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7 de novembro de 2023

Alexander Bogdanov foi um dos grandes pensadores revolucionários da Rússia e um pioneiro da ficção científica

Alexander Bogdanov desempenhou um papel fundamental no movimento socialista da Rússia nos anos que antecederam a revolução de 1917. Foi também um pensador extraordinariamente criativo que escreveu um romance de ficção científica sobre uma civilização socialista em Marte. Por James D. White.

James D. White 


Bogdanov em 1903.

Tradução / Alexander Bogdanov foi um dos pensadores mais versáteis e criativos da Rússia na era revolucionária. Para além de ativista político, foi um escritor prolífico sobre filosofia, economia, educação e cultura, cujas obras incluíam um romance de ficção científica sobre uma civilização socialista no planeta Marte.

No entanto, devido ao seu conflito com Vladimir Lenine, foi quase totalmente apagado dos registos históricos. Quando Bogdanov era mencionado nos tempos soviéticos, era exclusivamente do ponto de vista leninista. Só recentemente a vida e a obra de Bogdanov passaram a ser objeto de estudo académico. Bogdanov merece ser recordado como uma das figuras mais intrigantes do movimento socialista russo numa época tumultuosa.

Primeiros anos

“Bogdanov” era o pseudónimo de Alexander Alexandrovich Malinovsky, que nasceu na aldeia de Sokółka, na província de Grodno, a 22 de agosto de 1873. A sua infância e juventude foram passadas em Tula, uma cidade perto de Moscovo, onde o seu pai era inspetor escolar. Em 1892, Bogdanov entrou para a Universidade de Moscovo para estudar ciências naturais, especializando-se em biologia, mas dois anos mais tarde foi expulso devido à sua presença numa manifestação de estudantes e banido para a sua cidade natal de Tula.

Sendo um centro industrial, Tula albergava um grande número de trabalhadores, alguns dos quais tinham organizado grupos de estudo. Bogdanov foi convidado por um dos trabalhadores para dar uma aula de economia. Foi a partir desta aula de economia que surgiu a primeira publicação de Bogdanov – o seu Breve Curso de Ciência Económica, publicado em 1894.

Este é, de facto, uma exposição das ideias económicas de Karl Marx, embora tal não seja afirmado explicitamente no livro. A abordagem é histórica, começando com o coletivismo da sociedade primitiva e progredindo através da sociedade de escravos e do feudalismo até à era capitalista. Em edições posteriores do seu livro, Bogdanov acrescentou aperfeiçoamentos inspirados nos seus escritos filosóficos.

Um exemplo importante disto era a conceção de que, à medida que a sociedade progredia, deixava de ser indiferenciada, dividindo-se em dois grupos básicos: os que davam ordens e os que as executavam. Em períodos históricos posteriores, a sociedade dividiu-se ainda mais com o aparecimento de ofícios e profissões, cada um com o seu fundo de experiência particular.

Bogdanov previa que, com o aumento da mecanização da indústria, as máquinas realizariam as operações de rotina, deixando os trabalhadores a desempenhar principalmente funções de supervisão. Desta forma, o trabalhador adquiriria as características de um organizador, bem como de uma pessoa que executava ordens. Consequentemente, a antiga divisão de funções seria superada.

Teorizar no exílio

Apesar de ter sido impedido de retomar os estudos na Universidade de Moscovo, Bogdanov conseguiu obter autorização para estudar medicina na Universidade de Kiev e para se graduar como médico. Por propaganda socialista junto dos trabalhadores, foi preso em novembro de 1899. Após seis meses de prisão em Moscovo, foi exilado primeiro em Kaluga e depois em Vologda, onde passou três anos.

O exílio de Bogdanov em Vologda foi um período importante no seu desenvolvimento intelectual. No processo de debate com outros exilados políticos, em particular com Sergei Berdyaev, formulou algumas das suas ideias mais características. Uma delas foi a conceção do socialismo como um estado de desenvolvimento contínuo, uma visão que incorporou no seu romance de ficção científica Estrela Vermelha.

