sua propaganda e sua ação. 
Agora, esse aparato único e centralizado é movido pela lógica do desenvolvimento para se enraizar cada vez mais solidamente no campo e nas cidades, e para controlar toda a sociedade muçulmana cada vez mais firmemente. Agora, ele tende a tomar a administração do país em suas mãos. Isso significa que a FLN já está se preparando para o papel de ser o estrato administrativo na sociedade argelina e que está trabalhando objetivamente para confundir as linhas entre a organização atual e o estado futuro.

Além disso, a independência argelina tinha para Lyotard ser vista em um contexto internacional. O mundo estava dividido em dois blocos de poder centrados em Washington e Moscou, e uma Argélia independente seria obrigada a se alinhar a um bloco ou outro. Uma razão pela qual o Partido Comunista Francês foi tão morno em seu apoio à independência argelina foi porque temia que a Argélia pudesse se alinhar aos Estados Unidos:

Atualmente, as possibilidades para o imperialismo americano em um Norte da África "independente" são muito maiores do que as da burocracia russa. Ao manter a burguesia francesa ali, de uma forma ou de outra, o PCF mantém aberta a futura ação do imperialismo stalinista, do qual já temos uma prefiguração hoje no Oriente Médio.

Após a Independência

Lyotard sempre fez essas críticas à FLN, fundamentais como eram, no contexto de um compromisso total com a independência da Argélia. Como ele revelou mais tarde, enquanto escrevia esses artigos, ele tinha sido — sem o conhecimento de seus próprios camaradas no SouB — ativo na rede de "carregadores de malas" liderada pelo comunista egípcio Henri Curiel. Tal combinação de análise lúcida e solidariedade prática era muito rara na esquerda francesa.

A França foi finalmente obrigada a conceder a independência à Argélia em julho de 1962. Depois de mais de cinco anos em uma prisão francesa, o líder da FLN, Ahmed Ben Bella, tornou-se presidente. A princípio, parecia que as promessas de reforma social radical seriam implementadas. Falou-se muito sobre o socialismo argelino e especialmente sobre o desenvolvimento da democracia dos trabalhadores na forma de autogestão ("autogestão"). Alguns dos esquerdistas que estavam mais envolvidos na solidariedade com a FLN se mudaram para a Argélia para ajudar na construção do socialismo lá.

Lyotard era mais pessimista. Em um longo artigo para o SouB publicado logo após a independência, ele apontou para as perspectivas limitadas para a Argélia:

Eles esperavam uma revolução; o que obtiveram foi um país que havia se desintegrado. No vácuo político que se seguiu à independência, a liderança da FLN se dividiu em fragmentos. Alegria pelo fim da guerra e a efervescência da libertação ter murchado, as massas se tornaram inativas. Quando intervieram, foi apenas para mostrar aos líderes que estavam fartos de suas brigas.

As alegações de que o controle dos trabalhadores existia na Argélia eram ilusórias para Lyotard:

A incapacidade dos trabalhadores de criar sua própria organização política e ideologia mostra que o problema que confrontava a Argélia colonial não era o do socialismo. As alternativas não eram: proletária ou livre — mas Argélia colonial ou independente. ... O problema que o país enfrenta não é o do socialismo. A palavra é usada pelos líderes, mas o espírito do socialismo não move as massas, e não pode, porque a crise atual não resulta da incapacidade do capitalismo de assegurar o desenvolvimento do país. ... Pelo contrário, resulta do fato de que o próprio capitalismo, isto é, uma dominação positiva do homem sobre suas necessidades elementares — trabalhar, comer, não morrer de frio ou de doença — não foi desenvolvido.

As perspectivas para os trabalhadores e camponeses eram muito limitadas nestas circunstâncias:

A Argélia ainda não pertence àqueles que vivem lá, e eles ainda têm a tarefa de conquistá-la. Ela pode ser abalada por crises — fome, desemprego, pobreza, desespero as produzirão. Mas nenhuma delas será decisiva e dará uma resposta à crise da qual a Argélia está sofrendo até que uma classe social, ou uma fração fortemente organizada e enraizada da sociedade, construa e faça todos aceitarem um modelo de novos relacionamentos.

Ele provou estar certo. Três anos depois, Ben Bella foi derrubado em um golpe por um de seus próprios ex-camaradas, Houari Boumédiène, que governou a Argélia até sua morte em 1978. Não houve resistência dos trabalhadores e camponeses argelinos, que pareciam pouco dispostos a defender os supostos ganhos sob Ben Bella.

Os argelinos enfrentaram décadas de regime militar, repressão e, por fim, guerra civil na década de 1990.

Esquerdistas franceses que foram para a Argélia para apoiar o novo regime foram presos. Alguns, em uma suprema ironia, foram até torturados pelas forças de segurança do novo estado, assim como os franceses haviam torturado anteriormente os apoiadores da FLN. Os argelinos enfrentaram décadas de governo militar, repressão e, finalmente, guerra civil na década de 1990.

A análise de Lyotard foi, portanto, mostrada como válida. Isso foi reconhecido por Mohamed Harbi, um ativista líder na FLN que mais tarde se tornou um historiador distinto. Acima de tudo, Lyotard insistiu no fato de que "desenvolvimento e socialismo não são a mesma coisa", como ele observou em 1963. A luta pela emancipação social genuína ainda estava no futuro.

Não há lições simples para hoje. A história não se repete, embora haja alguns paralelos que se pode traçar entre a FLN e o Hamas na Palestina moderna — e entre as tentativas francesas de assassinar líderes da FLN e o ataque do regime israelense à resistência palestina. Apoiadores e críticos do Hamas citaram amplamente o principal intelectual da FLN, Frantz Fanon.

Mas o impulso básico da análise de Lyotard permanece verdadeiro, independentemente das distinções que podemos fazer entre um país ou um período histórico e outro. Os socialistas apoiam incondicionalmente a luta contra o domínio colonial, qualquer que seja a forma que ele tome, mas a luta pelo socialismo deve ir muito além disso.

Colaborador

Ian Birchall é o autor de Sartre Against Stalinism e muitos artigos e ensaios sobre a obra de Jean-Paul Sartre.

2 de novembro de 2020

O primeiro passo na longa caminhada do Vietnã para a liberdade

Hoje, há setenta e cinco anos, o Vietnã lançou uma tentativa de liberdade nacional com sua Declaração de Independência. O regime colonial francês respondeu com repressão brutal, dando início a trinta anos de conflito destrutivo.

Ian Birchall

Soldados reunidos em 2 de setembro de 1945, na Praça Ba Dinh em Hanói para o desfile do Dia da Independência. Foto: Museu Ho Chi Minh

Em 2 de setembro de 1945, a Declaração de Independência da República Democrática do Vietnã foi proclamada em Hanói. Esse acontecimento sinalizou que o mundo emergente da Segunda Guerra Mundial seria muito diferente daquele que existia anteriormente.

Em vez de ceder ao desejo de liberdade nacional, o governo francês tentou restaurar seu regime colonial. Essa recusa em conceder autodeterminação ao povo da Indochina preparou o cenário para trinta anos de um conflito imensamente destrutivo, durante o qual os Estados Unidos assumiram o papel da França em nome do anticomunismo.

As cicatrizes dessa longa luta, tanto físicas quanto psicológicas, ainda são bastante evidentes hoje. Tudo isso poderia ter sido evitado se as autoridades em Paris tivessem respondido à Declaração de Independência do Vietnã com um espírito de democracia e não de dominação colonial.

A Indochina colonial

A França colonizou a Indochina — Vietnã, Laos e Camboja — a partir da década de 1880. O primeiro-ministro francês na época era Jules Ferry, um racista que argumentava que as “raças superiores” tinham o dever de civilizar as “raças inferiores”. Hoje, Ferry é mais lembrado por ter estabelecido a educação secular, independente da igreja, na França. Um sistema educacional controlado pelo Estado, que inculcava os valores do patriotismo e do militarismo, fazia parte do pacote colonialista.