Estrela Vermelha, publicado em 1908, retratava uma civilização socialista de alta tecnologia em Marte através dos olhos do seu narrador, um cientista e revolucionário russo que é levado ao planeta por um emissário marciano. Inspirou escritores de ficção científica posteriores, tanto na União Soviética como no Ocidente.

Enquanto esteve em Vologda, Bogdanov escreveu também o primeiro dos três volumes da sua principal obra do período, Empiriomonismo. O segundo volume foi publicado durante a revolução de 1905 e o terceiro em 1906.

A formação de Bogdanov como cientista natural e médico reforçou a sua convicção de que a filosofia devia incorporar as duas descobertas científicas mais importantes da época: a teoria da seleção natural e a conservação da energia. Encontrou inspiração nas obras dos escritores que tinham adotado esta abordagem, Richard Avenarius e Ernst Mach.

Bogdanov tomou a Crítica da Experiência Pura de Avenarius como ponto de partida para o desenvolvimento das suas próprias ideias filosóficas. Considerava que uma das lacunas da obra de Avenarius era o facto de abordar a questão do conhecimento do ponto de vista do indivíduo humano e não da sociedade como um todo.

Para Bogdanov, o critério da verdade objetiva era a sua “validade social”. A ideia do coletivo humano era o ponto de vista a partir do qual a validade do conhecimento deveria ser julgada. O corolário deste argumento era que o ponto de vista do indivíduo isolado dava uma visão fragmentada da realidade e gerava todos os tipos de fetichismo, incluindo o fetichismo da mercadoria no sentido do termo de Marx.

Bogdanov e Lenine

O Segundo Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo, com a sua divisão nas fações bolchevique e menchevique, teve lugar enquanto Bogdanov estava no seu exílio em Vologda. No entanto, Bogdanov conseguiu manter-se a par dos acontecimentos através da correspondência com Lenine. Na primavera de 1904, visitou Lenine e a sua mulher em Genebra.

Bogdanov tomou o partido dos bolcheviques porque considerava que os mencheviques estavam errados por terem desrespeitado as resoluções do Congresso. Ele não concordava com a conceção que Lenine tinha avançado no seu panfleto “O que fazer?”, segundo a qual os trabalhadores eram incapazes de chegar ao ideal socialista sem a ajuda da intelligentsia socialista. Para Bogdanov, era a intelligentsia indisciplinada que precisava do contributo de disciplina que os trabalhadores podiam providenciar.

Na altura da visita de Bogdanov, Lenine estava isolado politicamente, tendo os mencheviques ganho o controlo das instituições do partido e do seu jornal, o Iskra. Bogdanov ajudou Lenine a fazer dos bolcheviques uma força política séria, encontrando financiamento para um jornal que Lenine pudesse editar, recrutando os seus contactos para contribuírem com artigos para o jornal e organizando um Terceiro Congresso do Partido, ao qual só compareceram bolcheviques.

No início da revolução, em janeiro de 1905, enquanto Lenine estava em Genebra a editar o jornal Vpered (Avante), Bogdanov estava em São Petersburgo a dirigir a organização bolchevique na Rússia. Embora as circunstâncias exigissem uma liderança centralizada, Bogdanov insistia que esta devia estar sujeita ao controlo democrático dos membros do partido – ou seja, devia haver aquilo a que ele chamava “centralismo democrático”.

Como membro do Comité Executivo do Soviete de São Petersburgo, Bogdanov foi preso em dezembro de 1905 e só saiu da prisão em maio de 1906. A crescente repressão política do regime czarista obrigou Bogdanov e Lenine a deixarem a Rússia em direção à Europa Ocidental no final de 1907.

Entre duas revoluções

No rescaldo da revolução de 1905, surgiram sérias divergências entre Bogdanov e Lenine. Bogdanov acreditava que os fatores que tinham provocado a revolução de 1905 ainda funcionavam e que uma nova vaga revolucionária não tardaria a surgir. Isto significava que os quadros dos trabalhadores deviam ser formados nas escolas do partido em preparação para a futura revolução.