As possessões coloniais da França cresceram rapidamente. Em 1919, a França possuía o segundo maior império do mundo, abrangendo quase um décimo da área terrestre mundial e 5% da sua população. Era o segundo maior em tamanho (e brutalidade), perdendo apenas para o império britânico.

Em 1931, as autoridades francesas organizaram uma exposição colonial em Paris, que foi visitada por 8 milhões de pessoas. O ministro das colônias, Paul Reynaud, descreveu a colonização como “o maior fato da História” e vangloriou-se de que “nosso domínio sobre o mundo está se estreitando a cada dia”. Quando Reynaud morreu em 1966, o império francês havia se desintegrado completamente.

A justificativa francesa para o colonialismo repousava sobre a chamada missão civilizadora — a alegação de que estava levando a civilização a países supostamente “atrasados”. Líderes franceses muitas vezes davam a esse argumento uma conotação progressista, sugerindo que os valores da Revolução Francesa de 1789 estavam sendo exportados para o mundo. No entanto, para os habitantes de uma colônia como a Indochina, havia muito pouca liberdade ou igualdade — e menos ainda fraternidade.

Uma missão de barbárie

Em 1931, uma jornalista francesa, Andrée Viollis, acompanhou uma visita ministerial oficial à Indochina. Isso lhe deu acesso aos círculos oficiais, mas ela também aproveitou a oportunidade para encontrar prisioneiros políticos. O resultado foi um livro, SOS Indochina (1935), que ofereceu um relato devastador da realidade da vida na colônia francesa.

Em vez da tão alardeada “missão civilizadora”, Viollis encontrou exploração e pobreza extrema. Em um distrito, havia apenas um médico para 160 mil habitantes indígenas. O regime colonial enfrentava a resistência com repressão selvagem e o uso frequente da tortura.

Viollis havia visitado anteriormente a Índia, sob domínio britânico. Ela acreditava que a França “usava métodos de colonização mais humanos e inteligentes do que a Inglaterra”. No entanto, como ela observou, “alguns dias na Indochina seriam suficientes para destruir brutalmente essa ilusão”. Ela contou a história horrível de um prisioneiro que “mordeu a própria língua para não falar”.

Viollis também conheceu colonos franceses que reconheciam que o domínio francês estava condenado. Como um funcionário público lhe disse: “Talvez em quinze anos, nós, franceses da Indochina, não estaremos mais aqui, e isso será nossa culpa!”

Libertação ou restauração?

A ocupação da França pela Alemanha em 1940 piorou ainda mais as coisas para a Indochina. Os apoiadores do marechal pró-alemão Philippe Pétain assumiram o controle do país. No último ano da guerra, houve uma fome catastrófica: as estimativas de mortes variam de 500 mil a 2 milhões.

Em 1941, os líderes da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos adotaram a Carta do Atlântico, que reconhecia que todos os povos tinham direito à autodeterminação (embora o líder britânico Winston Churchill tenha tentado afirmar que isso não se aplicava ao Império Britânico). As potências Aliadas afirmavam estar lutando contra os nazistas em nome de liberdades e direitos básicos. No entanto, as populações do mundo colonial nunca haviam desfrutado desses direitos em primeiro lugar.

Esse foi o contexto da Declaração de Independência em 1945. Ho Chi Minh, um lutador de longa data contra o imperialismo e fundador do Partido Comunista Indochinês, formou o Viet Minh, uma coalizão nacional de independência, em 1941. Sua declaração ecoou a Declaração de Independência dos Estados Unidos de 1776:

Todos os homens são criados iguais. Eles são dotados pelo Criador com certos direitos inalienáveis, entre eles a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade.

A mensagem era simples, e sua lógica se espalharia pela Ásia e África nos anos seguintes — se é bom o suficiente para os americanos, é bom o suficiente para nós, vietnamitas.

Mas era uma mensagem que o colonialismo europeu não estava pronto para ouvir. A França ainda estava reconstruindo suas Forças Armadas após a ocupação, então tropas britânicas — enviadas pelo recém-eleito governo trabalhista — assumiram o controle do país e garantiram que a independência fosse sufocada. Quando o deputado trabalhista Tom Driberg, que estava visitando a Indochina, tentou mediar, sua carta foi atrasada pelo General Douglas Gracey, comandante-chefe das Forças Aliadas em Terra.

Ho Chi Minh e “La Lutte”

ADeclaração de Independência respondeu a profundas aspirações do povo da Indochina, que não queria retornar à opressão e miséria dos anos 1930. Em uma área, mineiros elegeram conselhos de trabalhadores para controlar todo o distrito.

Em Saigon, surgiu a demanda por uma reconstrução mais radical da sociedade, incentivada pela organização trotskista La Lutte (“A Luta”), que tinha desfrutado de apoio significativo na década de 1930. O revolucionário Ngo Van descreveu como “numerosos comitês populares… surgiram espontaneamente, como organizações de gestão local”.

Isso não se alinhava com as perspectivas de Ho Chi Minh e do Viet Minh. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Stalin havia concordado em dividir o mundo entre a União Soviética e as potências ocidentais, e estava determinado a garantir que seus seguidores não perturbassem o novo equilíbrio de poder.

Por sua vez, Ho Chi Minh não queria ver um movimento de autodeterminação de trabalhadores e camponeses crescendo além de seu controle. Ele dependia da liderança soviética para orientação política e acreditava na possibilidade de cooperação com seus antigos camaradas do Partido Comunista Francês, que agora faziam parte do governo em Paris. Em contraste, os trotskistas vietnamitas acreditavam que, se algo fosse alcançado nessa situação, os trabalhadores indochineses teriam que confiar em sua própria força.

La Lutte e seus apoiadores foram brutalmente reprimidos tanto pelas forças coloniais quanto pelo Viet Minh. As forças do Viet Minh mataram Tạ Thu Thâu, um líder de longa data que havia sido preso pelos franceses e eleito como vereador na década de 1930.

Quando Ho Chi Minh foi à Paris para negociações em 1946, ele convidou Daniel Guérin, um militante anticolonial estabelecido, para almoçar em um hotel. Desafiado sobre o destino de Tạ Thu Thâu, Ho respondeu: “Todos os que não seguirem a linha que tracei serão destruídos.”

Apego ao Império

A breve tentativa de independência da Indochina falhou. Se tivesse sido bem-sucedida, teria evitado não apenas uma, mas duas guerras desnecessárias. A longa luta pela liberdade, que deixou pelo menos 3 milhões de mortos, poderia ter sido evitada.

Mas aqueles que governavam a França estavam determinados a manter seu império. O chefe do governo provisório que emergiu da Libertação foi Charles de Gaulle, um militar de direita que havia incentivado a resistência à ocupação nazista a partir de Londres. Mas a maioria das forças de direita na França havia sido desacreditada por seu apoio aos nazistas, de modo que os partidos no governo de De Gaulle eram predominantemente de esquerda: comunistas (PCF), socialistas (SFIO) e democratas cristãos.

Para De Gaulle, não havia dúvida de que a França continuaria em seu papel imperial. Em uma transmissão, ele declarou que a França estava retomando seu “lugar no mundo.” Já no verão de 1945, a França havia entrado em confronto com a Grã-Bretanha sobre o controle da Síria.

Vindo de De Gaulle, isso era esperado. Mais decepcionante foi a resposta da esquerda, que foi muito lenta em abordar a questão do colonialismo. Le Monde, um jornal diário recém-fundado, geralmente expressava um ponto de vista progressista, de centro-esquerda. Mas, em setembro de 1945, notou com prazer a perspectiva de que “a bandeira francesa voltará a tremular no céu indochinês.”

O Partido Comunista, formado em 1920 sob a influência da Revolução Russa, originalmente comprometido em apoiar os movimentos de libertação nas colônias, viu seu compromisso com o anticolonialismo diminuir à medida que refletia cada vez mais os interesses da política externa soviética.

O Tratado de Assistência Mútua Franco-Soviético de 1935 fez com que os comunistas franceses — e indochineses — abandonassem sua oposição à política de defesa nacional da França, para a consternação de muitos socialistas vietnamitas. O PCF abandonou sua demanda por independência colonial: o líder do partido, Maurice Thorez, usou o argumento espúrio de que “o direito ao divórcio não significava a obrigação de divorciar-se.” A implicação aparentemente era que a relação da França com suas colônias constituía um casamento feliz. O povo da Indochina talvez não concordasse.

Brutalidade na Argélia

Sob a liderança do PCF, a Resistência se apresentou como um movimento de independência nacional, muitas vezes usando slogans grosseiramente anti-alemães, em vez de antinazistas. Não abordaram a questão da França como potência colonial e uma nova geração introduzida ao ativismo que não foi confrontada com a questão colonial. A SFIO, com exceção da ala de extrema esquerda, sempre foi mais fraca em questões coloniais.

As coisas mudaram desde o primeiro dia do período pós-guerra. Em 8 de maio de 1945, foi realizada uma celebração da vitória em Sétif, no norte da Argélia. A polícia abriu fogo contra uma manifestação pacífica de nacionalistas argelinos. Isso provocou uma revolta espontânea na qual cerca de cem colonos europeus foram mortos, vítimas da raiva acumulada da população indígena.

O governo francês ordenou uma retaliação maciça, com ataques, bombardeios e esquadrões da morte. Pelo menos quinze mil muçulmanos morreram, provavelmente muito mais. No entanto, o PCF e a SFIO permaneceram no gabinete em Paris e concordaram com a repressão.

A única oposição na França veio da extrema esquerda. Um jornal independente de esquerda chamado Ohé Partisans denunciou o massacre como “Oradour-sur-Glane na Argélia”, comparando-o ao massacre nazista de mais de 600 pessoas na cidade francesa com esse nome. Comparações entre a ocupação nazista da França e o domínio francês em suas colônias tornaram-se cada vez mais frequentes nos anos seguintes.

Enquanto o PCF e a SFIO permaneciam no governo, eles não fizeram nenhuma tentativa de desafiar o domínio colonial da França. Como resultado, as primeiras expressões de apoio à independência da Indochina vieram de indivíduos não alinhados. Em novembro de 1945, o filósofo católico Joseph Rovan, que havia sido preso em Dachau por atividades de resistência, denunciou as “posições desumanas do colonialismo”.

Comentando a afirmação do general francês Philippe Leclerc de que o Viet Minh eram “bandidos e extremistas”, Rovan lembrou “a época em que os resistores franceses também foram descritos como terroristas e criminosos comuns recrutados no submundo.” O novo jornal de Jean-Paul Sartre, Les Temps modernes, pediu a retirada das tropas francesas e publicou vários artigos contrários à guerra, embora sem apoiar explicitamente a independência.

Morrendo pelos plantadores de borracha

Henri Martin, um jovem comunista que havia sido ativo na resistência, permaneceu nas Forças Armadas após a Libertação para ir à Indochina, acreditando que continuaria a luta contra os remanescentes do fascismo. Em maio de 1946, ele escreveu aos pais com a seguinte mensagem:

Na Indochina, o Exército francês está se comportando como os alemães fizeram na França. Estou completamente desgostoso de ver isso. Por que nossos aviões metralham (todos os dias) pescadores indefesos? Por que nossos soldados saqueiam, queimam e matam? Para trazer a civilização?

A determinação francesa de manter o império e a demanda indochinesa por liberdade não podiam coexistir. Em novembro de 1946, um navio francês bombardeou Haiphong, matando seis mil pessoas e iniciando uma guerra em grande escala. Mas o PCF e a SFIO permaneceram no governo; em março de 1947, ministros do PCF votaram a favor de créditos de guerra, enquanto os outros deputados comunistas apenas se abstiveram.

A única oposição veio da seção juvenil da SFIO (que logo seria dissolvida), que organizou uma campanha de panfletagem, colagem de cartazes e reuniões, culminando em uma manifestação militante. Um panfleto dizia:

As pessoas pensam que estão morrendo pela pátria, mas estão morrendo pelos plantadores de borracha… nem um tostão, nem um homem pela Indochina.

Em 1947, após uma greve na fábrica de automóveis da Renault, o PCF foi expulso do governo. Com a intensificação da Guerra Fria, os comunistas franceses agora montaram uma oposição vigorosa à guerra. Houve greves de estivadores e manifestações violentas nas quais apoiadores do PCF atacaram e danificaram munições destinadas à Indochina. Após Henri Martin ser preso por distribuir material antiguerra nas Forças Armadas, uma grande campanha começou em seu apoio, respaldada por intelectuais como Sartre e Pablo Picasso.

Por sete anos, a França lutou para manter a Indochina. Embora o governo francês não tenha usado recrutas, alguns dos soldados regulares reconheceram a natureza da guerra que estavam lutando. Durante a Libertação, Albert Clavier, esperando conhecer o mundo, se alistou na Artilharia Colonial — embora, como ele posteriormente lembrou, “não soubesse muito sobre o que eram as colônias”. Ele descobriu ao fazer amizade com uma família indochinesa e observar as atrocidades francesas. Eventualmente, ele desertou para o Viet Minh.

O movimento de independência empregou Clavier em trabalho de propaganda, abordando tropas francesas com um alto-falante, instando-as a depor suas armas e traçando paralelos entre a luta vietnamita e a Resistência Francesa. Ele compartilhou o padrão de vida de seus anfitriões vietnamitas, subsistindo com dois pratos de arroz por dia.

Uma guerra brutal, depois paz

Os resultados da determinação da França em manter seu império também podem ser vistos em Madagascar. Em 1947, uma insurreição nacionalista se espalhou rapidamente, envolvendo até um milhão de camponeses, que logo foram acompanhados por trabalhadores ferroviários. As forças francesas recorreram a execuções em massa, à queima de vilarejos inteiros e à tortura, e conseguiram reprimir a insurreição em dezembro de 1948.

Apenas doze anos depois, Madagascar conquistou sua independência. A defesa do império pela França foi brutal, mas fútil. Houve pouca crítica às guerras coloniais por parte da esquerda não comunista, exceto por indivíduos como o romancista Albert Camus.

A guerra fútil e assassina na Indochina durou até 1954. Após a derrota francesa em Dien Bien Phu, a Indochina foi dividida; Laos e Camboja já haviam se tornado independentes em 1953. Um estado comunista foi estabelecido no Vietnã do Norte, com um regime pró-americano no Vietnã do Sul.

As eleições prometidas nunca ocorreram. Iludidos por sua própria ideologia da Guerra Fria, os Estados Unidos falharam em reconhecer o apoio popular à independência nacional e enviaram um número crescente de tropas para apoiar um regime fantoche no Vietnã do Sul. Somente em 1975 o Vietnã obteve a independência que poderia, e deveria, ter tido trinta anos antes.

Não se desenvolveu em uma sociedade socialista como alguns haviam esperado. No entanto, parece ter lidado com a pandemia de COVID-19 de forma consideravelmente melhor do que seus antigos mentores imperiais na França, nos Estados Unidos ou na Grã-Bretanha.

Legados imperiais

Os franceses não haviam aprendido nada e não haviam esquecido nada. Pouco depois da liquidação da guerra indochinesa, eclodiu uma rebelião na Argélia. Um governo liderado pelo líder da SFIO, Guy Mollet, intensificou a repressão militar. François Mitterrand (mais tarde presidente socialista) foi responsável pela execução de prisioneiros rebeldes.

O PCF fez uma campanha morna pela “paz” em vez de pedir a independência argelina e falhou em apoiar revoltas de recrutas que se recusavam a ir para a Argélia. Somente em 1962, quando De Gaulle, que havia retornado ao poder após uma crise política, encarou a realidade e negociou a independência argelina. Naquela época, a maior parte do império francês já havia sido liquidada.

O presidente Emmanuel Macron reconheceu que a história colonial da França na Argélia envolveu “crimes contra a humanidade”. Mas a estátua de Jules Ferry ainda permanece no Jardim das Tulherias, em Paris, perto do Museu do Louvre. Talvez esteja na hora dela cair.