Lenine, por outro lado, defendia que o período revolucionário tinha chegado ao fim. A melhor tática a utilizar agora era o parlamentarismo, tirando partido do parlamento (Duma) que o governo czarista tinha sido forçado a conceder. Bogdanov objetou que a participação na Duma não deveria ser a única tática dos bolcheviques e que a fração da Duma do partido não deveria ser autorizada a agir em desacordo com a política do partido.

Exigiu que fosse feito um ultimato à fração: ou aderiam à política do partido ou seriam retirados da Duma. Lenine, por seu lado, acusou Bogdanov das heresias do “revogacionismo” e “ultimatismo” e de ter criado uma base política na escola do partido que organizou na ilha de Capri.

A fim de minar a posição de Bogdanov como filósofo, Lenine publicou a obra polémica Materialismo e Empirio-Criticismo em 1909. Esta obra não confrontava diretamente as ideias de Bogdanov, mas atacava pensadores que Lenine afirmava terem influenciado Bogdanov, principalmente Mach e Avenarius.

Na sua tentativa de mostrar que Bogdanov era um idealista e não um marxista, Lenine atribuiu a Bogdanov ideias que ele não defendia. Em resposta, Bogdanov publicou o panfleto Fé e Conhecimento, que apontava as distorções de Lenine e também a atitude quase teológica que tanto Lenin quanto Georgii Plekhanov tinham em relação aos escritos de Marx e Friedrich Engels.

Embora Bogdanov se mantivesse firme no debate teórico, Lenine conseguiu derrotá-lo politicamente. Numa reunião especialmente convocada do Centro Bolchevique, em junho de 1909, Lenine e os seus apoiantes expulsaram Bogdanov da fração bolchevique do partido. Embora a ação fosse ilegítima, o esperado congresso do partido em que poderia ser anulada não se concretizou. A partir de então, Bogdanov permaneceu fora de qualquer partido político.

Respondendo à guerra

Aproveitando a amnistia concedida em 1913 para assinalar o 300º aniversário da dinastia Romanov, Bogdanov regressou à Rússia e estabeleceu-se em Moscovo. Quando a guerra rebentou, em 1914, foi mobilizado para o exército como médico júnior. Ficou chocado com o colapso da Segunda Internacional e com a propensão da classe operária para sucumbir à febre da guerra que se abateu sobre os países beligerantes.

Lenine explicou famosamente este fenómeno em termos da presença, no seio do proletariado, de uma “aristocracia” que beneficiava dos lucros do imperialismo. Para Bogdanov, porém, a reação dos trabalhadores à guerra significava que tinham sido esmagados pela força da cultura burguesa. Acreditava que existia uma cultura proletária coletivista em embrião mas que precisava de ser consideravelmente desenvolvida para resistir ao ambiente individualista promovido pela burguesia.

Um tema recorrente nos escritos de Bogdanov é a fragmentação do conhecimento humano provocada pela divisão do trabalho e o surgimento de ofícios e profissões. A sua principal obra é Tectologia, a Ciência Universal da Organização, que iniciou em 1913. Procura ultrapassar esta fragmentação revelando padrões que atravessam as disciplinas e são igualmente aplicáveis a coisas, pessoas e ideias.

Para Bogdanov, exemplos destes padrões eram a “Seleção” e a “Lei dos Menos”. No caso do primeiro, defendia que o princípio da seleção era aplicável não só à biologia mas a todas as esferas da existência, uma vez que todos os sistemas sobreviviam ou pereciam em função da sua relação com o ambiente, de acordo com a sua capacidade ou incapacidade de adaptação.

A Lei dos Menos também tinha uma aplicação universal: em qualquer sistema, o todo dependia do mais fraco dos elementos que o compunham. A força de uma corrente era determinada pelo seu elo mais fraco; uma esquadra só podia navegar tão depressa quanto o seu navio mais lento; uma cadeia lógica de argumentos entraria em colapso se um dos seus elos não pudesse resistir à crítica. Bogdanov via a Tectologia como uma enciclopédia proletária – uma obra que integrava o conhecimento e a experiência de uma forma que uma futura sociedade coletivista necessitaria.