Colaborador

Ian Birchall é o autor de Sartre Contra o Estalinismo e de muitos artigos e ensaios sobre a obra de Jean-Paul Sartre.

15 de abril de 2020

O otimismo ultrajante de Jean-Paul Sartre

O filósofo francês Jean-Paul Sartre morreu nesta data há quarenta anos atrás. A filosofia e os valores políticos de Sartre ainda podem inspirar lutas pela liberdade hoje.

Ian Birchall


 O filósofo e autor francês Jean-Paul Sartre em uma entrevista, 1947. Charles Hewitt / Getty.

Tradução / 15 de abril é o quadragésimo aniversário da morte de Jean-Paul Sartre. Ainda me lembro de quando ouvi a notícia. Não foi inesperado – ele estava gravemente doente há algum tempo –, ainda assim foi um choque. Para aqueles da minha geração que seguiram rumo à política socialista, durante as décadas de 1950 e 1960, Sartre foi um guia e uma influência importante, e ele nos deixou uma enorme quantidade de trabalho.

São grandes volumes sobre filosofia e teoria marxistas, mas também romances e peças que dramatizam questões filosóficas e as tornam dolorosamente concretas. Além de polêmicas políticas ligadas a situações bastante específicas. Após sua morte, a descoberta de manuscritos inéditos – entre eles um roteiro cinematográfico sobre Freud – revelou novas facetas desse autor tão complexo e prolífico.

“Condenado a ser livre”

Sartre é frequentemente apresentado como um pensador pessimista. Em seu romance A Náusea, escreveu: “Todo o existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por acaso.” Talvez a citação mais conhecida de Sartre esteja em sua peça Entre Quatro Paredes – “o inferno são os outros”. Mas se o ponto de partida parece sombrio – vivemos em um universo sem Deus e sem sentido – a lógica é que todo significado e valor vêm dos seres humanos, de nós mesmos. Na própria frase de Sartre, estamos “condenados a ser livres”.

Como o próprio Sartre observou, não foi o seu suposto pessimismo que incomodou tanto as pessoas, mas o seu poderoso otimismo: a insistência de que somos livres para agir, para mudar o mundo e, portanto, responsáveis pelo mundo ser como é – pelas guerras, pela fome e opressão. Essa liberdade – experiência vivida não de forma agradável, mas angustiante – é central em todo o trabalho de Sartre, assim como as estratégias que criamos para negar as nossas responsabilidades – o que ele chamou de “má fé”.

Assim, Sartre insistia que desastres naturais não existem: “O homem é quem destrói suas cidades através da ação de terremotos”. Em um mundo sem seres humanos, um terremoto não significa nada: é apenas um levante de matéria sem importância. É somente quando o terremoto se depara com projetos humanos – estradas, prédios, cidades – que se torna um desastre. É um lembrete de que, em época de mudanças climáticas, os desastres não são obras da natureza mas resultados das escolhas, ambições e brutalidades humanas.

Em um artigo de 1948, Sartre revelou sua ambição de “escrever para o seu próprio tempo”. Seu objetivo não era buscar verdades universais, mas confrontar a realidade do mundo de sua época. Os problemas eram urgentes demais para serem preteridos em favor de considerações de longo prazo.

Em tempo de guerra

Para compreender essa questão, é importante lembrar do mundo em que Sartre viveu. Entre 1939 e 1962, período que cobre grande parte do seu trabalho, a França teve poucos momentos de paz. Primeiro veio a Segunda Guerra Mundial, durante a qual as forças alemãs ocuparam o país, dando origem a um movimento de resistência armada.

Mal a França havia se libertado, se envolveu em duas outras longas e amargas guerras, para tentar, em vão, manter seu vasto império colonial: oito anos de conflito na Indochina, que levaram à humilhante derrota em Dien Bien Phu, seguidos por sete anos de guerra na Argélia, famosa pela brutalidade e tortura. A violência na Argélia chegou, muitas vezes, a contaminar as ruas da França Continental.

Além disso, a partir de 1947, a França esteve envolvida na Guerra Fria, entre a União Soviética e os Estados Unidos, sob a constante ameaça de aniquilação nuclear. Não é de se admirar que o trabalho de Sartre desse período esteja voltado para a violência.

“Qualquer coisa, menos um homem”

Em 1943, quando publicou sua principal obra filosófica, O Ser e o Nada, Sartre prometeu fazer uma continuação abordando questões morais. Ele nunca chegou a terminar, mas um manuscrito foi encontrado após a sua morte. Sartre era profundamente preocupado com a opressão, em particular, com a opressão racial, tema que percorreu o seu trabalho em muitos aspectos.

Em 1945, publicou um pequeno livro chamado Reflexões Sobre a Questão Judaica. Sartre não focou no Holocausto, que mal mencionou, mas no antissemitismo endêmico da sociedade francesa, que explicava por que os franceses haviam sido favoráveis e até incentivado a ocupação nazista.

Ele mostrou que o antissemitismo não tinha nada a ver com a existência dos judeus. Pelo contrário, era um produto das ilusões do antissemita: “Se o judeu não existisse, o antissemita o inventaria”. Sartre demonstrou que as raízes do antissemitismo não estavam na superioridade racial, mas na fraqueza:

Resumindo, o antissemitismo é o medo da condição humana. O antissemita deseja ser uma pedra impiedosa, uma torrente furiosa, um raio devastador – qualquer coisa, menos um homem.

Em 1945, Sartre visitou os Estados Unidos. Uma das coisas que atraiu sua atenção foi a extensão da opressão racial no país. No entanto, ele insistiu que o racismo não poderia ser separado da classe e que a população negra deveria “lutar junto aos trabalhadores brancos em pé de igualdade pelo reconhecimento de seus direitos”.

Quando escreveu a peça A Prostituta Respeitosa – baseada no julgamento de Scottsboro (1931), no qual jovens negros do Alabama foram condenados à morte por estupro – alguns o acusaram de antiamericanismo por enfatizar o racismo nos Estados Unidos. A história está aí para provar que Sartre era mais perceptivo que seus críticos.

Contra o Império

Em 1948, Sartre escreveu o prefácio de uma antologia com poetas africanos editada por Léopold Sédar Senghor, mais tarde presidente do Senegal. Ele começou com sua selvageria habitual. “O que você esperava ao remover a mordaça que manteve essas bocas negras fechadas? Cantos de elogio?”

No final da Segunda Guerra Mundial, a França ainda possuía o segundo maior império colonial do mundo, e quase todos os políticos estavam determinados a defender esse império. No entanto, após vinte anos, depois de muita brutalidade e derramamento de sangue, ele finalmente acabou.

Nos primeiros anos da guerra da Argélia, algumas das figuras mais proeminentes da esquerda francesa – o líder do Partido Socialista Guy Mollet, Pierre Mendès-França e o jovem François Mitterrand – faziam parte do governo que enviou mais tropas para a Argélia e ordenou a execução de militantes argelinos. Quando o governo deu “poderes especiais” para lidar com a crise, concedendo ao ministro-residente da colônia o direito de governar, até o Partido Comunista Francês (PCF) votou a favor. Enquanto isso, Sartre, bastante ciente da natureza racista do domínio colonial francês, foi um dos primeiros a se opor à guerra e a reivindicar a independência da Argélia.

Você pode até pensar que ele recebeu algum crédito por ter reconhecido tão rapidamente que o império francês estava obsoleto. Em vez disso, desde sua morte, Sartre vem sendo submetido a ataques consecutivos, que denunciam sua suposta ligação com o comunismo soviético. Muitos deles vieram de historiadores cujos trabalhos flertam com a esquerda, como o falecido britânico Tony Judt, o ex-maoísta Bernard-Henri Lévy e Michel Onfray, que se diz “anarquista”.

Seria errado afirmar que o histórico de Sartre é impecável – ele pode ser certamente acusado por erros táticos e de julgamento. Mas ele não foi a única figura cultural europeia a ter ilusões com o stalinismo: Bertolt Brecht e Pablo Picasso fizeram coisas bem piores.