Embora muitos socialistas estivessem otimistas quanto à possibilidade de uma sociedade socialista emergir das economias de guerra centralizadas que foram estabelecidas nos países beligerantes durante a Primeira Guerra Mundial, Bogdanov não partilhava desta opinião. Considerava estas economias como uma forma de “comunismo de guerra” e sintoma de uma economia em declínio.

Revolução Cultural

Quando o regime czarista entrou em colapso, em fevereiro de 1917, ele esperava que isso desse início a uma nova ordem democrática na Rússia. No entanto, viu nos bolcheviques as mesmas características autoritárias que tinham caracterizado o czarismo. A solução, na opinião de Bogdanov, era uma “revolução cultural”, um movimento que, pelo menos, escolarizasse a sociedade russa para a democracia.

Em 1918, Bogdanov recusou um convite para se juntar ao novo governo soviético, considerando-o demasiado autoritário e com falta de “cooperação entre camaradas”. No entanto, em 1921, deu um importante contributo para o sistema soviético ao formular os princípios do planeamento económico soviético.

Bogdanov defendeu que, uma vez que todos os ramos da economia eram interdependentes, deveria ser mantido um equilíbrio entre os vários sectores. Em conformidade com a lei tectológica dos menores, argumentava que o crescimento de uma economia era limitado pela dimensão do mais atrasado dos ramos básicos de produção. Era a estes ramos que devia ser dada prioridade, canalizando para eles os recursos e a força de trabalho. Estes princípios serviram de base ao planeamento económico soviético até Joseph Estaline os ter abandonado em 1929.

Entre 1918 e 1920, a influência de Bogdanov atingiu o seu auge. Os seus escritos eram as obras-padrão sobre teoria socialista e marxista, enquanto o seu romance Estrela Vermelha continha a única visão de uma sociedade socialista que os bolcheviques tinham à sua disposição.

As suas ideias inspiraram o Proletkult, uma organização popular com ramos em toda a república soviética e com uma secção internacional. Em 1920, Lenine conseguiu acabar com a independência da Proletkult, subordinando-a ao Comissariado da Educação. No mesmo ano, lançou uma campanha contra Bogdanov pessoalmente, fazendo com que o seu livro Materialismo e Empiriocriticismo fosse republicado com uma introdução que condenava a Tectologia e outras obras teóricas de Bogdanov.

A campanha anti-Bogdanov culminou com a prisão de Bogdanov pela Administração Política Estatal (GPU) em setembro de 1923. Era suspeito de ter ligações ideológicas com o grupo de oposição Verdade dos Trabalhadores, mas conseguiu convencer Felix Dzerzhinsky, o chefe da GPU, da sua inocência. No total, Bogdanov passou cinco semanas na prisão e considerou-se sortudo por ter escapado com vida. Após este incidente, tornou-se mais difícil para Bogdanov publicar os seus escritos ou dedicar-se a qualquer atividade académica.

O legado de Bogdanov

Estas restrições deixaram Bogdanov com a investigação médica como a sua principal esfera de atividade. Por sugestão sua, o Comissariado Soviético da Saúde criou um Instituto de Hematologia e Transfusão de Sangue em 1926 e nomeou Bogdanov seu diretor. Nessa altura, o processo de transfusão de sangue estava na sua fase inicial e muito sobre as características do sangue permanecia desconhecido.

Para Bogdanov, a transfusão de sangue tinha um significado especial, pois considerava-a uma forma de integração social e tinha-a descrito dessa forma em Estrela Vermelha. Em março de 1928, Bogdanov tentou efetuar uma troca de sangue com um estudante da Universidade de Moscovo, um procedimento habitual no instituto. No entanto, as incompatibilidades entre o sangue de Bogdanov e o do estudante, que não podiam ser previstas na altura, fizeram com que a operação falhasse. Bogdanov sofreu quinze dias de doença dolorosa e morreu a 7 de abril de 1926.

Bogdanov é uma figura notável na história do movimento revolucionário russo e nos primeiros anos do Estado soviético. Como pensador socialista, as suas obras são de interesse permanente. Devido ao facto de ter caído em desgraça com Lenine e de se ter tornado uma pessoa desconhecida a partir de 1920, a sua existência tem sido pouco notada pelos historiadores.