No entanto, as acusações de seus detratores consistem não em críticas fundamentadas, mas em exageros, muitas vezes baseados em citações específicas e mal interpretadas. Embora o comunismo do Bloco Oriental esteja morto e enterrado, os críticos de Sartre parecem querer salientar suas próprias virtudes trazendo de volta as batalhas da Guerra Fria.

Sartre e Camus

Eles costumam, por exemplo, traçar um paralelo entre Sartre e seu contemporâneo (e antigo amigo) Albert Camus. Sartre e Camus brigaram muito em 1952, quando Camus publicou um livro considerado uma rejeição ao marxismo – mais especificamente à tradição leninista. Os admiradores de Camus muitas vezes o exaltam como um exemplo de visão anticomunista. Mas a questão era um pouco mais complexa.

No início de carreira, Camus, que era filho de colonos europeus da classe trabalhadora argelina, denunciou alguns crimes do colonialismo francês. Mas ele nunca apoiou a independência da Argélia (e morreu em 1960, antes do fim da guerra). Além disso, os apoiadores dos últimos dias de Camus às vezes sentem vergonha de alguns aspectos do seu radicalismo.

Logo após sua briga com Sartre, Camus escreveu um prefácio muito positivo para um livro de memórias de Alfred Rosmer chamado Moscou de Lenin. Rosmer fora um comunista francês pioneiro, trabalhou junto com Lenin e Trotsky nos primeiros anos da Internacional Comunista e tornou-se, depois, um oponente de Stalin. Os amigos de Camus quase nunca mencionam esse fato.

Na verdade, a relação de Sartre com o comunismo e o PCF foi muito mais tempestuosa do que seus críticos nos querem fazer acreditar. Após 1945, os intelectuais do PCF o submeteram a sucessivos ataques, com medo de que suas ideias estivessem atraindo estudantes e outros jovens e, consequentemente, os afastando do partido. Sartre sofreu ataques ainda mais violentos que Camus. Um dos livros que destacam a figura de Sartre foi o Gravediggers of Literature, escrito pelo intelectual do PCF, Roger Garaudy.

Em 1950, David Rousset, antigo aliado político de Sartre e também um sobrevivente de um campo de concentração nazista, lançou uma campanha contra campos de concentração na URSS. Sartre se recusou a dar apoio, argumentando que aquela era uma campanha da imprensa de direita e não conseguia contestar os campos em regimes pró-americanos de direita.

Os inimigos de Sartre costumam alegar que ele não condenava os campos soviéticos. Na verdade, ele assinou um editorial na revista Les Temps modernes, no qual afirmou que a existência de tais campos, com até dez milhões de prisioneiros, depunha contra o sistema soviético: “Imaginamos que razão ainda podemos ter para usar o termo socialismo em conexão a isso.”

O principal inimigo

Em 1952, no entanto, Sartre mudou de posição. Era auge da Guerra Fria: a polícia francesa havia atacado violentamente uma manifestação comunista e o líder interino do PCF fora preso por estar na posse de dois pombos, com os quais, segundo ele, planejava se comunicar com Moscou. Teoricamente, a liderança do PCF tinha canais de comunicação um pouco mais sofisticados. Houve boatos de que o partido seria completamente banido.

Nesta situação, quando muitos dos ex-apoiadores do PCF estavam rompendo seus vínculos com o partido, Sartre anunciou uma aliança. Sua lógica era simples: o PCF tinha um apoio maciço da classe trabalhadora (cinco milhões de eleitores e a liderança da maior organização sindical), e ele queria apoiar a classe trabalhadora organizada. Para Sartre, o que estava acontecendo na França era mais importante do que a URSS: nas palavras do comunista alemão Karl Liebknecht, “o principal inimigo está dentro de casa”.

É verdade que, nos anos seguintes, Sartre fez algumas declarações imprudentes em defesa da União Soviética. Mas a aliança durou pouco. Em 1956, quando a liderança soviética enviou tanques à Hungria para esmagar uma manifestação da classe trabalhadora, Sartre se opôs publicamente, insistindo que o socialismo “não deve ser implementado com baionetas”. Posteriormente, suas críticas à URSS tornaram-se mais diretas: ele condenou o “imperialismo soviético” e disse que as classes trabalhadoras soviéticas deviam “resgatar o poder que lhes fora roubado” por seus governantes.

Sartre nunca se afiliou ao PCF, na verdade, era muito cético em relação a todas as formas de organização partidária. Mas ele reconhecia a necessidade de ação coletiva e tentou encontrar maneiras pelas quais uma esquerda independente poderia se organizar. Em 1948, quando a Guerra Fria se intensificou, Sartre desempenhou um papel central na tentativa de estabelecer uma nova formação política, a RDR (Rassemblement Démocratique Révolutionnaire, Assembleia Democrática Revolucionária). Na declaração de fundação, o movimento se declarou independente de Washington e Moscou:

Entre a podridão da democracia capitalista, as fraquezas e defeitos de uma certa socialdemocracia e a limitação do comunismo à sua forma stalinista, acreditamos que uma assembleia de homens livres para a democracia revolucionária seja capaz de dar nova vida aos princípios de liberdade e dignidade humana, vinculando-os à luta pela revolução social.

O RDR gozou de breve popularidade, mas acabou entrando em colapso com as pressões da Guerra Fria. Foi por não conseguir estabelecer uma corrente independente de ambos os blocos de poder que, mais tarde, Sartre resolveu ficar do lado do PCF.

Tempos modernos

Um resultado mais duradouro foi obtido com o lançamento, em 1945, da revista Les Temps Modernes (Tempos Modernos), com a qual Sartre permaneceu ativamente envolvido até o fim da vida. Ele formou uma equipe de escritores, e a publicação se manteve aberta a várias correntes da extrema-esquerda. Ele publicou materiais de Victor Serge, um dos primeiros bolcheviques a ser preso por Stalin, e um relato de Richard Wright sobre suas experiências como militante negro no Partido Comunista dos EUA.

A Les Temps modernes desempenhou um papel especialmente importante durante a guerra na Argélia. Mesmo antes do início do conflito, publicou um notável artigo do anarquista Daniel Guérin intitulado “Tenha piedade de Maghreb”, que já previa o início da guerra e o terrível impacto que ela teria na sociedade francesa.

O editor-chefe, Francis Jeanson, que havia escrito um livro sobre Sartre, abandonou a literatura para montar uma rede ilegal de apoio aos rebeldes argelinos. Na própria Argélia, as autoridades confiscaram a revista não menos do que quatro vezes, em 1957, o que acabou enaltecendo a sua corajosa postura editorial.

O fato de Sartre ter se posicionado publicamente em defesa da independência da Argélia teve, certamente, um impacto significativo. Ele escreveu para o influente jornal contrário à guerra La Voie Communiste e foi um dos mais conhecidos signatários do Manifesto de 121, que endossava a desobediência civil como estratégia para interromper a guerra:

Nós respeitamos e consideramos justificada a recusa em atacar o povo argelino. Respeitamos e consideramos justificadas as ações de franceses que consideram seu dever dar assistência e proteção aos argelinos oprimidos em nome de todo o povo francês.

Um número crescente de jovens recrutados pelo Estado para lutar na Argélia estava descontente com o papel que lhes havia sido designado. Por fim, a guerra terminou porque a população francesa não estava disposta a continuar: a Frente de Libertação Nacional nunca obteve uma vitória militar. Sartre ganhou o respeito de um dos mais importantes líderes da luta pela independência da Argélia, Frantz Fanon, e escreveu o prefácio de seu trabalho mais famoso, Os Condenados da Terra.

Sartre abraçou o levante de 1968, na França, e assinou uma das primeiras declarações de apoio ao movimento estudantil. Quando esse movimento desencadeou a maior greve geral da história da Europa, todo o cenário político mudou. Sartre começou a associar-se a várias correntes maoístas, embora sempre negasse ser ele próprio maoísta. No final da vida, se envolveu em ativismo direto. Quando as autoridades francesas proibiram a circulação de vários jornais revolucionários, Sartre passou a vendê-los nas ruas, desafiando a polícia a prender alguém famoso como ele.