Nos últimos anos, porém, o legado intelectual de Bogdanov começou a ser redescoberto e o seu papel como pioneiro da teoria dos sistemas a ser reconhecido. Mas ainda há muito a fazer para dar a Bogdanov o lugar que ele realmente merece na história moderna da Rússia.

Colaborador

James D. White é professor de História da Rússia e da Europa de Leste na Universidade de Glasgow. Entre as suas obras contam-se Lenine: The Practice and Theory of Revolution e Red Hamlet: The Life and Ideas of Alexander Bogdanov.

26 de junho de 2023

Georgii Plekhanov foi o pai do marxismo russo que não gostava de seus filhos

Georgii Plekhanov fez mais do que ninguém para popularizar as ideias marxistas na Rússia do final do século XIX. Enquanto se desentendeu com os bolcheviques e condenou a revolução de outubro, Plekhanov teve uma enorme influência sobre o desenvolvimento do marxismo soviético.

James D. White

Jacobin

Georgi Valentinovich Plekhanov. (Imagens de Belas Artes / Heritage Images / Getty Images)

Muito pouco foi escrito no Ocidente sobre Georgii Plekhanov, embora ele tenha sido uma figura-chave do movimento socialista russo e internacional, desempenhando os papéis de filósofo, historiador e propagandista do marxismo. Ele também foi um dos fundadores do Partido Trabalhista Social-Democrata Russo, o precursor do Partido Comunista Russo.

Em questões de teoria marxista, Vladimir Lenin o considerava a autoridade máxima. Embora Lênin e Plekhanov acabassem como amargos antagonistas políticos, com o último se opondo fortemente à Revolução de Outubro de 1917, os líderes do novo estado soviético publicaram as obras de Plekhanov sobre a teoria marxista, que eles viam como uma ferramenta educacional vital.

Plekhanov pode ser uma figura amplamente esquecida hoje. No entanto, algumas das visões equivocadas ou polêmicas que ele expressou sobre as ideias de Karl Marx, ou a história do movimento revolucionário da Rússia, ainda moldam nossa compreensão dessas questões hoje.

Terra e Liberdade

Georgii Valentinovich Plekhanov nasceu em 1857 na aldeia de Gudalovka, na província de Tambov, na Rússia central. Sua família pertencia à pequena nobreza latifundiária, sendo seu pai oficial reformado do exército. Sua mãe, que era muito mais jovem que o marido, era uma mulher instruída, e foi dela que Plekhanov recebeu sua educação inicial.

Com a intenção inicial de seguir a profissão de seu pai, Plekhanov estudou na academia militar em Voronezh e na Escola de Artilharia Konstantinovskii em São Petersburgo. Ele decidiu, no entanto, que não foi feito para uma carreira militar. Em 1874, matriculou-se no St Petersburg Mining Institute.

Enquanto era estudante no Instituto de Mineração, Plekhanov entrou em contato pela primeira vez com membros do movimento revolucionário russo e ele próprio começou a fazer propaganda entre os trabalhadores de São Petersburgo. Em dezembro de 1876, Plekhanov organizou e participou da primeira manifestação revolucionária da Rússia, realizada na Catedral de Kazan, em São Petersburgo.

Vários participantes foram presos, mas o próprio Plekhanov escapou e começou sua vida como um revolucionário dedicado. No ano seguinte, ele foi para o exterior, passando vários meses em Paris e Berlim. Em seu retorno à Rússia em 1877, Plekhanov tornou-se um dos principais membros da organização revolucionária Terra e Liberdade.

Os membros da Land and Liberty foram inspirados pelas ideias do pensador anarquista russo Mikhail Bakunin. Eles acreditavam que os camponeses eram inerentemente comunistas, pois viviam em comunidades aldeãs, por isso bastava fazer agitação entre eles para incitá-los na rebelião contra o Estado.

Também de acordo com as ideias de Bakunin, os membros da Terra e Liberdade sustentavam que era inútil engajar-se na atividade política para provocar a revolução social, pois isso era uma distração do propósito essencial da organização. Terra e Liberdade excluiu o uso do terrorismo como forma de ação política, embora o grupo considerasse que poderia ser justificado como uma represália contra as autoridades.

Essa posição começou a mudar em resposta ao fracasso do movimento de "ir ao povo" em induzir os camponeses à rebelião. Havia também uma convicção crescente entre os revolucionários de que o assassinato do czar era necessário como primeiro passo na transformação radical da estrutura social e política da Rússia. Em 1879, a Terra e Liberdade se dividiu, dando origem a duas novas organizações: a Vontade do Povo, que favorecia o uso do terror, e a Repartição Negra, liderada por Plekhanov, que evitava qualquer tipo de ação política - o terror em particular.

Rússia e o marxismo

Em janeiro de 1880, Plekhanov iniciou seu exílio em Genebra com o pequeno grupo de seguidores que constituía a Repartição Negra. O grupo nunca teve a popularidade do Vontade do Povo, especialmente depois que o último grupo organizou o assassinato do czar Alexandre II em 1881.

Em 1883, Plekhanov lançou um novo grupo, a Emancipação do Trabalho, cujo ponto de vista ele elaborou no panfleto O Socialismo e a Luta Política (1883). Ele argumentou que o Vontade do Povo estava certo na questão das táticas políticas, incluindo o terrorismo. Mas foi longe demais na direção oposta e pretendia tomar o poder por conspiração, pelas costas do povo.

Mais importante foi a afirmação de Plekhanov de que a revolução na Rússia não tomaria a forma de uma rebelião camponesa, mas sim uma revolução proletária, conforme imaginado por Karl Marx. Ao apresentar esse argumento, Plekhanov deu as costas à corrente principal do movimento revolucionário russo.

Lev Tikhomirov respondeu ao panfleto de Plekhanov em nome do Vontade do Povo, previsivelmente objetando que a classe social na qual Plekhanov propunha basear a revolução ainda mal existia, o que significava adiar a revolução para um futuro distante. Plekhanov respondeu a Tikhomirov no panfleto Nossas Diferenças (1885), no qual condenou ainda mais a ideologia do Vontade do Povo. Plekhanov afirmou que a comunidade camponesa na qual a organização depositava suas esperanças para o estabelecimento de uma sociedade socialista na Rússia estava em processo de desintegração avançada.

No exílio, a organização Emancipação do Trabalho permaneceu uma pequena seita, isolada do movimento revolucionário na Rússia. Por outro lado, a postura social-democrata de Plekhanov o levou a gravitar em torno dos socialistas da Europa Ocidental. Ele podia contar entre seus conhecidos e correspondentes figuras como Friedrich Engels, Karl Kautsky, Wilhelm Liebknecht, August Bebel e Rosa Luxemburgo.

Plekhanov participou do congresso de fundação da Segunda Internacional em Paris em 1889. Lá ele fez um discurso que terminou com a declaração de que o movimento revolucionário russo triunfaria como movimento proletário ou não triunfaria.

Plekhanov publicou artigos na imprensa socialista alemã, alguns deles criticando as tentativas de Eduard Bernstein de revisar os principais princípios da doutrina marxista. Ao fazer isso, ele aumentou sua reputação como um dos principais teóricos marxistas da Europa.

Faíscas revolucionárias

No início do século XX, os acontecimentos se voltaram a favor de Plekhanov. Após o assassinato do czar, o Vontade do Povo foi quase completamente eliminado. Sob Alexandre III, a indústria desenvolveu-se rapidamente durante as décadas de 1880 e 1890, o que significava que havia agora um número significativo de trabalhadores industriais em vários centros urbanos da Rússia. Em São Petersburgo, Moscou, Vilna e outras cidades, grupos social-democratas de trabalhadores começaram a aparecer a partir do final da década de 1880, alguns dos quais fizeram contato com o Emancipação do Trabalho.

Em 1900, Plekhanov juntou forças com Lenin, Julius Martov e outros para publicar o jornal Iskra (a Centelha). A intenção era servir como um foco reunindo grupos sociais-democratas locais em uma única organização unificada. Desse esforço, surgiu o Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), que em seu segundo congresso em 1903 se dividiu em frações bolcheviques e mencheviques.