O julgamento dos caranguejos

A carreira de Sartre nos deixa com mais perguntas do que respostas – pode-se dizer, certamente, que o valor de seu trabalho está nas perguntas que ele faz, não nas respostas que fornece. Suas posições confusas e muitas vezes contraditórias a respeito do Oriente Médio, divididas entre a simpatia por Israel como Estado Judeu e a defesa dos direitos palestinos, são apenas um exemplo de como ele não pode ser considerado um guia político.

No entanto, o trabalho de Sartre, embora preso em seu próprio tempo, ainda tem algo a oferecer à nossa era, por mais diferente que seja. Por exemplo, ele estava preocupado com a possibilidade de ação coletiva. Na Crítica da Razão Dialética, fez uma distinção entre as pessoas que esperam por um ônibus e a multidão que invadiu a Bastilha.

As que aguardam o ônibus estão reunidas no mesmo local e têm o mesmo objetivo (entrar no ônibus); mas, na verdade, como não há assentos suficientes, cada indivíduo é um obstáculo para o outro. Por outro lado, aqueles que invadiram a Bastilha – o que Sartre chamou de “grupo fundido” – estão não apenas unidos por um objetivo comum, mas dependem do apoio um do outro (não posso atacar a Bastilha sozinho). Como um grupo fundido pode emergir continua sendo a questão vital.

Para Sartre, liberdade humana significa não haver um resultado predeterminado para a história. Como ele escreveu no ensaio “O existencialismo é um humanismo“, em 1946:

Amanhã, depois da minha morte, alguns homens podem decidir estabelecer o fascismo, e outros podem ser tão covardes ou omissos que vão deixar. Se isso acontecer, o fascismo será a nossa realidade, e muito pior para nós.

Esse é bem o espírito da proposta alternativa de Rosa Luxemburgo: “socialismo ou barbárie”.

Em sua última peça, Os sequestrados de Altona, o personagem principal Franz tenta imaginar como o futuro julgará o seu período histórico. No entanto, quando vislumbra séculos à frente, não encontra seres humanos para julgar a humanidade, apenas caranguejos. Na época, Sartre temia uma guerra nuclear, mas não é difícil hoje imaginar que, com o aumento do nível do mar e a humanidade submersa, só sobrarão os caranguejos. Sartre ainda fala vividamente das nossas esperanças e medos.

Colaborador

Ian Birchall é o autor de Sartre Against Stalinism e muitos artigos e ensaios sobre o trabalho de Jean-Paul Sartre.

19 de novembro de 2015

O tipo errado de secularismo

O ideal secular francês de laicidade não é uma ideia nobre usurpada - é profundamente falho em suas raízes.

Ian Birchall


Albert Bettanier, "La tache noire" (1887)

Imediatamente depois dos assassinatos na redação de Charlie Hebdo, todos ouvimos falar muito sobre "valores republicanos". De fato, alguns franceses parecem ter ouvido excessivas vezes; recente pesquisa de opinião mostrava que 65% do povo francês acha que expressões como "valores republicanos" foram "usadas demais e perderam a força e o significado."

Um daqueles valores republicanos é a laicidade – palavra francesa que tem tantas conotações e interpretações que já é efetivamente intraduzível; secularismo serve como aproximação razoável. Hoje, a laicidade serve como justificativa para uma variedade de coisas – desde proibir que mães que acompanham os filhos em atividades escolares usem véu, até ordenar que crianças muçulmanas e judias comam porco nos lanches escolares (ou passam fome).

Mas laicidade não é simplesmente uma ideia que foi apropriada pela Direita para finalidades políticas ou culturais; é também valor afirmado pela Esquerda e, até, pela extrema esquerda.

Acima de tudo, a palavra laicidade não se aplica exclusivamente a um "valor" que por todos os lados estariam metendo cabeça adentro das pessoas; é conceito concretamente, materialmente incorporado no sistema educacional francês. Na França hoje cerca de ¼ da população (24,7%) estão envolvidas no sistema educacional, seja como empregados seja como estudantes, o que torna centrais, nas estruturas sociais e econômicas da nação francesa, os ideais e as práticas associadas à laicidade.

O laicismo tem longa e tortuosa história, mas o ponto crucial de virada foi, sem dúvida, a aprovação das leis Ferry de 1881 e 1882, que estabeleceram o princípio pelo qual a educação primária na França seria gratuita, obrigatória e secular.

Expansões similares da educação primária pública estavam acontecendo em outros pontos da Europa. Mudanças provocadas pela industrialização fizeram aumentar a necessidade de que houvesse na França força de trabalho alfabetizada e instruída, particularmente depois da vitória decisiva da Prússia na guerra de 1870, que muitos à época atribuíram, pelo menos em parte, à superioridade dos prussianos no campo da educação.

Mas houve outros fatores. Os políticos que então controlavam a III República haviam afiado os dentes como membros da oposição sob o Segundo Império. A Igreja Católica tivera papel significativo no estabelecimento do e no apoio ao governo de Napoleão III. Uma guarnição francesa protegia o Vaticano, e só quando foi retirada para a Guerra Franco-Prússia, o Vaticano perdeu o status de estado independente e tornou-se parte da Itália.

Por tudo isso os políticos republicanos tendiam a ser anticlericais e a desconfiar da Igreja Católica – o que se via também, como modo de pensar, amplamente disseminado em toda a população francesa.

Havia razões bem claras para a desconfiança. O clero dividia suas lealdades entre o estado francês e o papado, e o papado tinha política externa própria, que nem sempre coincidia com a do estado francês. Havia também o temor de que professores católicos favorecessem Roma, não Paris. Por exemplo, durante a guerra franco-austríaca em 1859, um pároco do interior disse comprovadamente aos seus paroquianos que rezassem pelos austríacos porque eram católicos.

Consequentemente, Ferry e seus apoiadores convenceram-se de que a importante tarefa de educar a nova geração não poderia ser deixada a aliados potencialmente pouco confiáveis na Igreja, e que agentes e empregados conectados diretamente ao Estado tinham de assumir as atividades didáticas nas escolas primárias.

A questão da defesa nacional também foi chave. A França sofrera derrota catastrófica na guerra franco-prussiana, e perdera os territórios de Alsácia e Lorena para o recém estabelecido Império Germânico. Havia o sentimento forte, em alguns grupos, de que a França devia trabalhar para recuperar os territórios perdidos.

O próprio Ferry não era a favor de guerra contra a Alemanha, e tentou melhorar as relações com o país vizinho. Mas sua capacidade para manobrar nesse campo era limitada pela opinião pública francesa e pela possibilidade real de outra guerra com a Alemanha. A opção preferida de Ferry era expandir o império colonial da França – missão bem alinhada com sua crença racista segundo a qual "raças superiores... têm o dever de civilizar raças inferiores." De fato, foi durante o mandato de Ferry que a França ocupou e anexou a Indochina.

Essas aspirações levantaram a questão central do exército. A França ainda era substancialmente país de camponeses – em 1900, 45% da população trabalhadora francesa eram constituídos de fazendeiros e camponeses. Em 1848 e 1871, foram camponeses-soldados que restauraram "a ordem", reprimindo levantes de trabalhadores em Paris, e nas décadas seguintes o exército seria usado repetidas vezes contra grevistas.

Mas havia um problema com os camponeses: seu senso de identidade nacional era visivelmente muito fraco, e os camponeses muito mais se identificavam com a própria vila ou província, que com a nação francesa. Da Bretanha à Provence, muitos camponeses falavam línguas ou patois [falares regionais] diferentes do francês; números oficiais de 1863 mostram que ¼ da população não falava francês. Em algumas áreas havia relatos de que os camponeses não sabiam que eram franceses.