No congresso de 1903, Plekhanov apoiou Lenin e os bolcheviques contra a ala menchevique liderada por Martov. Posteriormente, ele mudou de filiação e ficou do lado dos mencheviques. No entanto, a personalidade individualista de Plekhanov fez com que ele nunca se sentisse totalmente à vontade em nenhum agrupamento político, resultando em conflitos com a liderança menchevique.

A revolução russa de 1905 deu a Plekhanov a oportunidade de formular a tática dos social-democratas na situação há muito esperada. Estes acabaram por estar em desacordo com as opiniões dos membros mais radicais do RSDLP.

O raciocínio de Plekhanov era que, como o proletariado era pequeno em número, precisava de aliados. Os camponeses não podiam servir a esse propósito, pois, como sua própria experiência havia mostrado, eles não tinham inclinações revolucionárias. Seguiu-se, portanto, que o melhor aliado para o proletariado seria a burguesia e a intelectualidade liberal.

Plekhanov estava convencido de que, em uma situação revolucionária, esse grupo se revelaria um formidável oponente da autocracia. No evento, a burguesia russa não correspondeu às expectativas de Plekhanov e capitulou ao governo, enquanto o movimento camponês provou ser um elemento importante na revolução.

Nos anos seguintes à revolução de 1905, uma corrente "liquidacionista" apareceu dentro do menchevismo, argumentando que não havia mais necessidade de uma organização partidária clandestina nas novas condições. Plekhanov juntou-se aos bolcheviques para denunciar isso como heresia. Entre 1907 e 1910, ele também cooperou com Lenin em uma campanha contra a corrente da filosofia socialista russa representada por Alexander Bogdanov, que era vista como uma ameaça à ortodoxia marxista.

No entanto, o acordo de Plekhanov com os bolcheviques entrou em colapso após a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Ao contrário da maioria dos membros do POSDR, que consideravam a guerra como uma guerra puramente defensiva ou, como Lenin, desejavam a derrota da Rússia, Plekhanov era um defensor ardente de uma vitória da Entente sobre os alemães.

Ele manteve essa posição mesmo depois de retornar a São Petersburgo em abril de 1917, contribuindo com artigos pró-guerra para o jornal Edinstvo (Unidade). Ele considerou a revolução de outubro de 1917 uma conspiração bolchevique e a condenou imediatamente. Agora com a saúde debilitada, Plekhanov foi transferido da Rússia para a Finlândia e passou os últimos meses de sua vida em um sanatório em Terijoki. Faleceu em 30 de maio de 1918.

Plekhanov e a teoria marxista

As biografias de Plekhanov invariavelmente apresentam sua evolução intelectual inicial como uma transição do "arodismo" (ou populismo) para o marxismo. Na verdade, mesmo no início da carreira revolucionária de Plekhanov, Marx exerceu uma grande influência intelectual sobre ele. Seu primeiro artigo teórico, por exemplo, publicado na revista Terra e Liberdade em 1879, faz referência a várias influências, incluindo Mikhail Bakunin, Auguste Comte e Karl Marx.

É importante notar como os membros da Terra e Liberdade usaram o termo "Narodnik". Eles sustentavam que a função dos revolucionários era lutar para alcançar as aspirações concretas das pessoas comuns. O termo para descrever um revolucionário desse tipo era "Narodnik".

O slogan que Plekhanov considerava a melhor personificação do princípio populista era o seguinte: "a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe trabalhadora". Estas Eram as palavras iniciais da constituição da Associação Internacional dos Trabalhadores e foram escritas pelo próprio Karl Marx.

No panfleto O Socialismo e a Luta Política, Plekhanov enfatiza que não abandonou o princípio Narodnik. Pelo contrário, ele argumenta, é a organização Vontade do Povo que o traiu ao adotar métodos conspiratórios. Em Nossas Diferenças, por outro lado, Plekhanov usa o termo Narodnik de uma maneira bem diferente: ele agora o aplica aos adeptos da Vontade do Povo e afirma que o narodismo é uma doutrina que postula a singularidade do desenvolvimento histórico e econômico da Rússia, enraizada NO eslavofilismo da década de 1840.

Plekhanov executou esse movimento para virar o jogo contra seus oponentes. Naquela época, o grupo Emancipação do Trabalho era uma pequena seita à margem do movimento revolucionário russo, enquanto o Vontade do Povo representava sua corrente principal, o produto de sua evolução histórica até hoje. Ao designar todo o movimento revolucionário russo, além do Emancipação do Trabalho, como Narodnik, Plekhanov poderia criar a impressão de que ele e seu grupo defendiam o socialismo científico de Marx e Engels, enquanto seus oponentes eram adeptos de uma ideologia peculiar com conotações nacionalistas.

Plekhanov escrevia numa época em que poucas obras de Marx, exceto O capital, eram conhecidas. Seu interesse pela filosofia o levou a ser um pioneiro em desenterrar as origens hegelianas do sistema de Marx. Ele foi encorajado nessa direção pela publicação de um livro de memórias de Engels intitulado Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã, sobre o qual escreveu um comentário. Embora o próprio Marx tenha usado extensivamente a terminologia hegeliana na primeira edição de O capital de 1867, ele a eliminou amplamente na segunda edição de 1872 e a expurgou completamente da edição francesa de 1872-75.

Em 1889, Plekhanov fez uso de seu conhecimento da filosofia hegeliana em um ensaio polêmico contra Tikhomirov, que havia argumentado que a mudança social ocorria gradualmente. Em resposta, Plekhanov afirmou que a filosofia de Hegel ensinava que o desenvolvimento ocorria em "saltos", que Plekhanov considerava ser a essência da dialética.

No artigo "Pelo 60º aniversário da morte de Hegel", publicado em alemão em 1891, Plekhanov usou pela primeira vez o uso do termo "materialismo dialético" - que nem Marx nem Engels jamais usaram - para caracterizar o método filosófico de Marx. Ele elaborou o termo em seu livro Sobre a Questão do Desenvolvimento de uma Visão Monista da História, no qual argumentou que o "materialismo dialético" era uma síntese da filosofia clássica alemã e do materialismo francês do século XVIII.

A última grande obra de Plekhanov foi sua História do Pensamento Social Russo, iniciada em 1909. O primeiro volume, publicado em 1914, continha um esboço da história russa que tentava explicar o governo autocrático da Rússia e sua tendência de expandir seu território pela colonização. A obra, no entanto, permaneceu inacabada com a morte de Plekhanov.

Legado

Embora Plekhanov tivesse pouca influência como político na época de sua morte, ele ainda inspirava respeito como teórico marxista, e Lenin recomendou que seus escritos fossem cuidadosamente estudados. Suas obras completas, editadas por David Riazanov, foram publicadas entre 1923 e 1927 em vinte e quatro volumes.

Até 1924, quando o culto a Lênin se tornou generalizado, Plekhanov era considerado a autoridade máxima em teoria marxista. Na era de Stalin, Plekhanov foi denunciado como menchevique e oponente de Lenin. Após a morte de Stalin, no entanto, ele foi reabilitado e suas obras filosóficas foram republicadas. Hoje, na Rússia, Plekhanov é considerado um pioneiro do pensamento marxista no país.

No entanto, Plekhanov não é um guia confiável para as ideias de Marx. Todos os escritos marxistas de Plekhanov são polêmicos e visam provar que seu adversário político está errado. Sua abordagem dos textos marxistas é puramente utilitária, o que não impede que sejam alterados, se for adequado a seu propósito.

A cunhagem de Plekhanov do termo "materialismo dialético" é baseada em um equívoco sobre a evolução intelectual de Marx, e sua ideia de que a essência da "dialética" consiste em "saltos" da quantidade para a qualidade mostra um mal-entendido do sistema de Hegel. No entanto, a cunhagem de Plekhanov passou a ser de uso geral, e sua versão da história intelectual russa com sua corrente "Narodnik" foi amplamente aceita. Sua influência se estendeu muito além dos tempos em que viveu.

Colaborador

James D. White é professor de história da Rússia e do Leste Europeu na Universidade de Glasgow. Seus trabalhos incluem Lenin: The Practice and Theory of Revolution e Red Hamlet: The Life and Ideas of Alexander Bogdanov.

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