Mas havia um problema com o campesinato. Seu senso de identidade nacional era decididamente fraco, e os camponeses eram muito mais propensos a se identificar com a sua aldeia ou a sua província que a nação francesa. Da Bretanha à Provence, muitos camponeses falavam línguas ou patois outros que não o francês; dados oficiais de 1863 mostram que até um quarto da população não falava francês. Em algumas áreas, houve relatos de que os camponeses não sabia que eles eram franceses.

Os exercícios militares nas novas escolas adquiriram importância considerável. Como um historiador descreveu:

"Foi o tempo dos 'batalhões escolares'. Invenção republicana de Paul Bert, lançada em 1882. Significou valer-se da chegada das crianças às escolas primárias, para inculcá-las com noções de 'cidadania patriótica' mediante exercícios militares. As crianças praticavam marchas com armas de brinquedo e baionetas de madeira, mas também treinavam com munição viva, fora da escola, em colunas militares de rifles."

Na introdução de um colóquio em 1985 sobre as leis Ferry, François Furet descreve o estabelecimento da laicidade na educação francesa, como "o melhor símbolo da grande única vitória da esquerda desde a Revolução Francesa." Porém, quando as leis Ferry e a laicidade foram estabelecidas, a posição da Esquerda foi bem menos entusiástica.

Para uma ala do Partido Socialista, liderada pelo carismático Jean Jaurès, as leis Ferry e a separação entre igreja e estado com certeza eram vistas como importante passo à frente. Na juventude, Jaurès e Ferry haviam sido amigos e Jaurès era simpático à ideia da laicidade como parte de sua acomodação mais geral à política republicana. Em 1904 Jaurès defendeu a participação dos socialistas num governo republicano, dizendo que aquele governo salvara a República, e só fez uma rápida alusão ao fato de que o governo republicano também mandara soldados para atirarem contra trabalhadores em greve.

Para a esquerda marxista as coisas foram um pouco diferentes. No verão de 1882, logo depois de as leis Ferry sobre laicidade terem sido aprovadas, o próprio Karl Marx esteve em Paris por quase três meses, no caminho de volta para casa, depois de uma estada na Argélia. Sua correspondência desse tempo não faz qualquer referência ao evento – o que é de estranhar, considerando que Furet vira a laicidade como a maior vitória da esquerda.

Paul Lafargue – genro de Marx e o mais destacado pensador e escritor marxista francês durante três décadas depois de instalar-se em Paris em 1882 – jamais fez qualquer referência às leis Ferry em sua copiosa correspondência com Engels. A omissão talvez se explique pela opinião desairosa que Marx e Engels tinham de Ferry; Marx escarneceu de seu "mau governo" no período antes da Comuna de Paris, e Engels chamou-o de "ladrão de primeira água".

Karl Kautsky porém – chamado "papa do marxismo" depois da morte de Engels – tinha perspectiva um pouco diferente. Embora em geral fosse crítico da III República e das ilusões que muitos do movimento socialista francês cultivavam sobre ela, Kautsky observou sem meias palavras que "na área da educação, a III República fez grandes coisas".

Mesmo assim era cético quanto a separação de igreja e estado, argumentando que "se houve agora uma divisão entre Igreja e Estado, só se pode atribuir à provocação da Igreja. Mesmo assim, deve-se duvidar de que a separação seja permanente."

Posteriomente, Kautsky comentou:

"hoje os políticos liberais burgueses têm todo o interesse na luta contra a Igreja, mas de modo algum em derrotar a Igreja. Só podem contar com a aliança do proletariado enquanto durar essa luta. Se terminar, o aliado deles será transformado em inimigo no mesmo dia em que a Igreja cair. Mesmo no momento de seu mais forte poder revolucionário, a burguesia não dura muito sem a Igreja."

Em outras palavras, ele viu laicismo como uma concessão para a esquerda em vez de uma estratégia ideológica alternativa.

Lafargue tinha compreensão mais aguda das questões. Era ateu e materialista, e opunha-se fortemente à influência da Igreja; seu primeiro ato depois de eleito ao Parlamento foi apresentar projeto de lei, que não foi aprovado, que determinaria a separação entre igreja e estado.

Mas Lafargue tampouco acreditava muito nos que davam grande importância ao anticlericalismo. No programa de 1883 do Parti Ouvrier [Partido Operário] redigido por Lafargue e Jules Guesde, há uma referência desdenhosa aos livre-pensadores franceses que querem "o fim dos subsídios do estado para as igrejas e a separação entre Igreja e Estado." Destacam que nos EUA essa divisão existe (de tal modo que as religiões são "indústria privada, como loja de doces ou açougue de vender porco em retalho"), mas que isso "não impede que a lepra religiosa devore a grande república norte-americana mais que qualquer outro poder sobre a terra."

Em 1886 Lafargue publicou uma sátira intitulada La Réligion du capital. Imaginou uma conferência em Londres com representantes econômicos e políticos do capitalismo europeu – Clemenceau, Rothschild, Gladstone, Herbert Spencer, von Moltke, etc. Dentre os participantes estavam Ferry e Paul Bert, o qual, como ministro da Educação, fora um dos principais aliados de Ferry no processo de estabelecer a laicidade. A preocupação deles era garantir a sobrevivência do capitalismo; por isso, de algum modo, precisavam da religião.

Na sátira, Bert declarava que, por mais que fosse, ele mesmo, não crente, era a favor da religião para a classe trabalhadora. "Os trabalhadores têm de acreditar que a miséria é a moeda com a qual compram o paraíso. Sou homem de muita religião... para outras pessoas."

O problema era que o Cristianismo já não era crível. Numa passagem de zombaria digna de Voltaire, Bert dizia que já não era possível levar as pessoas a crerem que "um pombo deitou com uma virgem e que, dessa união, condenada pela moralidade e pela fisiologia, nasceu um cordeiro." Os delegados concordaram que era necessária uma nova religião, que se baseasse na santidade do capital e um catecismo que impusesse aos trabalhadores o sacro dever de trabalhar.

Aqui Lafargue parece fazer o comentário satírico do papel do laicismo – doutrina que poderia cumprir o papel que os ensinamentos obsoletos do Cristianismo já não conseguiam cumprir.

Houve quem dissesse que a laicidade continuava as tradições da Comuna de Paris. É verdade que a Comuna separara religião e educação. Mas, como argumentou Maurice Dommanget, os communards não usavam muito os termos laicidade, considerando-se eles mesmos materialistas, não neutros, portanto, na questão da religião.

E, mais importante, como Kristin Ross mostrou em seu excelente recente estudo, a Comuna não se via ela mesma como um estado, mas, sim, como entidade que buscava a autonomia local com contexto internacional. Com certeza, a Comuna não via a educação como preparação para o serviço militar. A Comuna representou tradição internacionalista muito diferente da desenvolvida pelos partidários da laicidade.

Algumas das críticas mais agudas da laicidade vieram das correntes anarquistas e sindicalistas. A posição dos anarquistas pode ser resumida na fórmula "nem igreja nem estado". Como disse Sébastien Faure, a escola cristã foi "organizada pela Igreja e para ela; e escola laica foi organizada pelo estado e para ele." Contrapôs a ideia de uma "escola do futuro... organizada para a criança." André Lorulot pôs as coisas em termos ainda mais crus: disse que os professores do estado seriam "policiais intelectuais a serviço da classe capitalista."

Houve várias tentativas, dos anarquistas, para criar escolas libertárias que seriam independentes simultaneamente da igreja e do estado. Uma dessas tentativas contou com apoio financeiro de Émile Zola e outros intelectuais, mas acabou por falta de recursos.

Como Marx e Engels os anarquistas também tinham Ferry em baixa conta, e com certeza jamais o viram como herói da Esquerda. O jornal de Émile Pouget, Le Père Peinard, combinava opiniões radicais e linguagem direta, popular, muitas vezes vulgar.

A opinião de Pouget sobre Ferry era, para dizer o mínimo, agressivamente hostil: "Se há porco que me deixa revoltado, é Ferry. Que animal sujo e bruto! É o maior vigarista da França... Queria ver alguém torcer-lhe o pescoço; pode-se matar esse sujeito como menos remorso do que se esmaga um percevejo".

Pouget tinha visão interessante sobre os argumentos então correntes sobre se padres deviam ou não ser autorizados a trabalhar como professores. Não recomendava que todos os padres fossem proibidos de lecionar, mas, para comprovar o compromisso deles com o celibato, recomendava que padres-professores fossem castrados.

Uma série de outras publicações anarquistas argumentavam contra a laicidade.

O panfleto L'École: Antichambre de caserne et de sacristie (A Escola: Antessala do Quartel e da Sacristia) – sem autor declarado, mas que parece ter sido escrito por Émile Janvion, um dos fundadores do sindicato Confederação Geral do Trabalho (CGT) da França, e suposto iniciador da primeira "escola libertarista" na França – citava Bakunin e Stirner, que teriam apoiado a ideia de que a laicidade não passa de dogma alternativo ao dogma da igreja.

Observava também que o político republicano Léon Gambetta dizia que "o inimigo é o clericalismo", e respondia que "religiões (sejam de estado ou de igreja) são o inimigo." E concluía: "Nossos anticlericais têm espírito de padre de paróquia. Nossos ateus são gente muito pia."

Janvion chamava especialmente a atenção para o modo como escolas seculares encorajavam os sentimentos de nacionalismo. A criança seria "inoculada com mais imbecil ódio cego contra pessoas que vivam do outro lado de tal e tal riachinho, aprenderiam a vangloriar-se da própria raça, em detrimento de todas as outras."

Ele notou a prática de professores de escolas seculares, de escrever determinadas frases na lousa, para que os alunos repitam em coro várias vezes ao longo do dia escolar. Exemplos típicos: "Bom francês tem de saber morrer pela bandeira"; "você só existe para sua terra-mãe, você vive só para ela"; e "um bom francesinho deve preparar-se para tornar-se bom soldado."

Janvion também destacava um volume de "educação moral e cívica" que explicava como "o serviço militar é o aprendizado para a guerra. É necessário formar um exército sólido, capaz de nos defender contra criminosos internos e inimigos de fora." A expressão "defender contra criminosos internos" refere-se claramente ao papel do exército, antes de 1914, na repressão a greves e grevistas.

O livreto de Antonin Franchet, Le Bon Dieu Laïque (1903) analisa livros escolares usados em escolas seculares. Um deles, muito popular, de Charles Dupuy, ex-ministro da Educação, perguntava aos alunos: "Como devemos demonstrar nosso amor por nossa terra nativa? – Obedecendo às leis, mesmo que sejam inconvenientes para nós e defendendo seu território e sua independência contra o estrangeiro, mesmo que ao preço do nosso próprio sangue."

Os livros escolares também diziam aos alunos o que pensar da França: "Amo a França como amo meu pai e minha mãe. Para provar o meu amor, devo ser criança bem comportada e trabalhadora; assim, quando crescer, serei um bom cidadão e um bom soldado."

E ideais internacionalistas foram desprezados::

"Talvez você ouça gente egoísta e ociosa à sua volta dizer que não é importante ser cidadão de um país, que se deve ser cidadão do mundo, que se chama 'cosmopolita'; que a terra nativa é qualquer local onde você se sinta bem; que 'pátria' é só uma palavra, uma abstração, que mentes positivas e práticas não se devem deixar enganar."

Mesmo os livros escolares devotados a ensinar moralidade, nada ensinavam disso:

"Sei que se pode amar a pátria, sem por isso detestar outros pobres e desejar ou preparar a ruína deles. Mas há casos, para os soldados, quando é necessário saber odiar, odiar o impiedoso invejoso inimigo que, depois de empregar mal a própria força, de ter roubado de nós os nossos irmãos na Alsace-Lorraine, ainda está à espreita, esperando uma oportunidade para assestar o golpe final. 
Enquanto permanecer vivo o ódio contra o conquistador de nossa pátria, o derrotado não perdoará nem esquecerá. 
Odeiem portanto a injustiça passada, a injustiça que ainda os ameaça. A força para vingar uma e varrer os efeitos da outra é o ódio! Franceses, o ódio é um dever"!

Em livro escolar de Émile Lavisse, adequadamente intitulado Tu seras soldat (Serás soldado), o autor conclama seus jovens leitores a considerar o trabalho de espião, para o próprio futuro. Embora não ofereça estilo de vida de um James Bond, o autor diz inequivocamente a crianças de escola que os fins justificam os meios; e que mentira, dissimulação a clandestinidade são meios perfeitamente legítimos:

"O espião que serve seu país em tempos de paz é homem esperto, valente, bravo, que vai a um país estrangeiro para estudar as suas defesas e preparativos de guerra, para informar sobre eles o seu país natal. 
Para alcançar esse fim, todos os meios são legítimos. O espião esconde a própria nacionalidade e adota nome falso; aprende a falar a língua do outro país e, para ocultar a própria tarefa, trabalha nas mais variadas profissões."

Nada disso implica que os críticos anarquistas contra a laicidade na educação sejam imunes a críticas. Pouget e Janvion, especificamente, eram antissemitas. Mesmo assim, tudo que escreveram ajuda a contextualizar o que sejam laicidade e a esclarecer que o conceito não é sempre tão progressista, acima de qualquer suspeita ou discussão, como se ouve dizer atualmente, com frequência.

Apesar de algumas vozes de oposição, a laicidade alcançou amplamente o objetivo de solidificar uma identidade nacional baseada na força militar. Como o historiador Eugen Weber escreve, "Em agosto de 1914 não era surpresa ouvir um jovem camponês do Var e amigos partindo para a guerra 'feliz (como um deles escreveu aos pais) por ir e defender nosso país, a França'."

Houve uma pequena interrupção em 1912, quando o sindicato dos professores primários votaram e aprovaram uma contribuição chamada o sou du soldat [vintém do soldado], para um fundo antimilitarista. Houve então certo grau de pânico – o ex-ministro da Guerra Adolphe Messimy declarou, sem dúvida sinceramente, que, por mais que fosse, ele mesmo, apoiador da laicidade na educação, aquela ação dos professores era inaceitável. Por um momento, os agentes do estado pareciam voltar-se contra o próprio estado. Mas apenas 5% dos professores eram sindicalizados; no fim, o show da oposição deu em nada.

As tradições de crítica da laicidade na educação prosseguiram depois da I Guerra Mundial. O jornal Clarté, próximo, mas não completamente controlado pelo Partido Comunista, em matéria sobre desenvolvimentos educacionais na Rússia pós-revolucionária, dizia que a Rússia soviética poderia oferecer alternativa à igreja e ao estado no campo da educação. Uma conferência sobre educação realizada em Moscou em 1919, por exemplo, descartou as teses sobre neutralidade acadêmica e sobre laicidade como um "mug's game" ["jogo de enganar otários"], concebido para atender aos interesses da burguesia.

E o Partido Comunista Francês inicial tomou posição muito diferente, sobre laicidade, se comparada à posição da Esquerda hoje. Hadjali Abelkader – casado com cidadã francesa e por isso, diferente da maioria dos Norte Africanos, portador de cidadania francesa plena – foi membro fundador do Partido Comunista Francês e colaborador regular do jornal Le Paria (jornal comunista para imigrantes e trabalhadores coloniais), e chegou perto de ser eleito ao Parlamento francês em 1924. Muçulmano durante toda a vida, Abelkader dizia que os comunistas não deviam adotar posição de polêmica em relação ao Islã.

Hoje, com as ideias de laicidade sendo usadas a serviço da Islamofobia, volta a ser excepcionalmente importante derrubá-las do alto status de que hoje usufruem. Para tanto, é preciso compreender que laicidade não são alguma espécie de nobre ideal que teria sido mal interpretado e distorcido; que são ideias e práticas que sempre foram gravemente viciosas, desde o começo.

Republicado de Historical Materialism.

Colaborador

Ian Birchall é o autor de Sartre Against Stalinism e de muitos artigos e ensaios sobre a esquerda francesa do século XX.

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